24/02/20

Um criança teve um gesto de fair-play no futebol



O meu pai, aos Domingos de manhã, levava-me aos treinos do Braga, num campo pelado, e por vezes até ao 1º de Maio, ou mesmo a alguns jogos. Nesse campo pelado a minha atracção principal não eram nem o jogo nem os equipamentos vermelhos dos jogadores, eram os pacotinhos cónicos e coloridos de amendoim caramelizado que ele me comprava, e os rebuçados de caramelo partido em pedaços, envoltos em vegetal colorido e franjado, além dos chupas com espadas de plástico neles espetadas, tudo fabrico artesanal. Para decepção paternal, a minha irmã não seria dada à modalidade e eu nunca fui fã da bola, mas até gostava de jogar futebol com os meus amigos, que me adoptavam na minha ineptitude para o desporto-rei, nos "feriados", isto é, quando os professores faltavam. Corria que me matava mas nunca chegava ao golo!

Os brasileiros têm uma palavra gira que é "xingar", que adoptei, e que por uso frequentemente em vez de "achincalhar". Tal como nós, também adoram futebol e são exímios nos xingamentos no relvado. O meu contacto com o asneiredo na eira futebolística fez-se bem cedo, ao vivo e a cores, nos recintos desportivos do Sporting de Braga. Estava proibida de usar as palavras feias dos adultos mas isso não me impediu de ter cedo arregimentado um leque de palavrões como "burro", "camelo" ou "perneta" que usava quando entendia. No campo pelado, eu costuma circular por vezes até junto dos eucaliptos, para me divertir a apanhar frutos cheirosos do chão. Pelo ar andavam sempre as palavras feias que durante algum tempo eu pensava serem apenas ditas pelos pais dos outros, não pelo meu, já que em casa ele não usava palavras feias e nem me autorizava o seu uso. Um dia lá lhe escapou um "Sai-me da frente , ó meu filho da puta!"quando seguíamos de carro pela cidade. Imagino que deva ter aberto muito os olhos de espanto quando descobri que o meu pai era igual aos outros. Estava assim também identificada outra área onde o "xingamento" tinha livre trânsito: a da condução  automóvel. Ele seguiu viagem, o outro também, depois de lhe mostrar o dedo do meio. Por causa desse incidente, durante uns tempos pensei que as palavras feias só se podiam dizer fora de casa. Devia ser qualquer coisa que andava no ar que provocava aqueles desabafos. Se nos campos de futebol a culpa era da bola, no trânsito a culpa seria sem dúvida dos automóveis. Isso, os automóveis, pois no tempo dos cavalos e das carruagens não havia lugar a impropérios. Os cavaleiros só diziam "Ya!Ya"", enquanto esporavam o cavalo e agitavam o chicote, era o que eu via nos filmes, logo, a boca estava sempre demasiado ocupada e não ocorria a ninguém injuriar o comparsa que seguia à frente, sem pressa.

No futebol é habitual árbitros, bandeirinhas e jogadores, ou até treinadores, serem agraciados de mimos vários, "filhos da puta" e "ladrões" ou "gatunos", talvez os mais comuns, replicados em coro até à rouquidão, pelos adeptos. A regra é não serem tomados como sinal de desrespeito ou ofensivos, são coisa natural, um excesso de linguagem aceitável no exercício do direito a incentivar e defender a equipa por que torcem fruto da sua paixão futebolística. Não devem esses profissionais dar parte de fracos e dizerem que sentiram um dano moral por tal facto. Aquilo vem com a profissão. São ossos do ofício. A sociedade aceita e legitima esse tipo de conduta, valorando-a positivamente, sendo comum a defesa de que a injúria no recinto desportivo é um escape que os pobres homens e mulheres têm para as suas frustrações. Antes isso que o álcool ou a droga. Aos que não frequentam os recintos desportivos resta o último recurso aos psicólogos e aos fármacos para obter a cura ou o alívio das altas pressões do seu tortuoso dia-a-dia! Esta ideia de que o insulto no futebol é uma espécie de remédio para as tensões acumuladas bem que podia ser explorada para fazer diminuir a dependência de ansiolíticos. Porque não abrir por aí umas clínicas que fizessem a terapia do palavrão, nada de muito diferente da terapia do riso? Bem gostava de acreditar que chamar "filho da puta" a alguém aos Domingos me resolveria os meus problemas assim como os pecadores os resolvem na confissão.

