1/19/15

Ano novo, novos hábitos!

"Desenvolver o Capital Mental para um bom Envelhecimento", artigo de opinião de Horácio Firmino, Médico Psiquiatra na Stressidades-IDEALMED, publicado no Diário de Coimbra há talvez um mês, e que eu queria aqui ter deixado para abrir as postagens do novo ano! Mais vale tarde do que nunca! O futuro começa hoje, começa agora. Não espere ganhar cabelos brancos para começar a revolucionar a sua vida. O psiquiatra sugere certos hábitos que se vão refletir em qualidade de vida no curto prazo e que podem capitalizar no longo prazo. A saber: praticar exercício cognitivo - que pode assumir as mais variadas formas - e exercício físico, cultivar uma atitude positiva, cultivar a sintonia com quem nos rodeia e o mundo, cultivar o altruísmo e até a espiritualidade. Pistas para viver melhor. Diz o médico, não sou eu. Podem ler o texto na íntegra, aqui.


1/15/15

Os cartoonistas e a liberdade de expressão

Cartoon de Cristina Sampaio

Vi há dias um documentário intitulado Fini de rire. É da autoria de Olivier Malvoisin e Donatien Huet. Descobri ainda o site Cartooning for Peace, criado por Plantu, - um cartoonista francês,"para desaprender a intolerância" - e o site Fini de rire - Une cartographie de la liberté d'expression des dessinateurs de presse à travers le monde. 




O documentário de 52 minutos, ou melhor, webdocumentário, quer traçar o mapa da liberdade de expressão no contexto actual, que era, à altura da sua rodagem, o ano de 2006, quando estalou um dos primeiros casos mediáticos de reacção às caricaturas de Maomé e à representação religiosa. Uma dúzia de caricaturas apareceram pela primeira vez no jornal dinamarquês Jyllands Posten, em Setembro de 2005. A mais conhecida mostrava o profeta Maomé com um turbante no formato de bomba-relógio. No Islão, qualquer representação de Maomé é proibida, ou pelo menos eu fiquei com essa impressão,  a partir dessa data. O director pediria desculpas públicas e confessaria ter vergonha do que fizera, receando que mais ninguém ousasse publicar cartoons do profeta. Depois, as ilustrações foram republicadas na Noruega. Depois no jornal francês  France Soir - cujo editor acabaria demitido pelo patrão egípicio - e em dois dos mais importantes jornais da Alemanha, o conservador Die Welt, que também as colocou na sua página na internet, e o jornal de esquerda die Tageszeitung (taz). Países como a Arábia Saudita ou a Líbia fecharam representações diplomáticas na Dinamarca, os países árabes pediram a punição dos cartoonistas ao Governo dinamarquês, este distanciou-se invocando a independência da imprensa e a liberdade de expressão, condenando quem entretanto queimou bandeiras dinamarquesas no mundo árabe.

"Si vous voulez un baromètre de la liberté d’expression et comprendre les tabous dans un pays, il faut aller voir les dessinateurs de presse". Plantu.


Sim, se querem um barómetro da liberdade de expressão e compreender os tabus de um país, há que ver os cartoons de imprensa. Fini de rire mostra como a defesa da liberdade de expressão é um combate travado por todos os cartoonistas, em qualquer país em que se encontrem - as pressões podem surgir dos mais variados quadrantes. Assistindo aos testemunhos destes cartoonistas percebemos que "os muros" que eles têm de derrubar são diversos. São confrontados com conceitos como blasfémia, delito de opinião, censura, zona interdita, que, afinal, parecem nunca estar ultrapassados definitivamente. Se uns são abatidos, surgem outros. (Por exemplo, no site Fini de rire a portuguesa Cristina Sampaio representa os cartoonistas portugueses e refere que em Portugal os media são condicionados pelos grandes grupos económicos e por isso também os cartoonistas, havendo clara censura económica.)É um documentário que vale a pena ver. Fica a sugestão.

