28/03/19

Characters for an epic tale, Tom Gauld


Do magnífico Tom Gauld

Moda: Tommy Hilfiger, Zendaya, e a Batalha de Versailles




"A colecção de primavera da cantora e actriz Zendaya e Tommy Hilfiger está aqui e somente fora das lojas Tommy Hilfiger.", lia eu, no site da Nordstrom. A colecção combina a herança formal de Tommy com o estilo polido da estrela, dizem ainda. (Zendaya, a nova embaixadora feminina da marca, é a menina que aparece ao lado do Homem Aranha no novo filme que vai estrear em Julho: Spider Man: Far from home. )

De vez em quando, espreito a Nordstrom, e o padrão deste blazer em stretch satinado captou a minha atenção. O mais curioso foi encontrar nos detalhes da ficha do blazer Tommy Hilfiger + Zendaya, que é Made in Portugal. E esta, hein?

A colecção dá-nos ternos, saias de cintura alta apertadas com cintos de tamanho grande, blusas de malha com listras alternadas, calças xadrez com bainha descida, que nos remetem de imediato para o look dos anos 70, mas com um toque de franca actualidade. Redefinindo o poder do vestir, Tommy Hilfiger e Zendaya uniram forças para criar uma coleção de que celebra a inclusão, a individualidade e o empoderamento. É o que se lê. Vejam. Há mais peças com o atraente padrão: um simples lenço por 88 euros com o padrão Zodiac para adicionar um divertido toque de cor à sua roupa! Sem dúvida!


Ah, Belinha, já tardavas. Então é agora que o teu blogue se vai converter aos temas da beleza, moda, do estilo e do lifestyle? Não, nem por isso. Mas ao ler que os designers da colecção encontraram inspiração num célebre desfile dos anos 70, que a imprensa logo apelidou de "Batalha de Versalhes", não resisti a escrever umas linhas sobre o mesmo, ainda que seja um assunto bem conhecido.

A "batalha de Versailles" foi um desfile épico, uma espécie de batalha cultural travada em Novembro, na França, no ano de 1973. O show de moda foi originalmente organizado como um golpe de publicidade para dar visibilidade à moda americana, uma eterna aprendiza da moda francesa. Angariar dinheiro para restaurar o palácio do rei Luís XIV, o grandioso Palácio de Versalhes, de arquitetura barroca francesa,  esteve na origem do evento. A  "mãe" da Fashion Week, da International Best Dress List, a americana Eleanor Lambert, uma interessante e influente publicitária da moda, deu então a ideia: seria organizado um jantar  e um desfile moda, com curadoria de Gerald Van der Kemp. Cinco estilistas de cada país formaram as equipas. A luta começou, primeiro nos respectivos países, com tesouras e agulha e linhas, mas seria decidida sobre o palco, num corpo a corpo de todos os envolvidos com a moda.

O desafio colocou os antigos mestres do design francês contra uma equipa de ousados estilistas americanos, incluindo Halston, Anne Klein, Bill Blass, Stephen Burrows e Oscar de la Renta. Os designers franceses, Christian Dior, Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin e Emanuel Ungaro, estavam certos da vitória, apoiados por um orçamento maior, no glamour e longa tradição. Made in France era uma etiqueta de requinte que garantia tudo o que de melhor existia no mundo da moda. Paris era o berço da alta costura, ali nasciam as tendências que o mundo inteiro depois reproduzia. 

O teatro de Versailles era esplenderoso. Aquando da sua construção, a sala rapidamente se tornou um dos mais belos salões da Europa. As  decorações em dourado, falso mármore, e tromp d'oeil,  e a sua arquitectura criam uma harmonia deslumbrante. Dos tectos pintados suspendem-se lustres. Os americanos devem ter adorado esta beleza artística do velho continente. Diante de uma plateia de 800 pessoas repleta de realeza e celebridades envergando as suas melhores jóias e vestidos - por exemplo, a duquesa de Windsor, Paloma Picasso, Princesa Grace, Andy Warhol, e Christina Onassis, - a moda tomou de assalto o palco histórico. A batalha era afinal entre o velho e o novo, entre estilistas, entre países e até continentes.  Lisa Minelli apresentou-se cantando "Bonjour, Paris", ao jeito da Broadway, e encerrando o show com uma prestação memorável. Além dela, também Josephine Baker, expatriada na Europa, cantou naquele evento, adornada por plumas e com um bodysuit transparente e cintilante. E Rudolph Nuryev também dançou.  As criações francesas mantiveram-se nos limites da alta-costura, onde sempre tinham sido reis e senhores. Já os americanos apresentaram modelos na linha do pronto-a-vestir , inspirados pelos tempos de rápida mudança, de revolução e liberdade da moderna mulher americana, a cada dia mais interventiva na sociedade.
O show francês. (Print screen Versailles 73)
Os franceses tinham apostado fortemente na cenografia, que incluía carruagens puxadas por um rinoceronte  inspirado no de Albrecht Dürer, Sputnicks a levantarem do palco, chamaram actores, bailarinos, acompanhado por uma orquestra, ao longo de duas horas e meia. Era tudo muito elaborado, pretensioso, e, no meio de tanto para ver, as criações de moda foram apenas mais um detalhe. Ao tempo, os desfiles de moda aconteciam em silêncio,  as modelos entravam numa sala empunhando um número, que as pessoas presentes anotavam para depois encomendar a respectiva criação. Tudo isto que agora se via era uma extravagância, que uns adoraram, mas que outros acharam risível. De facto, o factor decisivo da batalha nem seriam tanto as criações mas a forma como as criações foram apresentadas.

A batalha começou até mal para os estilistas americanos, que travaram guerrinhas de protagonismo entre si, além de enfrentarem aborrecimentos técnicos que levaram a erupções emocionais próprias de grandes artistas. Uma, o pouco tempo que tiveram para ensaiar, outra, o seu cenário, calculado em polegadas, não se ajustava agora ao espaço pois tinha sido construído em cm! Então removeram o cenário. As modelos teriam de desfilar num palco completamente despido. A música funk, poderosa, que encheu o ar, fez realçar a presença das belas mulheres, a sua atitude ganhadora, e fez brilhar as diversas propostas plenas de novidade que os franceses nunca tinham visto, algumas  inspiradas por África ou  pelo Jazz; noutros casos foi a ousadia de meras fantasias que não seriam sequer usáveis que conquistou o público: modelos desfilaram em topless com os seios cobertos por um leque de plumas. A audiência delirou e manifestou-se efusivamente, atirando os programas dourados no ar, pateando, batendo palmas e gritando Bravo! Os americanos tinham vencido os "franciús".

No grupo ganharam destaque as dez modelos afro-americanas. O pagamento oferecido tinha sido considerado  magro para  uma semana de trabalho em Paris e algumas modelos recusaram o convite. Outras, porém, teriam ido até de borla, pela simples possibilidade de pisarem o mítico solo francês. Bethann Hardison, Pat Cleveland, Alva Chinn, Billie Blair, Norma Jean Darden, Barbara Jackson, Jennifer Brice, Romana Saunders and Amina Warsuma: nenhuma teria adivinhado ao embarcar o desfecho de tal empresa. 

A batalha de Versailles mudou a indústria da moda e influenciou a cultura pop. Doravante a criação de moda deixaria de ser um exclusivo francês: o mundo abriria os braços aos estilistas americanos, à moda casual, ao pronto a vestir, que era sinónimo de liberdade em todos os sentidos, até contra os opressivos preços da alta costura. E as modelos afro-americanas ganharam visibilidade e futuro.

O show americano (Print screan Versailles 73)
Existe um interessante documentário de 2012- Versailles 73: American Runaway Revolution - da realizadora Deborah Riley Draper, que conseguiu reunir fotografias e filmagens raras, e histórias para construir a narrativa da emocionante noite em Paris que fez história no mundo da moda. O trailer pode ser visto no YT.


Ava DuVernay, realizadora sobretudo aclamada pelo filme, Selma,  e a HBO, têm em mãos um projecto para a realização de um filme sobre este acontecimento do mundo da moda, Batlle of Versailles, cujo foco se deslocará, certamente, para a importância da presença de modelos afro-americanos na passerele e do seu impacto na indústria. Seguirá o livro de Robin Ghivan - Battle of Versailles:The Night American Fashion Stumbled into the Spotlight and Made History. Jornalista e crítica de moda, Ghivan ganhou o prémio Pulitzer pelo seu trabalho nesta área.


A M2M também produziu um documentário, já de 2012,  - Battle At Versailles: The Competition that Shook the Fashion Industry sobre o desfile. Foi realizado por Fritz Mitchel, e nele estão reunidos depoimentos das participantes, além de se relatar o desenrolar dos acontecimentos deste singular desfile  de moda de forma concisa e vibrante.


Outras sugestões:
Tommy Hilfiger celebra a diversidade em Paris - desfile no teatro dos Campos Elísios - video
Grace Jones at 71 dancing on the catwalk - video
Tommy Hilfiger - Instagram
Tommy Hilfiger: o desfile Outono/Inverno - fotos


Internet star: o homem em Speedos pretos


Uma esbelta mulher posava para uma fotografia em biquíni. 
Mas o homem que sai do mar em Speedos pretos somos todos nós.