No entanto, se não forem os adeptos e antes os protagonistas do evento desportivo a xingarem o árbitro que marcou um penalti injusto contra o seu clube, aí ele já é capaz de sacar dos seus cartões pois o que era aceitável aos adeptos logo deixa de o ser: quem é que manda ali senão ele? É um pouco difícil para uma criança perceber estas nuances: se o jogador chama filho da puta ao árbitro é censurado, se é um adepto a chamar-lhe filho de uma meretriz, não é; se é o pai a chamar nomes ao condutor no trânsito, não é censurado, se for ela a chamar nomes na escola, fica de castigo. A sociedade, é, realmente, complicada de entender, pelas crianças. Mas parece que os adultos também andam, cada vez mais, às aranhas.

Mais tarde, comecei a perceber com que língua se fala e descobri preciosismos no insulto que a infância e a adolescência ainda não tinham conseguido discernir. Há o "filho da puta" e o "filho de puta". Se o árbitro é filho DA puta então é claro que estamos a dizer que a sua mãe se dedicava à mais velha profissão do mundo, censurável aspecto profissional que eliminava logo qualquer possibilidade a um filho até nascido fruto do amor dessa mulher por um companheiro ter uma filiação digna; ou então que ele foi fruto de um qualquer trânsito comercial sexual de ocasião, pouco abonatório, nascido por motivo fortuito e não desejado, sem ser reconhecido pela fgura masculina, razão suficiente para ser vergonha para os outros e ter vergonha de si mesmo; se lhe chamamos "filho de puta", pior, o desgraçado do árbitro é alguém que nem sequer sabe ao certo de onde é que terá vindo, desconhecida a progenitora, uma qualquer, embora seja certo que sempre de mulher perdida, sina que acompanha a prostituta desde os alvores da história, até à actualidade, quando ainda existem legislações que punem criminalmente quem a tal ocupação se dedica. Ser prostituta era uma actividade tão social e moralmente reprovável que ganhava o peso de sentença, condenando a futura prole da mulher ao opróbrio de ser igualmente tão reles como a sua progenitora. Assim qualquer indivíduo nascido de mãe puta carregaria com a dupla vergonha de ter uma mãe sem honra e de ser um filho da vergonha, por tal ocorrência, uma vítima por força desse destino. Filho de uma mulher de segunda categoria, seria ele, também, um homem de segunda classe. A um árbitro que penaliza injustamente o adversário chamar incompetente é pouco mais que dizer nada. Há que chamá-lo então de filho da puta o que, de facto, nada diz sobre o mérito profissional da decisão, mas, supostamente, diz tudo em termos de desumanização.

Mas nem todos os homens são iguais, nem todos os que andam pelos relvados  estão prontos para aceitar a desumanização que tal insulto significa sem espernear. Um treinador sentiu-se insultado por um delegado ao jogo que lhe disse: "Vai lá prá barraca, vai mas é pó caralho, seu filho da puta!" e foi a tribunal cobrar o respeito que não lhe deram ali. Infelizmente, tempo perdido. O magistrado entendeu estarmos perante “um comportamento revelador de falta de educação e de baixeza moral e contra as regras da ética desportiva (…)" mas que "é também ele, de alguma forma, tolerado nos bastidores da cena futebolística”. O Tribunal da Relação de Lisboa julgou que “não se podem considerar que tenham atingido um patamar de obscenidade e grosseria de linguagem, nem que tenham colidido com o conteúdo moral da personalidade do visado, nem atingido valores ética e socialmente relevantes do ponto de vista do direito penal”. E pronto. Lá foi o treinador pedir uns fármacos ao psicólogo para conseguir superar o vexame de ter sido chamado "filho da puta" e de não lhe terem dado razão no tribunal.

