11/15/18

Bolo de maçã rápido para fazer no fim de semana!



Gosto imenso de bolos de maçã e só não partilho mais as receitas que vou testando porque elas já abundam na internet. Este foi a minha última experiência e já o repeti 3 vezes! Este bolinho é ideal para aqueles momentos em que aparecem visitas em casa e não temos nada feito. Faz-se rapidamente e é tão agradável para o lanche, com um chá aromático, como para terminar uma refeição. A receita não é minha, guardei-a da internet há bastante tempo. Podem fazer sem receios. Bom apetite!

Ingredientes
3-5 maçãs médias
10 colheres de sopa de farinha
8 colheres de sopa de açucar amarelo
6 colheres de sopa de leite
4 colheres de sopa de óleo
2 ovos
1 colher de sopa de fermento Royal
Raspa de um limão
Canela em pó

Preparação
Descasque as maçãs e corte em fatias finas.
Unte uma forma com manteiga e polvilhe com farinha.
Coloque as maçãs no fundo, à volta da forma, em camadas. Por regra, as maçãs dão para uma roda completa e a seguinte já não fica toda preenchida. Utilizo uma forma com, talvez, cerca de 22cm de diâmetro.
Por vezes polvilho as maçãs com canela, outras vezes não. Fica bom das duas maneiras, é uma questão de gosto.

Numa tigela, bata os ovos com o açucar até ficarem bem espumosos. Junte o óleo, a raspa de um limão,  e o leite. Bata de novo até estar tudo incorporado. 
Junte a farinha em duas ou três vezes e por fim o fermento, batendo sempre. 
Vaze este preparado na forma onde colocou as maçãs.

Leve ao forno a 180º durante 40 minutos. Deixe arrefecer um pouco e desenforme. 
Pode comer-se ainda quente ou frio.

11/14/18

Os idiotas confessos, de Nelson Rodrigues



Os Idiotas Confessos

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.

Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — «Uma santa! Uma santa!» Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia, etc., etc.

Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: - «Eu sou um quadrúpede!» Nenhuma objeção. E, então, insistia, heroico: - «Sou um quadrúpede de 28 patas!» Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos «melhores». Só os «melhores», repito, só os «melhores» ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos «melhores», só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os «melhores» podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — «Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido.» Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos «melhores». Para um «génio», 800 mil, um milhão, dois milhões, três milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em 15 minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam plateia para os «superiores». Hoje, não. Hoje, só há plateia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salário, atuação, influência, amantes, carros, jóias, etc., etc.

Quanto aos «melhores», ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a «invasão dos idiotas». E, de fato, eles explodem por toda parte: — são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de dois mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a «invasão dos idiotas» só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — «Subdesenvolvimento» — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gémeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de quê mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, dois mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os 20 séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniquidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — «O dr. Alceu pensa assim?». Não. Em outra época, foi um dos «melhores». Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o génio se finge imbecil. Nada de ser génio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. E a missa cómica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado, etc., etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

Nelson Rodrigues, in 'O Homem Fatal'


Se gostou do estilo de Nelson Rodrigues, pode adquirir o livro O homem fatal, online, na Wook!


Algumas sugestões:

1. Leia a biografia de Nelson Rodrigues. Escritor, jornalista e dramaturgo, autor genial que escandalizou e deliciou leitores e plateias, mudou para sempre o panorama teatral brasileiro com  peças como "Vestido de Noiva", "Boca de Ouro", "A Falecida", "Toda Nudez Será Castigada". O seu olhar imoral, mas moralista, incidia sobre  vida quotidiana dos subúrbios cariocas. As suas páginas carregam crimes, incestos e diálogos carregados de tragédia e humor.

2.  Ou, se preferir, leia a última entrevista do polémico brasileiro : “O europeu ou é um Paul Valéry ou uma besta!”. — Continuando a frase após breve distração, com coisas e objetos do seu entorno: — “… a Europa é uma burrice aparelhada de museus. (…) Ao passo que o Brasil é o analfabetismo genial!”.