26/03/19

Turismo nuclear: vamos todos de viagem a Chernobyl?

Publicidade que apareceu no meu Facebook: "Traga 3 amigos e visite Chernobyl de graça."

Em Abril próximo serão decorridos 33 anos sobre o dia em que o reactor 4 de Chernobyl explodiu e ardeu por dez dias. De vez em quando sou aliciada no Facebook por publicidade de uma empresa de excursões da Ucrânia, a Chernobylwel, que faz tours diversas a Chernobyl e à Zona de Exclusão. Pensava até que fosse a única mas existem outras, por exemplo, a Chernobyl Tour ou a Tourkiev.  Lembrando-me bem de como Mikhail Gorbachev comunicou o desastre nuclear mais sério até então, e desconhecendo a existência da oferta deste "turismo nuclear", fiquei incrédula. Seria seguro ir? Mas quem é que em seu juízo perfeito poderia ter interesse em visitar um local tão carregado de medo, dor e sofrimento? E, além da radioactividade, não poderiam os edifícios colapsar a qualquer momento e cair-nos em cima?

As tours a Chernobyl oferecem uma visita por memoriais a cidades e vilas mortas, e a edifícios abandonados de Pripyat - uma piscina, um hospital, uma escola, um jardim de infância, uma delegacia de polícia e um parque de diversões, - cujas fotos abundantes na internet evidenciam a pilhagem subsequente ao desastre por ladrões sem medo que terão espalhado por toda Rússia  objectos contaminados! Inicialmente dissuadidos pela presença das operações de descontaminação e patrulha do exército, com o relaxe deste ou sua saída, encontraram o caminho livre. Mas há quem afirme que o próprio exército e polícia contribuiram. As ruas estão desertas: automóveis, veículos militares e outra maquinaria usada nas limpezas, tudo foi desmantelado e enterrado ou colocado em cemitérios de sucata, que aparentam também evidência de pilhagem. A estação de radar militar secreta, Duga 3, que todos ali acreditavam ser um campo de escuteiros, e era afinal o local onde fora erigido o Duga 3 ou "Pica-pau russo", uma antena que se tornou um símbolo da guerra fria, dantes ultra-secreto, agora está à mercê do olhar do visitante. Os guias explicam ainda os meandros da propaganda comunista e seus artefactos - edifícios, sinais, slogans e técnica militar. Prometem uma experiência da atmosfera comunista única, a hipótese de dirigir uma UAZ ou Lada e fazer fotos em uniformes comunistas ou treino em tiro com AK47! Outros fazem subir drones em Pripyat e os visitantes, com equipamento especial, um visor, observam a filmagem no momento. Outras tours oferecem a visita a vilas mais afastadas e a hipótese de conhecer os "retornados", ou "samosley", o seu modesto viver. As excursões privadas podem mostrar em maior pormenor Chernobyl, incluindo a sala de controle e o bunker subterrâneo. É ainda possível alimentar peixes-gatos gigantes em piscinas radiocactivas e  jantar na cantina da central. E até cursos de sobrevivência à radiação são oferecidos e e possível comprar um souvenir num quiosque.

As viagens a Chernobyl foram notícia em 2004 mas creio que se tornaram mais populares a partir de 2012, ano em que o sarcófago foi recoberto por uma nova estrutura de protecção que se espera garantir a segurança do mundo por mais 100 anos. Em 2018 essas obras de confinamento chegaram ao fim mas a limpeza total só estará concluida em 2065. Os comentários muito favoráveis dos visitantes nos sites da especialidade surpreenderam-me. Nenhum dizia que se estava a transformar num mutante e a desenvolver poderes extra! Quem os lesse diria até que tinham visitado Roma ou qualquer outra cidade impactante por sua monumentalidade ou cultura:  "É emocionante estar num local tão repleto de história! Uma experiência de vida!" ou  "Um ambiente de tirar o fôlego. Tenho certeza que você não vai se arrepender de ter viajado até aqui por um segundo. "ou "É impossível descrever este lugar, precisa ser sentido." ou ainda, " (...) embora seja um ótimo lugar para visitar, deve notar-se que muitas pessoas perderam suas vidas nesta tragédia e muitas outras tiveram suas vidas viradas do avesso ao serem evacuadas de Pripyat, nunca devemos esquecer o sofrimento das pessoas." Os visitantes são guiados por gente competente, que sabe entreter e informar sobre o local. Muitos viajantes dizem querer voltar! Pergunto-me é se os habitantes das cidades próximas por onde passam de mochila e em grupo gostarão deste corropio de carrinhas. O que pensarão destes turistas maioritariamente estrangeiros que estão ali para remexer aquela ferida, que, embora selada à superfície, continua e continuará a doer no coração de muitos russos?

Na altura do acidente, a radiação em Pripyat chegou aos 500 000 microsieverts. Hoje os valores rondam os 0,62 microsieverts por hora, o dobro da radiação habitual numa cidade como Londres. Mas existem zonas onde a radiação é muito forte e onde uma estadia prolongada e descuidada pode acarretar perigo. Observadas as regras e as instruções dos guias,  li nos sites de viagens que a exposição a radiação numa viagem de 10 horas na Zona é equivalente à de um voo transatlântico. Um organismo saudável possui, inclusivamente, mecanismos para lidar satisfatoriamente com a radiação, isto é, dentro de certos níveis a que, aliás, estamos expostos desde o nascimento. No entanto, visitar Chernobyl não é bem a mesma coisa que ir visitar a cidade destruida de Pompeia. Há indicações para levar roupa que cubra a maior parte do corpo, calçado com solas robustas. Nem pensar em pousar qualquer mochila ou equipamento no chão, ou sentar-se aí, ou tocar em edifícios e objectos, carrega-los consigo, tocar em plantas, comer bagas! À saída da visita as pessoas passam por um scanner para detectar radioactividade. Se estiver contaminada tem de ficar em quarentena; objectos contaminados são confiscados para descontaminação. Também aconselham a adquirir um dosímetro para medir a exposição à radiação. Ir a Chernobyl sem um é o mesmo que ir ao S. João do Porto sem um martelinho! Perante tudo isto, é óbvio que prefiro ir  a Viena de Áustria comer uma fatia de sachertorte. Ou então jogar dez horas de S.T.A.L.K.E.R. Shadow of Chernobyl! Na minha memória a imagem de uma floresta de pinheiros, em torno do reactor, que se tornou vermelha e depois morreu, continua viva. Para mim, ficou para sempre como o símbolo de Chernobyl. E o colapso de Chernobyl ficaria na História como símbolo da decadência da União Soviética.
"Uma experiência  reveladora do mundo pós-apocalíptico"

Se os turistas, essa particular forma de vida, se têm multiplicado em Chernobyl, há muito que existem relatos de que aumentou a população de animais selvagens na área. Embora ainda seja incerto até que ponto afectados pela radiação, havendo casos de mutações verificadas em aves e insectos. Mas manadas de cavalos selvagens, lobos, javalis, texugos, raposas, guaxinins, cavalos e pássaros abundam! A conclusão muito pouco científica que tiro: o homem mata bem mais do que a radiação! Na minha imaginação pouco rigorosa, depois do acidente, Chernobyl não seria mais do que um parque de edifícios a serem engolidos pela vegetação e um silêncio de morte. Mas os pássaros foram os primeiros a regressar- se é que alguma vez acataram a ordem de evacuação -  enchendo o ar de som. Muitas das aves cegaram e morreram aquando do desastre. Pessoas sempre continuaram a trabalhar ali até hoje. Também houve gente que, à semelhança das aves, regressou e ainda vive ali, na zona perigosa, como Ivan Semenyuk, que permanece dentro dos 30 km proibidos. No dia seguinte à explosão as autoridades explicavam que não se passava nada e distribuíram vodka para ajudar a lidar com a radioactividade! Passados dez dias, voltaram para os obrigar a sair. Ele partiu com a família para Kiev, mas pouco depois regressou: ali era a sua casa. (Ver texto integral abaixo)

Os samosely, (retornados, em Ucraniano), são as pessoas que foram retiradas de suas casas na zona de Chernobyl, mas que, por sua conta e risco, violando a contenção e enganando os guardas, retornaram às suas aldeias e lugares nativos. Vivem além da zona de dez quilómetros (marca da zona de exclusão inicial, depois alargada) mais contaminada em torno do reactor nuclear. Em média, há cerca de dez retornados em cada aldeia povoada. Vivem isolados, sobrevivendo à invernia de muitos graus negativos, em risco, até pela sua idade, em franca comunicação com a Natureza, cultivando hortas, engordando criação, queimando lenha para se aquecerem, e tratando os seus animais domésticos como membros da família, como milhares de gerações de seus antepassados, e também agora transformados em atracção para os visitantes.

