11/13/18

Tempo de poesia: Ithaka, de Constantine Cavafy





Do arquivo online do poeta Constantine Cavafy, retirei esta imagem para ilustrar um grande poema. A curiosa legenda: "A spread from Constantine Cavafy’s last passport, listing “Poet” as occupation and two discrete birth dates, both erroneous."

"Ithaca" é baseado no relato de Homero sobre a jornada de regresso a casa de Odisseu. O que nos ensina? Que, tal como numa viagem, a vida é para se viver a cada minuto retirando dela o melhor proveito e sem esperar o fim. Desde que não cedamos aos nossos medos, superados os obstáculos inevitáveis, ficaremos, por essa via, mais fortes e aptos para enfrentar novos desafios.

Ithaka 

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

Translated by Edmund Keeley/Philip Sherrard


(C.P. Cavafy, Collected Poems. Translated by Edmund Keeley and Philip Sherrard. Edited by George Savidis. Revised Edition. Princeton University Press, 1992)

Para ler mais poemas, ou a biografia do poeta grego, visite também este site. 

Para ouvir o poema Ithaca, na voz de Sean Connery, aceda ao Youtube.

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.


Constantino Kabvafis (1863-1933)
in: O Quarteto de Alexandria - traduziu José Paulo Paes.

11/11/18

Orangotangos em perigo de extinção - animação da Greenpeace



Rang-tan, animação narrada por Emma Thompson, produzida pela Greenpeace e escolhida pela Iceland foods, uma das mais importantes cadeias de supermercados do UK, para ser o seu anúncio de Natal, não chegou aos ecrãs, impedida pela Clearcast, orgão regulador, em virtude de infringir regras do Comunications Act, de 2003, que proibem fins políticos nas campanhas publicitárias.

Aquele supermercado comprometeu-se no início do ano a eliminar o óleo de palma das suas marcas. A escolha do anúncio espelharia esse comprometimento com o ambiente ao alertar contra a desflorestação e consequente perda do habitat dos orangotangos, que a produção de óleo de palma acarreta, por exemplo, na Malásia.


There's a Rang-tan in my bedroom
 and I don't know what to do.
 She plays with all my teddies
 and keeps borrowing my shoe. 
She destroys all of my house plants
 and she keeps on shouting 'oo'. 
She throws away my chocolate 
and she howls at my shampoo. 
There's a Rang-tan in my bedroom 
and I don't want her to stay, 
So I told the naughty Rang-tan
 that she had to go away. 
Oh, Rang-tan in my bedroom,
 just before you go, 
Why were you in my bedroom?
 I really want to know. 
There's a human in my forest
 and I don't know what to do. 
He destroyed all of our trees 
for your food and your shampoo. 
There's a human in my forest 
and I don't know what to do. 
He took away my mother 
and I'm scared he'll take me, too. 
There are humans in my forest 
and I don't know what to do. 
They're burning it for palm oil
 so I thought I’d stay with you. 
Oh Rang-tan in my bedroom 
now I do know what to do.
 I’ll fight to save your home 
and I’ll stop you feeling blue. 
I’ll share your story far and wide
 so others can fight too.
 Oh Rang-tan in my bedroom
 I swear it on the stars: 
the future's not yet written 
but I’ll make sure it's ours.


A floresta onde o orangotango vive está a ser destruída para abrir caminho à produção de óleo de palma - um ingrediente usado para fabricar produtos para marcas como Unilever, Mondelez e Nestlé. Se não agirmos, mais habitats preciosos serão arruinados, os Povos Indígenas poderão perder suas casas e esta espécie poderá extinguir-se.

Se inscrever o seu nome na petição da Greenpeace está a enviar um sinal às grandes marcas para pararem de usar o óleo de palma proveniente da destruição de florestas.

Há uma orangotango no meu quarto
e eu não sei o que fazer. 
Ela brinca com todos os meus ursinhos 
e pede meu sapato emprestado. 
Ela destrói todas as plantas  
e ela sempre grita "oo". 
Ela atira meu chocolate
e ela uiva no meu champô. 
Há uma orangotango no meu quarto 
e eu não quero que ela fique 
Então eu disse à malandra Rang-tan 
que ela tinha que ir embora. 
Oh, orangotango no meu quarto, 
antes de ir embora 
 Por que estavas no meu quarto? 
 Eu realmente quero saber. 
 Há um humano na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Ele destruiu todas as nossas árvores
 para sua comida e seu champô. 
 Há um humano na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Ele levou minha mãe 
 e estou com medo 
que ele me leve também. 
 Existem humanos na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Eles  queimam-na para fazer óleo de palma
e então pensei em ficar contigo. 
 Oh orangotango no meu quarto
 agora eu sei o que fazer. 
 Eu vou lutar para salvar a tua casa 
 e acabar com a tua tristeza
 Compartilharei a tua história em todos os lugares 
 para que outros possam lutar também. 
 Oh orangotango no meu quarto 
 Eu juro pelas estrelas: 
 o futuro não está ainda escrito
 mas vou fazer com que nos pertença.


11/10/18

Filosofia de um pardal


11/9/18

Aumenta em 2019 o preço dos bilhetes do Castelo de S. Jorge



A EGEAC, empresa municipal, desenvolve há mais de 20 anos, a gestão de actividades e espaços culturais em  Lisboa, como os teatros São Luiz, museus, galerias de arte e monumentos como o Padrão dos Descobrimentos ou o  Castelo de São Jorge.  Se nunca foram até ao topo da colina desfrutar da bela vista sobre Lisboa, passear entre muralhas e aprender um pouco sobre o passado da cidade, podem consultar estas Informações Gerais. O que primeiro nos importa saber quando queremos visitar um monumento ou museu, é como chegar lá, horário de abertura ao público e depois que preços vamos pagar.  São informações convenientes para que não sermos apanhados de surpresa, como eu fui.

Visitei o Castelo de São Jorge em Setembro do ano passado. Estava em Lisboa por questões profissionais e sobrou-me tempo. Quando assim acontece aproveito sempre para visitar uma exposição ou um monumento. Muni-me de coragem para enfrentar a subida num dia de calor intenso e  lá fui, desde o Terreiro do Paço, seguindo a orientação da Sé Catedral, levada pelo instinto, devagar, um pouco ao acaso, por ruelas, cotovelos e escadinhas, desde a baixa da cidade até ao topo, sempre rodeada por muitos turistas. Só depois tomei conhecimento que podemos aligeirar o percurso a partir da zona da Baixa/Chiado se utilizarmos dois elevadores para alcançar a Alta. O primeiro fica na Rua dos Fanqueiros, n º 176, e leva ao Largo Adelino da Costa onde, um pouco à esquerda, fica o supermercado Pingo Doce. Aí ficaria o segundo elevador, cuja saída nos deixa próximo da entrada do Castelo. Subi a força de músculo e fui assistindo a algumas quedas motivadas pelo piso ora irregular ora polido. Algumas pessoas de idade, outras com algum peso a mais, talvez fumadoras, sofriam debaixo de sol e bebiam das garrafitas a cada meia dúzia de passos. Não ia nem vestida nem calçada de forma muito confortável e mesmo antes de iniciar a subida fui forçada a fazer um desvio para entrar numa sapataria ao acaso e mudar para umas sandálias frescas e confortáveis. Esta despesa não prevista deixou-me algo aborrecida pois sabia que em casa não faltava calçado confortável e não gosto de acumular desnecessidades, e, sobretudo de gastar dinheiro não previsto. Todavia a sola anti-derrapante foi uma benção inesperada.

