10/16/17

Um dia de fogo na Marinha Grande - 15 de outubro de 2017














Muitas questões a lavrar-me por dentro. Temos o conhecimento mas ainda não interiorizámos rotinas de prevenção e alerta. Persistimos em comportamentos de risco fruto de hábitos antigos, tradições, vícios de carácter. Os tempos mudaram e o tempo mudou. O clima mudou. Temos de mudar muito e muita coisa. Não temos é coragem para assumir tamanha empresa. E enquanto isso o país espera que não aconteça o pior. Mas acontece. O país arde e morre gente. Se é algo complexo, que demora a ser feito, então vamos iniciar a tarefa quanto antes, agora, já. Do mais fácil para o mais difícil, de possível em possível. Que todos os que concorrem na responsabilidade se impliquem na solução. Que se chame quem sabe a pensar e a fazer o que pode ser feito antes que Portugal desertifique e se transforme no norte de África. E já agora que se coloque quem sabe à frente da tomada de decisões importantes. E que se pare de distribuir lugares de responsabilidade pela cor dos lindos olhos. E se apurem falhas porque gerir estes assuntos não pode continuar a ser um rega-bofe: quem aceita ou mostra estar à altura ou responde pelo desaire, em Lisboa ou na província. Até parece que quanto mais importante o posto mais desculpáveis os erros. Tudo isto é coisa que vem de longe, de muitos verões passados. Não me digam não ser agora o tempo de julgar e criticar, que as vítimas exigem o recolhimento e o infortúnio pede o luto: o tempo já era ontem e ontem já era tarde. Sim, continuo irada pelo que assisti e pelo que antevejo ainda.E também porque não posso fazer nada a não ser vociferar e gesticular para o ar como uma idiota. E também por saber que nada me garante que quem está à frente dos nossos destinos não falhe de novo. Errar é humano mas não aprender com os erros é descrédito. E isso é pior que falhar de novo. Se isto não é o inferno é, todavia, um ciclo infernal que Portugal não merece, ninguém merece esta desolação. Não nos entreguemos sem luta à conformação de que não se pode fazer melhor.

Sugestão de leitura: 

"Paulo Fernandes, perito da Comissão Técnica Independente, alerta que poderiam ter sido tomadas medidas perante o elevado risco metereológico. Furacão Ophelia elevou o perigo de incêndio para recordes nacionais" Ler o texto integral, aqui.

