1/29/12

Sobre a petição contra Katinka Simonse (Tinkebell)


Ontem recebi e assinei uma petição sobre uma tal Katinka Simonse mais conhecida por Tinkebell. Ela vive em Amsterdão e na petição surge como alguém que mata animais em nome da arte, lia-se que passou pintainhos por máquinas de retalhar. Diz também na petição que ela matou o próprio gato e o transformou em bolsa e que fez hamsters rolar em bolas de plástico no chão de uma galeria.

Eu assinei sem investigar nada do que ali era dito. Estas petições cada vez mais se vulgarizam e o que vai acontecer é que daqui a pouco ninguém vai assinar nenhuma se, quem as redige, não der factos e provas inatacáveis do que defende. Isto de contar um conto e acrescentar (ou omitir) um ponto, não serve este propósito. Da próxima vez investigo antes de assinar. Cheguei a escrever no Facebook que a Tinkebell é doida e que devia estar internada ou presa. Talvez as coisas não sejam tão preto no branco como isso. Leiam o que descobri e reflitam comigo para tentar compreender um pouco do que ela faz, por muito chocante que possa ser.
Nota: todos os links para o site estavam activos quando fiz esta postagem. Neste momento o site está em baixo.
Descobri que os pintainhos afinal não foram mortos. Na exposição SAVE THE MALES ela foi a um aviário buscar 60 pintos machos com um dia de vida e dizia aos visitantes que se não os comprassem ela os passaria pela máquina pois era isso que ia suceder no aviário, isso ou serem gaseados. Ninguém levou os animais e a organização acabou por comprá-los para evitar o triste desfecho. Esta é a realidade da indústria mas é uma verdade que se quer escondida do público, facto para o qual Katinka quis chamar a nossa atenção. E também meteu, de facto, os 100 hamsters em bolas de plástico na exposição SAVE THE PETS (2008) para criticar o facto das pessoas os meterem em bolas destas,
-para que não estraguem nem fios eléctricos nem mobiliário,- made in China, que permitem aos animais serem libertados das gaiolas e percorrerem a casa numa falsa ilusão de liberdade. Os animais foram confiscados por uma autoridade holandesa e a exposição terminou mais cedo. Quanto ao gato, sim, ela matou o gato e fez a bolsa , ele ia ser eutanaziado por estar muito doente. Há relatos que indicam que ela torceu o pescoço ao animal. Nem consigo perceber como foi capaz de matar o animal quanto mais tê-lo feito com as suas próprias mãos. Acho que este facto é o que me choca mais e não tanto que tenha feito a bolsa com a pele do felino. Recebeu tanto hate mail por causa da morte do seu gato que publicou um livro em 2008 - Dearest Tinkebell - com 1000 emails dos 10.000 recebidos. Ela empenhou-se em linkar esses emails a toda a informação que encontrou na internet sobre essas pessoas – perfis do Facebook e Linkdin, videos, etc, e em resultado, mais ira. Um miúdo escreveu: Vou bater-te até que não te possas mexer, depois vou abrir-te ao meio, cortar-te a mão e meter-te o telemóvel num sítio onde não conseguirás chegar-lhe. Não encontrei provas de que tivesse morto mais animais embora este já seja suficiente para ficar chocada. Quando fui ao site da Tinkebell também vi a exposição dela ALMOST 18 sobre os sites de pornografia juvenil que vendem roupa interior usada. Com ela Tinkebell quer chamar a atenção sobre as restrições à liberdade sexual impostas pela sociedade e por outro a imensa e consentida popularidade destes sites. Outra intervenção, HER NAME IS MARILYN, uma mulher vestida de rosa arrasta pela rua um cão morto e vestido igualmente de rosa. ( Não sei se o cão está morto ou se foi mumificado.) Com isto ela nos quer dizer que o valor que muitas pessoas atribuem aos animais de estimação é a de um mero acessório à sua imagem, ignorando as suas reais necessidades, tratando-o como um objeto. Outro projeto cuja ideia é alertar para a criação de animais à medida dos desejos dos seus donos, evoluindo de amigo do homem para objeto de consumo, o SAM, também critica que os animais sejam transformados em meros acessórios. O cão foi tratado por taxidermia e possui uma caixa de música, que se liga quando se puxa pelo corpo do mesmo. E há ainda POPPLE, uma bolsa reversível feita com uma pele de cão e de gato. LASSIE, ou o cão feito em blocos, que permite a reinvenção por parte do dono, sendo transformado noutro cão. 
Não é a primeira vez que  “artistas” matam animais em nome da arte. O que fazer face ao princípio da liberdade de expressão? A Declaração Universal dos Direitos dos Animais considera que todo o animal tem direitos. Nenhum animal será submetido a maus tratos nem a actos cruéis. Se a morte de um animal é necessária, esta deve ser instantânea, indolor e não geradora de angústia. Diz que nenhum animal deve ser explorado para entretenimento do homem. Uma morte de um animal sem necessidade é um crime contra a vida. Acrescenta ainda que um animal morto deve ser tratado com respeito e que as cenas de violência nas quais os animais são vítimas, devem ser proibidas no cinema e na televisão, salvo se essas cenas têm como fim mostrar os atentados contra os direitos do animal.

Perante estes artistas sobretudo importa também questionar se estas práticas, independentemente da crueldade inerente ou não, são realmente arte. E se são arte, serão arte em que forma? Estarão estes artistas a mostrar-nos o que não enxergamos por termos sido manipulados pela cultura e pela norma social? Serão estes artistas os guardiões últimos da nossa consciência adormecida? O que é que estes artistas querem que façamos enquanto consumidores da sua arte? Já agora, o que pensar de arte animal elaborada pelos próprios animais? Não andarão afinal os artistas a brincar connosco?!!

Tinkebell não está só. Eis alguns exemplos de exposições de arte que se servem dos animais e que provocaram a opinião pública, despoletando iras e discussões.

  • Adel Abdessened - “Don’t Trust Me” no Instituto de Arte de São Francisco, 2008 
O artista francês mostrou seis videos onde se via cabras, porcos, carneiros, bois e um cavalo presos a um muro e a serem alvo de golpes de martelo até à morte. Na exposição o artista não explicava se aquilo tinha sido encenado para o filme ou se documentava uma prática. Face à crítica, o Instituto explicou que os videos tinham sido filmados no México e que o artista queria mostrar como era diferente a forma de abater os animais nos países pobres e desenvolvidos!Um pouco inconcebível para um reputado instituto não questionar o artista ANTES da exposição ser montada nem fornecer esses dados.
  • Damien Hirst também nos presenteia com a sua dose de arte à base de animais mortos. 
As carcaças dos animais são preservadas em formol dentro de tanques de vidro. Este artista britânico fez um leilão na Sotheby’s em 2008 e arrecadou um dinheirão. Estas obras são consideradas mais interessantes - tubarões e carneiros a flutuar em formol, uma vaca e vitelo cortados ao meio, a obra do tubarão dá pelo nome de The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living – do que as pinturas. O tubarão já teve de ser substituido pois deteriorou-se. Então ele pagou a alguém para capturar um outro e mataram-no para o efeito. Muito linda, esta arte do Damien. Por mim, passo. Mas em relação aos tubarões pescados para remoção de barbatanas para fazer sopa de barbatana de tubarão já ninguém se chateia.
Esta russa mata gatos, ratos, e coelhos para fazer as suas naturezas mortas, combinando-os com objectos. Depois tira fotografias. Uma flor com um olho de coelho no centro, uma jarra com cabeça de gato, cinco carapuças para dedos feitas com ratos brancos. Na Suécia exigem-lhe que esteja um veterinário perto para que os animais não sofram quando são mortos. Olho para essas fotografias e não vejo nada de especial, nada que não se conseguisse fazer com o Photoshop! O trabalho dela que não envolve animais é bem melhor  e mais pacífico.
Pratica a arte da taxidermia, usa exclusivamente animais atropelados. Ela mantém um arquivo sobre cada animal, onde foi encontrado, o antes e depois. Assina um certificado da fotografia com o seu próprio sangue. Também fotografa pessoas com necessidades especiais nas suas casas.
Fizeram uma exposição de tapetes com cães e gatos para questionar o papel que estes animais adquiriram na sociedade - são tratados como coisas e muitas vezes as pessoas desenvolvem com eles laços mais fortes do que com a família. Alguns animais selvagens vêm sendo usados desde sempre como carpetes, sendo exibidos como troféus. Na América do Sul os cães vadios são inúmeros e à noite inundam as ruas para comer no lixo, por contraste com a crescente cultura do animal de estimação na América do Norte. Em La Paz, Bolívia, os cães são apanhados da rua, aos 100 por semana, e executados metodicamente a cada sexta-feira, por uma empresa municipal...
Um caso à parte, mas que me ocorreu enquanto fazia esta pesquisa. A natureza-morta aparece em grande número de obras de Witkin. Só que usa corpos humanos sem vida muito bem encenados e depois trata as fotografias.

