27/02/19

As mulheres que não deixam as mulheres serem mulheres


Joana Bento Rodrigues. Escreveu uma opinião no Observador que meteu meio mundo a resvirar os olhos. A Doutora Joana tem trinta e poucos anos. Nasceu fora do tempo. A avaliar pelo que escreveu, há uns anitos atrás teria sido a mulher perfeita para Oliveira Salazar desposar. Este homem já deve ter nascido persuadido de que a mulher que tivesse em mente a preocupação do seu lar não podia produzir fora dele um trabalho impecável. E parece que até afirmou que  haveria de morrer sempre lutando contra a independência das mulheres casadas. Foi realmente um grande desencontro temporal, este, uma pena mesmo, ficando o ditador sem parelha à altura e nós a ter de aturar a Joana saudosista de um tempo e de um entendimento das coisas que, por mais que lhe custe, não voltarão mais. A Joana quis declarar-se anti-feminista e contra a Lei da Paridade mas aproveitou para fazer uma romagem de saudade. E acredita que a maioria das mulheres estão com ela. Não sei bem. Até porque a maioria das mulheres nem sabe o que é o marxismo cultural que se lê nas entrelinhas a atemorizar a visão que a Joana tem do mundo. Por mim, estou disposta a dar-lhe razão mas só quando ela mostrar no Facebook fotografias a estender a roupa dos quatros filhos nas cordas antes de ir para o consultório. A a passar lençóis e sete camisas ao fim-de-semana, em frente à TV, e, já agora, também a lavar os dois WC lá de casa com CIF Marinho Lava tudo.

Em resumo, para JBR as ditas feministas, as tais que se julgam emancipadas, não passam de umas avantesmas.  Deslumbram-se com capas de revista, gostam de andar sempre a pular de pila em pila,  não querem engravidar para não ficarem disformes, perderem oportunidades profissionais em virtude de terem de dar apoio às crias, e muito menos correrem o risco de ser rejeitadas pelos recrutadores. Essas trogloditas fogem da elegância e da educação como o diabo da cruz. São as tais dos pelos longos e coloridos nas axilas, dos piercings relusentes em todo o lado, das tatuagens infectas, do cabelo pintado em casa, que usam ténis e sapatos sem salto, umas doidas que fazem paradas com as tetas ao léu, sei lá. Mulherio do pior, não sabem estar, transformadas em meros objectos de desejo, rejeitaram todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal.  Diz Joana que este sagrado trio  é que corresponde à verdadeira natureza da mulher. São as características mais belas da mulher e deviam ser a sua preocupação fundamental e dos movimentos feministas. Mas não. Essas são mulheres não deixam as mulheres ser mulheres. Agora digo eu o que a Joana não disse mas pensou. Em vez disso, as mulheres activistas de hoje nem sequer pensam apenas nas mulheres. Lembraram-se de levantar e lebre da discriminação de géneros não-hegemónicos (os trans e tal). Andam a inventar sexismos em todo o lado, distraiem-se com a ideia da recorrente culpabilização das vítimas ("com essa saia curta, estava a incentivar, disse o juiz"), atacam os ideais de beleza feminina, inventaram o termo feminicídio e agora é todos os dias, o #metoo, bem, um desvario total. A Joana nem ousou referir as mulheres que criam sozinhas seus filhos, essas párias; e mal imagino, sendo do CDS, a opinião dela sobre as famílias ditas patchwork, formadas por filhos de relacionamentos anteriores, bem como relações queer, trans ou poliamorosas. Ui. O melhor é fazer de conta que não há, que só no estrangeiro, e focar no que interessa: nas mulheres como a Joana.

O que diz Joana? Que o potencial feminino caracteriza a mulher. Atentem nesta dura lição: aquela que não gostar de se arranjar está lixada. Se a leitora  não tiver gosto para escolher roupa ou se não tiver dinheiro para andar à moda, esqueça. Se comprou ali um batonzito no hipermercado mas nem assim se consegue sentir bonita, idem. (Já cantava o Roquivários, "Cristina, não vais levar a mal, mas beleza é fundamental.") Se é gorda demais, velha demais, se não é suficientemente bonita, não é feminina. Desculpe lá, não é feminina, leu bem. Grande azar, pensava eu que reduzir a mulher à aparência, de acordo com um catálogo de  imagens de uma feminilidade idealizada, já era história! Nada mais errado. Já estou a sentir-me insegura - é que sou muito baixa - e a culpa é da Joana. Mais: se a leitora não tiver a casa arrumada e bem decorada, é melhor matar-se. Lá está, se amargar com dois empregos para conseguir pagar as contas e se nem assim lhe sobrarem uns euros para umas almofadas do IKEA, é melhor arranjar um terceiro emprego. Ou cortar os pulsos. Além disso, mulher que é mulher, " assume, amiúde, muitas das tarefas domésticas, com toda a sua alma." Esta Joana mata-me. Sobre isto,  já disse de minha justiça: quero fotos.

Depois há o potencial matrimonial que reside no amparo e na necessidade de segurança. A Joana explica: a mulher quer ser útil e quer criar estabilidade familiar  para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Se o marido ganhar mais do que ela, coisa excelente, ela tem orgulho em ter contribuido para tal. O dinheiro dá-lhe segurança, ela sente-se protegida. Basicamente o que a Joana defende é que  a mulher desiste das oportunidades profissionais porque isso é incompatível com o facto de ser esposa e mãe, e, em contrapartida o marido ganha mais dinheiro do que ela para lhe dar a segurança e a protecção que ela precisa. É um win-win. A mulher gosta de ser a retaguarda. (Lá diz o ditado, atrás de um homem há sempre uma grande mulher.) Ah, e ter casado bem é um ponto de honra para qualquer mulher. Joana, Joana. Nem sei por onde começar, Joana. E as mulheres que não são como tu? Uma mulher que nasceu bem, casou bem e vive bem? E as desgraçadas que nasceram sem oportunidades e beneces iguais às tuas? A sorte delas é que talvez nem leiam o Observador. Mas, realmente concordo: se o mono lá da casa pensar como tu, uma mulher que trabalhe dentro e fora de casa e tenha filharada está feita ao bife. Arrisca-se a perder tudo, ou quase tudo, até a saúde mental. Mas, é verdade: quando há dinheiro para pagar a uma ucraniana e fazer muitas refeições fora de casa, mesmo que o mar esteja revolto, o barco aguenta-se, tens razão.

A Joana salavguarda que também há mérito quando acontece o inverso, ou seja, admite que existem casos em que o homem ganha menos do que a mulher, que possa ser ele o elemento "doméstico". Mas coitados desses homens sem oportunidades que têm de aguentar e disfarçar bem o quanto se sentem mal por não poderem dar segurança e protecção à parceira. Mas quanto a estes casos ela invoca o poder do amor como a tábua de salvação do casal: o amor tudo pode. É lindo.

O potencial da maternidade é biológico, diz ela. Que novidade, Joana. Mas educar e criar um filho também é maternidade, não? Bem sabemos que na Idade Média a mulher era tão mais considerada quanto mais parideira. A sua função social era botar no mundo o maior número possível de filhos para arar a terra e defender a aldeia e o estado. As fêmeas são assim mesmo, têm equipamento exclusivo para gerar os filhos, desde que há vida na Terra. O instinto de ser mãe manifesta-se ao longo da vida da mulher, de formas diferentes. Molda o seu modo de ser, de pensar e agir, caracteriza a psicologia feminina. Concordo. Depois a Joana faz o elogio do amor maternal e da ternura que só a mulher pode dar aos filhos, e afirma que "na maternidade, a mulher sente-se verdadeiramente realizada, pois percebe o que é o verdadeiro e incondicional Amor!"

A Joana depois divide os movimentos feministas entre os que foram interessantes, porque lhe foram uteis  - a luta por direitos iguais, voto, trabalho fora de casa, iguais direitos laborais em relação ao homem, e os que são interesseiros, que ela não subscreve - os que querem que a mulher faça uma escolha, isto é, que abdique da maternidade e de um casamento feliz em nome de uma carreira de sucesso. E neste caso, isto é, no acesso a melhores posições profissionais,  a igualdade é impossível de atingir, porque "o homem mais facilmente dedica horas extra ao trabalho, abdicando do tempo em Família, em nome da progressão laboral e, está claro, daquilo que é um apelo mais masculino, o do sucesso laboral." Portanto, segundo Joana, neste patamar não há qualquer discriminação onde o Estado tenha de intervir: trata-se de uma escolha, e,  "A sabedoria popular bem o diz: “Não se pode ter tudo”!

