01/07/20

Regras para viver com a Covid 19 em Julho



Dia 1 de Julho e a Covid 19 continua a fazer parte do nosso quotidiano. Agora o país é regido por regras diferentes. Convém conhecer esta informação caso necessite de se deslocar até Lisboa e também saber que as regras de distanciamento social, protecção individual, lotação de espaços e cuidados de higienização se mantêm.

 A situação de alerta, aquela em que o país se encontrava antes de ser decretado o estado de emergência em 18 de Março, é o nível mais baixo de intervenção previsto na Lei de Bases de Protecção Civil. Seguem-se-lhe a situação de contingência e de calamidade. Ou seja, viveremos doravante de acordo com restrições por nível e se a situação se descontrolar podemos ver os níveis mais exigentes de alerta a serem estendidos a mais zonas.

Para "incentivar" o cumprimento, ou desincentivar o descumprimento, foi criado  um regime de contra-ordenações para quem violar as regras estabelecidas no âmbito da pandemia Ccovid-19, como reunir-se em ajuntamentos ou consumir bebidas alcoólicas na rua. As multas situam-se entre os 100 e os 500 euros para indivíduos e entre os 1.000 e os 5.000 euros para entidades colectivas.

No território de Portugal Continental com excepção da Área Metropolitana de Lisboa - dentro da AML, que é constituída por 18 municípios, 19 freguesias de cinco concelhos continuarão em estado de calamidade - encontra-se a partir de hoje em situação de alerta, passando a vigorar as seguintes restrições:

- Confinamento obrigatório domiciliário ou hospitalar para pessoas infectadas com Covid-19 ou sujeitas a vigilância.

- Mantêm-se as regras de distanciamento físico, uso de máscara, lotação, horários e higienização.

- Ajuntamentos limitados a 20 pessoas.

- Proibição de consumo de álcool na via pública.





Área Metropolitana de Lisboa estará a partir de agora em estado de contingência, tendo o Governo decretado medidas mais restritivas de confinamento:

- Confinamento obrigatório domiciliário ou hospitalar para pessoas infectadas com Covid-19 ou sujeitas a vigilância.

- Limitação de 10 pessoas nos ajuntamentos.

- Proibição de consumo de bebidas alcoólicas em espaços ao ar livre.

- Proibição de venda de bebidas alcoólicas em áreas de serviço e postos de combustíveis. 

- A generalidade dos estabelecimentos comerciais têm de encerrar às 20:00.

- Hipermercados e supermercados podem permanecer abertos até 22:00, mas não podem vender bebidas alcoólicas depois das 20:00.

- Os restaurantes podem funcionar além das 20:00 para refeições no local (tanto no interior dos estabelecimentos, como nas esplanadas licenciadas), em serviço de take-away ou entrega ao domicílio.

- Não é imposta hora de fecho para os serviços de abastecimento de combustível (podem funcionar 24 horas por dia exclusivamente para venda de combustíveis), farmácias, funerárias, equipamentos desportivos, clínicas, consultórios e veterinários.



O Governo decretou que 19 freguesias de cinco concelhos da Área Metropolitana de Lisboa vão continuar em estado de calamidade: Santa Clara (Lisboa), as quatro freguesias do município de Odivelas (Odivelas e as uniões de freguesias de Pontinha e Famões, Póvoa de Santo Adrião e Olival Basto, e Ramada e Caneças), as seis freguesias do concelho da Amadora (Alfragide, Águas Livres, Encosta do Sol, Mina de Água, Venteira e União de Freguesias de Falagueira e Venda Nova), seis freguesias de Sintra (uniões de freguesias de Queluz e Belas, Massamá e Monte Abraão, Cacém e São Marcos, Agualva e Mira Sintra, Algueirão-Mem Martins e a freguesia de Rio de Mouro) e duas freguesias de Loures (uniões de freguesias de Sacavém e Prior Velho, e de Camarate, Unhos e Apelação).

Nestas freguesias foram impostas medidas especiais de confinamento:

- É imposto o "dever cívico de recolhimento domiciliário", ou seja, as pessoas só devem sair de casa para ir trabalhar, ir às compras, praticar desporto ou prestar auxílio a familiares. 

- Os ajuntamentos ficam limitados a cinco pessoas.

- Estão proibidas as feiras e mercados de levante.

- Reforço da vigilância dos confinamentos obrigatórios por equipas conjuntas da Proteção Civil, Segurança Social e Saúde Comunitária.




27/06/20

Dark: a temporada 3 estreia hoje!


Na Netflix.

"Nós não somos livres nas nossas atitudes
porque não somos livres nos nossos desejos." - Jonas
(1ª temporada)

"Sic Mundus Creatus Est".... A frase aparece na série alemã Dark, nas portas metálicas das cavernas de Winden, os portais que possibilitam viajar no tempo. O texto em latim significa "Assim o mundo foi criado", e é um dos versos da Tábua de Esmeralda, o texto escrito por Hermes Trismegisto, um filósofo egípcio. Isto vem a propósito da terceira temporada — e "último ciclo" — de Dark que chega neste sábado (27) à Netflix: a sua data de estreia foi marcada para o dia em que na sequência de eventos da série acontece o "Apocalipse".

