31/07/19

Parem de tornar famosas as pessoas estúpidas


Vou só deixar isto aqui. Ok?

Stop making stupid people famous, sign, Shoreditch, London, UK.

30/07/19

Poesia: Viver sempre também cansa, de José Gomes Ferreira


Manuscrito do poema "Viver sempre também cansa", por José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

in  Poesia – I (1948)

28/07/19

Team Strada e Hugo Strada na mira do Ministério Público

Cartaz da Team Strada 100K Tour no Instagram da TeamStrada

Anda aí uma polémica podre sobre um tal Hugo Strada, uma tal Team Strada, um beijo na boca na SIC Radical e mais não sei o quê. Estava a zeros. Fiz umas buscas rápidas e a informação é bombástica.  Vale a pena ler. Não é novidade que o mundo de grande parte dos nossos adolescentes começa e acaba dentro das quatro linhas do telemóvel.  Mas que mundo é esse? É o mundo dos criadores de conteúdo, dos Youtubers, dos Canais, do Insta, do Whatsapp, dos Influencers,  das marcas, do ver quem soma mais Likes porque isso agora se não é dinheiro, é quase a mesma coisa, é fama, é disto que se trata: alcançar fama. Fama e dinheiro. O tal "conteúdo de entretenimento" é, na maior parte, sem grande substância - partidas idiotas, desafios, actividades radicais, canções, danças e vídeos de "clickbait" - o que não significa que não se torne viral.

Ser "Youtuber" ou "Influencer" nem sempre é sinónimo de nulidade, como é regra ler. Mas são poucos os que têm realmente um "talento" genuíno. É um campo minado por grandes equívocos. Por exemplo, que ter uma horda de seguidores que dão Likes a cada publicação é suficiente para ser um verdadeiro influenciador ou formador de opinião.  Ou ser talentoso. Ou que qualquer um o pode ser. Os conteúdos, por regra de áreas como entretenimento, beleza, lifestyle e turismo, só importam verdadeiramente quando têm credibilidade, muita relevância para o seu público específico, e este confia nos seus criadores. As marcas seguem os números na mira de vendas, encaram os jovens como embaixadores da sua mensagem pois os públicos juvenis rejeitam a publicidade, de que desconfiam, sendo mais permeáveis à recomendação, à opinião de alguém com quem se identificam. Enviam-lhes produtos grátis para eles usarem/ testarem e escreverem sobre eles. Quando são considerados realmente relevantes em termos de marketing, as marcas pagam até para isso.  Mas nem sempre se justifica o meio. Os seguidores podem ser fãs ou haters ou gente completamente indiferente que apenas segue alguém porque os outros o estão a seguir em grande número, ou ainda, seguidores  fake, seguidores comprados ou bots. O assunto é, actualmente, até ridículo de tão sobrevalorizado,  de tal forma que muita miudagem sonha ser "Youtuber" ou "Influencer" como dantes queria ser modelo ou futebolista.

Em 2017 um grupo de sete jovens Youtubers arrendou uma moradia de luxo na margem sul de Lisboa e aí fundou a Casa dos Youtubers, auxiliados por Pedro Silveira, conhecido agente (pessoa que gere os contratos com anunciantes e promove a sua presença em eventos, entre outros) de Youtubers. Durante algum tempo produziram com muito êxito os seus vídeos que lhes renderam inúmeras visualizações e  bom dinheiro. Depois disso separaram-se e cada um seguiu a sua estrada da fama. Hugo Strada não faz mais com a sua Team Strada que replicar este modelo, mas com um pequeno senão: os jovens que "agenciou" são na sua maioria menores e isso muda o jogo quase todo.

O grupo "Voluntários Digitais em Situações de Emergências para Portugal" (VOST Portugal) que já conhecia de actuações no caso dos incêndios, do Leslie, ou da crise dos combustíveis, foi decisivo para lançar o alerta sobre a actuação de Hugo Strada  junto da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, embora percorrendo os comentários no Youtube se leiam certos avisos em relação à Team Strada, alguns com meses já. O Minsitério Público abriu inquérito.

Conta Twitter - VOST

O que é isto da Team Strada? É um projecto criado em 2018 com o objectivo de juntar jovens youtubers para criarem conteúdos, coisas como  "pranks [partidas], causar o pânico e aventurar-se em grandes desafios", lê-se no livro Team Strada - Tudo revelado. " Este é um livro sobre o grupo de jovens influencers portugueses no YouTube, Instagram e TikTok (ex-Musical.ly) mais badalado de sempre em Portugal. Um livro para fãs, especial e único no mercado, sobre um grupo que funciona como uma "academia de talentos", que permite aos seus membros, crescer, desenvolver os seus dotes e evoluir para outros projetos, podendo dar lugar a novos membros. O livro contém ainda QR Code no miolo, que dão acesso a conteúdos de vídeos exclusivos, um desafio para que os interessados possam tentar fazer parte desta Team, e uma zona para autógrafos e guardar as selfies que tiram com a Team.", lê-se no site da Almedina. Ó pá, até parece bonito, não é?

Neste vídeo da CM TV , de Novembro de 2018, vemos Maya, a taróloga, a dizer que o livro é importante para os jovens, mas também para pais e educadores, nem sempre habituados à "cultura digital", pois assim tomam conhecimento de outras realidades que os filhos vivem. Diz ainda que é muito bom que os nossos filhos não estejam sózinhos e que é importante terem interlocutores como Hugo e os seus meninos e meninas. Maia pergunta depois a um dos membros da Team Strada que mensagem é que ele procura passar nos seus vídeos. Ele diz que é sobretudo que não desistam dos seus sonhos, que juntos são mais fortes; basicamente todos passam a mesma mensagem, diz outra menina; outra diz que a mensagem que quer passar é que pratiquem o bem, que se praticarem o bem, ele volta. A propósito de um jovem que aclarou o cabelo a entrevistadora Maia diz que vê irreverência e juventude na Team Strada, a par de boas linhas de conduta. E diz que encontra aí um paralelo com o que também costuma dizer aos jovens: "Não se estraguem." E foi assim que Hugo e a Team Strada foram levados ao colo pela comunicação social. Devem existir mais exemplos.

A capa do livro da Team Strada

O criador e mentor da equipa é Hugo Strada, de 36 anos, um youtuber, que se apresenta como gestor de artistas e influencers, e produtor de eventos. No programa de TV que agora o colocou na mira de críticas e da Justiça, o Curto Circuito, disse que era conhecido por descobrir talentos. E dá a grande novidade que é a criação, em breve, de uma escola de influencers. Outra notícia choque: que mudaram para um novo espaço. O projecto contava com uma casa, não uma casa qualquer, uma moradia luxuosa e moderna, com piscina, e que aparecia nos primeiros vídeos da Team. Os vários jovens ali se juntavam para produzir conteúdo, ali dormiam e viviam enquanto "trabalhavam" na criação de conteúdo que é apelativo para um público ainda mais jovem (11-14 anos) que, como todos sabemos, há muito que trocou a televisão pelos ecrãs de computador e telemóvel.


Canal Team Strada no Youtube foi fechado por violar os Termos do Serviço

Os conteúdos eram publicados no canal do YouTube, em média 2 vídeos por semana, a principal plataforma da Team, entretando encerrado em virtude da polémica. Mas cada um dos membros também comunicava com os seus fãs através do Instagram. Nessa tal nova casa, informa também Hugo, vão doravante realizar também workshops: os interessados poderão aprender coreografias com as meninas da Team Strada, - "que mandam muito" nesse domínio - aprender a cantar com um deles, aprender representação pois alguns têm "formação académica" em teatro. (Talvez fosse melhor chamar-lhe ATL e não "Escola", Hugo.) Diz ainda no programa que é o mentor destes jovens mas que acaba por ser "o pai, o irmão mais velho, o melhor amigo deles".

Ora, tudo ia aparentemente de vento em popa, para o projecto, até que a 22 de Julho, a Team Strada, participou no referido programa de televisão, o Curto Circuito, da SIC Radical. Um dos jovens, Douglas Dias, conhecido como Dumbo ou Dumbasticoo, de 17 anos, chega atrasado e cumprimenta Hugo Strada com um beijo nos lábios antes de se sentar ao seu lado. Não vejo televisão mas achei que devia usar algum do meu tempinho a ver o programa da SICRadical online. Assim matava dois coelhos de uma só cajadada: assistia ao beijo, conhecia os meninos e meninas da Team Strada e o seu mentor. Comprova-se que o tal miúdo Dumbástico não só chega atrasado e dá um beijo nos lábios do adulto como ficam abraçados que nem um casalito durante todo o programa. E até brincam com a mão um do outro. A mãe do rapaz liga quase, quase no finzinho do programa, a dizer que tem muito orgulho no filho.


