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Extra: Desafio de Escrita dos Pássaros #6: O amor, uma cabana...e um frigorífico

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Corvo - Corvus corax Fonte Leonilde, empregada de limpeza, conheceu Raul enquanto regateava o preço de um Poirot e o imaginava na sua cama a folhear o Kamasutra. Ele já não tinha todos os dedos nem ela o juízo completo. O dia amanheceu na forma de um pedido de casamento: – Casa comigo. Nunca mais terás de comprar um livro. Um ano depois viviam nos arrabaldes de uma cidade perdida. Nunca faltavam à missa exceptuando se andavam longe, fazendo feiras de velharias. No regresso, depois do almoço habitual no Centro Social Paroquial, sempre visitavam o prior. – E novidades da terra? – O Engenheiro Garcia. – Que descanse em paz. – Raul, como vai o negócio? Não é fácil viver com esse infortúnio... – Sr. Padre, não o é. Três dedos chegam para fazer o sinal da cruz. – E sorria. – Esse Engenheiro é o que morava na vivenda azul? Daí a dias tocavam à porta do falecido para apresentar sentimentos: – ...e se tiver por aí alguns livros que estejam só a ocupar espaço, nós podemos...

Desafio de escrita dos pássaros #17: Luz e Sombra

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Fonte Quando a Estrela do seu Sistema finalmente se apagou, o grupo dos Inteligentes ligou a Grande Lux e, limitando o seu alcance, assim dominou uma parcela da população do território sobrevivente. Totalmente dependentes dos Radiantes por mais de dois séculos, os Sombrios revoltaram-se, decididos a conquistar um bem maior que a liberdade. Na história do Reino de Pantona, hoje desaparecido, o trágico episódio nunca foi registado. A Luz irradiava de uma Torre de muitos quilómetros ligada ao núcleo do Planeta. Os Radiantes abriam as escotilhas negras e raios luminosos estendiam-se como um manto dourado sobre Pantona. Os Sombrios choravam o desolado território assim descoberto pela penumbra. Quando as trovoadas artificiais iluminavam os céus, o arco-íris era uma memória que feria e o verde-musgo uma ténue esperança. A Sombra aprisionara o presente e condenava o futuro. Consumidos pelo desejo de ver tudo, o que estava longe e perto, a revolta contra esta pálida impressão da vida ...

Desafio de escrita dos pássaros #16:Sobre a vida adulta: ainda não entendi o que é para fazer

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Fonte (Pato - Anas platyrhynchos domesticus) Criança, ela pensava que, quando crescesse, a vida seria tal como aprendera nas histórias. Qual Gato das Botas, ardilosa e hábil com as palavras, assim tornaria o mundo um lugar melhor para os outros, e para si. Avisada, nem Formiga, nem Cigarra, saberia escolher uma profissão divertida. Assim seria fácil derrotar os monstros da fome, do escuro e do frio, sem prescindir da folia. A beleza seria o desígnio deste Patinho Feio ultrapassadas as dores do crescimento, uma qualidade natural que um dia se revelaria como um botão de rosa que desabrocha. A verdade sempre seria preferível à mentira, esse nariz de Pinóquio demasiado comprido para disfarçar. Sempre alguém andaria por perto para despertar a sua boa consciência, evitando erros estúpidos. Mas errando, encontraria no erro uma lição a extrair. A vingança, nunca uma maçã venenosa que valesse a pena fazer engolir a alguém. O amor chegaria garboso e valente, numa reluzente armadura ...

Desafio dos pássaros #15: rudolfo@casadopainatal.org

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(Ganso das neves - Anser caerulescens) Fonte Srª. Rudolfo. Venho por esta via reclamar do resultado do concurso de recrutamento e selecção para a posição de Pai Natal que teve lugar online. Tomei conhecimento de que fui preterida em virtude do meu sexo. A legislação laboral nacional e internacional está do meu lado. O que a srª. fez foi descaradamente discriminatório! A srª. é um animal que não sabe reconhecer o que é talento. Já me informei junto da Autoridade para as Condições de Trabalho e irá ser notificada em breve. Ser assim tratada por uma rena que foi gozada pelas suas congéneres por ter um nariz diferente só prova que o poder cega mais que o nevoeiro na noite. Já se esqueceu como foi escolhida pelo Pai Natal para ser a 9ª rena do trenó? Por causa da sua luz! Porque assim se evitavam atrasos e acidentes!Também eu sei que posso fazer a diferença como o Pai Natal do séc. XXI: tenho muita luz para oferecer. Prepare-se para provar que não houve preferência de tratamento d...