Não costumo ver séries televisivas mas neste ano, excepcionalmente, já assisti a uma meia dúzia e visto menos filmes. Queria ter escrito sobre cada uma delas, ou pelo menos das que mais gostei, por exemplo, The end of the fucking world. Não tive oportunidade mas hoje consegui vir cá deixar umas notas sobre Dark, talvez desnecessariamente: a popularidade de Dark não pára de aumentar e eu apenas vi a primeira temporada. Numa votação recente feita apelo site Rotten Tomatoes a série que estreou em 2017 de mansinho e sem grande alarido bateu algumas candidatas bem sérias como Black Mirror, que também vi,  ou The Crown, que não vi. Trata-se de uma produção alemã, com actores alemães, falada em alemão e filmada na Alemanha. É uma votação algo histórica quando é sabido que são quase sempre os produtos anglo-saxónicos que costumam conquistar o público.

A votação fez acender uma rivalidade online entre fãs de Stranger Things e de Dark. Não entendo bem esta competição cerrada entre séries tornada tão frequente nos últimos anos entre "fãs" quase em jeito clubístico. Não sinto necessidade de rankings, não estou no negócio da produção, nem da premiação: estou apenas a consumir entretenimento. É, muitas vezes, difícil comparar produtos quer sejam semelhantes e ainda mais quando são muito diferentes. Cada um, à sua maneira, pode ser excelente. Para quê teimar em hierarquizar? Esta lógica dos concursos, de haver um vencedor e uma resma de vencidos, é uma paranóia inútil. Mas há gente que vibra com isto. Por outro lado também houve acusações de cópia por parte dos fãs da série americana. Abundam, de facto, as comparações online com Stranger Things, talvez fruto de julgamento superficial já que as semelhanças entre as duas não querem dizer quase nada: são mínimas. São as diferenças entre as duas que as definem e não as semelhanças. A série alemã é mais adulta e mais dramática, investe muitíssimo mais na caracterização das personagens e na atmosfera, criando uma experiência muito mais envolvente e rica em termos psicológicos. Creio que as suas questões de fundo serão também mais profundas e problemáticas, envolvendo teorias científicas, religião e filosofia, e outro nível de desafios para o espectador. Desisti de Stranger Things após a primeira temporada, não porque fosse má ou não tivesse gostado, mas porque não me entusiasmou assim tanto e preferi ver outras propostas. Bem esgalhada,  sem dúvida, mas quando pensei que os miúdos iam crescer, eventualmente se perdendo a componente mais interessante da série, a sua dinâmica infantil e cúmplice, comecei a "fazer filmes" decepcionantes sobre o que me esperaria nas temporadas seguintes e optei por outras. O tempo não perdôa: o universo infantil-adolescente cederia a um outro juvenil-adulto. Também o factor "nostalgia" que parece ter cativado tantos pelo transporte para os anos 80 me passa um pouco ao lado apesar de ter vivido os anos 80. A época dos Walkman e seus hits musicais, populada por crianças protagonistas de aventuras, parecem ter sido uma fórmula mágica,  fascinando audiências de todas as idades, um pouco à semelhança de Super 8, de J. J. Abrams, no cinema, de tal forma que agora existem imensas séries com miudagem e algumas insistem em buscar inspiração nos anos 80, embora nem todas consigam ser brilhantes. De Dark não desisti mas interrompi, apeteceu-me fazer um intervalo para espreitar grandes êxitos já antigos que não tinha visto, - Peaky Blinders, ou Fleabag, por exemplo, - ou algumas séries sugeridas por amigos, - Giri /Haji, Trapped, The leftovers - já que há tanto para conhecer neste universo e formato que não costumo consumir.

E, entretanto, os meses foram passando e hoje chega o epílogo de Dark, não se falando de outra coisa nas redes. Terei de deixá-la em stand-by pois tenho de ainda ver a segunda temporada antes de conhecer o desfecho. É bom saber que não haverá mais temporadas. Menos é mais, em muitas circunstâncias, mas criadores há, bastantes, que não conseguem resistir fazendo com que boas séries se arrastem e terminem sem o brilho inicial.

Como vejo muitos filmes de ficção científica - dos mais antigos aos mais recentes, dos puros aos que cruzam géneros, como Source code, Interstellar, Predestination, Safety not guaranteed, 12 monkeys. Primer, Arrival, e há pouco James Vs His future self - as histórias de viagens no tempo não me são estranhas nem os seus paradoxos.  Mas em Dark a arquitectura da narrativa é particularmente intrincada e complexa. Pensem em algo como Interstellar, de Christopher Nolan. É essa a toada tal como Stranger Things estaria para Super 8 de J.J. Abrams. A primeira temporada pediria até um revisionamento pois tenho a certeza que agora encontraria detalhes que me escaparam e relações que podia ou, às tantas, devia ter feito e não fiz. Nela se procede à apresentação das personagens e mistérios, através de um jogo lento e calculado com precisão de relojoeiro. A cada episódio pensava até começar a fazer um esquema com os nomes dos membros de cada família: Doppler, Nielsen, Kahnwald e Tiedelmann! Mas depois encontrei uma "árvore" no Reddit! (Vejam a imagem abaixo.) A complexidade que  resulta dos pulos temporais e relações entre personagens e viajantes no tempo vai aumentando à medida que as revelações se sucedem, obrigando a bastante ginástica cerebral! Lentamente vamos juntando as peças e entendendo, mas pouco, pois logo surgem mais pistas e desafios. Para ver Dark é preciso estar confortável com algum nível de perplexidade já que no termo do último episódio eu acumulava desconfianças e poucas certezas. Não é apenas por não ter entendido o que vi, é porque a série não quer que entendamos ainda.