Depois desta pesquisa fácil e breve na internet – estou certa de que existem mais casos - , Tinkebell, já não parece tão vaga nos seus propósitos, em especial se comparada, por exemplo, com Nathalia Edenmont e as suas peças eminentemente decorativas. Continuo chocada com a morte do gato de estimação e a sua transformação em bolsa! Mas neste momento tenho mais algumas questões do que quando recebi a petição:

- Tinkebell matou o gato e fez a mala. Mas se usamos malas, porta-moedas, luvas, casacos e sapatos de pele, alguém teve de matar esses animais.
Porque é que os activistas não obtêm tanto sucesso com as suas ações contra as empresas que usam peles quanto Katinka obteve? Pensemos por exemplo numa linda raposa capturada para ser transformada numa mala. Quantas pessoas se manifestariam contra? Poucas, certamente. 
Ter uma mala de pele de cobra é uma frivolidade num tempo em que os produtos sintéticos evoluíram de tal forma que há imitações de tudo para todos os gostos. Quando vemos alguém com uma mala de pele de cobra imaginamos uma pessoa bem na vida e com status, não pensamos que está a colaborar na morte de animais para obtenção da sua pele. Porquê? O existência de um comprador para a mala é a razão porque se matam os animais. Não devíamos censurá-lo?
- Se eu uso peles de animais, se como carne de animais criados em massa e sem condições, se tenho o meu cão fechado na varanda todo o dia,  terei o direito de criticar Tinkebell? 
- Porque é o direito de matar de uma empresa – que depois vende as peles - mais legítimo do que o direito de um artista matar para fazer um objeto de arte?
- Será que matar animais como forma de arte é apenas uma forma de alcançar a fama fácil através do choque? 

- Como pode Katinka matar o seu animal de estimação e defender que o que fez não foi cruel? Desde quando é que estrangulamento não é crueldade? 
- Será que ser artista é ter automaticamente um passaporte para testar os limites da ética, da moralidade ou da norma social sem olhar a meios?
- Mostrar um acto de violência contra um animal não é o mesmo que cometer esse acto, mas em certas circunstâncias não será mais chocante ainda?
- O direito à liberdade de expressão protege o direito de todos, daqueles que têm uma visão lata e daqueles que têm uma visão estrita sobre um mesmo assunto. Como encontrar um meio termo?
- Porque é que aceitamos cabeças de veado na parede e nos indignamos com um cão empalhado em cubos? No primeiro caso o animal morto é visto como um troféu, uma conquista de caça, uma manifestação de superioridade do homem; no segundo caso a mensagem que a artista quer passar é a de que temos de reconsiderar a forma como estamos a tratar os animais em vida.
- Apoiamos a arte quando nos servimos dela para capturar a beleza, quando nos faz ganhar dinheiro, quando está alinhada com as nossas convições estéticas e morais mas depois queremos bani-la quando nos mostra, afinal, uma outra face da mesma moeda, que não queremos ver  por questões culturais, de conveniência económica, social ou outras?!
- Porque é que assinamos tão facilmente uma petição contra Katinka e não ajudamos um canil ou um gatil da nossa cidade com a mesma facilidade?
- Será que a discussão que Katinka promove em torno dos direitos dos animais é mais ou menos eficaz do que a dos activistas de direitos dos animais?

Em suma, arte ou crime? Qual a vossa opinião?


1/25/12

Ajuda para erguer o Refúgio Animal da Fátima

Refúgio da Fátima 
A sua transferência deve ser feita para 
003505970003922390065 CGD


Contactos da Fátima
 919953465 ou fatimapxt@netcabo.pt

Siga este caso detalhadamente no Facebook!

A Fátima necessita de:

Ajuda monetária
Ajuda em espécie ( materiais de construção)
Mão-de-obra
Famílias que adoptem os animais!



Trago ao vosso conhecimento a história do Refúgio da Fátima. A primeira mensagem dela no Facebook data de Outubro. Conseguiu um terreno emprestado e depois era preciso obter ajudas em dinheiro ou espécie para erguer as boxes para os animais. Nessa altura eram 20, agora já são 48! Esta senhora é professora e vive no Porto. Para terem uma ideia da exigência de uma empresa destas,- seriam capazes de se lançar a fazer o mesmo, por muito que gostem de animais? -  leiam o que escreveu num momento de maior desânimo, em Dezembro do ano transato:
Acho que nunca me deveria ter metido a fazer uma coisa destas... não tenho estofo nem vida para tanta coisa!!!! Estou sozinha no terreno e as frentes onde tenho que estar presente, são muitas e tenho falhado em todas...:((((.
Acho que me está a faltar a força para encarar a realidade e os compromissos do dia a dia...
Agora não vou nem posso desistir, já lá vão quase 4 meses a lutar para que este abrigo seja uma realidade...! Mas, as dificuldades, o cansaço, o desânimo pela sensação de falhanço total em todas as vertentes da minha vida e a tristeza/mágoa que isso causa, é tão intensa que, para evitar que tudo caia de vez, passei para o estado de quase avestruz...
Mas as pessoas têm sido solidárias e a ajuda tem chegado, embora a conta-gotas. A Fátima tem o apoio de uma associação de solidariedade humana ("Um Novo Cântico") que tenta recuperar pessoas (toxicodependentes, alcoólicos, sem abrigo...) e presta serviços à comunidade, serviço que não é gratuito mas que até pode ser pago em espécie. Todavia agora o prazo que a Fátima tinha está quase no fim e ela sem poder transferir os cães do lugar onde estão para este!Leiam o novo apelo da Fátima:
Para acabar o abrigo ainda preciso de 1800 a 2 mil euros.O telhado, que é o + caro, fica por cerca de 1500 euros. São 150 m2.

Tenho cerca de 2500 amigos.Se cada um, me, nos (a mim e aos miúdos) ajudasse com 1 só euro, ou com 50 cêntimos que fosse, o problema poderia começar a ser resolvido e o abrigo concluído... mas isso é pedir de + e todos sabemos que isso nunca acontece, não é...??
Se, em alternativa, apenas 300 dos meus amigos/as pudesse ajudar com pelo menos 1/2m2 de telhado cada um = 5 euros, o problema tb estaria resolvido! Com o resto do material, redes e ferro, tentaria com a empresa que me tem fornecido um acordo de pagamento faseado... eles conhecem-me bem e sabem que podem confiar porque eu não falho neste tipo de coisas!

Estou verdadeiramente enrascada e preciso de ajuda!!!
E a questão é: ajudam-me a concluir o abrigo ou ajudam-me a pagar o hotel dos meninos a partir do fim do mês, ou ajudam-me como fat dos miúdos...???Venha o diabo e escolha... não é?!

O que é que me dizem???Aceitam-se sugestões...
 A Fátima tem razão. Se além dos Shares e Likes lhe enviássemos 1 euro o assunto estava resolvido. Infelizmente as pessoas parecem sentir-se envergonhadas por darem tão pouco e ficam quietas em frente ao computador enquanto a Fátima desespera! Se puderem não deixem de contribuir, mesmo com pouco, 1 euro, 2 euros. Conhecem todos o ditado, grão a grão enche a galinha o papo. Se de todo não puderem ajudar dessa forma, façam um link para esta postagem - que não demora nadinha, - ou façam um tweet, ou enviem por email aos vossos amigos. Não fiquem indiferentes. Em tempos difíceis é tudo pior para todos, para nós e para os animais. Eles têm direito à vida, tanto como nós.
A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem, disse Arthur Schopenhauer

1/23/12

O ano do dragão e a SOPA


Na Astrologia Chinesa, o ano de 2012 é regido pelo Dragão de Água. Com início no dia 23 de janeiro de 2012, o ano do Dragão acabará no dia 9 de fevereiro de 2013. Os orientais consideram que este é um ano auspicioso, bom para casar, ter filhos ou começar um negócio novo, porque o bom dragão carrega boa fortuna e felicidade. Todavia, nos erros cometidos, acontece o mesmo efeito, são ampliados. Por isso é bom usar de cautela durante o ano do dragão!

Durante toda a passada semana eu li na internet apelos da parte dos amigos dos animais em relação ao ano novo chinês. Não estavam a apelar contra a eventual extinção do dragão, esse está de boa saúde. O motivo de tanto burburinho são os tubarões. Quem frequenta restaurantes chineses já viu no cardápio, e até já talvez tenha pedido, sopa de barbatana de tubarão. Eu não acredito que essa sopa servida na maioria dos restaurantes chineses de Portugal tenha a tal da barbatana. Para mim aquilo é clara de ovo e pouco mais. Mas a verdadeira sopa de barbatana de tubarão é efectivamente feita com a barbatana do animal. Qual é a atração dos chineses por esta sopa de textura gelatinosa e escorregadia? Dizem eles que o manjar combate o envelhecimento e aumenta a líbido.
Embora em alguns países a carne de tubarão seja consumida, neste caso tal não acontece. Os tubarões são pescados, cortam-lhes as barbatanas a bordo e o corpo é lançado ao mar, morrendo o animal por asfixia ou vítima de predadores. Por esse mundo fora, durante esta semana, os banquetes dos chineses vão obrigatoriamente incluir esta sopa. O Governo de Taiwan e a União Europeia já proibiram a remoção das barbatanas dos tubarões. A mensagem começa a fazer eco nas cabeças dos governantes mas ainda não entrou nas cabeças do povo chinês habituado a tê-la na mesa para celebrar o ano novo chinês. Imaginem se o nosso Governo e a União Europeia nos retirasse o bacalhau da mesa por altura do Natal!! Esse cenário até nem é tão hipotético quanto isso pois também o bacalhau enfrenta a extinção e poderá vir a ser alvo de medidas protecionistas.

