05/05/19

A utilização de borras de café na esfoliação da pele


Quando a caixinha do esfoliante corporal Crushed Cabernet com grainhas de uva e óleos essenciais, e aroma de limão, citronela, rosmaninho e bagas de zimbro, acaba, uma pessoa começa a fazer contas. A escrevedora de serviço confessa que não tem muita paciência para cuidados de beleza mas que gosta de fazer a sua esfoliaçãozinha pois é uma coisa que realmente produz resultados que se sentem. Toda a gente sabe o que uma esfrega suave pode fazer pela pele: a camada superficial é eliminada, fica limpa e macia, e esta acção faz acelerar a renovação celular o que vai contribuir para uma pele mais luminosa e de aspecto rejuvenescido. Assim preparada também recebe melhor os cuidados hidratantes ou de nutrição, ou outros, porque a absorção é melhorada. Olha lá, até já pareço uma conselheira de beleza a falar.

E a nossa pele precisa mesmo disso? Bem, a pele, como todo o nosso corpo, tem a sua sabedoria própria e renova-se em ciclos de 30 dias. Mas é um processo que pode correr melhor ou pior, ser influenciado pelo nosso metabolismo, se transpiramos muito ou pouco, e comportamento, coisas básicas como comer bem ou mal ou estar sujeito ou não a stress podem influir. E então vamos borrar a nossa cara - nunca! - e corpo com a borra de café para ajudar a nossa pele?! Parece que sim. A publicidade há muito que não se cala com promessas de mais brilho, mais firmeza, mais elasticidade, menos inflamação, melhor circulação, em suma, enormes benefícios para a pele conseguidos pela utilização da borra. 

Não preciso ser a Elizabeth Arden para desconfiar que as borras possam ser esfoliantes naturais por excelência em virtude da sua consistência. Além do mais, ao contrário das micro-esferas de plástico, as borras de café não prejudicam o ambiente quando utilizadas, não contaminam o oceano depois de descerem pelo ralo. Nunca é demais chamar a atenção para as "microbeads" ao falar de esfoliantes embora elas possam ser encontradas em muitos outros produtos. As ditas são menores do que a ponta de um alfinete mas tornaram-se um problema ambiental gigante porque não são bio-degradáveis mas foram adicionadas a cosméticos, como sabonetes, cremes, pastas de dentes, desodorizantes, gel de banho, spray para o cabelo, sombras para os olhos, protector solar, creme de barba e sei lá que mais, e  são comercializados no mundo inteiro em grandes quantidades. Descem pelo ralo, vão para os esgotos, escapam às estações de tratamento e acabam no mar e em rios. Ao longo da sua viagem, absorvem  poluentes de longa duração sendo extremamente tóxicas para os seres vivos que as ingerem porque as tomam por alimento. Esta toxicidade passa para os tecidos dos animais marinhos, e também nos contamina, porque nos alimentamos de peixe e frutos do mar. Existem muitos projectos que se dedicam à informação e mobilização da opinião pública acerca deste problema, por exemplo, o Beat the microbeads.



Como um dos constituintes da borra de café é a cafeína, surge associado ao seu uso um ligeiro efeito tonificante e anti-celulítico, ou seja, a borra pode auxiliar no tratamento do fibro edema gelóide (FEG), a popularmente conhecida e odiada celulite. Mas o melhor é aplicar um produto próprio depois da esfoliação e não ficar à espera de milagres, isto é, é melhor não ir na cantiga das marcas. A esfoliação pode ser feita de forma física, isto é, mecânica, ou química. A primeira é feita pela introdução de substancias granuladas, por exemplo, as tais poluentes micro-esferas de plástico, ou sementes, - no caso do esfoliante da Caudalie são utilizados grainha e açucar. São estas que removem secreções, produtos cosméticos entranhados na pele, células mortas e outras impurezas resultantes da poulição. A química é realizada através da introdução de elementos químicos. Embora goste bastante da ideia de produtos à base de plantas, e da minha marca preferida ser a Caudalie, tenho sempre a ideia que apenas servem para fazer face a necessidades ligeiras e que não resolvem questões mais complicadas. Por outro lado, se lermos os rótulos de produtos à venda, à mistura com os ingredientes vegetais que justificam a etiqueta verde, não raro aparecem outros agentes químicos, que nem sabemos se estão lá para terem, afinal, o papel principal no processo ou se para "encherem o chouriço" cosmético.