Mais tarde ainda, na faculdade, tive ocasião de chamar as palavras feias pelos nomes jurídicos: eram crimes contra a honra, calúnias, difamações ou injúrias, estas últimas, os tais palavrões, ofensivos da honra ou consideração de uma pessoa. Chamar "sacana" a alguém é demonstrar pouca cortesia mas não a atingir a honra dessa pessoa. Por vezes, um palavrão pode não ter peso suficiente para atingir uma tal gravidade que possa ser alvo da atenção do direito penal. É preciso avaliar a relação entre as pessoas envolvidas na troca de galhardetes, o contexto ou situação e o modo como foram ditas as palavras para concluir se o palavrão é mesmo ofensivo. Tratar alguém por "filho da puta" não é apenas uma mera manifestação de falta de civismo, educação ou cultura, é uma ofensa. Só não é se o ofendido e o ofensor tiverem um trato que lhe retire esse valor. Imagine-se, por exemplo, no norte do país, onde é muito vulgar as pessoas amigas dirigirem-se umas às outras dizendo "ó meu caralho, estás bom? ", alguém que assim procede, vir depois dizer que se sentiu ofendido quando um amigo lhe disse que "ele não valia um caralho..." Assim é, que muitos homens, de todos os estratos sociais, culturas e idades,  se tratam por "filho da puta" de forma companheira e carinhosa. Neste território dos insultos, nada é simples, carago.

Simples é constatar que nos estádios o insulto ganhou uma aura de impunidade e até de festividade, algo que acrescenta colorido ao espectáculo. Já não chega a exibição dos craques para entreter os adeptos. Sem o direito de insultar o adversário e mesmo os agentes desportivos, o jogo não teria a mesma piada. E quando a agressão verbal não chega, até partem para a física. Faz parte da festa e ai de quem disser o contrário. O que me parece é que no futebol as regras deixaram de valer e a do respeito pela dignidade do outro é apenas uma delas. O futebol transformou-se no espectáculo-negócio onde vale tudo, o altar moderno onde cabem todos os sacrifícios ao deus-dinheiro pelos envolvidos nessa religião,  o circo da alienação das massas, sobretudo daqueles indivíduos que a sociedade enjeita e que ali encontram um ritual para, semana a semana, se sentirem integrados. Afinal, o futebol é apenas um espelho da sociedade. A sua mensagem: o que importa é vencer, vencer a qualquer custo, tal como acontece em outras áreas profissionais, onde as pessoas esqueceram os valores que deviam informar as suas condutas e são muitas vezes arrastadas para o ilícito pela sua ambição desmedida.

Somos assim coagidos a aceitar que a paixão pela bola, seja lá o que isso for, promove toda esta exaltação linguística e que isso faz parte da festa. Mas, mesmo se um juiz entendeu que chamar "filho da puta" a um polícia não é ofensivo , eu olho para essa sentença com dúvidas pois entendo que sendo um agente da autoridade, merecia respeito, tal como um árbitro de futebol, que também é um agente da autoridade à sua maneira, devia ser respeitado. Por isso estranho que os árbitros aceitem os cânticos que crescem dos anéis dos estádios - filho da putaaaaaaaaaa, filho da putaaaaaaaaaaaa - em tantas ocasiões em virtude da tal celebrada tolerância social, claro. Estranho também que quem concorda com isso não preocupe levar as crianças aos jogos e que elas assistam a essas manifestações de exacerbado linguajar como se o desporto não pudesse passar sem elas e isso fosse uma coisa enriquecedora e normal. Insultar é sempre uma forma fraca de mostrar domínio sobre os outros, quem insulta sempre diminui o outro de alguma forma, atacando os seus pontos fracos. Certo, um adulto pode tratar outro por "cabrão" e isso ser sinónimo de afecto. Mas como se concilia o insulto com aquela bonita ideia de que o futebol é uma escola de valores, que o é, - ou devia ser - como qualquer desporto de equipa, promotor do trabalho em equipa, da união, do espírito de equipa, da superação individual - se o insulto em campo, mesmo que não seja ofensivo pelo uso tolerado, nunca é afectuoso e antes, sempre, uma arma de arremesso contra um adversário?