Ainda assim, e como seria previsível, Douglas (Dumbastico) é atacado na sua conta Twitter e defende-se daqueles que acharam tanta demonstração de afecto como excessiva e inadequada: "Quando vcs eram mais novos davam um " bjinho " no vosso pai, então pronto o hugo e como um pai q nunca tive do meu lado, até mete piada kkkk." Também Joana Correia (ler abaixo) também se refere no seu Instagram a Hugo como "pai". O que é mais triste nisto foi o que eu ri a ler os comentários e a ver os Gifs e memes na conta à sua resposta ao sucedido. Juro. Este adolescente imaturo e tonto não merece o meu riso incontrolado e a culpa é, em parte, do Hugo "Estraga". Aproveito para esclarecer que aquele círculo vermelho com o 18 no meio quer apenas dizer que a SIC Radical fez a bonita idade de 18 anos.  Pois é,  18 anos de idade já lá cantam, na SIC Radical,  mas maturidade é que não, a avaliar por estes programas da treta, onde se dá protagonismo a quem garantir maior audiência. Depois de ter visitado a conta do Insta e o Twitter do Dumbasticoo quase desejei que o Hugo "Estraga" o pudesse adoptar de verdade. Mas imagino que ser pai a sério não esteja nos seus planos e, além disso, o rapaz merecia melhor sorte: ele é que ainda não sabe.

Hugo Strada e Dumbastico Instagram

O programa Curto Circuito causou um verdadeiro choque. Começa com as apresentações do grupo de adolescentes e os miúdos têm entre 16 e 19 anos, a elencarem melhores qualidades e defeitos como se estivessem nuam entrevista de emprego. Um deles declara-se a uma das miúdas e pergunta se ela quer namorar com ele. Há um momento em que uma das raparigas diz ter 18 anos e a apresentadora até faz uma festa: "Uuu! Uma pessoa maior de idade!" Ao que mais dois também dizem ser maiores de idade. Parece-vos isto normal?  O par de apresentadores nem pestanejou perante o beijo gay, em nome do respeito bonito pela diversidade. Ora, se fosse eu teria logo dito: " Pára tudo! O que há entre vocês? Não tenho nada contra gays mas tu, Dumbo boy, és um menor, e tu, Hugo "Estraga", és um adulto de 36 anos que sabe a que signo pertence cada um dos que se sentam a teu lado, - é verdade, o "manager" sabia, ele é uma espécie de candidato a Maya Taróloga -  o que não deixa de ser também estranho, a par do boné virado". "Hugo: o que pensa a tua namorada disto?"- continuaria, depois. "Vê lá se cresces que já tens idade." Mas os apresentadores apenas estão ali para ganhar o seu no final do mês e não podem dar bandeira. Toda esta gente virá a olhar para estas imagens com embaraço. É só dar-lhes alguns anos e responsabilidades.

Existem ainda a circular algumas acusações de ex-membros da team Strada que afirmam ter sido prejudicados financeiramente e que Hugo não faz mais do que vender ilusão aos jovens que se submeteram ao casting para a Team Strada e que foram selecionados. Um outro vídeo mostra o Hugo a entrar num WC e a abastecer-se de papel higiénico e a dizer disparates - que está a fazer um vídeo com um tut de como limpar uma senaita - enquanto uma rapariga aparentemente desconfortável com a sua presença se encontra sentada numa sanita. Também existem fotos de beijos e abraços que levantam questões. O que é ainda mais preocupante são declarações de jovens que dizem não poder contar toda a verdade por recearem processos e ameaças se conjugado com um ficheiro de som que também circula onde se ouve Hugo dizer: "Não pensem que ninguém vai respirar de alívio ou dormir bem quando me fizerem mal. Isso está ponto assente, juro pela minha avó que está no céu. Quem me fizer mal vai passar as passas do Algarve. Mas eu mato se for preciso, eu juro que eu mato." Não é claro, porém, em que contexto o áudio foi gravado ou se a voz, de facto, corresponde à de Hugo Strada.

Se ouvirem os vídeos onde ex-Team Strada respondem à questão do porquê da sua saída irão verificar que todos repetem o mesmo, como se estivessem a seguir um guião. Dá que pensar. Mas o "mentor" diz à taróloga Maya, com quem partilha o gosto pela astrologia,  que deixa cada um deles ser quem é, que os está a ajudar a chegar aos objectivos que eles ambicionavam, (leia-se "fama") pois acredita imenso neles. Hugo diz que os adora, e que se sente cada vez mais jovem, não só porque tem um espírito jovem, mas porque vive rodeado de juventude.

Hugo encontrou a sua galinha dos ovos de ouro. Não serei a única a pensar que Strada montou um negócio aparentemente lucrativo e que deve ser o único a retirar dividendos reais do projecto Team Strada.  Resta perceber até que ponto ele está a ser justo na sua relação comercial com os menores e quanto haverá de puro aproveitamento e hábil manipulação dos mesmos à boleia deste relacionamento tão familiar, ou mesmo abuso psicológico e até sexual. E também perceber qual o papel dos pais destes jovens em tudo isto: inclino-me para cumplicidade.

O Valor da team Strada reside no seu poder de atração de público jovem. A Team Strada tem sido convidada para participar em diversos programas de televisão, como o Curto Circuito, e eventos públicos, como o Kids Music Fest, em Cascais. O último evento de 3 dias que foi realizado, destinado a famílias, procura atrair os mais jovens com a presença de "Youtubers", de matraquilhos humanos, guerras de almofadas, e música ao vivo com os artistas como  Bárbara Bandeira. A Team Strada também é apelativa para iniciativas de algumas marcas e outros artistas, como os MastikSoul, em cujo vídeo participam.  Estas participações, bem como as festas e os encontros em que a Team Strada é protagonista, autênticas tours pelas principais cidades do país, - os bilhetes da 100K Tour custam 19,99 euros, mas li que noutras ocasiões se pagou mais, não sei - e a merchandising - t-shirts, canetas, posters, pulseiras, etc, - tudo são fontes de receita para o projecto de Hugo Strada. No entanto, existem muitos alertas deste género na conta Instagram onde se faz a sua venda:


Se ainda não perceberam a dinâmica básica da Team Strada, eis mais um exemplo: uma Talk e um Meet and Greet exclusivo para 30 fãs teve lugar no centro comercial Aqua Portimão. Basicamente trata-se de animação: Hugo Strada, Maria, Diiana, Kiko, Edgar e o Leite entretêm plateias de miudagem que se deslocam até distâncias consideráveis para ver ao vivo os seus "ídolos". Durante quase 2 horas, no espaço de restauração e de entrada gratuita, a Talk teve lugar em cima do palco: os influenciadores cantaram, dançaram, lançaram desafios, deram dicas, partilharam confidências, responderam a perguntas e puxaram pelo seu público, cerca de 600 pessoas. Depois, num momento mais privado, 30 adolescentes tiveram a oportunidade de aceder a um Meet and Greet onde pediram autógrafos, tiraram fotografias com o grupo e ainda ofereceram muitos presentes aos Team Strada. Vejam aqui as fotografias do "evento".

Ora fui tentar perceber melhor porque razão é que cerca de 600 miúdos e miúdas fazem até fila em Portimão para ver os seus "ídolos", é verdade: ídolos, é assim que são tratados. Fui espreitar alguns dos seus Instagrams. O que teriam de especial estes jovens? Quais são os seus "dotes", os seus "talentos"? Mereceriam ter 85,3k seguidores no Instagram, como Joana Correia? Saberão os pais destes adolescentes que foram a Portimão o que compra, afinal, o dinheiro que estão depositar na mão de Hugo Strada para que este lhes entretenha os filhos com a sua equipa de (também) adolescentes? E eu a pensar que eram tipo a Billie Eilish!  (Para quem não sabe, Billie é uma jovem com apenas 17 anos. O seu disco de estreia é uma bomba. Ela canta, o irmão escreve as letras. É um caso de verdadeiro talento. Com 32,8 milhões seguidores no Insta, essa sim, pode reclamar o título de "influencer". Eu gosto dela e nem sequer sou jovem. ) Andaria eu a perder qualquer coisa? Perguntei-me, então, ao ver aqueles rostinhos mimosos e corpinhos enxutos, quais seriam os seus talentos, além desses, os naturais. E o que está Hugo enquanto "mentor" a fazer para potenciar o seu desenvolvimento além de promover a sua exposição como "agente"? Na realidade os seus Insta não dão muitas pistas:  são apenas o lugar comum das colecções de fotos, poses repetitivas de rosto e corpo, mais ou menos vestido com as peças que, possivelmente, recebem das marcas que os escolhem  como embaixadores. Na realidade, esses jovens fazem pouco mais de nada, lamento, mas é assim mesmo. Estão convencidos de que muitos Likes é sinónimo de muita Fama e de que muita Fama é igual a muito Êxito. Sentem que alcançaram algo na vida. A isto chama-se ilusão. O "artista" responsável por alguma desta construção é obviamente Hugo Strada, mérito lhe seja dado.

