02/08/19

Verão é tempo de férias da tecnologia!


De alguns anos a esta parte já me habituei a retirar uma ou duas semanas, sempre no Verão, para me desligar do contacto com o máximo de aparelhos electrónicos que me for possível. São as férias da tecnologia, um par de semanas em que procuro a sua substituição integral por outras formas de ocupar o tempo. Não é que seja uma nomofóbica, - quem diria, mas é verdade, que já foi identificado um medo irracional de estar sem telemóvel ou aparelhos eletrónicos, em especial relacionado com indivíduos altamente dependentes de computadores e jogos de vídeo, - mas também gosto de fazer este teste anualmente e de sentir que continuo no comando: que a tecnologia não manda em mim. O uso destes aparelhos e da internet parece estar a ser diabolizado constantemente mas há bom motivo para ficar alerta.


Tal como no uso excessivo do álcool é complicado perceber quando se ultrapassa o limite aceitável e se cai na dependência da internet e do mundo digital. Mas a dependência tecnológica existe, em especial, a digital, existe. E o medo existe. Este medo é o responsável por ansiedade no momento da separação do usuário com o aparelho, razão pela qual quando um professor priva um aluno de aceder ao telemóvel pode constatar inquietude, por não poder consultar as mensagens, e ansiedade, o que vai dificultar a concentração do aluno na sala de aula. Também se pode desenvolver um apego tão pronunciado ao uso do telemóvel que impeça o rendimento do estudante, em casa, enquanto estuda, incapaz de desligar o seu pensamento da trama online e focar a sua atenção pelo tempo necessário ao processo. A perda da noção do tempo de uso é um dado comum aos usuários, mesmo os não completamente dependentes, e também o desleixo na execução de outras tarefas - ou na sua execução apressada - que se intrometam naquela fruição, ou o alheamento a tudo o que os rodeia, como se vivessem noutra dimensão.

Muitas vezes os jovens, em virtude da sua preenchida vida digital, têm reduzidas interações presenciais, em especial com os adultos, seus familiares, e isso acaba por minar a comunicação entre os dois. Ora, uma boa comunicação é a chave de um crescimento são, emocional, afectivo e pessoal, que assim fica prejudicado. Surgem conflitos e frustrações de parte a parte quando, em desespero de causa, e num momento em que qualquer esforço de conversação já se afigura como inútil, os adultos banem o uso dos aparelhos por parte dos mais novos.

Importa ainda referir que o exagero na utilização desta tecnologia pode ter como resultado a diluição dos laços pessoais e afectivos reais. Será que não nos estamos a tornar mais individualistas, menos gregários e solidários graças à vida digital? Nós, adultos, que já contamos com mais de uma dezena de anos de vida digital em cima, já temos algum conhecimento sobre tudo isto. Parece um contrassenso que  no tempo da "aldeia digital" as pessoas se sintam permanentemente acompanhadas mas mais sozinhas do que quando viviam numa aldeia. Assim é. Algo que aprendi ao longo do tempo foi que, se estiver com problemas, se a minha auto-estima tiver sofrido um abalo ou me sentir de alguma forma vulnerável, não é na internet nem nas teias virtuais que vou encontrar o suporte que preciso. Essa é a pior altura para ir para as redes sociais. Pode sobrevir uma satisfação passageira, uma falsa sensação de apoio, mas nada mais do que isso.

Quem sinta que não tem laços efectivos e reais com alguém, quem se sinta só - e o mais certo é estar algo enganado - também pode entrar nas redes à procura de um substituto afectivo e chegar a pensar que alcançou algo. Mas, o cara-a-cara, é insubstituível. Se alguém não está ao alcance do seu abraço, não serve; não serve, pelo menos, para aquilo que precisa. Se não consegue estabelecer uma ligação com alguém, procure identificar e resolver qual o problema real que está a criar esse bloqueio, procure ajuda próxima para isso, mas não corra para a rede social do momento: acabará com mais um problema, não com a solução para o seu vazio. Se já estiver acabrunhado e triste, sentir-se-á mais triste. Se estiver revoltado, mais revoltado. Se estiver deprimido, cuidado, esse transtorno irá agravar-se. Além disso, o sentimento de inutilidade, de perda de tempo pelas horas ali despendidas, acabará por surgir. Por muito que se escrevam maravilhas sobre as amizades virtuais, nada substitui o amparo providenciado pelo "ombro amigo", o verdadeiro, de carne e osso. O uso excessivo desta tecnologia que tudo promete tem, pois, variados impactos sobre a nossa saúde emocional ou mesmo mental. Não faltam análises da ligação entre consumo digital e diminuição do nosso bem-estar mental.

