Timothée Chalamet. Abre a boca e sai asneira?



"And I don't want to be working in ballet or opera or things where it's like, 'Hey, keep this thing alive even though ... no one cares about this anymore.' All respect to the ballet and opera people out there,'" he said.

Timothée Chalamet


"E eu não quero trabalhar com balett ou ópera ou coisas do tipo: "Ei, mantenham isso vivo mesmo que... ninguém se importe mais com isso". Todo o respeito ao pessoal do balett e da ópera", disse ele.

Penso que nunca escrevi aqui nada sobre Chalamet. Ocasionalmente, nas redes, tropeçando em comentários depreciativos sobre o mesmo, sempre o defendi e não me arrependo. Desde que o vi em Call me by your name que acredito na sua capacidade. Como outros jovens actores que me impressionaram de forma positiva, fui seguindo o seu percurso. Parece que atravessa uma época de plena forma a avaliar pelas nomeações e conquista de muitos prémios. O filme é Marty Supreme, e, por acaso, ainda não o consegui ver. Hoje o meu feed inundou-se de piadinhas e sarcasmos. Desta vez não é a sua capacidade performativa que está em causa nem o seu aspecto. Alguém escreveu que ia boicotar Marty Supreme por causa do comentário acima. Será pena pois os sinais apontam para uma boa interpretação. Eis os meus 50 cêntimos sobre o assunto, ainda que devesse ter ido espreitar a conversa completa antes de discorrer. Por preguiça vou prescindir desse bom hábito. 

Parece que ele apenas  expressou uma preferência, que pode ser criticável, é óbvio, mas não atacou ninguém em particular ou as referidas artes em si mesmas. Além disso mencionou respeitar aquela comunidade artística ( que apesar de ninguém mais se importar, persiste, assim entendi o seu pensamento.)  Perder a oportunidade de ver um filme em que se tinha interesse só por isso é uma resposta mais emocional do que racional, "muito barulho por nada". Se eu fosse a atender ao que os actores dizem, fazem ou são fora da tela não iria ver muitos filmes pois em algum momento sempre é possível ouvi-los dizer um disparate semi-pensado, ou até emitir uma opinião bem pensada da qual se discorda, ou a fazer algo que desaprovo. São pessoas, com virtudes, com defeitos. São, além disso, figuras públicas e, para muitos, até modelos, pelo que é bom que abram a boca e não saia asneira. Exigimos-lhes isso, deviam aspirar a isso. Mas nem sempre é possível. A ninguém é possível.

Há muito que passei a relativizar os seus comportamentos e ideias e a concentrar-me apenas nos seus desempenhos. Apesar disso, hoje deu-me para vir para aqui defender o homem, e, apesar de parecer estranho, o comentário de Timothée Chalamet talvez faça sentido se considerarmos o seu percurso. Ele cresceu num ambiente artístico, com familiares ligados à dança e à música, e teve formação sólida em teatro. Já entrou em peças de teatro. Talvez subir ao palco tenha tido uma experiência frustrante e isso tenha contribuído para este comentário. O teatro exige enorme dedicação e nem sempre há garantia de público ou retorno imediato. Isso acontece aos olhos dos actores, a cada espetáculo, não em salas de cinema distantes. Pode ter visto como alguns projetos de ballet, ou dança - tinha ou tem, na família, profissionais da área, segundo o que li - ou ópera, exigem dedicação intensa sem garantia de audiência ou reconhecimento. É preciso ter muito amor ao que se faz para suportar a dificuldade. Talvez Chalamet não tivesse esse amor para dar às artes de palco, fez uma opção: menos sacrifício e maior retorno. Ou seja, fez a escolha que a maioria de nós faria, em qualquer campo, se pudesse.