Nos primeiros episódios, a cidade fictícia de Winden, na Alemanha, é palco de eventos dramáticos: um homem suicida-de e crianças desaparecem.  É, realmente incrível descobrir por que razão ele se suicida, acreditem. E isso será apenas o princípio. Começamos por seguir a jornada de Jonas, o filho do suicida, que quer descobrir o porquê da morte do pai, e também a de um polícia, Ulrich, que quer descobrir onde está o seu filho desaparecido, acabando por fazê-lo até à margem da investigação policial que decorre: o seu irmão já tinha desaparecido 33 anos antes e agora situação similar se repete. A partir daí as personagens estão colocadas nos trilhos da constante surpresa, descoberta e inquietação e nós seguimos idêntico destino.

Existem quatro famílias na cidade cujas vidas estão ligadas de forma peculiar pela possibilidade de viajar no tempo que alguma coisa dentro de umas cavernas na floresta e próximo a uma central nuclear possibilita: é um "buraco de minhoca" criado por um acidente na central. As pessoas entram ali em 2019 e podem sair 33 anos antes, em 1986. Ou em 1953... Assim, acabamos por conviver com as personagens e suas acções em diferentes épocas - presente, futuro e passado, - em diferentes fases da suas vidas -  crianças, adultos e idosos - ao mesmo tempo.

A série tem um tom sombrio e angustiante que assenta num magnífico trabalho de fotografia e cenários rigorosos, que os proeminentes efeitos sonoros - o som e a edição sonora são cruciais - e banda sonora da autoria de Ben Frost reforça. Por vezes desenvolve-se mais como uma investigação policial, outras mais como uma história de mistério e sobrenatural. Explicativas e fundadoras do que acontece, as referências à mitologia, (o mito do Labrinto, o fio de Ariadne) à magia e ocultismo, (a triquetra, símbolo de presente, passado e futuro, a tábua esmeralda que aparece como uma tatuagem e gravura numa parede, e que se refere à possibilidade de transcender o tempo ou a essência de toda a matéria), a teorias várias - a teoria do eterno retorno abordada pelo filósofo Nietzche, a do buraco de minhoca capaz de distorcer o espaço-tempo e fazer uma ponte para outra dimensão, ou a da relatividade de Einstein e Rosen que nos informa da possibilidade de existirem realidades paralelas, interligadas por um caminho pelo espaço-tempo, vão sendo citadas. Também notei evidentes referências literárias - a máquina de viajar no tempo existe num livro de H.G. Wells, - e, como não podia deixar de ser, outras da cultura popular alemã, dos anos 80. O nível de representação de todos os envolvidos, crianças, adolescentes e adultos é elevadíssimo, assim como a escrita e realização. Cada episódio carrega mais mistério para a trama, - surgem pistas, indícios, novas personagens -  e questões para a história do que respostas! Os segredos e as revelações bombásticas começam a avolumar-se. Ninguém é perfeito e todos têm a sua vida de alguma forma transtornada, incompleta, tocada pelo infortúnio ou insatisfação. Viver em Winden, no meio de densas florestas e chuvas copiosas, é um inferno e uma doença.

É esse adiar contínuo de desenlace que me afasta das séries de TV: enquando um filme me devolve a resolução de todos os dramas e dilemas ao fim de duas horas, nas séries tenho que visualizar uns 10 episódios até ao desfecho e ao entendimento de tudo - ou não, pois, não raro, pelo menos uma grande questão fica em aberto para nova temporada! -  a que assisti. Faz parte, é certo, e agora até é mais fácil escapar a essa espera que me impacienta e desmotiva: podemos ver vários espisódios de uma assentada. Imaginem nos anos 80 em que tínhamos de esperar uma semana pelo episódio seguinte da nossa série favorita! Mas, ainda assim, quando os episódios medidos em horas se começam a somar, eu tendo a desinteressar-me e regresso ao cinema com a sua inequívoca economia de tempo e personagens. Um modelo que também aprecio é o de Black Mirror: histórias únicas com personagens únicas a cada episódio.

Apenas assisti à primeira temporada da série Dark e considero-a uma proposta de entretenimento diferente, com uma qualidade invulgar e uma singular abordagem narrativa. Quanto mais não fosse valeria a pena vê-la pela envergadura da sua estrutura narrativa embora para muitos não seja esse o apelo essencial quando se escolhe uma série. Pensar que é esse grande pormenor que a torna cativante ou então hermética e desinteressante é um erro. Há mais do que forma para nos absorver e intrigar.

Se gostam de ficção científica, não se deixem intimidar por esse constante foco na complexidade de que todos falam: caso seja necessário imprimam o esquema abaixo que ajudará bastante durante o visionamento e embarquem serenamente nesta viagem espácio-temporal! A série exige alguma paciência e atenção aos detalhes, mas não é um nenhum quebra-cabeças caótico e sem nexo. Aconselho verem até ao 5º episódio antes de decidirem se querem continuar ou abandonar "a viagem".



24/06/20

Concerto para ele bioceno - Barcelona

Ver o vídeo, aqui
O artista Eugenio Ampudia inicia sua actividade no Liceu Opera Barcelona 
com um concerto assistido por 2.292 plantas. Assistam até final para ouvirem a 
"salva de folhas".

