24/02/18

Corvos, ratos e gaios semeadores


Foto de Luc Viatour Belgium, Brussels, visitem o site do fotógrafo.

Vi um video (entretanto removido) onde um corvo que remexia meio papo seco com o bico no chão de cimento parecia repartir uma porção que tinha removido do seu interior com um ratito saído da vegetação próxima. A legenda incutia em nós essa mesma conclusão: Crow shares food with tiny rat, ou coisa semelhante. O rato tinha feito uma ou duas aproximações destemidas ao corvo e ao guloso alimento e recuado sempre para a segurança da folhagem, junto ao passeio. Os corvos são omnívoros e os ratos fazem parte da sua alimentação. O corvo observava o roedor e o seu esconderijo de forma interessada, talvez hesitante entre largar o pão e dar-lhe caça, mais vale um pedaço de pão na mão, que dois a voar. A dada altura vemos que leva no bico um pedaço de pão que retira do miolo e que o coloca junto do lancil, cobrindo-o com uma ou duas folhas secas. O roedor apressa-se a sumir do cenário perante o avanço do corvo na sua direcção. A ave regressa para junto do naco de pão que continua a debicar. O rato sai das ervas e, rápido, leva a migalha de pão consigo antes que tenhamos sequer tempo de pensar que o corvo lhe tinha armado um isco para o forçar a sair do esconderijo e chamar-lhe almoço. Esta estratégia de caça nem sequer me ocorreu, embevecida que estava a apreciar a tal situação de bonita partilha em que a legenda me tinha induzido. Reparo então no comentário de alguém que quer desenganar-me e a outros. Diz deixar comida para os corvos no quintal e afirma tratar-se de um comportamento tradicional: os corvos escondem comida para a recuperar mais tarde. Recuso-me a ver assim arruinada a minha leitura e vou até um site sobre comportamento animal em busca de amparo para a minha convicção. Rapidamente a teoria da solidariedade entre espécies vôa para longe. Era verdade. Os corvos têm por hábito armazenar comida. Não se limitam a enterrar a comida como é habitual para muitas aves. Os corvos escolhem uma área para o efeito e usam uma folha, um pequeno ramo, ervas como marcador. Inclinam a cabeça e observam atentamente o marcador com um só olho para obterem uma imagem mental do mesmo e poderem mais tarde regressar ao local. A técnica não é infalível e por vezes nunca mais encontram a comida. O corvo do video devia ter a percepção da quantidade enorme de pão que tinha encontrado e não estava senão a armazenar para mais tarde poder aproveitar. O espertalhão do rato estragou-lhe os planos. Desapontados? Não estejam. Podem perfeitamente defender que este corvo era um corvo particular, um corvo empático e generoso, mais humano que muitos humanos, um com quem podemos aprender qualquer coisa, e que naquele video se escreveu mais uma fábula ao jeito de Esopo. Qualquer das teorias funciona para dar realce às muitas habilidades das aves, aproximando-nos seu mundo particular. Foi então que me lembrei de um texto que a minha amiga Elsa Ferreira me enviou por altura dos incêndios de Outubro sobre o comportamento do gaio. No Outono amadurecem as bolotas dos carvalhos e de outras árvores da espécie Quercus, como sobreiros e azinheiras. Os gaios armazenam-nas debaixo de folhas e de vegetação rasteira, enterrando-as, assim as escondendo dos outros animais, e no Inverno são o seu repasto. As bolotas esquecidas podem dar origem a árvores o que faz dos gaios autênticos semeadores. Existem até projectos ambientais que colocam depósitos de bolotas para os gaios em áreas ardidas transformando-os em auxiliares da reflorestação. As cabeças do MAI é que não sabem disto ou o Fisco já teria enviado um email aos gaios para eles enterrarem todas as bolotas até Março! Senão...multa!

22/02/18

Festival da Canção RTP 2018


Já não ia escrever nada sobre o Festival da Canção, águas passadas, hoje já ninguém fala disso. Apenas ontem acabei de ouvir a primeira leva de canções. O efeito Salvador fez com que este ano as atenções se voltassem de novo para um Festival que estava bem longe da vista e do coração dos portugueses. Ninguém mais tinha nem tempo nem ouvidos disponíveis, talvez apenas os mais saudosistas, alguns particulares amantes da música portuguesa espalhados pelo mundo e os que, longe do país, nele encontravam um suporte emotivo para o seu patriotismo e saudade.