Existem relatos comoventes de pessoas que estão a escolher habitar na orla da zona proibida por ser a área mais barata da Ucrânia e um lugar de paz, por comparação àquele de onde vieram. Maryna Kovalenko, tem duas filhas. Vivem a 30km da Zona de Exclusão, numa casa em ruínas. Têm uma horta e criam animais para subsistência. A água vem de um poço e tem de ser fervida. A escola fica a 5km. Fugiram da zona este da Ucrânia para escapar às balas entre pró-separatistas russos e militares ucranianos. Uma vez as meninas foram apanhadas no fogo a caminho de casa, vindas da escola. Maryna ponderou os riscos da radiação: "Radiation may kill us slowly, but it doesn't shoot or bomb us," says Maryna. "It's better to live with radiation than with war". A radiação pode matar-nos lentamente, mas não atira em nós nem nos bombardeia.", diz Maryna." É melhor viver com radiação do que com a guerra. " (Texto integral, em inglês, nas sugestões de leitura.)

A central nuclear fica a 15 km da cidade de Chernobyl -onde ainda hoje vivem trabalhadores da central, - no norte da Ucrânia, a 16km da fronteira com a Bielorrússia e a 110km da capital da Ucrânia, Kiev.  Na era soviética chamava-se  Central Lenine. Foi construida  junto ao rio Pripyat. Ao lado cresceu uma cidade, Pripyat, para alojar 50,000 trabalhadores da central, staff, familiares, etc. Era, portanto, uma cidade nova, os habitantes orgulhavam-se de haver roseiras por todo o lado, e da central reputada como das melhores até então construidas. Seria uma das mais potentes, se o desastre não tivesse inviabilizado a finalização do projecto. 

Na madrugada do dia 26 de Abril de 1986, um dia quente e primaveril, uma explosão - inicialmente apontada a erro humano grosseiro, mas que depois revelou ter outras causas, por exemplo, o design do reactor - num reactor e incêndios na central nuclear, causaram uma libertação radioativa descontrolada sem precedente na história da indústria nuclear civil. Uma explosão de vapor deixou o núcleo exposto, combustível nuclear foi vaporizado para os céus, grafite radioactiva espalhou-se em redor. O impacto foi o equivalente a dez bombas de Hiroxima, pelo menos.  Num raio de 100km a partir do reactor a contaminação foi muito elevada. Ao longo de uma dezena de dias as pessoas em geral foram expostas aos isótopos radioactivos. O iodo radioativo I-131 foi o principal contribuinte para afecções da tiróide, recebido principalmente através de irradiação interna dentro de algumas semanas após o acidente, enquanto que o 137Cs foi, e ainda é, porque continuaria activo por décadas, embora em baixas doses, o principal contribuinte para afecções outros órgãos e tecidos. Grandes quantidades de iodo radioativo e césio depositaram-se por perto, ou foram transportados por correntes de vento sobre a Federação Russa e Ucrânia e sobre partes da Europa. Foi a Bielorrússia que suportou os principais efeitos do maior desastre tecnológico do Século XX.Um território de 150,000 km2 onde residiam 5 milhões de pessoas foi contaminado com césio.
A vida em Pripyat, 26 de Abril de 1986
No dia fatídico, apesar dos habitantes sentirem um gosto estranho na boca, metálico, e de haver técnicos na rua a medir a radioactividade, as mães empurravam carros de bebé, crianças brincavam na rua, outras estavam na escola. Realizaram-se casamentos. Mas as estradas foram cortadas para que ninguém passasse e informasse o exterior. Imagens desta normalidade podem ser vistas em video (Ver abaixo): o original está num Museu da Ucrânia, notando-se o filme corroído pela radiação. Ao princípio da noite havia muita gente nas varandas a observar um estranho brilho nos ceús com origem no reactor. A notícia do desastre corria de boca em boca mas não a dimensão da sua gravidade. Os líderes políticos ainda pensavam que podiam esconder o sucedido mas os cientistas acabaram por fazê-los perceber a gravidade e a ordem de evacuação "temporária" foi dada a meio da manhã de Domingo, sem indicação do perigo real para evitar alarmismo. 1000 autocarros chegariam a Pripyat, a partir de Kiev, e mais vindos de toda a Ucrânia. A fila da evacuação chegou aos 120km. Ordeiramente, as pessoas deixaram tudo e foram distribuídas por cidades e vilas ainda próximo e algumas, após novos dados sobre a contaminação, relocalizadas dias depois. Outras, insatisfeitas e apreensivas, foram a pé, para mais longe, mulheres, crianças, sem nada mais do que uma mala de mão com alguns pertences. No total, 360.000 mil (135.000 inicialmente) pessoas terão sido evacuadas. A deslocalização foi, só por si, dramática. A isso somaram-se os impactos no ambiente e na saúde física e mental da população de vários países, na economia, muito dificilmente contabilizáveis.

Os homens da central fizeram o que podiam para conter o desastre impossível. Os bombeiros que atacaram os fogos, vindos de Pripyat e de Chernobyl, rapidamente ficaram doentes e ao serem hospitalizados em Pripyat contaminavam os médicos com a radioactividade dos seus corpos. O mesmo acontecia com os condutores de ambulâncias. Não usavam máscaras nem roupa adequada: trabalharam em mangas de camisa. Ficavam até sentirem um gosto metálico na boca, era o sabor da radiação. Os pacientes mais severamente afectados, pessoal da central  e socorristas, mais tarde seriam transferidos para Moscovo, para morrer em condições horrendas, os corpos inchados e engolidos pela dor, sangue a ser expelido por todos os orifícios, a pele a cair aos bocados, que ficava preta, os orgãos internos liquefeitos, que eram expelidos em pequenos pedaços pela boca. Muitos foram assistidos por militares, já que o pessoal de enfermagem se recusava a aproximar. Foram a enterrar em urnas de zinco seladas, debaixo de lajes de cimento.100,000 pessoas foram atendidas nos cuidados de saúde nos dias seguintes à explosão. Só a 28 o mundo descobriu o sucedido: numa central nuclear na Suécia foram detectados valores elevados de radiação e  julgou-se que tinha começado uma guerra ou que havia uma fuga na própria central. Depois a Finlândia e a Noruega também obtiveram registos de leituras anormais. A radiação chegou aos EUA e Canadá: Chernobyl tornara-se um problema do mundo inteiro. A 1 de Maio a população de Kiev festejou na rua o feriado ignorantes dos níveis elevadíssimos de radiação. Moscovo cedeu no silêncio apenas a 14 de Maio.

Dos 600 trabalhadores que estavam no local, 134 desenvolveram a doença da radioactividade na sua forma aguda. 600,000 pessoas receberam certificados como "likvidátors" ou "liquidadores", ou seja, pessoal afecto às operações de contenção e minimização de riscos. Eram, na sua maioria, militares, muitos na reserva, mas também polícias, operários, mineiros, universitários, especialistas em engenharia e física nuclear, e civis, que tiveram de prover à descontaminação do bloco do reactor, local e estradas circundantes. De entre as suas tarefas, também o abate de todos os animais, os cães e  gatos que tinham ficado para trás,  a descontaminação de fachadas e  a remoção e substituição de solos. Também o abate de toda a "floresta vermelha" que foi enterrada. Deitar-lhe o fogo não era solução pois o fumo libertaria mais radioactividade. E ainda a construção do sarcófago. As operações foram concluidas em 1990. O total de mortes da tragédia é extremamente controverso. Mais de três décadas depois do acidente, o balanço de vítimas continua a ser alvo de polémica.

Quando a tragédia se abate sobre a humanidade, o heroismo vem subtrair-nos da nossa  costumeira mediania. As histórias de valentia e abnegação de muitos homens e mulheres que acorreram  a Chernobly inspiram-nos respeito e comoção até hoje. Por exemplo, os pilotos dos 80 helicópteros que sobrevoaram vezes sem conta o reactor a baixa altura, por entre calor e radiação infernais para lançarem sacos de areia e argila com chumbo e boro. Foram mais de 4.000 voos. Quando no dia seguinte voltavam aos seus helicóteros, a relva no chão, à volta, tinha-se tornado amarela. Nas limpezas de detritos, em ambiente radioativo tão inóspito onde nem as máquinas conseguiam trabalhar, avançaram os homens, sem equipamentos à prova de fogo, máscaras, luvas ou botas especiais que os protegessem da radiação, que ganharam assim o nome de bio-robots. Embora louvados pelos soviéticos e o mundo inteiro,  foram praticamente ignorados a partir da queda da URSS, e os sobreviventes ainda hoje  reinvindicam assistência médica e social, continuamente, não poupando críticas ao governo ucrâniano. Com o decurso do tempo, zonas que tinham o selo de "evacuadas" passaram a "zona habitável" e quando isso acontece os residentes perdem benefícios. Assim foi em Julho de 2016. Das 4.413 localidades russas afectadas pelo acidente de Chernobyl, 383 viram as suas subvenções diminuírem por cortes orçamentais ou então desaparecerem. Pacientes com doenças causadas ou agravadas por radiação, deixaram de poder pagar os seus medicamentos.