Em 22 de Junho, o 'Concerto para o bioceno' foi transmitido por streaming. O quarteto de cordas UceLi Quartet apresentou 'Crisantemi', uma obra de Puccini para uma audiência composta por 2.292 plantas oriundas de viveiros da região. As plantas foram posteriormente entregues a 2.292 profissionais de saúde, especificamente do Hospital Clínic de Barcelona, ​​acompanhados de um certificado do artista. 

Este é um dos poucos trabalhos que o compositor de ópera Puccini não escreveu para o palco. Crisantemi (Chrysthanemums) foi escrito em memória de Amadeo di Savoia, duque de Aosta. Amadeo, um jovem e ambicioso príncipe italiano tornou-se o rei da Espanha após a Revolução Gloriosa de 1868.  Abdicou do trono derrotado pela pressão de ameaças de assassinato e guerra civil. Não conseguindo levar a cabo a tarefa de unificar a nação, Amadeo voltou a Turim onde viveu em quase reclusão até morrer com apenas 44 anos. A sua morte levou Puccini a compor este quarteto elegíaco em sua memória. A peça recebeu o nome da flor do luto e do heroísmo na tradição italiana.

O concerto nasceu da iniciativa do Liceu e do artista, juntamente com a Galeria Max Estrella e o curador de Blanca De La Torre. Essa iniciativa continua com o diálogo entre o Teatro e as artes visuais que Víctor Garcia de Gomar deseja desenvolver no seu projecto artístico e é o prelúdio de uma temporada 2020/21 cheia de sinergias e encontros entre disciplinas artísticas.






Sugestão de leitura : a história do teatro de Barcelona, aqui.

Mais uma pintura destruída por "restaurador" espanhol

( O trabalho original de Bartolomé Esteban Murillo (à esquerda) e as duas tentativas de restauro. Foto cedida pelo coleccionador / Europa Press 2020)

Li esta notícia no The Guardian. Aconteceu de novo, em Espanha, mas estou certa que algures em Portugal alguém pode estar a estragar uma obra de arte mais ou menos importante. Em Valência, uma suposta cópia de uma pintura de Bartolomé Esteban Murrilo foi destruida por um restaurador de móveis que não entendia lá muito de arte. O original está no Museu do Prado. A tentativa de melhorar o desastre redundou noutro ainda maior, como se pode confirmar. Este pintor é o autor de uma pintura muito conhecida, e de que sempre gostei, intitulada O bom pastor.

Uma vez entreguei uma opala e um anel de prata a um amador para que criasse uma peça única. Tinha visto outras peças dele em exposição e nunca pensei que o negócio fosse correr tão mal. Acabei com uma monstruosidade que nunca fui capaz de colocar nos meus dedos. Cheguei a pensar se essas obras que tinha visto não teriam sido produzidas por outra pessoa. Perante a minha reclamação o"artista" reagiu com estranheza parecendo perfeitamente convencido de ter criado uma obra de arte. Isso desarmou-me completamente. Cheguei a pensar que tinha problemas mentais ou que estava sob influência de alguma substancia! Acabei por ficar com o anel e o prejuízo, fruto talvez da minha incapacidade em lidar com o inesperado. Esqueci o acontecimento, aborrecida, atirando a caixa com a peça grotesca para o fundo de uma gaveta. Alguns anos depois encontrei a caixa e ainda consultei um joalheiro para pedir um orçamento mas nunca cheguei a concretizar o pedido. Acabei por arrumar o assunto em definitivo. A pedra e o anel não tinham o valor desta pintura, mas quer a pedra, que era bem bonita, quer o anel, tinham bastante valor estimativo. Foi um enorme desapontamento mas serviu-me de lição.

Quando as coisas correm mal com um serviço contratado a razão disso pode também estar do nosso lado e não apenas daquele que faz o serviço. Os serviços dos profissionais não são baratos. Um profissional investiu na sua formação, sabe o que faz e cobra por isso. E quem quer um trabalho bem feito é a eles que deve recorrer. Queremos poupar dinheiro, e umas vezes é porque não o temos, mas outras também porque não reconhecemos o valor do trabalho realizado por esses profissionais, considerando excessivo o que nos pedem. Nem sempre o "amador" realiza um mau trabalho mas em certas áreas não é boa ideia facilitar. Ou se tem o dinheiro para pagar trabalho de qualidade ou arrisca-se a acabar com um mono como sucedeu com este coleccionador e comigo.

A ACRE emitiu um comunicado que vale a pena ser lido. Embora a questão do restauro da pintura suscite o nosso riso, tal como aconteceu com o fresco do Ecce Homo que ornamentava as paredes no santuário de Saragoça, em 2012, e que originou memes sem fim, quando reflectida revela problemas bem sérios que começam desde logo na utilização do termo " restauro". Na realidade, nenhum profissional do restauro faria esta intervenção pois isto não é restauro, isto é vandalismo. O texto na íntegra, abaixo.

Comunicado de ACRE por la intervención en la supuesta copia de ‘La Inmaculada del Escorial’ de Murillo en València.

