9/14/18

Ninguém chama mimados aos homens

Do não tão sereno ténis de Serena para o rebolado futebol de Neymar porque ninguém chama aos desportistas birrentos e outras coisas assim cor-de-rosa. 

Andaremos a esquecer a forte adjectivação, e alguma com base no género, que enche o ar dos recintos da bola? Não que a FIFA não pugne pelo respeito nas quatro linhas e deseje linguagem ofensiva, insultuosa e abusiva no recinto, mas não é mais comum ouvirem-se obscenidades no futebol, desporto colectivo, mais emocional, do que no ténis, individual , mais contido, onde a aceitação social de comportamentos primitivos que irrompem do mais fundo do nosso cérebro é muito menor? É apenas minha percepção que chamar a um oponente ou ao árbitro “filho da puta” será visto como menos grave no relvado que no court de ténis? Será que o ténis não exibe uma postura mais respeitosa e por isso quem não se mostra à altura sobressai muito mais pela negativa, seja homem ou mulher, seja Serena ou McEnroe? Num video em circulação um fulano dizia que McRenroe ficou célebre pela sua falta de contenção. Ficar célebre por ser irascível não é o mesmo que ser celebrado por isso. De facto, o que celebrámos em McEnroe era o jogo magnífico. O ténis não tolera a obscenidade como parece suceder em desportos como o futebol, no relvado e nas bancadas, onde se vive uma fraterna comunhão entre desportistas e adeptos quanto ao tópico, aliás, é possível que nunca tenha sido de outra forma nem se possa nunca limpar de palavrões o futebol embora o carácter do que se considera obsceno mude ao longo dos tempos. E no presente usam-se muitas vezes termos que se baseiam na falta de masculinidade – mariconço, vai levar no cu - ou características femininas para os homens – jogas à menina, coninhas. E no futebol feminino também uma jogadora bem poderá chamar puta à sua adversária, já que uma mulher se quer virtuosa, de acordo com certos padrões datados. Estes termos pretendem, de facto, rotular o visado pela atribuição dessas qualidades baseadas no género e tidas ainda hoje como inferiorizantes e negativas. Não obstante alguma mudança de mentalidades , um homem a sério não se quer efeminado nem homossexual, nem uma mulher digna poderá alguma vez ser uma prostituta. Se isto denota preconceito cristalizado na linguagem não signfica que adversários em campo não se encontrem depois do jogo para os copos e que não sejam amigos no Facebook já que essa adjectivação foi fruto do contexto. 

Este relambório surgiu depois de ler que ninguém chama aos desportistas masculinos birrentos, mimados, histéricos e que o desenho de Serena como criança birrenta ilustrou bem a linguagem sexista com que muitos comentaram a sua actuação, mais uma amostra do duplo padrão moral com que são tratadas as mulheres. Quem faz birra são as crianças. Imagine-se a afronta ser-se rotulado de criança. Ser birrento é ser teimoso. Terrível, não é? Ofensa magna ser rotulado de criança. Sem querer escamotear a realidade de que há discriminação em muitos sectores da sociedade em relação à mulher, que precisa de ser identificada e resolvida, é preciso ser muito distraido para ter deixado escapar o tratamento feita pelas redes sociais, cartoonistas, memistas e, quem sabe, até extraterrestres a Neymar durante o Mundial. Na realidade do séc. XXI todos somos seres muito sensíveis, não conseguimos tolerar que chamem a alguém - ou que nos chamem – birrentos, mas não hesitamos em devolver a ofensa com outra maior para sarar a ferida. Já o facto de Serena ter chamado “ladrão” a um árbitro é coisa de menor importância. Porque se desculpou a má conduta desportiva a homens no passado temos de, com base no precedente, pular as regras e desculpá-la agora a mulheres e aceitar o erro porque a Serena tem sido vítima de sexismo desde sempre e o árbitro mais não fez do que comungar no preconceito. É assim o século da melindragem colectiva, onde a precupação com o sexismo se tornou de tal forma intoxicante que, no processo de luta por uma causa mais que válida, em vez de estarmos a contribuir para o equilíbrio progressivo entre as relações dos dois sexos, o diálogo esclarecido e a argumentação coerente, estamos é, mais do que frequentes vezes, a promover animosidades não só entre homens e mulheres mas entre as próprias mulheres.