Se não erro, o futebol é um espectáculo para maiores de 6 anos e os maiores de 3 e menores de 6 até podem também entrar nos estádios, sob certas condições. Ora, assistiu-se a semana passada ao escândalo Marega, provocado pela entoação de cânticos de teor racista por parte dos adeptos, aos quais o jogador reagiu saindo do campo. Pergunto se alguém, hoje, ainda tem sequer a ingenuidade de pretender resguardar as crianças da linguagem palavrosa tão corrente no espectáculo da bola, sejam insultos simples ou racistas, sendo ela considerada tão normal e aceite por todos. Também nos pavilhões e noutras provas, até nas escolas de formação desportiva, se verifica a sua utilização quer pelos jovens atletas quer por pais e treinadores. Que êxito terão os pais junto dos filhos ao pedir que não façam como eles, os adultos, homens, mulheres, se eles os viram e ouviram unidos naquela camaradagem linguística?  Como impedi-los de repetir essa linguagem nos pavilhões gimno-desportivos das escolas, durante a prática desportiva? Qual a importância desse exemplo na formação da criança? Não espanta que dantes os miúdos começassem no "palhaço", "palerma", "burro", "camelo", e hoje concorram de igual para igual com os adultos verbalizando os clássicos "filho da puta" ou mesmo o "cabrão" como gente grande. 

A culpa não é do desporto, acho eu, não é do futebol. O futebol é a vítima. O panorama desportivo está de tal modo podre que foi notícia o facto de uma criança ter tido um gesto de fair-play. Sendo essa a norma que devia reger o futebol, foi então o que devia ser a normalidade que foi enaltecido ao ser apontada a atitude do atleta porque, de facto, o fair-play é coisa rara, o desporto-rei perdeu os seus valores. Não, não o desporto. Os adultos é que perderam os seus valores e as crianças, imagino, na sua pureza de ideais, tentam resistir mas talvez não lhes seja fácil, e é por isso que um gesto de fair-play foi uma notícia. Mas se uma criança foi exemplar, ainda há esperança, e que ela seja o exemplo que falta aos adultos para repensarem o que é que andam a fazer ao futebol.

"Aconteceu há poucos minutos, em Benjamins da AFL - Sporting / Benfica. O árbitro teve a ilusão (eu também!) que tinha havido "braço na bola" de um miúdo do Benfica. Assinalou pontapé de penálti. A imagem sugere a infração, mas na verdade a interseção foi mesmo de cabeça. O jovem do Benfica chorou. E um adversário teve um gesto raro que merece o aplauso e a partilha de todos nós: disse ao juiz que o corte tinha sido mesmo feito com a cabeça. O árbitro teve a humildade de corrigir a sua decisão e exibiu, muito bem, o CARTÃO BRANCO ao craque do Sporting. Estes miúdos são o exemplo perfeito do que devem ser os adultos, nos dias de hoje. Que em véspera de mais uma jornada que se antevê muito quente e de excessos, esta lição fantástica das crianças seja uma inspiração de fairplay para todos nós, adultos. Chapeau."






22/02/20

Texto de Bruno Nogueira sobre a eutanásia apagado do Facebook




Na passada quinta-feira, dia 20, cinco projectos de lei sobre a despenalização da eutanásia, apresentados pelo PS, BE, PEV, PAN e Iniciativa Liberal, foram aprovados na Assembleia da República. O humorista Bruno Nogueira publicou um texto que foi denunciado por utilizadores e posteriormente apagado. Bruno Nogueira reagiu: " Maravilhoso mundo livre."


"A lei que foi hoje aprovada na assembleia sobre a despenalização da eutanásia é um grito importante da liberdade individual de cada ser humano. Ainda falta muito caminho, mas a noite fez-se mais clara. Os que são a favor hão de poder, finalmente, tomar essa decisão, que só diz respeito a quem a toma, e os que são contra podem tomar a decisão de optar por um fim diferente para a vida, se assim o entenderem.

É uma lei bonita em que ninguém sai a perder, e é isso que custa a entender nos adeptos fervorosos do não: a incapacidade de perceberem que o melhor para eles não serve toda a gente. Que a vitória do sim não os obriga a escolherem a eutanásia como solução final. Que a ideia de corpo decomposto e em dor física ou psicológica até um final divino é uma ideia que pode servir uns e revoltar outros. Que sofram os que querem esse caminho (não há julgamentos morais), e que partam com hora marcada os que querem dar por findo o capítulo.

Cuidar da vida é também deixá-la quando ela nos trai. Negar a morte a alguém não pode ser assunto de quem vive com o corpo todo. Hoje ganhou a liberdade de escolha, para o sim e para o não.