Quando o governo da Ucrânia autorizou a actividade turística em Chernobyl, em 2011, além da evidente fonte de receita que ali se esperava vir a gerar, o objectivo foi também manter vivo o interesse do mundo por Chernobyl já que para a manutenção da segurança do reactor era necessário dinheiro que o governo ucrâniano não possuia. A presença de turistas contribuía também para a desmistificação do perigo da radiação e do nuclear que nem a passagem do tempo amenizou na cabeça de muitos, e, possivelmente, são estes os que estão certos. Saberemos efectivamente o suficiente sobre o impacto da radioactividade sobre o ambiente e  o corpo humano? O  público em geral, a população que viveu o desastre, os seus descendentes, não estão preparados para acreditar ainda nos dados mais tranquiilizadores da ciência, exceptuando os temerários turistas de países mais longínquos, que não param de agendar e recomendar uma viagem a Chernobyl. A área fortemente contaminada tenderá, ao longo do tempo, a ser menor, pois a radiação decai. Mas li que só dentro de 20,000 anos é que Pripyat poderá ser novamente habitável. Já o interior do reactor, com a sua sinistra e letal "Pata de elefante", massa composta de "corium", uma mistura de combustível nuclear radioativo, metal derretido oriundo de equipamentos e de outros elementos associados ao combustível, manter-se-á radiocativo por mais 100,000 anos. Só se estivesse desesperada é que iria viver para as proximidades de um tal lugar. Infelizmente, muitos, estão.
O imprescindível contador Geiger
O acidente suscitou importantes discussões políticas sobre o uso da energia nuclear e políticas energéticas nacionais e evidenciou a necessidade de coordenação e cooperação internacionais quando se perspectivem perigos para o ambiente. Na sequência, a  ONU desenvolveu acordos internacionais e medidas diversas para emergências nucleares.  Chernobyl levou a comunidade científica a debruçar-se a fundo sobre os impactos da energia nuclear e deu base, pelo menos em teoria, para que os países que exploram (ainda) o nuclear se pudessem preparar melhor para a possibilidade de um acidente nuclear. A muitos deu um argumento para pressionar a busca e opção por fontes energéticas alternativas, menos misteriosas e com menor risco para o planeta e a espécie humana. E cimentou na minha geração o total horror e desconfiança em relação à energia nuclear, que a estreia do filme The Day After, em 2003, sobre um conflito nuclear e sorte dos sobreviventes, já havia despertado anos antes. O acidente nuclear de 2013, em Fukushima, reacendeu uma preocupação que entretanto parecia tão enterrada sob cimento e chumbo quanto o reactor4. 

Compreendo que a transfiguração da paisagem natural e construida em consequência do desastre, passagem do tempo e acção dos elementos, possa exercer um certo atractivo, um pouco mórbido, é certo, e promover até um forte convite ao conhecimento de como e o que aconteceu ali, e à reflexão acerca do necessário equilíbrio entre ciência, tecnologia e a ambição humana, e do lugar que ocupamos no planeta, válida hoje e no futuro. Por isso, visitar Chernobyl poderá ser útil, para não esquecer e perpetuar lições aprendidas, sabendo que um dia, Prypiat será demolida e desaparecerá. Mesmo assim, causa-me uma certa repulsa a ideia de Chernobyl estar a ser transformada num quase parque temático onde Youtubers possam gravar videos em frente ao Luna Park, envergando uma tshirt com a roda mais sinistra do planeta Terra e comprar brincos com os símbolos da radioactividade, afinal relativizando esta, encarada como algo com que até se pode conviver e brincar. Chernobyl, não, obrigada. Prefiro ir a Viena de Áustria comer uma fatia de sachertorte. E vocês? 

Sugestões de leitura:




O livro Vozes de Chernobyl pode ser adquirido online, na WOOK. Svetlana Alexievich, Nobel da Literatura em 2015, jornalista, é a autora deste livro publicado em língua russa originalmente em 1997, após uma década de investigação no local em que Svetlana ouviu mais de 500 pessoas: os habitantes das aldeias em torno de Chernobyl, os bombeiros que acudiram ao local, os soldados e os sobreviventes, os familiares e amigos daqueles que morreram.  Desses depoimentos, mais de 100 estão neste livro.




O livro Manual for survival: a Chernobyl guide to the future, de Kate Brown, pode ser adquirido online, na WOOK.

Synopsis. The official death toll of the 1986 Chernobyl accident, 'the worst nuclear disaster in history', is only 54, and stories today commonly suggest that nature is thriving there. Yet award-winning historian Kate Brown uncovers a much more disturbing story, one in which radioactive isotopes caused hundreds of thousands of casualties, and the magnitude of this human and ecological catastrophe has been actively suppressed.

Based on a decade of archival and on-the-ground research, Manual for Survival is a gripping account of the consequences of nuclear radiation in the wake of Chernobyl - and the plot to cover it up. As Brown discovers, Soviet scientists, bureaucrats, and civilians documented staggering increases in cases of birth defects, child mortality, cancers and a multitude of life-altering diseases years after the disaster.

Worried that this evidence would blow the lid on the effects of massive radiation release from weapons-testing during the Cold War, scientists and diplomats from international organizations, including the UN, tried to bury or discredit it. Yet Brown also encounters many everyday heroes, often women, who fought to bring attention to the ballooning health catastrophe, and adapt to life in a post-nuclear landscape, where dangerously radioactive radioactive berries, distorted trees and birth defects still persist today.

An astonishing historical detective story, Manual for Survival makes clear the irreversible impact of nuclear energy on every living thing, not just from Chernobyl, but from eight decades of radiaoactive fallout from weapons development.


Exposição de fotografia online: Reactor4.be, by Thierry Buysse

Chernobyl: onde vivem fantasmas e floresce o turismo, por Viana Maia

The Chernobyl story by Andrew Leatherbarrowa

Chernobyl, Pripyat , RARE FOOTAGE OF 1986-1988 Part 2 - video

Chernobyl - Drone Footage Reveals an Abandoned City 2016- video drone

GHOST TOWN of Pripyat in summer 1986 - video

Half-Lives: The Chernobyl Workers Now

24/03/19

Chernobyl, um peixe kinguio deprimido?



O peixe de aquário mais famoso do mundo é o Kinguio. Há bastantes anos, em 2006, fiquei com o pequeno aquário do meu sobrinho por uns dias. Dos quatro peixes vermelhos de então resta apenas um, com cerca de 20cm, e que agora tem um aquário grande só para si, embora, na minha óptica, ainda pequeno para se sentir em casa. Feitas as contas, o peixe já conta 13 anos. Sobreviveu a um ataque dos companheiros que o deixou quase sem barriga e sem cauda, e carrega na cabeça um tumor redondo e laranja. Por isso, eu às vezes chamo-lhe Chernobyl. É, evidentemente, um resistente, este Kinguio, que significa peixinho vermelho em japonês, mas que é mais alaranjado que vermelho, e com manchas brancas.

Os Kinguios são descendentes da carpa Carassius carassius (i.e., C. c. auratus) e podem viver entre 10 a 20 anos em média. Pertencente à família dos Ciprinídeos (Cyprinidae), é originário da Ásia Oriental, e datado como o primeiro peixe a ser criado com fins ornamentais pelo ser humano, na China. O Japão, e depois a Europa, cedo começaram a interessar-se pelo Kinguio. A cidade de Koriyama , ganhou fama como uma das primeiras a ter criadores deles fora da China em virtude da boa qualidade de água aí existente e pulgas d’agua (dáfnias) que nasciam nessas águas e serviam de ração para os filhotes. É ainda hoje uma referência mundial na criação desses peixes. Actualmente existem para cima de 100 variedades: o mais conhecido é o peixe dourado comum, de cauda levemente bifurcada e nadadeira dorsal longa e baixa. Mas existem ainda outras: Cometa, Ryukin, Shubunkin, Demekin, Tosakin, Hamanishiki - que devem ter tido origem nos criadores japoneses - , Cauda de véu, Celestial, Bolha ("bubbleyes"), Escama de pérola, Telescópio, Pompom, Oranda, Fantail (duas caudas, cauda de leque), Ranchu, Cabeça de leão, Phoenix (peixe ovo), Olho de dragão, Cabeça de sapo!