Enquanto isso, os tubarões na Austrália andam especialmente activos e já distribuiram umas quantas mordidelas para festejar a entrada do ano novo chinês. Penso que seja a sua forma de protestar contra a sopa
À semelhança dos humanos que a semana passada se manifestaram pela internet fora contra o S.O.P.A. também estes nossos amigos estão contra a SOPA. A Austrália costuma registar 3 ataques por ano, mas em Janeiro esse número já foi atingido. O homem do video, David Pickering,  foi mordido no ombro quando estava no recife de coral com uma família e as crianças a fazer snoorkling. Defendeu-se ao murro, com o braço são! O tubarão deixou-o escapar para que nos pudesse contar a história. Na sua maioria os tubarões não são perigosos para o homem mas o homem, é, sem dúvida, perigoso para os tubarões! E desde logo Steven Spielberg que contribuíu grandemente através do seu filme Jaws para enraizar na cultura popular a ideia de que os tubarões são, por excelência, nossos inimigos. David Pickering parece não partilhar dessa ideia, ele diz que assim que estiver a 100% regressa ao mar, claro. É um valente! Mas, pensando bem, se fosse mordido na rua por um cão vadio, deixaria de sair de casa? 

1/21/12

George Clooney e os descendentes



Quando leio que fulano ou sicrano não suporta George Clooney eu não percebo o porquê de tamanha aversão. Será ele bonito demais? Educado demais? É sexy demais? Activista demais? Inteligente demais? Rico demais?! Expliquem-me pois eu não entendo. Sobretudo expliquem-me porque é que nunca se explicam quando dizem que não suportam o homem! O George fez-vos algum mal?!! Expliquem-me!É assim um actor tão bera?!Que madeixa do cabelo grisalho do Clooney é que vos provoca alergia?! Ou que faceta do estilo de vida do homem é que não vos agrada?! Sabem algo que eu desconheço? É provável...Vá, expliquem-me, sou toda ouvidos, olhos, o que for preciso.
Pois eu digo e escrevo: este ano é o ano de George Clooney. Já ganhou o Globo de Ouro pela sua interpretação em Os descendentes, e é possível que ainda ganhe mais prémios. Eu quero ver este filme embora o prémio por ele recebido não seja a razão principal do meu desejo. Antes de tudo quer ver Os descendentes pois estou curiosa em relação ao  que o  realizador, Alexander Payne, de quem vi Sideways, uma pequena maravilha, possa ter feito. 
A última vez que li algo sobre Clooney tinha a ver com o Sudão. George Clooney e outros activistas tinham colocado um satélite a espiar as actividades do regime do presidente Bashir e assim os grupos de defensores dos direitos humanos obtiveram provas de valas comuns dos massacres de Abyei, no Sudão do Sul, que apontam claramente para genocídio. Ele é conhecido por ajudar imensas organizações de âmbito solidário, por exemplo através do Programa Mundial da Alimentação, das Nações Unidas. Mas esta intervenção foi um pouco mais radical e até provocou a ira e a ironia do presidente. Um lado que me agrada em Clooney é que ele não é muito dado a escândalos - ou então é muito cauteloso! Por muito que as revistas fofoqueiras não o percam de vista, tentando obter provas dos seus romances e conquistas, a verdade é que  cada história desentranhada, bem espremida, quase não dá sumo. A vida privada do "George do Café" - como eu e a minha mãe lhe chamamos desde que ela se converteu ao Nespresso em substituição da bica, por razões práticas e de economia - é mesmo muito privada. Ele que defenda a sua privacidade com unhas e dentes que faz muito bem. A mim isso não me chateia nadinha pois por regra o que os atores fazem ou deixam de fazer fora do ecrã não me interessa mesmo nada. 
Como actor, e com mais de 30 filmes no curriculum, Clooney está muito distante do médico galã interpretado na TV, na série ER, - Serviço de urgência, em português, - que eu nunca vi pois detesto essas intrigas hospitalares. Como realizador já fez o suficiente para provar que merece a nossa atenção, começou com Letterheads, Confessions of a dangerous mind, continuou com o excelente Good night and good luck, um tratado sobre a ética jornalística. O último filme realizado por ele chama-se The ides of March e através da história de um candidato democrata americano mostra-nos como a corrupção corrói a política. Neste momento já tem planos para realizar um novo filme, The Monuments Men, uma história passada na 2ª Guerra Mundial, centrada num grupo de militares dos Estados Unidos, peritos em arte, que recuperam objectos de arte roubados pelos nazis.
Eu nem sempre apreciei o jeito de Clooney mas lentamente fui-me convertendo. Penso que dei por ele pela primeira vez numa comédia romântica, One fine day, em que contracena com a linda Michelle Pfeifer. Ele é um jornalista meio destravado e ela uma arquiteta toda aprumada. Ambos são divorciados, têm cachopos, e as peripécias acontecem ao longo de um dia complicado. Eu fujo a sete pés de comédias românticas, 
mas lembro-me de não me ter custado ver esta...

Depois apanhei-o a correr atrás de ogivas nucleares roubadas, em The PeacemakerEle é O Pacificador, um homem  de muita acção e poucas palavras, porque na vida real as coisas não se fazem como manda o livro, é fazer primeiro e depois explicar. A Nicole Kidman também corre bastante atrás dele e mesmo no finzinho do filme safa a história e as vidas de muita gente nas imediações da ONU desactivando uma bomba numa igreja, pasmem, à martelada! 
Uns anitos depois, ele foi o habilidoso ladrão Jack Folley e ela era a Jennifer Lopez. Comecei a ver o filme algo desconfiada - se tinha a J-Lo não ia prestar para nada- e  enganei-me redondamente. Out of sight, é muito divertido e cheio de estilo, é obra de Steven Soderbergh, tornou-se um dos meus filmes favoritos à época e, se o visse hoje, talvez mantivesse a minha opinião! Em Ocean's 11 eu adorei sobretudo a banda sonora. George Clooney é Danny Ocean num remake de um filme que fez sucesso nos anos 60 e onde entravam Frank Sinatra, Sammy Davis Jr e Dean Martin. O golpe é de mestre, não é dois em um, é três em um - os 11 do Oceano planeiam roubar 3 casinos. É um filme de entretenimento, bem conseguido, mas não mais do que isso, e a estrela que brilha é Andy Garcia.

Com Good night and good luck, Clooney demonstra que não só sabe interpretar como pode realizar um filme sólido.  A fita centra-se no conflito que opôs o jornalista Edward Murrow, da CBS, ao Senador McArthy nos anos 50, tempo da grande perseguição aos  supostos integrantes do Partido Comunista, mesmo sem quaisquer provas, e é um retrato de como deve ser o bom jornalista. Em nome da ética, um bom jornalista arrisca junto de patrocinadores e até da empresa que lhe paga os salários para levar ao público a melhor e mais consistente informação, mesmo vivendo um clima de medo e represálias. Boa noite e boa sorte é a frase com que o pivot do See it now encerra cada um dos seus programas. Rodado a preto e branco, com a presença do jazz na banda sonora, poderia parecer um filme antigo e antiquado, mas nada disso, é tanto mais actual quanto George Bush deu carta verde para perseguir, perseguir, perseguir...e perguntar depois.
Em Syriana, George Clooney conseguiu realmente surpreender-me! Ele recebeu o Óscar pela sua prestação como actor secundário. Já escrevi neste blogue sobre Syriana. Um pouco como a linda Charlyze Theron, em Monster, o George deve ter pensado que se não se deixasse de ares de galã e olhares românticos nunca ia levar estatuetas carecas para casa. Então, neste filme de trama complicada, como Bob, um agente da CIA, George Clooney engordou e ficou pesadão, falha a sua missão e torna-se um bode espiatório. Quanto pior, melhor, ganhou o Oscar. Eu cheguei ao fim do filme sem saber porque se chama Syriana. Mas é muito interessante como amostra das negociatas e tramóias globais que podem existir em torno do petróleo.
Depois vi Micheal Clayton, e o The End interminável com George Clooney a olhar-nos quando se afasta no taxi é um fim perfeito e quase inesquecível para um filme em que Clayton, outrora um profissional respeitável, se encontra num ponto sem retorno, divorciado, desgostoso com a sua atual função - ele usa métodos pouco ortodoxos para apagar histórias embaraçosas de clientes de uma grande firma de advogados. Um caso peculiar vai obrigá-lo a escolher entre a sua consciência e a lealdade à firma onde trabalha. É talvez o filme onde mais gostei de ver Clooney, mesmo sem Oscar debaixo do braço.
E fico por aqui, para não aborrecer muito. Ainda vi mais alguns filmes com o "George do Café", faltam-me ver os mais recentes. Mas já basta. A caixa de comentários fica abaixo.

I rest my case!

1/20/12

Megaupload is dead!