Por esta razão, porque as mulheres escolhem a maternidade e o casamento feliz, há menos mulheres em cargos  políticos e em posições de poder. Onde iriam elas encontrar o tempo para estudar história e política e cuidar da casa e dos filhos, e do sucesso do marido? Diz ainda a Joana que "é mais difícil ascender profissionalmente num meio masculino" mas que já muitas mulheres  alcançaram lugares de topo apenas com a sua enorme inteligência social e emocional, sem a muleta de quotas e quotinhas. Mas depois exemplifica com a representatividade feminina no ensino superior em Portugal: na medicina e na advocacia, vão à frente dos homens. Joana considera isso preocupante.

O activismo feminista actual em vez de se centrar em conciliar a vida laboral com a natureza da mulher definida como a que se sabe sentir bonita e que se arranja e à casa (potencial feminino) , a que casa bem, isto é, com um gajo rico, (potencial matrimonial) e  a que é mãe (de muitos filhos, imagino), anda a dar ouvidos a uma minoria poderosa. Esta minoria já conseguiu que a miserável  Lei da Paridade fosse aprovada, uma lei que priva as mulheres de ascenderem por mérito próprio, a escada social e profissional. Além disso, "retira-lhes a candura e a doçura", não quer que casem nem sejam mães, já que as impele para vias profissionais absorventes. E mais: transforma as mulheres em presa para sexo fácil e objecto de diversão:  "Promove paradas onde se expõe o corpo de forma grosseira e agreste à visão" - imagino que estivesse a pensar na Slut Walk ou coisa similar. Ora, no entender da Joana, nada disto representa a mulher comum, o que ela defende, é que representa.

A Doutora Joana estava apenas a elaborar sobre a Lei da Paridade, sobre a qual também tenho alguma reserva, embora compreenda a razão de ser do mecanismo. A conquista da independência financeira feminina  pelo acesso ao mercado de trabalho  não é um mar de rosas. Um impacto particularmente visível ocorre quando as crianças são colocadas em instituições ainda bem pequeninas, sendo forçadas a cumprir os horários dos adultos, porque os dois membros da família trabalham, e muitas vezes, longe de casa. Qual  a mãe que não lastima, nos frios dias de inverno,  entregar a sua criança a terceiros logo pela manhã? Mas em vez de dizer que trabalhar e ter ambição é errado porque sacrifica os valores tradicionais e não corresponde à natureza e desejo da mulher, porque não criticar antes o sistema de trabalho inflexível que não permite às mães trabalhar e aos pais colaborar para que  possam ambos ser mais presentes na vida da criança? Porquê insistir que os homens são tão diferentes que não podem auxiliar no acompanhamento e educação das crianças? Não é verdade que os homens não sabem, nem querem, cuidar das crianças pequenas e que não são também um porto igualmente seguro para elas. Porque não é mais valorizada a paternidade? E o que estão os homens, afinal, a alcançar com tanta devoção ao trabalho que não possa ser re-equacionado, se a maternidade, um valor fundamental, foi?  É isto o progresso? Não se pode fazer melhor nem pensar de forma diferente? Tão pouco os homens de bom grado aceitam ganhar menos do que as esposas. Não estou a falar de uma diferença de poucos euros, evidentemente. Na sua maioria ainda acreditam que têm, efectivamente, de prover para a família, que é esse o seu papel, e que serão desconsiderados se não o fizerem, não pela esposa, mas sobretudo pelo círculo em que se movem.  E, embora o casal até possa funcionar assim, a pressão exterior pode bem minar esse entendimento. Além de que, provendo se demitem de mais auxílios, considerando que já fizeram a sua parte.

Infelizmente, nem é sequer preciso almejar um lugar de topo numa empresa ou organismo da esfera pública para começar a sentir os espinhos dessa conquista. A injustiça que é uma mulher sentir-se culpada porque está a trabalhar para dar assistência à família e tem de faltar é do mais comum. Não admira que as mulheres coloquem a ambição profissional de parte, mas isso sucede não porque ela não seja da sua natureza ou o sucesso profissional não lhe seja apelativo. O que acontece é que uma mulher tem de possuir, além de uma boa saúde,  uma resistência a toda a prova para lidar com o stress que tudo isto implica, e uma rede de suporte. Essas, as mulheres de carreira que sobem ao topo, são até uma minoria. Inúmeras são todas as outras que ocupam os mais diversos lugares. Imaginemos o caso das professoras, e que são tantas, que sendo casadas têm de dar assistência aos filhos pequenos e faltam. A criança tem uma virose  e o infantário telefona para irem buscar. Não há ascendentes nem parentes que possam chegar-se à frente. Essas profissionais são censuradas pelos pais e mães dos estudantes que apenas querem aulas dadas, são tidas por  inconvenientes nos respectivos departamentos, muitas vezes são substituidas por colegas, que ficam também sobrecarregadas/os; e as suas ausências são automaticamente equiparadas a mau desempenho profissional. Ao marido, hipoteticamente um trabalhador em posição até mais confortável para poder faltar sem idêntica censura, nem lhe ocorre substituir a mulher junto da criança doente. É tarefa da mãe.

Ao contrário do que Joana afirma, penso que o sucesso laboral não tem sexo. A conciliação de  trabalho com a vida doméstica e familiar não pode ser feita à custa da ideia de que a mulher deve desistir da sua ambição profissional. Essa é a saída mais fácil. As mulheres, sem dúvida, realizam-se sendo mães, mas também se realizam profissionalmente. As mulheres devem fazer o que entenderem melhor para si mesmas. O que implica aceitar que a JBR seja feliz a viver de acordo com aquilo em que acredita. Algumas conseguirão equilibrar trabalho e vida de casa e família, outras terão de fazer concessões a uma ou outra dessas importantes facetas da sua vida. Na Holanda é enorme o número de mulheres que trabalham menos horas que os homens ou mesmo em part-time. Em Portugal tal não é possível. Mais do que medidas ou enquadramento legal faltam as condições materiais para que elas possam ser praticadas. Entendo que seja possível melhorar este quadro e obter uma conciliação de vida familiar e profissional mais flexível e benéfica para os dois sexos em vez de afirmar peremptoriamente que a mulher tem de escolher uma coisa ou outra. Creio que é isso que a maioria dss mulheres desejam, sejam ou não feministas.

E vocês? Sentem-se representadas na opinião da Joana? Aguardo.


24/02/19

Teste de personalidade: descubra qual é a sua!



Os  leitores que fizeram o  16 Personalities test  dizem que este teste de personalidade é tão preciso que “chega a ser assustador!” Segundo o site, obtemos uma descrição concreta e precisa de quem somos e de como é a nossa maneira de ser e porquê. É uma borla, ou seja, grátis, grátis, e não pedem os nossos dados. O teste tem uma versão em português (brasileiro) embora feita por voluntários. (O resumo das características dos activistas que referi abaixo é apenas uma parte mínima da análise que disponibilizam para cada tipo de personalidade.)



Existem 16 tipos de personalidades: descubra qual é a sua fazendo o teste!



O resultado: campaigner




Segundo o 16 Personalities Test, os activistas, (meu tipo de personalidade) tem boas probabilidades de:
  • perdoarem facilmente;
  • gostarem de ir a restaurantes étnicos e provar pratos desconhecidos; 
  • preferirem ser chamados de estranhos a serem iguais a todo o mundo; 
  • serem tolerantes com outras culturas; 
  • sentirem a obrigação de ajudar aqueles que são menos bem sucedidos; 
  • acreditarem que existem certas energias ou seres metafísicos; 
  • lutarem se forem obrigados a ficar parados por muito tempo; 
  • serem bons a fazer os outros rir; 
  • usarem roupas brilhantes e coloridas;
  • se sentirem mais produtivos ao ouvir música; 
  • perderem as suas coisas frequentemente; 
  • fazerem muitos gestos com as mãos ao falar com as pessoas; 
  • gostarem de acampar e de outras actividades ao ar livre; 
  • acreditarem que não estamos sozinhos no universo; 
  • tentarem viver como se não houvesse amanhã.

23/02/19

Date a girl who reads - Rosemarie Urquico



"Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes, who has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve.

Find a girl who reads. You’ll know that she does because she will always have an unread book in her bag. She’s the one lovingly looking over the shelves in the bookstore, the one who quietly cries out when she has found the book she wants. You see that weird chick sniffing the pages of an old book in a secondhand book shop? That’s the reader. They can never resist smelling the pages, especially when they are yellow and worn.

She’s the girl reading while waiting in that coffee shop down the street. If you take a peek at her mug, the non-dairy creamer is floating on top because she’s kind of engrossed already. Lost in a world of the author’s making. Sit down. She might give you a glare, as most girls who read do not like to be interrupted. Ask her if she likes the book.

Buy her another cup of coffee.

Let her know what you really think of Murakami. See if she got through the first chapter of Fellowship. Understand that if she says she understood James Joyce’s Ulysses she’s just saying that to sound intelligent. Ask her if she loves Alice or she would like to be Alice.