Mastiksoul "Estraga" Feat Los Manitos, D8 (Team Strada) - Video

Como o canal do Youtube foi suspenso, não pude aprofundar mais quanto ao teor dos conteúdos produzidos mas informei-me junto de algunas jovens que foram peremptórios: mero avacalhanço. Fiquei-me pela sua participação da Team Strada no vídeo do  Mastiksoul, e aconselho, se quiserem rir: é que parece que o cantor diz "Eu mal do cu fiquei". Tive de ir consultar a letra do Estraga para me esclarecer. A letra é uma obra prima da nulidade da escrita para canções, mas sempre defendo que nem sempre precisamos de letras fantásticas para abanar o rabo. É o caso. Fiquei esclarecida, o "poeta" afinal diz: "Foi por ti amor/ Que eu me apaixonei/E pelo teu sabor/Eu maluco fiquei. " A participação de Hugo Strada e da Team Strada no vídeo é esta: uma coreografia mal amanhada na pista de dança da Palace Kiay. Digamos que não fiquei impressionada com os dotes das dançarinas e seu mentor, mas que aquilo que vi será sem dúvida o suficiente para entreter miúdos e miúdas de 11-13 anos, pouco críticos, como é normal da sua idade, e inspirá-los a rebolar o rabo. Se isso falhar, sempre podem ir em grupo tocar às campainhas de desconhecidos a meio da noite e imitar Hugo Strada numa das partidas que fazem parte do pacote dos contéudos virais da Team Strada.

Abaixo, vídeo e foto de Joana Correia, uma das recrutadas pela Team Strada, por ela própria. O "antes" e o "depois".

Video  - A 30 de Dezembro de 2018, Joana Correia diz que vai tentar fazer o casting para a Team Strada enquanto segura o livro da Team Strada nas mãos. As pessoas que estão no livro, diz ela,  elas têm de ter uma história para contar, elas não nasceram famosas, não nasceram logo com 30.000 seguidores, elas conquistaram o carinho do público. Isso não foi um milagre, foi esforço. Para Joana o livro é "guloso", uma página leva à outra. Além disso,  mostra a trejectória de cada uma das pessoas que faziam parte da Team e tem uma linguagem directa que leva Joana a sentir que tem uma pessoa a conversar cara-a-cara com ela, dando-lhe força para nunca desistir dos seus sonhos.

Joana Correia foi bem sucedida no casting e juntou-se ao Team.
Aqui, com Hugo Strada, durante o Sunset RFM, em Julho de 2019. 
Também o trata por "pai" no Instagram : "obrigada, pai ❤️ eu sinto orgulho de você".

"Eu fico feliz por nós termos a ligação que temos em tão pouco tempo de “familiarizade”, porque eu não vejo isso como um trabalho ou algo profissional, mas algo que envolva o coração também. É engraçada a forma como a vida conseguiu me fazer te conhecer mesmo estando do outro lado do oceano 🌊🇧🇷 (naquela altura), e mesmo depois disso, ter conseguido juntar duas pessoas que nada tinham a ver até então. Eu vejo o quão você se esforça para a gente ter ou alcançar tudo o que alcançou. E a gente sabe muito bem que você podia estar gastando todo esse tempo se dedicando a coisas que te fariam apenas a ti crescer, mas que nem por isso você nos excluiu ou deixou de lado. A gente sabe que mesmo com esse jeito meio teimoso, meio taurino ♉️, meio/meio♈️, há um grande homem por dentro, e isso é notável. Eu só queria te agradecer por me fazer alcançar sonhos que eu nunca imaginei ter sequer, e ainda por me unir a você. Hoje nós vamos estar num lugar muito importante para mim, e eu senti necessidade de dizer isso porque somente eu e você sabemos o que isso significava para mim antes, e o que significa agora. Aqui, quero te agradecer por cada palavra que já me disse, por cada atitude, por cada momento que já vivi até agora com o seu projeto. Falei isso tudo em pt do br, porque essa foi uma das razões pelas quais eu te conheci, e não me arrependo, se pudesse tomar essa decisão outra vez, tomava a mesma, vezes sem conta: obrigada, pai ❤️ eu sinto orgulho de você. "

Sugestão de leitura


Vale a pena ouvir a Opinião de Mangalhão/Sparking
sobre a situação Team Strada

Cinema Sueco: Na fronteira, um filme de Ali Abbasi




Tina: "As a child, I thought I was special. I had all these ideas about myself, but when I grew up, and I realized I was just a human being. An ugly, strange human with a chromosome flaw."

Vore: "Humans are parasites that use everything on earth for their own amusement. Even their own offspring. The entire human race is a disease, I'm telling you."


Cabeleiras, dentaduras e maquilhagem: EffektStudion AB.

Ontem vi um curioso filme de um realizador iraniano, Ali Abbasi: Na fronteira, ou Gräns, na língua sueca. É baseado num conto de John Ajvide Lindquist, que se tornou conhecido por Let the right one in, também adaptado ao cinema, com muito êxito. O filme de Abbasi recebeu uma nomeação na categoria de Maquilhagem e cabelo, nos Oscars de 2019, a par de Mary Queen of Scotts e Vice: Vice levou a estatueta.  Na fronteira é um filme  sobre uma mulher, Tina, funcionária dos serviços fronteiriços suecos, que tem uma habilidade particular: ela consegue "farejar" a culpa ou a vergonha nas pessoas, sintomas que indiciam que estão envolvidas em algo ilícito. Um dia, um homem chamado Vore, desembarca naquele porto chegado da Finlândia, e trava conhecimento com ela. A partir daí Tina inicia um processo de descoberta da sua identidade que vai abalar toda a sua forma de vida e obrigá-la a fazer escolhas.

O hábito não faz o monge é uma expressão conhecida. Significa que não devemos julgar as pessoas pela aparência e vem bem a propósito desta alegoria sueca. De igual forma não devemos de imediato pensar que boas próteses são garantia de personagens bem compostas. Apesar dessa transformação plástica é sempre o actor ou actriz que as anima que é o grande obreiro do milagre da transformação. No presente caso, os dois actores são exemplares: Eero Milonoff, que interpreta Vore, e sobretudo Eva Melander, que interpreta a personagem Tina sob camadas de maquilhagem aplicada ao longo de 4 horas e com mais 18 kg em cima do seu peso regular. Garanto-vos que a partir do momento em que Tina aparece em cena monopoliza a 100% o nosso interesse no seu mistério. Ela consegue demonstrar emoções e chamar imensa expressividade à superífice de centímetros de silicone. A linguagem corporal dos dois actores  combinada com expressões faciais fazem-nos realmente esquecer, sobretudo quando interagem, que são humanos.

Se  o aspecto neandertalesco das personagens principais destas fotografias acima já vos causa alguma espécie de constrangimento, preparem-se para alguma bizarria pois em  Gräns existem alguns momentos não inteiramente à prova de repulsa. O filme consegue ser perturbador na sua transgressão a vários níveis,  mas também comove. Para alguns será demasiado e é compreensível. Já passaram uns anos sobre o filme Anomalisa que continha uma das mais invulgares cenas de sexo filmadas até à data. É que as suas personagens eram de plasticina. Gräns traz uma cena de sexo igualmente invulgar. O tema do sexo, a sua celebração ou as suas diversas problemáticas - a reprodução, a perpetuação de uma espécie, a pornografia -   percorre todo o filme.

Se precisarem de motivação para ver este filme sueco, pensem numa espécie de universo de Guillermo del Toro, mas verdadeiramente para adultos, sem cosmética nem complacência pelo espectador forçado ao confronto cru com cada revelação. Embora Guillermo não se atreva a ir tão longe, pressentem-se, por exemplo, no filme que lhe deu mais Óscars, A  Forma da água, alguns pontos em comum com este:  quer Eliza Esposito, quer Tina são pessoas diferentes das outras e que vivem o seu dia-a-dia habituadas, e conformadas, a serem olhadas com estranheza em virtude da sua diferença. Mas Tina, em Gräns  e o monstro aquático, no filme A Forma da água, pertencem também a uma espécie à parte, uma minoria,  perseguida pelo homem. Por outro lado, ambos os filmes exploram a atracção e relacionamento entre as duas personagens principais. Os amores aquáticos de Eliza e o anfíbio foram muito incompreendidos pelo público: um romance entre uma pessoa desajustada e uma aberração, mas, sobretudo, duas espécies diferentes, que não se deviam misturar. A metáfora era bem difícil de aceitar. Pois bem, em Gräns , o romance é mais "normal" já que Vore e Tina são da mesma espécie mas não menos grotesco,  no entanto, muito mais real e "bestial" do que alguma vez foi o enlace entre o monstro aquático e Eliza.  Mas se no filme A Forma da água encontramos uma sensualidade animal estranha,  em Gräns  existe antes uma sensualidade animalesca fantasticamente credível.