Além disso, muita da percepção que se retira da vivência digital é do tipo "a galinha da vizinha é melhor do que a minha". Toda a gente parece viver melhor que nós, mostrar melhores experiências: até parece que os outros nunca têm problemas, que é tudo gente feliz sem lágrimas. É de tal forma que quando alguém, em confidência, nos relata a sua vida real sofrida através da caixinha de mensagens damos por nós descrentes: até parece que nos sentimos enganados! É vulgar que os usuários, por comparação, sintam inveja do que veem, outros frustração. A maioria não consegue sentir-se  verdadeiramente feliz perante a felicidade alheia. A regra, afinal, é ficar alegre pelos amigos e os "amigos virtuais", em rigor, são apenas conhecidos, pouco mais que estranhos. Não há realmente garantias de que estarão lá para nós no dia seguinte, pois não?

A tecnologia digital interferiu com a rotina e o nosso descanso e nisto reside um dos seus impactos negativos: os dias confundiram-se com as noites, as semanas com os fins-de-semana. É imprescindível planear a nossa vida de forma a equilibrar descanso, labor e lazer e garantir que a tecnologia não se intromete no nosso horário de sono, que deve ser preservado a todo o custo: é um enorme garante do nosso bem-estar. Há quem até descure a alimentação, substituindo comida saudável por comida rápida para poder passar mais tempo online. Isto acontece quando se sente que o tempo gasto na internet nunca é suficiente e é um sinal alarmante de que já se está viciado.

Por outro lado, são horas e horas que se passam em cadeiras, sofás e camas em posições nem sempre correctas. É de esperar que, mais tarde ou mais cedo, surjam dores musculares na coluna lombar e no pescoço: sou muitas vezes vítima delas. Tanto uso o computador para recreação como para trabalho, e se não for isso a mesa lá está, a omnipresente cadeira e secretária. Há quem se queixe de dores nas mãos e nos polegares: isso nunca tive e também tenho escapado ao síndrome do túnel cárpico - que acontece me virtude da posição do punho em extensão ou em flexão excessiva - ou da tenossinovite de De Quervain, mais própria de quem dactilografa. Além dos impactos músculo-esqueléticos negativos, o estilo de vida sedentário que acaba por ser desenvolvido pela maioria das pessoas que se vicia na tecnologia pode igualmente ser prejudicial à saúde.

Fazer férias da tecnologia é, apenas em parte, uma boa ideia. Estabelecendo o paralelo com o consumo do açucar, uma substância igualmente viciante, de pouco adianta privarmo-nos de açucar durante uma ou duas semanas se levarmos o ano a alambazarmo-nos em doçaria.  O que deve ser o nosso objectivo  é praticar uma vida saudável em todos os aspectos, - sendo moderação a palavra chave - sendo o aspecto digital apenas mais um a merecer a nossa atenção.


Precisa de um pequeno incentivo para largar o que é supérfluo e focar-se naquilo que é importante na vida? Que tal experimentar a App Forest? É grátis e tem uma extensão para Chrome. Quando precisamos de foco, plantamos a árvore. Se abandonarmos a tarefa e formos navegar na net, a planta morre! Podemos até plantar uma floresta. A equipa da App até  fez uma parceria com uma organização de plantação de árvores, Trees for the Future, para plantar árvores reais. Quando os usuários gastam moedas virtuais que ganham na floresta para plantar árvores reais, a equipa da Forest doa à organização parceira  e isso traduz-se em  plantio real.

Até breve!

Você consegue ver a praia?


31/07/19

Parem de tornar famosas as pessoas estúpidas


Vou só deixar isto aqui. Ok?

Stop making stupid people famous, sign, Shoreditch, London, UK.