De acordo com algumas opiniões que li o público ficou desapontado. Não sei se eu fiquei desapontada. Não há ali canções que me encham as medidas auditivas nem o coração mas gostei de algumas. Mas e quantas canções é que me enchem as medidas ao longo do ano? Portuguesas ou não? Ah, pois é. Cada vez menos. O que não compreendo é como num formato em que um compositor escolhe o intérprete se fizeram escolhas que não valorizam ou que até deitam a perder o investimento criativo. É de um todo harmónico que sai o cantor que marca. O Tom Jobim escreveu que no peito dos desafinados também bate um coração, a gente quer acreditar e ser meiga, mas nem é preciso ter o tal ouvido privilegiado, um pós outros, os desafinados desfilaram convictos. Compreende-se o nervosismo mas não se pode aceitar. A não ser que a letra fosse surpreendente, os arranjos fora de série e a melodia de tal forma um achado que nos compensasse largamente, se não, sempre o desafinado vai ser objecto de desaprovação: é quase irreparável.

Deve ter sido numa máquina de clonagem que o Jorge Palma engendrou a cena com que participou no Festival da Canção. Entrou na máquina e saíu o David com a canção na ponta da língua, uns anos mais jovem porque a engenhoca não estava 100% calibrada. Já no caso do José Cid a máquina funcionou a 100%. Felizmente não entrou na máquina nenhuma mosca ou teria sido pior. Como possuo discos do Palma há décadas, como vi concertos do homem e gosto, lamento, lamento mesmo que tenha repetido a fórmula. Não precisamos de mais um aspirante a Palma. O Festival não é a Chuva de Estrelas onde a Sara Tavares vai fazer de Whitney Houston. Depois vem o José Cid cantar as mesmas palavras que já lhe ouvimos e a outros dezenas de vezes mas em modo Elton John. O homem fez uma lição de história, literatura, geografia, religião, valores, estava tudo lá. Juntou-lhe o som típico das guitarras mas a canção não tem alma: não é fado mas é enfado. Mas note-se: não desafinou, pois não? Pontos para ele.

A Anabela. A Anabela foi representar-nos no EuroFestival há uns anos e lindamente, era uma miudita, lembram-se? Hoje é uma linda mulher que enche o palco com a sua graça e segurança: algumas das outras concorrentes deviam meter os olhos nela e treinar para chegar lá. A canção é algo banal, datada, embora tipicamente festivaleira, Tordo sabia o que fazia, sobretudo ao escolher a Anabela.

A Beatriz Pessoa devia estar sentada a dedilhar a guitarra e dar a vez à Malu. Esta canção, Eu te amo, esteve apurada e depois foi desapurada: a RTP meteu os pés pelas mãos, la La La, andou a brincar aos Oscars. Não se perdeu nada. A cada vez que ela canta Eu te amo sinto o meu coração perfurar-se de tão aguda. A doçura do sotaque brasileiro talvez tivesse feito a diferença.

A Maria Amaral tem carreira no coro dos desafinados. Uma voz bonita não chega. Por isso é história. Já Rita Dias tem carreira no teatro de revista onde brilhará certamente com um quadro sobre o Festival da Canção.

A Catarina é meio boneca Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, boneca que dança dentro de uma daquelas encantadoras caixas de música que todos fascinam. Muito entusiasmo com esta bonequinha de tule e pompons. E, claro, já dizem que é um hino lésbico. Boa voz mas muita insegurança, interpretação genuina, talvez esteja mais próxima do Salvador do que Janeiro. Excelente componente instrumental. Embora não morra de amores por esta canção percebo porque agrada e aconselho uma espreitadela ao disco da Catarina Emmy Curl.

A Catarina Espadinha apresenta uma sonoridade que associo a festivais mas seja lá porque for não a consigo ouvir nem perceber metade do que diz, o que dificulta muito ter opinião sobre Zero a zero.Também precisa de pedir umas lições à Anabela quanto a postura em palco.