Apesar do seu argumento não ser perfeito, e de o filme começar e progredir melhor do que termina, é muito menos incoerente do que o idílio do monstro aquático e da empregada de limpeza. Guillermo recuou ao passado, aos anos 60, em muito beneficiando da reconstituição histórica para nos cativar para a sua história fantástica, enquanto Abbasi filma uma ancorada no presente: o elemento fantástico inscrito no nosso quotidiano tem o condão de nos fazer sentir mais próximos e implicados nos eventos e  de interpretar a sua implicação alegórica. Se o monstro aquático era simultanemanete objecto de perseguição e afeição pelos humanos, aqui são os humanos que são perseguidos no presente. Mas, para nossa tranquilidade, ficamos a saber que nem todos os que não são como nós estão contra nós, nem todos desejam vingança, sobretudo os que conviveram de perto connosco e se aperceberam de como podemos ser diversos,  carrascos mas também verdadeiramente humanos.

Apesar de ter ido buscar estas considerações sobre o filme de del Toro, A forma da água,  foi para mim uma decepção, ainda mais depois do fogo de artifício criado em torno dele com 13 nomeações ao Oscar. Muito se escreveu sobre a poesia visual do filme, a forma como subverteu o tradicional conto de fadas, o facto de ser um hino à diversidade e à voluntariedade feminina. Mas no seu todo é uma pequena e frágil história mascarada de próteses que lhe conferem grandiosidade mas a que falta corpo, e, sobretudo, alma. Também me pareceu que na sua homenagem ao cinema provoca o nosso afecto fácil, já estamos um pouco cansados disso, em especial também porque se inspira mais do que inova em imaginários que já vimos em cinema de monstros de outras eras, e tão escusadamente pois del Toro tem génio para mais. A sua história fica atrás do argumento de O Labirinto do Fauno, de cujo universo também me recordei enquanto observava Tina a deambular pela floresta. A beleza existe, apesar de tudo, em Gräns, em momentos especiais em que Tina exulta de contentamento, por exemplo, e também na floresta que rodeia as residências de Tina e Vore, repleta de árvores entrelaçadas, musgo, cascatas, animais e sons de um exotismo mágico. Vemos e sentimos a floresta segundo a percepção de Tina: as cores, os sons, as texturas são mais ricas do que esperaríamos, o que logo indicia que Tina tem uma ligação especial ao mundo natural - tal como Eliza teria em relação ao Submundo -, e os seres que ali habitam, com quem comunica melhor que os humanos. Lembro que no filme de Toro a floresta era um elemento essencial, o abrigo de criaturas mágicas e poderosas, habitantes de um reino subterrâneo repleto de encantos e horrores. É esse o filme que melhor representa a paixão de Del Toro pela fantasia e é um filme totalmente coeso, um verdadeiro conto de fadas para adultos. Quer O labirinto do fauno quer Gräns têm um fundo surreal, o do realizador iraniano remete possivelmente para o folclore nórdico, os seus mitos e criaturas, sobre o qual pouco conheço.

Já lá vai o tempo em que escrevia sobre um filme resumindo quase a sua história na totalidade enquanto detalhava as minhas impressões. Ultimamente deixei-me disso. Parece mais complicado abordar o filme sem o fazer, ou mais desinteressante e menos arrumado para o leitor, ou até apenas preguiçoso.  Na realidade é um péssimo serviço que se faz aos leitores, sobretudo aos leitores que são potenciais cinéfilos. Há muito que deixei de ler as críticas e opiniões antes de ver qualquer filme mas continuo, por vezes, a escrever desvendando mais do que devia.  No entanto, escrever em jeito de sinopse e ficar-me apenas pelo suficiente para vos dar a ideia do que poderão ver sem estragar o impacto da experiência, não é fácil, sobretudo quando um filme me entusiasma, o que foi o caso. Não sei se a questão última deste filme, Gräns - A fronteira, não será onde se traça a fronteira, mas não a da Finlândia com a Suécia, antes a que separa o que é humano do que não é.  O que definirá, então, a humanidade de alguém?

26/07/19

Carlos Relvas, pioneiro português da fotografia

Banhistas na praia da Figueira da Foz, c.1880-1890 
Foto: Carlos Relvas / Casa Estúdio Carlos Relvas

O Fernando Curado partilhou esta curiosa fotografia no Facebook, banhistas na praia da Figueira da Foz, o que me deu o mote para escrever algumas linhas sobre o seu extraordinário autor: Carlos Relvas. Ainda desconhecido para muitos, Carlos Relvas, um ribatejano, nascido em 1838, foi um pioneiro da fotografia portuguesa e uma figura singular, que acumulou até lendas a seu respeito, a par de numerosos elogios  pelas suas experiências no âmbito da fotografia e medalhas nos certames onde participou.

Nasceu no seio de família abastada e por isso pode instruir-se e viajar pela Europa para se inteirar das novas técnicas e arte da fotografia. Tanto fotografou os desconhecidos de Portugal como as personalidades mais importantes da sua época, incluindo a realeza. Os mais ricos e os mais remediados, os mendigos, todos foram foco do seu interesse, sendo retratados com idêntica dignidade naquele que seria o acontecimento de uma vida inteira: entrar no estranho e belo edifício transparente da Golegã e ser fotografado! Além de retratista, captou o património construído e paisagístico, os locais preferidos do Romantismo e outros onde releva a identidade nacional. Também os animais não foram esquecidos tendo sido  fotografados com idêntico rigor, em especial, cavalos, a sua paixão, touros e carneiros. Especula-se que terá sido autor da primeira colecção de nús em fotografia, destruida pela sua segunda mulher, Mariana.

António Pedro Vicente, historiador, autor do estudo "Carlos Relvas Fotógrafo – Contribuição para a História da Fotografia em Portugal no século XIX", diz-nos que foi por volta de 1862 que Relvas se começou a interessar pela nova arte, ao contactar com fotógrafos do Porto.  A primeira exposição significativa de fotografia em Portugal, organizada pela Associação Industrial Portuense, teve lugar nesse ano. O fotógrafo começou a ter reputação internacional seis anos depois, acabando por se tornar membro da prestigiada Sociedade Francesa de Fotografia e por expor ao longo da vida em cidades como Madrid, Paris, Viena, Berlim, Lyon, Filadélfia e Chicago, recebendo vários prémios.

O seu estúdio, na Golegã, foi também a sua casa, quando para ali se mudou com Mariana, um casamento mal recebido pela família.  Muito precisado de recuperação, foi  restaurado entre 2001 e 2003, pelo Arquitecto Victor Mestre, e reaberto em 2007. É hoje uma bela Casa Museu que merece uma visita pela sua singularidade quer arquitectónica quer em virtude do seu interesse para a história da fotografia em Portugal e até no mundo: trata-se de um dos primeiros estúdios fotográficos construidos de raiz. Após a sua apresentação na Grande Exposição Internacional de 1889 (aquela em que foi inaugurada a Torre Eiffel)  como " o mais perfeito estúdio fotográfico do mundo" que "se encontra na Golegã, em Portugal, e foi construído pelo senhor Carlos Relvas", este verdadeiro "templo" da fotografia tornou-se popular. O fotógrafo já pertencia à Sociedade Francesa de Fotografia, na altura o melhor e mais selecto grupo na arte de fotografar, e arrecadou a medalha de ouro com uma fotografia desta casa.


Casa Museu Carlos Relvas - Conjunto arquitectónico oitocentista, da autoria do arquitecto Henrique Carlos Afonso, constituído por um imóvel e jardim do qual sobressaem algumas espécies exóticas, um lago e um parque infantil é, hoje em dia a Casa Museu de Carlos Relvas. Do acervo aqui existente destacam-se o arquivo fotográfico, mobiliário e instrumentos musicais, para além da biblioteca particular de Carlos Relvas que conta com cerca de quatro mil volumes. A construção do edifício, que se destinava a funcionar como estúdio e laboratório de fotografia, ocorreu entre 1872 e 1875. Alguns anos mais tarde, em 1887, o imóvel sofreu obras de adaptação a residência o que ocasionou uma grande transformação no seu interior. 
Trata-se de um edifício de dois pisos de planta longitudinal formado pela articulação de diversos corpos, com cobertura diferenciada em telhados de duas águas e em pavilhão.
Na fachada principal podemos ver os bustos de Nièpce e de Daguerre, os percursores da fotografia.
 