Desafio dos pássaros #14: Não nasci para isto

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Fonte (Pica Pau -  Dendrocopos major  ) Miss Parker, corpo negro, macio ao toque, adornado a ouro, possuía uma beleza intemporal. Fria e distante, ainda assim, HB admirava-a. Ela gabava-se frequentemente da sua rica história. Que descendia de linhagem importante. Quando a rendição alemã foi assinada, estavam lá. Tinham lugar em museus. Hemingway dizia-se inspirado por uma quando escrevera um livro. Privavam com os membros da família real britânica. Eram disputadas por colecionadores. Já HB tinha um jeito modesto embora ambicioso. As suas origens perdiam-se no tempo, talvez um escriba egípcio que raspara com um estilete num papiro. Não nasci para isto, queria sempre dizer-lhe quando a via olhá-lo com desdém. Mas seria inútil. Ela estava-se nas tintas para ele. Miss Parker recolhia-se a um estojo de veludo nas horas vagas. Ele dormia em pé, misturado com outros num copo de estanho, numa promiscuidade colorida. Enquanto ela era chamada a escrever cartas de amor, a ele ...

Desafio dos pássaros #13: Endgame

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Fonte Batalha final. Três homens avançam apressados. São interceptados pelo Homem Formiga. HOMEM FORMIGA  (surpreendido) Sr. Scorsese?! SCORSESE  (olhando em volta) Deve estar a confundir-me com alguém.  HOMEM FORMIGA  E tu, baixote? Quem és? Tens um ar engraçado!  TOMMY (irritado)  Engraçado? Engraçado como? Como um palhaço? Divirto-te? É?  SCORSESE  Deixa-o, Tommy. Não estamos no Bamboo Lounge.   Homem Formiga  (examinando Bill the Butcher) Chapéu alto, amigo?! Algum casamento hoje?  BILL THE BUTCHER  Amigo? A que gangue pertences tu? Pelas antigas leis do combate nos juntámos neste chão sagrado para resolver para sempre quem governará os Cinco Pontos.  HOMEM FORMIGA  Cinco Pontos? As Jóias do Infinito, queres tu dizer. Não são cinco, idiota, são seis. BILL THE BUTCHER (irado)  Idiota és tu. Cada um dos Cinco Pontos ...

desafio de escrita dos pássaros #12: Aqueles pássaros não se calam!

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Fonte Na bagageira viajava uma televisão acabada de comprar na Black Friday. A casa da mãe fica no bairro dos pescadores. Raul, parado nos semáforos, foi assaltado por histórias antigas que ela contava. Ele era  filho do comandante Jota “Tubarão”, entregue não por uma cegonha mas por um albatroz. E a coruja que habitava a casa modesta e que caçava ratos melhor que um gato, enquanto ele dormia? Nunca a viu e não acreditava. Hoje, dia de aniversário, a mãe, vestida de negro desde que o mocho piara, sinal de número parnão no céu, assim antevendo a sentença do naufrágio, esperava-o acompanhada do gato que condizia com seu eterno destino. Tinham combinado uma sopa rica de peixe. A importância do jantar festivo acompanhado por uma garrafa de vinho foi disputada por um documentário sobre aves de rapina na nova TV. Raul bebeu para estancar a náusea dos abutres a limpar carcaças. Não tinha estômago para aquilo. A mãe parecia imune ao nojo. Alimentava um fascínio por rapaces. Tarde, à po...