Será que uma vida só termina quando o coração se demite das suas funções? Um dia também eu terei essa pergunta por perto. E felizmente, se tudo correr bem, poderei ser eu a escolher a minha resposta."


Adultos que não querem crescer


A moderação de comentários é de suma utilidade. Comentários que não apresentam críticas construtivas, que se resumem a manifestações primárias de desrespeito do tipo que me faz duvidar se alguns dos comentadores terão mais neurónios no cérebro do que um animal  invertebrado, não chegam a ver a luz do dia.

Os neurónios são o material de que se compõe qualquer cérebro. Formam uma rede por onde flui e é processada a informação. É assim que tanto o homem como uma lesma respondem aos mais variados estímulos do seu ambiente de forma adequada. O número de neurónios presentes nos cérebros das criaturas terrestres varia. O cérebro da lesma marinha Aplysia californica contém uns milhares de neurónios, o cérebro humano, maior, contém bilhões de neurónios. Mas, por exemplo, as abelhas com os seus cérebros minúsculos são capazes de executar tarefas mais complexas do que o alce que tem uma enorme cabeçorra.

A ciência levanta hipóteses interessantes acerca do  tamanho não ser o que mais importa.  Dois cérebros de mesmo tamanho podem ser diferentes e ter diferente quantidade de neurónios. Isto sucede porque a estrutura do cérebro não é homogénea. Por tal, entre dois cérebros, um maior não tem necessariamente de ter mais neurónios que um menor. E o mais extraordinário: o homem tem um cérebro de primata, entre eles, o maior, mas, sobretudo, mais neurónios corticais do que qualquer outra espécie. E é isto que é decisivo de acordo com a tese da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel. O elefante até tem mais neurónios que o ser humano, mas não no cortex, área responsável por acções complexas.

Outra hipótese que adianta é que quantos mais neurónios, mais tempo uma espécie demora a chegar à adolescência. Daí uma ideia surpreendente e que é a de que as transformações que as crianças sofrem ao dar o salto da puberdade  não são apenas resultantes de processos hormonais, nem mesmo as reacções e comportamentos tradicionais da adolescência - o afastamento dos pais e a aproximação dos grupos, a vontade de correr riscos, as decisões impulsivas, a incapacidade de planeamento, etc - se podem explicar sem relevar que tal se possa dever ao facto do cérebro e seus processos cognitivos ainda estarem em desenvolvimento. Quanto mais neurónios uma espécie tiver, mais tempo o cérebro é "infantil", mais tempo passa a aprender, a preparar-se para a fase adulta. Por isso devíamos ser tão indulgentes com os adolescentes como somos com as crianças e não pensar neles como adultos em miniatura, julgando-os, por vezes, com uma severidade irrazoável, diferente da normal disciplina de que não se deve abdicar.

Apenas estou a ser uma idiota, claro,  quando faço comparações entre comentadores sem tino e as pobres lesmas marinhas. Além do mais, as lesmas com o seu reduzido número de neurónios, ainda não inventaram o desrespeito, mas nós, com muitos mais, ainda não conseguimos aprender o que é respeitar os outros, ou a opinião dos outros. É vergonhoso que após anos de evolução os seres humanos ainda não consigam utilizar tanto capital evolutivo. E ainda mais escandaloso que estando agora o acesso à informação na mão guardado no bolso e à mão de uma vasta maioria, inseparáveis que nos tornámos dos nossos telemóveis "espertos", essa relação de apego não se traduza num clique extra para aprender mas já seja tão ágil e pronta para mostrar que se é ignorante, além de mal formado, já que uma coisa é não saber, e outra é ser vil, maldoso ou mesmo desumano. E outra coisa ainda é a demonstração de total ausência de inteligência emocional em meia dúzia de palavras, sendo evidente para mim, que muitos adultos ainda estão na infância quando disso se trata.