É a notícia do dia. Quem nunca usou o Megaupload que atire a primeira pedra. Fundada em 2005 e com sede em Hong Kong, a Megaupload tem expandido o serviço de armazenamento e partilha de ficheiros online com a criação de sites como o Megavideo, o Megalive, o Megapix, o Megabox e Cum.com, este último dedicado ao armazenamento de pornografia, o Megabackup e o Megamovie. O Megaupload.com permitia aos utilizadores  enviar ficheiros até 200GB na versão gratuita;os registados pagantes gozavam de espaço ilimitado. Os números de acessos impressionam: 82 milhões de visitantes únicos e 440 milhões de visualizações em todo o mundo. O Megaupload é apontado com um dos três maiores sites dedicados à pirataria digital, juntamente com o Megavideo e o RapidShare. Reagindo contra o encerramento, mais de 5600 pessoas desenvolveram um ataque concertado a sites de entidades governamentais norte-americanas e da indústria da música e do cinema que chegou até a bloquear sites do FBI. 

O charme dos navios de cruzeiro


Quando estive na praia da Rocha, bem mar adentro, via passar ao longe os navios de cruzeiro, brancos e brilhantes sob a luz do sol. Há quem possa escarnecer do seu luxo, insurgir-se contra a sua pegada ecológica. Muitos são conquistados pelos números incríveis envolvidos e pela evidente demonstração de tecnologia. Outros pelo que estes navios simbolizam, evasão e luxo. Com a sua aura de sonho, continuarão a navegar na nossa imaginação com um carisma muito singular. Grande entusiasta de viagens, nunca me senti, todavia, atraída pela modalidade “cruzeiros”. Até hoje apenas fiz um pequeno “cruzeiro” no mar do Bósforo, uma brincadeira de todo incomparável com estes cruzeiros de longo curso. Eu e a minha aversão ininteligível pelos barcos, lá subi a bordo, algo contrafeita, teria preferido continuar a calcorrear Istambul. Uma vez a bordo do pequeno catamarã não estrebuchei nem fiz fitas de nenhuma ordem. Mas também nunca deixamos de avistar terra! E é por aí que este fenómeno dos cruzeiros, um negócio em expansão, me intriga.  
Estes navios  da Royal Caribeean são mais do que hotéis flutuantes - e ambulantes. Navios como o Allure of the Seas ou o Oasis of the Seas, têm 16 andares – oferecem num espaço limitado uma variedade de estruturas e diversões que muitas cidades não chegam sequer a possuir. Se me fizesse ao mar eu preferia viajar num pequeno navio onde me fosse dado perceber como é a vida a bordo, um veleiro como nosso Sagres, por exemplo; um navio onde eu não perdesse a noção de que estava no mar. Nestes enormes navios a diferença entre estar no mar ou em terra desapareceu! Para viver uma experiência destas eu talvez preferisse fazê-lo em terra. Penso que poderá ser uma experiência fantástica, tudo depende do que as pessoas já viveram, querem e gostam. Lembro um colega de projeto, açoreano, na sua primeira visita a Lisboa. Um passeio pelas ruas da capital foi uma novidade imensa, dizia ele que os edifícios eram altíssimos e apenas estavamos em pleno Chiado... 
Estes navios têm um jardim chamado Central Park cheio de árvores exóticas provenientes de todo o mundo, uma centena de espécies diferentes de plantas, dir-se-ia uma espécie de arca-de-noé do mundo vegetal! Entre a vegetação ouvem-se as aves a cantar! Um passageiro pode levantar-se pela manhã, tomar um opíparo pequeno-almoço, dar uma volta por entre as árvores e planear um dia de compras, tal e qual como se estivesse em terra, não faltam lojas com as marcas mais populares e souvenires para todas as idades. Mar, nem vê-lo. Depois das compras pode ir matar o bicho num qualquer restaurante, o problema será escolher entre a vintena disponível, e antes disso tomar um drink num dos bares. Durante a tarde, as crianças podem ser deixadas no cinema a ver um filme em 3D enquanto os adultos vão descontraidamente até às piscinas, fazer uma terapia relaxante no spa, participar em dezenas de actividades lúdicas ou desportivas, exercitar-se no centro de fitness, jogar banquete, escalar uma parede, jogar mini-golfe, fazer rappel!Também existem parques infantis em profusão, até com carroceis, o número de crianças a bordo pode facilmente utrapassar as 1500. À hora do jantar, mais experiências gastronómicas diversificadas à escolha, e, para fazer a digestão, que tal assistir a um espectáculo da Brodaway ou qualquer outro, por exemplo de acrobacias aquáticas? O número de artistas a trabalhar nestes navios pode até exceder o da tripulação. Se ainda houver energia depois de toda esta agitação, uma das pistas de dança das várias discotecas aguarda, se não houver energia mas ainda houver dinheiro para gastar, o casino está ali. Lounges diveros permitem também ver o sol descer no oceano num ambiente mais recatado. 
Uma das minhas cismas com estes navios prende-se com a quantidade de pessoas a bordo. Cerca de 6000 passageiros e 2300 tripulantes a entrar a bordo, quanto tempo para fazer o check-in, quanto tempo para sair nos portos abordados ao longo do percurso? Os maiores navios, Oasis of the Seas e Allure of the Seas, garantem que em 15 minutos as pessoas estão lá dentro o que não deixa de ser espantoso. Até para entrar num avião eu levo mais tempo do que isso! Depois, imagino sempre que estes navios sejam como o Algarve em Agosto, uma multidão de gente colorida e linguajares vários, não que isso seja mau, má é a concentração por metro quadrado! Mas se no Algarve eu posso sempre escapar, num navio restar-me-ia recolher à cabine para obter sossego. Parece que esta é a realidade em navios de cruzeiro mais pequenos. Nestes gigantes topo de gama o espaço é suficiente para todos se sentirem bem. E na hora de dormir? Será que se é embalado pelas ondas? Parece que não. Parece que nada mexe dentro do navio, uma estabilidade que, mais uma vez, faz esquecer tudo acerca da vida no mar. Temos de concordar com a menina no spot publicitário, na Royal Caribbean, eles não constroem apenas navios, eles constroem o incrível.
Vem toda esta ladainha a propósito, claro, do recente acidente do Costa Concordia, em Itália, uma perfeita lástima a perda de vidas e  grande prejuízo para a empresa, mais o eventual desastre ecológico que pode sobrevir se não retirarem o combustível a tempo e  um comandante perfeitamente atordoado, que vai ficar para a história como um covarde sem carácter. Ainda assim não me parece que alguém que tenha nos seus planos fazer um cruzeiro vá, perante o sucedido, ficar em terra a ver navios. Eu não ficaria, se estivesse para zarpar...