Desafio de escrita dos pássaros #11: Sábado. Por Chernobyl

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Beijador (Helostoma temminckii) Bom dia. Permitam que me apresente: Chernobyl, peixe kinguio japonês. Ganhei o meu nome quando desenvolvi uma enorme bola na cabeça, um tumor. Até aí era simplesmente tratado por “Peixinho”. Hoje, com 13 anos, e 20 cm de comprimento, seria ridículo. Todavia, a única radioactividade a que fui exposto é a música clássica da Antena 2 que o namorado da mulher com quem partilho apartamento põe a tocar ao sábado, mal chega a casa. Nesse dia, a rotina altera-se radicalmente. A voz dele ecoa pelo ar e faz tremer as paredes de vidro do meu aquário. Um vero Parvarotti e um beijoqueiro. A primeira vez que o vi beijá-la pensei que ele a fosse matar. Na loja do shopping, há muito tempo, conheci um peixe-beijador. Guardava respeitosa distância, embora ele fosse agressivo apenas para com os da sua espécie. Afinal o homem é inofensivo, aquilo não era briga, antes preliminar do acasalamento. (Nunca os vi a procriar, nem quero.) À hora do almoço, ele é um mão...

Desafio dos pássaros #10: Já chegámos? Já chegámos?

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Fonte (Fuselo - Limosa Lapponica) “Já chegámos? Já chegámos?” O mundo unido numa redonda pergunta. 384.400 km. A raça humana embarcara, temerária, naquele Saturno esguio. A Águia aterraria em quatro dias, periclitante, no solo lunar. Alheia à História que se fazia naquela noite, eu viajava no berço dos meus sonhos enquanto na imaginação mundial acordava um universo de possibilidades. Na saleta, os meus pais controlavam o sono a poder de cafés e entusiasmados cigarros, ouvidos atentos à Emissora Nacional, olhos colados na TV a preto e branco. Aproximavam-se as quatro da manhã do dia 21 de Julho de 1969, era ainda a noite de 20 nos Estados Unidos, quando demos um pequeno passo no regolito lunar e nos lançamos no salto gigantesco que um dia, ainda longe, há-de resgatar a humanidade da sua extinção. Fomos em paz e em nome de todos. O mundo unido numa redonda conquista. Nunca fôramos tão grandes. O educador Charles Morton escreveu no séc. XVII um tratado sobre a migração das ...

Desafio de escrita dos pássaros #9: Mulher nua numa ilha deserta

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Fonte (Gaivota - Larus fuscus) No Verão anterior, Simão, 14 anos bem encorpados, acompanhara a primita Lúcia ao Casino para receber um jogo da Majora que ela tinha ganho no concurso. Neste, apostara com ela que ficaria em 1º lugar. Nunca supus ser a sereia que um dia o mar depositara nos braços daquele beirão moreno e de olhos pestanudos, quando, de férias na praia da Claridade, anos 60, as nossas famílias, a banhos, se conheceram. Mais novo, marinheiro de água doce no amor, a voz embargava-se-lhe quando me dirigia a breve palavra, o que eu tomava por juvenil timidez. E foi assim que acordei nua e só numa ilha deserta sem me lembrar de nada. Simão, ajoelhado, transpirava ao sol, a cabeça protegida por um boné, o tronco nu curvado. Movimentando os braços e mãos num afã amoroso, penteava os cabelos longos com os dedos, enfeitava-me o peito de conchas e búzios, acariciando cada curva com enlevo. O júri avisou bem alto o termo do tempo. Ele sentou-se junto a mim, deleitado. Quis...

Desafio de escrita dos pássaros #8: Uma carta para a criança que fui

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(Poupa - Upupa epops) Estávamos as duas sentadas frente ao mar, eu e a folha branca de papel. Ansiosa sem saber. Macia. Pura. Original. À espera do risco que lhe ia acontecer. Era uma vez uma maçã talvez. E um traço. E outro. Um telhado? E um ovo deitado. Dois gomos de laranja, mais um triângulo bem afiado. Duas linhas de pé. – O que é? – Um pássaro. – E voa? – É pequeno ainda! – Deixa-o tentar... – E se cai da folha e fica magoado? E se tomba ao chão e deixa de cantar? E se morre de desgosto por não saber voar? – Amanhã, então. – Ajudas-me? –Tens de ser tu. Grande é a vontade de voar! Toca a recomeçar. Cabeça e coração alinhados no lugar. Mas aquela mão desobediente, sem mãe nem pai nem Deus que a oriente. Uma. Duas. Três, toca a riscar. Ai Mão-Cega, ai que jogo mais difícil de jogar! Quatro, cinco, seis, vai de apagar. Rasga-se a folha infernal. Voa a bola de papel amassado em vez. Faz ninho do cesto onde pousou. E o pássaro que havia de ser? Hibernou. ...

