2/11/16

No Dia dos Namorados sugiro Lagosta


É um dos filmes mais bizarros que vi nos últimos tempos. Foi realizado por Yorgos Lanthimos, um realizador de nacionalidade grega. É o primeiro filme que vejo dirigido por ele e chama-se A lagosta. É um misto de comédia negra e terror, mas do tal que não causa sobressaltos, só uma certa náusea e desconforto mental. Lembrei-me de escrever a propósito uma vez que estamos em cima do Dia dos Namorados. Não sucede comigo mas dizem que esta data deprime os solteiros e que causa ansiedade nos casais. Pelos vistos é uma temporada de alta pressão para todos. A minha sugestão maliciosa é que vejam A Lagosta  no conforto íntimo do vosso sofá. É uma história de amor, encaixa no espírito da época, ainda que um filme assim surreal possa gerar sentimentos contraditórios de paixão ou ódio, tal como o Dia de São Valentim. Convém jantar algo leve para fazer a digestão de um par de cenas mais grotescas e a imprevisível tragédia dos minutos finais.

Imaginem então um tempo e um lugar onde o sistema não tolera gente solitária. Um pouco como o que parece acontecer no Dia de São Valentim, aquele dia escalado para lembrar a forma como a sociedade glorifica o amor romântico em tons de vermelho e cor-de-rosa. É aquela altura do ano em que tudo parece conspirar para o enaltecimento dos pares, aquele que mais se aproxima da dicotomia que o filme nos mostra: um mundo dividido onde os que estão sós são olhados como diferentes. No filme, não ter par é pior do que ser diferente, é ilegal. Não ter vida conjugal acaba por determinar a perda da condição humana, essa inabilidade ou incapacidade de acasalar despromove os indivíduos à condição de animais, seres irracionais. (Mas há algum humor nisto: uma vez no mundo natural eles têm uma segunda hipótese de encontrarem o seu igual.) Ali, quem ficar sem parceiro é preso e forçado a fazer um retiro de 45 dias num Hotel durante o qual procurará um novo par entre os hóspedes. Se não conseguir será transformado (cirurgicamente) num animal selvagem da sua escolha e depois libertado nos arredores. Se o tempo expirou existe uma possibilidade de conseguir mais algum participando em caçadas de solitários na floresta. Estes indivíduos recusam o check in no "Hotel do amor" e escondem-se ali. Por cada solitário abatido – são anestesiados e levados para o hotel para serem transformados em animais - ganham um dia extra.

David é um recém divorciado que foi abandonado pela mulher e chega ao hotel de semblante carregado, acompanhado por um cão, o seu irmão, que, ficamos a perceber, não tinha sido bem sucedido no internamento compulsivo. David é interpretado por Colin Farrell, mais gordinho do que é habitual e com um pouco atraente bigode! O ambiente que o aguarda é o mais impessoal possível, todos recebem vesturário idêntico e passam pelos mesmos rituais. Todos se expressam e movem com particular abandono e inexpressão. David tenta conformar-se com o seu novo modo de vida, faz amizades entre os homens e tenta a sua sorte com as mulheres. A rotina é hostil e completamente controlada pelos gerentes do Hotel através de um estrito código. Por exemplo, os casais que entretanto se formarem podem jogar ténis, mas os solitários só podem jogar golfe. Se os homens forem apanhados a masturbar-se o castigo surge pela manhã: na sala onde todos se juntam para tomar o pequeno-almoço é servida uma tostadeira onde eles serão forçados a meter a mão transgressora. Os hospedes devem encontrar um parceiro com quem tenham algo em comum: por exemplo, deitarem ambos sangue pelo nariz ou gostarem de bolachinhas, ou coxearem. Os defeitos e não as qualidades actuam como factores chave para ditar uma boa relação. (E porque não quando nos dias da internet parecem bastar fotos com poses artificiais e mensagens superficiais nas redes para juntar duas pessoas num romance. ) Os mais desesperados não hesitam em fingir um desses traços ainda que falsas ligações sejam monitorizadas, porque proibidas, e sancionadas. São os gerentes que avaliam a aprovam as ligações amorosas. Se tudo correr bem, o casal enfrenta um teste: uma estadia a dois num barco. E se surgirem problemas os gerentes atribuem ao casal em conflito uma criança entendida como o agente desbloqueador por excelência.