1/19/12

SOS - A Transtejo e as jangadas de salvamento

A Transtejo está um pouco transtornada das ideias. Quando tudo corre bem é fácil ter boas ideias. Quando a crise aperta então é que chega o tempo de teste. As boas ideias nem sempre são baratas e quando não há dinheiro rapidamente tendem a ser substituídas por más ideias, mais baratas. Mas como todos sabemos, muitas vezes o que é barato pode sair caro e a Transtejo está a arriscar uma dessas saídas. 
Há dias li que os trabalhadores da Transtejo, empresa responsável pelas ligações entre Seixal, Montijo, Almada e Trafaria com a capital, iam fazer greve no dia 2 de Fevereiro. Em causa a redução do número de carreiras, eventual fusão com a Soflusa, prenúncio de despedimentos. Poupar é a nova ordem. Nunca precisei de atravessar o Tejo nestes barcos mas sei o que é depender de um transporte público para tratar da minha vida. Eu não gosto muito de barcos, não sei nadar e a ideia de um naufrágio aflige-me bastante. É algo que até ultrapassa essa minha fragilidade, a ideia de estar sobre a água só por si faz-me bulir os nervos. Não tem explicação 100% racional pois sou capaz de estar no mar com água até ao pescoço sem qualquer transe, aliás, adoro um banhito de mar. 
Ontem li uma notícia que me deixou boquiaberta. A Transtejo está a poupar nos custos e resolveu poupar onde eu penso que nunca se deve poupar - na segurança dos passageiros. Quer substituir as balsas pneumáticas por jangadas rígidas. Quando comecei a ler eu nem sabia que esta modalidade de salvamento existia, os meios de salvamento colectivos que eu conhecia eram ou balsas ou botes, a "modalidade Crusoe" é nova para mim. Uma jangada rígida das maiores, para 20 pessoas, custa 341 euros, uma balsa custa pneumática custa 4000 euros e nela cabem 100 passageiros. Além de serem uma pechincha, estas jangadas rígidas  dispensam inspecções para acautelar se estão em boas condições de funcionamento. A vida humana não tem preço mas não para a Transtejo. A opção de poupar dinheiro destronou a outra, a de poupar vidas humanas.
Eu, que sou muito boa a fazer filmes, imaginei-me logo a bordo de um destes barcos, um cacilheiro, a ver a água a chegar-me aos tornozelos, rodeada de gente aos gritos, gente de todas as idades e crianças também, até um cego e um cão guia. Imaginei umas cenas de pânico bem rápidas, para me poupar a agonia e passar ao que verdadeiramente interessa. Vejamos. O rio Tejo tem um estuário enorme, por alguma razão lhe chamam  Mar (da Palha), nem  todos os nadadores se safariam, eu nem precisava de me preocupar com a distância a que estávamos da margem mais próxima, afundaria que nem prego. Se conseguisse ultrapassar o pânico ou o estado de choque em que entraria, querem estes senhores da Transtejo que eu ficasse sentada em cima de uma jangada,  - se tivesse arte de trepar para cima dela e de me aguentar aí, pois no meio da confusão aquilo deverá ser um puxa-empurra do cara..., toda a gente a ver se consegue um lugar na tábua flutuante - ensopada, com as pernas mergulhadas na água do rio de temperatura baixa no Inverno (10º) e não muito elevada no Verão(17º),  ou mesmo somente agarrada a umas pegas laterais que elas possuem, o corpinho estendido a boiar. Não demoraria muito a entrar em hipotermia e a ir desta para melhor. Depois de perder as forças as correntes arrastariam a minha carcaça para o mar onde serviria de repasto aos peixes. Mas como eu tenho um feitio um pouco azedo, é possível que nem isso, pois até os peixes devem ser bons garfos na hora de comer e não faltará melhor petisco. Et voilá, aí temos mais uma trágica história à la Titanic, mas sem direito sequer a inspirar fitas de cinema, sinónimo apenas que é desta pobreza a que estamos entregues de momento, pobreza em todos os sentidos. 
Mas há mais detalhes de transtorno: esta notícia do Correio da Manhã (de ontem) ainda refere uma tal Convenção Marítima Mundial que possui legislação contra o uso destas jangadas rígidas e que está prestes a ser aprovada. Ou seja, no momento em que o mundo concluiu que elas são ineficazes, a Transtejo resolveu remar contra a maré e abrir  - em Março de 2010 - um concurso para a sua aquisição!Enquanto isso as velhas balsas ficam com a Transtejo por 20 anos, não sei se arrumadas a um canto, se para serem usadas também. Esta negociata não tem pés nem cabeça. E, depois, vamos ao site da Transtejo e lemos a sua Missão: " A Transtejo e a Soflusa prestam um serviço público de transporte fluvial integrado no sistema global da Área Metropolitana de Lisboa, sendo elemento fundamental na travessia do Tejo, subordinado a padrões de elevada qualidade e segurança." São muito bonitos os barcos, cacilheiros, ferries e catamarãs, parecem ser todos muito modernos e bem equipados nesta infografia, daqui, donde eu os vejo, do meu lugar seco e a quilómetros da água. Eu gosto muito de barcos, o pior é quando começam a meter água. Agora pensem lá como é que um barquinho de 290 metros acaba de naufragar bem perto da costa italiana depois de sofrer um pequeno arranhão no casco, o Costa Concordia, um acidente tão improvável que só prova que tudo pode acontecer!  Por isso a aposta na segurança tem de ser levada a sério, não com a ligeireza de ideias em que a Transtejo está navegar, colocando em potencial risco a vida dos passageiros para poupar dinheiro. Porque é que a Transtejo não faz um ensaio com essas jangadas rígidas? Embarquem os responsáveis pela tomada de decisão num cacilheiro e depois mandem-nos ao rio frio num dia de nevoeiro, chuva e águas agitadas. Depois dessa experiência radical talvez regressem às secretárias com uma lucidez mais enxuta.

1/16/12

Um calendário de memórias

No dia 7 de Janeiro foi apresentado na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho o  Calendário 2012 “Memória e Território” e também inaugurada a exposição fotográfica “Montemor a preto e branco”. A iniciativa  - reportagem aqui - contou com a colaboração de montemorenses que cederam fotografias para o efeito. O calendário mostra fotos antigas enquadradas por molduras assentes em papel de parede com motivos florais. Estas fotos que decoraram muitas casas senhoriais em tempos passados, evocam agora memórias da história da vila e das pessoas que a habitaram entre os finais do século XIX e a década de 70 do século XX. Na capa, o castelo reflectido no rio Mondego, dentro, a praça da vila cheia de viaturas e de água das cheias no ano de 1950, uma barcaça em plena travessia do rio, levando dentro pessoas e uma junta de bois atrelada ao carro, cenas de uma procissão, muitas fotografias de grupos das colectividades, demonstrando a rica vivência cultural - dança, música, teatro,  - e desportiva  - a celebridade do ciclismo, Alves Barbosa, o futebol,- de então, e mais fotografias da vila alagada pelo Mondego. A minha mãe também foi convidada a participar  - ela é natural dali - e das fotografias que enviou, esta foi a escolhida. Mostra um carro de bois no largo dos Anjos, a passar em frente a um chafariz, e foi tirada em 1955. 
O que é pena é o horário para visitar a Galeria Municipal ser como é, de segunda a sexta-feira, das 14:00h às 15:00 horas. Gostava que alguém me explicasse quem é que alguém que trabalhe pode visitar esta e outras exposições que ali se façam. Ao menos que mudassem o horário de forma a coincidir com o horário do almoço - melhor ainda, que montassem lá um serviço de café e convidassem o pessoal a ir até lá fazer a digestão. Assim, deixem-me perspectivar os potenciais visitantes da Galeria: estudantes em visita de estudo, turistas bem informados, reformados, desempregados e ociosos. Não é assim que se aproxima a cultura das pessoas, seja ela qual for. Fazer cultura não é só produzi-la, é colocá-la à disposição dos públicos. Se não pensarem assim, mais vale estarem quietos. Em Montemor ou em qualquer lugar. 

São Julião da Figueira da Foz



Vivo na freguesia de São Julião da Figueira da Foz há muitos anos, com interregnos mais ou menos longos de tempos a tempos. S. Julião é sede do concelho da Figueira da Foz e situa-se no distrito de Coimbra. O seu Orago é São Julião, o Hospitaleiro, assim chamado porque ele e a esposa recebiam e hospedavam na sua estalagem pescadores pobres. Sobre este santo pode ler-se no site da freguesia: 
Teria nascido cerca de 250 (segundo uma cronologia indicada pelo Prior José dos Santos Palrinhas, que não menciona a fonte utilizada), em Antióquia, cidade da Síria. Pouco depois de atingir os 18 anos, casou com Basilissa. Segundo a lenda, este casal comprometeu-se a viver em perpétua castidade. Procuraram obter a santificação através da perfeição e de uma vida ascética. Para esse efeito, transformaram a casa em que habitavam num hospício, que tinha capacidade para recolher até mil pobres. Basilissa ocupava-se das pessoas do seu sexo, em instalações separadas, enquanto Julião se encarregava dos homens. Perseguido, foi poupado pelas feras e tendo resistido às chamas, Julião acabou por ser decapitado.
A festa em honra do padroeiro teve lugar a 9 de Janeiro e esta fotografia foi publicada no jornal paroquial O Dever de 5 de Janeiro. Penso que talvez seja de uma estátua do santo que se encontre na Igreja Paroquial de S. Julião. Eu já lá não entro há muito tempo e não tenho a certeza se será assim. Sem querer parecer desrespeitosa, pobre São Julião. À semelhança do que sucedeu ao santo, também esta estátua parece ter sido alvo de decapitação. Será que este corpo e esta cabeça sempre estiveram juntos?! Eu olho para a imagem  e só vejo um homem barbudo e grávido, de seios inchados. Ou, outra hipótese,  uma mulher grávida disfarçada de homem barbudo! Em que estaria o artista escultor a pensar quando fez isto? Será apenas uma ilusão de óptica motivada pela perspectiva?! 


1/8/12

Ajuda urgente para a Madre Teresa dos Cães (Teti)



Não se chama Teresa, chama-se Maria José e  é uma senhora de 67 anos, reformada, que vive em Pinhal Novo e que tem a seu cargo 80 animais, alguns aptos para adopção outros não, pelo facto de serem velhinhos ou bastante doentes. Neste momento a D. Maria José e os seus animais têm uma ordem de despejo da casa onde habitam, por falta de pagamento de rendas. O senhorio ameaçou retirar os portões do terreno onde estão e cortar água e luz à D. Maria José. Ao abrir os portões os animais vão escapar e acabarão por morrer ou serem feridos. Além de que não interessa a ninguém que retornem às ruas. A ameaça não se tem concretizado mas a todo o momento pode acontecer.Já existe outro terreno arrendado pela Maria José e ela precisa de erguer as novas instalações. Entretanto, o que podemos fazer?

A reportagem no Correio da Manhã pode ser vista aqui.
A reportagem da RTP1 pode ser vista aqui.
Quais são as necessidades da D. Maria José?

- Donativos em dinheiro para materiais de vedação e construção ou os materiais
- Mão de obra voluntária para a construção
- Ração para os animais 
- Medicamentos
- Mantinhas e cobertores
- Donativos em dinheiro para pagar a conta do veterinário 3000 euros! 
- FAD - Famílias de apoio definitivo ie, donos para os cães e gatos  que tem à sua guarda, neste momento( Fevereiro de 2012) cerca de 80!
- FAT - famílias de apoio temporário para os animais

Como fazer para ajudar?

1. Divulgue esta postagem no seu blogue, faça um tweet ou dois, leve para o Facebook, envie aos seus amigos por email. Acredite que é tão ou mais importante do que ajudar com dinheiro.

2. Fazer um donativo em dinheiro, qualquer que ele seja, se só pode dar 1 euro, faça-o.

A forma de enviar o seu donativo monetário mudou em virtude da entrada em campo da ANIMALIFE. Há um novo NIB e um novo banco. Não façam mais envios para o outro NIB anteriormente divulgado.