Ao chegar à entrada do Castelo de S. Jorge o corropio de gentes era extraordinário. Há alguns anos atrás isto não seria assim a um dia de semana, talvez só no pico do Verão e ao fim-de-semana. Foi o que imaginei. Observando constatei que a maioria dos indivíduos era estrangeira. Muitos aproveitavam para ouvir um jovem que cantava em inglês, dedidalhando um teclado de forma convicta e profissional, debaixo de uma árvore. Sentados nos marcos de pedra, aproveitando a sombra, alguns até cantavam, embalando o corpo na melodia. Sentei-me também que a subida tinha sido demorada, comendo  do copo a fruta morna e em pedaços que comprara uns metros abaixo a um vendedor ambulante. Ao meu lado uma jovem mãe norueguesa, também sentada numa pedra, e junto dela uma criança louríssima num carro de bebé, que logo estendeu os bracitos de desejo para a minha melancia.

Após o descanso procurei as bilheteiras e pedi uma entrada. Inocentemente estendi 5 euros. A senhora disse-me que o custo da entrada era de 8.50 euros. Se há coisa que acho bem empregue é dinheiro para a cultura em todas as suas formas. Não defendo o acesso grátis à cultura, nunca defendi. O que é grátis tende a ser desvalorizado e cultura precisa de manutenção, de promoção, de ser pensada, re-pensada e tornada acessível, muitas vezes de forma inovadora. Mas achei excessivo. O que haveria lá dentro para justificar tal quantia? Não sendo criança - que entram de borla até aos 12 anos mas só se apresentarem um comprovativo, - nem tendo entre 13 e 25 anos - grupo que pagaria 4 euros -,  não estando ainda no escalão sénior dos maiores de 65, em que pagaria 7 euros, e não residindo no Concelho de Lisboa, o que confere acesso grátis, não tinha outro remédio senão pagar por inteiro. Não residindo lá, poderia voltar num domingo ou feriado, caso em que se entrasse entre as 9h00 e as 14h00 poderia, igualmente, usufruir do privilégio da borla. Ao esticar a mão brinquei para aligeirar o meu incômodo questionando-a: " E ser natural de Lisboa não dá direito a desconto?" Mas a rapariga não era dada a humores e limitou-se a dizer que ao Domingo, blá, blá, blá, era mais barato, blá,blá...Esta alfacinha inconformada lá trocou a nota por um magro papelito. Julgo que na saída saquei um mapa do monumento do expositor para me orientar no recinto. Notem que os residentes no concelho de Lisboa não pagam entrada no Castelo de São Jorge apenas se apresentarem o cartão do cidadão e souberem o PIN. Entra mais depressa um camelo pelo buraco da agulha: onde é que andará o PIN, o que é o PIN, perguntarão ao ler esta linha, alguns.

Posso estar  a exagerar mas creio que as bilheteiras dão ocupação a uma meia dúzia de pessoas ou mais. O Metro de Lisboa não tem um serviço igual, que eu saiba, uma ou duas pessoas engaioladas em guichets em algumas das estações e máquinas. Por falar nisso, será que máquinas para vender os bilhetes  tornariam o preço dos bilhetes mais acessível? Ah, e estas pessoas iram fazer o quê, Belinha? Assim pelo menos têm trabalho. À entrada para o Castelo creio que havia um torniquete que se desbloqueava com a leitura do código do bilhete. Ali junto estava um segurança a olhar para mim com ar examinador como se eu fosse uma carteirista em potência. Mais um salário, pensei eu. Esta gente tem de pagar contas e tu estás a contribuir para isso, Belinha. Mas estaria? Para onde vai o dinheiro cobrado nas bilheteiras do Castelo?

Hoje não se pode criticar o turismo, como se fosse ele a tábua de salvação por excelência do PIB. Evidente é que o PIB cresce com o turismo. Mas a que custo? Na descida do Castelo, após a visita, uma logista de artes comentou comigo que todos os moradores daquela rua tinham saído ou sido convidados a sair. Ela resistia mas que quando escurecia até já sentia medo por estar ali só. Mercearias e vendas de hortaliça tinham fechado. Cafés, tinham fechado. As suas casas tinham sido remodeladas ou estavam a sê-lo. A rua estava deserta de moradores permanentes. Só se ouvia falar "estrangeiro". Uma última família estava a pensar sair dali pois já não suportava a constante subida de carrinhas com turistas ruidosos e tuk-tuks. Ora, defendendo eu que a melhor forma de gastar dinheiro que existe é viajar e conhecer outras paragens, poderia parecer uma contradição escrever contra o "corropio de gentes". Infelizmente é como lêem. Não é só a descaracterização dos lugares onde tudo está a ser transformado para servir o turista: é a chegada ao fim de todo um modo de viver a cidade pelos seus cidadãos naturais, expulsos para a periferia. E também pensar os nossos monumentos como uma oferta para os estrangeiros, não para os nacionais. Ou estarei a ver mal as coisas?

Longe de mim considerar que é mau que muitos possam correr o mundo porque os bilhetes de avião se tornaram mais baratos. Afinal, de que me queixo eu neste laudo pouco técnico? Do preço do bilhete de entrada para o Castelo de S. Jorge!  Mas a paisagem humana e arquitectónica está a mudar vertiginosamente em cidades um pouco por todo o mundo. Por cá  o fenómeno é sobretudo notório em Lisboa e Porto. Mas já era nosso conhecido, até meu conhecido em primeira mão, por ter vivido grande parte da minha vida numa praia onde todos os residentes temiam a chegada do Verão: que se acabava o espaço para estacionar, que os preços do mercado disparavam, que os restaurantes serviam melhor os de fora, que os senhorios queriam que saissem no verão para arrendar aos banhistas, etc. O exemplo mais visível de descaracterização continua a ser o Algarve. Mas essa mudança ocorreu em décadas. Agora, em meia dúzia de anos, as deslocações low-cost geraram uma vaga de mudança à prova de crítica por todos quantos ali encontram a sua galinha dos ovos de ouro. Mas não deverá ser impossível encontrar um equilíbrio entre o que se pode ganhar e o que se pode perder, assim haja diálogo esclarecedor e, se falhar, punho firme de quem pode regular o crescimento desenfreado deste turismo voraz. Aliás, é hoje notícia a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de suspender a autorização de novos registos de estabelecimentos de alojamento local em algumas zonas da cidade.

