11/20/17

Os pénis estão em alta na internet. E até nos céus.



Os pénis estão em alta na internet. (Quase me atreveria a dizer que, por estes dias, andam na boca de toda a gente. Mas corria o risco de ser mal interpretada, além de estar a corromper uma das mais famosas frases publicitárias de que há memória.É melhor não.) E nos céus também. Pensando eu tratar-se de um pratinho de lascívia a que nem faltava o aviso para o conteúdo explícito das imagens, apressei-me a ler este relato da Fox News sobre o piloto que desenhou um pénis nos céus da ilha de Whidbey. Deambolando na minha taradice e enquanto cantarolava “Penis in the sky with diamonds”, imaginava já um festim de genitálias masculinas, tipo um fogo de artifício ou qualquer coisa em 3D. Mas tudo se resumiu a uma galeria de meia dúzia de fotos de uma garatuja de vapor de água desenhada nos céus, talvez alguma fuligem ou dióxido de enxofre também, se quisermos ser rigorosos, mas nada mais porco do que isso. Afinal um rabisco tão infantil quanto aqueles que havia gravados a canivete nas portas de madeira escura dos wc da minha escola primária. Coisa mais pura não pode haver. Lembremo-nos que Picasso retratou a jovem amante num quadro a que chamou O sonho e desenhou-lhe um pénis no rosto descansado. Ninguém diz que tal coisa é uma obscenidade. É isso. Vão ver que o piloto estava no seu período azul. Que dias americanos estes em que já não se pode ser um Picasso aéreo sequer. O desgraçado – ou desgraçada - está de castigo, impedido de esvoaçar e vai responder pela sua conduta sem ética, imprópria dos valores da Marinha que até pediu desculpas. Uma mãe transtornada por tal visão é que não se percebe de todo: não saber como explicar às suas criancinhas o que estava ali a desenrolar-se nos céus é muita falta de imaginação e, em último recurso, um caso para o Dr. House.

11/19/17

Ficheiros nada secretos: o caso Maçães.

 A) Preliminares: quando quer acasalar o pinguim-gentoo oferece uma pedra de textura macia à sua amada no intuito de conquistar o seu coração. Os pinguins podem passar horas a calcorrear as praias da Antártica à procura do seixo perfeito. Quando o pinguim macho encontra a pedra ideal, apresenta-a à fêmea como uma oferta de amor. Se a fêmea gostar do que vê leva a pedra para o ninho e há truca-truca.

B) Corpo do delito. Uma jornalista arruivada e jeitosa, de nome Lily Lynch, botou a boca no trombone. Maçães, um obscuro, creio eu, ex-secretário de Estado para os Assuntos Europeus, teria sustentado com ela conversas virtuais ameaçadoras e intimidatórias (!) nos idos de Outubro de 2016, e cereja no topo do Twitter, mandou-lhe um instantâneo da perna do meio. Não se conheciam pessoalmente. Tão tolinha ela quanto ele, ela porque deu trela ao sr. secretário, alimentado conversetas que não lhe estavam a cair bem, ele, porque tendo inclusivé a noção de que estava a pisar o risco, confessando receio pela sua carreira política se tal novela pseudo-erótica viesse a público, persistiu e ainda coroou a sua bravata daquela explícita forma gráfica. Foi quanto bastou: o Maçães foi agora apanhado nas malhas do sexting. 

Há uma linha ténue que separa a brincadeira sexual aceitável do assédio e da exposição não consensual de material íntimo, abusiva. O jogo tem a sua piada mas o jogo tem regras, que bem podem até ser não escritas, e há consequências quando se quebram. Saber jogar implica não ser ingénuo digital, e, antes disso, não ser um idiota. O jogo não é novo, é apenas uma adaptação às novas possibilidades tecnológicas, longe vão os anos 80 e o arquitecto Tomás Taveira e as suas cassetes video caseiras. Mas que fiquem tranquilos os Maçães que me têm enviado fotos da perna do meio ao longo dos meus anos nas redes pois não vou agora e na onda do recente hashtagmetoo começar a acusar ninguém de me ter enxovalhado ou intimidado, de me ter sentido abusada ou assediada. Se me fizeram sentir assim terão sabido na hora e ouviram o que era devido. Não costumo deixar os assuntos ingratos a marinar, isso apenas faz com que o seu sabor desagradável se intensifique. 

O jogo do engate e da sedução mudou-se das palavras para as imagens e esta forma de viver o erotismo conquistou todos quantos andam com ele na mão. Ele, o smartphone, claro. As fotos de falos e nudes tornaram-se cartões de apresentação, desbloqueadores de intenções, uma nova normalidade. Este caminho que parece seguir o trilho triunfante dos emoji é mais um sinal da atrofia crescente do uso da escrita nos relacionamentos. A isso nos conduziu a vertigem do quotidiano moderno apoiada na muleta da tecnologia. Carregar em teclas e escolher imagens para expressar os nossos desejos mais íntimos e sentimentos é rápido e uma imagem vale mais que mil palavras. Gesto empobrecedor para quem sofra, como eu, do sindroma de Roxana, assumo que nisto dos galanteios sou mais depressa seduzida por Cyranos poetas do que por belos Cristianos sem dom de palavra, a quem esta tendência moderna deve sem dúvida sorrir. Ai, Maçães, Maçães, estás bem Lynchado.

11/12/17

Panteão Party

Panteão Party. Os monumentos devem realmente ser vividos mas há certos espaços que servem para convidar à solenidade, a uma certa introspecção e ao recato, ao respeito pela memória histórica, se é que vale alguma coisa a memória dos que lá repousam, começo a duvidar, e assim deviam permanecer. E esta justificação que li, dos restos mortais de Humberto Delgado, porque fundador da TAP, sepultados no Panteão, terem ajudado à opção pelo local? Pensava eu que isto da Summit tinha mais a ver com o futuro, o movimento para a frente, bem sabendo que não há geração espontânea, nem de micróbios nem de ideias. O Minho fica longe, sai caro deslocalizar uma janta que o país é enorme, e, azar, Nuno Peres move-se por lá, e ainda não morreu, e ninguém sabe nada de nada sobre materiais bidimensionais, como os dicalcogetos de metais de transição, em que os mais interessantes são os semicondutores, para aplicação na indústria eletrónica, mesmo que meio mundo esteja de olhos postos nisso. Não tendo sido a primeira jantarada na nave do Panteão, reafirmada a banalização do espaço, fico à espera da festança do Réveillon, este ano já não vou ao Mosteiro São Bento da Vitória. Vai ser de arromba, um evento de fazer mortos rolar na tumba. E aguardo em pulgas pelo baile de máscaras da noite do Aluine de 2018 na boa companhia dos espíritos de presidentes, artistas, escritores, pedagogos e poetas, afinal, gente do outro mundo. Ah, e futebolistas, estava-me a esquecer. Viva a era da total mercantilização sem escrúpulos, onde tudo tudo pode ter um preço e nada tem valor.

10/18/17

Pinhal do Rei - Afonso Lopes Vieira


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante,
aonde a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...


Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar
e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917

Sugestão de leitura: 

Cidadãos da Marinha Grande enviam queixa à Procuradoria Geral da República- Grupo de pessoas quer investigação ao incêndio que devastou Mata Nacional de Leiria. Para ler aqui.

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