31/05/19

Biografias!



Como é que vocês, que já pariram um livro, começaram? É imperitativo sabê-lo. Não sei onde é que o José Dias de Souza desencanou esta biografia, mas até parece coisa da Maria Leal, que, quem sabe, virou escritora, porque hoje toda a gente dança esse vira ao som das mais bizarras melodias: "Estar aqui ,cheia de letrras escritas para si" bem que pode ser uma variação de "OH OH hoje Maria Leal aqui só para ti". Eles andam aí. Eles multiplicam-se. Eles descem sobre nós com as suas garras rasgando inércias em linhas predefinidas. Eles são todos os deslumbrados aprendizes de Caimões, a língua pode não ser a sua pátria mas é a razão DA SUA VIDA. Não sei o que vocês acham deste desasossego autoral, mas eu já estou a sangrar do intelecto e vejo claramente vista a vida literarária por um fio, onde as vogais ABC e as consoantes AEIOU se matam assassinadas ou se morrem suicidadas.

Recomendo o Restaurante Mingau.come, na Figueira da Foz



Graziele Paixão e Luís Paixão tiveram a ousadia de abrir um restaurante na Figueira da Foz e todos ficámos a ganhar: quem vive na cidade e quem visita a praia da Claridade. Não costumo recomendar estabelecimentos, mas eu e três amigas gostamos muito da refeição e da atenção que nos foi dedicada ali, e por isso resolvi fazer a divulgação deste novo restaurante. Convido-vos a seguirem a sua página no Facebook onde as fotografias somam e seguem e são um convite explícito à gula! Embora apenas tenha estado no Restaurante Mingau.come uma vez, penso que o seu serviço e propostas gastronómicas pode satisfazer o cliente tanto no seu dia-a-dia como numa ocasião mais especial.

O Restaurante Mingau.come localiza-se na Rua Joaquim Sotto Mayor, mesmo em frente ao Coliseu Figueirense.  Fica a um passo do centro do Bairro Novo e da zona do Parque Verde das Abadias. Não é nada complicado de encontrar e tem estacionamento fácil no parque do Coliseu, mesmo em frente.

E se acontecer estarmos no pico de verão e os lugares estiverem todos ocupados, sugiro que ao longo dessa mesma rua procure encontrar um espaço para a sua viatura, nem que tenha de estacionar antes do cruzamento dos semáforos (Rua Alexandre Herculano e Av. Dr. da Joaquim de Carvalho cortam a Rua Joaquim Sotto Mayor). Para alguns já poderá parecer um pouco longe mas são apenas uns metros extra, um breve passeio que lhe vai saber bem no final da  refeição. Se não estou em erro a rua Joaquim Sotto Mayor é de sentido único, pelo que terá de dar umas voltas para conseguir estacionar aí. Na época alta não convém insistir em encontrar aquele lugarzinho mágico à sua espera. Em vez de andar, depois, a subir e a descer a pé as ruas mais próximas, esta opção garante-lhe terreno plano.


O menu que o aguarda no Restaurante Mingau.com é delicioso, variado e servido em doses generosas. Mais do que nas minhas palavras atentem nestas fotografias de amadora. As entradas escaparam aos cliques pois desapareceram num ápice: deliciosas bolinhas de alheira frita e queijo fresco. A salada, as azeitonas e pão servidos,  e o vinho do Alentejo, quer branco, quer tinto, também eram bastante agradáveis, assim como a apresentação. A opinião consensual no final do repasto - Bacalhau à Santana, Bife à Parmegiana, Chocos e gambas grelhados com legumes, Polvo e Gambas à Lagareiro,- foi que  Graziele e Luís Paixão estão de parabéns.

Além disso a sala é luminosa e ampla: espaço generoso para almoçar ou jantar, e estar à vontade com a família e amigos num restaurante nem sempre é possível. Existe também um pequeno parque infantil na mesma sala que não é visível nas fotografias que tirei.
O serviço foi rápido e atencioso e a relação qualidade-preço, justa. Não posso terminar este breve apontamento sem referir o felino Mingau - o gato de estimação deste jovem casal empreendedor. O bichano deu o nome à casa e até já teve direito a louvor como distinto "funcionário do mês".

(N.B. Como gulosa certificada aconselho o magnífico cheesecake!)

Horário de funcionamento: 

Segunda- feira: Fechado
De Terça a Sábado: 12:00 - 15:00, 19:00 -22:30
Domingo: 12:00 - 15:00

Outras informações:

Adequado para grupos
Bom para crianças

Foto de Mingau.come

Aceita reservas
Takeaway
Serviço de empregado de mesa
Clientes sem reserva são bem-vindos

Fazer reservas ou informações: 910 005 065



29/05/19

Guerra de comentários no Facebook

Koh Samui beach trader photographed by I. Zulkifli.



Guerra de comentários no Facebook.
Quase tão emocionante como A Guerra dos Tronos.



Participe no GelAvista - Programa de Monitorização de Animais Gelatinosos


Este mês foram várias vezes noticiados avistamentos de caravelas-portuguesas nas nossas praias. É importante saber identificar estes animais marinhos e também conhecer as consequências  - e medidas a tomar -  no caso de um eventual contacto  próximo com este animal, que deve ser evitado, pois pode  estragar-lhe o dia de férias ou o passeio à beira-mar. A oportunidade de observar um destes seres marinhos deve ser bem aproveitada, e o seu avistamento até poderá contribuir para um projecto de monitorização da espécie, actividade que poderá juntar às suas já habituais actividades de lazer, ou mesmo profissionais, na orla costeira. Aqui deixo a informação e solicito a divulgação no interesse do programa GelAvista.

As fontes para este texto foram os sites do IPMA e do Programa GelAvista.

1. O que é, e o que pretende o GelAvista - Programa de Monitorização de Animais Gelatinosos?

O GelAvista é um programa de estudo e monitorização científica de espécies do IPMA- Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que integra uma componente de ciência cidadã,e foi lançado em Fevereiro de 2016. Desde então o programa recebeu já mais de 3100 registos de diferentes espécies de animais gelatinosos em toda a costa de Portugal resultantes da colaboração de 370 cidadãos que voluntariamente deram o seu contributo. A iniciativa pretende, portanto, envolver a população na recolha de informação acerca de organismos gelatinosos avistados na costa portuguesa dando a todos a possibilidade de participar num projecto de ciência da vida marinha.

Estudar e compreender a dinâmica dos organismos gelatinosos a larga escala em território nacional deverá permitir que, no futuro, seja possível, entre outras possibilidades, a previsão destas ocorrências nas nossas zonas costeiras. No mundo e também em Portugal pouco se sabe sobre a distribuição, diversidade e dinâmica das populações de organismos gelatinosos. Apesar da sua importância, os estudos existentes são poucos e localizados, e não existe um conhecimento científico geral a nível nacional. Através da participação dos cidadãos é possível obter informação mais abrangente que vai ser importante para adicionar aos restantes dados que são obtidos nos projectos científicos de maneira a aumentar significativamente o conhecimento destes organismos, especialmente no contexto actual de alteração climática. Todos os contributos terão o reconhecimento devido. Contribua ou divulgue este programa pois o seu contributo é muito importante.

2. O que são animais marinhos de corpos gelatinosos?

Organismos gelatinosos são importantes constitutintes dos ecossistemas, servindo de alimento e protecção a diferentes espécies. Como o nome indica são todos os organismos pelágicos -  organismos marinhos que vivem na coluna de água (ambientes pelágicos) e não no fundo do mar - com um aspecto tipo "gelatina"! O grupo, muito diversificado, é composto por uma grande variedade de espécies, muito diferentes em formato e tamanhos. De uma forma geral podemos distinguir três grupos taxonómicos principais:

Cnidários - Cnidários incluem organismos muito diversos, como as anémonas por exemplo, ou as medusas vulgarmente conhecidas como alforrecas, bem como os hidrozoários (p. ex. a Caravela-Portuguesa), têm células urticantes especialmente nos tentáculos que são usadas para capturar presas e como mecanismo de defesa e que causam ardência na pele. O termo "cnidária" vem do Grego KNIDE, "urtiga".