30/07/19

Poesia: Viver sempre também cansa, de José Gomes Ferreira


Manuscrito do poema "Viver sempre também cansa", por José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

in  Poesia – I (1948)

28/07/19

Team Strada e Hugo Strada na mira do Ministério Público

Cartaz da Team Strada 100K Tour no Instagram da TeamStrada

Anda aí uma polémica podre sobre um tal Hugo Strada, uma tal Team Strada, um beijo na boca na SIC Radical e mais não sei o quê. Estava a zeros. Fiz umas buscas rápidas e a informação é bombástica.  Vale a pena ler. Não é novidade que o mundo de grande parte dos nossos adolescentes começa e acaba dentro das quatro linhas do telemóvel.  Mas que mundo é esse? É o mundo dos criadores de conteúdo, dos Youtubers, dos Canais, do Insta, do Whatsapp, dos Influencers,  das marcas, do ver quem soma mais Likes porque isso agora se não é dinheiro, é quase a mesma coisa, é fama, é disto que se trata: alcançar fama. Fama e dinheiro. O tal "conteúdo de entretenimento" é, na maior parte, sem grande substância - partidas idiotas, desafios, actividades radicais, canções, danças e vídeos de "clickbait" - o que não significa que não se torne viral.

Ser "Youtuber" ou "Influencer" nem sempre é sinónimo de nulidade, como é regra ler. Mas são poucos os que têm realmente um "talento" genuíno. É um campo minado por grandes equívocos. Por exemplo, que ter uma horda de seguidores que dão Likes a cada publicação é suficiente para ser um verdadeiro influenciador ou formador de opinião.  Ou ser talentoso. Ou que qualquer um o pode ser. Os conteúdos, por regra de áreas como entretenimento, beleza, lifestyle e turismo, só importam verdadeiramente quando têm credibilidade, muita relevância para o seu público específico, e este confia nos seus criadores. As marcas seguem os números na mira de vendas, encaram os jovens como embaixadores da sua mensagem pois os públicos juvenis rejeitam a publicidade, de que desconfiam, sendo mais permeáveis à recomendação, à opinião de alguém com quem se identificam. Enviam-lhes produtos grátis para eles usarem/ testarem e escreverem sobre eles. Quando são considerados realmente relevantes em termos de marketing, as marcas pagam até para isso.  Mas nem sempre se justifica o meio. Os seguidores podem ser fãs ou haters ou gente completamente indiferente que apenas segue alguém porque os outros o estão a seguir em grande número, ou ainda, seguidores  fake, seguidores comprados ou bots. O assunto é, actualmente, até ridículo de tão sobrevalorizado,  de tal forma que muita miudagem sonha ser "Youtuber" ou "Influencer" como dantes queria ser modelo ou futebolista.

Em 2017 um grupo de sete jovens Youtubers arrendou uma moradia de luxo na margem sul de Lisboa e aí fundou a Casa dos Youtubers, auxiliados por Pedro Silveira, conhecido agente (pessoa que gere os contratos com anunciantes e promove a sua presença em eventos, entre outros) de Youtubers. Durante algum tempo produziram com muito êxito os seus vídeos que lhes renderam inúmeras visualizações e  bom dinheiro. Depois disso separaram-se e cada um seguiu a sua estrada da fama. Hugo Strada não faz mais com a sua Team Strada que replicar este modelo, mas com um pequeno senão: os jovens que "agenciou" são na sua maioria menores e isso muda o jogo quase todo.

O grupo "Voluntários Digitais em Situações de Emergências para Portugal" (VOST Portugal) que já conhecia de actuações no caso dos incêndios, do Leslie, ou da crise dos combustíveis, foi decisivo para lançar o alerta sobre a actuação de Hugo Strada  junto da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, embora percorrendo os comentários no Youtube se leiam certos avisos em relação à Team Strada, alguns com meses já. O Minsitério Público abriu inquérito.

Conta Twitter - VOST

O que é isto da Team Strada? É um projecto criado em 2018 com o objectivo de juntar jovens youtubers para criarem conteúdos, coisas como  "pranks [partidas], causar o pânico e aventurar-se em grandes desafios", lê-se no livro Team Strada - Tudo revelado. " Este é um livro sobre o grupo de jovens influencers portugueses no YouTube, Instagram e TikTok (ex-Musical.ly) mais badalado de sempre em Portugal. Um livro para fãs, especial e único no mercado, sobre um grupo que funciona como uma "academia de talentos", que permite aos seus membros, crescer, desenvolver os seus dotes e evoluir para outros projetos, podendo dar lugar a novos membros. O livro contém ainda QR Code no miolo, que dão acesso a conteúdos de vídeos exclusivos, um desafio para que os interessados possam tentar fazer parte desta Team, e uma zona para autógrafos e guardar as selfies que tiram com a Team.", lê-se no site da Almedina. Ó pá, até parece bonito, não é?