1º NIB: 0010 0000 47158930001 79, Banco BPI
2ºDepois de contribuir envie o seu comprovativo para amigosdateti@gmail.com e para geral@animalife.pt.
3º Coloque também o número de contribuinte e morada para que possa ser emitido e enviado o respectivo recibo

Também li no Grupo do facebook Os amigos da Teti que foram conseguidas boas ajudas a nível de ração. Não se deixe entusiasmar, os animais são muitos e comem todos os dias. No tempo frio até comem mais!! Quando for ao hipermercado passe pelo corredor dos produtos para animais e veja o que pode fazer.

A forma de entregar o seu donativo em géneros também é diferente, agora é mais fácil:
1º Para entregar no local, no Pinhal Novo, Palmela, contacte a D. Maria José - 914 728 234 - para combinar a entrega.

2º Envio via CTT:
Maria José Cautela
Apartado 11
2955-909 Pinhal Novo
3º Agora também podem entregar a ração no ponto de recolha da Animalife:
Morada: R. D. João V, n.º 31, 1250-089 Lisboa – Loja Pet Blue - Horário: De Segunda a Domingo - 9h às 22h

Actualizações a esta postagem
  • Actualização retirada da página do Grupo, dia 22 de Janeiro:

1ª Prioridade - Arranjar ração para os patudos
2ª Prioridade - Levar lá um Veterinário para poder ver alguns dos animais que estão doentes ou mais debilitados para que se possam tratar (em principio já temos um veterinário voluntário)
3ª Prioridade - Arranjar Fat ou Fad para os animais que podem ser adoptados.

  • Actualização retirada da página do Grupo, no Facebook, dia 12 de Janeiro:
Boa noite a todos...
Em nome da Maria José e em nome de todos os administradores do grupo os Amigos da Teté, um MUITO OBRIGADA por acreditarem em nós e por nos ajudarem a não permitir a morte de 80 animais.
Informo que temos neste momento um total de 1853,55€ de donativos e que estamos apenas a aguardar que a Maria José se reúna com os vereadores de 2 Câmaras onde temos terrenos em vista para decidirmos qual dos 2 arrendar e pôr mãos à obra...
Muito obrigada pela ajuda dada até agora, muito obrigada acima de tudo por acreditarem que É POSSÍVEL dar uma oportunidade à Maria José e aos seus 80 animais.
Pedimos que nos continuem a ajudar, pois o valor angariado apenas faz face ao ínicio do projecto pois o custo de tudo o que é necessário é bastante elevado.
Contribuam, partilhem, adicionem amigos e amigos de amigos, nesta luta TUDO é válido...
Obrigada ( Escrito pela Suzana Ferreira pois a senhora não tem internet.)



1/6/12

A minha avó e a reciclagem

Enviaram-me um email, que outros já devem ter recebido, e que começa assim: "Na fila do supermercado, o rapaz da caixa diz a uma senhora idosa que deveria trazer os seus próprios sacos para as compras uma vez que sacos de plástico não são amigos do meio ambiente. A senhora pediu desculpas e disse: “Não havia essa onda verde no meu tempo.” Então o empregado respondeu: "Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. A sua geração não se preocupou o suficiente com o meio ambiente. "

Este email fez-me lembrar a minha avó materna, que se chamava Maria da Luz. A minha avó faleceu com 93 anos de idade, em 2007. Ela nasceu num ano histórico pela negativa, ano da morte do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro, e sua esposa Sofia, facto que esteve depois na origem da Primeira Guerra Mundial. Por cá, havia grande instabilidade governativa, com os governos a sucederem-se uns aos outros. A 1ª Guerra Mundial na qual Portugal participou, agravou a vida difícil dos trabalhadores portugueses. As consequências da guerra foram desastrosas - desorganização geral, subida de preços, falta de alimentos, greves, desemprego. Morria-se de tuberculose, ainda não havia sido descoberto qualquer antibiótico para a tratar. A minha avó foi trabalhadora rural, conviveu de perto com a Natureza e conhecia os ciclos das colheitas e toda a cultura tradicional ligada ao amanho da terra. A transição para a vida na cidade levou-a adotar novos hábitos mas nunca deixou de ter a companhia de plantas, de que gostava de cuidar. A minha avó viveu o suficiente para conhecer a urgência de cuidar do meio ambiente, algo que para ela surgiu como uma novidade mas que respeitava em absoluto. Ela fazia a completa escolha e seleção de lixos e se eu não os separava convenientemente tinha direito a repreenda. Não precisou de grandes campanhas na TV para se convencer de que essa era a atitude certa. Durante toda a vida ela reparou e reutilizou tudo o que pode.

A vida tem mudado ao longo do tempo e com que rapidez. Eu já vivi metade do tempo que a minha avó viveu e já assistir a modificações enormes. A avó hipotética do email que recebi talvez não fosse tão idosa quanto a minha. A minha avó usou petróleo em candeeiros para ter luz em casa, cozinhou em lume de lenha, ia ao rio lavar a roupa que corava ao sol. Façam comigo este exercício. O texto do email permite refletir na vida como a conheceram e a vida de certos outros tempos anteriores aos nossos em que:

- garrafas eram devolvidas à loja onde eram compradas e o seu dinheiro devolvido ao cliente. Voltavam à fábrica, não eram descartadas no lixo. Eu ainda testemunhei isso com garrafas de cerveja e refrigerante. O preço incluia a “tara”. Eu ia ao supermercado entregar as garrafas e recebia-a.

- não havia escadas rolantes nem passadeiras rolantes nem muitos elevadores em cada prédio. As pessoas subiam as escadas em lojas, escritórios e nos blocos de apartamentos onde viviam. Os prédios cresceram em altura e inquilinos e também o número de elevadores.

- as fraldas dos bebés eram de pano. Tanto eu como a minha irmã usámos fraldas de pano. O meu sobrinho já usou fraldas descartáveis. As fraldas que eu e a minha irmã usámos ainda existem. Eram lavadas passadas a ferro e reutilizadas.

- as máquinas de lavar roupa não secavam a roupa. Durante toda a vida vi a minha mãe tirar a roupa da máquina e secar a roupa ao sol. Hoje as máquinas trazem a função de secar e as pessoas usam a função, mesmo se têm onde estender a roupa – poupam tempo, trabalho, mas gastam dinheiro e mais energia.

- as camisolas e casacos de lã das crianças mais novas passavam para as mais velhas. Por vezes eram desmanchadas, alteradas e tricotadas de novo. Isso aconteceu comigo e com a minha irmã, muitas vezes, achávamos giro que a nossa mãe tivesse essa habilidade, e ninguém parecia mal vestido.

- havia somente uma televisão e um rádio por habitação. Isso foi assim durante toda a minha infância e parte da minha adolescência. Quando passou a haver duas televisões? Não me recordo bem mas acho que foi quando veio a TV a cores. Ficaram duas, uma a cores e outra a preto e branco. Eu passei a ter essa TV no meu quarto e via lá todas as fitas de cinema clássico norte-americano que conseguia! Sem telecomandos, sem complicações. Ligada a uma antena no telhado. Adorava essa TV, usei-a até ela ter estornicado! (Verdade, estornicou mesmo e eu fiquei triste.)

- havia uma só tomada em cada divisão. Era verdade, as casas onde vivi em criança não tinham muitas tomadas e possivelmente nós também não teríamos eletrodométicos suficientes para esgotar as disponíveis ao mesmo tempo!

- a cozinha não estava enxameada de eletrodomésticos. Um espremedor de citrinos eletrico, um picador de gelo elétrico, uma varinha mágica, uma centrifugadora, uma máquina de picar, uma batedora eletrica, um saca-rolhas elétrico, um abre latas elétrico - para que não tenhamos de fazer qualquer tipo de esforço manual – e ainda uma máquina de café elétrica, uma torradeira, um jarro elétrico, um micro-ondas, uma máquina para fritar batatas fritas, outra para fazer pão, iogurtes!!!...os pequenos eletrodomésticos são uma praga! Nunca tinha pensado nisso!

- as encomendas seguiam pelo correio em embalagens improvisadas, não se vendiam embalagens nos CTT nem se usava isoladores plásticos, era cartão, jornal e palha, tudo bem embrulhado em papel de encomendas(kraft).

- se ia buscar a água à fonte e não às prateleiras do supermercado
, onde encontramos imensas marcas de água e embalagens de plástico de formatos e cores diferentes. A minha avó ainda viveu a experiência de ir buscar a água à fonte, não teve água canalizada durante grande parte da sua vida.

- se recarregavam canetas com tinta e máquinas de barbear com nova lâmina. O meu avô só conheceu as canetas, nada de BIC descartável, de plástico. Possivelmente acharia todas essas gilletes descartáveis que hoje existem uma grande mariquice, que me desculpem os homossexuais, não tenho nada contra, mas ele acharia isso, sim!

- não havia dois ou três carros por habitação. Certo, mas muitas mulheres não trabalhavam fora de casa. Hoje o casal trabalha e por vezes bem longe de casa e sem transporte público eficaz que sirva como alternativa! A avó do email tinha, todavia, razão numa coisa: os carros são imensamente potentes, desajustados às necessidades mais simples, poluentes, e quem tem deshabitua-se de caminhar nem que seja para ir ao quiosque de esquina buscar o jornal! Toda a minha infância eu fui a pé para a escola e regressei, hoje todas as crianças vão de carro para a escola até terem idade para tirar a carta. A insegurança nas ruas também fomentou esse comportamento por parte dos pais e o facto de as pessoas viverem longe do centro urbano, onde se encontram as infraestruturas educativas.