En relación a las últimas noticias aparecidas en los medios sobre la intervención realizada a una supuesta copia de Murillo, desde ACRE queremos dejar claro que no tenemos ninguna información que añadir sobre la persona que realizó la intervención, que desconocemos si la obra borrada y repintada es una copia de la Inmaculada del Escorial de Murillo, así como también desconocemos la identidad del coleccionista al que se hace referencia en la noticia. Únicamente sabemos que el original de esa supuesta copia está en el Museo del Prado. De confirmarse los hechos, tendríamos que lamentar la pérdida, una vez más, de un bien cultural y, en estas circunstancias, solicitamos que esta situación no se convierta en un motivo de diversión mediática y social, como ya ha sucedido con anterioridad. Es más, debería alarmarnos el hecho de que parte de nuestro patrimonio esté desapareciendo por estas intervenciones desastrosas. Desde que existe la formación oficial en España que cualifica para la profesión según los estándares de E.C.C.O., la calidad de las intervenciones de conservación-restauración realizadas por los profesionales españoles están altamente consideradas a nivel laboral e institucional en Europa. Queremos dejar claro que ningún profesional con una formación académica oficial, realizaría este tipo de atentado contra el patrimonio. Por lo tanto, este tipo de hechos no puede ser confundido con una intervención de conservación-restauración, ya que es una aseveración falsa, ofensiva para nuestra profesión y perjudica al patrimonio, pues genera una mayor confusión acerca de quiénes son los profesionales capacitados para ejercer con solvencia esta actividad. Por ello, solicitamos a los medios de comunicación que no se utilice el término restauración, cuando se informe de este tipo de acciones, que no dejan de ser actos vandálicos.

Es lamentable que en pleno siglo XXI no se ponga limitación y orden legal a que personas sin titulación realicen este tipo de intervenciones, cuando en España, y en concreto en la Comunidad Valenciana, hay un gran número de especialistas titulados. Paradójicamente, en los últimos años los profesionales de la Conservación-Restauración se han visto obligados a emigrar o abandonar su profesión por falta de oportunidades laborales, provocando la actual debilidad del tejido empresarial en este sector, agravado además por la terrible crisis que vivimos en la actualidad, y de la que hemos puesto en conocimiento a las entidades gubernamentales. La profesión de Conservación-Restauración es frágil y está en grave riesgo de desaparecer en todo el territorio español.

En la legislación estatal y autonómica referente a la protección del Patrimonio Cultural, no está regulado quienes son los profesionales cualificados para realizar las intervenciones sobre estos bienes. Y esta falta de regulación se traduce en una ausencia de protección de nuestro Patrimonio, ya que permite que personas sin formación intervengan sobre él, enfrentándose, en el mejor de los casos, a simples sanciones administrativas. En definitiva, el desconocimiento y reconocimiento de nuestra profesión, la falta de regulación de esta actividad, clave para la conservación de nuestro Patrimonio Cultural, y las inexistentes o insignificantes sanciones que se imponen ante estos hechos, son un mal endémico en nuestro país, al que debe de ponerse fin por parte de las administraciones competentes.

23/06/20

São João 2020: para esquecer ou para recordar?



Na véspera de São João a Direcção Geral de Saúde acaba de lançar mais um apelo: Amigo infecta amigo. Não infectes, ou seja, não vás. Resumindo: DESINFECTA! A DGS vem lançar um repto aos "festiveiros". Nem só de festivais vive, ou vivia, o Verão, há muita festa no rectângulo. O alvo do repto de hoje não são os festivaleiros. Só podem ser os adeptos das tradições dos Santos Populares, Romarias e outros ajuntamentos populares que arrancam em Junho e se prolongam até Setembro de norte a sul do país. Pelo meu lado, exceptuando festivais de cinema, poucos outros eventos que juntam multidões movimentam a minha atenção, quanto mais o meu corpo. E quanto a festas e romarias, apenas uma me diz alguma coisa: o São João. Sempre gostei do São João, desde a infância, em Braga. O singular ano de 2020 fica marcado pelo cancelamento do São João, em especial no Porto, o que, para mim é capaz de ser o equivalente do cancelamento do RFM Somni, do NOS Alive ou coisa assim para muitos: uma decepção graúda.

Quando iniciei o confinamento voluntário em Março disse a alguns amigos do Porto que fizessem o sacrifício, que ia valer a pena, ou corríamos o risco de ficar sem  festa de São João. Tinha seguido atentamente o desenrolar da situação na China e em Macau e pensava que nos livraríamos do vírus, ou, pelo menos, destas limitações à nossa normal movimentação e interacção pessoal antes do Verão. Também acreditava que no Inverno o vírus regressaria, mas possivelmente enfraquecido devido a alguma mutação e com a vantagem de muitos de nós já estarem naturalmente imunizados o que lhe trocaria as voltas. A cada dia a informação acumulava-se, estudos sobre estudos surgiam como cogumelos. Mas a sensação de que era preciso tempo para que os estudiosos conseguissem reunir todos os dados e tirar conclusões ponderadas impunha-se. Rapidamente concluí que apenas perdia tempo em vez de me esclarecer ao dedicar-me a tantas leituras.