Deixo a lista dos cartoonistas que dão o seu testemunho em Fini de rire, os sites ou blogs onde podem ver os seus trabalhos,  e algumas das suas palavras:

Jeff Danziger - cartoonista político norte-americano.Já foi acusado de ofender Condoleeza Rice e os nativos norte-americanos. "Para perceber os cartoons é preciso estar atento à realidade". " O desenho é uma linguagem, mostra a realidade como ela é."

Plantu - cartoonista francês que se especializou em sátira política.Apoiou o Jyllands Posten fazendo um cartoon para o Le Monde onde a frase "Eu não posso desenhar Maomé" figurava, repetida, num rosto que parecia ser não Maomé, mas Leonardo da Vinci. Outra controvérsia: desenhou Jesus a entregar preservativos em África em vez de pão. " Os cartoonistas vêem coisas que os outros não vêem."

Rainer Hachfeld - cartoonista alemão que publica no Neues Deutschland e também no Cagle Post americano." É difícil fazer caricatura política humorista". " A caricatura pode ser utilizada no combate ideológico." " A censura existe, os cartoonistas fazem auto-censura." "O decoro substituiu a liberdade, por isso já não há caricaturas decentes nos bons jornais". " Imagens dormentes vão substituir os cartoons nos jornais." "Um pedaço de liberdade não é liberdade."

Khalil Abu Arafeh - cartoonista palestino, suportou inúmeras ameaças e viu cada um dos seus desenhos ser controlado antes de ser publicado. "Há limites que não posso ultrapassar, mas posso criticar tudo." " Um bom desenho tem mais impacto do que um artigo."

Nadia Khiari - cartoonista da Tunísia. Criou a personagem Willis from Tunis. Tornou-se conhecida durante a revolução tunisina, em 2011, quando comentou o acontecimento nas redes através do gato Willis. "Os políticos usam a religião para controlar os jornais." " O tabu político deu lugar ao tabu religioso. Se não posso publicar no jornal, uso as paredes e a rede social."

Kianoush Ramezani - cartoonista iraniano e activista dos direitos humanos - é contra a pena de morte, comum, no Irão - , que vive exilado em França, podem ver aqui os seus cartoons e também a sua intervenção na TED. " A alma do cartoon é a crítica. No Irão ser desenhador é um perigo em si mesmo." " A liberdade de expressão é a chave para perceber a liberdade. É preciso viver num país onde ela não existe para perceber como ela é importante."

Pierre Kroll - cartoonista belga que irritou os gregos com um cartoon sobre futebol. "Se algo me choca, todos têm de se sentir chocados também. Se não acontecer assim, tem de ser interditado?!"

Avi Katz - cartoonista americano a viver em Israel

Michel Kichka - cartoonista nascido na Bélgica, vive em Israel. " Existe uma diferença entre fazer crítica dentro de um quadro justo ou uma campanha do ódio. Um cartoon pode causar raiva, levar à morte. Isso mostra o poder do desenho."

Daryl Cagle - cartoonista norte-americano, editor do Cagle Cartoons. " A liberdade de expressão pertence aos editores. O cartoonista não quer desagradar o editor, quer ser publicado. O editor quer ter leitores e assinantes publicitários."

Ann Telnaes - cartoonista sueca, vive nos EUA. "Depois do 11 de Setembro era complicado criticar o Governo e as suas acções. Quando o cartoonista tem medo de desenhar, tem um problema, o seu trabalho não é ser tímido."

Aurel - cartoonista político francês

Lista de nomeados para os Oscars 2015

Melhor Filme
American Sniper
Birdman
Boyhood
The Grand Budapest Hotel
The Imitation Game
Selma
The Theory of Everything
Whiplash

Melhor Realizador
Richard Linklater (Boyhood)
Morten Tyldum (The Imitation Game)
Alejandro G Inárritu (Birdman)
Bennet Miller (Foxcatcher)
Wes Anderson (The Grand Budapest Hotel)

Melhor Ator
Steve Carell (Foxcatcher)
Bradley Cooper (American Sniper)
Benedict Cumberbatch (The Imitation Game)
Michael Keaton (Birdman)
Eddie Redmayne (The Theory of Everything)