It’s easy to date a girl who reads. Give her books for her birthday, for Christmas, for anniversaries. Give her the gift of words, in poetry and in song. Give her Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Let her know that you understand that words are love. Understand that she knows the difference between books and reality but by god, she’s going to try to make her life a little like her favorite book. It will never be your fault if she does.

She has to give it a shot somehow.

Lie to her. If she understands syntax, she will understand your need to lie. Behind words are other things: motivation, value, nuance, dialogue. It will not be the end of the world.

Fail her. Because a girl who reads knows that failure always leads up to the climax. Because girls who read understand that all things must come to end, but that you can always write a sequel. That you can begin again and again and still be the hero. That life is meant to have a villain or two.

Why be frightened of everything that you are not? Girls who read understand that people, like characters, develop. Except in the Twilight series.

If you find a girl who reads, keep her close. When you find her up at 2 AM clutching a book to her chest and weeping, make her a cup of tea and hold her. You may lose her for a couple of hours but she will always come back to you. She’ll talk as if the characters in the book are real, because for a while, they always are.

You will propose on a hot air balloon. Or during a rock concert. Or very casually next time she’s sick. Over Skype.

You will smile so hard you will wonder why your heart hasn’t burst and bled out all over your chest yet. You will write the story of your lives, have kids with strange names and even stranger tastes. She will introduce your children to the Cat in the Hat and Aslan, maybe in the same day. You will walk the winters of your old age together and she will recite Keats under her breath while you shake the snow off your boots.

Date a girl who reads because you deserve it. You deserve a girl who can give you the most colorful life imaginable. If you can only give her monotony, and stale hours and half-baked proposals, then you’re better off alone. If you want the world and the worlds beyond it, date a girl who reads.

Or better yet, date a girl who writes."

22/02/19

"Vou-lhe falar sobre os ventos".


Killer Vacation photo set posted by York in a Box, via Facebook.

Parece uma mentira do primeiro de Abril, mas dizem que nos próximos dias de ainda Inverno vão estar 26 graus. A  notícia sobre a temperatura elevada para a época transportou-me para um qualquer dia de um fim-de-semana de Agosto.

Uma pessoa acorda a sonhar com uma bela tarde de praia num luminoso Domingo. Faz uma consulta rápida na internet e descobre que vão estar 26 graus, céu limpo, água moderadamente fresca, ondulação aprazível e depois apanha uma lufada valente quando lê: vento a 40 Km/h. Não. Não a frase não estava escrita a itálico, mas até devia, pois é sabido que o vento é dado a fazer inclinar as coisas por onde passa. Convencida de que mais do que ninguém merece uma tarde de esplendor na areia uma pessoa faz uma busca por argumentos que façam dissipar a pequena nuvem que se rapidamente se formou acima da cabeça. Imagina então que se dentro das localidades a velocidade máxima permitida para circular são uns tranquilos 50 Km/h, não vai ser um ventito de 40 Km/h que vai estragar a tarde balnear. E logo se faz ao caminho munida de elementar pára-vento amarelo, mochila com tudo o que compete levar para uma tarde em beleza à beira-mar, o coração a cantar e a mente a levitar, antevendo o paraíso. 

Alguns caminhados minutos mais tarde, e depois de se terem ignorado as copas das árvores em delírio e outras, juvenis, em vénias contínuas, uma pessoa avista o mar e tudo parece perfeito. Há gente a percorrer as passadeiras de madeira e ao largo silhuetas de banhistas, chapéus e pára-ventos. O circo está montado.  Aos banhistas juntam-se os veranenantes de Domingo, gente sem margem de manobra para se esperguiçar o corpo ao sol por mais que meia dúzia de horas antes do regresso ao trabalho. Mas eis que já mais perto da orla marítima se lhe atravessa à frente um chapéu de praia descrevendo uma sequência de rondadas e flic-flacs para a frente. Não é um bom sinal. Mas the show must go on. O optimismo prevalece mesmo quando uma pessoa observa que a areia está lisa como uma folha de papel. A meio do areal começa já o vento soprar em rabanadas vigorosas e a pequena nuvem regressa ao topo da nossa cabeça. Tem-se esperança de que a vigorosa aragem a leve para longe mas não, ela terá vindo para ficar. Rapidamente se constata que o terreno não é propício ao relaxamento sonhado. Mas já que se está ali, porque não tirar partido? Que seja uma experiência de praia radical! 

Uma pessoa tem, em primeiro lugar, que espetar as estacas de madeira do pára-vento. Uma traefa simples. Mas mais vale manter a mochila às costas não vá o vento levá-la para longe. São apenas quatro estacas. Aguarde-se um intervalo menos ventoso e umas a seguir às outras já estão devidamente ancoradas. Agora, pés à obra. Vai de empurrar areia para a base. Nem custou assim tanto e a barreira de salvação pareceu ficar bem firme na areia. Ainda assim a cabeça é sobrevoada por um pensamento de um pára-vento arrancado ao cais. Depois, uma pessoa passa para o lado interior, voltado a sul. Retira a toalha da mochila e faz de mastro de uma bandeira desfraldada por instantes.  Estende-a na areia. Ajeita-a. Senta-se. Enquanto se despe, guarda tudo na mochila com medo que os dedos do vento lhe levem das mãos o que é seu. Coloca protector solar mas a dado ponto é como se estivesse a fazer esfoliação à base de grainhas de uva, (que  não quer ter nada a ver com as micro-esferas poluentes que vão parar à barriga dos peixes que hão-vir parar à barriga do mundo.) Quando acaba e guarda a embalagem, verifica que a toalha já se encheu de areia. Levanta-se aborrecida e sacode-a. Deita-se nela a correr, de mergulho, a cabeça junto da sarja amarela. A reverberação do vento no pára-vento é forte e ruidosa quando aquele se intensifica. Faz lembrar o bater de asas de muitas aves. Sente a areia a percorrer as pernas como uma lixa. Não demora a ficar coberta de pó de areia que se colou à pele ajudado pelo filme untuoso do protector solar. E a toalha está novamente polvilhada de areia finíssima. Retira a t-shirt que entretanto tinha guardado na mochila e improvisa um turbante. Parece uma berbere. Mas já é tarde. A areia já se guardou nos ouvidos e invadiu o couro cabeludo.

Então uma pessoa levanta-se irritada e observa em volta. Há gente deitada como se nada de menos bom se passasse naquela tarde. Mas ela está picada dos nervos com tanta areia em movimento. Tem na boca um travo a deserto ao cerrar os dentes, grãos de areia que não macio cuscous. A areia corre junto ao chão, mas também voa. Se ela apertar a mão no ar consegue apanhar os finos grãos a caminho de nenhures. Ao longe as pessoas não têm pernas, apenas troncos: uma miragem de um branco leitoso corre junto ao chão apagando a sua definição. O horizonte torna-se difuso e esbatido. Lembra-se do filme O paciente inglês. No filme O paciente inglês, Katherine (Kristin Scott Thomas) e Almasy (Ralph Fiennes) estão fechados num jipe numa imensa tempestade de areia no meio do deserto do Sahara. Almasy, para conquistar Katherine, começa a contar-lhe a história dos ventos.

– Vou-lhe falar sobre os ventos. Há um ciclone do Sul do Marrocos, o Aajej, contra o qual os felás se defendem com facas. Há o Ghibli da Tunísia…
– O Ghibli?
– Ele gira gira gira e produz uma sensação estranha. E há o Harmatã, um vento vermelho que os fuzileiros chamam “mar de trevas”. A areia vermelha deste vento chegou à costa sul da Inglaterra. Produziram tempestades tão densas que parece sangue.

Só no cinema é que alguém pode ter esta ideia de filmar uma cena romântica com pessoas a serem enterradas vivas pelas areias do deserto enquanto os ventos corropiam ao seu redor. Não há nada de romântico em ser assediada por areias pelo corpo todo. Acreditem, a areia é como a água. Não há refego, recanto, dobra ou dobrinha que a areia não consiga penetrar e sufocar.