Neste vídeo da CM TV , de Novembro de 2018, vemos Maya, a taróloga, a dizer que o livro é importante para os jovens, mas também para pais e educadores, nem sempre habituados à "cultura digital", pois assim tomam conhecimento de outras realidades que os filhos vivem. Diz ainda que é muito bom que os nossos filhos não estejam sózinhos e que é importante terem interlocutores como Hugo e os seus meninos e meninas. Maia pergunta depois a um dos membros da Team Strada que mensagem é que ele procura passar nos seus vídeos. Ele diz que é sobretudo que não desistam dos seus sonhos, que juntos são mais fortes; basicamente todos passam a mesma mensagem, diz outra menina; outra diz que a mensagem que quer passar é que pratiquem o bem, que se praticarem o bem, ele volta. A propósito de um jovem que aclarou o cabelo a entrevistadora Maia diz que vê irreverência e juventude na Team Strada, a par de boas linhas de conduta. E diz que encontra aí um paralelo com o que também costuma dizer aos jovens: "Não se estraguem." E foi assim que Hugo e a Team Strada foram levados ao colo pela comunicação social. Devem existir mais exemplos.

A capa do livro da Team Strada

O criador e mentor da equipa é Hugo Strada, de 36 anos, um youtuber, que se apresenta como gestor de artistas e influencers, e produtor de eventos. No programa de TV que agora o colocou na mira de críticas e da Justiça, o Curto Circuito, disse que era conhecido por descobrir talentos. E dá a grande novidade que é a criação, em breve, de uma escola de influencers. Outra notícia choque: que mudaram para um novo espaço. O projecto contava com uma casa, não uma casa qualquer, uma moradia luxuosa e moderna, com piscina, e que aparecia nos primeiros vídeos da Team. Os vários jovens ali se juntavam para produzir conteúdo, ali dormiam e viviam enquanto "trabalhavam" na criação de conteúdo que é apelativo para um público ainda mais jovem (11-14 anos) que, como todos sabemos, há muito que trocou a televisão pelos ecrãs de computador e telemóvel.


Canal Team Strada no Youtube foi fechado por violar os Termos do Serviço

Os conteúdos eram publicados no canal do YouTube, em média 2 vídeos por semana, a principal plataforma da Team, entretando encerrado em virtude da polémica. Mas cada um dos membros também comunicava com os seus fãs através do Instagram. Nessa tal nova casa, informa também Hugo, vão doravante realizar também workshops: os interessados poderão aprender coreografias com as meninas da Team Strada, - "que mandam muito" nesse domínio - aprender a cantar com um deles, aprender representação pois alguns têm "formação académica" em teatro. (Talvez fosse melhor chamar-lhe ATL e não "Escola", Hugo.) Diz ainda no programa que é o mentor destes jovens mas que acaba por ser "o pai, o irmão mais velho, o melhor amigo deles".

Ora, tudo ia aparentemente de vento em popa, para o projecto, até que a 22 de Julho, a Team Strada, participou no referido programa de televisão, o Curto Circuito, da SIC Radical. Um dos jovens, Douglas Dias, conhecido como Dumbo ou Dumbasticoo, de 17 anos, chega atrasado e cumprimenta Hugo Strada com um beijo nos lábios antes de se sentar ao seu lado. Não vejo televisão mas achei que devia usar algum do meu tempinho a ver o programa da SICRadical online. Assim matava dois coelhos de uma só cajadada: assistia ao beijo, conhecia os meninos e meninas da Team Strada e o seu mentor. Comprova-se que o tal miúdo Dumbástico não só chega atrasado e dá um beijo nos lábios do adulto como ficam abraçados que nem um casalito durante todo o programa. E até brincam com a mão um do outro. A mãe do rapaz liga quase, quase no finzinho do programa, a dizer que tem muito orgulho no filho.


