28/03/19

Moda: Tommy Hilfiger, Zendaya, e a Batalha de Versailles




"A colecção de primavera da cantora e actriz Zendaya e Tommy Hilfiger está aqui e somente fora das lojas Tommy Hilfiger.", lia eu, no site da Nordstrom. A colecção combina a herança formal de Tommy com o estilo polido da estrela, dizem ainda. (Zendaya, a nova embaixadora feminina da marca, é a menina que aparece ao lado do Homem Aranha no novo filme que vai estrear em Julho: Spider Man: Far from home. )

De vez em quando, espreito a Nordstrom, e o padrão deste blazer em stretch satinado captou a minha atenção. O mais curioso foi encontrar nos detalhes da ficha do blazer Tommy Hilfiger + Zendaya, que é Made in Portugal. E esta, hein?

A colecção dá-nos ternos, saias de cintura alta apertadas com cintos de tamanho grande, blusas de malha com listras alternadas, calças xadrez com bainha descida, que nos remetem de imediato para o look dos anos 70, mas com um toque de franca actualidade. Redefinindo o poder do vestir, Tommy Hilfiger e Zendaya uniram forças para criar uma coleção de que celebra a inclusão, a individualidade e o empoderamento. É o que se lê. Vejam. Há mais peças com o atraente padrão: um simples lenço por 88 euros com o padrão Zodiac para adicionar um divertido toque de cor à sua roupa! Sem dúvida!


Ah, Belinha, já tardavas. Então é agora que o teu blogue se vai converter aos temas da beleza, moda, do estilo e do lifestyle? Não, nem por isso. Mas ao ler que os designers da colecção encontraram inspiração num célebre desfile dos anos 70, que a imprensa logo apelidou de "Batalha de Versalhes", não resisti a escrever umas linhas sobre o mesmo, ainda que seja um assunto bem conhecido.

A "batalha de Versailles" foi um desfile épico, uma espécie de batalha cultural travada em Novembro, na França, no ano de 1973. O show de moda foi originalmente organizado como um golpe de publicidade para dar visibilidade à moda americana, uma eterna aprendiza da moda francesa. Angariar dinheiro para restaurar o palácio do rei Luís XIV, o grandioso Palácio de Versalhes, de arquitetura barroca francesa,  esteve na origem do evento. A  "mãe" da Fashion Week, da International Best Dress List, a americana Eleanor Lambert, uma interessante e influente publicitária da moda, deu então a ideia: seria organizado um jantar  e um desfile moda, com curadoria de Gerald Van der Kemp. Cinco estilistas de cada país formaram as equipas. A luta começou, primeiro nos respectivos países, com tesouras e agulha e linhas, mas seria decidida sobre o palco, num corpo a corpo de todos os envolvidos com a moda.

O desafio colocou os antigos mestres do design francês contra uma equipa de ousados estilistas americanos, incluindo Halston, Anne Klein, Bill Blass, Stephen Burrows e Oscar de la Renta. Os designers franceses, Christian Dior, Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin e Emanuel Ungaro, estavam certos da vitória, apoiados por um orçamento maior, no glamour e longa tradição. Made in France era uma etiqueta de requinte que garantia tudo o que de melhor existia no mundo da moda. Paris era o berço da alta costura, ali nasciam as tendências que o mundo inteiro depois reproduzia. 