Aristóteles, mais conhecido como o pai da filosofia ocidental, também foi um estudioso dos seres vivos e da natureza, deixando muitos escritos sobre biologia e zoologia. Mais pensador que cientista, é, no entanto o primeiro a fazer uma classificação dos animais que prevaleceu até meados do século XIX. Separou-os entre os que tinham e não tinham sangue, isto é, vertebrados e invertebrados. Os primeiros, divididos ainda em dois grupos, os que faziam gestação em si mesmos e os que se reproduziam em ovos. A classificação dos invertebrados em insectos, crustáceos e moluscos é tida por mais precisa que a de Lineu, que os dividiu apenas em insectos e vermes. Aristóteles considerava que os polvos eram criaturas estúpidas que se aproximavam da mão humana assim que esta mergulhava na água. Mas ele tinha toda a desculpa do tempo em que viveu: não tinha como saber mais. Apoiava-se em meia dúzia de escritos, dependia quase inteiramente dos seus neurónios, do seu método descritivo e interpretativo. Mas nunca se bastou com a superficialidade e dentro das limitações da sua época foi brilhante. Hoje a ciência informa que o polvo é bastante inteligente e estou certa que ele teria delirado com a descoberta. Mas muitos de nós, quando a ciência lhes mostra novas evidências, ou fornece hipóteses incríveis, não fazem sequer um esforço para entender, preferem fingir que não percebem ou combatê-las.

Ser esperto não é fazer contas de somar, seguindo uma tabuada, é, sobretudo, ter agilidade mental para pensar e resolver problemas sem ter um mapa do tesouro. Ora, parece que confrontado com dificuldades, por exemplo, clausuras em laboratórios, os polvos encontraram o caminho para a liberdade. Mas alguns seres humanos, face a face com a mudança dos tempos e outras formas de entender a vida, novas informações, novos desafios, preferem ficar-se eternamente a contemplar o passado, quem sabe se nunca saíram de lá mesmo, prisioneiros de um tempo em que os seus antecessores primatas ainda nem sequer se tinham tornado bípedes e descoberto o fogo.

Sugestão de leitura:

Senciência em invertebrados: Uma revisão da literatura neurocientífica, aqui
Quanto mais neurónios uma espécie tem no córtex, mais tempo ela leva para chegar à adolescência, aqui
Quantidade de neurônios explica a superioridade da inteligência humana, aqui

20/02/20

Antigamente não havia bullying?



Circulava aí há dias um texto - que não sei de quem é graças àquela prática que muitos têm de copiar ignorando o nome, substituído por um "ouvido por aí" , - onde o autor,(?)  a propósito da "diferença", se queixava do estado de "agora"  e puxava o lustro ao "antigamente" , "um tempo onde nenhuma criança queria ser igual às outras. Dizia que então as crianças aprendiam a rir de si mesmas quando alguém lhes chamava nomes. Que aguentavam firme ou, se não gostavam, então lutavam para mudar. Que não se culpavam nem os outros nem a sociedade, como agora acontece. Nessa luta, uns falhavam e ficavam para trás, outros venciam."

Julgo que o texto tenha sido escrito por quem não guardou memórias difíceis dos tempos da infância e adolescência, daquelas que se agarram a nós para futuro fruto da nossa impotência para lhes ter conseguido fazer frente. Calçar os sapatos do outro é sempre difícil, compreendo. E a crítica ao presente até a subscrevo, ainda que não na íntegra, é verdade, hoje basta uma criança puxar o cabelo a outra e a melindrada telefonar para casa que mãe ou pai ou tia aparecem logo ao portão da escola em socorro. (Já acorrem com menos celeridade  quando são os professores a ligar por causa da má educação dos filhos.) Fomos da consideração das provações do crescimento como totalmente irrelevantes  à sobrevalorização genérica de todos os queixumes dos infantes. Escrever que se tem "saudades do passado", todavia, equivale a dizer que está certo ignorar queixas, sabe-se lá com que consequências, e por outro lado a retirar importância a um entendimento que, apesar de tudo, é mais que necessário num presente de dinâmicas  muito  diferentes de então, e onde, além dos velhos problemas vão surgindo novos. Tem certa razão o autor, pois tem, hoje é tudo bullying, mas antigamente muito havia que era bullying e ninguém queria saber: era tudo "educação".