Ainda assim, e como seria previsível, Douglas (Dumbastico) é atacado na sua conta Twitter e defende-se daqueles que acharam tanta demonstração de afecto como excessiva e inadequada: "Quando vcs eram mais novos davam um " bjinho " no vosso pai, então pronto o hugo e como um pai q nunca tive do meu lado, até mete piada kkkk." Também Joana Correia (ler abaixo) também se refere no seu Instagram a Hugo como "pai". O que é mais triste nisto foi o que eu ri a ler os comentários e a ver os Gifs e memes na conta à sua resposta ao sucedido. Juro. Este adolescente imaturo e tonto não merece o meu riso incontrolado e a culpa é, em parte, do Hugo "Estraga". Aproveito para esclarecer que aquele círculo vermelho com o 18 no meio quer apenas dizer que a SIC Radical fez a bonita idade de 18 anos.  Pois é,  18 anos de idade já lá cantam, na SIC Radical,  mas maturidade é que não, a avaliar por estes programas da treta, onde se dá protagonismo a quem garantir maior audiência. Depois de ter visitado a conta do Insta e o Twitter do Dumbasticoo quase desejei que o Hugo "Estraga" o pudesse adoptar de verdade. Mas imagino que ser pai a sério não esteja nos seus planos e, além disso, o rapaz merecia melhor sorte: ele é que ainda não sabe.

Hugo Strada e Dumbastico Instagram

O programa Curto Circuito causou um verdadeiro choque. Começa com as apresentações do grupo de adolescentes e os miúdos têm entre 16 e 19 anos, a elencarem melhores qualidades e defeitos como se estivessem nuam entrevista de emprego. Um deles declara-se a uma das miúdas e pergunta se ela quer namorar com ele. Há um momento em que uma das raparigas diz ter 18 anos e a apresentadora até faz uma festa: "Uuu! Uma pessoa maior de idade!" Ao que mais dois também dizem ser maiores de idade. Parece-vos isto normal?  O par de apresentadores nem pestanejou perante o beijo gay, em nome do respeito bonito pela diversidade. Ora, se fosse eu teria logo dito: " Pára tudo! O que há entre vocês? Não tenho nada contra gays mas tu, Dumbo boy, és um menor, e tu, Hugo "Estraga", és um adulto de 36 anos que sabe a que signo pertence cada um dos que se sentam a teu lado, - é verdade, o "manager" sabia, ele é uma espécie de candidato a Maya Taróloga -  o que não deixa de ser também estranho, a par do boné virado". "Hugo: o que pensa a tua namorada disto?"- continuaria, depois. "Vê lá se cresces que já tens idade." Mas os apresentadores apenas estão ali para ganhar o seu no final do mês e não podem dar bandeira. Toda esta gente virá a olhar para estas imagens com embaraço. É só dar-lhes alguns anos e responsabilidades.

Existem ainda a circular algumas acusações de ex-membros da team Strada que afirmam ter sido prejudicados financeiramente e que Hugo não faz mais do que vender ilusão aos jovens que se submeteram ao casting para a Team Strada e que foram selecionados. Um outro vídeo mostra o Hugo a entrar num WC e a abastecer-se de papel higiénico e a dizer disparates - que está a fazer um vídeo com um tut de como limpar uma senaita - enquanto uma rapariga aparentemente desconfortável com a sua presença se encontra sentada numa sanita. Também existem fotos de beijos e abraços que levantam questões. O que é ainda mais preocupante são declarações de jovens que dizem não poder contar toda a verdade por recearem processos e ameaças se conjugado com um ficheiro de som que também circula onde se ouve Hugo dizer: "Não pensem que ninguém vai respirar de alívio ou dormir bem quando me fizerem mal. Isso está ponto assente, juro pela minha avó que está no céu. Quem me fizer mal vai passar as passas do Algarve. Mas eu mato se for preciso, eu juro que eu mato." Não é claro, porém, em que contexto o áudio foi gravado ou se a voz, de facto, corresponde à de Hugo Strada.

Se ouvirem os vídeos onde ex-Team Strada respondem à questão do porquê da sua saída irão verificar que todos repetem o mesmo, como se estivessem a seguir um guião. Dá que pensar. Mas o "mentor" diz à taróloga Maya, com quem partilha o gosto pela astrologia,  que deixa cada um deles ser quem é, que os está a ajudar a chegar aos objectivos que eles ambicionavam, (leia-se "fama") pois acredita imenso neles. Hugo diz que os adora, e que se sente cada vez mais jovem, não só porque tem um espírito jovem, mas porque vive rodeado de juventude.