O teatro de Versailles era esplenderoso. Aquando da sua construção, a sala rapidamente se tornou um dos mais belos salões da Europa. As  decorações em dourado, falso mármore, e tromp d'oeil,  e a sua arquitectura criam uma harmonia deslumbrante. Dos tectos pintados suspendem-se lustres. Os americanos devem ter adorado esta beleza artística do velho continente. Diante de uma plateia de 800 pessoas repleta de realeza e celebridades envergando as suas melhores jóias e vestidos - por exemplo, a duquesa de Windsor, Paloma Picasso, Princesa Grace, Andy Warhol, e Christina Onassis, - a moda tomou de assalto o palco histórico. A batalha era afinal entre o velho e o novo, entre estilistas, entre países e até continentes.  Lisa Minelli apresentou-se cantando "Bonjour, Paris", ao jeito da Broadway, e encerrando o show com uma prestação memorável. Além dela, também Josephine Baker, expatriada na Europa, cantou naquele evento, adornada por plumas e com um bodysuit transparente e cintilante. E Rudolph Nuryev também dançou.  As criações francesas mantiveram-se nos limites da alta-costura, onde sempre tinham sido reis e senhores. Já os americanos apresentaram modelos na linha do pronto-a-vestir , inspirados pelos tempos de rápida mudança, de revolução e liberdade da moderna mulher americana, a cada dia mais interventiva na sociedade.
O show francês. (Print screen Versailles 73)
Os franceses tinham apostado fortemente na cenografia, que incluía carruagens puxadas por um rinoceronte  inspirado no de Albrecht Dürer, Sputnicks a levantarem do palco, chamaram actores, bailarinos, acompanhado por uma orquestra, ao longo de duas horas e meia. Era tudo muito elaborado, pretensioso, e, no meio de tanto para ver, as criações de moda foram apenas mais um detalhe. Ao tempo, os desfiles de moda aconteciam em silêncio,  as modelos entravam numa sala empunhando um número, que as pessoas presentes anotavam para depois encomendar a respectiva criação. Tudo isto que agora se via era uma extravagância, que uns adoraram, mas que outros acharam risível. De facto, o factor decisivo da batalha nem seriam tanto as criações mas a forma como as criações foram apresentadas.

A batalha começou até mal para os estilistas americanos, que travaram guerrinhas de protagonismo entre si, além de enfrentarem aborrecimentos técnicos que levaram a erupções emocionais próprias de grandes artistas. Uma, o pouco tempo que tiveram para ensaiar, outra, o seu cenário, calculado em polegadas, não se ajustava agora ao espaço pois tinha sido construído em cm! Então removeram o cenário. As modelos teriam de desfilar num palco completamente despido. A música funk, poderosa, que encheu o ar, fez realçar a presença das belas mulheres, a sua atitude ganhadora, e fez brilhar as diversas propostas plenas de novidade que os franceses nunca tinham visto, algumas  inspiradas por África ou  pelo Jazz; noutros casos foi a ousadia de meras fantasias que não seriam sequer usáveis que conquistou o público: modelos desfilaram em topless com os seios cobertos por um leque de plumas. A audiência delirou e manifestou-se efusivamente, atirando os programas dourados no ar, pateando, batendo palmas e gritando Bravo! Os americanos tinham vencido os "franciús".

No grupo ganharam destaque as dez modelos afro-americanas. O pagamento oferecido tinha sido considerado  magro para  uma semana de trabalho em Paris e algumas modelos recusaram o convite. Outras, porém, teriam ido até de borla, pela simples possibilidade de pisarem o mítico solo francês. Bethann Hardison, Pat Cleveland, Alva Chinn, Billie Blair, Norma Jean Darden, Barbara Jackson, Jennifer Brice, Romana Saunders and Amina Warsuma: nenhuma teria adivinhado ao embarcar o desfecho de tal empresa. 

A batalha de Versailles mudou a indústria da moda e influenciou a cultura pop. Doravante a criação de moda deixaria de ser um exclusivo francês: o mundo abriria os braços aos estilistas americanos, à moda casual, ao pronto a vestir, que era sinónimo de liberdade em todos os sentidos, até contra os opressivos preços da alta costura. E as modelos afro-americanas ganharam visibilidade e futuro.

O show americano (Print screan Versailles 73)
Existe um interessante documentário de 2012- Versailles 73: American Runaway Revolution - da realizadora Deborah Riley Draper, que conseguiu reunir fotografias e filmagens raras, e histórias para construir a narrativa da emocionante noite em Paris que fez história no mundo da moda. O trailer pode ser visto no YT.


Ava DuVernay, realizadora sobretudo aclamada pelo filme, Selma,  e a HBO, têm em mãos um projecto para a realização de um filme sobre este acontecimento do mundo da moda, Batlle of Versailles, cujo foco se deslocará, certamente, para a importância da presença de modelos afro-americanos na passerele e do seu impacto na indústria. Seguirá o livro de Robin Ghivan - Battle of Versailles:The Night American Fashion Stumbled into the Spotlight and Made History. Jornalista e crítica de moda, Ghivan ganhou o prémio Pulitzer pelo seu trabalho nesta área.


A M2M também produziu um documentário, já de 2012,  - Battle At Versailles: The Competition that Shook the Fashion Industry sobre o desfile. Foi realizado por Fritz Mitchel, e nele estão reunidos depoimentos das participantes, além de se relatar o desenrolar dos acontecimentos deste singular desfile  de moda de forma concisa e vibrante.


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