Ctenóferos - estes não possuem células urticantes

Taliácios - são geralmente transparentes

O ciclo de vida dos organismos gelatinosos é muito diverso. Para algumas espécies, o ciclo de vida alterna entre uma fase bentónica (os pólipos, fixos no fundo marinho) e uma fase pelágica (as éfiras e medusas que ocorrem na coluna de água). No entanto, para outras espécies todo o seu ciclo de vida ocorre no ambiente pelágico.

Os "blooms" - i.e., a proliferação - são geralmente uma consequência do ciclo de vida destas espécies que respondem às condições ambientais favoráveis (p. ex. ventos) com um grande aumento da abundância e um rápido crescimento.

Apesar de existirem algumas evidências do efeito promotor das alterações climáticas nos "blooms" de gelatinosos, este fenómeno é natural e geralmente sazonal, pelo que é normal a ocorrência destes organismos na nossa costa. Dados sobre estas ocorrências são essenciais para uma potencial previsão destes eventos e para perceber se espécies menos comuns podem também ser avistadas.

3. Quais animais marinhos gelatinosos se podem avistar nas nossas costas?

As águas-vivas, também conhecidas por medusas e alforrecas, são animais gelatinosos que vivem no mar, na coluna de água ou à superfície, e podem ter diferentes tamanhos, formas e cores. A espécie Physalia physalis (Caravela-Portuguesa) está, de momento, ( aviso feito em Maio de 2019) a ocorrer em toda a costa Portuguesa, incluindo nos Açores e Madeira, e contactos com a espécie devem ser objecto de cautela. Sobretudo no verão é normal a sua presença junto à costa açoriana, no mar ou no areal. Para informar e alertar os utentes das zonas balneares com existência de  nadadores-salvadores dos Açores foi até criada em 2015 uma sinalética, com recurso a bandeiras, com o objectivo de prevenir e minimizar o contacto com as águas-vivas.

Fonte: Comunidade Gelavista no Facebook

4. Que cuidados especiais deve a população observar ao avistar estes animais?

As águas-vivas possuem células urticantes nos tentáculos que ao contactarem com outros animais vão injectar uma substância tóxica potencialmente urticante e perigosa. Este veneno serve para paralisar os pequenos animais, dos quais se alimentam, ou como mecanismo de defesa.  Os banhistas devem evitar o contacto com estes animais.O contacto com uma água-viva pode produzir irritação na pele e até queimaduras ou outras reacções graves e prejudiciais.

5. Onde se pode aprender mais sobre as diversas variedades de animais marinhos gelatinosos?

site do Gelavista disponibiliza informação sobre o objectivo do projecto, as espécies que monitoriza, o que fazer em caso de ser picado pelos animais, além do como comunicar avistamentos nas nossas praias. Também pode ficar a conhecer a equipa de investigadores que se dedicam a este estudo. No final deste texto irá encontrar um link com um folheto que pode descarregar e que as inclui.

6. Quem pode dar a sua contribuição para o GelAvista?

Todos aqueles que frequentam as zonas costeiras - praias, estuários, rios, marinas, e outros - durante as suas actividades de lazer (passeio à beira mar, mergulho, vela, surf, etc.) ou as suas actividades profissionais (por exemplo recolha nas redes de pesca), podem contribuir com informação acerca do avistamento destes animais.

7. Em que consiste o contributo e como pode a população dar a sua contribuição ao GelAvista - Programa de Monitorização de Animais Gelatinosos?

Qualquer avistamento de espécies de organismos gelatinosos poderá ser comunicada ao programa GelAvista. A informação de cada avistamento (data, local, número de organismos e fotografia com objecto a servir de escala) deverá ser enviada para o email plancton@ipma.pt, ou através da aplicação GelAvista disponível na Play Store para sistemas Android.

Por favor, envie as seguintes informações:

- DATA, HORA e LOCAL do avistamento (se possível indique as coordenadas GPS) 
- FOTO do(s) organismo(s) (se possível coloque um objeto (p.ex. moeda) perto do organismo) 
- NÚMERO de organismos na mesma zona (menos de 5, 5-10, 10-50, + de 50)

8. Onde é divulgada a informação relativa ao progresso do GelAvista - Programa de Monitorização de Animais Gelatinosos?

Na página de facebook do GelAvista são frequentemente partilhadas as mais recentes ocorrências de organismos gelatinosos em Portugal, e no sítio gelavista.ipma.pt está também disponível informação sobre os Encontros onde divulga publicamente os resultados do Programa.

9. Informação geral de interesse público mesmo para quem não deseje participar no programa Gelavista mas que frequenta a zona costeira: o que fazer se for picado ?

A. Por um animal marinho gelatinoso? Protocolo geral

1. Com cuidado, lave a zona afetada com ÁGUA DO MAR. NÃO ESFREGAR!

2. REMOVA OS TENTÁCULOS que poderão ainda permanecer na pele, com a ajuda de um cartão de plástico (cartão multibanco, carta de condução, etc.).

3. Se possível, aplique BICARBONATO DE SÓDIO misturado em partes iguais com ÁGUA DO MAR.

4. Aplique BANDAS DE GELO para aliviar a dor (enroladas num pano, t-shirt ou toalha, não aplique diretamente na pele)

5. CONSULTE O SEU MÉDICO OU FARMACÊUTICO

Não usar vinagre, água doce, álcool ou amónia!

Não colocar ligaduras!

Aplicar bandas de gelo.

Aplicar bicarbonato de sódio.

ATENÇÃO:

Mesmo quando mortos, as células urticantes mantém-se activas. NÃO TOQUE NOS TENTÁCULOS!


B. O que fazer se for picado por uma caravela portuguesa?

1. Com cuidado, lave a zona afetada com ÁGUA DO MAR. NÃO ESFREGAR!

2. REMOVA OS TENTÁCULOS que poderão ainda permanecer na pele, com a ajuda de um cartão de plástico (p.ex. cartão multibanco, carta de condução, etc.).

3. Se possível, aplique VINAGRE.

4. Aplique BANDAS QUENTES OU ÁGUA QUENTE para aliviar a dor.

5. CONSULTE ASSISTÊNCIA MÉDICA O MAIS RAPIDAMENTE POSSÍVEL.

Não usar água doce, álcool ou amónia!

Não colocar ligaduras!

Aplicar bandas ou água quente.

Aplicar vinagre.

ATENÇÃO:

Mesmo quando mortos, as células urticantes mantém-se activas. NÃO TOQUE NOS TENTÁCULOS!

10. Clique e descarregue no site do IPMA o Flyer GelAvista que contém um sumário de toda esta informação e divulgue-o entre os seus familiares e conhecidos! Contribua ou divulgue este programa de monitorização da vida marinha! O seu contributo é muito importante.



26/05/19

A vida encontra um caminho!

Gansos sinaleiros no Parque da Cerca - Marinha Grande

Já os Romanos usavam gansos como guarda. Diz-se que são melhores do que cães para dar o alerta e daí o nome de alguns deles: sinaleiros. Porque sou inexperiente a identificar aves não sei dizer com segurança se os da fotografia são sinaleiros pardos ou africanos. Li que a distinção está na barbela, que é típica dos africanos. Mas até hoje, e depois de várias pesquisas, fiquei na dúvida, inclinando-me para que sejam os pardos. 

Numa das primeiras vezes que fui ao aprazível Parque da Cerca, na cidade da Marinha Grande, fiquei intrigada com estas grandes aves, pois nunca tinha visto gansos pardos sinaleiros. São volumosos, têm um alto negro protuberante sobre o bico - a carúncula - e um grasnar bem forte. Cheguei à beira do lago, e, feita parvinha, devolvi uma fraca imitação do seu grasnar. Os três grasnaram mais alto e arrancaram em velocidade na minha direcção, sempre ruidosos. Continuei a fotografar e num instante estavam ao pé de mim, na relva, de asas abertas, a sacudir a água. Sou de baixa estatura e estes gansos, fora de água e de pé, chateados, a crescer para mim, assustaram-me! Dei uns passos atrás mas eles continuavam a investir e, mais perto, desataram a silvar e a agitar os seus longos e grossos pescoços em "S" como se fossem cobras, muito rente ao chão, sem nunca se deterem. Dei uma curta corrida na direcção oposta, colocando distância entre mim e eles. Acalmaram-se então e foram mordiscar uns arbustos e pastar.