Melhor Atriz
Marion Cotillard (Two Days one Night)
Felicity Jones (The Theory Of Everything)
Julianne Moore (Still Alice)
Rosamund Pike (Gone Girl)
Reese Witherspoon (Wild)

Melhor Ator Secundário
Robert Duvall (The Judge)
Ethan Hawke (Boyhood)
Edward Norton (Birdman)
Mark Ruffalo (Foxcatcher
JK Simmons (Whiplash)

Melhor Atriz Secundária

Patricia Arquette (Boyhood)
Keira Knightley (The Imitation Game)
Emma Stone (Birdman)
Meryl Streep (Into The Woods)
Laura Dern (Wild)

Melhor Argumento
Birdman (Alejandro Gonzalez Inarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr, Armando Bo)
Boyhood (Richard Linklater)
Foxcatcher (E. Max Frye and Dan Futterman and Bennett Miller)
The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson and Hugo Guinness)
Nightcrawler (Dan Gilroy)

Melhor Filme Estrangeiro
Ida (Poland)
Leviathan (Rússia)
Tangerines (Mauritânia)
Timbuktu (Argentina
Wild Tales (Estónia)

Melhor Argumento Original
American Sniper (Jason Hall)
The Imitation Game (Graham Moore)
Inherent Vice
The Theory of Everything (Anthony McCarten
Whiplash

Melhor Cinematografia
Birdman (Emmanuel Lubezki)
Grand Budapest Hotel (Robert D Yeoman)
Ida Ryszard Lenczewski e Łukasz Żal)
Mr Turner (Dick Pope)
Unbroken (Roger Deakins)

Melhor Filme de Animação
Big Hero 6
The Box Trolls
How To Train Your Dragon 2
Songs of the Sea
The Tale Of Princess Kaguya

Melhor Documentário
Citizen Four (Praxis Films)
Finding Vivian Myer (Ravine Pictures)
Last Days in Vietnam
The Salt of the Earth Virunga (Decia Films)

Deus é suficientemente grande para ele mesmo defender o profeta



"Dieu est suffisamment grand pour défendre lui-même son prophète".

Imã Abdelali Mamoun, nascido em França, de pais algerianos, afirma numa entrevista que existem fontes no Islão que defendem a liberdade de expressão e quer os estudiosos da teologia muçulmana, quer os jurisconsultos do direito muçulmano sabem perfeitamente que o espírito de vingança não faz parte dos seus ensinamentos. "Aquilo que a Republica garante, é aquilo que o profeta quis garantir. Ele libertou os muçulmanos do totalitarismo das idolatrias.O Corão é claro. Nunca esteve em causa impôr a fé às pessoas."

Quando hoje abri o FB apareceu-me um video de 2013 onde um imã de Ceuta dizia que as mulheres (muçulmanas) que usam perfume, ou saltos altos ou roupas justas, ou que depilam as pernas, são fornicadoras. Não vejo bem qual a utilidade da difusão desse video, mas vejo útil a difusão deste outro video, Mahomet en Une de Charlie Hebdo : la réaction de l'imam d'Alfortville. Fiz a tradução possível, se quiserem ajudar e precisar, pois o meu francês não é grande coisa, usem os comentários.O Imã Abdelali Mamoun, com página no Facebook, aqui, basicamente, depois de dizer que os muçulmanos não podem senão estar em desacordo com as caricaturas, envia a sua mensagem para os muçulmanos, que é a de que o profeta nunca aceitou ser defendido por ninguém, nem pediu ser vingado.Ele diz que esta liberdade (de expressão) é o preço a pagar para os muçulmanos puderem defender o espírito do profeta, o objectivo da liberdade é que todo o mundo tem o direito de crer ou não, de criticar ou não, assim como eles, muçulmanos, têm o direito de aprovar ou desaprovar, e é essa a beleza da Democracia, é essa a grandeza da Republica (França) da qual eles, muçulmanos hoje fazem parte. Depois o pivot pergunta-lhe se esse seu discurso é ouvido pela maioria dos seus fiéis. Ele diz, que não sabe bem o que dizer, e depois algo que não percebo bem, que são as "afiadeiras dos lápis" (talvez para os cartoonistas do Charlie?) para que cada um possa escrever e dizer o que entendem, esta é a mensagem do profeta, mesmo se isso é contra a sua pessoa, ele quis a misericórdia para o mundo, não precisa de ser defendido, deus é grande, como costuma dizer (Allahu akbar), suficientemente grande para defender ele mesmo o seu profeta, e eles, muçulmanos, devem dar o exemplo, porque são seus discípulos, discípulos de tolerância, de indulgência, mas também de liberdade de consciência e de crença.