Hugo encontrou a sua galinha dos ovos de ouro. Não serei a única a pensar que Strada montou um negócio aparentemente lucrativo e que deve ser o único a retirar dividendos reais do projecto Team Strada.  Resta perceber até que ponto ele está a ser justo na sua relação comercial com os menores e quanto haverá de puro aproveitamento e hábil manipulação dos mesmos à boleia deste relacionamento tão familiar, ou mesmo abuso psicológico e até sexual. E também perceber qual o papel dos pais destes jovens em tudo isto: inclino-me para cumplicidade.

O Valor da team Strada reside no seu poder de atração de público jovem. A Team Strada tem sido convidada para participar em diversos programas de televisão, como o Curto Circuito, e eventos públicos, como o Kids Music Fest, em Cascais. O último evento de 3 dias que foi realizado, destinado a famílias, procura atrair os mais jovens com a presença de "Youtubers", de matraquilhos humanos, guerras de almofadas, e música ao vivo com os artistas como  Bárbara Bandeira. A Team Strada também é apelativa para iniciativas de algumas marcas e outros artistas, como os MastikSoul, em cujo vídeo participam.  Estas participações, bem como as festas e os encontros em que a Team Strada é protagonista, autênticas tours pelas principais cidades do país, - os bilhetes da 100K Tour custam 19,99 euros, mas li que noutras ocasiões se pagou mais, não sei - e a merchandising - t-shirts, canetas, posters, pulseiras, etc, - tudo são fontes de receita para o projecto de Hugo Strada. No entanto, existem muitos alertas deste género na conta Instagram onde se faz a sua venda:


Se ainda não perceberam a dinâmica básica da Team Strada, eis mais um exemplo: uma Talk e um Meet and Greet exclusivo para 30 fãs teve lugar no centro comercial Aqua Portimão. Basicamente trata-se de animação: Hugo Strada, Maria, Diiana, Kiko, Edgar e o Leite entretêm plateias de miudagem que se deslocam até distâncias consideráveis para ver ao vivo os seus "ídolos". Durante quase 2 horas, no espaço de restauração e de entrada gratuita, a Talk teve lugar em cima do palco: os influenciadores cantaram, dançaram, lançaram desafios, deram dicas, partilharam confidências, responderam a perguntas e puxaram pelo seu público, cerca de 600 pessoas. Depois, num momento mais privado, 30 adolescentes tiveram a oportunidade de aceder a um Meet and Greet onde pediram autógrafos, tiraram fotografias com o grupo e ainda ofereceram muitos presentes aos Team Strada. Vejam aqui as fotografias do "evento".

Ora fui tentar perceber melhor porque razão é que cerca de 600 miúdos e miúdas fazem até fila em Portimão para ver os seus "ídolos", é verdade: ídolos, é assim que são tratados. Fui espreitar alguns dos seus Instagrams. O que teriam de especial estes jovens? Quais são os seus "dotes", os seus "talentos"? Mereceriam ter 85,3k seguidores no Instagram, como Joana Correia? Saberão os pais destes adolescentes que foram a Portimão o que compra, afinal, o dinheiro que estão depositar na mão de Hugo Strada para que este lhes entretenha os filhos com a sua equipa de (também) adolescentes? E eu a pensar que eram tipo a Billie Eilish!  (Para quem não sabe, Billie é uma jovem com apenas 17 anos. O seu disco de estreia é uma bomba. Ela canta, o irmão escreve as letras. É um caso de verdadeiro talento. Com 32,8 milhões seguidores no Insta, essa sim, pode reclamar o título de "influencer". Eu gosto dela e nem sequer sou jovem. ) Andaria eu a perder qualquer coisa? Perguntei-me, então, ao ver aqueles rostinhos mimosos e corpinhos enxutos, quais seriam os seus talentos, além desses, os naturais. E o que está Hugo enquanto "mentor" a fazer para potenciar o seu desenvolvimento além de promover a sua exposição como "agente"? Na realidade os seus Insta não dão muitas pistas:  são apenas o lugar comum das colecções de fotos, poses repetitivas de rosto e corpo, mais ou menos vestido com as peças que, possivelmente, recebem das marcas que os escolhem  como embaixadores. Na realidade, esses jovens fazem pouco mais de nada, lamento, mas é assim mesmo. Estão convencidos de que muitos Likes é sinónimo de muita Fama e de que muita Fama é igual a muito Êxito. Sentem que alcançaram algo na vida. A isto chama-se ilusão. O "artista" responsável por alguma desta construção é obviamente Hugo Strada, mérito lhe seja dado.