10/12/17

A mancha do Photoshop

Ontem de tarde passei cerca de meia hora a tentar apagar uma mancha numa layer do Photoshop. Tinha para cima de 200 layers empilhadas, o que até pode parecer muito mas nem é nada. Seleccionava uma e outra sem remédio. Depois de ter tentado todas as soluções e até de ter googlado por mais, sem perceber o que mais poderia fazer para eliminar a mancha, porque não existe grande ciência no assunto, e preparando-me para contornar trabalhosamente o problema, ocorreu-me ir fazer um chá verde que dizem ajudar a prevenir doenças do coração. É que eu estava prestes a ter um ataque de. Nesse afã me encontrava quando tocaram à campaínha. Era a vizinha do 7º andar que vinha rogar o favor de eu lhe dar as boxers castanhas que tinham caído nas minhas cordas, estavam por um fio, sorte era não haver vento. Tenho um acesso de hospitalidade convido-a para entrar para a cozinha enquanto me estico à janela para apanhar as ditas. E como o bule está mesmo ali a olhar para nós da sua alva beleza sugiro que se me junte no chá verde que descansa. Ela aceita e vamos para o escritório onde nos sentamos informalmente à mesa onde trabalho, daí a pouco as duas a fazer música com a colher contra a porcelana das chávenas, ela a dissolver dois torrões de açucar, eu apenas a fazer ondas. Insisto que prove as bolachas de aveia integral que entretanto fui buscar para vestir o estômago, saudáveis, digo eu. O ecrã do computador ficara entretanto em modo de economia, negro, mas primo a tecla e faço um enter orgulhoso para lhe mostrar o trabalho. Explico o processo, as ferramentas, elaboro sobre a magia do Photoshop. Ela diz que não percebe nada do assunto, tecnologia, informática, finge que está interessada sem disfarçar. Assim que pressente uma pausa no meu discurso pergunta-me pela receita das bolachas. Concluo, sem espanto, que o meu entusiasmo em relação ao Photoshop não a contagia e a resposta de que as bolachas vieram do Jumbo esgota a conversa. O meu olhar já está de novo cativo na mancha infecta, que não consigo remover. Não temos muita convivência, eu e esta vizinha. Descemos e subimos no elevador, emprestadei-lhe um limão ou outro, um ovo. No dia em que o rei faz anos traz-me uma fatia de bolo de aniversário, muito enjoativo, e, que me perdoem todas as crianças que passam fome no mundo, que eu nunca consigo terminar. Nunca sequer diz quem é o aniversariante, sempre apressada pois tem a casa infestada de visitas, tão stressada como quando sobe no elevador comigo, de compras nas mãos, ou desce, com os sacos do lixo. Eu também não pergunto. Deus me livre de perguntar e acabar por ser convidada para uma festa de bolos e bebidas hipercalóricas e outros atentados alimentares semelhantes. Ir lá acima para ver comer -que é muito diferente de comer com os olhos, - ter conversas agri-doces com estranhos, fintar os jovens explicandos a quem ela prepara nas matemáticas, aturar duas crianças hiperativas, as cadelas com o cio, emprestar o meu ombro ao pai dela que está deprimido e não sabe porquê, aturar o ex- a reviver o casamento falhado, ele que será sempre um amigo do peito para ela, mais a prima ruiva que não deixaria escapar a oportunidade de me tentar recrutar para a Yves-Rocher mais uma vez, conheço-os todos não de gingeira mas porque ela me apresentou a toda essa fauna no elevador, esse espaço ingrato de convivência social, - mencionei rever os outros vizinhos todos com quem partilho o elevador de uma assentada e acabar a discutir questões de condomínio? – ou no inescapável hall de entrada. E depois descer, e decerto com a fatídica fatia de bolo de três camadas num prato, olhar aquela temível flor de açucar vermelha e a folhita de hóstia esverdeada, saber que não vou conseguir comer até final: é demasiado para engolir de bom grado. E a cereja no topo, ter de comprar um inimaginável presente. Há muitos anos que deixei de praticar intimidades com a vizinhança assim como nunca durmo com colegas de trabalho. Regras são regras. Mas nem sempre nem nunca. E fosse porque me sentisse vencida pela insolência daquela mancha que se ria para mim no ecrã ou porque cansada de tanta higiene mental no que toca a interações sociais, cedi a uma momento de fraqueza e partilhei a minha frustração: apontei-lhe, inconsolada, a mancha. A minha vizinha, que nada percebe de computadores e Photoshop, levou mecanicamente as mãos ao peito e subiu os óculos pendurados do pescoço até à cana do nariz. Com olhar médico aproximou o rosto do computador que examinou por breves instantes. Sem hesitar molhou o dedo indicador no chá verde e esfregou-o contra o polegar. Apenas me disse: Posso? E dito isto moveu a polpa do dedo sapudo até à superfície do ecrã onde descreveu pequenos círculos suaves. Alarmada pelo vermelho escarlate da sua bem desenhada unha de gel abri muito os olhos porque não tive tempo de abrir a boca e impedi-la. A minha descompostura facial ficou-se por isso porque a mancha desapareceu como que por magia, digo-vos que até parecia Photoshop! Ensaiei uma piadola com o Quincy Magoo não para a fazer rir, mas para minorar o meu desconforto e levei a chávena de chá à boca, terminando a bebida de um trago. Ela não sabia quem era o velhote pitosga dos desenhos animados. Estavamos num impasse, eu agora titubeante que nem o Porky Pig, entre o agradecido e o embaraçado, a chávena dela quase cheia sobre a mesa dizia-me que o tempo sobejava para o muito que não havia a dizer. E então ela exclamou o estridente, costumeiro e hoje providencial, vizinha estou cheia de pressa, e levantou-se de um salto. Ainda tinha a louça do almoço por meter na máquina, disse, graças a deus, pensei eu. Que nódoa.