Nunca mais me meti com o trio mas sempre que contornava o lago sentia que me topam e me seguiam com o olhar. Não, não sofro de "anatidaephobia"! Sim, essa fobia existe! Pessoas há que acreditam que algures um pato ou um ganso está de olho em si. Nas minhas leituras fiquei a saber que os olhos deles (ou das aves?) são instrumentos de visão muito superiores aos da maioria dos animais e até aos nossos. Por isso não duvido: ficaram de olho em mim! Devem ter-me considerado personna non grata, uma intrusa. O comportamento dos três gansos é de guardas do lago que patrulham sempre os três. Nunca os vi separados: onde andava um estavam os outros, fosse a nadar, fosse na margem, a fazer a toilette. Uma autêntica brigada. Ao contrário de todos os outros animais de penas, por regra plácidos e descontraídos, estes aparentavam sempre ter uma qualquer missão.

Neste mês de Maio que está quase a terminar tive uma enorme decepção. Fui de novo ao Parque e um dos gansos tinha desaparecido. A última vez que o vira fora em Abril. Estava entre duas plantações de canas existentes no extremo do parque e recusava-se a abandonar poiso quando provocado pelos outros animais. Pensei até que fosse uma fêmea no ninho e estivesse a chocar algum ovo, e a defendê-lo dos outros, mas também me ocorreu que pudesse estar doente. Desconfio agora que estava mesmo doente e que foi para o céu dos gansos. O lago é grande e povoado de animais, mas o terceiro ganso da brigada faz ali falta. Ou faz-me falta. O trio "Ó de mira", como eu brincava, por estarem os três sempre atentos a mim, ou se calhar, a todos os que lhe desse mais atenção do que aquela que desejavam ter, era singular. O dueto é-me apenas normal mas, mais do que isso, incompleto e triste.


Cena que encerra o filme Parque Jurássico, (vídeo) de Steven Spielber, 1993
"Life finds a way"

Desde que me comecei a interessar por aves tenho feito algumas leituras e descoberto factos incríveis sobre um grupo de animais que, apesar de tão extenso e diverso, ainda não tinha capturado a minha atenção significativa. O que constatei foi o seguinte: apreciamos tanto mais os cães quanto mais similitudes connosco lhes encontramos mas nos pássaros, inversamente, o que mais atrai deverá ser a dissemelhança. As aves possuem evidenciam características e comportamentos que criam entre nós um abismo de diferença e isso é fascinante. Agora não vou alongar-me sobre esta nota, que daria pano para mangas (ou antes penas para asas?!). Sugiro apenas que procurem conhecer um pouco sobre o andorinhão real, por exemplo, que se pode observar na costa Algarvia com relativa facilidade.

Um momento em que lembro de ter ficado mais deslumbrada com as aves foi quando, a propósito do filme Parque Jurássico, se começou a discutir a origem das aves no meu círculo de amigos, muito mais dado às letras e artes do que às coisas da biologia. A discussão começou, se bem me recordo ainda, pela escolha das cenas preferidas. Eu referia a da perseguição dos dinossauros na cozinha e a do final, em que o helicóptero parte em direcção à linha do horizonte, levando os protagonistas sobreviventes. O sol ao longe, as aves a sobrevoar o mar, a música e aqueles a olhar pela janela, a pensar, aliviados, que aqueles pelicanos pelo menos não pensariam neles como comida! Ora, ao tempo do filme nem todos ainda sabiam que as aves descendiam dos dinossauros, pelo menos alguns dos meus conhecidos, não, nem eu própria tinha acerca disso feito certamente uma leitura informada. Daí que tivesse guardado na memória, entre aquele grupo de frases ditas em filmes que ficam connosco e que vamos citando aqui e ali ao longo da vida, "You'll never look at birds the same way again" a par de "Life finds a way". 

O filme impressionou-nos a todos de alguma forma, visualmente, sobretudo, mas a mim meteu-me a pensar sobre a origem das aves de uma forma absurda. Andei um tempo a olhar para os periquitos que ainda existiam na casa dos meus pais, para os pardais no jardim e para os frangos no supermercado e a pensar: What the hell? A sua origem nos dinossauros é hoje um dado adquirido por todos. Isso era o que eu pensava, mas no dia em que fui ao Parque da Cerca, e justamente enquanto olhava o ganso entre os canaviais, fui abordada por um cavalheiro que, notando o meu interesse, meteu conversa sobre as aves, questionando-me sobre se gostava delas. Respondi que sim e trocamos algumas impressões até ao momento em que exclamei: " E pensar que são o que resta dos dinossauros." Ele pareceu não ouvir bem, perguntou "Como?" e eu repeti a sentença. Seguiu-se um silêncio estranho em que se ouvia o ruído da água a correr e o grasnar de patos. E depois ele perguntou se eu estava a brincar. "A brincar com quê?- questionei, descontraidamente, já nem me lembrando do que tinha dito. E ele: "Isso que disse, dos dinossauros." Então eu percebi. Reafirmei e até me referi ao filme do Spielberg. Quando acabei de falar, o cavalheiro despediu-se um pouco às pressas e partiu. Daí a pouco também eu me fiz à estrada. E já estava longe quando se fez luz na minha cabeça: o homem deve ter pensado que eu era amalucada. Onde é que já se viu as aves e os dinossauros serem aparentados!

Na realidade, a origem das aves só foi desvendada há relativamente pouco tempo. É um assunto complicado mas vou tentar deixar-vos um resumo bem simples de como se consolidou esta hipótese que ainda hoje parece demasiado fantástica para ser levada a sério. (Bibliografia linkada abaixo.)

Nos anos 70, o paleontólogo norte-americano John Ostrom destacou as parecenças entre aves e dinossáurios e, às tantas, também deve ter passado por amalucado junto de algumas pessoas menos sensíveis aos termos da evolução das espécies. Uma curiosidade: Ostrom descobriu uma garra de um predador que teria vivido há mais de 125 milhões de anos e baptizou-o como Deinonychus (Terrível garra, em Grego), e é este o dinossauro que no filme de Spielberg surge denominado como Velociraptor.)

As aves são dinossáurios terópodes, é hoje uma certeza, mas não deixa de causar estranheza que sejam incluídas no mesmo grupo zoológico que incluiu os monstruosos dinossauros. Creio que é esse contraste de tamanhos que gera nas pessoas a primeira atitude de negação. Só que nem todos os dinossauros eram enormes e nem hoje todas as aves são do tamanho de pardais. Já não há como negar e a prova são certos fósseis encontrados na jazida cretácica de Liaoning, no nordeste da China, com cerca de 124 milhões de anos de idade. Lá se encontraram diversos e importantes fósseis de dinossáurios emplumados e de aves primitivas.

Dinossauros e aves podiam ter tido uma origem comum e depois seguido caminhos evolutivos diferentes: esta foi a tese inicial. Thomas Henry Huxley, que ficou conhecido por ser um enorme apoiante de Darwin, foi o primeiro a sugerir que as aves fossem parentes dos carnívoros dinossauros mas poucos aceitaram os seus argumentos.

Na Alemanha, foi descoberto, em 1860,  o Archaeopteryx e identificaram-se um esqueleto e penas, isto é, uma ave, a mais antiga ave presentemente conhecida. Foi algo tão extraordinário que alguns pensavam que não era uma ave e antes um anjo. Tinha garras, dentes e uma pequena cauda, como os dinossauros. E penas, como uma ave.

Depois, em 1997, na China, o fóssil de Protarchaeopteryx.

Nos anos de 1970, John Ostrom descobre ossos do pulso e da cintura pélvica muito semelhantes aos de Archaeopteryx num dinossauro carnívoro, e por isso contrariou aquele tese de parentesco e afirmou que as aves descendiam dos dinossauros.