Há gente no mar e uma pessoa pensa que gostava de ir ao banho lavar-se de todo aquele pó. Uma mulher dança junto das ondas e abre os braços em T para receber o afago das areias que entretanto investem na sua direcção com mais e mais força. Ri-se e o homem que está com ela faz gestos de desincentivo à exótica dança. Mas ela parece divertida e continua.  Um pacote de Doritos passa em vôo de corrida rente a ela executado cambalhotas e rodas. Um pessoa pensa em retornar à avenida e refugiar-se numa esplanada bem protegida. Mas se ficar é mau, voltar não é melhor. Coragem. Veste-se e calça-se sentada como se estivesse dentro de uma tenda de campismo, ajeita o cabelo o melhor que pode e coloca a mochila às costas. Agora tem de desenterrar o pára-vento, enrolá-lo e atravessar o deserto. Levanta-se. Fica de costas para a ventania uivante. Sente a areia a picar-lhe nos braços. O vento insiste em castigar aquele corpo onde ele se mostra. Parece que está a gostar de a atormentar, é diabólico. Uma pessoa espera minutos que parecem horas por um pouco de calma. Quando lhe parece ser aquele o momento, arranca as estacas rapidamente e nem cuida de enrolar o pára-vento. Ajeita-o contra si, faz dele um escudo. E aí vai, assim resguardada, a olhar o chão por onde a areia rebola em tropelias malucas. Quando se torna impossível dar o peito ao manifesto tenta caminhar avançando de costas contra o vento. As passadeiras de madeira aprecem estar mais longe do que estão. Tem areia na boca e tenta cuspi-la mas acerta em si. Merda, exclama, enquanto limpa o cuspo da cara.

Todos os anos uma pessoa tem um dia de praia horroroso assim. Todos os anos o vento na praia da Figueira enterra o seu fascínio pela vida no deserto mais uns centímetros. A última vez que procurou um oásis cinematográfico filmado em paragens agrestes ficou a conhecer A rainha do deserto, de Werner Herzog. Mas o filme de oásis nada tinha. Era tão fraco como qualquer Domingo de praia ventosa. Quando chega à passadeira corre por ela fora até onde lhe permitem os músculos entorpecidos. Passa por pessoas que avançam curvada e vagarosamente enrodilhadas em longas toalhas coloridas. É já na marginal calcetada que enrola devidamente o pára-vento enquanto sacode todo o seu descontentamento: oh, merda de praia. Um grupo de pessoas bem vestidas que ali conversam, de pé, olham para ela, tirando as medidas ao seu desapontamento. Julgo, pelo riso que se instalou a seguir no pequeno círculo, que o vento, incansável, ainda arranjou fôlego suficiente para a envergonhar.

(Como será o cenário no fim-de-semana que se avizinha?)


Using proper English - Monty Python



"Perhaps one of the most interesting words in the
English language today is the word fuck.
Out of all of the English words that begin with the letter "F",
Fuck is the only word that is referred to as the "F" word.
It's the one magical word, just by its sound can describe
Pain, pleasure, hate, and love.
Fuck, as most words in the English language,
Is derived from German, the verb "ficken", which means to strike.
In English, fuck falls into many grammatical categories.
As a transitive verb for instance:
"John fucked Shirley"
As an intransitive verb:
"Shirley fucks"
It's meaning's not always sexual.
It can be used as an adjective such as:
"John's doing all the fucking work"
As part of an adverb:
"Shirley talks to fucking much"
As an adverb enhancing an adjective:
"Shirley is fucking beautiful"
As a noun:
"I don't give a fuck"
As part of a word:
"Abso-fucking-lutely" or "In-fucking-credible"
And, as almost every word in a sentence:
"Fuck the fucking fuckers"
As you must realize there aren't too many words with the versatility of fuck.
As in these examples, describing situations,
Such as fraud:
"I got fucked at the used car lot"
Dismay:
"Oh, fuck it"
Trouble:
"I guess I'm really fucked now"
Aggression:
"Don't fuck with me buddy"
Difficulty"
"I don't understand this fucking question"
Inquiry:
"Who the fuck was that?"
Dissatisfaction:
"I don't like what the fuck is going on here"
Incompetence:
"He's a fuck off"
Dismissal:
"Why don't you go outside and play hide and go fuck yourself"
I'm sure you can think of many more examples.
With all of these multipurpose applications,
How can anyone be offended when you use the word?!
We say use this unique, flexible word more often in your daily speech.
It will identify the quality of your character immediately.
Say it loudly and proudly...
"Fuck you!"

Top Ten Times in History When The 'F' Word Was Appropriate

10. "What the f*** was that?" - Mayor of Hiroshima, August 1945

9. "Where did all these f***ing Indians come from?" - General Custer, 1877

8. "Any f***ing idiot could understand that." - Einstein, 1938

7. "It does SO f***ing look like her!" - Picasso, 1926

6. "How the  f*** did you work that out?" - Pythagoras, 126 BC

5. "You want WHAT on the f***ing ceiling?" - Michelangelo, 1566

4. "I don't suppose it's gonna f***ing rain." - Joan of Arc, 1434

3. "Scattered f***ing showers...my ass!" - Noah, 314 BC

2. "I need this parade like I need a f***ing hole in my head!" -
JFK, 1963

and the number one time in history where the "F" word was appropriate...

1. "Aw c'mon, who the f*** is going to find out?" - Bill Clinton, 1997


20/02/19

O livro de São Cipriano ou o tesouro do feiticeiro: quem já leu?


Sempre ouvi falar no Livro de São Cipriano, mas nunca vi nenhum à venda em livrarias, nem em feiras do livro ou alfarrabistas, possivelmente porque nunca me interessou procurar por ele. Sabia que era considerado um livro maldito, e que São Cipriano era "São", logo, santo. Parecia não bater a bota com a perdigota. O Google é nosso amigo. Eram duas da manhã, e eu até já via São Cipriano a dobrar! Mas não era magia branca nem de cor alguma, nem fruto do adiantado da hora: numa primeira leitura, pareciam existir dois santos com o mesmo nome, um, Cipriano de Antióquia; outro, Cipriano de Cartago. Mas Cipriano de Antióquia, que  foi martirizado por volta de 300 d.C. por ser cristão, é que é o Cipriano das feitiçarias e rituais, a quem é atribuído o livro. Já Cipriano de Cartago viveu no século II , também foi martirizado,  mas foi o primeiro bispo africano, tendo desempenhado  um importante papel na disseminação do catolicismo em África, e é um dos doutores da igreja. 

Cipriano de Antióquia, o feiticeiro, nasceu na cidade de Antioquia, hoje, Antáquia, na Turquia, em 250 d.C. , filho de pais ricos e pagãos. A cidade, o principal centro comercial e industrial da província romana da Síria, continha uma população maioritariamente romano-helênica. Antioquia era então a terceira maior cidade do império romano, conhecida por “Rainha do Oriente” em virtude da arte romana e do luxo oriental ali reunidos. Parece que a libertinagem e a lascívia eram o pão nosso de cada dia e de cada noite nos quatro cantos da bela Antioquia. Alguns dos cultos religiosos ali praticados estavam associados à sexualidade e fertilidade, como o da deusa Astarte. Curiosamente, Antioquia foi o local onde os seguidores de Jesus foram chamados pela primeira vez de cristãos.

Cyprianus, em vez de ir jogar às nozes com os amigos, - entre os romanos dizia-se que os meninos estavam a deixar as nozes, "nuces relinquere", tal era o fascínio das crianças e jovens romanos pelos jogos com nozes! -  foi desde miúdo incentivado pelos pais a estudar a ciência dos sacrifícios que se ofereciam aos ídolos, por ele manifestar inato talento para tanto. Li que teve pacto com o diabo e relações íntimas com todos os espíritos infernais, embora não consiga alcançar em que badalhoquices é que ele se terá envolvido. Aos 30 anos, viajou até à Babilónia para aprender com os Caldeus, povos semitas do sul da Mesopotâmia que habitavam na margem oriental do rio Eufrates. Os Caldeus foram pioneiros nos estudos sobre astrologia e astronomia e  avanço dos estudos da matemática. Cipriano, que nascera com vocação para a mística e para a vida impura e escandalosa, escarnecia abertamente da religião cristã e dos conselhos de Eusébio, um colega de estudos. Mas um dia "Deus tomou a decisão de converter este infeliz vaso de contumélias e ignomínia em vaso de eleição e de honra. " O seu destino cruza-se com o da rica e  bela Justina que se tinha convertido ao cristianismo e convertido os pais, vivendo em oração e retiro, como esposa de Cristo. Aglaide encantara-se de amores por Justina e os pais desta logo concordaram com o casamento. Mas Justina não estava pelos ajustes: ela pertencia a Cristo. Aglaide convoca então Cipriano, o feiticeiro, que oferece aos demónios muitos e horrendos sacrifícios. Os demónios em vão tentam fazer Justina cair na tentação carnal, a sua fé era mais forte que qualquer feitiço diabólico. Justina a tudo e todos repelia com o sinal da cruz e o poder da oração. Cipriano, frustrado. interpela o demónio  e este confessa-lhe que o Deus dos cristãos é que era o supremo Senhor dos céus, da terra e do inferno. Cipriano, sentindo mal empregues os seus talentos, não hesita em descartar o demónio: doravante irá então servir a um senhor mais poderoso. Reforçado na sua escolha por Eusébio, amigo antigo, Cipriano conseguiu reagir a todas as tentações diabólicas que o perseguiram. Queimou os livros de magia e distribuiu pelos pobres as suas riquezas. Cipriano, e também Aglaide são baptizados, enquanto Justina corta os cabelos em sinal de sacrifício. 