Ora, eu não sabia nada disto até ao Carnaval. Em 2006, neste blogue, confessava o meu apático interesse por peixes de estimação às voltas em aquários. E em 2019 não me tornei mais entusiasta do hobby. Os peixes, para mim sempre me agradaram de duas formas apenas: a nadar no mar ou então em molho de limão e manteiga, ou azeite, no meu prato.  O que sempre me sucede quando me debruço sobre um animal que não anda lá muito no meu top de simpatias é que começo logo a descobrir coisas encantadoras, estranhas ou fascinantes acerca do seu comportamento e acabo conquistada. Por exemplo. Cobras, serpentes e parentes. Não sou grande apreciadora das rastejantes. Mas há uns tempos vi um vídeo onde uns rapazitos libertavam um cão do abraço de uma pitão, o que me lembrou logo daquela notícia da mulher, que, na Indonésia, foi engolida por uma serpente pitão com cerca de 6 metros,  um acontecimento horrível mas felizmente raro.  Quando vi essa notícia aproveitei para ler alguma coisa sobre elas. Todos sabemos que o método da constrição que aqui aparece em prática serve para sufocar a presa, uma vez aprisionada pela mandíbula. Depois a serpente usa o olfacto para localizar a cabeça da vítima e engole-a a partir dela. Mas a técnica do enrolamento serve também para a defesa do animal, que se enrola, escondendo a cabeça no interior do novelo, sua área mais vulnerável. Também se enrola em volta dos ovos, (cerca de 100) fazendo um ninho com o seu corpo, e agitando os músculos poderosos consegue, sendo de sangue frio, gerar calor para os chocar, além de os virar durante a exposição ao sol. O processo leva até dois meses. Outro facto assombroso é que a pitão é capaz de aumentar o tamanho dos seus orgãos quando ingere uma presa quase tão grande como ela e não apenas a cavidade digestiva, o que seria banal: o intestino delgado, mas também o coração, o fígado e os rins aumentam para mais do dobro. A taxa metabólica aumenta extraordinariamente, é tudo dissolvido, escamas, ossos, graças a uma acção conjunta de ácido clorídrico e pepsina presentes no intestino. Quando a digestão termina, um dia depois, os orgãos começam a regressar ao tamanho normal. Após a refeição a serpente procura um canto para dormir enquanto dura o processo, uma longa sesta de cinco ou mais dias. Pode ficar semanas, até meses, sem voltar a comer. Não regurgita nada, defeca um mínimo de desperdícios...As serpentes são dos animais que menos aprecio mas não deixam de ser extraordinárias.

Mas voltando ao tema dos peixinhos de aquário, no imaginário de todos nós existe algures um aquário em bola com um peixinho vermelho dentro. Ora, nada mais inapropriado para Kinguios. Os criadores aconselham um aquário onde possam caber pelo menos 100 litros de água. Porquê? Porque eles crescem que se fartam. Crescer faz parte da sua natureza e se não lhe dermos espaço, eles não crescem, atrofiam que nem um bonsai. Os Kinguios não podem viver numa panela, esqueça essa ideia de aquário redondinho. Vai levar para casa um animal de estimação. Logo, estime. Se quiser colocar um peixe numa panela, vá ao supermercado e compre um carapau para cozer. Claro que podem sobreviver em pouco espaço, mas sobreviver não é  viver. Imagine que tinha de viver num quarto toda a sua vida! Se não pode dar condições ideais ao animal, é melhor ficar pelo carapau. Infelizmente, quando as lojas de animais celebram o aniversário distribuindo Kinguios em saquinhos não dizem isto aos pais das crianças que os levam, encantadas, para casa.

Embora sejam peixes popularmente conhecidos como de água fria, a temperatura da água deve manter-se nos 18-20 graus, é esta a ideal. A temperatura varia ao longo do ano e isso é favorável para o peixe se desenvolver. Não é necessário colocar um termostato se o local onde vive ou o ambiente onde tiver o aquário não sofrer oscilações sérias de temperatura. Colocar uma luz no aquário também pode ser uma ideia pois vai tornar as cores dos peixes mais vivas e permitir apreciá-los melhor. Se o espaço onde tiver o aquário tiver boa luz natural, pode ser dispensada. O que é essencial é ter uma boa filtragem pois a água vai ficar suja graças a certas particularidades do peixe. Fiquei a saber que possuem dentes, aparelho digestivo peculiar, com longo tubo digestivo. O alimento não é, assim, completamente aproveitado pois não existe um verdadeiro estômago. E daí o muito apetite do Kinguio que parece estar sempre a pedir comida, pelo menos, o do meu sobrinho é assim. Muito do que é engolido é excretado. Deve ser alimentado em pequenas quantidades e várias vezes ao dia. O Chernobyl supreendeu-nos há uns tempos porque se deixavamos passar a hora da alimentação, ele vinha o vidro e pedia comida fazendo pequenos silvos perfeitamente audíveis.

Uma vez o meu sobrinho pediu-me para comprar ração para o peixinho. Ora, sem perceber nada do assunto, fui à loja dos animais, convencida de que seria fácil. Os Kinguios são peixes com um apetite voraz, mas isso não quer dizer que se lhes possa dar qualquer coisa de comer. Agora percebo melhor porque precisam de uma alimentação adequada ao seu sistema digestivo e porque não se pode dar comida nem a mais nem a menos. Mas e escolher de entre as várias texturas, escamas, grânulos ou sticks flutuantes? Ou seria melhor flocos que afundam? Tudo muito intrincado e complexo, até a descoberta de comedouros automáticos e digitais que são programados para que o peixe não coma demais, ou mais frequentemente do que o recomendado, ou para que seja alimentado na nossa ausência, me causou espanto. Chamei a funcionária da loja que aparentava saber ainda menos do que eu. Depois de breve conversa, nada esclarecedora, trouxe a embalagem mais pequena, não fosse o peixe não comer. Mas ele não se fez rogado. Os peixes vermelhos são omnívoros, podem comer frutas, verduras, cereais e carne, como coração de boi, cozido e esmigalhadinho. Não dizem não a coisas verdes - pepino, espinafres, brócolos, couve flor, ervilhas semi-cozidas e levemente amassadas - frutos do mar - caranguejo, camarão, - alimento vivo - artêmias, Blood Worms, Tubifex, (não faço ideia do que seja isto!) larvas de mosquito, moscas de fruta! Mas o Chernobyl tem apenas comido enlatados industriais. A ração que trouxe, os flocos,  afunda. Fiquei entretanto a saber que as que ficam a boiar à superfície da água favorecem a ingestão de ar e a formação de gases que podem causar problemas na membrana natatória de algumas variedades.

Outra particularidade do Chernobyl é passar o tempo a  remexer o cascalho do fundo: chega a meter várias pedras na boca e depois cospe-as para fora. O areão é bem grosso mas o peixe cresceu, e se dantes não conseguia meter as pedras na boca, agora consegue. Aconselham os entendidos dolomita ou aragonita que ainda tem a vantagem de alcalinizar a água. Há quem prefira o fundo nú, assim não há desculpa para não limpar pois não dá para fingir que está limpo. Não há decorações, nem pedras, nem plantas no aquário do meu sobrinho, mas ainda bem, porque os Kinguios, alguns desajeitados e bamboleantes no seu nadar, podem até ferir-se nelas, e, quanto a plantas, arrancam-nas e comem-nas sem discrição.

Todo este interesse nos Kinguios começou quando o Chernobyl, durante o Carnaval, sem pré-aviso,  e durante dois dias, ficou de cabeça para baixo, meio inclinado, a um canto do aquário. Já pensávamos que ia bater a bota, ou, melhor, a barbatana. Quase não se movia dali. Dava uma volta curta e voltava ao mesmo transe. Parecia até que não tinha forças para nadar até à superfície. E parou de se alimentar.  Todos vaticinamos que tinha chegado a hora do peixinho vermelho. Afinal já contava com 13 anos de vida, tinha passado por três aquários diferentes e assistido ao desaparecimento de todos os seus companheiros. E até tinha sobrevivido a uma mudança de casa do seu dono, de um distrito para outro.

Cada um de nós foi para a internet procurar a razão de tal comportamento e o que fazer para salvar o bichinho. Não estava fácil. O peixe não aparentava sintomas de infeção bacteriana: nem perda de cor, nem desgaste das barbatanas, nem feridas, nem inchaços. Mas parecia estar um pouco ofegante, sim. Em redor dos olhos ou boca não havia manchas com cor esbranquiçada, o que significaria problema de fungos, mas uns dias antes tinha andado a nadar de um lado para o outro no aquário com velocidade acelerada, a dizer que não com a cabeça. Infecção por parasitas daria perda de vontade de nadar, que, de facto, ele não tinha, pois continuava a agitar as barbatanas para se manter a fazer o pino, - mas seria isso, ainda nadar? Já respiração acelerada, aparentava ter, e perda de apetite, era notória: o comilão Chernobyl não se alimentava. Seria então um parasita? Não conseguíamos fazer nenhum diagnóstico, apenas isolávamos sintomas. E, enquanto isso, o peixe lá continuava de rabo ao ar, no seu canto.

Outra hipótese levantada foi que o Chernobyl estivesse com depressão, uma doença tão dos tempos modernos, ora porque não? Então perguntei ao Google, esse poço de sabedoria: Pode um peixe ficar deprimido? Senti-me meio idiota mas só até ler outras questões colocadas ao motor de busca: Pode um peixe ficar deprimido quando outro morre? Pode um peixe ver a água onde nada? Pode um peixe ser feliz? Pode um peixe afogar-se? Pode um peixe ficar "high"? Logo encontrei um estudo - mas é claro, tinha de haver um! - dum tal Dr. Pittman em sentido afirmativo. Há um debate acalorado na comunidade de pesquisa sobre se o melhor termo a empregar é ansiedade ou depressão. O Dr. Pittman, e outros, andam há dez anos a estudar o assunto e a observar como o peixe-zebra perde o interesse em quase tudo: comida, brinquedos, exploração - assim como pessoas clinicamente deprimidas. Culum Brown, um biólogo comportamental da Universidade Macquarie, em Sydney, que publicou mais de 100 artigos sobre cognição de peixes, defende que de forma idêntica pessoas e peixes quando deprimem ficam retraídas, distantes. A culpa da depressão dos peixinhos de aquário somos nós que não lhes fornecemos estímulos, distração, ou que não cuidamos de manter a água com oxigénio suficiente. Será, então, que podem morrer de tédio?