A pandemia desenrolou-se, semanas tornaram-se meses. Após muitas leituras de opiniões diferentes, e até contraditórias, percebi que o cenário não era promissor ainda que os números o fossem, e que continuaríamos a viver sujeitos a certos transes por largos meses. Também a cada novo país para onde a infecção se expandia, alguns tornando-se o novo epicentro da mesma, se repetiam as questões, e em alguns casos mais do que o alarmismo até o absurdo de situações. O ciclo de acontecimentos repetia-se. Rever tudo aquilo a que já se assistira antes desgastava-me  e sobretudo dava-me a impressão de que estávamos longe do fim da crise, da serenidade, da normalidade perdida. Por fim, em termos de novidade já nem as fontes oficiais acrescentavam nada que não se soubesse, ou davam o dito por não dito, num processo normal de adaptação a novos dados, mas fastidioso e desgastante, e em última análise pouco útil. Perante essa avalanche de impressões que em vez de esclarecerem me confundiam e lançavam dúvidas até sobre algumas convicções que já levavam meses,  passei lentamente a deixar a pesquisa de lado e  a concentrar-me apenas em duas coisas: fazer o possível para me proteger da infecção e aos outros, próximos e mais distantes, seguindo as instruções básicas que tinham sido divulgadas pela OMS ou pelas autoridades de Macau logo no início do surto.  E a Covid 19 passou a ser apenas a realidade concreta com que tinha de viver o meu dia-a-dia e não a realidade do mundo inteiro trazida pela internet em vagas sucessivas e comentada nas redes até à saturação, numa espécie de competição pela pole position na grelha das estratégias, em cada teclado um especialista em opiniões, muitas que o tempo quase sempre derrubava, algumas próximas da realidade que, afinal, se afigurava bem mais desafiadora do que se previra.Também os meus afazeres me forçaram a desligar de tudo o que não fosse essencial, até mesmo da escrita diletante aqui no blogue.

E, quase de repente, é véspera de São João. Estamos no Verão, ainda inaugurado de fresco, mas já a correr diariamente alheio a todas as nossas aflições e com o seu habitual convite à nossa entrega à sua luz revigorante e calor. Mas o panorama continua carregado e sombrio por mais janelas abertas e vestidos de tecidos leves e florais que se vistam. Nas notícias há relato de  zonas do país, sobretudo em Lisboa, onde os casos de Covid 19 dispararam e pedidos de uma cerca sanitária para evitar o alastramento da infecção. Ou de festas de aniversário no Algarve que escaparam da mão aos organizadores e que promoveram a infecção de grupo, assim acabando por suscitar a censura e a condenação da maioria generalizada por representarem um mau exemplo de conduta cívica em tempos de pandemia e um risco para a saúde pública.

No Porto há muito que o São João tinha sido "oficialmente" cancelado. Li, na ocasião, a declaração institucional disso mesmo com incredulidade. Ontem vi num site da TV um excerto de uma notícia: era o relato da ausência total de preparativos sanjoaninos na zona da Ribeira por parte de donos de bares e restaurantes: a palavra de ordem é manter a distância social. Que coisa esta. O São João é a festa maior da proximidade: na noite de São João toda a gente se conhece e trata por tu. O distanciamento social desaparece e acreditamos que podemos ser todos amigos, até o distanciamento emocional é esbatido. Não há forma de festejar mantendo o distanciamento, não há meio termo na noite de São João: o que mais importa é estarmos juntos.  A sala de estar é pequena demais por maior que seja. O terraço e até o pátio. As paredes não são mais bem vindas. Então o espaço público é conquistado metro a metro: a cidade enche-se de gente. É essa a essência da festa. Mas não em 2020. Um São João diferente nos aguarda, esta noite, um sem a espontaneidade popular que o caracteriza. Esta noite as  ruas repletas de gente que por uma noite deixam de ser estranhas e de se estranhar, a vitória da familiaridade, não vai acontecer. Fica adiado o grande encontro na rua, que a Covid 19 quer vazia de gente e de emoções. Que estranho vai ser não ouvir o som dos martelinhos até ao nascer do sol.

Resta festejar o São João em modo familiar. Cá por casa fiz questão de caprichar nos pormenores e logo à noite não vão faltar nem as decorações e acessórios da festa nem as típicas sardinhas, a salada de pimentos assados com tomate e cebola, a broa, a sangria, a cerveja bem geladinha e até um copo de verde. Vamos todos para fora, na nossa varanda, e cá dentro, na nossa sala, porque a rua tradicionalmente cheia e festiva é hoje território proibido. Vai ser uma noite de São João muito diferente do que alguma vez imaginei mas que espero se torne tão memorável como outras que passei na cidade do Porto. Não podemos deixar de celebrar e viver o que é importante. O espírito da festa estará lá, entre quatro paredes. As saudades do futuro, sem distanciamentos de nenhuma ordem, também.

Desejo um bom São João aos meus amigos do norte e a todos os outros que também o festejam em alguns outros pontos do país.

08/06/20

Um vírus bom é um vírus morto


Ajay Ohri - As 8 regras da redacção



1. Escreva 50 palavras. Isso é um parágrafo.

2. Escreva 400 palavras. Isso é uma página.

3. Escreva 300 páginas. Isso é um manuscrito.

4. Escreva todos os dias. Isso é um hábito.

5. Edite e reescreva. É assim que se melhora.

6. Divulgue a sua escrita para que as pessoas comentem. Isso é ter feedback.

7. Não se preocupe com rejeição ou publicação. Isso é ser escritor.

8. Quando não estiver escrevendo, leia. Leia de escritores melhor que você. Leia e entenda. 

 Ajay Ohri

02/06/20

Fruitvale Station: a inglória morte de Oscar Grant


Vi muitos quadrados negros e aproveitamentos comerciais desta mesma ideia nas redes, anúncios, por sinal, bem esgalhados,  a serem partilhados por norte-americanos, mas não só. Não concordo com este tipo de protesto. Aproveite-se o espaço para divulgar ideias, provocar a reflexão, sensibilizar, e não para fazer alhear as pessoas daquilo que se deseja construtivamente criticar.  Assim, sugiro, dentro desta linha o visionamento do filme Fruitvale Station, de 2013. 