3.  A biografia de Nelson Rodrigues, O anjo pornográfico, foi escrita por Ruy Castro, que também biografou Carmen Miranda e Garrincha. Ruy Castro, também jornalista, talvez tenha sido o biógrafo ideal: "É verdade que eu já tinha toda uma vida ligada a Nelson como leitor. Aprendi a ler sozinho, no colo de minha mãe, lendo sua coluna diária A vida como ela é…, no jornal Última Hora, do Rio, entre os quatro e os cinco anos. Logo depois, redescobri-o como colunista de futebol na revista Manchete Esportiva. E nunca mais parei de o ler. Em 1960, tive a felicidade de ler seu folhetim Asfalto selvagem à medida que os capítulos saíam diariamente na Última Hora - é uma leitura impressionante para um garoto de 12 anos. Quando me decidi a biografá-lo, em 1990, já tinha lido todos os seus livros e visto quase todas as suas peças." Leia a entrevista na íntegra.
4. Se nunca ouviu falar de Nelson Rodrigues, comece aqui, a ler 100 frases que lhe são atribuidas e prepare-se para, no mínimo, ser surpreendido: "O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade."

5. E, aqui, leia uma opinião sobre o seu único romance: O casamento, que só pode ser publicado em Portugal em 2017. Este livro escrito em apenas dois meses, foi lançado no Brasil em 1966. O país tinha acabado de entrar num  período (1964-85) de ditadura militar. O romance foi censurado por atentar contra a moral e os bons costumes. Mas vendeu como pão quente!

6. Assista, ainda, a um filme dirigido pelo dramaturgo João Bethencourt (que chegou a lamentar que o filme estivesse perdido) e patrocinado pelo Consulado dos EUA. João entrevistou Nelson Rodrigues  e o dramaturgo norte-americano Edward Albee . A versão integral foi localizada no Arquivo Nacional dos EUA por Carlos Fico. Aí ele se diz ter sido considerado um "caso de polícia".

11/13/18

Tempo de poesia: Ítaca, de Constantine Cavafy




Do site oficial do arquivo online do poeta Constantine Cavafy, retirei esta imagem para ilustrar um poema intemporal: Ítaca. Atentem na curiosa legenda, segundo a qual  Cavafy assume, no seu passaporte, que a sua ocupação é ser poeta: "A spread from Constantine Cavafy’s last passport, listing “Poet” as occupation and two discrete birth dates, both erroneous."

"Ítaca" é  um poema baseado no relato de Homero sobre a jornada de regresso a casa de Odisseu. O que nos ensina? Que, tal como numa viagem, a vida é para se viver a cada minuto retirando dela o melhor proveito e sem esperar o fim para a celebrar. Desde que não cedamos aos nossos medos, superados os obstáculos inevitáveis, ficaremos, por essa via, mais fortes e aptos para enfrentar novos desafios.


Constantine P. Cavafy (1863–1933), foi um marcante poeta grego, que frequentes vezes encontrou insiração para os seus versos na cultura do mundo antigo. O escritor E. M. Forster disse dele. "A Greek gentleman in a straw hat, standing absolutely motionless at a slight angle to the  universe", um cavalheiro grego, de chapéu de palha, imóvel num particular ângulo em relação ao universo. Cavafy é hoje considerado  um dos poetas mais originais do século XX. Um grego de Alexandria, Cavafy viveu  parte da sua vida no Egito rodeado de ruinas e história antiga. Com a sua enorme curiosidade sobre o passado podia ter sido um arqueólogo. Em vez disso, a inspiração que encontrou no mundo clássico levou-o a escrever poemas de carácter intemporal e universal, como o célebre Ítaca, onde todos encontramos um sentido perenemente actual.