David tenta uma aproximação a uma mulher conhecida por não ter coração, mas a sua crueldade é de tal ordem que ele não consegue fingir idêntica natureza e é desmascarado. Mais perto de ser tranformado numa lagosta – o animal que ele escolhe por ter sangue azul, e viver 100 anos e ser sempre fértil – ele foge para a floresta e junta-se ao grupo dos solitários. Para sua surpresa – e minha - o grupo é igualmente dominado por um código cruel. Também ali não há liberdade para as pessoas sentirem e serem como desejam ser, quem for apanhado a beijar-se terá os seus lábios cortados. A regra é o celibato. A líder mobiliza-os em assaltos ao Hotel com o objectivo de desmascarar a pretensa harmonia em que os casais ali vivem e provar que as suas vidas são uma farsa. David encontra então um novo amor – e a mulher perfeita é perfeita porque vê mal, tal como ele - e é correspondido. O casal apaixonado elabora formas de viver e comunicar o seu amor sem suspeitas mas acaba por ser descoberto. Nada podia correr pior? Podia. A fuga é a única saída.

Bem interpretado, bem realizado, cuidado na construção dos ambientes e escolha dos exteriores, A lagosta conta com uma banda sonora muito presente onde a trechos de compositores clássicos - Beethoven, Shostakovich, Stravinsky - se juntam êxitos recentes, a balada Where the Wild Roses Grow, de Nick Cave e Kylie Minogue, ou Something’s Gotten Hold of My Heart, cantado com apuro ridículo pelo casal de gerentes durante um baile no Hotel.

A Lagosta é um filme que tanto cativa como causa repulsa. A sua estranheza desconcertante e violenta e o seu humor seco e peculiar não são para todos. Tornam até difícil reconhecer que há nele uma certa ternura. O que parece, analisados os dois lados deste estranho mundo, é que poucos indivíduos têm a coragem para se revoltar preferindo até fingir aquilo que não são, no primeiro caso, ou aceitar serem guiados por um líder que os manda cavar a própria cova na floresta para quando a morte chegar. O poder do sistema, seja ele qual for, para conformar a vontade dos indivíduos é grande. E aqueles que encontram forças para escapar terão de pagar o seu preço. Encarado assim A Lagosta é até um filme muito revolucionário. Mas quem sabe o que Yorgos Lanthimos, o realizador, realmente quis dizer? Feliz Dia dos Namorados!



2/9/16

It follows - Vai seguir-te. Este filme não é um horror de filme.


Ontem à noite vi um filme de terror - It follows. Isso merece destaque. Eu não vejo filmes de terror. Não porque seja medrosa mas porque é um género que nunca me atraíu. Apenas vi meia dúzia deles, os chamados clássicos. Não procuro ver, acho que é sempre tudo muito mau, más histórias, personagens feias a fazerem coisas feias, muito sangue, muitos gritos, enfim, não há pachorra. Qual a finalidade? Dar saltos na cadeira? Desviar o olhar? Ora bolas, a realidade tem histórias bem mais arrepiantes. Para que preciso eu dessas coisas monstruosas, sobrenaturais para não dizer estúpidas? O terror não me diverte, não me entretem, não me ensina nada. Há anos que eu milito nesta crença. Até que o ano passado uma voz começou a segredar-me ao ouvido – tens de ver It follows. Eu tratei de ignorar, mas a voz continuava - tens de ver It follows. A voz perseguiu-me durante meio ano. Filme atrás de filme. – Vais ver esse? Porque não vês antes It follows? Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Ontem vi It follows. E querem saber? É um bom filme de terror. Nem acredito que tenha colocado estas palavras numa mesma frase! E mais:é um filme protagonizado quase exclusivamente por gente na casa dos vinte e poucos anos. Juventude. Infelizmente a maioria dos argumentos trata os jovens actuais como estúpidos. Tanto as personagens como os espectadores. Ser jovem actor em Hollywood é o equivalente a uma maldição - os coitados são autenticamente perseguidos por argumentos irrelevantes e esterotipados. Sempre surgem umas excepções aqui a ali, claro, e It follows, pasmem, é uma excepção.