O Tiago, um totó do hemisfério norte, segundo o mesmo, cantou a Australia, o tal país não Europeu que costuma concorrer ao Festival da Euro Visão, e muitos estranharam pois, por regra, todos escrevem letras à Cid a cantar as nossas riquezas, não os koalas dos outros. A letra era supostamente criativa mas eu só sinto vontade de rir quando a ouço, dá-me vontade de me boomerangar para longe.

O Janeiro, de fita na cabeça como o Karaté Kid, tão criativo mas tão criativo que nem conseguiu criar um título para dar à sua canção. O Salvador não podia voltar pois se voltasse, ganhavamos o certame  de novo e era um caraças para a RTP ter de realizar mais um EuroFestival: é que a taxa que a gente paga na factura da luz não chega nem para pagar aos voluntários que eles estão a recrutar no lugar de trabalhadores para poupar uns cobres. Então o Salvador mandou o Janeiro. O Janeiro ficou facilmente apurado, não desafinou, isso vale muitos pontos mesmo, acreditem, mas vai ser sempre lembrado por ter comido uma banana. Não é uma má canção mas também me causa um certo fastio. Notem que eu não delirei com a canção do Salvador, embora não a achasse má, e vi com supresa - e curti – a vitória na Eurovisão. A canção so Salvador está a galáxias de distância da coisa sem nome. Não sei não, mas existe um provérbio que diz: Banana em Janeiro, melão o ano inteiro. Aguardemos.

Não sei se me estou a esquecer de dizer mal de alguém. Mas é isso. De que canções gostei eu? Gostei muito da canção do J.P. Simões que nos diz que é preciso cantar, ora, é isso, sem tirar nem pôr: cantar sem desafinar. À semelhança do Palma, também lhe conheço os discos e os concertos, não creio que seja este o seu território, mas atrevam-se a dizer que desafinou. Excelente interpretação para uma canção quase cinematográfica, com um toque de Chico Buarque- de quem JP sempre transpira um bocadinho- e um alvoroço psicadélico para encerrar. Por mim isto fazia a festa em qualquer praça mas não caíu nos gostos baladeiros em que agora nos encontramos. Ah, por isso é que não disseste que ele foi à máquina, bem notam vocês. Só que o J.P. foi à máquina. Foi e foi tal o curto-circuito que ele voltou a sair pela mesma porta por onde tinha entrado. Gostei do Peu, fado mas não muito, sem enfado, mesmo com alguma insegurança na voz a canção convence, e da Joana Barra Vaz, segura e expressiva na sua interpretação, com uma canção que me fez lembrar o som dos Madredeus, aqui e ali. Letra escorreita, olhem que começa a ser difícil escrever algo que não seja pateto-cómico. Ela tem um CD editado que merece alguma atenção: mas quem sou eu para dar bitaites se nem o Hino Nacional sei de cor? Ambos precisam de repensar a fatiota. Quem cuidou da Joana queria talvez estragar-lhe os planos. Camisola amarela é na Volta à França e é com calção, não com saia-calça e bota à mosqueteiro.

Esqueci-me de dizer mal de alguém? Felizmente há mais Festival dentro de algumas semanas pois não acredito que a vencedora possa sair da seleção que passou à 2ª eliminatória. Não sei é se o público se vai sentir motivado para ver mais com esta primeira amostra ou se vai ficar indiferente. Eu própria ainda não sei.

20/02/18

As natas do MC Somsen

No fim-de-semana vi uma postagem do MC Somsen onde ele partilhava que uma Ana se tinha apropriado de umas suas fotos com pastéis de nata dando a entender que as tinha fotografado, colocado a legenda divertida e eventualmente comido as natas, na Praia Grande. Ora, talvez o MC não tivesse o botão de partilha de postagens activo. Mas a Ana, se mais educada, podia ter pedido emprestado ao MC aquele momento saboroso:” Ó MC, posso servir-me das tuas natas para acrescentar alguma doçura à minha vida virtual que é tão amarga e deslambida?” Tenho a certeza que o MC teria condescendido. Mas não. Como era obviamente uma questão de vida ou de morte, a Ana nem lhe ocorreu pedir. O tempo urgia. Aos primeiros suores, tremores e quebra de forças, a Ana gamou as natas para assim evitar a quebra de tensão. Ou, mais apropriadamente, a quebra de atenção. Ninguém gosta de perder a atenção dos outros por muito tempo, aqui, no Facebook. Além disso, pedir dá o seu trabalho, demora. Gamar é o melhor remédio. Mesmo assim, a Ana podia, depois de passada a crise do açucar, ter dado créditos ao MC. Mas não. O que é lá isso de dar créditos? Indicar a fonte? Respeitar o que é dos outros? Ser, no mínimo, gentil? Só os totós ligam a isso, os totós e o tonto do Zuckas que num tom quase bíblico incluíu nos TOS do Facebook um mandamento a propósito dos aborrecidos direitos: “Não publicarás conteúdo ou tomarás qualquer acção que infrinja ou viole os direitos de outra pessoa”, evidentemente, palavras que são puro chinês para as Anas.