Cipriano obra milagres, isso e a sua eloquência converteram muitos aos cristianismo. A sua fama alcançou Diocleciano, o imperador. Os cristãos praticavam sua religião no território romano desde o séc. I. Não reconheciam a divindade do imperador e como praticantes de uma religião transgressora, que desconsiderava a moralidade, eram perseguidos. As medidas persecutórias (éditos) de Diocleciano destinavam-se a restaurar a pureza moral do Império Romano, o respeito às leis romanas que promoveriam a indulgência divina e a credibilidade na divindade do Imperador. O Imperador mandou prender Cipriano e a santa Justina. Confessaram a sua fé ao juiz, que os mandou açoitar duramente, com cordas e ferros. De seguida, como se não cedessem, foram atirados para uma caldeira de pez, banha e cera a ferver. Mas pareciam imunes a todo o sofrimento, de tal forma que um sacerdote pagão, tentando capitalizar fama com aquele momento, invocou os demónios, convencido que eram eles que protegiam Cipriano, e lança-se na banha ardente, morrendo imediatamente. O juiz enviou carta a Diocleciano dando conta do sucedido e este mandou então que os dois fossem degolados.Os corpos ficaram expostos por dias, até que um grupo de cristãos os recolheu e levou para Roma. Mais tarde, o imperador cristão Constantino,  ordenou que os restos mortais de Cipriano fossem sepultados na Basílica de São João Latrão, localizada em Roma. Esta é a catedral do bispo de Roma,  o lugar de onde o Papa dá a sua benção a cada Quinta-feira Santa. Eis a lendária vida de São Cipriano: de feiticeiro a mártir e santo. Um relato onde convivem Diabo e Deus, o profano e sagrado, o pecado e pureza, ou seja, a dualidade que alimenta a história da fé desde os primórdios.

A este tipo de livros chama-se grimórios, ou também engrimanços, palavra que desde logo me chamou a atenção no livro de Cipriano, onde aparece escrita com "i". Um pulo ao dicionário revelou-me o significado: maneira ininteligível de falar, discurso obscuro, artimanha, estratagema. Parece muito adequado para designar um manual de artes mágicas. Depois fui pesquisar por "grimório": trata-se de tipo de um livro escrito entre o final da Idade Média e o século XVIII. Contém correspondências astrológicas, listas de anjos e demónios, orientações sobre como efectuar feitiços ou misturar remédios, conjurar entidades sobrenaturais e fazer talismãs. A palavra grimório vem do francês antigo gramaire, da mesma raiz que a palavra gramática. Na metade final da Idade Média, gramáticas de latim (livros sobre dicção e sintaxe de latim) eram guardados em escolas e universidades controladas pela Igreja. Para a maioria iletrada, livros não-eclesiásticos eram suspeitos de conter magia. Mas, por outro lado, uma gramática é também um livro de instruções básicas, que representa a descrição de uma combinação de símbolos, contendo também a descrição de como combiná-los, de modo a criar frases lógicas. Um grimório, por sua vez, seria a descrição de uma combinação de símbolos mágicos e de como combiná-los de forma apropriada.

Entre os mais famosos grimórios existentes estão As Clavículas de Salomão, O Grimório do Papa Honório, O Enchiridion do Papa Leão. É engraçado que os autores da colectânea de tradições orais se refugiassem em nomes de santos e papas para dar credibilidade aqueles escritos. Mas ao contrário da Igreja que apregoava que pela morte se alcançaria a vida eterna e bens que na terra seriam impossíveis, estes compêndios de magia prometiam o acesso aos prazeres impossíveis  no aqui e agora, e ainda hoje atraem a curiosidade de muitos. No Brasil, o Livro de São Cipriano é usado largamente nas religiões afro-brasileiras, está muito enraizado na crendice popular. Há quem considere ser pecado possuí-lo ou simplesmente tocá-lo.

Na internet surgem muitas pessoas questionando onde comprar o livro e outras tantas relatam os mais estranhos e fantásticos acontecimentos depois de terem contactado com o seu conteúdo e aconselham distância. Isto apenas aumenta o mistério e a curiosidade em torno das páginas malditas e alimenta o negócio. Alguns destes livros vendidos online têm preços exorbitantes! Escusado será dizer que com esse valor se podem comprar uns 4 livros de boa ficção de excelente qualidade, livros poderosos, com magia literária de sobra para fazer esquecer os desaires desta vida e os amores não correspondidos aos mais infelizes de nós. Acompanhe-se com uma garrafa de bom vinho, que existem alguns, dizem os entendidos, até são capazes de dar vida aos mortos. Esta é a minha receita.

Para que conste, li o livro, - não na íntegra, como é óbvio, que a minha paciência tem limites e o meu tempo ainda mais - e nada de ruim me aconteceu. Mas se receiam algum mal, sugiro que não continuem a leitura pois irei desvendar parte do seu conteúdo. Respeito quem tenha reservas  em relação a matérias ocultistas, mas reforço que  o mal nunca esteve, nem estará, num livro e antes nas más acções da criatura mais imperfeita que caminha sobre a terra: o Homem. E, a ser assim, este livro pode realmente ser usado para o mal, desde logo, para a morte de tantos animais inocentes, por quem não tenha escrúpulos ou cabeça melhor para pensar.


Esta edição do livro de São Cipriano, à venda online, na Wook, tem 336 páginas, é da Editora Nascente, e parece seguir o exemplar que se encontra na Biblioteca Nacional, a mais antiga versão que se conhece do livro em português - Livro de São Cipriano ou tesouro do feiticeiro - e que data de 1800. Está acessível a consulta online.

O exemplar que se encontra na Biblioteca Nacional é composto por três volumes. A primeira parte aborda a vida do feiticeiro, dá instruções aos religiosos para saberem se as moléstias que vão tratar são obra do diabo, se são naturais ou sobrenaturais, lista exorcismos para expulsar o diabo do corpo, orações para curar moléstias, mesmo naturais, etc. Seguem-se maneiras de desencantar tesouros e os lugares onde estão tinas, saquinhas, moedas de ouro e prata, pérolas e diamantes, ao que percebi em Portugal e na Galiza; depois vem a explicação dos fantasmas - que só aprecem aos fracos de espírito - e sombras, como deitar cartas, considerada a mais recente das "ciência das conjecturas", ou de predizer o futuro pela inspecção de coisas sem importância. Ao longo da história e em diversos lugares dos mundo, muitos objectos servem para o efeito, mas aqui são as cartas os eleitos. A seguir ficamos a saber a nomenclatura dos atormentados pelo demónio: aos obcessos, o diabo atormenta-os por fora; os malfisiados sofrem dores e moléstia, fruto de feitiçaria; os possessos,  têm o diabo no corpo; os reptisios, têm pacto com o diabo e são arrebatados pelo ar; os phitonicos, têm espírito que adivinha; os lunáticos, são atormentados nos crescentes e minguantes da lua, e aos fascinados, o diabo leva-os a obrar e falar sem saber o que dizem. De seguida, muitas páginas para aprender a ler a sina, isto é, a arte de adivinhar pelas linhas da mão a fortuna ou desgraça das pessoas. Também se explica como adivinhar com seis pausinhos de alecrim.


A segunda parte do livro, tem mistérios de feitiçaria que foram extraídos de um livro que se julga do tempo dos mouros. Inclui magia negra e branca, feitiçaria para o bem e para o mal, receitas para apressar casamentos, etc. Começa por ensinar a fazer uma cruz em madeira de cedro: Depois vem a magia das favas: há que matar um gato preto e enterrá-lo no quintal com uma fava em cada olho, outra debaixo da cauda e uma em cada ouvido. O lugar deve ser regado todas as noites até da terra brotar planta que dê favas. Depois é colher as favas e levá-las para casa. Uma de cada vez deve ser colocada na boca. Um delas há-de tornar a pessoa invisível e isso sabe-se porque a pessoa começa a sentir-se assim. Então é só guardar essa poderosa fava e usar quando for preciso.

Seguem-se mais magias com gatos pretos, que nem sempre sobrevivem após processo, como já todos bem entendemos. Os cães pretos também eram usados nos trabalhos. Animais de pelagem negra têm muita força de mágica. Por exemplo, há que cortar as pestanas de um cão preto, um pedaço de pelo do rabo, as unhas, queimar com alecrim do norte, meter em frasco de vidro com cortiça e ao fim de nove dias está o feitiço pronto. E para que serve? Para enamorar alguém. Para o efeito, é só preparar um cigarro, mas tem de ser forte, e juntar uma pitada desta mixórdia. Depois basta deitar uns bafos de fumaça para cima do pretendido amor.

