7/11/18

SOMNII na Figueira da Foz: um escândalo!



Anda a circular um video, que suscita partilhas e comentários díspares. É isto: um carro a bombar som e um jovem deitado sobre o mesmo, a celebrar a vibe do momento. Isto passa-se na av. 25 de Abril, junto da Torre do Relógio, próximo do local onde estava instalado o palco do RFM SOMNII. A pessoa que filmou, repetia a dado momento da filmagem, " Não sei se rio, se choro".
Devo estar a ficar velha pois vi o video e não achei nada de mais. Não seria uma coisa normal hoje, ou amanhã, quase meados de Julho, mas era o Somnii, é expectável alguma euforia fora da norma durante os três dias que dura. O miúdo estava a curtir o som do seu carro, a estrada até estava cortada por questões de segurança, se não estou em erro. Qualquer pessoa se podia deslocar, afastar-se, há muito espaço, se se sentisse incomodada; ou então ir lá falar com ele e dizer-lhe se podia baixar o volume. É possível que ele não fosse um zombie de cérebro cozido e apenas um jovem a curtir o seu som e algum álcool ou ervita, nada de mais, e fosse sensível ao pedido. Nah, nah, qual falar com o jovem! O que se impõe é filmar o idiota alegre e subir nas redes porque nós somos todos uns cromos certinhos, nunca mijamos fora do penico. É apenas um puto a fazer estrilho na avenida para uma afluência de quantas pessoas? 30.000?  Julgam mesmo que o caso é significativo de quê? Saudades que tenho do tempo em que não era certinha sem causar prejuizo de monta a ninguém. Tenho lido muitos comentários de gente muito escandalizada com o que se passa no Sunset, a dizer que não há condições, que não acrescenta nada à Figueira e só causa transtornos. Por acaso o contrato acaba este ano, pode ser que o acontecimento demoníaco volte para Moledo e depois já podem curtir a Figueira descansadamente, orgulhosamente sós, o verão inteiro. Nem de borla eu ia para o areal, não é música nem evento que aprecie. Mas sei de putos que vão trabalhar nas férias para terem dinheiro e irem ao Sunset pois adoram: adoram o convívio, a cidade e a praia. Imaginem que um dia vão recordar esses momentos e pensarem na Figueira com saudade. Eu nem sou figueirense e acho isso porreiro: é como quando eu esperava por Setembro todo o ano para ir ao Festival de Cinema da Figueira da Foz.  Se o retorno do RFM SOMNII para a Figueira é muito significativo? Não faço ideia. Mas será o prejuizo assim tão elevado quanto me é dado ler por aqui?

7/8/18

Cuidado com o Facebook!



O Facebook anda a alienar as pessoas em moldes de que nem as mesmas têm consciência. Ora façam o favor de ler esta troca de mensagens entre mim e a M. V.Um belo dia de Junho dou por mim a ser interrogada em jeito policial por esta M. V, que há coisa de um ano me pediu amizade. Segundo afirma M. V., ter-lhe-ei botado um “Like” numa qualquer coisa, em Janeiro, o que a incomodou para lá do razoável e agora vai de me perguntar por contas! Boa! Se eu já nem me consigo recordar do que almocei, vou lá saber em que publicação da M. V é que meti um “Like” em Janeiro! Desde Junho que é este romance. Isto ou é amor ou é loucura ou é amor louco. Seja o que for, não é vírus, poderá ser “pishing de afinidades” ou “graxa”! O que vos parece?

M. V. - O que é isto? Se eu fosse psiquiatra não teria página no facebook.

Eu - Não faço ideia daquilo a que te referes, M. V. Cuidado pois pode ser algum vírus.

M. V. - A senhora ou senhor pode mostrar uma foto que a/o identifique. Ninguém lhe pede que ateste a sua identidade com impressões digitais ou com o reconhecimento da Iris.

Eu – M. V., a que propósito estás a pedir-me para mostrar identificação?

M. V. - A propósito de alguém se referir a virus sobre uma mensagem de 12 de Janeiro que só agora vi. Qual foi a banda sonora que alguém referiu que gostava e eu também?

Eu - Essa mensagem que está aí acima? Sobre o jogo? É a última mensagem que te enviei e data de 2017. Era um jogo que circulava na ocasião, sem vírus.Depois disso não enviei mais nenhuma.

M. V. - OK. E quanto à banda sonora, há memória?

Eu - O histórico de mensagens não mostra envio de qualquer mensagem sobre banda sonora. Não posso confiar na memória, mas na realidade não tenho ideia de quaisquer contactos contigo nem razão para o fazer. Por isso continuo a pensar que possa ser vírus.