Em 1981, o edifício foi doado à Câmara Municipal da Golegã que o transformou na Casa Museu Carlos Relvas.
Ana Mântua

Carlos Relvas era um fidalgo, adepto da monarquia, um senhor de uma grande casa agrícola, afamado criador de cavalos, toureiro, desportista, inventor. Dedicou-se à fotografia por paixão e nunca cobrou a ninguém pelos retratos: não necessitava mas era por amor à arte que trabalhava. A fotografia tinha nascido nem há 50 anos e ele, no seu estúdio construído na Quinta do Outeiro, propriedade da família onde se produzia trigo, aveia, azeite e vinho, com o Tejo a correr por perto, fotografava utilizando a técnica do colódio húmido, um processo fotográfico para negativos em vidro, cuja chapa era coberta com uma solução de colódio e iodeto de cádmio. Note-se bem que tudo era manual aquele tempo em que fotografar era um autêntico privilégio e um gesto demorado em nada comparável ao clique, a que hoje quase se reduz.


Foto: Carlos Relvas / Casa Estúdio Carlos Relvas

Em1871 iniciou a construção do seu estúdio, que estaria concluída em três anos. Foram necessários mais de trinta toneladas de ferro para uma casa de dois pisos!  Toda a estrutura de ferro da casa foi feita em Lordelo do Ouro (Porto), seguindo um projecto arquitectónico de Henrique Carlos Afonso e depois transportada para a Golegã. O piso superior é uma fantástica galeria envidraçada que possui um sistema de cordas para subir e baixar cenários e cortinas para abrir e fechar a luz do sol e assim conseguir obter o melhor efeito na produção das fotos.  Encontrava-se apetrechada com os melhores equipamentos da época  e adereços. No piso inferior, o chão está coberto de mosaicos franceses e a escada de caracol que leva ao primeiro andar, uma elegante estrutura em madeira, foi importada de Itália.  É ali que ficava o território das sombras, o ideal para preparar negativos e dar largas ao mistério da revelação: câmaras-escuras e laboratórios, com sala de estar e de recepção. À volta do edifício, vegetação diversa e árvores, pois ele construiu o atelier no jardim da sua casa. Carlos Relvas, um homem invulgar para o seu tempo, levou uma vida fascinante, sempre ávido de conhecimento, de desafios, e de perfecionismo, quando o assunto era fotografar. Faleceu neste pequeno palacete romântico, em Janeiro de 1894, na sequência de septiecemia contraída numa queda de um cavalo. De certa forma, a Casa Estúdio também morreu. Esteve fechada quase um século.

Um auto-retrato divertido de carlos Relvas

"Este filme - Amateur -  tem como objectivo recolocar a fotografia no tempo, integrando-a como objecto de estudo científico e artístico na história da modernização em Portugal. Pioneiro da fotografia no Séc.XIX, Carlos Relvas foi um homem de cultura e inovação, que deixou um impressionante legado de aproximadamente 12.000 fotografias. A maioria destas foi cuidadosamente restaurada ao longo dos últimos anos e não são ainda do conhecimento público. A sua “casa- estúdio” na Golegã,  é uma estrutura única e reconhecida como uma peça fundamental na história da fotografia a nível mundial.

O filme dá visibilidade ao trabalho técnico e artístico de Relvas através dos seus retratos realizados no estúdio de luz natural da Golegã e em exteriores no Ribatejo, Lisboa, Porto e no estrangeiro. Imagens que nos trazem com surpreendente vivacidade espaços e vivências com mais de 100 
anos."

Nota da produtora B'Lizzard

Filme sobre o fotógrafo Carlos Relvas. 
O cartaz oficial é da autoria de João Pombeiro.


Parte 1 - ver aqui

Parte 2 - ver aqui

Sugestão de leitura:

 Museu Casa Estúdio - site institucional

A CASA-ESTÚDIO CARLOS RELVAS

A maquete do estúdio na National Geographic

Fotografar reis, mendigos e cavalos da mesma maneira

Google Translator: Lost in translation!




O que pode acontecer quando se usa o tradutor automático do Google para conseguir ler chinês ou japonês ou coreano ou qualquer língua que seja mais desenhada do que escrita? Isto:





Ora, isto está mesmo a pedir um "kaomogi"." Emoji" é uma palavra derivada da junção dos seguintes termos em japonês: e + moji. Um "kaomogi" é um emogi japonês. O "shruggie" ¯\_(ツ)_/¯parece ter sido o "kaomogi" que começou tudo. Agora são uma multidão. Por exemplo: 


(´;︵;`)

(ᵕ≀ ̠ᵕ )

( ͡~ ͜ʖ ͡~)

(⊙_☉)

ヽ(`○´)/

ᕙ( ︡’︡益’︠)ง

ᶘ ͡°ᴥ͡°ᶅ

ʕ•ᴥ•ʔ


22/07/19

Comprei uma Ficus microcarpa. E agora?


O frigorífico estava vazio e tive de ir ao supermercado abastecer-me de víveres. Já tinha o carrinho cheio e encaminhava-me para a caixa quando vi uma banca com plantas em potinhos sui generis que me chamou a atenção. Peguei numa delas e tentei perceber pelo rótulo no fundo de que planta se tratava. Não consegui pois as letras são tão minúsculas que só com uma lupa! Depois de a observar melhor achei-lhe tanta graça que resolvi trazê-la comigo para casa mesmo tratando-se de uma incógnita. Acabo de descobrir que se trata de uma Ficus Microcarpa . Dados meus exíguos conhecimentos em botânica e jardinagem, pelas leituras breves que acabo de fazer, parece-me ter sido uma escolha bem feita. Dizem que é resistente e ideal para começar na arte do bonsai.  Para já parece-me evidente que tenho de voltar às compras: preciso de um vaso rectangular e com prato, e substrato para bonsai: tenho de mudar a planta desta "lata de sopa de tomate" para uma casa maior.  Nunca tinha pensado em comprar um bonsai mas agora até estou entusiasmada com a perspectiva. Maior que o entusiasmo é, todavia, o meu receio: e se deixo morrer a planta?! 

20/07/19

História de seis palavras: escreva a sua!

 

The Six Word Project

Conta-se que Ernest Hemingway, seguro das suas capacidades,  desafiou os amigos com quem estava num restaurante a pagarem-lhe 10 dólares se ele escrevesse uma história em apenas seis palavras. O grupo não achou provável e embarcou na aposta. Ele então escreveu-a num guardanapo e ainda lhes disse que era a melhor que tinha escrito até à data. Os amigos leram e nem hesitaram em dar o dinheiro da aposta ao escritor que deve assim ter comido e bebido à pala dos comparsas.

A história que ele escreveu foi a seguinte: "For sale: baby shoes, never worn." Nunca apurei se isso aconteceu mesmo ou se é lenda. Sem dúvida que é uma boa história que sugere o que aconteceu e que deixa ao leitor o trabalho de imaginar os detalhes e com um final de truz. A pequena história desperta em nós uma profusão de emoções. O que nos conta a história? Que um casal esperava um bebé e comprou sapatos de bebé. Mas que o bebé não chegou a nascer, nunca os usou: os sapatos são novos. Por isso o casal vende os sapatos através de um anúncio, o que não deve ser fácil de fazer para eles.

Em Novembro de 2006, Larry Smith, fundador da SMITH Magazine, pegou na ideia de uma história de seis palavras mas deu-lhe um toque pessoal quando pediu à sua comunidade de leitores para descrever as suas vidas em exatamente seis palavras. Será que se pode resumir toda uma vida em apenas meia dúzia de palavras? One life. Six words. What's yours?  Foi este o desafio lançado pelo site da Smith Magazine que tem como lema " Todos temos uma história". Desde então, o projecto Six-Word Memoir deu origem a uma série de best-sellers. Centenas de milhares de pessoas compartilharam sua própria história de vida  no site.  



O livro Not Quite What I Was Planning, foi publicado em Fevereiro de 2008 pela primeira vez e reune uma colecção de memórias de seis palavras escritas por escritores famosos, artistas e músicos, e também de gente mais comum: Couldn't cope so I wrote songs, escreve Aimee Mann. Só mais alguns exemplos:  Born in the desert, still thirsty. - Georgene Nunn; The psychic said I'd be richer. - Elizabeth Bernstein. Write about sex, learn about love.- Martha Garvey.