Desafio de escrita dos pássaros #7: Compota de abóbora e amêndoa

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(Rola Rola-brava- Streptopelia turtur) Fonte Constança, uma fulva trintona, foi comprar uma máscara capilar hidratante. Joana colocou sobre o balcão um frasco de compota de abóbora biológica com amêndoa. – Está em promoção, – disse. O patrão queria livrar-se daquele stock quase no fim da validade. Constança recusou: não precisava. – Ora – continuou a empregada – precisa, sim. É adoçada com stevia . A abóbora é rica em vitaminas A,C e E, e potássio, além de ter propriedades antioxidantes. Nutre e retarda o envelhecimento do cabelo. E protege dos danos do sol. Aplica após a lavagem, faz uma pose de 3 minutos e enquanto espera faz esfoliação corporal graças à amêndoa de Foz Côa. E para evitar o desperdício chama a sua amante para lamber o seu doce e goza um orgasmo extra. É 3 em 1! Constança, vegetariana, cliente habitual da única loja vegana do bairro, achou que Joana tinha andado a fumar erva mais poderosa que o habitual tabaco. Ainda que nova ali, costumava esticar-se na orató...

Desafio de escrita dos pássaros #6: O Amor, uma cabana… e um frigorífico.

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Arara Vermelha (Ara chloropterus)  Fonte – Apresento-vos o Marquês. É Português. Vai ajudar-nos à festa, mais logo – disse Luísa, retornando à cozinha. Na sala, os convidados acercaram-se dele mas isso não impediu o Marquês de notar uma pequena encantadora, de verde esmeralda, no extremo da mesa. A curva pronunciada da sua cintura parecia esculpida mesmo à medida da mão de um homem. Luísa trouxe o bolo de aniversário por si confeccionado para Norberto. Como se tivesse adivinhado os pensamentos do Marquês, conduziu-o e ao seu objecto de desejo até à cozinha. Fechou a porta e a luz atrás dos dois. A luminosidade das velas entretanto acesas na sala a todos envolveu numa atmosfera aconchegante ao redor da mesa. – Parabéns a você... – começou Luísa, logo seguida dos convidados. O aniversariante, de cabelo acinzentado curto e denso, cantava, sorrindo: – Nesta data querida… De repente... – Muitas fe-fe... ...voltou ao princípio. – Parabéns a você… Todos riram...

Desafio de escrita dos pássaros #5 - Engarrafamento no purgatório

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Águia careca ( Haliaeetus leucocephalus) Fonte À minha frente, na fila, o inconfundível Mercedes-Benz 70K Grosser Offener Tourenwagen está parado na portagem da auto-estrada. IA v 148461. O branco da chapa de matrícula daquele sarcófago negro e cromado fere-me a vista. A capota recolhida deixa ver o casal sentado no banco corrido. Apeio-me do meu híbrido batido e passo por eles a coxear a caminho das cabines da portagem. Espreitei pelo canto do olho para confirmar a suspeita. Hitler e Eva conversavam felizes, alheios ao desconcerto de buzinas que soava à sua rectaguarda num cortejo interminável. - Hou portageiro? Houlá! Hou!...- chamei, acenando a mão para a cabine branca envidraçada. - Ah, portageiro! Não me ouvis? Respondei-me! Os sinais luminosos da portagem continuam vermelhos quer para a direcção CÉU quer para a direcção INFERNO. À minha esquerda, as muitas faixas da via em sentido inverso estão desertas. - Hou lá da portagem, hou lá! Que aguardais? - gritei mais a...

Desafio de escrita dos pássaros #4 - A Beatriz disse que não. E agora?