Mas voltemos à vaca fria: o preço dos bilhetes para entrar no Castelo de São Jorge. A Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa (EGEAC) , que foi criada em 1995 com o nome de EBAHL – Equipamentos dos Bairros Históricos de Lisboa, acaba de informar que vai subir o preço das entradas de 8,50 para 10,00 euros. Eis excerto do comunicado: “Tendo efetuado uma análise comparativa (em Portugal e no estrangeiro) aos valores de ingressos em monumentos de importância similar e concluído que os valores praticados pela EGEAC são inferiores à média, em 2019 pretendemos também ajustar os preços dos bilhetes de entrada no Castelo de São Jorge (de 8,5 euros para 10 euros) " (...) “a partir de janeiro de 2019”.

É um verdadeiro  "Sobe, sobe, preço sobe", a Manuela Bravo bem podia fazer daqui uma nova canção. Desde o início da sua actuação  que a agora EGEAC assumiu a gestão da área museológica e o bairro do Castelo. Até 2004 o acesso ao castelo era gratuito. Talvez em 2002, passou a 3 euros. Passados 2 anos o preço foi elevado para 5 euros.  Em Junho de 2010 os preços aumentaram de 5 para 7 euros, ao que parece de forma inesperada, o que terá desagradado aos habitantes da área. No site da empresa  lê-se:"Apostados no rigor e na qualidade da nossa acção, continuamos a crescer em número de públicos, visitantes e de realizações culturais, determinados na democratização do acesso aos bens culturais." No comunicado à agência Lusa referem que "A EGEAC ressalva que “as tabelas de descontos introduzidas em 2018 prevêem diversos mecanismos que acautelam a possibilidade de plena fruição desses monumentos por parte dos residentes em Lisboa, os jovens e os seniores”. Parece que também os desempregados já podiam ir ver as vistas de borla, obviamente mediante comprovativo, mas o site do Castelo não informa, no presente momento, quanto a isso. Notem as alterações principais nestes grupos etários a partir de Janeiro de 2019: os jovens a partir dos 13 e até aos  18 anos, que não residam em Lisboa, passam a ter 50% de desconto, isto é, pagam 5 euros, enquanto que dantes pagavam 4 euros até aos 25 anos; os maiores de 65 anos passam a pagar 8,50 euros quando dantes pagavam 7 euros.

Uma voltinha mais e descobri dois packs de bilhetes que podem ser comprados online e que incluem o Castelo de São Jorge. Para simplificar o acesso a alguns espaços culturais a EGEAC agrupou-os em packs temáticos: por 22,50 euros, visita o Castelo de S.Jorge + Museu do Fado + Museu do Aljube + Museu de Lisboa (Teatro Romano, Santo António, Casa dos Bicos); por 16,50 visita o Castelo de S.Jorge + Museu de Lisboa (Teatro Romano). Veja aqui, via Blueticket. Curiosamente não está no Lisboa Card.

Uma vista de olhos pelo site e parece-me que a EGEAC tem, efectivamente, desenvolvido uma acção positiva, tendo efectuado melhoramentos significativos no Castelo e desenvolvido actividades diversas que aproximam a fruição do monumento dos vários públicos mediante contrapartida monetária, ou de forma gratuita, explorando múltiplas possibilidades. Podem ali realizar-se festas de aniversário, concertos musicais, exposições, seminários, reuniões de empresa, mediante contrapartida, mas também existem visitas guiadas para todos, até em várias línguas, incluidas no preço do bilhete, três tipos de visita são possíveis, além de visitas de exploração orientadas por especialistas, geólogos, restauradores e arqueólogos, chamadas Tertúlias de Inverno, que apenas precisam de inscrição. Não estou a ser exaustiva. Do que sei, a Exposição Permanente, o espaço onde me demorei mais tempo e de que gostei bastante, - trata-se de uma colecção constituída por um acervo de objetos encontrados na área arqueológica (Sítio Arqueológico, de acesso condicionado), proporcionando a descoberta das múltiplas culturas e vivências que desde o século VII a.C. ao século XVIII foram contribuindo para a construção da Lisboa da atualidade, com particular destaque para o período islâmico do século XI-XII - foi uma criação de iniciativa da EGEAC.

Ora noutro ponto dos " instrumentos, que foram apreciados pela Câmara de Lisboa e serão agora discutidos em Assembleia Municipal," estima-se que o Castelo de São Jorge receba cerca de dois milhões e 40 mil visitantes este ano, número que deverá crescer para mais 50 mil em 2019. Li vários títulos de notícias, dos últimos anos, em que já era esta a tendência. Em 2016, "(...) o Castelo de São Jorge, nada mais nada menos do que o monumento mais visitado no país. Com perto de cinco mil entradas diárias, 2016 foi o ano em que o Castelo de São Jorge bateu o recorde de visitas. "Está visto que o Castelo de São Jorge é a galinha dos ovos de ouro da EGEAC.

Encontrei uma notícia onde a EGEAC  informou que a maioria dos visitantes é estrangeiro ao mesmo tempo que exalta o record no número de visitas ao Castelo em 2014:"O Castelo de S. Jorge, em Lisboa, recebeu no ano passado 1.025.153 turistas, um aumento de 3,4% em relação a 2013 e o maior número de visitantes de sempre, revela a empresa municipal encarregada da animação cultural (EGEAC)." Anos mais tarde, em 2016, apenas 6% do total de visitantes são portugueses"Continua a ser o monumento mais visitado do país e, no ano passado, teve quase cinco mil visitas por dia (4.912). Em comunicado, a estrutura que gere o espaço sublinha que "a subida é particularmente notória junto do público estrangeiro (+13,8%), mas também se faz sentir junto dos nacionais (+1,5%)".

Bem que a EGEAC faz questão de frizar a sua determinação na "democratização do acesso aos bens culturais", todavia, se vejo a tentativa em teoria, na prática, as coisas talvez não sejam tão democráticas. O que a mim me parece, e desenganem-me pois posso estar a pensar mal, é que o Castelo se tornou um monumento para capitalizar no fluxo de turistas estrangeiros, não para captar a visita dos portugueses. Um casal jovem, não residente, com uma filha adolescente, pode pagar 25 euros para poder entrar; dois reformados, mas mal reformados, 17,00 euros. Têm de se deslocar até Lisboa. Dá que pensar antes de se meterem a caminho.  

E, ainda, quais são os critérios usados pela EGEAC para a avaliação da "importância" que terá determinado a subida de preço: é o Castelo de São Jorge mais importante que o Castelo de Guimarães? Mais belo que o castelo de Santa Maria da Feira ou de Marvão? Será porque recebe mais visitantes que os outros todos juntos? Ou é porque fica na capital e os outros na província? E também gostava de saber de que forma foi feita essa tal "análise comparativa realizada em Portugal e no estrangeiro". Como não tenho tempo nem saber para elaborar instrumentos de análise que englobem diversos monumentos, fui apenas espreitar quanto pagaria para visitar o, quanto a mim, importante Castelo de Guimarães, que visitei há muito tempo:

Entrada Normal 2,00€
Maiores de 65 anos 1,00€
Cartão de Estudante 1,00€
Cartão Jovem 1,00€
Até 12 Anos Gratuito
Bilhete Conjunto:
Paço dos Duques + Castelo de Guimarães 6,00€
Paço dos Duques + Castelo de Guimarães + Museu de Alberto Sampaio 8,00€
Entrada gratuita aos Domingos e feriados até às 14.00h para todos os cidadãos residentes em território nacional.