10/11/17

Madonna vai à bola com Portugal

Ahah, esta Madonna, concedam, uma pessoa tem de gostar um bocadinho dela. Olhai só este instantâneo da material girl a festejar o golo da selecção nacional, Portugal olé, Portugal olé. Em Roma, sê romano. A mulher foi ao estádio da Luz e tudo. Comove-me ver como até levanta os bracinhos em exultação pelo golo marcado por quanto eu nem a TV liguei e não me estou a imaginar a viver em Chicago e a aplaudir os Bulls. Paradoxos, eu, nascida em Lisboa, nem lambuzada em pastéis de Belém consigo disfarçar o meu amor pelo Porto. E agora a Madonna, uns mesitos em Lisboa, até já é muito mais portuguesa que eu. Que era uma artista camaleónica, eu sabia, mas isto supera tudo. Eu cresci com a Madonna, todas nós crescemos, e lembro-me de ter gozado com um amigo quando ele me mostrou o LP de estreia dela, acabado de comprar, dizendo-me, "ela vai ter muito sucesso". Eu desdenhei da virgem, claro. Balanço feito, viria a comprar dois CD (já tentei vender um mas ninguém o quer) e um CD single da senhora, o livro que escreveu para cachopos, vi um ou dois DVD's de espectáculos ao vivo, os filmes terríveis onde ela entrou, todos de evitar menos o Evita, esse escapa, mas só porque eu gosto de musicais. Agora a Madonna está a um passo de gravar um CD de fados com o Camané ou com o Marco Rodrigues, ou até de plagiar uma modinha do Tony Carreira. E se não tiver cuidado ainda acaba candidata a algum orgão do poder local. Preocupante mesmo é não conseguir uma casita. Mesmo se os invernos aqui não são rigorosos, tenho pena das crianças. O Palácio Sotto Mayor está desocupado e acho que até fechado a visitas, era uma hipótese para a rainha da pop morar, longe do bulício low-cost de Lisboa. Mas ainda ninguém lhe falou da Cascais de Coimbra, porque é o segredo mais bem guardado de Portugal, em breve haverá aeroporto a 50 km e tudo, útil para ela ir num pé à TV americana dar entrevistas ao Jimmy e voltar no outro. Além de não encontrar casa em Lisboa, Madonna parece também não ter ainda conseguido encontrar um cabeleireiro de confiança que lhe trate daquelas raizes profundas. Observando bem, as raizes até combinam com os óculos escuros, talvez seja uma tendência da estação. Uma estação chamada desleixo. O desleixo não lhe fica de todo mal, em mim ficar-me-ia pior porque eu não sou a Madonna. Aguardo que, depois das nossas autoridades administrativas lhe terem dado um visto em circunstâncias especiais, as culturais lhe façam idêntica demonstração de consideração, por exemplo, oferecendo-lhe uns óculos da colecção pessoal da Amália, - já se percebeu que Madonna aprecia óculos grandes, - após o que ela, em agradecimento, mudará o nome para Madália e fará juras de os usar até que a voz lhe doa.

9/25/17

Percevejos invadem Portugal

Percevi, depois de passar os olhos por diversas fontes informativas, que estamos a ser invadidos de forma silenciosa por criaturas que se infiltram nos colchões e nas roupas de cama em busca escuridão e calor humano. Vêm à boleia em malas e não pagam bilhete. Os moradores dos centros urbanos mais afectados consideram tratar-se de mais uma atribulação, desta vez sanguinária, do recente boom turístico. Como explorar proveitosamente esta vaga de turismo de pé descalço coloca, todavia, os operadores turísticos perante um desafio ímpar. Enquanto isso as empresas de desinfestação festejam o oportunismo. Os jornalistas tentaram contactar os principais visados mas eles não perceveram a questão e nada comentaram, rastejando calmamente para longe do foco da sua atenção. A Madonna ainda não se manifestou.

Serviço público: saiba como lidar com os percevejos turistas

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