Em 1996, descobriram-se fósseis de vertebrados - de Cathyornis e de Confuciusornis, a ave mais antiga conhecida dotada de bico córneo - com vestígios de penas. E depois, em 2000, fósseis de dinossauros emplumados, que foram baptizados como Fuzzy raptor, ou Plumo-raptor.

O Plumo-raptor e Archaeopteryx têm ambos pulsos giratórios que permitem mexer a mão para cima e para baixo, e apresentam membros anteriores muito longos. No Archaeopteryx, os membros anteriores e posteriores são do mesmo tamanho. John Ostrom descobriu que o bater de asas não é um simples movimento “para baixo e para cima”porque a asa roda no voo. Esta característica é o movimento giratório que tinha sido identificado no pulso dos dinossáurios manirraptores.

Outra questão curiosa sobre que os estudiosos se debruçaram é saber como é que os dinossauros começaram a voar: terão descido das árvores para o chão e levantado voo como um avião, ou, pelo contrário, terão subido para as árvores e conquistado os céus a partir do seu topo? Deixo essa questão no ar.

07/05/19

Mais 25 questões e 25 citações para inquietar a sua mente


   Fonte
Como escrevi em anterior postagem, encontrei um questionário intitulado "50 perguntas para libertar a tua mente" e como seria monótono responder a todas de uma vez só dividi-o em duas partes. Esta é a 2ª parte. Gosto de ler e colecionar citações,  pelo que me ocorreu entregar as respostas a personalidades que ficaram de alguma forma na História para tornar o desafio mais divertido. O questionário promove alguma reflexão séria mas eu preferi não ser muito introspectiva. Ficou assim rebaptizado para "25 questões e 25 citações para inquietar a tua mente". Algumas das citações serão mais evasivas do que outras mas não deixam de ser uma resposta às questões formuladas.

Não querem também experimentar? Se o fizerem, deixem um comentário. Será curioso descobrir outras respostas/citação! A primeira parte encontra-se aqui.

26. O que prefereria: perder todas as suas memórias ou não ter a possibilidade de fazer novas?

É possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer. Friedrich Nietzche

27. É possível conhecer a verdade sem a desafiar primeiro?

Todas as verdades são fáceis de perceber depois de terem sido descobertas; o problemas é descobri-las. Galileu

28. O seu maior medo transformou-se em realidade?

Nada na vida é para ser temido, apenas sim para ser entendido. Marie Curie

29. Você recorda-se daquele sofrimento todo de há 5 anos? Ainda é importante agora?

A memória diminui... se não for exercitada. Cícero

30. Qual a lembrança mais feliz da sua infância e porquê?

Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo vejo-me como um pobre garoto que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa uma vez por outra, ou uma concha mais bonita do que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim. Newton

31. No seu passado recente, quando foi que se sentiu mais apaixonado e vivo?

Sol, s. m. Quem tira a roupa da manhã e acende o mar.

32. Se não for agora, então quando?

Há momentos, e você chega a esses momentos, em que de repente o tempo pára e acontece a eternidade. Fiodor Dostoievski

33. Se você ainda não alcançou o que quer, o que tem a perder?

Raramente pensamos no que temos, mas sempre no que nos falta. Arthur Schopenhauer

34. Você já esteve com alguém sem falar palavra alguma e depois sentiu que foi a melhor conversa da sua vida?

Às vezes alguém cria uma grande impressão por ter dito alguma coisa, e às vezes alguém cria uma impressão igualmente grande ficando calado. Dalai Lama

35. É possível saber com certeza o que está bem e o que está mal sem ter dúvidas?

Uma coisa é certa, que é o facto de não podermos dar nada por certo; sendo assim, não é certo que não podemos dar nada por certo. Samuel Butler

36. Se ganhasse um milhão de euros agora, deixaria o seu trabalho?

Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida. Confúcio

37. Preferiria ter muito trabalho por obrigação ou pouco trabalho, mas fazer o que gosta?

Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois. Friedrich Nietzche

38. Tem a impressão de que já viveu o dia de hoje mais de cem vezes?

Afinal deste dia fica o que de ontem ficou e ficará de amanhã: a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro. Fernando Pessoa

39. Você pensa com a cabeça ou com o coração?

Dois excessos: excluir a razão, admitir apenas a razão. Blaise Pascal

40. Se toda a gente que conhece morresse amanhã, quem visitaria hoje?

Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação. Guy de Maupassant

41. Você estaria disposto a encurtar a sua vida em 10 anos em troca de mais beleza e fama?

O homem belo só o é quando o contemplam, mas o homem sábio é belo mesmo quando ninguém o vê. Safo

42. Qual a diferença entre viver e existir?

Existir é estar desatento. Álvaro de Campos

43. Quando chegará o dia de não de pensar em risco e recompensa para escolher fazer o que acredita estar certo? 

Cada momento da vida é um passo para a morte. Pierre Corneille

44. Se aprendemos com nossos erros, porque temos medo de errar?

Muitas vezes erra não apenas quem faz, mas também quem deixa de fazer alguma coisa. Marco Aurélio

45. O que faria de outra maneira se soubesse que ninguém o iria julgar?

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

46. Quando foi a última vez que se apercebeu do som da sua respiração?

A natureza deu-nos duas orelhas e uma só boca para nos advertir de que se impõe mais ouvir do que falar. Zenão de Cítio

47. Do que gosta você? As suas ações recentes revelam abertamente esse gosto?

As minhas coisas favoritas na vida não custam dinheiro nenhum. É realmente claro que o mais precioso recurso que temos é o tempo. Steve Jobs

48. Daqui a 5 anos a partir de agora, você vai lembrar-se do que fez ontem? Ou no dia anterior?

Aquele que não tem memória arranja uma de papel. Gabriel Garcia Marquez

49. As decisões estão a ser tomadas. Por quem? Por si ou está deixando que os outros o façam? 

Toma conselhos com o vinho, mas toma decisões com a água. Benjamin Franklin

50. Qual a promessa mais importante que você já fez?

Eu sei de que maneira pródiga a alma empresta
Juramentos à língua quando o sangue arde. William Shakespeare

25 questões e 25 citações para inquietar a tua mente




Encontrei um questionário intitulado "50 perguntas para libertar a tua mente" e como seria monótono responder a todas de uma vez resolvi partir em duas partes. E depois, como adoro ler  citações, ocorreu-me entregar as respostas a personalidades que ficaram de alguma forma na História para tornar o desafio mais divertido que assim fica rebaptizado para "25 questões e 25 citações para inquietar a tua mente". Algumas das citações que escolhi serão mais evasivas do que outras mas não deixam de ser uma resposta às questões formuladas.

Desafio-vos a responderem! É que não haverá dois questionários iguais e poderemos descobrir novas citações. Digam-me nos comentários se assim for, ok? 

1. Quanto anos você se daria se não soubesse a sua idade?

Existe uma parte de todos nós que vive fora do tempo. Talvez só tomemos consciência da nossa idade em momentos excepcionais, na maioria do tempo não temos idade. Milan Kundera

2. O que é pior: falhar ou nunca tentar?

Não fazer nada, é ser vencido. de Gaulle

3. Já que a vida é tão curta, por que fazemos tantas coisas que não gostamos e tão poucas coisas que gostamos mesmo?

A vida é demasiado curta para nos permitir interessar por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias.

4. Quando estiver tudo dito e feito, você vai ter dito mais do que você fez?

O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado. Boris Vian

5. Qual a coisa que mais gostaria de mudar no mundo?

Todo mundo pensa em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar-se a si mesmo. Leon Tolstói

6. Se a felicidade fosse moeda nacional, qual o trabalho que o faria rico?

O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta. Millôr Fernandes

7. Você está fazendo o que você acredita, ou você contenta-se com o que faz?

É acreditando nas rosas que as fazemos desabrochar. Anatole France

8. Se a vida tivesse uma duração média de 40 anos, o que você mudaria na sua para aproveitá-la ao máximo?

Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim. Buda

9. Até que ponto você realmente tem controlado o rumo que sua vida tomou?

Desejar o melhor, recear o pior e aceitar o que vier. Daniel Defoe

10. O que mais o preocupa: fazer as coisas direito ou as coisas certas?

Há duas coisas que a experiência deve ensinar: a primeira é que se torna indispensável corrigir muito; a segunda é que se não deve corrigir de mais. Eugène Delacroix

11. Você está a almoçar com três pessoas de quem gosta e que respeita. Elas começam a criticar um amigo próximo sem saber que vocês são amigos. A crítica é humilhante e injusta. O que você faria?