...e depois fui ver do belo Alcazar de Segóvia, um castelo espanhol que visitei há menos anos que o de Guimarães.Tão belo por fora, como por dentro, com recheio diverso, não é nem aparentado com um castelo do tipo da fortaleza de Lisboa, mas é um dos que visitei no estrangeiro, na nossa vizinha Espanha. Ora, nem mais: os agentes da cultura acabam de divulgar um pdf com estes números:

General: 5,50 € (Visita libre) +Visita guiada suplemento de 2 €
Reducida: 3,50 € Colegios, grupos concertados, mayores de 65 años, Família numerosa (todos acreditados como tal)
Segovianos: 1 €
Torre: 2,50 €
Gratis: (Solo palacio) Todos los martes (no festivos) de 14.00 a 16.00 h para miembros de la UE  
Pareceu-me evidente que o Castelo de São Jorge oferece possibilidades diversas que justificam o pagamento de uma entrada: isso é inquestinável. De certa forma ir a Lisboa e nunca ter visitado o Castelo era para mim como ir a Roma e não ter visto o Papa! Na minha opinião, a fortificação do séc. XI é um espaço espectacular onde se justifica quer uma visita descontraida, quer uma visita em busca da História. A sua imponência terá sido esmagadora em tempos passados, os vestígios ainda o são. Não imagino que o entardecer ali seja coisa menos que espectacular: o sol a baixar, o vasto horizonte a encher-se de matizes e as luzes da cidade a iluminarem cada esquina. Bastaria essa conjugação, que convida ao relaxe, à contemplação, ao passeio em conversa, ainda muito subaproveitada, quer no tratamento que podia ser dado ao espaço, quer nos hábitos dos alfacinhas, -  já que, para nós, (para mim?) será cada vez mais difícil considerar o Castelo para um simples encontro de amigos,-  para ir até lá. 

Os mais interessados na História têm muito ali para aprender; os mais afoitos e enérgicos vão encontrar muitas escadas para subir, muralhas para calcorrear e torres preservadas para conquistar, portas lendárias para descobrir. Infelizmente, uma queda de anos incutiu-me pavor de escadas e foi a custo que subi e desci, algumas, para alcançar, por exemplo, a Torre de Menagem onde a bandeira portugesa está hasteada: sempre bem agarrada às parede e corrimão, é, mesmo para os destemidos, aconselhável cuidado, adultos e crianças não podem descurá-lo! E que tal subir a escadaria de São Lourenço e fotografar Lisboa como Stanley Kubrick há tanto tempo também fotografou? Miradouro privilegiado, os fotógrafos podem deliciar-se a fazer fotografia das muralhas do Castelo, têm dali uma vista privilegiada sobre a cidade (Baixa, Costa do Castelo, Alfama, Mouraria, Santana), e sobre o Tejo. Ao longe avista-se a Serra da Arrábida e a silhueta de Palmela. Na Torre de Ulisses, o herói grego que, segundo a mitologia, aportou no porto de Lisboa no regresso triunfal para Ítaca, fica a Câmara Escura, sistema óptico de lentes e espelhos, é, creio, uma espécie de Google View, que permite observar a cidade em tempo real. Foi a primeira localização do arquivo da Torre do Tombo. Isto uma das coisas curiosas que aprendi, e também que Lisboa, antes Olisipo, também foi al-Ushbuna. Não fui espreitar a cidade em tempo real, havia fila enorme a subir pelos degraus da escada que conduzi aà porta da torre, e, por certo, lotação máxima, fiquei com receio de apenas perder tempo. Por uma questão de tempo e falta de previsão também não me juntei a nenhuma visita guiada, que seria muito enriquecedora, compensando, depois, a busca de informação na internet. Identifiquei oliveiras, pinheiros, alfarrobeiras, avistei aves diversas, papagaios, faisões, mas onde me demorei mais foi na Exposição Permanente, observando tudo e lendo a informação disponível, muito interessante. Infelizmente não havia um folheto disponível que me permitisse trazer algum do conhecimento que não consegui reter. Dentro do Castelo existem ainda os vestígios do antigo Paço Real da Alcáçova, um café, um restaurante (Chamado dos Leões)  que fica num espaço onde os reis guardaram leões, quiosques onde me aprecei a comprar um gelado para me refrescar. Só à saída do monumento reparei na estátua de São Jorge! Apesar de muitos visitantes, dada a área, não senti lotação enquanto circulava. 

O Castelo de São Jorge pode ser vivido de muitas maneiras. A EGEAC tem um papel positivo na dinamização desta atração turística. Até consigo entender o pensamento objectivo e frio, do gestor cultural: se o monumento não parece ser  suficientemente interessante para os nacionais, porque razão pensar no poder de compra dos nacionais quando se fixa o preço dos bilhetes? Talvez em vez de ir ver o Castelo as pessoas prefiram antes ficar em casa a ver histórias de castelos e dragões na TV, ou talvez não possam mesmo pagar 10 euros ou mesmo 8,50 euros e tenham de fazer contas à vida para poder antes comprar carne, fruta e pão. A cultura não mata a fome, é coisa de que se prescinde facilmente, um luxo em que se corta sem hesitações de maior. Quem não tem um hábito de consumo de cultura também nunca tem apetite para ela. Quem tem, talvez pague os 10.00 euros, como eu, que prescindo da TV e prefiro ver pedras e dragões de carne e osso, mas afinal para me sentir profundamente roubada, em Portugal, em Lisboa, na cidade onde nasci. 

11/8/18

Turista ou viajante? Qual és tu?


Cada vez mais o turismo é uma actividade que divide as opiniões. Actualmente, com a vaga do turismo low-cost, em muitos lugares do mundo os turistas são considerados uma praga. Há registos de  violência contra os equipamentos turísticos e marchas anti-turistas em Espanha e Itália. Não é, todavia, de hoje a ideia de que há uma linha que separa o turista do viajante. E não é a linha do horizonte de uma qualquer bela paisagem. O turista seria uma criatura menor que o viajante desprezaria.  Não subscrevo a distinção: não só o turista pode ser um viajante como o viajante pode ser turista. Os traços distintivos não são privativos de cada um, podem coexistir, ao mesmo tempo ou espaçados, serem ditados não por escolha mas por inevitabilidade, oportunidade, etc. Rótulos há muitos. Temos essa necessidade, parece.