Este desabafo do MC Somsen vem somar-se a mais alguns que já tinha lido. Diversas pessoas abordaram o tema do gamanço no Facebook e não creio que seja por não terem melhor assunto. Concluí que o fenómeno do gamanço é percepcionado e impacta os cibernautas de forma diferente. A Mariana, por exemplo, considera que gamar cenas no Facebook é muito diferente de gamar laranjas no quintal porque o Facebook é um território onde é tudo público, tal como a internet em geral. Os gamados são uns queixinhas insuportáveis que não entendem esta evidência e que só complicam. A Mariana, que defende com unhas e dentes cada laranja das laranjeiras do seu quintal, até mesmo dos passarinhos, diz à boca cheia e sem remorsos que o Facebook é terra de ninguém, território virtual que escapa às leis do real, não muito diferente de um Farmville. Todavia sabemos que a Mariana gosta de respeitinho e quando se partilha coisas da sua lavra, embora seja raro dar-se ao trabalho de ser original, há que dar créditos ou choverão no mínimo rubros emoticons zangados.

Já o Nicolau dá tudo o que publica de mão beijada e espera que os outros o façam também. Entende que o Facebook é de todos nós, uma espécie de comunidade avançada onde o conceito de autoria foi abolido, onde quem se arrogar direitos sobre um seu texto ou fotografia deve ser visto como um opressor merecedor de reprovação virtual, um excêntrico até. O Nicolau, se tivesse um quintal com laranjeiras, ofereceria com vaidade todas as suas laranjas à aldeia global e esperaria que os outros retribuissem na mesma laranja. Mas ele não tem um quintal, tem apenas a horta no Facebook onde lavra diariamente a sua poesia. Imaginando que os seus poemas fossem laranjas, quando o Nicolau é roubado diz que fica feliz: é porque eram laranjas excelentes, de outra forma ninguém olharia para elas duas vezes. Sente-se assim valorizado. O Nicolau exultaria até se alguém fizesse doce com elas, mesmo às escondidas e sem sequer partilhar consigo a bela receita da marmalade, tudo em nome da grande irmandade que é o Facebook e que ele está grato por integrar. Mas sabemos que o Nicolau, experiente professor do liceu, perde a cabeça quando os alunos usam palavras, ideias e trabalho de outros alunos, que eles vão buscar ao Slideshare, dando a impressão de que são seus.

Já o António é uma criatura muito excrupulosa com o-seu-a-seu-dono, um purista que sempre enjeitou a cassete pirata e a fotocópia, e que nunca foi capaz de ver um filme em streaming. António teme como poucos o gamanço digital, quase tanto quanto a laranja do Algarve teme a psila africana ou o vírus da Tristeza. Inclui sempre a frase “Todos os direitos reservados” no rodapé das suas croniquetas, aliás, começa a escrever os seus textos por aí, não vá esquecer-se. Também é exímio a semear o símbolo de copyright, ©, nas suas fotografias de viagem, algumas premiadas. E já esteve mais longe de o inserir nos comentários agridoces que deixa a quem informa da prevaricação. Imagino que para ele o Facebook seja uma extensão virtual do território dos Estados Unidos (ou países anglo-saxónicos), onde se usa a protecção do direito de cópia ou reprodução da obra. Um dia leu que por cá somos herdeiros do sistema de direitos autorais francês, mais voltado para o autor e suas prerrogativas, menos para a exploração económica da obra, o investimento, e que está por ele protegido, mas nem assim. Desconfiado, da vez seguinte que publicou uma fotografia, voltou a inserir o circunspecto ©.