Hoje anda aí a circular um video de uma criança de 9 anos em lágrimas a dizer que se quer matar. Foi o que me motivou a escrever isto, sendo impossível escapar à consternação daquelas imagens. A mãe filmou o vídeo no cúmulo do desespero, não sabe o que há-de fazer mais para garantir que os outros respeitem o seu filho. Apela à comunidade, aos educadores, aos professores, a todos, por acções, por ajuda. Não creio que essa criança do video queira ser diferente das outras ou que alguma vez venha a aprender a rir quando ouvir os outros a chamarem-lhe nomes como baixote ou deficiente ou atrasado ou o que quer que a inteligência fértil das crianças para o mal, - e jovens, e adultos, - encontre para o importunar. E quem deve essa criança culpar? A si mesma porque nasceu diferente?! É errado proteger alguém que não tem forma de reagir perante o mais forte porque era assim no "antigamente"? Que sofra, que se fira, ou que se mate? Era melhor quando não havia vítimas, nem bullying, nem nada, - como diz o tal texto? Que  lei então existia senão a dos mais fortes sobre os mais fracos?  É isso que deseja para os seus filhos, se os tiver,  mesmo que não tenham "defeitos" ou "alcunhas", como ele diz, o autor do texto? Deixá-los entregues à tranquilidade do "antigamente" porque  no tempo do "agora" em que todos queremos ser ouvidos, em que todos merecemos ter voz,  não encontra qualquer préstimo?  Que bons eram tempos do "antigamente" onde ninguém chorava quando lhes chamavam nomes. Pois não. Sofriam silenciosamente, sem incomodar, engolidos na vergonha, no medo, no sentimento de fracasso, na frustração, na dúvida, na solidão, o que era tão melhor para a maior parte da sociedade que assim podia folgar iludindo-se de que tudo estava bem. 

Yarraka Bayles, mãe de um menino de 9 anos, com nanismo, filmou um video doloroso para que todos vejam o que o bullying faz. Não, eu não tenho saudades dos tempos do "antigamente", onde eu estendia a minha mão a reguadas que até hoje sinto a arderem como injustas. E isso nem sequer era bullying, era apenas educação à antiga. Mas ainda menos saudades tenho dum presente onde se anseia pelo passado, só porque isto de estarmos sempre a levar com "ismos" a toda a hora, é muito aborrecido. Ah, pois é. Agora imaginem o aborrecimento que é para quem é alvo de bullying, ou  "ismos" ter de ouvir chamar nomes a toda a hora. Tenho é mesmo muitas saudades do futuro, isso sim, que espero seja melhor para as crianças, jovens e adultos vítimas de abusos. Talvez ele lhes traga a devida empatia por parte de todos.

Ainda na primária os meus pais foram confrontados com a minha recusa em ir à escola. Sempre fui boa aluna, não gostava de números, mas eles não me amedrontavam, safava-me. Gostava muito de escrever e desenhar. O meu problema era o João, um puto ruivo e sardento, que me importunava de toda a forma e feitio. A situação resolveu-se com o meu pai a levar-me à escola quase por uma orelha e a ameaçar o rapazote, que já estava à espreita, à entrada do portão, ele que me perseguia por todo o recreio e da escola até casa, inclusivamente chegámos a jogar à pedrada na rua e não era brincadeira, era mesmo a ver se algum rachava a cabeça do outro. Eu era resistente, mas nem tanto, lutadora, mas nem tanto. Quando se me acabou a força, tive o meu pai, o meu herói, a defender-me. Mas muitas crianças não tiveram os pais, os professores, enfim, os mais velhos, a ouvi-las e a compreendê-las, a interceder por elas, nem a minha resistência, era assim. Isto era o que hoje se chama bullying, uma expressão nova para um assunto velho, renomeado pela modernidade.

Mais tarde, com as aulas de educação física, observei como eram tratadas as crianças gordas, - que o tal texto também menciona. Ali eram despidas das suas vantagens: de nada lhes valia a sua simpatia bonacheirona ou as folhas que sempre tinham para "emprestar" aos colegas nas aulas, ou os chocolates que dividiam com os outros no intervalo. Eram apenas os seus corpos contra os aparelhos, as fitas métricas e o cronómetro, num combate sem glória, sem sequer possibilidade de recurso a cábulas ou truques. A solidariedade do exíguo grupo de amigos ficava esquecida no balneário e os adultos eram indiferentes. Ali chegados era como que a consagração da vocação dos gordos como alvo de gozação por todos. E isso era entendido como normal porque as crianças gordas faziam perder pontos. Ninguém as queria ali mas não se podiam mandar embora.