Sim, no último par de meses já vi postagens acerca de marcas que têm nas suas linhas cosméticas esfoliantes que contêm borras e também sobre a utilização caseira das borras de café na esfoliação. O #CoffeeScrub deve estar em ebulição. Algumas "receitas" são muito simples: coloque 1 colher de sopa de iogurte natural e 1 colher de sopa e borra de café numa tacinha, misture os dois ingredientes até ficar homogéneo e aplique em massagens circulares. Ou 1 chávena de chá de borra e meia cháve de açúcar refinado (para peles mais sensíveis) ou sal grosso, com 2 colheres de sopa de óleo de amêndoas ou azeite de oliva ou óleo de coco. Misturar tudo e aplicar. Por isso, hoje, e porque o meu esfoliante acabou, quando tirei o depósito de borras da máquina fiquei a olhar para elas mas sem me apetecer muito espalhar aquela mistela na minha pele. Utilizá-las seria, no entanto, uma bela poupança pois todos os dias faço café e borra de café é o que não falta! Agora seria uma boa altura para perguntar às leitoras se já se borraram e que tal os resultados. É que quando penso nisso só imagino a minha banheira toda esborratada de borras e não simpatizo com o "tratamento". Se tudo fosse tão agradável como beber um café!

"Não existe vida antes do café. 
Procafestinação: o hábito de adiar tudo até tomar um café. 
Um café é sempre uma boa ideia." 

Já todos lemos uma destas frases algures. O café comanda a vida de muito boa gente. O efeito estimulante do sistema nervoso central é o que todos queremos. A cafeína, um alcaloide natural presente em muitas espécies de plantas, mas sobretudo concentrada nos grãos de café, folhas de chá, e cacau, é a substância psicoativa mais ingerida no mundo. Mesmo se nos rótulos de café já se vão lendo menções a outras potencialidades dos grãos ou do pó castanho, o poder antioxidante (devido a compostos fenólicos, como ácidos clorogénicos, e à cafeína), ninguém compra por essa razão: o que nós queremos é pica.

O cafeeiro (Coffea sp.) é um arbusto da família Rubiaceae e do género Coffea L., abrangendo cerca de 500 espécies. No entanto, as espécies Coffea arabica (Arábica) e Coffea canephora var. robusta (Robusta) são as mais populares, mais produzidas no mundo. Estas duas espécies possuem diferenças organoléticas, (características dos materiais que podem ser percebidas pelos sentidos humanos) físicas e químicas. A maioria das pessoas prefere o café arábica, mais aromático, mais adocicado e ligeiramente ácido. O café robusta é mais resistente a pragas, usa-se para dar mais corpo e espuma e para fazer café solúvel. Tem o dobro da cafeína do café arábica, entre outras características: sabor amargo e áspero, adstringente, menos aroma.

O processo de produção do café produz muito resíduo. É a lavagem e a despolpagem do fruto do cafeeiro que geram resíduos como polpa, casca, mucilagem e águas residuais. E depois vem a borra. E, com a invenção das cápsulas para as máquinas, as cápsulas, que têm alumínio ou plástico com alumínio, mais lixo que não pode ser simplesmente descartado. Que bom que era ir à loja do café com a minha mãe, quando era criança. Ainda não tinha entrado e já na rua o aroma do café penetrava pelas narinas. Lá dentro, depois do pedido, o moinho de café entrava em acção, as correias de lona davam voltas, os grãos afundavam-se no funil transparente e o café chegava às nossas mãos num cartucho de papel pardo e forte, atado com mestria no topo, com um cordão de segurança.