A história verídica de Oscar Grant (Michael B. Jordan), um jovem negro de 22 anos, inspira este filme, quase documental. Acompanhamos as suas tomadas de decisão durante o dia 31 de Dezembro de 2008: tornar-se melhor filho, namorado e pai. Os seus planos não passarão disso, pois acaba por ser envolvido numa rixa na estação Fruitvale, em Oakland, Califórnia, morrendo quando, no chão, o polícia que o imobiliza dispara sobre si.  Mais um caso, a juntar-se a muitos, de mortes inglórias de negros às mãos da polícia, nos EUA, este um caso polémico, transformado em filme, para  equacionar razões, porquês, soluções, reflexões, e promover discussões, enquanto assistimos ao desenrolar do drama da morte de George Floyd e suas consequências. Estreia na realização de Ryan Coogler, que conseguiu ter "Fruitvale Station" em competição no Festival de Cinema de Sundance, onde ganhou prémios do Público e do Grande Júri para Melhor Filme Dramático, e no Festival de Cinema de Cannes, que lhe atribuiu o prémio Avenir na secção Un Certain Regard.

Covid 19: quer ir à praia? Estas são as regras











Fonte

20/05/20

O tempo do absurdo é agora


Foto de anúncio de venda de máscara (visto no Facebook)

Alguém inventou a mascarilha que queria ser viseira e alguém anda a vender. O que mais me surpreendeu foi ler nos comentários que há gente a comprar porque é lindo! É lindo! Já agora, porque não compram antes uma chupeta? Também é fofinho e dá muita protecção. Se abrirem a boca, ela cai. Por isso, a chupeta impede os vírus de sair. Pelo menos, pela boca. Vocês ainda têm paciência para conviver com toda esta paranóia? Eu estou à beirinha da loucura. Um destes dias ainda assalto um banco: máscara que me deixa açaimada como um cão, luvas até ao cotovelo e viseira de soldadura, já tenho. E sem engenho assim para ganhar dinheiro honradamente, resta-me a salvação da ilicitude!

19/05/20

Bolo com cobertura de pera fatiada: simples e bom!

 


De preparo muito simples, dá um pequeno bolo, ideal para lanche ou para completar uma refeição leve. 

Ingredientes: 3 peras maduras cortadas em fatias, 100 gr de manteiga à temperatura ambiente, 150 gr de açúcar, 270 gr de farinha com fermento, 2 ovos, raspa de limão, 15 gr de fermento em pó e 80 ml de leite. Açucar mascavado e canela para polvilhar a camada de peras. Usei uma forma de aro removível, com diâmetro de 26 cm, em forno pré-aquecido a 180º . 

Como fazer? Numa taça, desfazer a manteiga e bater (usei batedeira eléctrica) até formar uma pasta macia. Juntar o açúcar até ficar bem incorporado e a raspa de limão. A seguir os ovos um a um, batendo bem. À parte, misturar o fermento na farinha e depois adicionar esta aos poucos ao preparado. Deitar o leite antes de terminar de juntar a farinha. Se depois de juntar toda a farinha a massa ficar muito presa, pode juntar um pouco mais de leite. A massa é consistente para suportar a fruta sendo até preciso espatulá-la na forma. Untar e enfarinhar a forma e verter a massa. Dispor as fatias de pera em volta, pressionando ligeiramente. Polvilhar com açúcar mascavado e canela a gosto. Pode ser usado outro açúcar. Juntar miolo de noz também não fará mal. Vai 40 minutos ao forno. 

As mulheres que cozinham para os homens


Fotomontagem: MC Somsen, Facebook

Vou confessar-vos. Ainda não me casei porque ainda não encontrei um macho que queira livrar-me do inferno diário de preparar comida. Onde é que andará o meu gastrossexual de sonho? Assumo. Deixem-me sair da despensa: sou daquelas que se conquistam pelo estômago. Onde andará o meu deus na terra, aquele homem mítico que me livrará desse tormento que é ter de ir comprar ingredientes saudáveis com boa relação de qualidade/preço, acondicioná-los, destiná-los, e depois prepará-los segundo ritos nutricionais e calóricos equilibrados e levá-los à mesa com boa apresentação e requinte, diariamente, sempre com o sorriso fresco e divertido de quem acabou de degustar um amuse-bouche num restaurante Michelin? Cheguei a considerar seduzir uma mulher, mas não resultou: nem a química nem a física funcionaram, nem a consegui provar. Mas as refeições eram um prazer. E é por isso que acabo de partilhar uma receita de um bolo de pera em vez de uma infografia feita no Illustrator de um automóvel híbrido. Está-se mesmo a ver que o presidente do ACP é um zero à esquerda na cozinha. Mas é capaz de ter tido mais sorte do que eu: terá, eventualmente, seduzido uma fêmea cozinheira com conversas bem oleadas sobre fantasias e loucuras em automóveis descapotáveis. Há 16 anos que o Carlos Barbosa está na presidência. Deve ser uma máquina de gestão. No discurso de tomada de posse até aposto que ele lhe agradece ante os presentes, concluindo, embevecido: "Atrás de um grande presidente há sempre uma grande cozinheira".