1/13/15

Golden Globes 2015

Best Supporting Actor

Robert Duvall, The Judge
Ethan Hawke, Boyhood
Edward Norton, Birdman
Mark Ruffalo, Foxcatcher
J.K. Simmons, Whiplash

Best Supporting Actress in a Series or Mini-Series for Television

Uzo Aduba, Orange Is the New Black
Kathy Bates, American Horror Story: Freak Show
Joanne Froggatt, Downton Abbey
Allison Janney, Mom
Michelle Monaghan, True Detective

Best Mini-Series or Motion Picture for Television

Fargo (FX)

The Missing (Starz)
The Normal Heart (HBO)
Olive Kitteridge (HBO)
True Detective (HBO)

Best Actor in a Mini-Series or Motion Picture for Television
Martin Freeman, Fargo
Woody Harrelson, True Detective
Matthew McConaughey, True Detective
Mark Ruffalo, The Normal Heart
Billy Bob Thornton, Fargo

Best Actress, Television Series — Comedy
Lena Dunham, Girls
Edie Falco, Nurse Jackie
Julia Louis-Dreyfus, Veep
Gina Rodriguez, Jane the Virgin
Taylor Schilling, Orange Is the New Black

Best Television Series — Comedy
Girls (HBO)
Jane the Virgin (CW)
Orange Is the New Black (Netflix)
Silicon Valley (HBO)
Transparent (Amazon)

Best Original Score

Alexandre Desplat, The Imitation Game
Jóhann Jóhannsson, The Theory of Everything
Trent Reznor and Atticus Ross, Gone Girl
Antonio Sanchez, Birdman
Hans Zimmer, Interstellar

Best Original Song

Lana Del Rey and Daniel Heath, “Big Eyes” — Big Eyes
John Legend and Common, “Glory” — Selma
Patti Smith and Lenny Kaye, “Mercy Is” — Noah
Greg Kurstin, Sia and Will Fluck, “Opportunity” — Annie
Joel Little and Lorde, “Yellow Flicker Beat” — The Hunger Games: Mockingjay — Part 1

Best Supporting Actor in a Series or Mini-Series for Television
Matt Bomer, The Normal Heart
Alan Cumming, The Good Wife
Colin Hanks, Fargo
Bill Murray, Olive Kitteridge
Jon Voight, Ray Donovan

Best Actress — Comedy or Musical
Amy Adams, Big Eyes
Emily Blunt, Into the Woods
Helen Mirren, The Hundred-Foot Journey
Julianne Moore, Maps to the Stars
Quvenzhané Wallis, Annie

Best Animated Film

Big Hero 6
The Book of Life
The Boxtrolls
How to Train Your Dragon 2
The Lego Movie

Best Supporting Actress

Patricia Arquette, Boyhood
Jessica Chastain, A Most Violent Year
Keira Knightley, The Imitation Game
Emma Stone, Birdman
Meryl Streep, Into the Woods

Best Screenplay

Wes Anderson, The Grand Budapest Hotel
Gillian Flynn, Gone Girl
Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris and Armando Bo, Birdman
Richard Linklater, Boyhood
Graham Moore, The Imitation Game

Best Actor, Television Series — Comedy
Louis C.K., Louie
Don Cheadle, House of Lies
Ricky Gervais, Derek
William H. Macy, Shameless
Jeffrey Tambor, Transparent