Eu julgo que a mulher verdadeiramente digna é aquela a quem repugna uma traição, seja ela de que natureza for. Florbela Espanca

12. Se pudesse dar apenas um conselho a uma criança, qual seria?

Segui o vosso caminho e não deis conselhos a quem não vo-lo pede. Miguel Cervantes

13. Você seria capaz de infringir uma lei para salvar um ente querido?

Só a cabeça de um morto diz que sim a todos os movimentos que lhe imprimem. Teixeira Pascoaes

14. Você viu loucura onde, depois, viu genialidade?

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura. Friedrich Nietzsche

15. O que vocês faz, na sua vida, de forma diferente da maioria?

Não é que você seja diferente, mas é que ninguém consegue ser igual a você. William Shakespeare

16. Porque é que aquilo que te faz feliz não torna feliz os outros?

A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.
Arthur Schopenhauer

17. Que coisa quer  você  fazer, mas ainda não fez, e o que o impede?

Um bom viajante não tem planos fixos nem tão pouco a intenção de chegar. Lao Tzu

18. Você está preso a alguma coisa que deveria largar?

Estamos todos condenados à prisão solitária dentro de nossa própria pele, por toda a vida. Tennessee Williams

19. Se lhe oferecessem a hipótese de mudar para outro país, para onde iria e porquê?

Tenho saudades de um país que ainda não existe no mapa. Galeano

20. Você pressiona o botão para chamar o elevador mais de uma vez? Você realmente acha que ele virá mais rapidamente por causa disso?

Ansiedade é excesso de futuro, depressão é excesso de passado e o stress é excesso de presente. Dirceu Azevedo

21. Quem preferiria ser: um génio preocupado ou um simplório feliz?

Os criadores e os génios, no início da sua carreira, quase sempre, e muitas vezes até no fim, sempre foram considerados pela sociedade como uns parvos e uns loucos — é esta uma das observações mais triviais e sabidas. Fiodor Dostoievski

22. Por que você é você?

A dedicação contínua a um objectivo único consegue frequentemente superar o engenho. Cícero

23. Se pudesse escolher entre ser ou não seu próprio amigo, você seria?

Há um único recanto do universo que podemos ter certeza de melhorar: o nosso próprio eu. Aldous Huxely

24. O que é pior, um amigo afastar-se para bem longe, ou perder o contacto com um bom amigo que mora bem perto de você?

Os fantasmas causam maior medo de longe do que de perto. Maquiavel

25. O que te faz sentir mais gratidão?

A Natureza está continuamente a misturar-se com a arte. Ralph Emerson


👉A 2ª parte encontra-se aqui.

06/05/19

Mr. Bean: um caso de humor à primeira vista

Poster do filme

Rowan Atkinson. Quem não conhece este actor de comédia. Uns lembram-se dele como o caricatural Mr. Bean, outros como o manhoso Edmund Blackadder e outros ainda como o espião "acidental" Johnny English. A sua criação mais popular é Mr. Bean. Vi, na RTP, muitos episódios de Blackadder, uma série muito criativa, em que as personagens percorriam vários tempos da História de Inglaterra. Vi menos episódios de Mr. Bean. Todavia, aparecem muitos na internet e de vez em quando assisto.

Aprecio o humor mudo,  a comédia de situação e mímica, Keaton e Chaplin são geniais, lamentando até que se tenha tornado uma arte extinta e impossível nos tempos actuais. Mas um dia achei Mr. Bean menos hilariante do que grotesco. Há também quem se incomode por ver nele traços do transtorno de Asperger ou do autismo, já não conseguindo sequer rir nem das suas melhores piadas. Nunca tal a mim me ocorreu pensar. Mr. Bean lembra um miúdo que nunca cresceu e que faz por encontrar o seu caminho num mundo adulto e adverso, apenas compreendido pelo seu ursinho, por vezes seguindo ao volante do seu Mini, e quase sempre à procura do seu próximo desaire. Esquisitinho, mal vestido, sem auto-estima nem préstimo, ui, nem entendo como é que ele pode ser tão querido na ilha da rainha: será que os brits não temem que o mundo tome Bean como a sua medida? Ora isso aconteceu, quando, numa viagem de Expresso, mostraram o filme Mr. Bean's holiday (Mr. Bean em férias) , fita onde ele viaja para a Riviera e acaba no Festival de Cannes. Já não aguentava as suas carantonhas e maneirismos, a sério.  Mr. Bean só em pequenas doses. É um ícone da comédia britânica, um dos produtos pop de maior  sucesso que a ilha exportou, universalmente aplaudido, algo que o tipo de comédia que pratica facilitou, reconheço. Mas num registo de 90 minutos ou mais, torna-se muito cansativo. O filme era previsível, uma empreitada de caretas, ruídos esquisitos, e contorcionismos, absurdos e tolices, e um fraco pretexto de história, que ajudou, ainda assim, a fazer passar mais rapidamente o tempo de viagem a bordo do autocarro.
Poster do filme
Pior do que isso, o Mr. Bean em férias pretende ser uma homenagem assumida ao filme Les Vacances de Monsieur Hulot (As férias do sr. Hulot), rodado em 1951 na estância balnear de Saint-Marc-sur-Mer, em França, escrito, realizado e interpretado por Jaques Tati: ao Hotel de la Plage, na costa atlântica, chega num ruidoso automóvel, conduzido por um veraneante meio trapalhão. É o bem intencionado senhor Hulot, sempre de cachimbo, que vai  instalar a desordem total e acabar com a paz dos finos hóspedes burgueses, ensinando a quem quiser que viver as férias é libertar-se de si mesmo e divertir-se. É um filme com muita graça e poucas palavras, que se vê bem ainda hoje. Experimentem vê-lo com crianças, elas vão adorar. Ora, Mr. Bean não é Mr. Hulot, nem Atkinson é Tati. A homenagem ficou aquém. 

Essa deve ter sido a última vez que dei mais atenção ao Mr. Bean. Ontem, apareceu-me por aqui na internet um título sobre Mr. Bean. Mas não era uma notícia sobre Mr. Bean. Era sobre Rowan Atkinson. Embora bastante cinéfila, não costumo interessar-me pela vida privada dos actores e actrizes, é assunto que não me aquece nem arrefece, a não ser que se trate de algo mesmo muito especial. Quando vi a fotografia de Rowan Atkinson imediatamente pensei: olha o Mr. Bean! (vejam um video muito engraçado em que ele conta num programa de TV, o The Graham Norton Show, um episódio sobre um indivíduo que o viu quando ele procurava uma peça para um automóvel, e  lhe perguntou se já alguém lhe tinha dito  que ele era a cara escarrada e cuspida , - "the spitting image" - do Mr. Bean. Quando mais o actor afirmava que era o próprio, mais o homem acreditava que ele estava a mentir. Não é um episódio do Mr. Bean, mas tem muita graça.)

O cavalheiro está mais velho do que me lembro, grisalho, mas mais jovem do que muitos que conheço, que  já não têm pedalada nem para sair à noite quanto mais para namorar, divorciar, casar e ser pai de filhos. Aos 64 anos, o jovem Rowan vai parar de trabalhar durante um ano para ser pai a tempo inteiro de uma bebé que nasceu em 2017, de sua graça, Isla May. A menina é fruto do seu relacionamento com a nova companheira, actriz de profissão, Louise Ford. Desta forma vai ser mais fácil à mulher dedicar-se à sua carreira.Têm uma pequena diferença de idades, apenas uns bem ginasticados 29 anos. Conheceu-a em 2012, numa peça em que contracenavam, em 2014 assumiram o namoro publicamente... et voilá. Um tipo com muita aceleração, este Rowan, o oposto de Mr. Bean, portanto.