Por vezes, em tempos passados, tinha visto o peixe, muito quieto, quase estacionado sobre o fundo, e uma vez perguntei ao meu sobrinho: " Está morto?" Ele respondeu que não. Que estaria a dormir. -"Ora, então mas tu não sabes que os peixes não dormem?- brinquei eu. -" Os peixes passam pelas brasas." Ele continuou: -"Um peixe não tem pálpebras, mas isso não significa que não "durma". Se não o fizesse morreria de exaustão. Ficam num estado superficial de imobilidade, movem-se o mínimo, apenas para manter o equilíbrio, com os sinais vitais reduzidos. Pode nadar vagarosamente e estar a dormir. O peixe precisa de se mover para passar água através de suas brânquias, que permitem captar o oxigénio da água. Portanto um peixe não está a dormir quando está parado nem acordado quando está em movimento." Os peixes são matreiros, pensei eu. Um peixe está morto quando as brânquias não abrem e fecham?Alguns respiram pela boca e, por isso, observar as brânquias não basta para saber. Temos também de olhar ao movimento ascendente e descendente do corpo. O peixe Betta Splendens vem à superfície da água respirar e possui um órgão de respiração complementar, chamado labirinto. Matreiros, sem dúvida. Sintomas como a incapacidade de comer ou de mergulhar após nadar até à superfície da água, e olhos acinzentados ou fundos indicam que o peixe está morto ou à beira da morte. 

Concluindo. Após 48 horas, o peixinho vermelho retomou o seu comportamento habitual. Assim. Como se nada se tivesse passado de anormal. Não sabemos de esteve à beira da morte, muito ou pouco doente,  se em greve de fome e protesto por falta de qualidade de vida, se em depressão. Acreditamos que nos pregou uma partida de Carnaval. Os peixes são mesmo uns matreiros.

Sugestão de leitura

Kinguios - Meu aquário novo : muita informação bem sintetizada sobre os kinguios

Fotografias das principais variedades de Kinguios


Fat Goldfish - Aquarismo: canal dedicado ao aquarismo e tem como objetivo inspirar novos adeptos e enriquecer esse fascinante hobby. Não sou nenhum especialista apenas um apaixonado por aquários que finalmente resolveu dedicar um pouco de seu tempo e conhecimento para aqueles que têm interesse em aprender um pouco mais sobre nossos amigos de barbatana.

Comportamentos estranhos dos peixes de aquário

Pode um peixe ter depressão?

23/03/19

Will you help cyclone victims in Mozambique?



"We are living an unprecedented natural disaster. "

(Mozambique, Land and Environment Minister Celso Correia)

I know that we all have our struggles, but can we stop thinking about ourselves for just a few moments, and still find solidarity for those who are far from us and fighting a struggle for life at this very moment?  Spread the word and help Mozambique, if you can. Thank you.

A poor country with a long coastline, Mozambique is especially vulnerable to storms sweeping in from the Indian Ocean. People of southeast Africa are now suffering the devastating effects of Cyclone Idai resulting in significant damage and destruction to shelter and settlements, health, water and sanitation facilities, as well as large swathes of crops. Idai cyclone made landfall near Beira, a city of 500,000 people, in Mozambique, and moved inland causing widespread damage and severe flooding in Mozambique, Malawi, and Zimbabwe, with 177km/h (106 mph) winds on 14 March. Central Mozambique was hit particularly hard. Aid workers are slowly delivering relief, but conditions are said to be extremely difficult, with some areas completely inaccessible due to water floods. 12 miles away from the sea the landscape is now covered in water, life was swallowed and dragged away. Delivering relief to many of the survivors remains a struggle because bridges are damaged or gone and blocked roads have delayed access to many areas. Helicopters are scarce and owners are unscrupulous doubling the rent price profiting without from the catastrophe. Mozambique had borne the brunt of flooding from rivers that flow downstream from neighbouring countries.Thousands remain trapped by the floodwaters, and many of the Mozambican government's relief centres have only just started receiving food supplies - more than a week after the storm first struck. Nearly 90,000 Mozambicans are thought to be sheltering in temporary sites, while thousands of others are still stranded in floodwaters. Today, the news puts the overall death toll at about 700 people across Mozambique, Zimbabwe, and Malawi. Idai is described by the United Nations as "one of the worst weather-related disasters ever to hit the southern hemisphere. " Idai has so far killed 242 people in Mozambique, 259 in Zimbabwe and 56 in Malawi, and numbers are expected to rise. Nearly two million people have been affected. With waters receding and water and sanitation systems largely destroyed, the stagnant water and decomposing bodies, as well lack of hygiene and sanitation, have created a risk of outbreaks of malaria and cholera.

How to help Mozambique:

The UN’s International Disaster Relief System fund would support efforts to provide aid to more than 400,000 people. UNICEF is also on the ground helping children and families. You can make a tax-deductible donation to their relief fund here.

The International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies is already providing shelter and water purification supplies in Beira. Two additional emergency response units have been deployed to the city to provide sanitation facilities and water. The International Committee of the Red Cross is helping register missing persons and reconnect families separated by the storm. You can make a donation to their relief fund here

Knowing more about IDAI and Mozambique catastrophe:

UN chief calls for ‘far greater support’ for Cyclone Idai response

Harrowing scenes after Cyclone Idai with inland ocean visible from outer space

Mozambique: “Tens of thousands of families have lost everything


Como ajudar Moçambique: 

Moçambique: Fundo de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa quase que duplicou em 24 horas

Com o objetivo de apoiar a população afectada pelo ciclone Idai, existem duas contas, uma na Caixa Geral de Depósitos e outra no Millennium bcp, para as quais qualquer cidadão pode fazer o seu donativo, seja por transferência bancária (na ATM ou por homebanking), MB WAY, ou através das Apps MB Way, Millennium bcp, CaixaDirecta ou Caixa Easy. As contas são respectivamente da Cruz Vermelha Portuguesa (conta na Caixa Geral de Depósitos) e da UNICEF Portugal (conta no Millennium bcp).

Cruz Vermelha Portuguesa, Página da transparência

Conta da Cruz Vermelha Portuguesa na Caixa Geral de Depósitos:
IBAN PT50 0035 0027 0008 2402 2305 3

UNICEF, Emergência em Moçambique

Conta da UNICEF Portugal no Millennium bcp:
IBAN PT50 0033 0000 5013 1901 2290 5
MB WAY: 919 919 939



Os CTT - Correios de Portugal, em parceria com os Correios de Moçambique, arrancam esta segunda-feira, dia 25, com uma acção de recolha de roupas doadas pelos portugueses nas Lojas CTT,  que fornecerão Embalagens Solidárias para que os portugueses possam enviar roupas para Moçambique. Basta chegar a uma das 538 Lojas CTT espalhadas por todo o país, pedir uma Embalagem Solidária, colocar o donativo e o envio será realizado, de forma gratuita. Roupas, são uma das grandes necessidades em Moçambique, segundo o pedido dos Correios de Moçambique. A entrega pode ser feita até 8 de Abril.




A blogosfera morreu, está em coma ou sobrevive?



De vez em quando um iluminado lembra-se de dizer que vem aí o fim do mundo. O ano passado, o americano David Meade, que se afirma  " cristão numerólogo", (?) especializou-se nesses anúncios.  Ora dizia que ia acontecer, ora dizia que afinal o fim do mundo estava atrasado, que só daí a uns meses é que chegaria. O tempo passou e ainda cá estamos todos, menos aqueles para quem o mundo, efectivamente, acabou.

De igual forma, há muitos anos, também, de vez em quando, alguém se lembrava de dizer que a blogosfera tinha acabado. Mas ela continuava lá, nesse e nos dias seguintes. Ultimamente já ninguém faz esse tipo de anúncio o que pode levar a questionar se a blogosfera morreu, se está em coma ou se está viva. A primeira vez que me recordo de tal anúncio deve ter sido em 2007 ou 2008, a propósito de um encontro de bloggers portugueses: era um dos temas a abordar. Por essa altura eu mantinha o blogue Palavras-Cruzadas e outros blogues, e já tinha enterrado uns quantos, inclusivé o primeiro, baptizado Furor scribendi, o que significa mania de escrever, talvez por ter achado o título demasiado rebuscado. Guardei alguns dos textos: são as primeiras entradas do Palavras-Cruzadas onde encontro a menção "retirado de blogue extinto", ou qualquer coisa assim.