A natureza e escala desse tipo de espectáculo também é diferente da do cinema. Cada atuação é sempre única e irrepetível, por muitas noites que um espectáculo esteja em cena. Uma peça pode estar anos em cena e o seu público será sempre reduzido comparando com aquele que um filme pode fazer à roda do globo.  Para alguém acostumado a produções de cinema, facilmente replicáveis, e em múltiplos formatos, que alcançam o mundo inteiro, que trazem amplo reconhecimento, de forma rápida, as "artes de palco" podem oferecer um cenário desmotivador. Parece que Chalamet precisa do tipo de  fama e de aclamação mundial que ser actor de cinema traz e  que sem ela ser artista já não vale a pena. O moço é apenas um pouco narcisista, talvez seja isso. 

Talvez quando ele diz que não quer contribuir para manter vivo algo com que ninguém se importa, não esteja sequer a faltar ao respeito desses profissionais nem  a subestimar essas artes. É alguém com educação artística e  que conhece o mundo artístico por dentro. Tem de saber que ballet e ópera são artes muito exigentes, de muita dedicação. Além disso, as obras clássicas atravessam o tempo, são objeto de interpretações diferentes mas persistem inalteradas. São património artístico da humanidade, no mundo milhões de pessoas importam-se profundamente com elas, intérpretes e público. Muitos dedicam a vida a estudar e preservar estas artes, muitas vezes com recursos limitados.  Ballet e ópera exigem paixão, disciplina e talento, exactamente como ser actor de cinema. Há mais a unir todos esses performers do que a separá-los e ele tem de certeza essa consciência. Chalamet nunca me pareceu idiota nem ignorante. Faltou talvez contexto explicativo a tal comentário?

Mais um ponto de vista, mais centrado no nosso burgo. Não sou nenhuma "especialista" nestas áreas artísticas, não sou. Tenho uma dezena de discos apenas, alguns vídeos, algumas areas favoritas. Não é fácil assistir a estes espectáculos em Portugal, mas não há desculpas para não conhecer as obras, algumas, alguns nomes, não é preciso fazer  parte do grupo selecto que vai a Lisboa ou ao Porto assistir ao vivo e esgotar as salas. Temos acesso a conteúdos de vídeo, temos música acessível ao alcance dos nossos smartphones. É cultura geral. Ou, melhor, dantes era cultura geral porque hoje as pessoas já nem sabem o que essa expressão significa. Ter bagagem cultural, aparentemente, não valoriza ninguém. Ninguém se importa mais com a cultura geral. Verdade ou mentira? E se eu vos perguntasse quem compôs a música do ballet A sagração da Primavera, cuja estreia em 1913 causou um escândalo histórico em Paris? Ou quem foi o coreógrafo que definiu grande parte do repertório clássico do século XIX, responsável por versões da Bela Adormecida e Don Quixote? Ou qual é a companhia de ballet residente do Teatro Mariinsky? Ou o que significa o termo técnico “grand jeté” no ballet? Ou que me dissessem o nome de duas bailarinas lendárias do século XX (por exemplo associadas ao Royal Ballet, ao Bolshoi ou ao Kirov). Ou ainda, quem compôs a ópera Tosca? Ou qual é o papel feminino principal na ópera Madama Butterfly? Ou quem foi o famoso tenor espanhol que integrou Os Três Tenores ao lado de Luciano Pavarotti e Plácido Domingo? Ou qual é a famosa casa de ópera de Vienna considerada uma das mais importantes do mundo? Ou em que língua foi originalmente escrita a ópera O barbeiro de Sevilha? Se ninguém souber responder, será que não poderei também dizer que ninguém mais se importa com a ópera e o ballet? Quantos não se refugiarão na desculpa de que a  "ópera é elitista", desconhecendo que a ópera já foi entretenimento popular em séculos passados? Pessoas iam ouvir Giuseppe Verdi ou Giacomo Puccini quase como hoje se vai a um concerto do Bad Bunny! (Hoje preferem ir ver o Bad Bunny.) 

O que me parece? Que há algum fundo de verdade no comentário de Chalamet. E é por isso que esta postagem vai ter mais visualizações do que se estivesse a escrever sobre Freddie di Tommaso! Ainda assim, creio que o ballet está de saúde e a ópera bem viva. E que bem iluminou a cerimónia dos Jogos Olímpicos de Inverno. Viram?


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