De seu nome completo Constantine Petrou Photiades Cavafy, nasceu em Alexandria em 29 de Abril de 1863. Era o mais novo de sete irmãos. Seu pai, comerciante, morreu cedo, tinha ele 9 anos, e então acompanhou a mãe, para Inglaterra, que durante cinco anos, se esforçou por manter os negócios familiares. Depois do insucesso regressaram a Alexandria, para partir de novo para Constantinopla, hoje Istambul. A casa de Alexandria foi bombardeada pelo exército britânico logo após. É assim que doravante Constantine desenvolverá o seu interesse por história antiga, por jornalismo e política. Regressa depois, aos dezanove anos, aos escombros da sua casa, e renuncia à cidadania britânica. Após o seu segundo regresso a Alexandria, cidade cosmopolita, onde várias culturas se cruzavam e entrelaçavam,  começou a publicar poemas em jornais. Trabalhou  como empregado de escritório, como corrector e também era um ávido e hábil jogador. Assim conseguiu viver de forma confortável a sua vida. Visitou Londres e Atenas, mas não viajava muito. Viveu na companhia da  mãe, ou com os irmãos até aos 45 anos. A partir daí vive sózinho, torna-se menos social, convive menos, e dedica-se à poesia, eliminando os escritos sem valor, agora mais seguro de si. Era um poeta, como escreveu no passaporte, e era assim que gostaria de ser lembrado. Em 1932, Cavafy, que toda a vida fora um fumador, sabe que tem um cancro na laringe e acaba por perder a voz na sequência de uma intervenção para remoção do mesmo. Morreu alguns meses depois, aos 70 anos, longe de conhecer a glória que hoje o coroa como poeta. Nunca publicou os seus poemas em livro, preferia os jornais e também os imprimia, fazendo ele mesmo uma espécie de cadernos para quem quisesse ler. Canon compreende 154 poemas e foi publicando postumamente em 1948. Em 1919, E.M. Forster, seu amigo, traduziu-o para inglês, o que contribuiu para o seu reconhecimento no mundo literário.

Este texto é um resumo livre da biografia do poeta que poderá ler aqui, em inglês e na íntegra.

Se tiver curiosidade na poesia de Constantine, pode ler a obra do poeta grego reunida numa edição bilingue, em inglês e português. Os 153 + 1 poemas que constam do livro são a obra poética que Kavafis decidiu ser a sua,  os poemas dignos de se chamarem canónicos. Pode aquirir o livro Os poemas online através da WOOK


Ithaka 

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

Translated by Edmund Keeley/Philip Sherrard

(C.P. Cavafy, Collected Poems. Translated by Edmund Keeley and Philip Sherrard. Edited by George Savidis. Revised Edition. Princeton University Press, 1992)


Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Constantino Kabvafis (1863-1933)
in: O Quarteto de Alexandria - traduziu José Paulo Paes.

E, para finalizar, algumas sugestões:

1.Para ouvir o poema Ithaca, na voz de Sean Connery, aceda ao Youtube.

2.Para ler uma análise da poesia de Cavafis, deixo o link paraum texto da Comunidade, Cultura e Arte, intitulado: O efémero da beleza e a evocação da memória na poesia de Konstantinos Kaváfis

3. Para ler mais poesia de Cavafy, visite também este site.

4. Para os cinéfilos, o filme A noite em que Fernando Pessoa encontrou Cavafay


A sinopse: Fernando Pessoa, de Portugal, e Constantino Cavafy, da Grécia, foram dois dos maiores poetas do século XX. Os gigantes literários conheceram-se, finalmente, em 1929 a bordo de um transatlântico que levava emigrantes para os EUA. Stelios Haralambopoulos, realiza este documentário maginando como deva ter sido um tal encontro, oferecendo um mix inovador de imagens de arquivo e reencenações fictícias dos poetas interagindo passageiros do navio. Ver o trailer no Youtube.


11/11/18

Orangotangos em perigo de extinção - animação da Greenpeace



Rang-tan, animação narrada por Emma Thompson, produzida pela Greenpeace e escolhida pela Iceland foods, uma das mais importantes cadeias de supermercados do UK, para ser o seu anúncio de Natal, não chegou aos ecrãs, impedida pela Clearcast, orgão regulador, em virtude de infringir regras do Comunications Act, de 2003, que proibem fins políticos nas campanhas publicitárias.

Aquele supermercado comprometeu-se no início do ano a eliminar o óleo de palma das suas marcas. A escolha do anúncio espelharia esse comprometimento com o ambiente ao alertar contra a desflorestação e consequente perda do habitat dos orangotangos, que a produção de óleo de palma acarreta, por exemplo, na Malásia.