Se agora o turista é frequentemente menorizado, também o viajante sempre foi por demais endeusado ao longo do tempo. E alguns viajantes, que tinham mão para a escrita, ficaram célebres, e, confesso, sou grande devoradora de literatura de viagens. Acredito que alguns desses escritores fossem movidos por algo mais do que simplesmente conhecer o mundo: viajar seria, para eles, uma forma de se  perderem para se encontrarem, isto é, partiam para longe por estarem convencidos de que o destino os reconduziria a um melhor conhecimento de si mesmos, e isso através das suas experiências no desconhecido, simultaneamente um desafio e um teste. Teriam, talvez, uma vocação para o nomadismo, que foi um traço de sobrevivência de comunidades humanas longínquas, e seriam animados de uma curiosidade maior e um sentimento de aventura que se transformavam em paixão pela estrada. Não se podem confundir alguns desses autores com turistas, talvez nem sequer com viajantes. Quando se faziam ao mundo não era, seguramente, de férias, e tão pouco, para somente viajar. O seu espírito era o de verdadeiros exploradores, de si e daquilo que os rodeava.

Então reza assim a história. Era uma vez um passado, pós Revolução Industrial, época a partir da qual se diz terem-se reunido dois factores essenciais para haver turismo: tempo livre e dinheiro!  Era um passado em que poucos calcorreavam o mundo e então não havia magotes de gente e enxamear castelos, igrejas, templos, praças e palácios. Nesse tempo, esses lugares ainda não tinham chegado ao top das preferências mundiais dos visitantes não porque não tivessem manifesto valor histórico, cultural e/ou beleza, mas porque muitos ainda não sabiam sequer da sua existência: não havia internet nem designers de comunicação que em dois cliques e meio no Photoshop  juntavam fotos belissimas com frases sedutoras e preços convidativos. E dos que sabiam, nem todos tinham tempo e/ ou meios de lá chegar. Hoje tudo mudou. Vivemos a época do turismo de massas, esse flagelo, dir-se-ia quase uma praga bíblica. Não é fenómeno para desprezar e muito menos ignorar: há casos em que a pressão do turismo criou sérios problemas. Veja-se o relato do ocorrido em Dubrovnik onde nem locais nem turistas aproveitam da cidade. Hoje há gente com tempo livre e dinheiro e transportes que nos levam a todo o lado: todos querem escapar à rotina e partir. Parar é morrer! A cultura do ócio é quase tão forte como a cultura do trabalho. E foi então que, para muitos, se tornou mais clara a distinção entre o viajante e o turista. Qual deles és tu?

Para os defensores da tipologia, há formas de viver a experiência de correr mundo que demarcam uns e outros: o turista consome souvenirs, o viajante alimenta-se de experiências. O turista é um comprador tradicional e previsível de pacotes turísticos, segue os seus programas e não se distância deles; o viajante tem um perfil mais alternativo, está disposto a arriscar o desconhecido e a mudar de rota sem grandes dilemas. O turista seria sempre uma criatura de perfil mais egoísta, mais centrado em si e por isso, a sua objectiva fotográfica, hoje digital, não o perde de vista. Dantes com tripé, hoje armado de pau-de-selfie, publica sistematicamente no Instagram, no Facebook,  assim transformados em álbum de viagem onde se mostra aos outros nos lugares por onde andou. O turista apenas desejaria coleccionar selfies nos spots turísticos dos postais ilustrados, desprezando outras cores mais locais mas menos berrantes, que não enchem o olho aos seus fãs na internet mas por onde o viajante jura que fica de alma cheia. 

O turista lida mal com contrariedades e não procura ver o que de bom ainda possa existir no imprevisto. Para o viajante o imprevisto faz parte da experiência, que ele assimila como se um pires de papa Nestum com Mel se tratasse. Tudo é história de viagem, mais, aceitar o imprevisto é parte importante da sua filosofia de viagem. Não gostaria todavia, de apostar, qual dos dois tipos seria, um homem que uma vez vi, desesperado, no balcão do check-in, por não o deixarem embarcar por não ter com ele o cartão de crédito (da empresa) com que o bilhete tinha sido comprado. Podia bem ser um turista, mas por outro lado parecia ter cara de viajante a quem a papa Nestum tinha caído mal.

Para os viajantes, querer visitar lugares que todos visitam no mundo e que fizeram a identidade cultural de um país é uma péssima ideia: o que é bom é ficar longe dessa banalidade. Ou seja: esqueçam os Jerónimos ou a Torre de Belém, porque isso é tudo uma enorme chatice que começa nas filas e acaba na dificuldade de conseguir fotos limpas de gente. Aventurem-se e visitem antes o Palácio da Ega. Da Ega, e não do Egas da Rua Sésamo. Isso é que é. Mais autêntico. Mais despojado. Isto faz sentido? Para mim não passa de pura snobice. É sempre possível tornar mais rica a nossa experiência desses "lugares comuns" que todos anseiam por visitar. Dela faz parte aprender a olhar, demorar-se, aceitar uma visita guiada ou procurar informação na internet sobre o mesmo. Não é preciso ir conhecer o Portugal profundo e esquecido para se sair enriquecido. A medida da nossa valorização cultural não deveria ser apenas a qualidade dos locais que visitamos e mais a qualidade do nosso interesse neles.

O turista, esse ser caricatural segundo o viajante, não pivilegia nem a deslocação a pé, nem o transporte público preferindo chegar depressa e sem incómodos ao destino. Se puder ir no seu carro é excelente, alugar um também, de taxi também marcha ou de Uber. Tudo o que possa servir para fugir à ditadura dos horários é bem bom. O turista é como o astronauta que se mete no foguetão e quer chegar à Lua para ali espetar a sua bandeira. Chegou, espetou, está feito. Embora para outro spot antes que se acabe o mundo. Ora, em que galáxia é que o tempo não é um recurso escasso? Na que eu conheço ainda é. Verdade que muitas pessoas têm o tal tempo e o tal dinheiro que permitem o ócio. Mas a maioria compra bilhete de ida e volta. A viagem é uma história que tem um número de páginas definido, que pode até já estar alinhavada mas que conta com um final já escrito chamado regresso a casa. Nunca temos todo o tempo do mundo e cada um saberá como tirar o melhor proveito dele. E sendo assim cada minuto conta! Tic-tac! Tic-tac! Quem sou eu para condenar o turista se ele tem oito dias apenas para visitar Lisboa, com viagem de avião e jet-lag incluidos em vez de um mês?! E um orçamento reduzido? E se quer visitar 2,7 monumentos por dia?!

A interação e contactos com locais é uma coisa secundária para o turista, que o viajante não dispensa. É por isso que todos os viajantes que conheci aprenderam a falar Português numa semana com uma app qualquer no Smartphone. Já o turista não sabe mesmo falar português, nem sequer domina o calão de bolso, - sim, ele até passou pelo Porto mas diz caralo em vez de caralho. Como vai interagir com os locais? Felizmente a linguagem gestual nunca desaponta. É assim que vejo que  conseguem comer um pastel de  Nata ou uma francesinha, castanhas assadas com pele e tudo - ninguém lhes disse que era para remover nem estava escrito (em inglês) no pacote que o vendedor lhes entregou. E ainda dizem que apontar é feio! A fominha que eles passariam se não usassem o indicador! Vieram ao engano a  Portugal ver as vistas sem saber  que tinham de fazer um curso de língua portuguesa antes de aterrar na Portela. Para interagir com os locais, obviamente. Contaram-lhes a lenda de que por cá somos todos poliglotas assim como haveria sempre alguém que os levasse ao colo ao Castelo de São Jorge caso fosse preciso. Os turistas acreditaram. Os viajantes, não.