Mastiksoul "Estraga" Feat Los Manitos, D8 (Team Strada) - Video

Como o canal do Youtube foi suspenso, não pude aprofundar mais quanto ao teor dos conteúdos produzidos mas informei-me junto de algunas jovens que foram peremptórios: mero avacalhanço. Fiquei-me pela sua participação da Team Strada no vídeo do  Mastiksoul, e aconselho, se quiserem rir: é que parece que o cantor diz "Eu mal do cu fiquei". Tive de ir consultar a letra do Estraga para me esclarecer. A letra é uma obra prima da nulidade da escrita para canções, mas sempre defendo que nem sempre precisamos de letras fantásticas para abanar o rabo. É o caso. Fiquei esclarecida, o "poeta" afinal diz: "Foi por ti amor/ Que eu me apaixonei/E pelo teu sabor/Eu maluco fiquei. " A participação de Hugo Strada e da Team Strada no vídeo é esta: uma coreografia mal amanhada na pista de dança da Palace Kiay. Digamos que não fiquei impressionada com os dotes das dançarinas e seu mentor, mas que aquilo que vi será sem dúvida o suficiente para entreter miúdos e miúdas de 11-13 anos, pouco críticos, como é normal da sua idade, e inspirá-los a rebolar o rabo. Se isso falhar, sempre podem ir em grupo tocar às campainhas de desconhecidos a meio da noite e imitar Hugo Strada numa das partidas que fazem parte do pacote dos contéudos virais da Team Strada.

Abaixo, vídeo e foto de Joana Correia, uma das recrutadas pela Team Strada, por ela própria. O "antes" e o "depois".

Video  - A 30 de Dezembro de 2018, Joana Correia diz que vai tentar fazer o casting para a Team Strada enquanto segura o livro da Team Strada nas mãos. As pessoas que estão no livro, diz ela,  elas têm de ter uma história para contar, elas não nasceram famosas, não nasceram logo com 30.000 seguidores, elas conquistaram o carinho do público. Isso não foi um milagre, foi esforço. Para Joana o livro é "guloso", uma página leva à outra. Além disso,  mostra a trejectória de cada uma das pessoas que faziam parte da Team e tem uma linguagem directa que leva Joana a sentir que tem uma pessoa a conversar cara-a-cara com ela, dando-lhe força para nunca desistir dos seus sonhos.

Joana Correia foi bem sucedida no casting e juntou-se ao Team.
Aqui, com Hugo Strada, durante o Sunset RFM, em Julho de 2019. 
Também o trata por "pai" no Instagram : "obrigada, pai ❤️ eu sinto orgulho de você".

"Eu fico feliz por nós termos a ligação que temos em tão pouco tempo de “familiarizade”, porque eu não vejo isso como um trabalho ou algo profissional, mas algo que envolva o coração também. É engraçada a forma como a vida conseguiu me fazer te conhecer mesmo estando do outro lado do oceano 🌊🇧🇷 (naquela altura), e mesmo depois disso, ter conseguido juntar duas pessoas que nada tinham a ver até então. Eu vejo o quão você se esforça para a gente ter ou alcançar tudo o que alcançou. E a gente sabe muito bem que você podia estar gastando todo esse tempo se dedicando a coisas que te fariam apenas a ti crescer, mas que nem por isso você nos excluiu ou deixou de lado. A gente sabe que mesmo com esse jeito meio teimoso, meio taurino ♉️, meio/meio♈️, há um grande homem por dentro, e isso é notável. Eu só queria te agradecer por me fazer alcançar sonhos que eu nunca imaginei ter sequer, e ainda por me unir a você. Hoje nós vamos estar num lugar muito importante para mim, e eu senti necessidade de dizer isso porque somente eu e você sabemos o que isso significava para mim antes, e o que significa agora. Aqui, quero te agradecer por cada palavra que já me disse, por cada atitude, por cada momento que já vivi até agora com o seu projeto. Falei isso tudo em pt do br, porque essa foi uma das razões pelas quais eu te conheci, e não me arrependo, se pudesse tomar essa decisão outra vez, tomava a mesma, vezes sem conta: obrigada, pai ❤️ eu sinto orgulho de você. "

Sugestão de leitura


Vale a pena ouvir a Opinião de Mangalhão/Sparking
sobre a situação Team Strada