There's a Rang-tan in my bedroom
 and I don't know what to do.
 She plays with all my teddies
 and keeps borrowing my shoe. 
She destroys all of my house plants
 and she keeps on shouting 'oo'. 
She throws away my chocolate 
and she howls at my shampoo. 
There's a Rang-tan in my bedroom 
and I don't want her to stay, 
So I told the naughty Rang-tan
 that she had to go away. 
Oh, Rang-tan in my bedroom,
 just before you go, 
Why were you in my bedroom?
 I really want to know. 
There's a human in my forest
 and I don't know what to do. 
He destroyed all of our trees 
for your food and your shampoo. 
There's a human in my forest 
and I don't know what to do. 
He took away my mother 
and I'm scared he'll take me, too. 
There are humans in my forest 
and I don't know what to do. 
They're burning it for palm oil
 so I thought I’d stay with you. 
Oh Rang-tan in my bedroom 
now I do know what to do.
 I’ll fight to save your home 
and I’ll stop you feeling blue. 
I’ll share your story far and wide
 so others can fight too.
 Oh Rang-tan in my bedroom
 I swear it on the stars: 
the future's not yet written 
but I’ll make sure it's ours.


A floresta onde o orangotango vive está a ser destruída para abrir caminho à produção de óleo de palma - um ingrediente usado para fabricar produtos para marcas como Unilever, Mondelez e Nestlé. Se não agirmos, mais habitats preciosos serão arruinados, os Povos Indígenas poderão perder suas casas e esta espécie poderá extinguir-se.

Se inscrever o seu nome na petição da Greenpeace está a enviar um sinal às grandes marcas para pararem de usar o óleo de palma proveniente da destruição de florestas.

Há uma orangotango no meu quarto
e eu não sei o que fazer. 
Ela brinca com todos os meus ursinhos 
e pede meu sapato emprestado. 
Ela destrói todas as plantas  
e ela sempre grita "oo". 
Ela atira meu chocolate
e ela uiva no meu champô. 
Há uma orangotango no meu quarto 
e eu não quero que ela fique 
Então eu disse à malandra Rang-tan 
que ela tinha que ir embora. 
Oh, orangotango no meu quarto, 
antes de ir embora 
 Por que estavas no meu quarto? 
 Eu realmente quero saber. 
 Há um humano na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Ele destruiu todas as nossas árvores
 para sua comida e seu champô. 
 Há um humano na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Ele levou minha mãe 
 e estou com medo 
que ele me leve também. 
 Existem humanos na minha floresta
 e eu não sei o que fazer. 
 Eles  queimam-na para fazer óleo de palma
e então pensei em ficar contigo. 
 Oh orangotango no meu quarto
 agora eu sei o que fazer. 
 Eu vou lutar para salvar a tua casa 
 e acabar com a tua tristeza
 Compartilharei a tua história em todos os lugares 
 para que outros possam lutar também. 
 Oh orangotango no meu quarto 
 Eu juro pelas estrelas: 
 o futuro não está ainda escrito
 mas vou fazer com que nos pertença.


11/9/18

Aumenta em 2019 o preço dos bilhetes do Castelo de S. Jorge



A EGEAC, empresa municipal, desenvolve há mais de 20 anos, a gestão de actividades e espaços culturais em  Lisboa, como os teatros São Luiz, museus, galerias de arte e monumentos como o Padrão dos Descobrimentos ou o  Castelo de São Jorge.  Se nunca foram até ao topo da colina desfrutar da bela vista sobre Lisboa, passear entre muralhas e aprender um pouco sobre o passado da cidade, podem consultar estas Informações Gerais. O que primeiro nos importa saber quando queremos visitar um monumento ou museu, é como chegar lá, horário de abertura ao público e depois que preços vamos pagar.  São informações convenientes para que não sermos apanhados de surpresa, como eu fui.