Lia-se, então, em 2008, na Wired: "Escrever um blog hoje não é a ideia brilhante que foi há quatro anos. A blogosfera, outrora um oásis refrescante de auto-expressão despretensiosa e pensamento inteligente, foi inundada por um tsunami de disparates pagos. Jornalistas baratos e campanhas de marketing clandestinas abafam agora as vozes autênticas dos amadores artesãos das palavras. É quase impossível ser notado, excepto por dissidentes. E para quê incomodar-se? O tempo que leva para criar uma prosa de blogue perspicaz e espirituosa é melhor empregue para expressar-se no Flickr, no Facebook ou no Twitter."

A agonia da blogosfera estava a dar a volta à cabeça de muita gente,  à internet e ao globo terrestre: nos EUA, por exemplo, e também em Portugal, muitos escreveram a refletir sobre a fatídica sorte da blogosfera. A extinção de blogues sonantes anunciada com dia e hora marcada, ou o facto de bloggers, que numa primeira fase pareciam ocupar uma posição de desafio em relação a outros comunicadores dos media, terem cedido ao mainstream, dando o salto para portais da internet, TV e jornais,  isso e o desaparecimento de um sentimento de comunidade, de união, que eu própria viria também a detectar, mas mais tarde, seriam alguns dos sinais de morte, a par da profissionalização dos bloggers. A história da internet está cheia de mortes e estados comatosos e ressuscitações. Por exemplo, é consensual que a internet veio matar a escrita de cartas. Quase de um momento para o outro todos começámos a escrever e a enviar emails que nem loucos. Circulavam textos e powerpoints sobre tudo. Quem é que seria excêntrico a ponto de continuar a comprar envelopes, a redigir endereços e a lamber selos de correio quando podia enviar palavras, sons e imagens instantaneamente?
Cameron's world
A internet entrou devagar por Portugal adentro. No início nem éramos tantos assim a conseguir ter acesso ao www. Os primeiros sites eram obras intermináveis: quase sempre havia uma legenda ou um boneco "Em construção." Demoravam a carregar e algumas das fotografias ficavam sempre por abrir. A experiência visual podia ser equivalente a uma viagem interestelar ou a uma tripe psicadélica. Para terem uma ideia do delírio visual dessa era, espreitem o Cameron's World. O Cameron's World é uma colagem virtual de textos e imagens recolhidos e montados por Cameron Askin, imagens essas que podiam ser encontradas nas páginas GeoCities, um serviço de hospedagem na web que possibilitava que as pessoas construíssem as suas próprias home pages, entretanto arquivadas (1994–2009). O serviço dos EUA foi desativado em Outubro de 2009 quando registava mais de 38 milhões de páginas. Hoje interagimos principalmente com conteúdo mais ou menos refinado e acabado. O Cameron’s World, "é uma homenagem aos dias perdidos de auto-expressão não refinada na Internet." Espreitem também o Web Art Museum que mostra as tendências do web design entre 1991 e 2006 para ver como eram os motores de busca ou os banners ou os sites feitos em Flash.

No início da blogosfera sentíamo-nos unidos numa espécie de celebração da democracia que era poder partilhar com uma infinidade de pessoas de todo o mundo toda a espécie de ideias sem barreiras aparentes. Até aí apenas alguns de nós, nos quais me incluía, teríamos podido experimentar este poder, e de uma forma bastante limitada, o poder se expor as nossas ideias aos outros publicamente, e de obter até uma resposta. O que fazíamos era usar, talvez, um jornal local ou regional, ou escrever na secção da Carta do Leitor, por exemplo. O advento dos blogues deu a toda a gente, pelo menos hipoteticamente, um poder nunca antes experimentado. Agora todos podiam ter uma página na web sem sequer saber código ou mesmo usar o Frontpage, o editor de HTML criado pela Microsoft para fazer páginas na web.

A blogosfera rapidamente demonstrou ser um espaço com incontáveis possibilidades. Era algo criativo para uns,  para outros confessional,  um diário pessoal, para outros era até um meio subversivo. Os blogues permitiam a interactividade dos leitores de forma imediata, através dos comentários, o que não sucedia nos sites, com a sua estrutura estática, também impeditiva da rápida actualização. Além disso, o hipertexto, os links, permitiam aos leitores viajar de página em página, escolhendo o seu percurso. Cada um fazia daquilo o que queria, elegia um tema de afeição, ou não, e aprimorava-se a personalizar o aspecto da sua casinha na internet até atingir o nojo do design, cores de fazer tonturas, cintilações de causar epilepsias. Logo começaram a aparecer em blogues esteticamente comedidos lições de como emagrecer esse excesso decorativo, embora sem grande efeito prático. Os blogues acumulavam diversos tipos de letra,  selos de concursos e iniciativas em que a blogosfera era pródiga, fotos e galerias de fotos, contadores de visitas, guestbooks,  caixas de mensagem embutidas, vídeo, quando foi possível, e muito lixo visual que cegava. Os directórios de blogues e outras plataformas de agregação, que hoje já quase se extinguiram,  que os reuniam por tema, facilitando a sua divulgação, eram extremamente populares. Estabeleci laços que ainda perduram com bloggers dos EUA, da India, do Canadá, de França, do Brasil, da Austrália e, claro, de Portugal.

Foi espantoso poder assistir e, mais, fazer parte desta revolução. Sim, foi uma revolução. Para quem possa pensar que estou a exagerar, atente nestes dados:

"A blogosfera, como é conhecido o mundo dos blogs, conta com quase 100 milhões de blogs, segundo o Technorati , serviço de buscas e indexação especializado nos diários virtuais da blogosfera. Em abril de 2007, segundo a empresa, eram criados 175 mil blogs por dia e cerca de 1,6 milhão de posts eram publicados diariamente, ou seja, o equivalente a 18 atualizações por segundo. Os números realmente impressionam. Para chegar a um milhão de usuários, a telefonia fixa demorou 74 anos; o rádio, 38 anos; os computadores, 16 anos; os celulares, 5 anos; a Internet, 4 anos; o Skype, 22 meses. Quanto aos blogs, apenas para termos uma comparação com outras tecnologias lançadas ao longo da história, em maio de 2006 eram 40,5 milhões; em abril de 2007, o número chegava a 72 milhões. Em menos de um ano, a blogosfera praticamente dobrou de tamanho."

(Silva, Fernando Moreno da. Blogosfera: um estudo dos blogueiros a partir dos blogs mais acessados do país. Estudos Semióticos. [on-line] Disponível em: h http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es i. Editores Responsáveis: Francisco E. S. Merçon e Mariana Luz P. de Barros. Volume 6, Número 1, São Paulo, junho de 2010, p. 54–64. Acesso em “dia/mês/ano”. Data de recebimento do artigo: 16/11/2009 Data de sua aprovação: 01/04/2010)

Mas nem tudo era bonança no mar da blogosfera. De repente a informação deixara de estar na mão de especialistas e a preocupação com a fonte e a credibilidade de tantos conteúdos publicados em blogues gerou tempestades entre  inquietados educadores e, em especial, orgãos informativos, os jornais, que viram nos blogues competição directa,  note-se como ainda estava bem longe a popularização das fake news, que com a utilização massiva das redes sociais, se tornou uma evidência durante a campanha de eleição de Donald Trump, em 2016.

A par de conteúdo bem estruturado, por qualquer pessoa, na sua área profissional, por exemplo, emergiu muita deturpação, sem fundamento e com muita futilidade sem filtros, que incomodava alguns. Os blogues teriam vindo dar a voz ao idiota da aldeia, diriam até. Só que Umberto Ecco, ainda não tinha escrito isso acerca da internet. Teríamos de esperar até 2015, para que Eco, crítico acerca do papel das novas tecnologias na disseminação da informação, afirmasse que  "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", aconselhando os jornais a filtrar a informação obtida em sites da internet, já que ninguém era capaz de dizer se seriam confiáveis ou não. Os mais cépticos continuavam  a ver os blogues como páginas pessoais de gentinha narcisista ou preguiçosa, que copiava aqui e colava ali, para entretém juvenil. Para estes a blogosfera era apenas muita parra e pouca uva: um blogue não era um jornal e uma postagem não era uma notícia. Mas, de facto, apesar das críticas sobre a sua credibilidade, os blogues afirmaram-se como fonte de informação, porque reconhecido espaço de liberdade, e para muitas pessoas passaram a ser A fonte de notícias. Em Portugal não me recordo de jornais se terem pronunciado ostensivamente contra a afronta dos blogues. Mas em 2008, no Brasil, o Jornal Estado de São Paulo, publicou uma campanha onde ridicularizava os bloggers para desacreditar a sua capacidade de produção de conteúdo fiável. Leia a propósito o que escreveu Carlos Merigo e veja a campanha:




Os blogues tiveram, entretanto de competir com que se chamava o microblogging, o Twitter começou timidamente, mas os seus 140 caracteres acabaram por convencer os usuários; um pouco diferente, a meio caminho entre o Blogger e o Twitter, (criado em 2006) o formato Tumblr, (em 2007) mais focado na imagem, também cativou uma quota de internetários que preferiam as imagens às palavras. E, sobretudo, o Facebook, que aparecera em 2004.