O turista não tem qualquer desejo de meter o pé numa praia selvagem onde nenhum ser deixou pegada há pelo menos 10 anos porque ainda ninguém ouviu falar dela e isso é, justamente, o problema: não marca pontos no álbum de cromos da internet. Já o viajante anseia por uma experiência única e transcendente de que ele e só ele se possa gabar. Mas, convenhamos, uma praia deserta de que ninguém nunca ouviu falar, é coisa tão rara de arranjar. E mais: uma praia deserta, sem nadador-salvador sequer, deserta mesmo, é má ideia: quem é que quer mergulhar no desconhecido e afogar-se? Desde quando mergulhar na cultura local tem de ser sinónimo de potencial morte? Não, obrigada.

Também se diz do turista ser um enorme comodista, que busca sempre uma segunda casa longe de casa, não desejando abdicar dos mínimos de conforto a que se habituou: o pior receio do turista é dormir mal e comer pior fora da sua zona de conforto, a sua casa, o seu país, detentor da melhor gastronomia do mundo! Mais do que isso: até mesmo aqueles que dormem em qualquer lugar onde se encostem, no metro, no bus, na mesa de trabalho, ao volante, por pouco não causando acidentes, quando em viagem não conseguem pregar olho em condições menos que perfeitas. Basta ler as opiniões que escrevem na internet nos sites de Booking: "Havia na parede do nosso quarto a marca de uma sola de sapato, também leve mancha vermelho escuro de onde pendia uma probóscide de um mosquito. Um nojo. Como é que se pode dormir num quarto assim?" ou " Pensava que as minhas férias de Verão na praia iam ser maravilhosas, mas de noite levanto-me para ir à casa de banho e quando piso na areia sobre a tijoleira toda eu me arrepio. Isso fez-me perder o sono. Regressei com enormes olheiras. Não voltarei a esse lugar. "E mesmo aqueles que não se assumem como um bom grafo no país de origem, transformam-se num mal passam fronteira e não encontram garfada que os satisfaça. O prato aterra na mesa e antes de saber o que é tudo aquilo, se vegetal, se tem OGM, se é local; se animal, os pormenores da sua morte, tempo de preparação e coisa e tal, não tocam no garfo.  Exigentes e chatos, os turistas. Já o viajante não enjeitará experimentar um tipo de pernoita menos confortável, até mesmo uma cama de pregos, à faquir, e procurará o sabor local com sofreguidão, sendo até capaz de comer de olhos fechados, se for esse o ritual do país, ou a repulsa sobrevier no momento de engolir, tudo em nome da autentiticidade da sua experiência. Qual  chefe Bourdain, estão até prontos a comer "Balut", algures no Vietnam, um ovo fertilizado que é cozido depois do embrião já se ter desenvolvido. Mas como estamos em Portugal, levemo-los à maravilhosa Ericeira a provar uma caneja de infundice, um prato que me disseram cheirar a mijo. Lá está: é tudo uma questão de gosto. Ou desgosto.

O turista procura viajar de companhia. Começa em criança a viajar com a famíla, depois faz a viagem de curso com os colegas e o inter-rail com os amigos, posteriormente atrela-se por amor à cara-metade e assim vai por essa estrada fora, e, por fim, viaja em família com os filhos, revive a infância. O turista documenta-se profundamente: resvira blogues de viagens e encomenda três guias pela internet, um  que já vá, pelo menos, na 20ª edição, para ser garantidamente bom, antes de se decidir quanto ao destino. A opção de viajar só amedronta-o ou se não o amedronta, pelo menos não o cativa. Também os há que gostam apenas de viajar em grupo: ali sentem-se parte da matilha e seguem o líder, o guia, gostam de ir a reboque, só assim se sentem confortáveis, ou melhor, descontraídos. Quando tudo acaba nem sabem bem por onde andaram mas têm para dizer que foram.

Já o viajante abomina grupos, prefere viajar sózinho,  o que lhe dá a possibilidade e a liberdade total para observar, conhecer e interagir com os locais e de ficar em contacto com o espírito dos lugares que visita. Dispensa ser conduzido em manada e tem desprezo pelo guia histórico, esse livro abjecto que anda a vender destinos turísticos a milhares de pessoas que, depois, arrasam a sua experiência de viajante nesses mesmos lugares com a sua presença anti-ecológica, anti-maneiras, anti-bom gosto, anti-tudo, e por isso ele os evita: turistas e atrações turísticas.

Pergunto como distinguir um turista de um viajante ali na fila para os Jerónimos. Fácil: se perguntarmos ao viajante se era ele, o dito dirá que não, que isso é monumento muito visto, que ele era aquele tipo que estava no acanhado beco do Chão Salgado, a tentar alcançar a dimensão da tragédia dos Távoras e a escrever notas no seu Moleskine. O viajante ainda pensa que pode ser hoje uma espécie de Fernão Mendes Pinto, escrever o seu próprio guia de viagem e impressionar o mundo vindouro com as suas desobertas de coisas nunca vistas...

Em 2015 uma empresa indiana chamada Holidify criou uma série de infografias  Tourist- Traveller, que na ocasião vi no site Bored Panda, que teve o condão de meter blogueiros e sites do mundo inteiro a dicutir os bonequinhos. Vi-os, por essa ocasião,  no site Bored Panda. Hoje motivaram esta reflexão mais ou menos divertida, que todos já tinham feito, menos eu. No Bored Panda faltava a selecção de citações emblemáticas que originalmente os acompanhavam, quando foram publicadas no Facebook, pela Holidifay, pelo que os reproduzo no final deste texto. Observem-nas e decidam: Turista ou viajante. Qual és tu?