Mas reutilizar as borras de café não é nada de novo: já a minha avó misturava borras na terra para ajudar na fertilização e ela nasceu em 1914. Há uns anos li bastante sobre projectos de utilização de borras como substrato para o cultivo de cogumelos e até quis ter um negócio desses. Lembro também notícias de que a borra era apta para a produção de biodísel através da extração de óleo das mesmas. Apesar do mundo "se borrar" todos os dias em quantidades industriais, tantos são os "cafeínodependentes", nos quais me incluo, não sei em que pé andam essas investigações  já que a humanidade continua maioritariamente  a correr para as bombas de gasolina e gasóleo para abastecer as carripanas, líquidos preciosos esses que, quando secam nas bombas, como ainda aconteceu há semanas por causa da greve dos motoristas, nos deixam a todos com uma mão à frente e outra atrás.


E não é apenas no estrangeiro, não, por cá, o projecto da Delta, DeltaRethink Eco-Project, estuda e repensa as utilizações a dar às borras de café, procurando vias alternativas para fechar o ciclo de consumo do amado grão e obter o menor impacto possível ao nível da sustentabilidade. O projecto ReThink visa, entre outros objectivos, investigar os componentes da borra, e perceber o que é possível extrair deste resíduo para a criação de novos produtos, nomeadamente em áreas como nutrição, cosmética, biomassa e bioenergia.

Lê-se no site da Delta: " O próprio consumidor deve ser o motor impulsionador de uma mudança de comportamentos, e por essa razão a Delta desenvolveu um sistema de recolha e valorização dos principais resíduos provocados pela sua actividade industrial e comercial. "

O problema do destino de resíduos provenientes do consumo de café em cásulas levou algumas  marcas a criarem um sistema de recolha, de forma a poderem recuperar e valorizar as duas componentes das cápsulas:

- Nespresso: http://www.nespresso.com/ecolaboration/pt/pt/recycling.html;
- Delta Q: https://www.mydeltaq.com/reciclagem.aspx
- Dolce Gusto: https://www.dolce-gusto.pt/ciclo-de-vida-fim-de-vida

Se não conseguir entregar as suas cápsulas, o que fazer? Usar as borras para esfoliação tavez seja uma hipótese! Depois é só colocar a cápsula vazia no ecoponto amarelo. Digo-vos já antes que perguntem. As cápsulas não me convenceram mas tive uma fase encapsulada, sim. Não me nego a beber um Nespresso mas agora gostava era de comprar uma  cafeteira que lembra o formato de uma ampulheta, a Chemex. Conhecem? Existem vários métodos para fazer café e cada um resulta num tipo de café diferente. Por exemplo, a prensa francesa dá um café mais oleoso e forte. A Chemex não é nada de novo, é uma criação antiga, um conjunto de garrafa, porta filtro e alça, patenteado pelo químico alemão Peter Schlumbohm em 1941 e que tinha por  objectivo permitir ao amante de café  produzir o café perfeito. Ela foi inspirada pela escola de design da Bauhaus e por equipamentos de laboratório como o frasco de Erlenmeyer.Vejam aqui uma delas, no MOMA, se tiverem curiosidade de cuscar cafeteiras de café históricas numa postagem sobre esfoliantes!

Sabonete com borra de café

Só para não fugir ao tema, e para concluir, encontrei alguns esfoliantes de marca, alguns deles cheios de promessas cosméticas,  com borras de café e todo o tipo de óleos, dos mais comuns aos mais exóticos, vitaminas e sais, na lista de ingredientes, mas deixo a sua publicidade para as "influencers". Escolhi antes mostrar este humilde sabonete que integra muito simplesmente a borra do café e a glicerina na sua composição. Uma ideia gira com origem numa parceria entre um café e uma saboaria artesanal, no Brasil, que eu não me importava até de experimentar!  

"A borra do nosso café que antes era desperdiçada no Barista Coffee Bar agora tem um novo destino! Em parceria com a L´Odorat – Saboaria e Cosmética Artesanal, estamos lançando este sabonete com propriedade esfoliante. Feito com ingredientes vegetais e naturais, o sabonete preserva no processo artesanal um item essencial para hidratação da pele: a glicerina, que na indústria é substituída por produtos químicos. O cheirinho é agradável e o café atua apenas na esfoliação, suave e delicada, ótima para o dia a dia. Viu só! Agora o Café do Moço aproveita tudo o que o café pode nos dar. Da flor à borra!"

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