Visitei o Castelo de São Jorge em Setembro do ano passado. Estava em Lisboa por questões profissionais e sobrou-me tempo. Quando assim acontece aproveito sempre para visitar uma exposição ou um monumento. Muni-me de coragem para enfrentar a subida num dia de calor intenso e  lá fui, desde o Terreiro do Paço, seguindo a orientação da Sé Catedral, levada pelo instinto, devagar, um pouco ao acaso, por ruelas, cotovelos e escadinhas, desde a baixa da cidade até ao topo, sempre rodeada por muitos turistas. Só depois tomei conhecimento que podemos aligeirar o percurso a partir da zona da Baixa/Chiado se utilizarmos dois elevadores para alcançar a Alta. O primeiro fica na Rua dos Fanqueiros, n º 176, e leva ao Largo Adelino da Costa onde, um pouco à esquerda, fica o supermercado Pingo Doce. Aí ficaria o segundo elevador, cuja saída nos deixa próximo da entrada do Castelo. Subi a força de músculo e fui assistindo a algumas quedas motivadas pelo piso ora irregular ora polido. Algumas pessoas de idade, outras com algum peso a mais, talvez fumadoras, sofriam debaixo de sol e bebiam das garrafitas a cada meia dúzia de passos. Não ia nem vestida nem calçada de forma muito confortável e mesmo antes de iniciar a subida fui forçada a fazer um desvio para entrar numa sapataria ao acaso e mudar para umas sandálias frescas e confortáveis. Esta despesa não prevista deixou-me algo aborrecida pois sabia que em casa não faltava calçado confortável e não gosto de acumular desnecessidades, e, sobretudo de gastar dinheiro não previsto. Todavia a sola anti-derrapante foi uma benção inesperada.

Ao chegar à entrada do Castelo de S. Jorge o corropio de gentes era extraordinário. Há alguns anos atrás isto não seria assim a um dia de semana, talvez só no pico do Verão e ao fim-de-semana. Foi o que imaginei. Observando constatei que a maioria dos indivíduos era estrangeira. Muitos aproveitavam para ouvir um jovem que cantava em inglês, dedidalhando um teclado de forma convicta e profissional, debaixo de uma árvore. Sentados nos marcos de pedra, aproveitando a sombra, alguns até cantavam, embalando o corpo na melodia. Sentei-me também que a subida tinha sido demorada, comendo  do copo a fruta morna e em pedaços que comprara uns metros abaixo a um vendedor ambulante. Ao meu lado uma jovem mãe norueguesa, também sentada numa pedra, e junto dela uma criança louríssima num carro de bebé, que logo estendeu os bracitos de desejo para a minha melancia.

Após o descanso procurei as bilheteiras e pedi uma entrada. Inocentemente estendi 5 euros. A senhora disse-me que o custo da entrada era de 8.50 euros. Se há coisa que acho bem empregue é dinheiro para a cultura em todas as suas formas. Não defendo o acesso grátis à cultura, nunca defendi. O que é grátis tende a ser desvalorizado e cultura precisa de manutenção, de promoção, de ser pensada, re-pensada e tornada acessível, muitas vezes de forma inovadora. Mas achei excessivo. O que haveria lá dentro para justificar tal quantia? Não sendo criança - que entram de borla até aos 12 anos mas só se apresentarem um comprovativo, - nem tendo entre 13 e 25 anos - grupo que pagaria 4 euros -,  não estando ainda no escalão sénior dos maiores de 65, em que pagaria 7 euros, e não residindo no Concelho de Lisboa, o que confere acesso grátis, não tinha outro remédio senão pagar por inteiro. Não residindo lá, poderia voltar num domingo ou feriado, caso em que se entrasse entre as 9h00 e as 14h00 poderia, igualmente, usufruir do privilégio da borla. Ao esticar a mão brinquei para aligeirar o meu incômodo questionando-a: " E ser natural de Lisboa não dá direito a desconto?" Mas a rapariga não era dada a humores e limitou-se a dizer que ao Domingo, blá, blá, blá, era mais barato, blá,blá...Esta alfacinha inconformada lá trocou a nota por um magro papelito. Julgo que na saída saquei um mapa do monumento do expositor para me orientar no recinto. Notem que os residentes no concelho de Lisboa não pagam entrada no Castelo de São Jorge apenas se apresentarem o cartão do cidadão e souberem o PIN. Entra mais depressa um camelo pelo buraco da agulha: onde é que andará o PIN, o que é o PIN, perguntarão ao ler esta linha, alguns.