Em suma: não é invulgar que os Antónios escupulosos andem envolvidos em conflitos com Marianas convencidas que se lhe atravessam no feed virtual e que não respeitam o seu ©, copiando/cropando as suas fotografias e alterando os seus textos com grande descontração. Ou que desprezem os Nicolaus poetas em absoluto pela sua santa ingenuidade acerca de direitos e distorcido sentido de generosidade. Tão pouco que Marianas façam gato-sapato dos Nicolaus, esses mãos largas, sempre agradadas do seu conveniente carácter bonacheirão, e acusem constantemente os insuportáveis Antónios de serem gajos cheios de mania com quem não se pode conversar sem a presença de um advogado. Os complacentes Nicolaus vão facilmente na cantiga das Marianas e não conseguem ter muita empatia pelos agarradões dos Antónios, não conseguindo entender porque é que mais uma fotografia de um banal pôr do sol há-de ter um “c” circunscrito e ser motivo para tanta comoção. Porque o apelo da comunidade é neles muito forte, não é raro que façam coro com as Marianas: uma laranja no Facebook não é bem uma laranja, não vale a pena amargar amizades virtuais por causa disso. E ainda temos as Anas a que me referi no início e que são a maioria silenciosa. As Anas seguem literalmente o slogan Just do it, da Nike. Estão para além de todas as convenções, mesmo a de Berna ou a de Genebra. Para as Anas isto que escrevi é tudo chinês e usar o Google Translator estaria totalmente fora de questão.

Se leram até aqui, obrigada. Informo que este texto tem direitos reservadíssimos.

15/02/18

Uma canção gira: o papa-capim


Ele deu um pulinho tava bem nervosinho o papa-capim
Preso numa gaiola de uma escola, que vida ruim, tadim…
O menino olhou, quando viu perguntou: "o que é isso aqui?" 
É muita crueldade tirar a liberdade de um bichinho assim, é o fim. 

Passarinho, se tem asa então é pra voar 
A gaiola nunca foi seu ninho, é na natureza o seu lar 
Vai bichinho, quem se diz dono do teu cantar 
Ignora que Deus te criou, e te deu o céu pra viajar

09/02/18

Brincar com a religião é feio

Lembrei-me ontem do reverendo Markus, um alemão que derretia bonequinhos Playmobil para os usar em educativas cenas bíblicas. Imagino que o Patriarca de Lisboa não seria capaz de qualquer clemência para com ele se o visse de vela na mão, ou secador de cabelo, a derreter o plástico para poder esticar os bracinhos de poliuretano e crucificar o boneco na cruz. De Clemente pode dizer-se pelo que se vai lendo e ouvindo que é mais papista que o papa. Cabe dizer que o então Papa Bento XVI até enviou um elogio ao reverendo artista pela didática divulgação das escrituras junto das crianças e adultos mais brincalhões. Não sei se chega para podermos dizer que o Papa era danado para a brincadeira.

Quem efectivamente não achou piada à ideia foi o fabricante dos bonecos: a Playmobil não mais largou o Padre ameaçando-o com a ira da justiça terrena, caso não seguisse as suas indicações, forçando-o ao arrependimento. O problema para a Playmobile era a mutilação dos bonecos não o seu uso educacional propriamente dito pois até vende Noés com as suas Arcas e Meninos Jesus na manjedoura. Não se podia era mutilar Playmobiles, invocava, um mau exemplo para as crianças. Cogito eu que não tardariam em queimar as figuras na fogueira ao jeito da Inquisição, sabe-se lá onde a sua imaginação febril as levaria, com risco para si mesmas. O site de Markus - a que ele deu o nome de Playmo-bible - já não existe mas uma ou outra fotografia ainda circula pela internet, como aquela de Adão e Eva, que publico. 