9/13/18

Serena Williams: já não se pode desenhar serenamente




Já não se pode desenhar Serenamente. Que o diga Mark Knight que tem sido massacrado em virtude do seu cartoon de Serena Williams. Há quem não aceite a sua defesa de que visava apenas o mau comportamento de Serena no court e não a raça, as desculpas de que não conhecia nada sobre Jim Crow, um personagem dos palcos, o primeiro estereótipo do negro afro-americano, o branco de maquilhagem negra, uma espécie de idiota preguiçoso, a que ainda há pouco Childish Gambino fez alusão no seu videoclip This is America. (Outros se lhe seguiram, a "Mammy", o "Uncle Tom", etc. Mais recentemente, novos estereótipos: o "drug dealer", por exemplo. Outros estarão na forja.) Mark afirmou ainda que desconhecia a caricatura racista - o "coon caricature" (onde o negro era visto como um ser acriançado) ou o "sambo caricature", (onde era retratado como um leal servo) tipos de desenho de teor abertamente racista que pulularam nos EUA durante a escravatura e que permaneceram no tempo, com paralelo até em personagens desenvolvidos no cinema. Espanta-me que Mark não conhecesse estes desenhos mas já compreendo que não os tenha tido presentes quando desenhou se até jura que nem lhe passou pela cabeça a questão racial. Difícil de acreditar? Para alguns assim parece. No entanto, dizer que não nos passou pela cabeça uma ideia esquisita não significa que não a venhamos a colocar no papel, por vezes somos ingénuos e conduzidos a desenlaces inesperados que não soubemos antever, e até de consequências imprevistas. Seja como for, o cartoonista viu-se de um momento para o outro em palpos de aranha acusado que foi de participar na longa história do culto do estereótipo do afro-americano e de com este cartoon regurgitar preconceitos raciais nos traços usados na sua Serena beiçuda, corpulenta e infantil, que salta em cima da raquete, irada, como um verdadeiro desenho animado faria. Mark Knight recebeu ameaças de morte e fechou o Twitter e eu, que ando sem paciência alguma para fazer trabalhar o cérebro mais do que seja suprir as necessidades do quotidiano, acabei por prestar atenção ao caso. À primeira vista o cartoon nem sequer é brilhante de tão batida e óbvia esta ideia da birra infantil em casos de adultos em crise. Não fosse a polémica não faria história. Leio então que Serena é vista como grotesca no cartoon donde fiquei a pensar se não posso doravante desenhar lábios grossos e cabelos frisados sem ser alvo de acusações de racismo, por terem sido traços outrora usados para exteriorizar a discriminação e a inferiorização dessa raça nos tais muitos desenhos de propósito deshumanizante. Mas quando isso é um traço de Serena e da raça negra em geral?! Tal como o nariz largo? O desenho exagerado de uns lábios já de si volumosos numa persongem em transe, logo de expressão alterada, em conformidade com o seu estado não é a lógica do que um cartoon deve ser? Voltamos aos temas proibidos aos cartoonistas? Aos tabus? Transformar o cartoon de uma reacção impulsiva no court num desenho racista pretendendo assemelhá-la ao que faziam os artistas do "coon" e do "sambo", acreditar que Mark ao desenhar Serena tivesse consciência de que o seu traço estava a repercutir uma "visão imperialista do mundo" e que deliberadamente pretendesse desferir um ataque racista ou sexista à desportista, rotulando assim Serena como um ser menor, quer como atleta quer como mulher negra, parece-me algo ridiculamente rebuscado. Mas, lá está, sou uma mulher branca, como já alguém me disse, não tenho como perceber. Se fizerem uma busca no Google vão descobrir que ninguém mais, além de Mark, vem enxergando Serena como uma mulher corpulenta, beiçuda e fortemente emocional. Deixo um exemplo para os mais preguiçosos.




8/1/18

Cantares dos búzios - Afonso Lopes Vieira



Ai ondas do mar, ai ondas,
ó jardins das alvas flores,
sobre vós, ondas, ai ondas,
suspiram os meus amores.

No fundo dos búzios canta
o mar que chora a cantar
ó mar que choras cantando,
eu canto e estou a chorar!

Ai ondas do mar, ai ondas,
eu bem vos quero lembrar:
«a minha alma é só de Deus
e o meu corpo da água do mar!

7/11/18

SOMNII na Figueira da Foz: um escândalo!



Anda a circular um video, que suscita partilhas e comentários díspares. É isto: um carro a bombar som e um jovem deitado sobre o mesmo, a celebrar a vibe do momento. Isto passa-se na av. 25 de Abril, junto da Torre do Relógio, próximo do local onde estava instalado o palco do RFM SOMNII. A pessoa que filmou, repetia a dado momento da filmagem, " Não sei se rio, se choro".
Devo estar a ficar velha pois vi o video e não achei nada de mais. Não seria uma coisa normal hoje, ou amanhã, quase meados de Julho, mas era o Somnii, é expectável alguma euforia fora da norma durante os três dias que dura. O miúdo estava a curtir o som do seu carro, a estrada até estava cortada por questões de segurança, se não estou em erro. Qualquer pessoa se podia deslocar, afastar-se, há muito espaço, se se sentisse incomodada; ou então ir lá falar com ele e dizer-lhe se podia baixar o volume. É possível que ele não fosse um zombie de cérebro cozido e apenas um jovem a curtir o seu som e algum álcool ou ervita, nada de mais, e fosse sensível ao pedido. Nah, nah, qual falar com o jovem! O que se impõe é filmar o idiota alegre e subir nas redes porque nós somos todos uns cromos certinhos, nunca mijamos fora do penico. É apenas um puto a fazer estrilho na avenida para uma afluência de quantas pessoas? 30.000?  Julgam mesmo que o caso é significativo de quê? Saudades que tenho do tempo em que não era certinha sem causar prejuizo de monta a ninguém. Tenho lido muitos comentários de gente muito escandalizada com o que se passa no Sunset, a dizer que não há condições, que não acrescenta nada à Figueira e só causa transtornos. Por acaso o contrato acaba este ano, pode ser que o acontecimento demoníaco volte para Moledo e depois já podem curtir a Figueira descansadamente, orgulhosamente sós, o verão inteiro. Nem de borla eu ia para o areal, não é música nem evento que aprecie. Mas sei de putos que vão trabalhar nas férias para terem dinheiro e irem ao Sunset pois adoram: adoram o convívio, a cidade e a praia. Imaginem que um dia vão recordar esses momentos e pensarem na Figueira com saudade. Eu nem sou figueirense e acho isso porreiro: é como quando eu esperava por Setembro todo o ano para ir ao Festival de Cinema da Figueira da Foz.  Se o retorno do RFM SOMNII para a Figueira é muito significativo? Não faço ideia. Mas será o prejuizo assim tão elevado quanto me é dado ler por aqui?

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