M. V. - Bom dia. A conversa incide sobre uma memória de "likes"nas publicações. Afinidades partilhadas. Por estas razões é que não dou crédito a likes na minha página. Sei que há quem afirme que faz troca de likes nas publicações em troca de não sei o quê. Não prestei atenção. A conversa estava a desagradar-me. Não sei qual é o esquema mas é falacioso. Trata-se de influenciar resultados de um modo não honesto. Não é um virus. Parece-me que a senhora não se lembra de um like que colocou numa publicação que eu coloquei de uma banda sonora. Isso é pacífico. Acontece. Quanto a tipificar, um esquecimento por virus, não me parece que assim seja. Nesta situação trata-se da sua memória e não de uma memória virtual. -- Quanto à questão que referi de haver quem faça trocas de likes associado a nomes parece-me que poderá ser phishing de afinidades. Com isto não estou a dizer que a nossa conversa leva a essa temática. -- Resumindo: é normal as pessoas terem esquecimentos. É normal mas requer atenção se as pessoas têm lapsos provocados por razões emocionais. Não é muito aceitável que as pessoas adultas digam que gostam disto ou daquilo afinitariamente para fortalecer relações fusionais. A essa tomada de decisão chama-se dar graxa, não lhe parece? Bom domingo. Cordialmente, M.V.

Eu- Olhe, M. V. Não me lembro e nem me quero lembrar. A M. V. nem sequer é pessoa que comente o que quer que eu publique, ou que ponha Likes nas minhas postagens, e nunca me enviou qualquer mensagem e agora, em Junho e Julho, de tempos a tempos envia-me mensagens tipo "enigma" sobre algo que fiz, ou não fiz, em Janeiro. Se coloquei um Like numa sua publicação em Janeiro já fiz mais do que a M. V. costuma fazer nas minhas. Se isso a aborreceu ofereço bom remédio. Para que não se sinta mais afectada por Likes meus, que coloquei e me esqueci, em bandas sonoras ou o que quer que seja, que eu deixei em publicações de que não me lembro, sugiro que me desamigue. Não sei se basta que eu a desamigue para que fique tranquila, é o que vou fazer de seguida. E bloquear também. Era só o que me faltava estar aqui a sustentar não-assuntos. Bom domingo. Cordialmente também.

Tourada é cultura!

Não, não penso que as pessoas por gostarem dos toiros sejam menos cultas. Manuel Carrilho, um ex-Ministro da Cultura, sempre foi tido por um homem culto, por mais relativo que possa ser o conceito e a prova disso. A avaliar por declarações que fez amiúde na comunicação social também pode ser tido por um valente asno. Não mistureis as coisas. Uma pessoa que gosta de ir aos toiros pode ser tão culta como o Manuel Carrilho, ou até mais, porque a cultura pode ser tudo, tudo o que foi adquirido pelo homem, incluindo as suas crenças e costumes mais bárbaros, e não apenas civilização. Uma pessoa que gosta de ir aos toiros é apenas uma pessoa que gosta de violência mas que não quer assumir e então diz que vai lá por causa da "nobre reconstituição do mito ancestral da luta do homem contra a Natureza", - porque a gente precisa disso como do pão para a boca, claro - da tradição que vem de longe e que não pode acabar, da nossa rica identidade cultural, do amor à raça taurina, da cultura. Cá eu sou menos hipócrita quando afirmo que gosto de ver filmes de kung-fu: eu vou ao cinema ver kung-fu porque gosto de ver porrada da boa. É divertido. Olha lá se ando por aí a justificar-me com a arte do Kung-fu, a origem ancestral das artes marciais, o seu teor filosófico ou espiritual, a identidade cultural chinesa! É que vocês iam mesmo levar-me a sério, deixa! Agora não me venham é dizer que sou estúpida, sim? Isso eu não vos perdoarei.