Brincar com a religião é melindroso, digo eu, quase tanto como deixar entrar gays para o sacerdócio, diz Clemente, mesmo quando se defende a pés juntos e sem clemência o celibato sacerdotal. E esta semana também foi notícia o jovem Cristian, quanta ironia cabe no seu nome, um espanhol de 24 anos que usou uma imagem do Cristo de Burgos, manipulando-a, trocando a cara de Cristo pela sua. Há uns anitos já, e se bem se lembram, a espanhola Cecília Giménez restaurou com grande pinta um Cristo. Deus trabalha de formas misteriosas porque de vergonha nacional Cecília passou a famosa de Aragão e este jovem que subiu a sua arte degenerada no Instagram foi julgado por vergonhosa manipulação. A melindrada Irmandade local sentir-se-ia todavia aplacada na sua ofensa se ele além de remover a manipulação de pixeis do Instagram desembolsasse pouco mais que 2000 euros, depois reduzidos a 480, pois o jovem Cristian bateu em contrição no peito, perante a barra. Não sei se deixou o tribunal a rezar 100 Pai-nossos para purificar o corpo, a mente, os sentidos, o coração e o espírito.

 Pergunto-me se será possível alguma vez que a religião deixe de atormentar a vida das pessoas: dos "recasados", dos artistas, dos livres de espírito. A veneração de imagens é, para mim, uma caricatura da religião e curvar-me perante elas uma servidão vazia que me transportaria ao tempo do paganismo. E este sentir-se melindrado - a confraria referiu o muito desprezo e escárnio que sofreu pela manipulação digital do jovem - para vir depois exigir ressarcimento monetário como se o dinheiro lavasse o pecado, isto para mim é de bradar aos céus, mas lembro que Cecília apenas foi absolvida a partir do momento em que conseguiu colocar o burgo esquecido no mapa, quadruplicando o número de turistas como que por milagre. Mas, lá está, tudo isto sou eu que digo, fruto certamente do meu redutor sentir ateu, graças a deus.

08/02/18

Fevereiro. O amor está no ar...



Fevereiro. O amor está no ar, os vírus da gripe estão no ar. Um mês irrespirável para muitos. Até agora tenho conseguido escapar incólume, um espirro ou outro, um pingo no nariz, quase na sopa, nada de muito preocupante. Mas hoje, ainda não tinham batido as 9, andava eu às compras junto do balcão dos frios do Intermarché quando vi este homem. Em nada me era familiar, apenas um homem com os olhos e a boca no sítio do costume, nariz centrado, a cabeça entre as orelhas, o cabelo penteado. Nem alto nem baixo, vestia moderno e discreto para o frio da manhã. Quando passei por ele cheirava a banho madrugador. Segurava uma embalagem e espreitando pelo canto do olho vi que continha suculentos peitos de frango Lusiaves, os mesmos que uso para fazer galinha com amêndoas. Caminhamos já a passos largos para o meio-dia e o homem dos peitos de frango não me sai da cabeça. Pelo que acho justo perguntar: será amor ou mera atracção pelo desconhecido? Ainda há pouco notei uma certa inquietação no peito quando chegou uma notificação e abri, meio azamboada, a pensar que talvez fosse o Cupido. Não era. Apenas uma publicidade a chocolates, Compre agora e deixe os portes por conta de São Valentine. Esmoreço. Heróis do mar, nobre povão desta nação valentina. Se nem a língua escapa à contaminação neste mês de Fevereiro, como escaparei eu à gripe das aves?

07/02/18

Heavy Metal e Tesla: isto anda tudo ligado




Para os mais amigos das coisas da BD. "Soft Landing" : um Corvette lançado pelo Space Shuttle aterra suavemente nas páginas da revista Heavy Metal pela mão do artista Thomas Warkentin. Ver aqui animação dessas imagens no filme Heavy Metal: Matéria obviamente trazida à tona da memória pelas imagens de ontem.

O Tesla Roadster vermelho-cereja e Starman, nome do manequim sentado no lugar do condutor, serviram como simulador de carga neste vôo de teste.  Não se trata apenas de uma "manobra de diversão" que nos faz sorrir. Musk referiu que estes testes eram aborrecidos e esta ideia serve para aproximar a tecnologia das pessoas e fazê-las sentir algo. O manequim tem nome de canção de David Bowie, Starman, no momento do lançamento a canção a bordo do Falcon Heavy era “Space Oddity”, também de David Bowie. Há ainda uma referência a The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy,  uma ideia de Douglas Adams, título do original dicionário que possui definições e opiniões sobre todo o universo usado, série de Tv, livro e filme, um fenómeno de popularidade, leiam aqui as divertidas Lições, incluindo o Don't panic.