Ora, eu sou a última pessoa que pode escrever sobre as personagens maléficas dos filmes de terror. Não sou conhecedora. Norman Bates, claro. Chuckie e  Freddie Krueger. Todos estes nomes fazem parte da cultura popular, são óbvios. Consigo ainda nomear Samara mas páro aí. Curiosamente em It follows o terror não tem nome, não tem face. É como se fosse um vírus, tem existência material mas não se vê no primeiro contacto. Não será isso mais aterrorizante? Tal como Contagion, de Steven Soderbergh, não? Em It Follows  a maldição transmite-se por via sexual. É difícil não pensar na SIDA e nos tempos em que ser infectado era visto por muitos como um castigo para quem vivia na promiscuidade.  Em It follows a pessoa “infectada” passa ao par a sua doença e esta para se livrar dela terá de passar a maldição a outrém também por via sexual. Enquanto não o fizer ela será perseguida por uma entidade que pode assumir qualquer rosto, amigo, inimigo, conhecido ou não, e essa entidade não descansará enquanto não a matar. Essa entidade, por mais zombie que pareça, no seu passo lento e aparência, nunca desiste. Mas há mais: se a pessoa a quem o infectado passou a doença for apanhada, a maldição regressa ao hospedeiro inicial. A partir desta simples ideia se constrói todo o filme.  

Com It follows, não damos saltos na cadeira, bem pelo contrário, ficamos colados a ela. A atmosfera do filme faz-nos enterrar nos estofos e oprime-nos, subjugando-nos à incerteza do que estamos a ver. Os movimentos de câmara envolvem-nos nela, a banda sonora colabora de forma magnífica neste propósito. O terror corporiza-se naquelas criaturas que mais não fazem do que caminhar lenta e resolutamente na direção de quem querem matar. Não se sabe quando nem de que forma. Não passa disto mas é supreendentemente bom. É como se Jay, a protagonista, tivesse sido marcada para morrer por um assassino que permanecesse escondido à espera do melhor momento para lhe tirar a vida. É nesta intermitência que a história evolui, como se de um pesadelo ou de uma alucinação se tratasse. Os interiores e exteriores ajudam na construção de um certo alheamento espacial e temporal, uma irrealidade reforçada pela quase ausência de adultos. 

Os jovens são todos excelentes actores, bem escolhidos, em especial a protagonista que espero consiga dar o salto para desafios maiores. Será vulgar encontrar poemas – The love song, of J. Alfred Prufrock de T.S. Elliot , sim tive de procurar no Google – e textos de Dostoevsky em filmes de terror? Não sei. Mas há neste uso do escritor russo uma pista encontrar um sentido para todo o exercício desenvolvido no filme: o maior sofrimento não é morrer, é saber que se vai morrer. Uma história bem contada é sempre uma boa história, ainda que seja uma história de medo. Eis a conclusão.  Posto isto, acho que vou procurar mais alguns títulos do género. Aceitam-se sugestões.

2/7/16

Receita de bolo de maçã Lavoisier



E depois de termos dado uma voltinha pela alimentação saudável - ver a postagem sobre o filme That Sugar film ou sobre o livro Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável - eis o eterno retorno às coisinhas doces. Hoje é dia de bolo de maçã, como é que alguém pode resistir a um lindão assim? Eu sempre gostei de bolos de maçã e esta receita tem um nome especial - é o bolo de maçã Lavoisier. Lavoisier enunciou a lei da conservação da massa.  Hoje em dia não falta quem se preocupe com a massa e a queira conservar. O leque de pesquisas em torno da massa é variado: onde consegui-la? Como consegui-la empregando o menor esforço, meios e tempo? De que forma poupar a massa ou fazê-la render depois de adquirida? O diabo da massa parece governada por leis próprias e de difícil aceitação para a maioria. Por mais que tentemos esticá-la, ela nunca chega ao final do mês; além disso parece não se manter constante, parecendo como que evaporar-se! Até Lavoisier concordaria que esta massa está cada vez mais volátil!