Posso estar  a exagerar mas creio que as bilheteiras dão ocupação a uma meia dúzia de pessoas ou mais. O Metro de Lisboa não tem um serviço igual, que eu saiba, uma ou duas pessoas engaioladas em guichets em algumas das estações e máquinas. Por falar nisso, será que máquinas para vender os bilhetes  tornariam o preço dos bilhetes mais acessível? Ah, e estas pessoas iram fazer o quê, Belinha? Assim pelo menos têm trabalho. À entrada para o Castelo creio que havia um torniquete que se desbloqueava com a leitura do código do bilhete. Ali junto estava um segurança a olhar para mim com ar examinador como se eu fosse uma carteirista em potência. Mais um salário, pensei eu. Esta gente tem de pagar contas e tu estás a contribuir para isso, Belinha. Mas estaria? Para onde vai o dinheiro cobrado nas bilheteiras do Castelo?

Hoje não se pode criticar o turismo, como se fosse ele a tábua de salvação por excelência do PIB. Evidente é que o PIB cresce com o turismo. Mas a que custo? Na descida do Castelo, após a visita, uma logista de artes comentou comigo que todos os moradores daquela rua tinham saído ou sido convidados a sair. Ela resistia mas que quando escurecia até já sentia medo por estar ali só. Mercearias e vendas de hortaliça tinham fechado. Cafés, tinham fechado. As suas casas tinham sido remodeladas ou estavam a sê-lo. A rua estava deserta de moradores permanentes. Só se ouvia falar "estrangeiro". Uma última família estava a pensar sair dali pois já não suportava a constante subida de carrinhas com turistas ruidosos e tuk-tuks. Ora, defendendo eu que a melhor forma de gastar dinheiro que existe é viajar e conhecer outras paragens, poderia parecer uma contradição escrever contra o "corropio de gentes". Infelizmente é como lêem. Não é só a descaracterização dos lugares onde tudo está a ser transformado para servir o turista: é a chegada ao fim de todo um modo de viver a cidade pelos seus cidadãos naturais, expulsos para a periferia. E também pensar os nossos monumentos como uma oferta para os estrangeiros, não para os nacionais. Ou estarei a ver mal as coisas?

Longe de mim considerar que é mau que muitos possam correr o mundo porque os bilhetes de avião se tornaram mais baratos. Afinal, de que me queixo eu neste laudo pouco técnico? Do preço do bilhete de entrada para o Castelo de S. Jorge!  Mas a paisagem humana e arquitectónica está a mudar vertiginosamente em cidades um pouco por todo o mundo. Por cá  o fenómeno é sobretudo notório em Lisboa e Porto. Mas já era nosso conhecido, até meu conhecido em primeira mão, por ter vivido grande parte da minha vida numa praia onde todos os residentes temiam a chegada do Verão: que se acabava o espaço para estacionar, que os preços do mercado disparavam, que os restaurantes serviam melhor os de fora, que os senhorios queriam que saissem no verão para arrendar aos banhistas, etc. O exemplo mais visível de descaracterização continua a ser o Algarve. Mas essa mudança ocorreu em décadas. Agora, em meia dúzia de anos, as deslocações low-cost geraram uma vaga de mudança à prova de crítica por todos quantos ali encontram a sua galinha dos ovos de ouro. Mas não deverá ser impossível encontrar um equilíbrio entre o que se pode ganhar e o que se pode perder, assim haja diálogo esclarecedor e, se falhar, punho firme de quem pode regular o crescimento desenfreado deste turismo voraz. Aliás, é hoje notícia a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de suspender a autorização de novos registos de estabelecimentos de alojamento local em algumas zonas da cidade.

Mas voltemos à vaca fria: o preço dos bilhetes para entrar no Castelo de São Jorge. A Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa (EGEAC) , que foi criada em 1995 com o nome de EBAHL – Equipamentos dos Bairros Históricos de Lisboa, acaba de informar que vai subir o preço das entradas de 8,50 para 10,00 euros. Eis excerto do comunicado: “Tendo efetuado uma análise comparativa (em Portugal e no estrangeiro) aos valores de ingressos em monumentos de importância similar e concluído que os valores praticados pela EGEAC são inferiores à média, em 2019 pretendemos também ajustar os preços dos bilhetes de entrada no Castelo de São Jorge (de 8,5 euros para 10 euros) " (...) “a partir de janeiro de 2019”.