As muitas histórias inscritas em frases minúsculas demonstram a diversidade e riqueza da experiência humana. São inspiradoras, apaixonadas, desencantadas, alegres, provocadoras, tristes mas sempre concisas. De certa forma faziam lembrar aos mais velhos o tempo dos telegramas e aos mais novos a economia de palavras imposta pelo Twitter original ou mesmo as mensagens por SMS.  À primeira colecção de micro-memórias seguiu-se It all changed in an instant e outros projectos.  Foi um êxito que ainda hoje continua a dar fruto.

A "história em seis palavras" pode ser também uma ferramenta poderosa para inspirar ideias ou conversas em torno de um tópico em virtude de exigências criativas ou apenas como divertimento entre amigos: experimente fazer esse exercício! Se é professor, ou animador, este é um excelente exercício de escrita criativa que pode servir para desenvolver a capacidade de síntese e escrita ou ser apenas uma forma simples de quebrar o gelo entre um grupo. Experimente!

A 15 de Junho celebra-se no UK o National Flash-Fiction Day desde 2011. Não se se já ouviram falar de "flash fiction". Estas pequenas histórias fazem parte deste universo. A "flash fiction" é algo que qualquer pessoa que escreva num blogue e que goste de escrever pode publicar. É uma parente pobre da ficção literária mas isso não quer dizer que não seja excitante.  Dá-se esse nome a histórias de ficção até 1000 palavras. Mas também já li que podem ser 1500. É a arte de contar histórias com o mínimo de palavras que for possível.  Há quem lhes chame micro-contos ou micro-histórias, nano-narrativas e mini-ficção.  Pode ser de qualquer género.

Eis os passos a seguir para escrever uma história de "flash fiction":

1. Em vez de começar pelo princípio, começamos a escrever a história "pelo seu meio", isto é, não vamos perder tempo a elaborar introduções e a desenvolver sobre ambientes e personagens. É essencial que o escritor se foque no "conflito" existente na história pois é através dele que se vai verificar uma mudança numa personagem, num ambiente particular. Na "flash fiction" é, pois, frequente começar pelo conflito, dispensando introduções possíveis em textos mais longos. O que não significa que não tenham princípio, meio e fim, como qualquer história. Não se deve escrever de forma ambígua pois isso será exasperante num pequeno texto e não vai funcionar.

2. A história deve mostrar e não contar o que sucede. O melhor é não criar muitas personagens pois não haverá espaço para a sua caracterização. Cada palavra tem de ser muito bem pesada. Ou é importante ou não é. O mesmo raciocínio vale para as personagens. A brevidade deste tipo de  histórias torna-as difíceis de escrever. A história não pode ser rica em eventos mas tem de ali existir um gancho que agarre o leitor, uma imagem central poderosa, um conflito e uma conclusão.

3. O final da história não deve vir no fim de tudo e sentir-se como clímax. O destino das personagens e o desenlace do seu conflito deve estar traçado a meio da história para que não surja como uma revelação-choque a encerrar o texto. O fim deve criar um impacto emocional no leitor mas não na forma de um suspense que conduza a um desenlace esmagador.

4. Se o final já tinha sido anunciado isto não quer dizer que a última frase não possa causar estrondo. Ela pode e deve ecoar na cabeça do leitor mesmo depois dele ter parado de ler. Aqui pode ter lugar uma interrogação que o faça repensar tudo, por exemplo, ou ver a história com outros olhos, ou até  intrigar. Que leitor é que não aprecia um bom mistério? É bom terminar de forma enigmática, conseguir surpreender o leitor, assim como é bom que o final possa ser esclarecedor daquilo que se leu e que já deve ter incluido a conclusão.

5. Deve escrever-se a história sem medo e depois de alinhavada fazer um meticuloso trabalho de edição. Toca a eliminar as gorduras e até as gordurinhas, mas sem esquecer que alguma gordura sempre será formosura. O aspecto formal deve merecer máxima atenção. A concisão no uso das palavras e frases é essencial, usam-se apenas e quando há necessidade. Escolhem-se as melhores entre as melhores. Eliminam-se todas as que não forem estritamente necessárias. Substitui-se cada uma pela mais adequada a expressar uma ideia: cada palavra deve poder ser usada para expressar o máximo sentido. A simplicidade  também deve comandar esta escrita mas isso não deve ser confundido com facilitismo, banalidade, clichés. A prosa deve ser intensa, observadora, e a voz do narrador, perceptível.

6. Por fim, há que dar um bom título que acrescente algo de verdadeiramente fantástico à história e que não lhe acrescente apenas mais palavras. Na "flash fiction" menos é mais, não esquecer.

Sugestão de leitura

Flash fiction - The New Yorker

What is Flash fiction?

19/07/19

Tom Gauld - Leitura perfeita para as férias




50º Aniversário da chegada do homem à Lua

Vídeo   do Google narrado por Michael Collins
"The Earth was the main show. The Earth was it."


What Aldrin Saw: Original Film vs. Reconstruction

O foguete Saturno 5 que transportou Collins, Buzz Aldrin e Neil Armstrong, foi lançado em 16 de Julho de 1969. A chegada da missão Apollo 11 à Lua aconteceu a 20 de Julho, quatro dias depois. Armstrong foi o primeiro a deixar o módulo, tornando-se o primeiro homem a pisar em solo lunar e a contactar com a sua poeira que tem o nome de regolito lunar. Originado pela erosão cósmica, é composto por basalto, feldspato e outros minerais procedentes do espaço exterior. Nas suas comunicações de rádio com o controle da missão na Terra nasceu a célebre frase "Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade". Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, reclamou em 2014 ter tirado a primeira selfie no espaço. Collins não chegou a pisar na Lua mantendo-se dentro do módulo de comando enquanto  monitorava a caminhada dos seus dois companheiros.



Twitter de Buzz Aldrin - The Real Buzz

Desde 1972 que mais ninguém desceu na Lua. Agora a NASA trabalha para pousar mais homens e a primeira mulher na superfície lunar até 2024 como parte de seu programa Artemis. (Artemis é a irmã gémea de Apollo e deusa da Lua na mitologia grega.) No séc. XXI uma das preocupações mais correntes é a nossa pegada ecológica. Assim, a NASA está preocupada com aquela que as explorações deixaram no satélite. Há uma missão pensada para recuperar os sacos de lixo: a NASA quer estudar o cocó dos astronautas. A questão que consome dos investigadores é: será que ainda haverá vida nos excrementos dos astronautas? A Lua é submetida a variações bruscas de temperatura e se durante a noite pode ter -173 ºC, durante o dia pode ter 100ºC.  A combinação de radiação e temperatura extrema podem ter matado os micróbios nos sacos. Mas é preciso confirmar.

Se uns festejam a chegada à Lua como um êxito da Humanidade, outros apontam o dedo a uma das maiores conspirações de todos os tempos. Em 1974 é publicado um livro de autor -  We Never Went to the Moon, escrito por Bill Kaysing - apontado como o principal veículo desta teoria que a internet perpetua. É particularmente divertida e popular a ideia avançada por Bill de que teria sido Stanley Kubrick o obreiro cinéfilo das imagens que todos vimos. Além desse livro, outro, intitulado NASA Mooned America!, de 1994, escrito por Ralph René, também promove a teoria da conspiração.




Iker Casillas é um dos que não acredita no que viu e que durante um jantar com amigos, o ano passado,  resolveu até fazer uma sondagem no Twitter que revela que não está só na sua descrença. Pode juntar-se com Javier Poves, o defensor de que a Terra é plana. Casillas talvez concorde com ele. Depois de ter sofrido um ataque de coração, enquanto ao serviço do FC Porto, Casillas está em recuperação e não se sabe se continuará a jogar futebol. Mas quem sabe se Casillas não acaba na balisa do clube Terraplanista! Até já o imagino a dizer:

- Claro que é plana, por isso se chama "Planeta" e não "Redondeta".

Uma vez que está em descanso forçado, talvez Casillas não queira perder a oportunidade de assistir à prova derradeira de que fomos todos enganados ao longo destes 50 anos: a evidência de que Kubrick e Hollywood forjaram a coisa está online! Aconselho o visionamento ao futebolista e a todos os seus amigos. É o vídeo Moon Shining or: How Stanley Kubrick shot the Apollo 11 Mission? ☺




Sugestão de leitura:

Site da Nasa - missão Apollo II 

National Air and Space Museum - Lunar rocks

How moon landing conspiracy theories spread before the internet

Moon landings footage would have been impossible to fake – a film expert explains why 


O Facebook está morto e o Instagram está a morrer?