17/05/20

Cognac e filoxera



Que tal foi o vosso almoço domingueiro? O meu começou bem e terminou melhor, com café amargo, um conhaque e uma fatia anafada deste bolo com cobertura de pera, açucar mascavado e canela. E esta história. Por volta de 1870 a filoxera causou forte dano à produção na região de Cognac destruindo os vinhedos. Provavelmente, um navio que partiu da América para Inglaterra transportava no seu bojo uma praga inclemente: a filoxera. Era costume os viticultores europeus importarem videiras oriundas da América. Sem pagar bilhete e sem mostrar passaporte, os piolhos amarelos viajavam clandestinos nas raízes das videiras americanas nativas, que tinham aprendido sabiamente como resistir-lhe. Já as europeias não eram imunes ao seu ataque. Dali para França e depois para Portugal, as videiras europeias encheram-se de folhas amarelas que murchavam. O piolho picava a raiz da videira e sugava a seiva. O maldito empanturrava-se de vida enquanto matava as videiras à fome pois as suas raízes definhavam de tal forma que não conseguiam extrair nutrientes do solo. Por cá sofreu a produção de vinho do Porto, enquanto que na região de Cognac, na França, foi a de conhaque. Lutar contra a filoxera não foi pera doce. Nem pesticidas nem químicos nem sapos presos às vinhas eliminavam o piolho. Restava arrancar as vinhas mortas. Só o enxerto da vinha europeia com a congénere americana resolveria a questão. Mas este casamento de conveniência não era visto como pacífico pelos vitivinicultores que se dividiram entre os defensores da busca por uma solução química e os do enxerto. O governo francês criou até um prémio para quem encontrasse a cura. Mas nem então, nem hoje, se sabe como como lidar com a infestação a não ser por via do enxerto. Em Portugal, as castas Malvasia e Ramisco, na região de Colares, de onde são oriundos alguns dos mais singulares vinhos nacionais, cultivados no solo arenoso, e resguardados do ar marítimo com desmesurado esforço, são imunes à praga.

02/05/20

Covid-19: a máscara mais avançada do momento!




Andar pelo Facebook é ter esta imensa sorte de receber anúncios especialmente escolhidos para nós com base na espiolhação de dados que permitimos. Apresento-vos mais uma sugestão patrocinada pela rede: a fantástica "BioVYZR" é a evolução da protecção pessoal para pandemias criada para garantir que a economia não pára. Ninguém vai parar, é apenas preciso enfiar o barrete. É um "design sem precedentes para um tempo sem precedentes, diz o anúncio." É tipo escafandro: propicia o isolamento social e descarta a necessidade da distância. O susto que o próprio nome - BioVYZR - promove chega só por si, para impor o respeito. É um design futurista mas a mim parece que me querem enfiar um carrinho de bebé com protecção para a chuva na cabeça. Para o visionário criador o mundo do amanhã pertencerá aos mascarados de astronauta que usarão o BioVYZR para atender clientes, para ir às aulas, para atender pacientes, para viajar em aviões, no metro e comboios. Dizem que é bom para usar em conferências. Mas, pensando em lazer, como é que vou ao cinema com isto? Alguma coisa se há-de arranjar. Pelo menos é garantido que não tocarei na cara, nem no nariz, nem na boca. Partículas e aerossóis são filtrados e purificados pelo poder da tecnologia. Um motor alimentado a bateria suga o ar para dentro do habitáculo através de um filtro criando pressão positiva que empurra o ar exalado para fora. A maquilhagem vai durar muito mais. Mas nem quero imaginar o drama de uma pestana no olho. Poderei tossir e espirrar nesta redoma viral sem incomodar o meu cotovelo, pouparei lenços descartáveis. Falarei pelos cotovelos, berrarei aos quatros ventos, - é uma forma de expressão - e até poderei cantar a canção da Marisa para espantar algum vírus mais afoito que tenha conseguido penetrar na minha intimidade sem espalhar perdigotos indesejáveis. Um upgrade social poderá garantir que filtra também insultos racistas nos jogos de futebol, mas não está previsto. Mas, atenção: este modelo ainda não tem aspiração automática de ranhocas e sua transformação em hidratante para a pele. Restará sofrer, sofrer, sofrer para evitar o pingo. Falta ainda garantir a ingestão de líquidos através de palhinha para aliviar a garganta seca. Essa opção será possivelmente disponibilizada na BioVYZR 0.2 num futuro próximo, creio, estou a fazer adivinhação futurista. A viseira está afastada da cara e não embacia, além de garantir óptima visibilidade. Um outro upgrade poderá ser a simulação de uma leve brisa, eventual personalização poderá permitir escolher entre marinha, montanha, campo...e também um par de pisca-piscas laterais para agilizar a movimentação das pessoas nos espaços públicos. Dizem que esta artimanha pode ser usada com qualquer vestuário! Imaginem eu casar-me e levar uma destas. Mas em branco, claro, a fazer pandã com os meus dentes. Porque fica distante da cabeça posso usar qualquer penteado, até um à B52's. É à prova de vento e de chuva, o que eu não pouparei em idas ao cabeleireiro. Os planos para a BioVYZR 0.3 ainda estão no segredo dos deuses mas já vazou na net a promessa de colocação, ajuste, remoção e higienização fácil sem uso das mãos, tipo a armadura do Homem de Ferro, com comando por voz, mas isso é que é mesmo design futurista. Custava 180 euros mas agora está com desconto de 15%. Vou aproveitar porque para combater a rotina em pandemia nada melhor do que imaginar que viajo para Marte a caminho do trabalho.