Best Foreign Film

Force Majeure (Sweden)
Gett: The Trial of Viviane Amsalem (Israel)
Ida (Poland/Denmark)
Leviathan (Russia)
Tangerienes (Estonia)

Best Actress in a Mini-Series or Motion Picture for Television
Maggie Gyllenhaal, The Honorable Woman
Jessica Lange, American Horror Story: Freak Show
Frances McDormand, Olive Kitteridge
Frances O’Connor, The Missing
Allison Tolman, Fargo

Best Television Series — Drama

The Affair (Showtime)
Downton Abbey (PBS)
Game of Thrones (HBO)
The Good Wife (CBS)
House of Cards (Netflix)

Best Actor, Television Series — Drama
Clive Owen, The Knick
Liev Schreiber, Ray Donovan
Kevin Spacey, House of Cards
James Spader, The Blacklist
Dominic West, The Affair

Best Director


Wes Anderson, The Grand Budapest Hotel
Ava Duvernay, Selma
David Fincher, Gone Girl
Alejandro González Iñárritu, Birdman
Richard Linklater, Boyhood

Best Actress, Television Series — Drama


Claire Danes, Homeland
Viola Davis, How to Get Away With Murder
Julianna Margulies, The Good Wife
Ruth Wilson, The Affair
Robin Wright, House of Cards

Best Actor — Comedy or Musical
Ralph Fiennes, The Grand Budapest Hotel
Michael Keaton, Birdman
Bill Murray, St. Vincent
Joaquin Phoenix, Inherent Vice
Christoph Waltz, Big Eyes

Best Motion Picture — Comedy
Birdman
The Grand Budapest Hotel
Into the Woods
Pride
St. Vincent

Best Actress — Drama

Jennifer Aniston, Cake
Felicity Jones, The Theory of Everything
Julianne Moore, Still Alice
Rosamund Pike, Gone Girl
Reese Witherspoon, Wild

Best Actor — Drama

Steve Carell, Foxcatcher
Benedict Cumberbatch, The Imitation Game
Jake Gyllenhaal, Nightcrawler
David Oyelowo, Selma
Eddie Redmayne, The Theory of Everything

Best Motion Picture — Drama

Boyhood
Foxcatcher
The Imitation Game
Selma
The Theory of Everything

1/8/15

Quem é Charlie?


Em primeiro lugar convém não confundir sátira e insulto, este não passa de uma ofensa acintosa dirigida a alguém, ou seja, uma agressão em si mesma. Não sei quantas vezes já li nas redes “se um cartoonista desenhasse a tua mãezinha em altas cenas com Maomé queria ver como reagias”. E porque razão haveria o cartoonista de desenhar a minha mãe em altas cenas com o profeta?!!, apeteceu-me perguntar. Acham mesmo que o negócio dos cartoonistas é o insulto fácil?! Pode ser o negócio da obscenidade, da provocação, do choque, da afronta, mas nunca o da facilidade. Já agora, mãe há só uma. Não será válido dizer que possa ser tão sagrada quanto uma religião para os seus fiéis? Então também elas, as mães, deveriam ficar arredadas do traço pernicioso do lápis dos cartoonistas, já que, - li em vários comentários - religião, porque coisa sagrada, devia ficar fora do seu alcance?! A lista pode crescer, basta querermos, pois não faltarão símbolos queridos para proteger da loucura dos artistas. Vamos depois entregar-lhes a lista dos assuntos permitidos e ficar à espera de cartoons insípidos - o mundo vai tornar-se automaticamente melhor, sem ódios, sem racismo, sem xenofobia, vão ver! A verdade é esta: os cartoons de Charlie Hebdo chocam porque a religião - e não apenas ela -
 é chocante, o mundo é um lugar de aberrações, só isso