Tive uma conta no Instagram durante meio ano. Registei-me porque entrei num concurso de design gráfico de uma biblioteca australiana e era obrigatório fazer o upload dos trabalhos no Instagram. Relutantemente lá me juntei a mais uma rede social, embora não o desejasse. Passados meses a minha conta começou a ganhar inúmeros seguidores bem esquisitos, na sua maioria eram de origem Russa. Ao tentar eliminá-los eles multiplicavam-se. A evidência era que a conta tinha sido hackeada. Acabei por ser forçada a encerrar a conta e não voltei a criar outra. 

De vez em quando recebo mensagens a relatar que alguém criou uma conta no Instagram com o email  que ali usei pelo que tenho sempre de corrigir esse dado para tentar salvaguardar o seu uso. Hoje abri a minha caixa de correio e aguardava-em uma novidade, um email, supostamente do suporte do Instagram/Facebook, onde são pedidos certos passos a alguém que solicitou ajuda, e que, mais uma vez,  usa o meu email ou eu não estaria a receber esta comunicação. 

Observem as acrobacias que são exigidas e digam-me se acham que isto é normal. Vivemos em tempos avançados onde até ligamos o nosso telemóvel com a nossa impressão digital, mas pedem-nos para escrever um código à mão e fazer uma foto com esse tal código XYZ e a nossa cara? Não apetece mesmo dizer, Instagram/Facebook, WTF?!! Leiam:

Olá,
Agradecemos por entrar em contato conosco. Precisamos que você confirme que é proprietário dessa conta para podermos ajudá-lo. Responda a este email e anexe uma foto sua segurando uma cópia manuscrita do código abaixo.
(_____)
Certifique-se de que a foto que você mandou:
- Inclua o código acima escrito à mão em uma folha de papel em branco, seguido pelo seu nome completo e nome de usuário
- Inclua sua mão segurando a folha de papel e inclua seu rosto inteiro
- Tenha boa iluminação, não seja muito pequena, escura ou desfocada
- Esteja salva e anexada à sua resposta como um arquivo JPEG
Lembre-se de que, mesmo que esta conta não inclua fotos suas ou seja usada para representar algo ou outra pessoa, não poderemos ajudar enquanto não recebermos uma foto que atenda a esses requisitos.

Atenciosamente,
A Equipe do Instagram

Não sei o que que possa fazer para impedir o uso deste meu email por terceiros, pois isso é ainda e sempre o que me aflige bastante. É um email antigo e já me ocorreu que o melhor será criar um novo e começar a sua paulatina substituição. E isto tudo começou quando o Facebook comprou o Instagram. Sem querer estar sempre a pregar contra a "rede social" não posso deixar de pensar que o Facebook cresceu de tal forma que perdeu o controlo. É um gigante com pés de barro. Os problemas avolumam-se e os prejuízos também. O Instagram agoniza, dizem,  mas isso eu não sei. Basta ler o Reddit onde muitos discutem a decadência quer do Facebook quer do Instagram.

Eis um desabafo escolhido ao calhas, entre os muitos: 

-  usuários incapazes de usar certas funções o tempo todo 
- bots e empreendedores sombrios em todo o lugar 
- thots estão recebendo todo o louvor por mostrar o seu rabo 
- nenhum suporte e eles simplesmente não dão a mínima para o seu problema e mentem diretamente para seus usuários sobre o shadowban
- shadowbanning de pessoas normais e pequenas empresas e arruinando sua diversão / receita 
- algorítmo quebrado e manipulado desde que o facebook colocou suas mãos repugnantes sobre ele. 
- arruinado por uma empresa que sabe como arruinar um app de bilhões de dólares em alguns anos.

 - Ah, e você já viu alguém roubar a sua identidade 14 vezes em outros sites? 

O Facebook está morto. Está morto. E o Instagram é o próximo se eles continuarem assim. Há alguns anos Instagram foi muito divertido .. mas agora? Apenas um aborrecimento com todos os problemas que o site causa.

18/07/19

Dizer palavrões faz bem, porra!

O livro Dizer palavrões faz bem pode ser adquirido online na WOOK.

No livro A cidade dos prodígios, de Eduardo Mendoza, havia um ministro que era muito livre e criativo no falar. No entender dos delegados que o consultavam, achando-o sempre ocupado, bem que podia não desperdiçar tempo precioso a dizer graças como «estar com as horas coladas ao cu» (por estar muito apertado de tempo), «andar com a pila de fora» (por estar assoberbado de trabalho), «andar a largar ou a cagar leites» (por ir a toda a velocidade), «São Foda-se calhou a uma segunda-feira» (com o que se convidava a ter paciência), «arriar as cuecas a peidos» (de sentido duvidoso), «Até à ceifa do pepino!» (quando se pretendia despedir.) Ora, se os delegados eram simpáticos e diziam que o ministro soltava "graças", já muitos de nós podem até achar que o emprego de tais expressões configura um carácter no mínimo deselegante. E se fosse uma ministra? Seria essa sua escolha de palavras considerada ainda mais deselegante? Praguejar ou usar calão parece ser considerado um atributo não feminino e nem sequer se trata de uma invenção feminista recente. Alguém andou a fazer estudos e estudinhos para tirar esta conclusão e Emma Byrne, autora do livro Dizer palavrões faz bem, diz que é verdade: também no acto de dizer palavrões as mulheres são discriminadas. Ora, isso não interessaria muito não fosse o caso de ela defender que o palavrão faz bem. Se assim é, basta. Quero ter o direito a dizer palavrões em igualdade de circunstância com os homens.☺

Emma, a investigadora - autora, defende o uso do calão e do praguejar baseando-se na sua  investigação científica em áreas como a neurociência, a antropologia, a psicologia e a sociologia. Diz que o palavrão pode contribuir para reduzir o stress, para consolidar o trabalho de equipa e amizades e até para ajudar a lidar com a dor ou evitar o recurso à violência física: esta pode ser sublimada pelo poder de um palavrão proferido com gana e no tempo certo.  Um dia destes vamos assistir à chegada de mais um franchising: os "palavrásios". Estes serão locais onde o pessoal poderá ir treinar o palavrão para se libertar do stress.

Hoje até as crianças já nascem ensinadas no uso do palavrão. Mas eu não fui uma criança precoce e demorei a aprender o efeito catártico do palavrão. Eu ainda não tinha 6 anos e o meu pai trilhava-me os dedos com as portas com frequência. Aconteceu duas ou três vezes, era demasiado: achava eu que tais incidentes nunca deviam acontecer, não aconteceram a mais ninguém meu conhecido. Sempre que ele fechava uma porta a minha mão estava apoiada algures no ponto errado no momento errado e eu desatava num berreiro de dor. Daí a semanas uma unha caía do dedo mártir. Esta perseguição maléfica das portas aos meu pequenos dedos e unhas marcou a minha infância. Quando passei a dominar o palavrão o meu pai já não me trilhava os dedos nas portas. Ainda assim duvido que um "foda-se"  tivesse tido melhor efeito do que a água fria a correr no dedo pulsante de dor ou o gelo embrulhado num pano turco com que a minha mãe acorria à filha lavada em lágrimas. Mas a Emma diz que não tenho razão: parece que o palavrão é um eficaz analgésico.Nem sei porque é que continuamos a comprar paracetamol à dúzia: afinal um par de "foda-se" resolvia a dor de garganta. Ou, pelo menos atenuaria a dita ou dar-nos ia coragem para a suportar. Mas o palavrão não criará habituação? Sim, é verdade: cria habituação se for usado sem parcimónia e assim se reduz o potencial farmacológico do dito. E será que o seu uso tem efeitos secundários? A quem devo perguntar? A um médico ou a um estudioso da língua?

Também já não faltará muito para o recurso ao uso do palavrão nas dinâmicas de grupo nas empresas para obter o fortalecimento de laços entre colegas de trabalho ou o reforço do sentimento de equipa. Já estou a ver aquelas estratégicas batalhas de paintball a serem substituídas por torneios de impropérios entre os participantes.

Tenho é algumas dúvidas em entender como é que o recurso ao palavrão estanca a violência: posso não dar uma estalada ao meu namorado quando descubrir que ele me traiu com o vizinho musculado da frente, mas se lhe chamo "mariconço dum caralho" ainda me manda um piparote valente, e eu, apesar de mindinha não serei de me ficar, e retribuirei com pontapé ao centro nevrálgico da sua masculinidade, antes mesmo de me soltar da língua de novo. Imagino-nos, pois, numa escalada de violência física muito pouco domesticada, ainda que pontuada a palavreado colorido.