“Do not follow where the path may lead. Go instead where there is no path and leave a trail” 
– Ralph Waldo Emerson


“All journeys have secret destinations of which the traveler is unaware.”
– Martin Buber


“Our happiest moments as tourists always seem to come when we stumble upon one thing while in pursuit of something else.” — Lawrence Block


“A good traveler has no fixed plans and is not intent on arriving.”
– Lao Tzu


“Tourists don’t know where they’ve been, travelers don’t know where they’re going.”
– Paul Theroux


“The use of traveling is to regulate imagination by reality, and instead of thinking how
things may be, to see them as they are.”– Samuel Johnson


“One’s destination is never a place, but a new way of seeing things.”
– Henry Miller


“There are no foreign lands. It is the traveler only who is foreign.”
– Robert Louis Stevenson


“Travel is more than the seeing of sights; it is a change that goes on, deep and permanent,
in the ideas of living.”– Miriam Beard


“No one realizes how beautiful it is to travel until he comes home and rests his
head on his old, familiar pillow.”– Lin Yutang


“Life begins at the end of your comfort zone.” – Neale Donald Walsch


“For my part, I travel not to go anywhere, but to go. I travel for travel’s sake.
The great affair is to move.”– Robert Louis Stevenson


“A traveler without observation is a bird without wings.”
– Moslih Eddin Saadi


“The world is a book and those who do not travel read only one page.”
– St. Augustine

“A journey is like marriage. The certain way to be wrong is to think you control it.”
– John Steinbeck



11/2/18

Cavalos-marinhos em risco de extinção na ria Formosa


Por © Hans Hillewaert, CC BY-SA 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22106851

A diminuição alarmante da população de cavalos-marinhos na Ria Formosa, Algarve, é notícia no Expresso: em seis anos desapareceram quase 600 mil. Fui apanhada de surpresa já que tinha na ideia títulos quer referiam números redondos de presença daquela espécie na ria, talvez o único local português onde possam viver e reproduzir-se bem. A Ria Formosa é uma região de sapal, que se estende pelos concelhos de Loulé, Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António, abrangendo uma área de cerca de 18 mil e 400 hectares ao longo de 60 quilómetros, desde o rio Ancão até à praia da Manta Rota. É aí que se encontram ervas-marinhas que constituem verdadeiros prados submarinos que fornecem abrigo, alimento e locais de reprodução aos cavalos-marinhos. De acordo com uma descoberta de Janelle Curtis em 2001-2002, em Portugal viveria uma das maiores colónias do mundo, com números superiores aos medidos na Austrália, África do Sul e Filipinas.

Enigmáticos na forma e misteriosos no comportamento, estes animais capturam facilmente a nossa atenção, supreendem-nos pelas mais variadas características: é o único peixe com a cabeça perpendicular ao corpo. É um peixe apesar de não ter escamas. É o macho a dar à luz, 100 a 200 juvenis, fertilizando internamente os óvulos que a fêmea deposita numa bolsa na base da sua cauda. Em algumas espécies, os dois animais têm uma relação monogâmica ao longo do ciclo reprodutor, exibem ritos de acasalamento, cumprimentos diários, fazem natação sincronizada, entrelaçando a cauda e nadando nesse peculiar "abraço". Depois de 2 semanas a 30 dias de gestação, dá-se o parto: o macho tem verdadeiras contrações e expele os pequenos seres. Mas poucos sobrevivem. Faz um descanso de meia hora e está pronto para acasalar novamente! Os cavalos-marinhos não têm estômago ou dentes, sugam as presas através do focinho tubular. O que não se aproveita é expelido por orifícios que se situam atrás das orelhas! São predadores vorazes de comida viva e em movimento: esperam até que a presa passe por perto o suficiente para ser sugada. Cada olho do cavalo-marinho move-se independentemente permitindo que o cavalo-marinho aproveite ao máximo a sua área de busca: crustáceos pequenos, peixes, etc, são o menu de eleição. Tem alguns predadores, como pássaros, caranguejos e até ratos, sendo a camuflagem a sua melhor defesa. O homem é o seu inimigo maior.

O biólogo Miguel Correia, referido pelo Expresso, está envolvido no Projecto Seahorse, e já em 2017 referia que eles estavam em declínio: "Conseguimos identificar algumas causas, quer naturais, quer antropogénicas. Um dos grandes problemas é a degradação ambiental, do habitat de fundo, o desaparecimento de macroalgas às quais os cavalos-marinhos se agarram e que precisam para estabelecer as suas colónias". Na Europa, e pelo mundo, tem sido detectada uma diminuição de pradarias marinhas fundamentais para fixação dos cavalos-marinhos. É, pelo menos tranquilizador, saber que se estuda o problema: Cavalos-marinhos em risco na Ria Formosa?, é um estudo desenvolvido pelo Grupo de Investigação em Biologia Pesqueira e Hidroecologia (CCMAR, Universidade do Algarve) em parceria com o Project Seahorse (University of British Columbia e Zoological Society London). Este é um projeto que pretende determinar as causas do declínio das populações e contribuir para elaboração de um plano de recuperação e conservação destas duas espécies na Ria Formosa. O que faz exactamente? Dedica-se a investigar as causas determinantes do declínio acentuado nos efectivos de H. hippocampus e de H. guttulatus , espécies protegidas, da Ria Formosa; promove acções de divulgação e contribui para a elaboração de um plano de recuperação e de conservação das duas espécies, testa a eficácia de unidades artificiais de abrigo e investiga a eventual deslocação dos indivíduos para habitats alternativos. Este projecto venceu a 1ª edição do "Inaqua - Fundo de Conservação do Oceanário de Lisboa e National Geographic Channel".

Mas a maior ameaça à sobrevivência do cavalo-marinho no mundo é a sua captura para venda no mercado asiático da medicina tradicional oriental. A par do ginseng é o ingrediente mais solicitado. Os chineses acreditam  que  os cavalos-marinhos têm propriedades doces e quentes e estão associados aos meridianos do fígado e do rim, de acordo com os preceitos da medicina tradicional chinesa( MTC). Usam-no para tratar a asma, infecções na garganta, insónia e dor abdominal. Também pode ser aplicado na pele para tratar infecções e feridas na pele. Acreditam também que o cavalo-marinho seja um poderoso afrodisíaco, para aumentar a potência sexual. Para a impotência, alguns praticantes da MTC recomendam uma mistura de 3 gramas de cavalo-marinho em pó, tomado três vezes ao dia com vinho de arroz. Cavalo-marinho em pó também pode ser aplicado externamente.

É inimaginável o volume de cavalos-marinhos capturado no mundo e consumido na China. O aumento na procura deu-se a partir da melhoria da economia chinesa que alargou o consumo a não privilegiados. Desconhecia que o problema da captura ilegal para abastecimento do mercado asiático já se verificava em Portugal! Mas é real: "Os rumores de que havia captura ilegal para o mercado asiático, de centenas de indivíduos diariamente, e de que se vendiam cavalos-marinhos secos a cinco e 10 euros a unidade já eram há muito uma certeza. Mas o pior é que essa prática continua", relata Miguel Correia, na citada notícia do Expresso.

O início da prática pode ter começado há cerca de três anos: os chineses vieram à caça de pepinos do mar, que acreditam ter propriedades terapêuticas, e descobriram a existência de cavalos-marinhos na ria, muito mais rentáveis que os pepinos. Compradores chineses e intermediários espanhóis frequentam a doca de Olhão e os pescadores portugueses são seduzidos pelo lucro fácil que é prometido através da captura da espécie de comercialização proibida. Na pesca furtiva, por arrasto de vara, dizimam não só a comunidade mas também o habitat, as macroalgas, as pradarias, onde os animais se prendem pelas caudas. As autoridades não estão a dormir: em 2107 foi notícia a família portuguesa, de Olhão, apanhada em flagrante delito a traficar cavalos-marinhos a um casal espanhol, de Cádis, região a sul de Espanha.Os cinco detidos estão acusados do crime "contra a fauna e flora e tráfico ilegal de espécies ameaçadas". Mas estão longe de ser eficazes. A fiscalização da Ria cabe ao ICNF -Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, e Polícia Marítima, que não têm os meios necessários e suficientes para fazer a devida vigilância: a equipa existente é reduzida, os infractores são hábeis, as espécies protegidas da ria, estão, de facto, desprotegidas.