Tenho a certeza de que se pensar ainda encontro mais pontos para acrescentar à lista. Por exemplo, recordo-me de na mercearia usarem cartuchos para aviarem café moído na altura, não havia sacos de plástico. Lembro-me muito bem disso pois a embalagem era muito engraçada - as cores do cartucho de papel grosso variava - e o empregado usava um cordão no topo para que ficasse completamente fechado.

Os pontos focados foram os que estavam elencados no texto do email. Lembram-se de mais alguns? Deixem nos comentários.


(Esta postagem faz parte do Desafio 21 Dias, Tarefa #8, Postagens para futuro)

1/5/12

A música portuguesa em 2011

Esta postagem é uma seleção de artistas portugueses que editaram em 2011, o ano em que o fado foi declarado património imaterial da humanidade. Portugal não é só o país do fado e apesar de estarmos a atravessar um mau período em termos sócio-económicos, resultado de anos a fio de má governação associada à crise europeia generalizada, a criatividade na música conseguiu encontrar caminhos. Eu escolhi diversidade de estilos, de formas, de géneros, mas não abdiquei do meu gosto pessoal. Reconheço que posso ter deixado nomes mais relevantes de fora. Não sou nenhuma especialista da música e isto não é nenhum best off 2011.Como não tenho vergonha de assumir que gosto deste ou daquele artista que não está na moda, aqui vai. Paciência se não gostarem. Eu vou pelo meu ouvido e mais nada e também não ando muito atenta, pelo que se tiverem sugestões, força, os comentários são no sítio do costume!

Em 2011 ouviu-se de tudo. 
Tivemos edições de cantores mais que consagrados como Jorge Palma, que já anda na música desde os anos 70, que editou Com todo o respeito. Jorge Palma escreveu algumas das mais bonitas canções e letras da música portugesa. Conseguiu nos últimos anos tornar-se popular junto de uma nova geração de público depois de um dos seus temas ter feito parte da banda sonora de uma novela. Sérgio Godinho, é mais outro autor, compositor e intérprete que vem dos anos 70 a escrever como ninguém sobre o amor, os encontros e os desencontros da vida, a realidade social, com poesia e sentido crítico. Em 2011 lançou Mútuo consentimento. Para completar o trio de pesos-pesados da música portuguesa, Fausto ( hipertexto é para um blogue de fã) editou 23 novas canções, Em busca das montanhas azuis, um trabalho que adoro, inspirado na diáspora portuguesa, nas relações que estabelecemos com os povos de além-mar nos séculos de glória dos Descobrimentos. Fausto é um obreiro da música tradicional portuguesa, na tradição de Zeca Afonso, um poeta da música e também já edita desde os anos 70. 

Tivemos uma revelação do programa Ídolos a afirmar-se de uma forma completamente imprevisível, e eu, que primeiro torci o nariz, acabei por me converter ao jeito jazzy da Luisa Sobral, com The Cherry on my CakeNorberto Lobo lançou Fala mansa. É um artista da nova geração, versado em várias guitarras, acústica, elétrica, e, mais recentemente, a tambura. Ora serena, ora mais animada, eu acho a guitarra dele particularmente expressiva. Zeca Medeiros é um cantor das ilhas, mais propriamente de S. Miguel, mais conhecido talvez pelos seus trabalhos de realização para TV do que pelos seus CD, Torna Viagem, de 2005, é talvez o seu mais conhecido. É actor, compositor, letrista, actor, tem um jeito peculiar de estar na música, algo encantatório, talvez porque venha das Ilhas Encantadas, nome do seu último CD.


Osso Vaidoso é o mais recente projeto de Ana Deus e Alexandre Soares, que na década de 1990 integraram os Três Tristes Tigres. As letras de Animal são de valores grandes da nossa escrita como Valter Hugo Mãe, Alberto Pimenta ou Regina Guimarães. O foco é dado às interpretações, mais do que à voz da guitarra. Um disco mais alternativo é o do grupo Social Smokers que vai buscar a sua inspiração à cultura urbana e à eloquência das palavras, vale a pena ouvir o que se diz, mais do que aquilo que se canta na Magnetic Poetry.



Pedro Osório, lançou em Novembro Cantos da Babilónia, o seu último trabalho, pois acaba de falecer. Pianista, chefe de orquestra, produtor musical e compositor, uma grande perda para a música portuguesa. Nas suas próprias palavras, Cantos da Babilónia, "é constituido por peças em que o piano tem um papel de destaque, e que são construidas a partir de pequenos excertos de canções tradicionais da Europa, Ásia e África." Um trabalho que honra a raiz multicultural da cultura portuguesa, admirável, e que espero venha a ser alvo de atenção em 2012. 

Para quem gosta de pistas de dança, um DJ português, Pete Tha Zuck, chegou ao #37 do Top100 DJ. E mesmo para o fim, o bom  regresso dos Mesa, com o CD Automático, um grupo que deu cartas há uns anos atrás e que depois desapareceu; e mais uma banda com sotaque do norte, a divertir  e a entreter muito bem, os Dois mil e oito, com Pés frios, canções descontraídas que são pequenas histórias, easy listen made in português.


Costuma ver videos de gatos na internet?


Estes dois videos, Kittywood Studios Catvertising, são uma paródia pegada. O segundo copiou o primeiro. Acontece sempre isto quando aparece uma ideia com piada na internet, não há como evitar.  Os videos de gatos fazem um sucesso enorme na internet. O ano passado devo ter visto mais videos de gatos e gatinhos do que em toda a minha vida. Parece uma palermice e é. Mas o diabo dos gatos são viciantes! 
Tudo começou em 2010 com a Kica, a Coca e a Cuca, três gatinhas de um casal amigo. Comecei a ir lá a casa e as gatas conquistaram-me. A partir daí comecei a estudar os gatos e até a ajudar um gatil, divulgando e ocasionalmente contribuindo. Alguns de vós até talvez tenham contribuído para a operação da gatinha Glória, eu divulguei o apelo aqui no blogue o ano passado. O meu sobrinho ofereceu-me uma enciclopédia de gatos no meu aniversário e costumamos ir espreitar os gatinhos que estão para adoptar na loja dos animais. E a minha irmã até já diz que talvez um dia adopte um gato!
Isto não significa que eu não gostasse já de gatos antes de conhecer a Kica, a Coca e a Cuca. Eu até comecei por preferir os gatos aos cães quando era miúda. Quando os meus pais vinham de Braga a Montemor visitar a minha avó paterna, havia duas coisas que me empolgavam: ver o castelo de Montemor quando o carro entrava na reta de Maiorca  e brincar com os gatos que viviam à solta na eira. Isso era o melhor da viagem. Depois, já mais crescidinha, apanhei um ralhete monstro quando estava de férias na Apúlia...ou seria na Póvoa de Varzim?!! Estava na praia e a minha mãe deixou-me ir com alguém a casa fazer já não sei o quê. Só que no caminho vi uns gatos bebés na porta de uma casa e perdi a noção do tempo a brincar com eles. Na praia, a minha mãe, já pensava que eu tinha sido raptada, mesmo se se viviam tempos  tranquilos nos anos 70. De outra vez, uma gata teve filhotes nas traseiras da casa onde o meu pai tinha o estabelecimento de cabeleireiro. Resultado: comecei a ir ver os gatinhos sempre que podia. Tenho poucas memórias da infância mas recordo-me perfeitamente da surpresa de descobrir as almofadas nas patinhas dos gatos, o que na altura achei fabulástico. Quando a minha mãe me enviava postais ou tinham cães ou bichaninhos, como ela escrevia. Os gatos, enfim, eu apreciava-os imenso, sobretudo porque, ao contrário dos cães que corriam atrás de mim, assustando-me, era eu que tinha de correr atrás dos gatos! Ela vivia amedrontada com a hipótese de eu não prestar atenção aos automóveis quando visse um cão na rua e desatasse a fugir podendo ser atropelada! Daí o envio sistemático e pedagógico de postais com cães e mensagens tranquilizantes a respeito daqueles seres peludos! Eu tinha medo deles, embora nunca tivesse sido atacada por nenhum. Até hoje não sei como esse medo nasceu. Depois os gatos desapareceram da minha vida e os cães começaram a ser o foco do meu interesse. O medo desapareceu. Já andava no Liceu quando levei um cão perdido para casa! Não pude ficar com ele. Até hoje nunca tive gatos ou cães meus, embora cuide do Davis algumas vezes, o Davis é o cão da minha irmã, um shar pei. 
Tudo isto a propósito dos dois videos hilariantes acima. E o leitor? Prefere gatos ou cães?  Costuma ver videos de gatos na internet? É um fenómeno que escapa à compreensão dos meros mortais. Se pertence ao grupo dos amantes de peripécias de felinos deve ter gostado de Kittywood Studios e Catvertising, mesmo que seja forçado a admitir, como eu, que vamos " straight into the heart of madness"! 