Charlie são todos os que fazem uso da censura de forma espirituosa e inteligente, ou seja satiricamente, através da escrita ou do cartoon, para tecer ironias contra certas concepções vigentes, aspectos da vida, figuras públicas, organizações, entidades, nações, etc. O humor não precisa estar presente nestas criações, pelo contrário, o quadro até pode ser bem negro, repugnante e não suscitar graça alguma. O que é essencial à sátira é a existência de uma crítica. Detectado o vício e combatido pelo lápis ou pela caneta, podemos intuir o oposto, por regra uma circunstância mais desejável, como se a sátira fosse uma arma de reforma do mundo e ousasse restaurar o bom senso. Não raro constatamos uma caricatura da situação, uma ampliação da realidade onde são exacerbados os defeitos de tal forma que a raiva pode emergir. É a doer que se faz cair a máscara que aparentemente ilude um estado de perfeição. Porque esta máscara é muitas vezes uma máscara de ferro e não é com beijos que se penetra uma tal barreira. O riso desmonta a face do horror que não conseguimos esconjurar de outra maneira. A sátira diminui o nosso sentimento de impotência. Sem ela os nossos medos seriam mais fortes e nós deles eternos prisioneiros.


Indignou-me ler que há quem responsabilize os cartoonistas não só pelo massacre como pela morte de terceiros, uma vez que prosseguiam obstinadamente a sua “agenda pessoal” sem atentar nas consequências. Houve até quem apelidasse Charb de egoísta por ter dito há uns anos atrás: "Não tenho filhos, mulher, cartão de crédito ou carro. Por isso prefiro morrer de pé do que ajoelhado!" Pergunto: e porque não responsabilizar antes o Estado francês que é sabido ter dado uma mãozinha aqui e ali a apoiantes da Jihad, por exemplo, o caso dos agentes que apoiavam o Exército Livre da Síria? Ou quem faz cair bombas que nem chuva nos territórios do Médio Oriente na mira dos seus recursos naturais? 
Ou quem pode e não faz por melhorar as condições de vida nesses territórios? Ou quem explora a mão-de-obra barata muçulmana e os empurra para subúrbios de miséria?  

Charlie são aqueles, poucos, resistentes, que não envergonham o direito à liberdade de expressão. Usar bem este direito não é para fracos. Enxovalhado de alto a baixo pelos media, que se ajoelham perante o poder, - ou os poderes, conforme mais favorável - não o questionando quando e como deviam, subservientes por interesse ou medo - e já agora ...por nós mesmos. Quem é que nunca se auto-censurou, não por respeito ou porque a minha liberdade termina onde começa a do outro, - já pensaram bem nesta ideia, porque é que as liberdades não se comunicam? O porquê de serem estanques não significará ausência de diálogo, de compromisso, de puro individualismo? - mas porque se temem as mais variadas represálias ou porque se acomodaram favores? Que fácil dizer que os cartoonistas tiveram o que mereciam quando eles apenas estavam a fazer o que os cartoonistas têm de fazer. Quer cartoonistas quer extremistas foram fiéis aos seus deuses, a liberdade de expressão, para os primeiros e Maomé, para os segundos. Só que enquanto uns desenham, os outros matam ou/e morrem para servi-los:"Morte ou vitória deverá ser o lema de todo o soldado".Vamos então pedir aos cartoonistas que se abstenham de desenhar o profeta em respeito da liberdade que devemos garantir aos muçulmanos,
 liberdade de seguir literalmente a palavra sagrada, uma liberdade que inclui intrinsecamente a execução duma sentença de morte!