Uma coisa é certa: a população de cavalos-marinhos, à semelhança de tantas outras espécies, está em decréscimo no mundo inteiro e Portugal não escapa à tendência. Em resumo, o que é importante saber?

Que os cavalos-marinhos necessitam da nossa protecção

- biologicamente são seres muito interessantes e não apenas devido à sua peculiar forma de reprodução, algumas espécies são monogâmicas;
- ecologicamente, eles são predadores no seu eco-sistema, contribuem para o seu equilibrio (peixes do fundo marinho);
- são fonte de rendimento para certas comunidades de pescadores em muitas regiões do mundo.

Que existem ameaças muito variadas à sobrevivência dos cavalos-marinhos

- a pesca massiva, a sobre-exploração, e a pesca irregrada em que se capturam cavalos-marinhos pequenos, ou fêmeas com os ovos dentro ou os machos com os ovos na bolsa, em todos estes casos deviam ser deitados ao mar para permitir o crescimento e a reprodução; 
- a destruição do seu habitat, nomeadamente através de pesca de arrasto que destrói as pradarias, o fundeamento descontrolado de embarcações, cujas âncoras criam zonas vazias de vegetação marinha, a extração de areia nas áreas onde vivem, as dragagens, a presença de actividades nas mesmas águas, por exemplo, aquaculturas, os mergulhos turísticos de avistamento que sinalizam as colónias para os infractores;
- factores de pressão de origem humana em virtude das espécies viverem perto da costa, sofrendo as implicações da vida humana costeira, a poluição, por exemplo, o fácil acesso ao seu habitat;
- o excesso de embarcações de observação da fauna ou desportivas causa stress aos animais alterando o seu batimento opercular (vital para a obtenção de oxigénio)
- a sua elevada procura no mercado asiático da medicina tradicional chinesa 
- outra procura: fornecimento para aquários ou secos para decoração ou souvenirs, artesanato como pisa-papéis, chaveiros, e também para a gastronomia, estando à venda como petisco frito e estaladiço, em muitas ruas de Beijing, etc. 
- 14 das 42 especies de cavalos marinhos são consideradas vulneráveis. Não há muita informação sobre a espécie, poucos cientistas se dedicam ao seu estudo.

Que é importante proteger os cavalos-marinhos!

- através do estabelecimento de proteções comerciais globais sob a CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção) e trabalho com os governos para garantir que seu comércio não coloque em causa a  sustentabilidade da espécie; 
- através de políticas nacionais e internacionais de conservação da espécie;
- mediante acções de sensibilização e informação do cidadão para o valor da espécie, da sua sobrevivência; 
- promovendo a divulgação da informação sobre como agir quando se avista um cavalo-marinho: não se deve tocar no animal pois isso danifica a camada protectora, não se deve agitar o fundo marinho em demasia, não se deve pegar o animal para fotografar ou usar flash aquático repetidamente,  deve ser-se cuidadoso nos mergulhos para não danificar as pradarias. Existe até um código de conduta elaborado para os cavalos-marinhos pigmeu , por exemplo;
- através da recolha e partilha de informação. Ver organizações como a The Seahorse Trust, de Kealn Doyle, Sealife Trust Seahorse Campaign, Project Seahorse, etc.




Para finalizar, duas propostas:

1. A leitura de Seahorses under siege, do blogue de vida marinha The Liquid Earth

2. O visionamento do documentário de 2011,   Seahorseman (Youtube) ou aqui, no GentNews (Seahorseman), com menos publicidade. Ficha técnica, aqui.

Seahorse Man é um documentário bem interessante narrado pelo carismático John Hurt. Filmado em  Connemara, Dublin, Indonésia e China , tem 57 minutos e dá-nos a conhecer o biólogo marinho irlandês Kealan Doyle a sua tentativa obstinada de salvar o cavalo-marinho da extinção.  Doyle, conhecido por Seahorse man, enfrenta dificuldades várias ao tentar criar cavalos-marinhos em cativeiro, acaba por entrar no comércio de peixes tropicais e assim ter fundos para a sua pesquisa. Em 2010 consegue, finalmente, um sistema que permite criar os animais. Mas o mercado chinês (China, Taiwan e Hong-Kong) é o que é preciso conquistar. A solução que encontra para travar a extinção da espécie é abastecer o mercado e garantir a subsistência dos pescadores: trata-se fazer conservação prática. Viajamos com ele  até à Indonésia, vemos como se pesca, como se vende, como se lucra, degradando o ambiente para enriquecer intermediários. A importância da pesca para a sobrevivência das comunidades piscatórias contrasta com o alarme pela diminuição de cavalos marinhos pescados. Na China, torna-se clara a dimensão do peso cultural da captura da espécie e a crença nas propriedades medicinais do cavalo-marinho. Com Doyle percorremos docas, zonas palafíticas, mercados, lojas repletas de cavalos-marinhos secos, restaurantes onde ele é servido, entramos num moderno hospital de medicina chinesa e numa  empresa que fabrica  cavalo marinho em pó para consumidores que têm dinheiro e não querem perder tempo a fazer sopas e poções. Para Doyle só se pode salvar o cavalo-marinho se se compreender a sua importância para a cultura chinesa. Assim ele apresenta-se aos empresários chineses como potencial fornecedor e solução para um problema que já aflige quem está no negócio: a progressiva dificuldade em pescar cavalos-marinhos em áreas onde anteriormente ele era abundante face à crescente procura e a confirmação de que os chineses já tentaram a criação em cativeiro, mas que falharam. Doyle, no final, identifica como crucial a necessidade de educar os jovens chineses sobre o perigo de extinção da espécie e de trabalhar com comunidades de pescadores que nada sabem, pescando indiscriminadamente juvenis e cavalos marinhos em pleno ciclo reprodutor. Com surpresa, encontra receptividade.

Seahorse man é simultanemante terrível e esperançoso mas sobretudo elucidativo até das razões porque estão a sacar cavalos-marinhos da Ria Formosa mesmo debaixo das nossas barbas. Se não for encontrada uma alternativa, perante o que nos é mostrado neste documentário, é fácil acreditar e temer que os chineses não vão parar de pescar até ao último cavalo-marinho por esses oceanos fora.

3. Leia ainda o relato de espanto de quem viu um cavalo-marinho na Ria Formosa! (Só não devia ter tocado neles!)

4. ...e veja esta fotografia de um cavalo-marinho que se tornou viral pelo pior motivo e que o fotógrafo  Justin Hofman preferia que não existisse.

5. Avistou um cavalo-marinho ao vivo e a cores? Faça o registo aqui: Iseahorse