Actualmente os blogues continuam a existir e a serem criados mas talvez não ao ritmo de Abril de 2007. Afastada da blogosfera, também por bastante tempo, embora sem nunca me ter desligado completamente, sinto que quer o blogger, quer o leitor, possuem hoje um tipo de consciência completamente diferente da que nos animou a começar. Mesmo sem grande fundamento, diz-me a minha intuição que os blogues perderam espaço para as redes digitais e plataformas mais assentes na imagem como o Youtube ou mesmo o Instagram. Quando procuro por blogues novos para ler encontro uma enorme maioria deles onde a mancha gráfica é 80 % imagem. Os novos afirmam a primazia da imagem. Ainda conseguimos encontrar alguns dentro do espírito pioneiro, e até austero, de antigamente, mas são, sobretudo, os sobreviventes desse tempo. E surgiram até plataformas que recuperam o despojamento inicial da sua criação como a Medium, onde é a escrita que ainda importa acima de tudo. Mas a tendência hoje é outra: a sensação que dá é a de que a maioria das pessoas desistiram de ler e de escrever (extensamente) na internet. Dois tipos de blogue beneficiam largamente das possibilidades digitais de criação, edição e publicação de imagens entretanto desenvolvidas: os blogues de viagens e os das bloggers ligadas à moda e ao lifestyle, que as empresas voltadas para o público feminino passaram a eleger como centrais para a publicidade e divulgação dos seus produtos.  Por outro lado também me apercebi que muitos bloggers levam o conteúdo do seu blogue para outros canais. Não se limitam a partilhar um link no Facebook ou no Twitter. O conteúdo escrito é adaptado a vídeo e publicado no Youtube ou tratado em imagem e divulgado no Instagram.

Alguns dos blogues de maior êxito fazem hoje parte de sites de empresas, de jornais, de instituições. Rara é a empresa que não aposta num blogue como estratégia de marca, de divulgação e contacto com a sua clientela. Mas alguns até se confundem com os sites das próprias empresas! Por outro lado, é curioso constar que após tantas querelas, hoje, um jornal online pode até parecer-se com um blogue e um blogue bem pode parecer um jornal online. Os blogues são muito mais sosfisticados e trabalhados, escritos e produzidos até por equipas de profissionais de áreas respectivas, do marketing, e da imagem.  E são esses que aparecem no topo das buscas do Google. 

O Facebook, por comparação, nunca teve, para mim, semelhante impacto nem nunca me trouxe a gratificação que sinto em relação aos blogues que criei e de que fiz parte. A não ser pela facilidade acrescida no manejo das suas ferramentas virtuais, de comunicação e partilha, a rede social nunca teve, para mim, o significado de novidade e revolução que os blogues tiveram. O Facebook bem que se pode gabar de ter conseguido agregar o número record de usuários que agregou, mas também gerou mais polémicas - e a ver vamos o que ainda virá por aí - e problemas do que aqueles com os bloggers alguma vez tiveram de lidar: ser amigo do Google era a nossa dor de cabeça, e o spam e os anónimos, a nossa mínima preocupação. Na rede temos de aturar a censura arbitrária das nossas postagens, a publicidade invasiva crescente, descobrimos a utilização dos nossos dados pessoais para fins que não acordamos, não entendemos o funcionamento do algorítmo, etc, nunca chegamos a sentir o Facebook como nosso.

Mas, provocou ou não o Facebook a agonia e a morte de muitos blogues? Sim ou não? O tráfico para os sites do Blogger e da Wordpress decresceram a olhos vistos enquanto o do Facebook não parava de aumentar. Há quem defenda que o Facebook não só matou os blogues como a própria internet já que ninguém mais navega nela: observem, no metro ou no comoboio, o que as pessoas dedilham nos telemóveis e lá verão, sob os seus dedos, sobretudo, um feed azul e branco. O Facebook tornou o acto de publicação e contacto tão simples como um clique: quem resiste à lei do menor esforço?  Mas nem tudo foi mau: os bloggers começaram a aproveitar o Facebook para dar visibilidade aos seus conteúdos.

Andamos sempre à procura de um culpado, mas os culpados somos nós: nós é que deixámos de escrever cartas, de comprar jornais em papel, de escrever nos blogues. O Google também foi acusado de matar os jornais por lhes estar a sugar a publicidade para a internet. Os jornais ainda não conseguiram fazer anúncios dirigidos aos seus leitores no papel e então instalaram-se na internet. Não morreram: adaptaram-se. Também os blogues se hão-de adaptar, mesmo que o acto de escrever num blogue sempre vá exigir um pouco mais de esforço do que picar o ponto no Facebook. 

21/03/19

Doodle interactiva celebra Johann Sebastian Bach! Experimenta!



Experimenta aqui



Johann Sebastian Bach tornou-se, após a sua morte, no músico mais reconhecido e popular do período Barroco. É, hoje, para muitos, o maior compositor de todos os tempos, o que melhor dominou a ciência da composição e a busca da harmonia perfeita. Descendente de uma família de músicos, enquanto vivo foi a sua habilidade para tocar órgão e cravo que mais reconhecimento lhe trouxe, tornando o seu nome lendário. Iniciou a carreira como organista, vindo a servir dois dos grandes duques de Weimar. No ano de 1717 ocupou o cargo de mestre-capela do príncipe Leopoldo, na corte de Cöthen, e em 1723 mudou-se a título definitivo para Leipzig, onde assumiu as funções de director musical do Coro da Escola de São Tomás e do Collegium Musicum da Universidade. Nessa qualidade, era responsável pela produção musical das cinco igrejas mais emblemáticas da cidade. Além de executante, Bach também era um especialista na construção de órgãos. Incansável e versátil, atribuia o seu êxito à inspiração divina e ao trabalho árduo que desde criança dedicava aos seus objectivos. Desenvolveu muitas actividades diferentes, todas com êxito: foi maestro, cantor, professor e violinista. Apesar de em vida alguns louvarem as suas composições, a maior parte de sua música caiu no esquecimento após sua morte,ocorrida em 1750, e só foi recuperada a partir do século XIX.

Hoje o mundo celebra o grande compositor, nascido em Eisenach, 21 de Março de 1685, e a Google presta-lhe a sua homenagem numa curiosa Doodle com tecnologia AI - inteligência artificial. A Doodle foi feita em parceria com as equipas do Google Magenta e do Google PAIR, e é uma experiência interativa: vai poder compor uma melodia em parceria com o grande Bach. Basta colocar algumas notas de sua escolha na pauta e depois, pressionando um botão, a inteligência artificial vai  harmonizar a sua  melodia ao estilo musical de  Bach. Pode partilhar a sua criação nas redes sociais para que todos fiquem a conhecer o seu novo talento e emblemático padrinho musical.

Como é que isto foi possível? O video acima explica o processo. Em vez de ensinarem um conjunto de regras a um computador, ou seja, programação tradicional, para ele as seguir na produção de um resultado, são antes carregados muitos exemplos  na máquina. É criado um modelo de aprendizagem para que o computador aprenda a elaborar as suas respostas.  Este usa o modelo Coconet  - leia aqui acerca do seu desenvolvimento - desenvolvido por Anna Huang. O modelo é versátil, pode ser usado em uma ampla gama de tarefas musicais - como harmonizar melodias ou compor a partir do zero. 

Quando o eminente biólogo e autor Lewis Thomas foi questionado sobre qual mensagem ele escolheria enviar da Terra para o espaço a bordo da sonda Voyager, ele respondeu: Eu enviaria as obras completas de Johann Sebastian Bach. Depois de uma pausa, ele acrescentou: Mas com nós nos estaríamos gabando. Leia o que alguns compositores famosos disseram de Bach:

- Somos todos diletantes comparados com ele. Schumann
- Agora existe música com a qual um homem possa aprender qualquer coisa. Mozart
E se olharmos para as obras de JS Bach em cada página, descobrimos coisas que pensamos que nasceram apenas ontem, de arabescos deliciosos a um sentimento religioso transbordante maior do que qualquer coisa que tenhamos descoberto. E em suas obras procuraremos em vão por qualquer coisa que não tenha o menor gosto. Debussy
O milagre mais estupendo de toda a música! Wagner
- Estudem Bach. Aí encontrarão tudo: vida, amor e Deus. Brahms

Bach ao vivo, na rua, para todos, é o objectivo do Bach in the Subways!

O projecto Bach in the Subways celebra a música de Bach em todo o mundo. Começou por divulgar Bach no metro de Nova Iorque, mas o importante é que Bach possa ser desfrutado ao vivo e, por extensão, qualquer música clássica, para o maior número possível de pessoas, especialmente aquelas que normalmente não o ouviriam. Músicos que não podem acessar o metro para tocar Bach podem  apresentar-se onde quer que haja pessoas para ouvir a música - em shoppings, na rua, em igrejas, escolas, cafés, aeroportos e muito mais. Descubra se alguém vai tocar Bach perto de si.



Para ouvir agora...

Glenn Gould-J.S. Bach-The Well Tempered Klavier