Ora, esta matéria, como todas, apenas é simples à superfície. Quando começamos a escavar deparamo-nos com coisas misteriosas e apaixonantes. Descobrimos que os palavrões nascem na cave do nosso cérebro, numa zona inicialmente descoberta por Paul Broca, cirurgião e antropólogo, uma região localizada nas proximidades da glândula pineal, ou melhor no limbo, i.e, na margem, a região do lobo límbico. Daí o seu nome, - sistema límbico - porque o sistema se situa no limbo - ie, na margem - de outras estruturas já conhecidas até aquele momento. O sistema límbico, é o conjunto de estruturas envolvidas nos processos emocionais. As estruturas anatómicas do sistema límbico são as responsáveis por processar as nossas emoções e regular a nossa conduta: o sistema límbico do cérebro funciona como o centro das emoções. O neocortex e essa zona interagem de forma complexa. O sentido denotativo (pénis) das palavras é comandado aqui e pelo lado esquerdo do cérebro, o sentido conotativo (pila) é-o pelo sistema límbico e hemisfério direito. Aí têm respostas involuntárias e emocionais, sem filtro. Diz-se que aí situa-se o nosso lado animal, primitivo e impulsivo.


Os palavrões podem pertencer a quatro categorias: religião, sexo, excrementos ou calúnias e que podem mudar de importância ao longo do tempo. A basfémia é agora de pouca ou nenhuma importância. Se eu mandar o meu namorado para o inferno por ter dormido com o bonitão do meu vizinho, a pila dele mal estremece. Há muito, muito tempo atrás, quando a Humanidade vivia sob as saias da dominadora igreja,  temente a Deus, a pila ter-lhe-ia caído ao chão. O medo de não ir para o céu era uma coisa séria na Idade Média.  Actualmente, nos EUA, em zonas onde a religião tem ainda uma forte presença, a blasfémia é ainda fortemente censurada. Ainda há pouco lia uma crítica de uma norte-americana ao filme Can you ever forgive me?, sobre a vida da escritora Lee Israel , onde a senhora se declarava ofendida pela profanidade no filme, profanidade de que eu não me tinha apercebido de todo nem consegui localizar. Os termos sexuais estão tão presentes na linguagem do quotidiano que já mais se confundem com sinais de pontuação. É claro que isto varia de país para país, e até dentro do país, por exemplo, escutem-se as pessoas no Porto e em Coimbra e vamos observar alguma diferença. Quer o sexo quer os excrementos são fonte de medos e nojos diversos (a violência do estupro e doenças que transmitem) e é por isso que deram origem a palavras que têm um significado desagradável. Actualmente são os palavrões que mexem com o status do indivíduo que parecem levantar o maior clamor: palavrões sexistas, racistas e homofóbicos geram reações fortes, tabus até.


Podemos usar o palavrão para festejar um êxito ou para lamentar uma contrariedade. O palavrão uma vez solto é como a pedra que se atira: não tem volta mas nem sempre causa dano. O palavrão liberta transgredindo mas nem sempre é automaticamente ofensivo. Há que perceber com que intenção foi lançado. O receptor reage consoante a sua cultura, a relação que tem com o emissor. Pode sentir-se agredido, cúmplice, pode ser-lhe indiferente. São sentimentos e emoções que estão em jogo. O uso do palavrão percorre todas as culturas e estratos sociais. Mas, de acordo com Emma, se perguntarmos às pessoas o que elas pensam sobre o calão ou os palavrões, elas tendem a insistir que a sua utilização  diminui a credibilidade e persuasão do orador - especialmente se o orador for uma mulher. Num estudo de 2001, Robert O'Neil, da Louisiana State University, mostrou uma amostra de 377 homens e mulheres e transcrições de discursos contendo várias instâncias da palavra “f * ck”. Quando ele disse aos voluntários que o orador era uma mulher, eles classificaram o uso do  palavrão como mais ofensivo do que quando ele lhes disse que o orador era um homem. Emma perguntou a Robert porque é que ele achava que isso acontecia. Ele respondeu: "Os homens devem ser agressivos, durões, auto-confiantes, sempre procurando sexo e, o mais importante, não serem efeminados". Emma também refere uma conversa do Presidente Nixon quando alguém, Bob Haldeman, Chefe de pessoal, lhe diz que as raparigas já dizem palavrões. Nixon observa: "Oh, elas o fazem agora? Mas, no entanto, isso retira algo delas. Elas nem percebem isso. A um homem bêbado e um homem que diz asneiras, as pessoas vão tolerar e dizer que é um sinal de masculinidade ou alguma outra coisa. Todos nós fazemos isso. Nós todos dizemos palavrões. Mas mostre-me uma garota que diz asneiras e eu verei nela uma pessoa muito pouco atraente. Quero dizer, toda feminilidade se foi. E, aliás, nenhuma garota suficientemente esperta dirá asneiras."

Em 1673, o capelão Richard Allestree publicou The Ladies’ Calling, um tratado misógino cuja conclusão era nenhum ruído deste lado do inferno pode ser tão extraordinariamente odioso quanto o palavrão que sai da boca de uma mulher. Emma diz-se escandalizada por constatar que ainda hoje, passados 400 anos, os ecos do pensamento deste Allestree, e de outros como ele,  persistam a contribuir para a formação de preconceitos e barreiras ao uso por parte das mulheres de palavras fortes para expressar emoções fortes! 



Amigas: devemos exigir o nosso direito ao uso do palavrão redondo e grosso. Mesmo se nos dizem continuamente que dizer asneiras é sinal de pouca educação, de pouco domínio da linguagem e baixa erudição em geral. Basta. Asneirar não pode mais ser visto como o recurso pobre de quem não sabe expressar-se. A palavra é uma arma mas o palavrão desarma. E quanto mais inteligente for o sujeito e mais vasta a sua linguagem, melhor conseguirá empregá-lo. Esta coisa dos dois pesos e duas medidas tem de ser combatida. Seria injusto se assim não fosse. Porque, tal como Emma afirma, o palavrão faz bem. Nenhumas outras palavras têm semelhante poder. Os palavrões nascem numa zona do cérebro muito diferente daquela onde nasce outro discurso, por exemplo, aquele que usamos para contar histórias.  É essa a razão por que Emma diz que podemos sofrer um AVC e esquecer as palavras bonitas, mas ainda assim seremos capazes de mandar alguém à merda. É triste, desculpem, é triste que eu sofra um AVC e já não possa dizer ao meu namorado querido que o amo mas ainda possa mandá-lo à merda. Será então que devemos acarinhar o palavrão como se da mais bela prosa se tratasse? Ou mesmo poesia? É triste mesmo que possa ser verdade, não vos parece?

Sugestão de leitura

What the fuck? Steven Pinker

"For language lovers, the joys of swearing are not confined to the works of famous writers. We should pause to applaud the poetic genius who gave us the soldiers' term for chipped beef on toast, shit on a shingle, and the male-to-male advisory for discretion in sexual matters, Keep your pecker in your pocket. Hats off, too, to the wordsmiths who thought up the indispensable pissing contest, crock of shit, pussy-whipped, and horse's ass. Among those in the historical record, Lyndon Johnson had a certain way with words when it came to summing up the people he distrusted, including a Kennedy aide ("He wouldn't know how to pour piss out of a boot if the instructions were printed on the heel"), Gerald Ford ("He can't fart and chew gum at the same time"), and J. Edgar Hoover ("I'd rather have him inside the tent pissing out than outside pissing in").

When used judiciously, swearing can be hilarious, poignant, and uncannily descriptive. More than any other form of language, it recruits our expressive faculties to the fullest: the combinatorial power of syntax; the evocativeness of metaphor; the pleasure of alliteration, meter, and rhyme; and the emotional charge of our attitudes, both thinkable and unthinkable. It engages the full expanse of the brain: left and right, high and low, ancient and modern. Shakespeare, no stranger to earthy language himself, had Caliban speak for the entire human race when he said, "You taught me language, and my profit on't is, I know how to curse."

Elle on What the f***

"Those really bad words have always been my favorite ones. With just one definitive syllable and a cacophony of dueling consonants, they hit the air hard and fast, like a battery of quick blows. Even closing my eyes and envisioning the four letters, f to k, in cutesy bubble type makes my jaw tighten and my shoulders twitch. That's because swear words seem to be stored in the frontal cortex, which is linked to emotion; ordinary language resides on the left side of the brain. (Knowing that makes it easier to understand why stroke victims who lose the ability to talk can sometimes still spew swears as deftly as Samuel L. Jackson.) Whoever coined the term F-bomb captured both the original word's phonetic power and its resounding quality. And in my opinion, one well-enunciated expletive always trumps strafing a listener with a string of them."