As alcunhas por vezes eram como medalhas que as crianças ganhavam à ida para a escola e que depois acompanhavam os adultos pela vida fora, até à morte. O Zé "Gordo" Manel quando casou, os seus membros alongados e corpo enxuto, há muito a infantil gordura sumida, continuava a ser o Gordo. Fora uma criança respondona, emocionalmente robusta e bem humorada, a quem a alcunha não incomodara nem um pouco. A "Pulguita" era assim chamada por ser pequena e brincava com aquilo. O "Fininho", um miúdo magro, muito reguila e eléctrico, também assumia a sua alcunha sem complexos. Mas outras crianças não conseguiam sacudir, nem que quisessem, as alcunhas que tinham ganho e que as incomodavam, alcunhas vezes sem conta repetidas que evidenciavam a sua diferença com negatividade e sem pinga de afecto - não havia cá "itos" nem "inhas : ao Pipas, ao Banhas, à Baleia, à Guida "Margarina",  que era gorda e suava as estopinhas ou à Tina "Gelatina", de rosto sempre afogueado e brilhante, só restava crescerem para fugir àquela tortura.

Não apenas as crianças gordas, também as meramente desajeitadas, em especial, os rapazes, sofriam por serem considerados um estorvo no meio competitivo que ali se pretendia. Começava tudo no Ciclo Preparatório. Eram facilmente identificados: ficavam sempre para último quando se faziam escolhas de equipas, eles e as meninas. Riam de si mesmos, claro, desvalorizavam. Mas riam porque estavam felizes, sendo assim ostracizados pelos colegas com a cumplicidade dos professores? O método para o sucesso destes alunos  consistia em marginalizá-los,  ou ridicularizar com gritos explícitos ou entre-dentes, a falta de perícia ou a gordura, e o mau aproveitamento dali resultante. (Dali ou da falta de apoio e incentivo que era zero?) Era assim que "antigamente" se entendia estimular o que de melhor havia nas crianças, era assim que se pretendia fazê-las crescer. Um professor chegou até a convocar a turma para exercer uma punição colectiva na forma do que chamava "calduços": todos tínhamos de bater na nuca do aluno fisicamente gordo ou desajeitado porque se recusava a jogar futebol ou a saltar o aparelho, já não sei. Uns vinte e mais calduços no nuca do desgraçado, cabeça curvada sobre o peito,  em penitência, ajudariam certamente o aluno de 11 anos a porfiar da vez seguinte e a fazer dele um exemplo para todos. Era o momento para os que o detestassem descarregarem e os outros se indignarem silenciosamente e serem brandos. Enquanto isso, eu dava a mão a uma colega que o medo tolhia e impedia de fazer muitos dos exercícios, conjecturando que na aula seguinte talvez fosse ela a apanhar. Gelada, tremia de nervoso e nem sequer conseguia falar, enquanto a fila avançava. Ela sofria não por ser gorda, mas por ser magríssima: onde andará hoje a franzina Anabela, a quem chamávamos a "Vesga", para a distinguir da outra Anabela? À distância julgo até que a Anabela pudesse ser um caso de má nutrição, fruto de condições de pobreza, ou que tivesse um qualquer problema de saúde.

Alguém se matou? Felizmente, não. Que estas crianças sofreram? Sem dúvida. Era isto necessário? Respondam vocês, se conseguirem calçar os sapatos apertados dos meninos gordos e desajeitados. Ou da Anabela, a Vesga, e caminhar, semana após semana, sem forças ou motivação, pelo pavilhão gimno-desportivo ao encontro do terror das aulas de educação física, de palmas das mãos geladas, olhos chorosos e garganta seca. O que faziam estas crianças e adolescentes para conseguir ultrapassar esse transe? Calavam a sua tristeza e o seu medo, não dormiam, perdiam o apetite, vomitavam, esgotavam o número de faltas possíveis à disciplina, arranjavam desculpas para ficar no banco, ganha a coragem para isso, outras, que conseguiam falar do assunto com os pais, apresentavam justificações destes, talvez até atestados médicos, apesar de serem saudáveis. Muitas crianças e jovens adolescentes passaram por este tipo de vivências, umas melhor, outras pior, algumas com muito sofrimento psicológico, semana após semana. Lamento, mas desta faceta do meu "antigamente" não tenho saudades.