7/6/18

Pronto-a-vestir e moda do absurdo

O meu corpo entrou num estado complicado onde o pronto-a-vestir é apenas uma ideia vaga que precisa quase sempre de ser costurada para que me sirva. Quando tiro uma peça do cabide e a levo para o provador, já vou a contar que o espelho me devolva a dúvida de serem um tamanho acima ou um tamanho abaixo, as ideais. Todavia, se as experimento também, nem um nem outro me fazem sentir bem vestida. Por milímetros há algo que sobra ou falta. A cava demasiado descida, a cintura acima da linha, uma pinça fora do lugar, a gola a bailar à roda do pescoço. Acabo por me bastar com o menos mau desse jogo de possibilidades e nunca sinto essa peça como realmente minha. Lembro-me então do tempo em que a minha mãe costurava as roupas que eu vestia e em que tudo era ajustado ao meu corpo de uma forma única e precisa. E do sr. Nascimento, um alfaiate a quem ela um dia reconheceu talento suficiente para a substituir, pedindo que me fizesse um blazer quando já lhe faltava a paciência para costurar para a filha. Na data combinada compareci no atelier preparada para ser medida ao jeito do sinal da cruz uma e outra vez. Em vez disso o exímio alfaiate, já então de cabelos cinza, agarrou a peça de pano e estendeu-a sobre o meu ombro e peito quase como se fosse uma echarpe. Com um giz fez umas marcas e creio ter ainda apontado duas notas num papel. Daí a uma semana teria de voltar para a prova, disse. Apertei-lhe a mão e ele levou-me à porta, perplexa, sem perceber como é que este homem conseguiria moldar uns metros de terylene ao meu corpo sem números mais exactos. Quando regressei ao atelier o casaco já se podia chamar assim. Estava em prova. Entre alinhavos, costuras abertas e entretelas, até já uma manga se vestia. E mais uma vez ele fez pequenos acertos a golpe de olho e pouco mais. Fui encontrar o casaco, um par de semanas depois, já pronto a vestir, na casa dos meus pais, no meu regresso de uma audiência em Coimbra, entregue por mão própria: moravamos na mesma rua e ele fizera questão. O sr. Nascimento vive hoje na memória de quem o conheceu. No meu guarda-fatos, o blazer em pied-de-poule azul e branco, essa herança de um momento que a mim pareceu mais próximo da arte da prestidigitação do que da confecção de roupa, rende discreta homenagem ao seu saber entre casacos H&M, camisas e jeans. Há uns meses foi à lavandaria para limpar a seco. Tinha umas máculas que denunciavam o não uso. Desabotoado e olhado por dentro, quase se revela um double-face tal a perfeição dos acabamentos, os invisíveis pontos de mão, o forro cuidadosamente embutido, a qualidade do tafetá. Está agora protegido por uma capa plástica para memória futura de um tempo a que o meu corpo não irá mais regressar. Porque o corpo mudou e porque hoje não posso pagar o justo preço a um mágico para me confeccionar a roupa assim. Quando eu vestia este casaco e me olhava ao espelho, nada a mais, nada a menos me era devolvido. Era como se naquele instante vestisse o mundo comigo e me sentisse adaptada em segundos a tudo o que de mim fosse exigido. A minha mãe e o sr. Nascimento não me faziam carregar aos ombros a sua griffe, a sua visão de que um casaco devia ser algo maior, o seu protesto pela poluição marinha ou o seu júbilo pelo conceito do poliamor traduzido em formas e texturas. Eles armavam o meu corpo desamparado contra o frio, compensavam as minhas formas ou a sua ausência, usavam de sabedoria e experiência acumulada para me vestir bem. Este casaco feito por medida não era um qualquer prolongamento vaidoso dum criador ou produto de uma ânsia de expressão: era um prolongamento de mim. E ainda que não fosse isso, havia sempre de ser mais estimado que hoje uma qualquer peça comprada por exclusão de partes, de um qualquer cabide de loja, confeccionada noutro continente para vestir bem a alguém que não a mim. A criatividade destes artistas era sempre colocada ao serviço da resolução de um problema prático, assim como a Natureza tratou de bem moldar a plumagem de um pinguim ao seu corpo para que sobrevivesse. A mãe Natureza seguiu a regra KISS: keep it simple, stupid, que só sobrevive o mais bem adaptado. Excluíu os artifícios, focou-se no essencial. Perante o frio, o animal ou foge dele, ou o tolera, ou hiberna. A camada de gordura acumulada logo abaixo da pele do pinguim é uma espécie de isolador térmico que faz diminuir a perda de calor para o ambiente externo. Quando o pinguim fica muito tempo sem se alimentar é também fonte de energia. Entre as penas e o corpo, uma fina camada de ar também isola termicamente. As suas penas, menores e em maior quantidade do que em outras aves, são finamente justapostas. Um óleo produzido por uma glândula garante a impermeabilização das penas e a água é repelida. O pinguim pode assim suportar longos nevões que o corpo não arrefece com facilidade. A mãe Natureza não usou senão de bom senso, saber e economia para alcançar com o pinguim este resultado tão excepcional: a diferença entre o animal viver ou morrer. Mas no caso do ser humano a Natureza preguiçou. Até a gordura castanha que todos os mamíferos têm para os proteger do frio desaparece quando deixamos de ser bebés. Podemos engordar tudo o que quisermos e o que não quisermos também, mas essa gordura então ganha já não poderá ajudar-nos a aquecer. Perdemos os pelos e ficamos despidos. Estamos então condenados a consumir metros de tecidos naturais ou sintéticos pela vida fora para que possamos manter o calor do corpo ou abafar o pudor ou exercer a função X. E como se isso não fosse suficiente desafio inventamos a moda para ela nos inventar necessidades. Como é que algo tão simples foi transformado em algo tão tortuoso e absurdo é só a prova de que os seres humanos vivem para complicar. https://www.maisonmargiela.com/pt

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