Há uma receita bem curiosa para conseguir o amor do homem: a mulher deve obter do homem um objecto de prata que deverá manter consigo por dois dias. Depois, segurando esse objecto, uma moeda, numa mão, dá a beber ao homem  um cálice de vinho onde se misturou láudano, uma cabeça de enguia e sementes de cânhamo. Se o "medicamento" não surtir efeito, assim que a mulher consiga ter o homem a sós deve dar-lhe a beber uma chávena de chocolate onde juntou noz moscada, canela, baunilha e dentes de cravo, sem esquecer que estes devem ser retirados antes de servir. Acrescentem-se gotas de cantárida, por vezes referido como Spanish fly ou mosca-espanhola. (Fiquem a saber que é um preparado conseguido a partir de insectos, como besouros, joaninhas, gorgulhos.)Se o indivíduo desejar comer alguma coisa, o livro indica que deve ser pão-de -ló. Se  não houver vinho nem chocolate, pode usar-se café. Neste caso usa-se antes erva doce e umas gotas de tintura de cantárida. O livro avisa que o homem logo desconfiará que a mulher o quer enfeitiçar mas não dá pistas de como é que ela irá desfazer essa bota.  Também informa que a prescrição é para repetir a cada 15 dias. Algures neste intervalo, a  mulher deverá convidar o homem para almoçar e servir-lhe uma fritada ou omoleta. Não sei como é que ele irá aceitar tendo provado aquelas mistelas, mas é este o caminho. A omoleta tem um segredo: os ovos depois de bem batidos devem ser lançados no alto da espinha da mulher, escorregando pelas costas dela abaixo, indo ser aparados onde acaba a espinha. É omoleta acrobática. Muita faxina deve ter sido feita em virtude de tão arriscado malabarismo. O melhor era recorrer ao auxílio de uma cúmplice. O livro não refere nada sobre a possibilidade de uma mãozinha auxiliar deitar por terra o sucesso da receita. Ao jantar, uma nova iguaria devia ser servida: uma almôndega proteica. Mas, claro, com segredo, desta feita menos acrobático e mais perfumado. Antes de levar ao forno a mulher deve passar as almôndegas pelo corpo suado, peito, costas e barriga, fazendo-os demorar um pequeno tempo debaixo dos sovacos. O café, ao almoço e ao jantar, deve ser coado pela fralda da camisa da mulher, com que ela tenha dormido pelo menos duas noites. Afiança o editor que esta receita tem concorrido para a felicidade de muitas mulheres. Aqui fica. Mas, por favor, não tentem fazer isto em casa, não? 

Há receitas para as mais variadas ânsias, por exemplo, para expulsar o demónio do corpo, outras para proteger dos raios. Há feitiçarias com sapos. Diz o livro que a sua força advém do facto de sapos serem a comida que o diabo dá às almas no inferno. Os pobres animais tinham os olhos cosidos com agulha e um fio de retroz (seda) verde porque alguém acreditava que ia obter algo. Também lhes cosiam a boca com linha preta. A maioria dos sapos acabavam, depois deste transe, dentro de uma panela de barro. Nem sempre morrem mas no final da tortura deviam estar mais mortos do que vivos. Os morcegos também não escapam às agulhas e aos cosimentos criativos. Há receitas para ganhar ao jogo, e uma mágica que implica passar a agulha e linha três vezes pela pele de um defunto. O livro não explica onde iam os praticantes encontrar um morto à mão: se tinham de matar alguém ou se profanavam cemitérios.

O livro também tem diversas histórias, mais ou menos longas, como a História de Cipriano e Elvira. Apenas passei os olhos pelo seu conteúdo mas uma das mais curiosas é a do pastor que matava besouros e os ressuscitava com uma erva que só as andorinhas, as lavandiscas, e os besouros conhecem. Cipriano encontrou um pastor na montanha, Barnabé, de seu nome, que se entretinha a matar, esmigalhando com o pé, e a ressuscitar depois, uma vaca-louca(besouro). O pastor foi por Cipriano equivocado e levado e crer que era antes Cipriano, bispo de Cartago, e até lhe confessou os pecados. Cipriano, ganha a confiança, inquiriu sobre aquele incrível  poder de dar vida. O pastor explicou que se tratava de uma erva mágica, que se cria no monte, mas que só certos animais conheciam. Um dia ele matara um besouro. Daí a minutos, vira chegar um outro, com erva nos cornos. O besouro depositou a erva sobre o pobre bicho desfeito que de novo ganhou vida. Então o pastor tirou-lhe a erva e sempre que matava um bicho de seguida ressuscitava-o! Cipriano logo cobiçou a erva e o pastor ofereceu-se para ir arranjar mais. Foi à procura de um ninho de andorinha com os ovos chocos, retirou-os e cozeu-os em água a ferver, voltando depois a colocá-los no ninho. Quando as andorinhas voltaram logo perceberam que os ovos estavam sem vida e rumaram ao monte colher a erva mágica para colocar sobre os ovos e fazer nascer a criação. O hábil pastor apropriou-se então da erva e entregou-a a Cipriano que assim se tornou ainda mais poderoso.

Umas páginas à frente, leio a magia da pomba preta encantada, em que a pomba, criada com semente de boiamento e água benta, leva uma carta no bico à morada certa e retorna só com a força do pensamento. O que for pedido na carta será feito pelo destinatário. Há também uma receita infalível para casar. Outra temática, é a arte da adivinhação das paixões e tendências das pessoas pelo tamanho do crânio e da fisionomia. Lá se diz que as senhoras, pela forma como arranjam os cabelos, se têm furtado à hipótese de serem adivinhadas assim! Segue-se um tratado de páginas e páginas com características físicas e seu significado, que termina aconselhando homens e mulheres de como escolher a companhia ideal de acordo com elas. Por exemplo: "Não será feliz um homem que se apaixonar por uma mulher cujos dentes sejam curtos e ponte-agudos; não há dinheiro que satisfaça as exigências e os caprichos das mulheres que possuam tal espécie de dentes." Mais adiante um guia de interpretação dos sonhos e aparições nocturnas: fiquei a saber que sonhar com um cadáver é sinal de alegria, boa saúde, amizade.

Da terceira parte do Livro de São Cipriano, constam os "inguerimanços" de São Cipriano ou prodígios do diabo acontecidos na Galiza, o mapa dos tesouros da Galiza com base em pergaminho do séc. XII, considerações sobre espíritos que infestam as casas com estrondos e outras importunidades: fica-se a saber que nem injúrias nem armas nem fogo resolvem o assunto. Para enfrentar esses espíritos o melhor são os sinais da igreja, os exorcismos, orações, jejuns, esconjuros, relíquias dos santos, benzeduras das casas, aspersões de água benta, etc. Uma boa prevenção é ir à missa ao domingo e benzer-se com água benta. A seguir, tudo sobre a buena dicha (arte de ler na mão), os poderes ocultos do ódio e do amor: desta feita são os mochos que são usados para as mulheres prenderem o amor dos homens, ou os ouriços cacheiros para fazer com que a mulher retorne às boas com o seu homem, ou as corujas para manter o homem fiel. Alguma páginas dão nota de magias que se praticam no Brasil ou na China, numa outra refere-se que lagartos são torrados vivos no forno dentro de uma panela. 

E para terminar esta minha incursão pelo livro de São Cipriano,  uma última receita para as mulheres se livrarem dos homens quando estiverem aborrecidas de os aturar, mas sem escândalo: há que ser desmazelada, não se penteando nem se lavando, nem tomando o mínimo interesse carnal quando o homem a desafiar para actos vulgares. Há ainda que meter ao lume numa panela o seguinte: 12 ovos de formigas e duas malaguetas dentro de uma cebola alvarrã (silvestre?) furada. Quando o homem estiver a dormir, destape-se a panela e depois vá passar-se o braço direito por cima do seu peito, enquanto se recita um certo esconjuro mentalmente.

Esta última secção do livro ainda inclui receitas para não ter filhos e para desmanchos, a história da feiticeira Évora, considerações sobre alchimia ou arte de fazer ouro, etc.

N.B. Por favor, não tentem fazer nada disto em casa. Nem no escritório. Nem em parte alguma. Vão por mim. Melhor que qualquer receita de Cipriano, é a minha receita: boa literatura e um copo de vinho.