Nisto de fofoquices cor-de-rosa não há página que não esteja enxameada de links que nos levam para mais fofoquices que nos levam para mais fofoquices. Logo soube que a actriz andava de namoro com o também comediante James Acaster antes de tombar de humores com Mr.Bean. Sim, humores. É que acredito que tenha sido um caso de humor à primeira vista. Acaster sentiu um fosso a abrir-se entre os dois - estou a utilizar os termos dramáticos que ele utilizou - quando ela contracenou com Rowan em Quartermaine's Terms no Teatro Wyndham em  2013.  Marylin Monroe costumava alardear, a acreditar na popular citação que circula na internet, que se um homem conseguir fazer rir uma mulher, conseguirá tudo dela. Confirmo. Um homem que me faça rir já conquistou metade de mim. O pior é conseguir deitar a mão à outra metade. Mas no caso de Louise a conquista foi total.

Na verdade o homem que me faz rir nesta história de amores, humores e desamores, é o jovem James Acaster que num número de stand-up comedy anunciou: " Fui trocado pelo Mr. Bean. Descobri um ano depois de eu e a Louise nos termos separado. Abri o jornal e ali estava uma história de uma página. Ninguém mais na história dos tempos foi trocado por Mr. Bean." Se isto não é tipicamente britânico, conseguir rir dos infortúnios próprios, não sei o que será. Acrescentou ele: "Isto é a coisa mais engraçada que já aconteceu a alguém." Uma pessoa que também deve ter achado muita graça ao facto foi a ex-mulher que Rowan que lhe aturou as Beanices por 24 anos.

À boleia desta historieta descobri que o comediante tem uma paixão enorme por carros e possui uma frota que vai renovando, vende e compra, pois não é coleccionador, que dava para montar uma mini Uber de luxo para celebridades e amigos da família real: pela sua garagem passaram já um Aston Martin V8, um Lancia Delta Integrale, um Bentley Mulsanne, um Honda NSX, um MG X-Power SV, Mercedes-Benz 600, Lotus Carlton, muitos Ferrari e ainda um Rolls-Royce Phantom. Tudo ganho a fazer caretas e movimentos esquisitos com o corpo, e sem dizer uma palavra de jeito, hem? Ora pensem lá nisso. Em 2011, Rowan espetou-se contra um sinal de tráfego numa estrada molhada em Cambridgeshire. Seguia decerto a alta velocidade no maquinão, um McLaren F1, um carro de edição limitada, já antigo, todo em fibra de carbono, uma bagatela de 650,000 libras, decerto convencido que era o James Bond e não o Johnny English. Não escrevo isto por escrever: ele é mesmo fã da criação de Ian Fleming.

Uns anos antes, em 2001, a estrela da comédia televisiva Mr. Bean, muito ao jeito dos filmes de Bond  que tenta homenagear a cada paródia do Johnny English, tomou os controles de um avião privado quando o piloto desmaiou e  aguentou firme. (Confirma-se! É um tipo desenrascado, este Rowan, nada a ver com Mr. Bean.) O avião tinha sido fretado para si e família numa viagem ao Quénia. A então sua esposa Sunetra e seus dois filhos, Ben, de oito anos, e Lily, de seis, seguiam numa viagem de 75 minutos entre Mombaça e Nairóbi. Percebendo que o piloto fechara os olhos e se recostara no assento - que diabo de momento para passar pelas brasas! -  o comediante e sua esposa tentaram reanimá-lo, enquanto o avião cambaleava de um lado para o outro, começando a perder altura rapidamente. Atkinson - que nunca havia pilotado um avião antes - assumiu os controles do Cessna. Poucos minutos depois, possivelmente após algumas estaladas, o piloto recuperou a consciência, aparentemente sem saber o que havia acontecido. A viagem de férias da família Atkinson  continuou a partir dali sem incidentes até ao Aeroporto Wilson. Longe estariam de imaginar, quando aterraram em segurança no aeroporto de Nairobi,  que o futuro lhes havia de trazer outros cambaleios e cambalhotas. 

Termino, propondo que apreciem estas manipulações fotográficas bem humoradas. Rodney Pike é um mágico no Photoshop e diverte-se a colocar a careta de Mr. Bean em figuras históricas e pinturas famosas. Passem pelo site de Rodney ou pelo seu  Instagram pois há mais Beanipulações e outras criações para ver.

Mrs Frank Millet Bean by John Singer Sargent.

Napoleon Beanaparte
Thomas Howard by Hans Holbean


Bouguerau Bean Meditation

Rembrandt - Soldier bean

05/05/19

Tarte de morangos e queijo fresco


Não são apenas as crianças que gostam de morangos, esse fruto bonito, saboroso e evocativo. Além de serem uma excelente fonte de vitamina C, os morangos são ricos em pelargonidina, uma substância orgânica que faz parte das antocianinas, pigmentos responsáveis pela coloração das frutas, flores e folhas, neste caso, a cor vermelha, e que tem propriedades antioxidantes. O pico de produção do morango em Portugal é entre Maio e Julho, e por isso agora encontram-se à venda em todo o lado, nas bancas dos mercados, à beira da estrada e nos supermercados. O queijo fresco é uma maravilha da mesa mediterrânica, muito popular em Portugal, podendo ser consumido em entradas, saladas, lanches...e sobremesas. Esta vistosa tarte junta morangos coloridos e queijo fresco, resultando numa sobremesa fresquinha, fresquinha, ideal para saudar os dias de Primavera já com cheirinho a Verão. Que tal experimentar?

Ingredientes

Base de  bolacha

1 pacote de bolacha torrada ou Maria (200 g)
125 g de manteiga

Recheio de queijo branco

3 queijinhos brancos de 70 g
2 pacotes de nata para bater (35% de nata)
150 g de açucar granulado
gotas de limão ou meia colher de essência de baunilha
pitada de sal
4 folhas de gelatina transparente + 50 ml de água

Cobertura de gelatina

1 saqueta de gelatina de morango
200 ml de água a ferver e 200 ml de água fria
300 g de morangos (uma caixa +ou -)

N.B. Os morangos vão ser usados de duas maneiras: exteriormente, na cobertura e ao redor do recheio, colocamos as fatias em forma de coração. Sobre a camada de bolacha, colocamos os pedaços menos bonitos da fruta. Por isso é conveniente ter bastantes se quisermos que cheguem para este efeito. Também podemos não colocar morangos ao redor do aro. É uma opção.


Modo de preparação da tarte

Lavar os morangos sem tirar o pé para não lhes entrar água e colocar a escorrer/secar. Se necessário, limpar para remover o excesso de água. Cortar em fatias finas, separar as fatias coração das outras e reservar tudo.

Base de bolacha

Esmagar ou triturar a bolacha, à mão ou em máquina. Colocar em taça. Levar a manteiga a amornar ao lume num tachinho.  Retirar a manteiga do lume e juntar à bolacha. Pode usar a colher ou a mão até que sinta a manteiga bem incorporada na bolacha triturada. 

Passar óleo no aro de uma forma de 26 cm de diâmetro de base amovível com a ajuda de um guardanapo. Vazar a bolacha, espalhar e calcar, com a mão,  uniformemente. Levar ao frio para endurecer.

Recheio de queijo branco

Num prato, esmagar os três queijos com um garfo e reservar.

Preparar o chantilly. Numa taça bater um pouco as natas, depois juntar o sal, o  açucar e o aromatizante escolhido.  Quando estiver encorpado é sinal de que se pode juntar o queijo, que deve ser bem envolvido.

Numa taça hidratar as 4 folhas de gelatina em água durante alguns minutos e depois escorrê-las bem. Levá-las ao lume baixo com 50 ml de água até dissolverem, nunca deixar ferver, não será necessário muita temperatura para que se dissolvam.

Juntar este líquido ao creme, vazando devagar e mexendo cuidadosamente mas para incorporar bem.

Buscar a forma e colocar os morangos em forma de coração a forrar o aro e no fundo, sobre a bolacha, os pedacitos restantes dos morangos, até cobrir. Sobre estes, vazar o preparado cremoso, ao centro, devagar.  Não deve ser necessário usar a colher para fazer chegar o creme à margem da forma pois ele espalha-se mais ou menos uniformemente. Forrar a superfície do creme com os morangos em forma de coração. Levar ao frio durante 6 horas antes de continuar.