Voltando à massa, Lavoisier não foi nenhum pasteleiro ou chef famoso. Eu sei que nem toda a gente sabe quem ele foi. Casou com uma menina de 13 anos! Ficou conhecido como o pai da Química! Morreu guilhotinado aos 50 anos! Não é grave não saberem estas coisas. Eu dispensaria saber muitas coisas inúteis mas elas entram-me pelos olhos dentro. Já as coisas úteis tenho que procurá-las pois elas não andam por aí aos trambolhões em memes ou nas notícias cor-de-rosa. Muita gente não procura por Lavoisier no Google porque ele está morto, não precisa dele. Logo não sabe. Está melhor essa gente do que todos aqueles, como eu, que não precisando das celebridades gramam com elas em toda a parte. Bom, parando com a inútil divagação, quando eu escrevi "massa" não me queria referir a massa de bolo ou de bolachas ou sequer "pasta". Estava a referir-me ao conceito científico de massa de que muitos cérebros irrequietos se ocuparam, caso de Lavoisier - ou Newton -  que, como não tinham redes sociais para perder tempo, nem TV, se dedicaram afincadamente ao estudo da mecânica. De acordo com a Wikipédia, "Os estudos experimentais realizados por Lavoisier que levaram-no a concluir que, numa reação química que se processe num sistema fechado, (onde não há troca de matéria com o meio ambiente) a massa permanece constante, ou seja, a soma das massas dos reagentes é igual à soma das massas dos produtos. " 

Que fique claro que eu só dei este nome ao bolo por brincadeira e porque me ajuda a distinguir esta receita de bolo de maçã de outras receitas, e porque me dá assunto para escrever esta postagem. Lá porque se retirem as cascas às maçãs e se piquem e metam na massa, não se perdendo, não quer isso dizer que seja exemplificação, nem que romântica, da lei que diz que a matéria está sujeita a constantes transformações, mas jamais à destruição ou criação. "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", dizíamos, na escola, de forma mais simples. Eu sei, é parvo. Mas assim sei sempre a que bolo me refiro pois receitas de bolo de maçã há quase tantas como leis de mecânica!

Ironicamente Lavoisier morreu precocemente por causa da massa. E agora quando escrevo massa refiro-me mesmo àquela  massa que faz girar o mundo, como canta a Liza Minneli no filme Cabaret. Associou-se a uma sociedade privada que cobrava impostos em nome da corte. Graças a essa decisão e rendimentos das acções ele conseguiu financiar a sua investigação. Mas eis que estalou a Revolução Francesa e os membros da Fazenda Geral acusados de usar ilicitamente os dinheiros do povo foram julgados e condenados. Lavoisier, então com apenas 51 anos, foi forçado a despedir-se da vida. Façam o bolo, leiam a biografia e conservem a massa!

E até que enfim, dirão, a receita do bolo Lavoisier. Fácil, fácil.

Receita de Bolo de Maça Lavoisier

Ingredientes
3 ovos
3-4 maçãs de tamanho médio, usei Royal Gala
3 chávenas de farinha de trigo sem fermento
1 chávena e meia de açucar
1 chávena de óleo
1 colher de sopa de fermento em pó
1 colher de chá de canela
1 colher sopa rasa de farinha de trigo

Preparação
Descascar as maçãs e cortar em pequenos cubos, colocá-los numa taça grande.
Envolver numa colher de farinha de trigo - diz que faz com que a maça não afunde.
Picar as cascas.

Misturar numa outra taça: ovos, óleo, cascas picadas, canela, açucar.
Juntar o fermento e misturar bem.

Juntar a farinha à mistura. Incorporar lentamente, mexendo bem.
Por fim juntar aqui as maçãs cortadas e envolver.

Untar uma forma de buraco com manteiga ou margarina e enfarinhar.
Deitar a massa e levar ao forno a 180º por 35 - 40 minutos.


Apontamentos

Vida e obra de Lavoisier, aqui.


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