Enos- Vinhos de Boutique - Amor, Felicidade, Liberdade

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A Wikipedia pertence à Wikipedia Foundation, uma instituição que não tem fins lucrativos. De vez em quando quando consulto a Wikipedia encontro um pedido de doações lançado pelo fundador da Wikipédia, Jimmy Wales. Ele e Larry Sanger foram os pais do site que hoje é um dos mais populares do mundo. São cinco os pilares que estruturam o funcionamento da Wikipedia: enciclopedismo, neutralidade de ponto de vista, licença livre, convivência comunitária e liberalidade nas regras.Há uns tempos li umas tricas sobre a sua criação, ao jeito das que aconteceram também na criação da Apple ou no Facebook, do género uns trabalham, outros ficam com os louros. Também li uns fumos sobre uso indevido do dinheiro recolhido em angariações de fundos, e onde há fumo há fogo, bem sabemos. Mesmo assim, quando aparece o pedido eu contribuo, até porque a Wikipedia  permite que o façamos com quantia de pobre. Que é o que sou. E em virtude disso, como poderia não apreciar conteúdo de borla sobre os mais incríveis assuntos que me lembre de procurar? 

Aprecio, evidentemente, o carácter verdadeiramente social da Wikipedia. Quando pensamos em "social", o que nos ocorrer é o Facebook, ele é "a rede social", embora a cada dia mais pareça ser antes "a rede económica" , uma empresa, um esquema que alguém usa para ganhar dinheiro. Nem cuida de disfarçar. Pois, já sabemos: não há almoços grátis. Andrew Lewis, jornalista americano, disse um dia: "Se você não está pagando para usar o produto, você é o produto." Mas não é apenas o Facebook. Vejam o documentário Terms and Conditions may apply onde tudo é explicado: nós damos autorização para que a nossa privacidade se esfume e que possamos ser o produto. Pode haver vantagem nisso: se os dados são utilizados no nosso interesse, para nos mostrar utilidades em vez de anúncios publicitários que nada nos dizem, porque não? Mas os dados nem sempre são recolhidos com transparência, os escândalos ensinaram até os mais distraídos. Todavia, mesmo que estejamos a pagar por algo, na realidade podemos ser o produto, o alvo de qualquer outra acção promocional do vendedor. Até na sapataria onde nos dão um cartão que acumula ponto em troca de alguns dados inocentes, como o contacto. Na Wikipedia, até agora, não nos pedem dados. É uma rede efectivamente social e colaborativa, sem escopo lucrativo, que tem mantido afastada a publicidade das suas páginas, a ponta do iceberg de toda esta realidade transacional, que, sem vergonha, invadiu o Facebook. Apenas umas poucas centenas de pessoas trabalham a tempo inteiro no projecto, o que parece pouco para os números de tamanha empresa. 

Não gostaria de ver o fim ou a mudança de modelo deste projecto virtual colaborativo que está prestes a entrar na maioridade: são 18 anos de Wikipedia já. Onde existe outro assim onde qualquer utilizador pode contribuir e ainda há quem edite e quem controle tudo? O controle é imperioso: não faltam actos de vandalismo dirigidos à Wikipedia, seja por quem não tem melhor que fazer, seja por quem espera tirar vantagens ou eliminar desvantagens, de alguma maneira. É assim que o conhecimento ali vertido de mantém mais ou menos digno de confiança, embora a luta contra a desinformação - que fora da Wikipedia  tanto brado dá na sua forma de fake news - também tenha lugar. Ou mesmo, imagino, contra a censura. As páginas da  Wikipedia dependem, no entanto, da existência de conteúdos anteriores, seja em livros, seja em outros sites, capazes de serem verificados e de assim darem sustentação à informação disponibilizada. Caso contrário são apagadas. Os melhores conteúdos estão assinalados com uma estrela e além disso sempre conterão muitas citações e referências. Os duvidosos têm alertas para a sua deficitária sustentação. Por isso, não considero que a Wikipedia, seja um mau ponto de partida para obter conhecimento. Podemos, depois, confrontar as fontes, as citações e referências citadas e fazer a nossa avaliação. 

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Sugestão de leitura
Política de edição da Wikipedia: "Perfeição não é requisito"

Teste simplificado para saber se tem Alzheimer

O mal ou doença de Alzheimer  foi identificado pela primeira vez em 1906 pelo cientista alemão Alois Alzheimer. É a mais comum forma de demência. Caracteriza-se pela perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Isso conduz a que a  memória e o funcionamento mental sejam afectados, sucedem-se esquecimentos, confusão, mudanças de humor e desorientação no tempo e no espaço. À medida que a demência progride, os doentes vão sofrendo alterações no comportamento, na personalidade e perdem a capacidade de raciocinar logicamente.

O  processo de neurodegeneração não tem uma causa clara. Além da idade, acredita-se que a exposição ou ingestão de substâncias tóxicas como álcool, chumbo, alumínio, e solventes orgânicos, medicamentos diversos, um trauma craniano, a exposição à radiação, o estilo de vida,  infecções, doenças imunológicas, altos níveis de colesterol, a obesidade, o diabetes, o excesso de estimulantes como a cafeína e falta de actividades intelectuais possam contribuir para o aparecimento da doença.

A maioria das pessoas diagnosticadas com Alzheimer tem 65 anos de idade ou mais. Apesar de muito menos comum, o Alzheimer precoce pode afectar pessoas com idade inferior a 65 anos.

Faça um teste rápido e sem pressa para saber se tem ALZHEIMER! 
Complete as palavras seguintes com as letras que faltam:


1. _aralho

2. _oda

3. F_da

4. Por_a

5. P_ta

6. _enis

7. _olhão


Agora, confira as respostas:


1. Baralho

2. Boda

3. Fada

4. Porta

5. Pata

6.Ténis

7. Bolhão. (Antigo mercado do Porto.


Resultado do teste:
Relaxe! Não tem sinais nenhuns do mal de ALZHEIMER. Apenas uma cabeça muito suja.😁

Sugestão de leitura:

Agora, que já nos rimos, seguem-se algumas informações mais sérias sobre os sinais de alerta para um diagnóstico precoce da doença de Alzheimer, aqui.

Testemunho - Ver quem você ama indo embora todos os dias, por Renata Suter, jornalista

19/02/19

Conan Osiris, o rapaz de quem se fala e bué se escreve






O Festival da Canção, uma cena musical que estava moribunda, ou mesmo morta e meio zombie, parece ter caído novamente nas graças dos telespectadores de todas as idades. O culpado da retoma foi Salvador Sobral, que em 2017 venceu o Festival Eurovisão da Canção,  trazendo pela primeira vez o troféu da Eurovisão para Portugal. Estabelecido o precedente, Portugal passou a olhar para o Festival com rejuvenescido olhar e atenta audição, ansiando por repetir a façanha. O ano passado conseguimos a proeza de sermos os primeiros a contar do fim. Também não é para todos. E este ano, ainda a procissão de freaks vai no adro, já a fogueira dos inquisidores arde forte na praça da internet. Estes autênticos autos de fé do Festival, convocados que estão sempre, um ou mais artistas, à penitência pública, são agora um ritual. Este ano, para já, é Conan Osiris que lidera.

Quando foram anunciados as canções concorrentes, reconheci na listagem os nomes de Matay, do tema do Dengaz, onde a sua voz era mais que perfeita, Conan Osiris, de quem tinha escutado na íntegra o disco Adoro Bolos, e Calema, grupo em quem por vezes tropeçava nas FMs do acaso. O resto dos nomes nada me diziam. Mesmo antes de escutar as canções antecipei logo uma grande polémica em torno de Conan Osiris, ainda por cima um nome desconhecido da maior parte do público. Parecia-me que Osíris não encaixaria no Festival da Canção de forma alguma, tal como, o ano passado, JP Simões, irrepreensível, estaria igualmente a milhas do seu elemento. Quando ouvi Adoro Bolos, apenas não estranhei de chofre o som porque nele se encontram ecos da vocalização de António Variações e porque, habitualmente, ando pelo Youtube à procura das sonoridades do Médio Oriente e África, que aprecio bastante. Mas, contra Osiris, logo o facto de nunca ter sido uma fã de António Variações, que vi aparecer como um fenómeno, e desaparecer, precocemente, na cena musical portuguesa. Por vezes há coisas que me escapam e o carisma e talento de Variações foram uma delas. Também me escapou que Salvador Sobral tivesse o je ne sais quoi que o faria alcançar tão esmagadora vitória. E, não, não é verdade que Portugal nunca tivesse, antes de Salvador, apresentado canções competentes, como tantos disseram. Até a minha mãe gostava do António Variações e ela não ia em modas. Alguma coisa o António teria, um je ne sais quoi. Agora há quem chame a Conan Osiris o novo Variações. Existem alguns pontos de contacto, sim. Mas nem tantos. Será Osíris um fenómeno que se eclipsará? Ou será Conan, o rapaz do futuro? A avaliar pelo incêndio que leio por aí, muitos já o teriam sacrificado ao Deus do Dó Maior, a avaliar como exclamam, depois de ouvir Telemóveis, "Tenham dó". No entanto, na mitologia, Osíris é morto pelo irmão, que ambiciona o seu trono, e depois renasce no além e torna-se juiz dos mortos que alcançam esse mundo. Cuidadinho, portanto, que pode ser um tiro no pé. 