Cobertura de gelatina

Colocar 200 ml de água a aquecer ao lume. Retirar quando ferver e juntar a gelatina em pó. Mexer bem até dissolver. Juntar 200 ml de água fria. Feito.

Deixar arrefecer bem antes de vazar na forma, com cuidado. Pode usar uma colher em concha e ir deitando pouco a pouco o líquido sobre os morangos.

Levar para o frigorífico até a gelatina solidificar e ter o cuidado de verificar se a prateleira está nivelada ou acontece o que a imagem documenta: a gelatina acaba por não cobrir toda a superfície da tarte.


Algumas notas extra acerca do maravilhoso chantilly!

O chantilly deve ser o creme mais famoso da confeitaria. Pode ser usado como recheio ou cobertura para bolos, tortas e doces, e mesmo em bebidas como cappuccinos, cafés, milk shakes ou chocolates quentes. A palavra "Chantilly" é obviamente francesa. Os franceses referem-se-lhe como crème chantilly ou crème fouettée, já os ingleses chamam-lhe whipped cream. A sua invenção costuma ser atribuída a François Vatel, mordomo, organizador de banquetes e festas nos Castelos de Vaux-le-Vicomte e Chantilly, durante o reinado de Luís XIV, tão famoso pelo creme como pela sua morte: cometeu suicídio ao aperceber-se que o peixe que tinha encomendado não chegaria a tempo para ser preparado para a mesa das majestades e convivas.

Basicamente, o chantilly resulta da introdução de ar nas natas misturadas com açucar, este ajuda à firmeza daquelas. Não deve ser preparado com antecedência pela razão de que o ar incorporado durante o acto de bater acaba por se soltar e e volume desaparece. Para que se aguente por um dia é que se junta a gelatina sem sabor às sobremesas. Ela não altera ou acrescenta quaisquer sabor nem altera a textura do mesmo. O creme chantilly pode ser aromatizado com baunilha, licores, chocolate, café, canela, laranja ou outras frutas.


Há grandes discussões sobre quais as natas ideais para fazer o Chantilly: Gresso. Longa Vida e Pingo Doce deram bons resultados. Há a reter que devem ser gordas, os pacotes devem conter pelo menos um teor de 35 % de nata, já vi alguns com 22%, e devem estarem frias quando as vamos bater, de preferência um dia de frigorífico. Em relação à quantidade de açucar a usar, 50 g para 100 ml de natas parece ser uma boa medida. Creio que depende um pouco do gosto de cada um e do fim a que se destina.

Aconselham os entendidos na pastelaria a colocar no frio, por 10 minutos,  a taça de metal, as varetas ou o fouet que se vai utilizar. Nunca fiz isso e o chantilly saiu bem, que me lembre. Todavia, se quiserem jogar pelo seguro, e em tempo de muito calor, talvez seja bom considerar a dica.

Como fazer o chantilly? Colocam-se as natas saídas do frigorífico na taça e batem-se até fazer uma leve espuma. Junta-se o sal, o açucar e o aroma. Bate-se durante 2 minutos, com a máquina. ( Não uso o fouet) Começa a formar-se um rasto de ondas no chantilly. Para-se e faz-se o teste para ver como estamos de formação de picos. Retira-se uma colher se sopa de deita-se num pires. 

Podemos querer usar o chantilly mais brando - as natas apresentam estrutura mas não estão ainda duras, o chantilly é ainda cremoso - ou mais forte, quando as natas não caiem da taça nem das varas, caso em que são boas para fazer cobertura de bolos, por exemplo. 

Pode continuar-se a bater - parar aos 3 minutos e voltar a ver  - até aos 5 minutos, vai-se parando e vendo os picos. Depois dos 5 minutos as hipóteses de obter manteiga e não chantilly são certas, por isso, cuidado. A cor do chantilly é esbranquiçada, não amarelada, e a textura é sedosa, não granulada. É preciso estar atento a estes sinais. Parece mais difícil do que é! 

A utilização de borras de café na esfoliação da pele


Quando a caixinha do esfoliante corporal Crushed Cabernet com grainhas de uva e óleos essenciais, e aroma de limão, citronela, rosmaninho e bagas de zimbro, acaba, uma pessoa começa a fazer contas. A escrevedora de serviço confessa que não tem muita paciência para cuidados de beleza mas que gosta de fazer a sua esfoliaçãozinha pois é uma coisa que realmente produz resultados que se sentem. Toda a gente sabe o que uma esfrega suave pode fazer pela pele: a camada superficial é eliminada, fica limpa e macia, e esta acção faz acelerar a renovação celular o que vai contribuir para uma pele mais luminosa e de aspecto rejuvenescido. Assim preparada também recebe melhor os cuidados hidratantes ou de nutrição, ou outros, porque a absorção é melhorada. Olha lá, até já pareço uma conselheira de beleza a falar.

E a nossa pele precisa mesmo disso? Bem, a pele, como todo o nosso corpo, tem a sua sabedoria própria e renova-se em ciclos de 30 dias. Mas é um processo que pode correr melhor ou pior, ser influenciado pelo nosso metabolismo, se transpiramos muito ou pouco, e comportamento, coisas básicas como comer bem ou mal ou estar sujeito ou não a stress podem influir. E então vamos borrar a nossa cara - nunca! - e corpo com a borra de café para ajudar a nossa pele?! Parece que sim. A publicidade há muito que não se cala com promessas de mais brilho, mais firmeza, mais elasticidade, menos inflamação, melhor circulação, em suma, enormes benefícios para a pele conseguidos pela utilização da borra. 

Não preciso ser a Elizabeth Arden para desconfiar que as borras possam ser esfoliantes naturais por excelência em virtude da sua consistência. Além do mais, ao contrário das micro-esferas de plástico, as borras de café não prejudicam o ambiente quando utilizadas, não contaminam o oceano depois de descerem pelo ralo. Nunca é demais chamar a atenção para as "microbeads" ao falar de esfoliantes embora elas possam ser encontradas em muitos outros produtos. As ditas são menores do que a ponta de um alfinete mas tornaram-se um problema ambiental gigante porque não são bio-degradáveis mas foram adicionadas a cosméticos, como sabonetes, cremes, pastas de dentes, desodorizantes, gel de banho, spray para o cabelo, sombras para os olhos, protector solar, creme de barba e sei lá que mais, e  são comercializados no mundo inteiro em grandes quantidades. Descem pelo ralo, vão para os esgotos, escapam às estações de tratamento e acabam no mar e em rios. Ao longo da sua viagem, absorvem  poluentes de longa duração sendo extremamente tóxicas para os seres vivos que as ingerem porque as tomam por alimento. Esta toxicidade passa para os tecidos dos animais marinhos, e também nos contamina, porque nos alimentamos de peixe e frutos do mar. Existem muitos projectos que se dedicam à informação e mobilização da opinião pública acerca deste problema, por exemplo, o Beat the microbeads.



Como um dos constituintes da borra de café é a cafeína, surge associado ao seu uso um ligeiro efeito tonificante e anti-celulítico, ou seja, a borra pode auxiliar no tratamento do fibro edema gelóide (FEG), a popularmente conhecida e odiada celulite. Mas o melhor é aplicar um produto próprio depois da esfoliação e não ficar à espera de milagres, isto é, é melhor não ir na cantiga das marcas. A esfoliação pode ser feita de forma física, isto é, mecânica, ou química. A primeira é feita pela introdução de substancias granuladas, por exemplo, as tais poluentes micro-esferas de plástico, ou sementes, - no caso do esfoliante da Caudalie são utilizados grainha e açucar. São estas que removem secreções, produtos cosméticos entranhados na pele, células mortas e outras impurezas resultantes da poulição. A química é realizada através da introdução de elementos químicos. Embora goste bastante da ideia de produtos à base de plantas, e da minha marca preferida ser a Caudalie, tenho sempre a ideia que apenas servem para fazer face a necessidades ligeiras e que não resolvem questões mais complicadas. Por outro lado, se lermos os rótulos de produtos à venda, à mistura com os ingredientes vegetais que justificam a etiqueta verde, não raro aparecem outros agentes químicos, que nem sabemos se estão lá para terem, afinal, o papel principal no processo ou se para "encherem o chouriço" cosmético.