Quando comecei a ver as imagens transmitidas do Tesla lembrei-me destas pranchas de BD e do filme Heavy Metal. Não é bem a mesma coisa mas lá temos um engenho espacial, um carro e um astronauta. Como canta o Sérgio Godinho: isto anda tudo ligado.


Spacex de Elon Musk lança foguetão com êxito


O Tesla dos nossos dias tem sentido de humor.
Mas além da língua inglesa devia ter usado também esta:
"ChenmoH mu'meyvam pong Human".





Elon Musk lança o maior foguete em meio século e pousa seus primeiros dois foguetões na Terra, em segurança: os dois propulsores laterais do Falcon Heavy, primeiro veículo criado pela iniciativa privada a sair da órbita do planeta, soltaram-se do corpo principal e pousaram em Cabo Canaveral, na Flórida. As imagens são emocionantes em especial ao minuto 37, quando os foguetões aterram. O objetivo desta missão da Spacex era colocar um carro eléctrico descapotável na órbita do Sol, usando o foguete Falcon Heavy, e tudo isso ao som de Life on Mars, de David Bowie. A missão cumpriu-se -resumo das imagens aqui - dando alento à história espacial e ao sonho de um futuro viável para a Humanidade no espaço.

02/02/18

Na ressaca do Aniversário

Obrigada por me terem enviado tantas mensagens maravilhosas desde a meia-noite! Aproveito para esclarecer que só nasci por volta das quatro e tantas da tarde. Não foi no verão do amor mas usei muitas flores na cabeça. Esse foi o ano que viu nascer o sucesso de Dustin Hoffman enquanto um jovem seduzido pela Sra. Robinson. Infelizmente a arte da sedução acabaria por ditar a morte do artista, em vida e nos nossos dias, como sedutor/assediador. É isso, o mundo é um lugar estranho. Mas alguém escreveu: "Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança".

A música era boa nesse tempo do amor. O video ainda não tinha morto as estrelas da radio e nasceram para a música grandes artistas. Foi quando David Bowie lançou David Bowie, o camaleão que haveria de me seduzir irremediavelmente na adolescência; também Jimi Hendrix, Velvet Underground, Doors, Pink Floyd lançaram álbuns de estreia neste hiato temporal. E a Aretha Franklin pediu respeito: "r-e-s-p-e-c-t: find out what it means to me." Em Portugal seria decerto o Cinema Novo que estava a despontar. E eu teria gostado mas era cedo: ainda teria de crescer com os Meninos Rabinos e o Serapico. O que andavam a ler os crescidos em Portugal não sei. Mas Guy deu à luz a sua Sociedade do Espectáculo e ainda hoje todos vivemos para a representação, todos somos artistas, é a vitória da irrealidade real, da mediação da imagem.

E coisas há também neste lugar estranho que podiam mudar. Só que não mudam: chegou o carteiro, das nove p'ras dez. A vizinha do lado, de roupão enfiado, chegou-se à janela em bicos de pés e logo gritou: "Traz carta p'ra mim?" Não, não era nem carta para ela nem pacote para a criada. Eram um pacote e um cartão de parabéns para mim. Com os CTT caídos em desgraça por razões absurdas, a competir ingloriamente contra a eficácia das SMS e frenéticos emails, o que pensar de quem ainda inventa tempo no seu tempo para escolher presentes e desenhar caligrafias, selar e enviar correspondência, desafiando a lógica para nos dar prazer? Que são seres raros, claro. Por uma vez também gostava que as empresas fossem raras e me enviassem emails com cupões e vales de desconto sem asterisco. "No seu dia especial aqui vão 10 euros com asterisco para, 5 euros com asterisco para..."Nem no meu dia especial as fulanas do marketing me pouparam à tirania do asterisco e ao malabarismo das letras miudinhas. Isso é bom para olhos jovens, não para vistas cansadas. Podem meter os asteriscos no olho cego.

Amigos e amigas, de todos os géneros, cores e feitios, nacionalidades, crenças, birras, vegetarianos e crudivoristas, carnívoros e outros: agradecidos ficaram assim os vossos mimos enquanto estava ainda na posse plena dos sentidos já que depois do meio-dia passei o resto do meu dia especial a drogar-me com géneros açucarados e a regar cada fatia de perdição com um bom vintage. Não garantia estar à altura da vossa dedicação e carinho lá mais para o fim da festa!