Os gostos não se discutem, diz-se. Mas depois que o Facebook montou a tenda na internet, os gostos/likes discutem-se e medem-se. Na realidade não há nada mais discutível que o gosto. Há um livro engraçado que se dedica a tentar explicar a forma como nosso gosto se forma, chama-se You may also like, de Tom Vanderbilt. Segundo o autor, não é fácil saber em rigor porque gostamos do que gostamos. O processo não é assim tão objectivo como seria de crer, nem facilmente destrinçável. As nossas preferências estão informadas por  influências, algumas operando a nível inconsciente, outras contextuais e sociais, o que torna pouco fiável até mesmo a opinião de um perito sobre o que é realmente bom. Os nossos gostos não são assim tão nossos, somos conduzidos neles. Nem inteiramente transparentes. Imutáveis  já sabíamos que não são, e nem sempre explicáveis através do que escolhemos. O autor aponta que por vezes empresas como a Amazon ou a Netflix, elaboram algoritmos que sabem mais acerca do nosso gosto do que nós mesmos! Sobre o gostar do que é novo, parece que estamos programados para aceitar a novidade, sim, desde que ela tenha um ponto de contacto com o que já conhecemos. O que é familiar é seguro, e essa foi uma regra de sobrevivência da espécie humana, quem sabe de outras também, que contaminou todas as nossas escolhas. Por outro lado, desde Leon Festinger que conhecemos a teoria da “dissonância cognitiva”, que nos ensina que uma pessoa se esforça para manter a coerência entre as suas cognições (convicções e opiniões). Quando  tem uma crença sobre algo e age de froma diferente do que acredita, ocorre uma situação de dissonância. As pessoas partilham esta tendência  de alinhamento das suas crenças e experiências, gerando-se um conflito interno quando não o fazem. Será, pois, mais difícil aceitar que se gosta de algo que a maioria detesta.

Quando ouvi o disco Adoro Bolos, que era o terceiro álbum de Conan Osiris, mas que eu pensava ser o primeiro, à primeira audição tudo não passou de uma mixórdia monumental. À segunda, os sons começaram a fazer cama no ouvido, sem com isso eu querer dizer que tenha adormecido. No site lia-se, em letra miúda: written, produced, recorded, mastered by Conan Osiris. O deus egípcio seria, portanto,  uma espécie de homem dos sete instrumentos, um faz tudo da Pop.  Quem o critica  e diz que não vale nada, pense, por um instante, se seria capaz de fazer o mesmo ou melhor. Ah, mas eu não sou músico - responder-me-ão. Lá está: nem o rapaz. Talvez assim percebam que há ali algum mérito.

Conan Osiris é Tiago Miranda. Nasceu há 30 anos, no Cacém, e depois mudou-se para Lisboa. Perdeu o pai para as drogas aos 8 anos, foi criado pela mãe, pela avó, pela tia e pelo avô Nelinho. Teve uma adolescência caótica e refere os amigos como a sua tábua de salvação, até hoje são os mesmos em quem confia. Aprendeu sozinho a fazer música, em casa, no computador, utilizando o Fruity Loops, um programa de música electrónica; agora grava no dictafone do iPhone as inspirações que o momento lhe dita. Primeiro detestava a sua voz, depois habituou-se. Estudou Design Gráfico em Castelo Branco, mas parece que teria preferido Belas Artes.


A minha casinha é GIGA - Anúncio NOS com Conan Osiris

Com esta onda de simultâneo  entusiasmo e choque em torno da personagem, de repente a internet está cheia de assunto e acabei por ouvir, esta noite, a reboque da insónia e, à luz do telemóvel,  umas entrevistas do rapaz. O Conan é, sem dúvida, um rapaz criativo e engenhoso. E parece inteligente e sensível. Diz que faz o que faz porque sempre sentiu uma necessidade de se expressar musicalmente, sempre teve música dentro da cabeça, uma "cena de meta data, uma beca transcendental", como refere na entrevista a Rita Ferro Rodrigues. Acreditem que gostei de o ouvir. Conta que é viciado em riso, - como eu o compreendo, -  que precisa de viver rodeado de uma vipe positiva e construtiva. Ah! O Conan anda a fazer uma colecção de peluches. Umas linhas da entrevista à Vogue também revelam coisas curiosas como: "Para mim os sonhos, é sonhar à noite. Eu vivo só o dia à dia, hoje posso morrer. E nisso eu não tenho querer. Pedi muitas vezes para morrer quando tinha problemas, se tu pedes uma coisa dessas, e se isso chegar a ti – tens de te aguentar. Eu agora não tenho saldo contabilístico para pedir mais nada. Tenho de trabalhar, só isso. Ou :"Eu ligo à métrica e as palavras para mim chegam a agir como uma percussão."



Conan Osiris - Amalia

Tu sabes que a saudade / 
bate forte, bate bem, mais forte que a sorte/
  Tu sabes que a saudade anda aos beijos com a morte

Sim, quando Conan fala as palavras percutem, mas nem sempre de forma ideal. Para uma amante da língua portuguesa, que sempre se esforçou por usá-la bem, - e continua a esforçar  -  é sempre penoso ouvir alguém matracar um qualquer discurso com "bué" e "yah", e "tipo", ou mesmo "tás a ver", ou a "cena", palavra sim, palavra não. Por isso, foi penoso, penoso, PENOSO a valer, ouvir a entrevista da RBVT ao Conan e, por pouco não chegava ao final, quando ele diz esta coisa gira, que aparece pessoal no Insta  que quer o Adoro Bolos para oferecer à namorada e então ele diz: "Mano, saca o CD, grava num CD virgem, põe uma foca bebé a dizer Happy Birthday". E remata: "E o bacano chegou lá e fez, e ofertou e eu fiquei mesmo parvo, eu vivo pa isso, tás a ver. " Por estas e outras, um pouco sem saber bem porquê, posso dizer-vos que gosto do Conan Osiris. Da pessoa e do músico. Espero que a vida lhe dê oportunidade de crescer na música que ele gosta de criar, mas, também, que algures entre beats e loops, consiga meter um travão naquela torrente de "bués" e "yahs", e "tipo", ou mesmo "tás a ver", porque, e digo com todo o carinho, NÃO SE AGUENTA!  As palavras também são a matéria prima que ele usa. Não apenas canta como escreve as letras. Que use e abuse  da gíria, em presença dos amigos, colegas de trabalho, ou lá com quem ele quiser, mas numa entrevista não é baril. O rapaz tem 30 anos e parece que ficou preso na oralidade dos 16 anos! Andava eu no Liceu, tinha 16 anos e saíam-me asneiras pela boca à velocidade de balas, lembro-me bem. Era de tal maneira que embaraçava os meus colegas. Foi uma fase. A gente cresce dessas coisas porque precisa: o mundo do trabalho dar-nos-ia um pontapé no cu se fôssemos às entrevistas de boca suja. Além disso, temos uma língua rica que não merece estes engasganços linguísticos. Mas isso sou eu que gosto de romancear o meu amor pela língua portuguesa. Não ponho em causa que o uso de gírias e expressões que os jovens são pródigos em criar: elas contribuam para animar a língua, dar-lhe velocidade e até musicalidade. A gíria, outrora totalmente censurada tem encontrado tolerância cada vez maior e ganhou até espaço ao padrão norma da língua. Até pode dar jeito aos letristas brincar com as palavras de forma inédita e contra a corrente. Mas para o público em geral, há que saber dosear, mano.

O uso regular de palavras abreviadas e com a grafia alterada que se usa nas comunicações virtuais - na internet e no telemóvel - é também uma forma de manifestação da vitalidade e plasticidade de uma língua, mas esta espécie de estenografia para despachar a escrita mais velozmente, não devia saltar do telemóvel para o papel. Bem sabemos que alguns alunos até já escrevem nos testes com linguagem de telemóvel, quem sabe alimentando até uma vontade secreta a alguns professores de partir os telemóveis dos pupilos! "Eu vou partir o telemóvel..."

(Post-Scriptum! Entretanto ouvi mais uma entrevista onde o Conan já é mais poupado em "bués" e "yahs", e "tipos", ou mesmo "tás a ver"...e uma TEDtalk em Braga onde "yahs" nem vê-los! )


Conan Osiris - Telemóveis

Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu

Quem mata quem
Quem mata quem
Mata?
Quem mata quem?

Nem eu sei
Quando eu souber eu não ligo a mais ninguém

Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer

Eu vou descer à minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
E eu vou estragar o telemóvel
Quero viver e escangalhar o telemóvel

E se eu partir o telemóvel?
Eu só parto aquilo que é meu
Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu

Quem mata quem mata?
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém

Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha, fui eu

Quem mandou a flecha, fui eu
Fui eu