Este direito é um dos pilares da Democracia, uma conquista civilizacional que nos assegura que possamos expor as nossas ideias livremente e ter acesso a opiniões de sentido contrário. É um garante da vitalidade do pensamento, permite-nos desafiar e ser desafiados, amplia a nossa visão sobre o mundo. Por causa dele podemos navegar na internet e escrever os maiores absurdos, porque sim. Este direito não é válido apenas para grandes ideias ou ideias politicamente correctas. Nós e os cartoonistas podemos chocar ou ser controversos em toda a linha, estamos no nosso direito. Além disso, se já dantes os Estados tinham a obrigação de desmantelar as barreiras à liberdade de expressão, na era da internet quase não existem entraves à circulação das ideias, sejam boas ou ruins. Vocês que acham que os cartoonistas são provocatórios pensem que o vosso comportamento diário - que tanto gozo vos dá publicitar no Facebook - é as mais das vezes uma afronta ao Islão. Já pensaram nisso? Já pensaram que os vossos actos podem, aos olhos dos muçulmanos radicais, ser tão opressivos ou indignos quanto uma caricatura de Maomé? A vossa mini-saia comprada ontem, o vosso carro de luxo à porta de casa, a minha indiferença pelos símbolos religiosos. Já viram como também estão a pedi-las?! Cubram-se e aos vossos pertences com uma burka, vivam na sombra daquilo que vos dá prazer, deixem-se intimidar, acobardem-se. Esqueçam a vossa herança europeia, renunciem a Rousseau e Voltaire – não tarda nada estão a comprar um tapete e a orar cinco vezes por dia voltados para Meca! Pois, boa sorte com o vosso ideário. Eu não, obrigada. Por isso, eu sou Charlie.

Os cartoonistas criticavam o extremismo e a barbárie cometidos em nome do Islão, entre outras áreas quentes da actualidade política, social e religiosa. Que isso possa incomodar os muçulmanos, não duvido. O simples acto de desenhar o profeta já é blasfémia. Mas a nós, o que nos devia estar incomodar o pensamento não é saber se Maomé é um intocável, porque é sagrado, - ou o Papa, ou o Presidente, ou a Amália, ou o Eusébio,- e se os cartoonistas se meteram a jeito. Antes e muito simplesmente se é aceitável que uma minoria de loucos extremistas possa matar em nome do que quer que seja em que acreditam, ironicamente num país onde o direito à liberdade de expressão que permite a actividade dos cartoonistas também permite a difusão dos ideais islâmicos. Não se iluda quem pense que pode haver qualquer espécie de diálogo entre a Europa e estes fanáticos pois até mesmo invocar o direito à vida e dizer-lhes que não matamos quem goza com a nossa cara, que lidamos com isso numa sala de tribunal, não faz qualquer sentido, ansiosos que estão por entrarem no paraíso e desfrutar das 72 virgens prometidas! Resta-nos tratá-los como os criminosos que são, salvaguardando todo o universo muçulmano que repudia esta vertente extremista, e que vão sofrer, injustamente, as consequências deste massacre nos tempos mais próximos.

O que Saramago escreveu, qualquer coisa como, “perguntaram-me como pode um homem sem religião ser bom ao que respondi como pode um homem com religião ser mau”, faz sempre eco na minha cabeça em momentos destes, onde se testa a tolerância, a solidariedade e outros valores da convivência humana, momentos onde procuro e não encontro nem explicações simples, nem soluções complexas, apenas consternação e perplexidade.



JE SUIS CHARLIE


  Video Charlie Hebdo: Rire de tout, toujours!
Video entrevista de Charbonnier sobre as caricaturas do profeta
Video: Love is greater than hate

No ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo perderam a vida cinco cartoonistas, entre outras pessoas:

- Stéphane Charbonnier, conhecido por Charb, que era também o director daquela publicação semanal;
- Georges Wolinski;
- Jean Cabut [conhecido como Cabu];
- Bernard Verlhac [conhecido como Tignous];
- Philippe Honoré)
Morreram também uma cronista/psicanalista (Elsa Cayat), um revisor de texto (Mustapha Ourrad), um economista/cronista (Bernard Maris, que assinava como Oncle Bernard – Tio Bernard), um antigo chefe de gabinete da câmara de Clermont-Ferrand (Michel Renaud), um agente de manutenção do edifício (Frédéric Boisseau) e dois polícias (Franck Brinsolaro e Ahmed Merabet). Entre os quatro feridos graves estão Philippe Lançon – crítico literário no Libération e cronista regular do Charlie Hebdo – e dois polícias.


A minha opinião, aqui, sim, eu não posso deixar de ser Charlie.