Sim, no último par de meses já vi postagens acerca de marcas que têm nas suas linhas cosméticas esfoliantes que contêm borras e também sobre a utilização caseira das borras de café na esfoliação. O #CoffeeScrub deve estar em ebulição. Algumas "receitas" são muito simples: coloque 1 colher de sopa de iogurte natural e 1 colher de sopa e borra de café numa tacinha, misture os dois ingredientes até ficar homogéneo e aplique em massagens circulares. Ou 1 chávena de chá de borra e meia cháve de açúcar refinado (para peles mais sensíveis) ou sal grosso, com 2 colheres de sopa de óleo de amêndoas ou azeite de oliva ou óleo de coco. Misturar tudo e aplicar. Por isso, hoje, e porque o meu esfoliante acabou, quando tirei o depósito de borras da máquina fiquei a olhar para elas mas sem me apetecer muito espalhar aquela mistela na minha pele. Utilizá-las seria, no entanto, uma bela poupança pois todos os dias faço café e borra de café é o que não falta! Agora seria uma boa altura para perguntar às leitoras se já se borraram e que tal os resultados. É que quando penso nisso só imagino a minha banheira toda esborratada de borras e não simpatizo com o "tratamento". Se tudo fosse tão agradável como beber um café!

"Não existe vida antes do café. 
Procafestinação: o hábito de adiar tudo até tomar um café. 
Um café é sempre uma boa ideia." 

Já todos lemos uma destas frases algures. O café comanda a vida de muito boa gente. O efeito estimulante do sistema nervoso central é o que todos queremos. A cafeína, um alcaloide natural presente em muitas espécies de plantas, mas sobretudo concentrada nos grãos de café, folhas de chá, e cacau, é a substância psicoativa mais ingerida no mundo. Mesmo se nos rótulos de café já se vão lendo menções a outras potencialidades dos grãos ou do pó castanho, o poder antioxidante (devido a compostos fenólicos, como ácidos clorogénicos, e à cafeína), ninguém compra por essa razão: o que nós queremos é pica.

O cafeeiro (Coffea sp.) é um arbusto da família Rubiaceae e do género Coffea L., abrangendo cerca de 500 espécies. No entanto, as espécies Coffea arabica (Arábica) e Coffea canephora var. robusta (Robusta) são as mais populares, mais produzidas no mundo. Estas duas espécies possuem diferenças organoléticas, (características dos materiais que podem ser percebidas pelos sentidos humanos) físicas e químicas. A maioria das pessoas prefere o café arábica, mais aromático, mais adocicado e ligeiramente ácido. O café robusta é mais resistente a pragas, usa-se para dar mais corpo e espuma e para fazer café solúvel. Tem o dobro da cafeína do café arábica, entre outras características: sabor amargo e áspero, adstringente, menos aroma.

O processo de produção do café produz muito resíduo. É a lavagem e a despolpagem do fruto do cafeeiro que geram resíduos como polpa, casca, mucilagem e águas residuais. E depois vem a borra. E, com a invenção das cápsulas para as máquinas, as cápsulas, que têm alumínio ou plástico com alumínio, mais lixo que não pode ser simplesmente descartado. Que bom que era ir à loja do café com a minha mãe, quando era criança. Ainda não tinha entrado e já na rua o aroma do café penetrava pelas narinas. Lá dentro, depois do pedido, o moinho de café entrava em acção, as correias de lona davam voltas, os grãos afundavam-se no funil transparente e o café chegava às nossas mãos num cartucho de papel pardo e forte, atado com mestria no topo, com um cordão de segurança.

Mas reutilizar as borras de café não é nada de novo: já a minha avó misturava borras na terra para ajudar na fertilização e ela nasceu em 1914. Há uns anos li bastante sobre projectos de utilização de borras como substrato para o cultivo de cogumelos e até quis ter um negócio desses. Lembro também notícias de que a borra era apta para a produção de biodísel através da extração de óleo das mesmas. Apesar do mundo "se borrar" todos os dias em quantidades industriais, tantos são os "cafeínodependentes", nos quais me incluo, não sei em que pé andam essas investigações  já que a humanidade continua maioritariamente  a correr para as bombas de gasolina e gasóleo para abastecer as carripanas, líquidos preciosos esses que, quando secam nas bombas, como ainda aconteceu há semanas por causa da greve dos motoristas, nos deixam a todos com uma mão à frente e outra atrás.


E não é apenas no estrangeiro, não, por cá, o projecto da Delta, DeltaRethink Eco-Project, estuda e repensa as utilizações a dar às borras de café, procurando vias alternativas para fechar o ciclo de consumo do amado grão e obter o menor impacto possível ao nível da sustentabilidade. O projecto ReThink visa, entre outros objectivos, investigar os componentes da borra, e perceber o que é possível extrair deste resíduo para a criação de novos produtos, nomeadamente em áreas como nutrição, cosmética, biomassa e bioenergia.

Lê-se no site da Delta: " O próprio consumidor deve ser o motor impulsionador de uma mudança de comportamentos, e por essa razão a Delta desenvolveu um sistema de recolha e valorização dos principais resíduos provocados pela sua actividade industrial e comercial. "

O problema do destino de resíduos provenientes do consumo de café em cásulas levou algumas  marcas a criarem um sistema de recolha, de forma a poderem recuperar e valorizar as duas componentes das cápsulas:

- Nespresso: http://www.nespresso.com/ecolaboration/pt/pt/recycling.html;
- Delta Q: https://www.mydeltaq.com/reciclagem.aspx
- Dolce Gusto: https://www.dolce-gusto.pt/ciclo-de-vida-fim-de-vida

Se não conseguir entregar as suas cápsulas, o que fazer? Usar as borras para esfoliação tavez seja uma hipótese! Depois é só colocar a cápsula vazia no ecoponto amarelo. Digo-vos já antes que perguntem. As cápsulas não me convenceram mas tive uma fase encapsulada, sim. Não me nego a beber um Nespresso mas agora gostava era de comprar uma  cafeteira que lembra o formato de uma ampulheta, a Chemex. Conhecem? Existem vários métodos para fazer café e cada um resulta num tipo de café diferente. Por exemplo, a prensa francesa dá um café mais oleoso e forte. A Chemex não é nada de novo, é uma criação antiga, um conjunto de garrafa, porta filtro e alça, patenteado pelo químico alemão Peter Schlumbohm em 1941 e que tinha por  objectivo permitir ao amante de café  produzir o café perfeito. Ela foi inspirada pela escola de design da Bauhaus e por equipamentos de laboratório como o frasco de Erlenmeyer.Vejam aqui uma delas, no MOMA, se tiverem curiosidade de cuscar cafeteiras de café históricas numa postagem sobre esfoliantes!

Sabonete com borra de café

Só para não fugir ao tema, e para concluir, encontrei alguns esfoliantes de marca, alguns deles cheios de promessas cosméticas,  com borras de café e todo o tipo de óleos, dos mais comuns aos mais exóticos, vitaminas e sais, na lista de ingredientes, mas deixo a sua publicidade para as "influencers". Escolhi antes mostrar este humilde sabonete que integra muito simplesmente a borra do café e a glicerina na sua composição. Uma ideia gira com origem numa parceria entre um café e uma saboaria artesanal, no Brasil, que eu não me importava até de experimentar!  

"A borra do nosso café que antes era desperdiçada no Barista Coffee Bar agora tem um novo destino! Em parceria com a L´Odorat – Saboaria e Cosmética Artesanal, estamos lançando este sabonete com propriedade esfoliante. Feito com ingredientes vegetais e naturais, o sabonete preserva no processo artesanal um item essencial para hidratação da pele: a glicerina, que na indústria é substituída por produtos químicos. O cheirinho é agradável e o café atua apenas na esfoliação, suave e delicada, ótima para o dia a dia. Viu só! Agora o Café do Moço aproveita tudo o que o café pode nos dar. Da flor à borra!"