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Corvo ( Corvus corax) Fonte Dois levaram-na até à mesa quadrada e forçaram-na a sentar na cadeira. À sua frente, sentado noutra, o homem vendado sorria de boca fechada. O Outro, que não mais pararia de andar à volta deles como um cavalo num redondel, acercou-se dela pelas costas e, puxando-a pelo queixo com uma mão, penteou-lhe os cabelos para trás com os dedos da outra, quase carinhosamente. - Sim ou não, Beatriz? Silêncio. - Arménio, continua. O homem ergueu a mão direita acima da cabeça grande. - Ouço dizerem que torturamos pessoas. Fico triste. Nós apenas as convencemos a dizer a verdade. Beatriz estremeceu. - Vamos. As duas mãos sobre a mesa. Dedos bem abertos. Olha, assim, como estrelas do mar. Já falámos disto antes. Em Beatriz nem os olhos pestanejam. - Vamos lá, Beatriz. Não me obrigues a usar de novo a força. Beatriz cumpre. Levanta os braços que lhe pesam toneladas e deslisa-os sobre a superfície de madeira. Então o homem vendado baixa o seu braço...

Desafio de escrita dos pássaros #3 - Um momento marcante

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Fonte  Rabirruivo preto (Phoenicurus ochruros) 2007. Estavam juntos há 453 dias, 2 horas e 34 minutos. Ela adormecera à sombra do guarda-sol, ele banhava-se de luz, os corpos a desenharem um ângulo recto. Os pés de Isabel descansavam sobre o azul dos calções de praia dele. José soerguera a cabeça ao assobio do nadador-salvador. O seu olhar encalhara nos pés morenos dela. Uma nuvem tapa o sol e o ar arrefece. A sombra percorre vagarosamente o areal. O apito soa de novo. José ergue o tronco apoiando-se nos cotovelos. Um incauto que mergulha com a bandeira vermelha hasteada. Ajeita-se para se deixar ir ao encontro da toalha quando repara nela. Como é que nunca a tinha visto? O banhista sai das ondas de calções colados ao corpo e o nadador-salvador aproxima-se. José não os consegue ouvir e a sua atenção retorna ao pé de Isabel. Até àquele momento imaginava-se capaz de navegar o corpo daquela mulher de olhos fechados. Num segundo, o pé direito de Isabel envolvera aquele final d...

Desafio de escrita dos pássaros #2 - O amor e um estalo

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Pisco de peito ruivo (Erithacus rubecula) Fonte  - Foda-seeeee! Marta! Mas o que foi isso? Óscar agarrava-se ao nariz dobrado sobre si mesmo. Aquela dor e o ardor que sentia na face esquerda confundiam-se. A rapariga, afogueada, imobilizara-se, as mãos sobre a boca numa oração, os olhos muito abertos a suplicarem desculpas: - Amooorr – pronunciou, arfando, - amor. Foi até ao quarto de banho a cambalear. A luz ligou-se e em frente ao espelho o jovem examinou-se. Os olhos lacrimejavam. Observou que pequenas gotículas de suor reluziam sobre a testa. Havia uma pequena mancha escura sobre a pele que cobre o osso zigomático ali onde a barba por fazer começava a desenhar-se. Decerto um pequeno corte que deixava o sangue aflorar. As unhas da sua mulher, pensou. E quando é que ele teria coragem para lhe dizer que detestava aquelas extremidades decoradas? A doce Marta ia todas as semanas à Julinha cuidar daqueles apêndices. Tinha orgulho naquilo. Aparecia-lhe com desenhos coloridos...

desafio de escrita dos pássaros #1: Problemas, apenas problemas

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 Pardal - Comum ( passarus domesticus ) Fonte O pai acordara novamente de rabo para o ar. O Luisinho ouvira esta expressão na boca de uma auxiliar do Jardim de Infância e, desde que a mãe lhe dissera para não dizer rabo, nunca mais ousou pronunciá-la. Estavam a tomar o pequeno-almoço, já vestidos para sair. - Pai, sabes qual é a diferença entre um gafanhoto e um louva-a-deus? - Bebe o leite antes que arrefeça, filho. - Mas, pai, eu bebo sempre o leite frio, pai. O pai segurava o pão integral com a mão esquerda e mastigava roboticamente cada dentada. A mão direita elevava a chávena almoçadeira à boca como a pá da máquina escavadora nas obras da rua da escola. O seu olhar andava longe. - Bebe isso, filho. O trânsito está difícil junto da escola. Queres chegar de novo atrasado? O Luisinho fitou o íman no frigorífico: “Não cresças. É uma armadilha.” Sempre que a mãe ia aos congressos internacionais, o pai ficava estranho. Desta vez perguntou-lhe o que ele tinha. - Proble...