1/3/12

Ajudar a INTER CARE MEDICAL AID com selos usados

A Rosetta Jallow, uma irlandesa profundamente implicada na ajuda humanitária a África, lançou este apelo no Facebook e eu aproveito para fazer também a divulgação pois não sabia que podíamos ajudar África através do envio de selos usados para esta organização, a INTER CARE MEDICAL AID. Eles também recolhem telemóveis, jóias estragadas, e medicamentos fora da validade.
Mais uma vez devem perguntar-se porque faço isto. Vi  o anúncio da iniciativa e constatei que é algo que posso fazer para ajudar. Como o meu dinheiro é sempre insuficiente  - não há forma de conseguir comprar um novo PC! - eu nunca posso fazer grande coisa pelos que mais precisam, mas sempre vou tentando. Não penso se são portugueses, africanos ou brasileiros. Eu sei que muitos de vós julgam que devia concentrar os meus esforços nos nacionais. Mas deixem-me contar-vos que também vou ajudando por cá, mas nem sempre é fácil que a minha ajuda seja aceite.  Por exemplo, a doação de duas colagens minhas rendeu bom dinheiro numa exposição que a Rosetta organizou, na Irlanda, dinheiro que em espécie, eu nunca poderia doar às crianças abusadas sexualmente em África. Posteriormente vi no Facebook uma iniciativa de caridade, uma exposição-venda para ajudar crianças portuguesas de uma instituição nacional.  Mas a organização queria que pagasse uma inscrição pois a exposição-venda de caridade tinha de organizar um catálogo. Eu sugeri prescindir da inclusão no catálogo e tudo o mais - o dinheiro da inscrição chegaria para eu comprar as colas, tintas, vernizes, tela e fazer a expedição. Para mim era demasiado dispendioso pagar materiais,  - um tubo de 120ml de tinta acrílica não custará menos que 3, 50 euros, por exemplo, 1 frasco de verniz 5 euros - passar alguns dias a trabalhar e depois ainda ter de pagar a inscrição na exposição. Não aceitaram, disseram-me apenas que o evento já não se ia realizar naqueles moldes descritos, quais, não sei exactamente. Posteriormente, mais perto do Natal, enviaram-me o convite para o beberete da inauguração da exposição. O meu trabalho podia até não estar ao nível exigido, certo, aceito. Mas o que fiquei a pensar foi que a organização tinha um orçamento para cumprir e não queria pelintras como eu envolvidos. Lamentável. Por isso gostei de assistir à mobilização que a Rosetta conseguiu em Carrickfergus, praticamente sózinha, com a família e alguns amigos, organizou a exposição, angariou o dinheiro e foi ao banco expedi-lo para o Gâmbia, de onde era o seu marido, daí o seu envolvimento nestas causas. Opinião pessoalíssima, por vezes as "organizações" complicam o que poderia ser uma ideia boa e simples. Escrevi o desabafo porque já sei que alguns de vós vão ler o título desta postagem e dizer para com os vossos umbigos, "lá vem esta novamente com África". Não sou africana nem tenho laços familiares africanos, como a Rosetta tem, apenas alguns amigos. Mas fico horrorizada quando leio sobre as condições de vida miseráveis que homens, mulheres e crianças africanas têm de suportar. Não são uma minoria, são a maioria da população. Os anos passam e a conjugação de factores é de tal forma adversa que a inversão das condições de pobreza tarda. Por isso, e apesar da minha contribuição ser um grão de areia, vou fazendo o que posso. 
E desta vez o assunto é selos de correio. Penso que é a altura ideal para divulgar esta iniciativa pois muitas pessoas e empresas receberam correspondência a dobrar na quadra natalícia. É só preciso cortar os selos dos envelopes, tendo o cuidado de deixar 1 cm de papel à sua volta, mais ou menos, e depois enviar para a morada em Leicester. O selos serão depois vendidos e o dinheiro usado para beneficiar a população africana. Vão até ao site da INTER CARE MEDICAL AID para comprovarem a seriedade da mesma e aproveitem para conhecerem o trabalho que vêm desenvolvendo desde 1974.
A morada: 
Inter Care

46 The Halfcroft
Syston
Leicester
LE7 1LD

1/2/12

Invictus e Nelson Mandela


 Ontem a TV passou o filme Invictus, de Clint Eastwood. Uma das personalidades públicas que mais admiro, Mandela, e Clint Eastwood, um realizador sempre no top das minhas preferências, unidos por uma história inspiradora. Obrigatório ver!

Nelson Mandela, recém eleito, constata que a nível desportivo a sociedade africana também vive apartada. A equipa nacional de rugby é apupada pela maioria da população que prefere torcer pelos seus adversários do que pelos brancos e destreinados Springbocks. Esta equipa permanece um símbolo do apartheid, o verde e dourado das camisolas é repudiado por uma criança negra, que seria sovada pelas outras se se atrevesse a vesti-la, ainda que precisasse de roupa. Mandela irá colocar em risco a sua autoridade e testar o seu prestígio para lutar por uma ideia: a de que a equipa de rugby se pode tornar um instrumento de reconciliação da população. Por isso envia a equipa para o terreno de bairros de barracas, para aí realizar uma campanha junto das crianças, que só idolatram Chester, o único jogador negro que a incorpora. Quando deixam o local, um cartaz resume o desejo de Mandela, Uma equipa, um país. Para construir uma nação é preciso usar todos os tijolos disponíveis, não devolver o ódio, antes, pelo contrário, usar de compaixão e compreensão. Porque agora África vive uma democracia e são todos parceiros na reconstrução do país. Nelson Mandela é um presidente diferente, que quer que os guarda costas sorriam, que os conhece pessoalmente e a quem traz souvenirs do estrangeiro, eles não mais são invisíveis, diz um deles ao capitão de equipa Pineear quando este visita o presidente para tomar chá. Mandela foi capaz de ganhar as eleições mas o desafio maior é vencer no terreno os conflitos raciais, bater o desemprego, a criminalidade, ganhar o país. Será Pineear capaz de afrontar o medo, inspirar a sua equipa, aceitar e vencer o desafio de a colocar na final do Mundial de Rugby de 1995? A tensão que se vive entre a população espelha-se no grupo pessoal de guarda-costas que vê com maus olhos que Mandela tenha convocado os anteriores, que serviam Le Klerk, por serem bem treinados. Forçados a interagir em nome de uma missão maior, e graças também ao envolvimento progressivo na visão político-desportiva de Mandela, acabam o filme conciliados. Porque o importante é olhar para o futuro, para que África seja uma luz no Mundo, diz Mandela. O perdão liberta a alma. Remove o medo. Por isso é uma arma tão poderosa, diz ainda. Contra todas as expectativas os Springboks alcançam a final desportiva e defrontam os poderosos All Blacks, da Nova Zelândia, vencendo após um sofrido prolongamento de 20 minutos! O filme termina com a euforia nas ruas, a nação arco-íris festeja, brancos e negros unidos na alegria da vitória, enquanto Mandela é conduzido na sua viatura, por entre a multidão, sem pressa, apreciando o sabor daquele momento. 

Não é dos melhores filmes de Eastwood, embora seja conduzido com a habitual eficácia e sobriedade. Estranhei o tom  demasiado "cor-se-rosa" do filme, como que premeditado para agradar e fazer-nos sentir bem à saída das salas de cinema. Não que isso seja mau, mas é atípico em Eastwood. Eu, que não percebo nada de rugby, sempre achei que não seria muito interessante por girar em torno desse desporto. E as cenas dos últimos minutos de filme, filmadas no estádio, misto de coreografias de força bruta e penalties, podiam ser mais breves! Mas a história improvável de uma equipa falhada - alvo até de uma anunciada extinção que Mandela interrompe - que se consegue superar a si própria, bem embrulhada na circunstância social africana da época, acaba por vencer. Para o que contribui a boa prestação de Morgan Freeman, claro. De um actor que até já interpretou Deus, outra coisa não se podia esperar.

Este é o poema vitoriano que Mandela diz ter-lhe dado inspiração nos piores momentos, poema que ele passa a Pineear, na convicção de que ele o irá também ajudar. O seu título, Invictus, dá nome ao filme. Leiam a tradução do poema escrito por William Henley, aqui. A que eu fiz é meramente literal.

Out of the night that covers me, - Do interiror da noite que me envolve
Black as the Pit from pole to pole, - Negra como o poço de lés a lés
I thank whatever gods may be - Eu agradeço aos deuses que existam
For my unconquerable soul. – Pela minha alma inconquistável.

In the fell clutch of circumstance – Sob a garra do destino
I have not winced nor cried aloud. – Eu não me encolhi nem gritei alto.
Under the bludgeonings of chance - Sob os forçados 
golpes do azar 
My head is bloody, but unbowed. – A minha cabeça sangra mas não se rebaixa.

Beyond this place of wrath and tears – Além deste lugar de raiva e lágrimas
Looms but the Horror of the shade, - Vislumbra-se o horror da sombra apenas,
And yet the menace of the years – E no entanto a ameaça dos anos
Finds, and shall find, me unafraid. – encontra-me, encontrar-me-á, sem temor.

It matters not how strait the gate, - Não importa quão estreita é a passagem,

How charged with punishments the scroll, - quão carregado de castigos o pergaminho
I am the master of my fate; - Eu sou o senhor do meu destino;
I am the captain of my soul. – Eu sou o capitão da minha alma.

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