É um verdadeiro  "Sobe, sobe, preço sobe", a Manuela Bravo bem podia fazer daqui uma nova canção. Desde o início da sua actuação  que a agora EGEAC assumiu a gestão da área museológica e o bairro do Castelo. Até 2004 o acesso ao castelo era gratuito. Talvez em 2002, passou a 3 euros. Passados 2 anos o preço foi elevado para 5 euros.  Em Junho de 2010 os preços aumentaram de 5 para 7 euros, ao que parece de forma inesperada, o que terá desagradado aos habitantes da área. No site da empresa  lê-se:"Apostados no rigor e na qualidade da nossa acção, continuamos a crescer em número de públicos, visitantes e de realizações culturais, determinados na democratização do acesso aos bens culturais." No comunicado à agência Lusa referem que "A EGEAC ressalva que “as tabelas de descontos introduzidas em 2018 prevêem diversos mecanismos que acautelam a possibilidade de plena fruição desses monumentos por parte dos residentes em Lisboa, os jovens e os seniores”. Parece que também os desempregados já podiam ir ver as vistas de borla, obviamente mediante comprovativo, mas o site do Castelo não informa, no presente momento, quanto a isso. Notem as alterações principais nestes grupos etários a partir de Janeiro de 2019: os jovens a partir dos 13 e até aos  18 anos, que não residam em Lisboa, passam a ter 50% de desconto, isto é, pagam 5 euros, enquanto que dantes pagavam 4 euros até aos 25 anos; os maiores de 65 anos passam a pagar 8,50 euros quando dantes pagavam 7 euros.

Uma voltinha mais e descobri dois packs de bilhetes que podem ser comprados online e que incluem o Castelo de São Jorge. Para simplificar o acesso a alguns espaços culturais a EGEAC agrupou-os em packs temáticos: por 22,50 euros, visita o Castelo de S.Jorge + Museu do Fado + Museu do Aljube + Museu de Lisboa (Teatro Romano, Santo António, Casa dos Bicos); por 16,50 visita o Castelo de S.Jorge + Museu de Lisboa (Teatro Romano). Veja aqui, via Blueticket. Curiosamente não está no Lisboa Card.

Uma vista de olhos pelo site e parece-me que a EGEAC tem, efectivamente, desenvolvido uma acção positiva, tendo efectuado melhoramentos significativos no Castelo e desenvolvido actividades diversas que aproximam a fruição do monumento dos vários públicos mediante contrapartida monetária, ou de forma gratuita, explorando múltiplas possibilidades. Podem ali realizar-se festas de aniversário, concertos musicais, exposições, seminários, reuniões de empresa, mediante contrapartida, mas também existem visitas guiadas para todos, até em várias línguas, incluidas no preço do bilhete, três tipos de visita são possíveis, além de visitas de exploração orientadas por especialistas, geólogos, restauradores e arqueólogos, chamadas Tertúlias de Inverno, que apenas precisam de inscrição. Não estou a ser exaustiva. Do que sei, a Exposição Permanente, o espaço onde me demorei mais tempo e de que gostei bastante, - trata-se de uma colecção constituída por um acervo de objetos encontrados na área arqueológica (Sítio Arqueológico, de acesso condicionado), proporcionando a descoberta das múltiplas culturas e vivências que desde o século VII a.C. ao século XVIII foram contribuindo para a construção da Lisboa da atualidade, com particular destaque para o período islâmico do século XI-XII - foi uma criação de iniciativa da EGEAC.

Ora noutro ponto dos " instrumentos, que foram apreciados pela Câmara de Lisboa e serão agora discutidos em Assembleia Municipal," estima-se que o Castelo de São Jorge receba cerca de dois milhões e 40 mil visitantes este ano, número que deverá crescer para mais 50 mil em 2019. Li vários títulos de notícias, dos últimos anos, em que já era esta a tendência. Em 2016, "(...) o Castelo de São Jorge, nada mais nada menos do que o monumento mais visitado no país. Com perto de cinco mil entradas diárias, 2016 foi o ano em que o Castelo de São Jorge bateu o recorde de visitas. "Está visto que o Castelo de São Jorge é a galinha dos ovos de ouro da EGEAC.

Encontrei uma notícia onde a EGEAC  informou que a maioria dos visitantes é estrangeiro ao mesmo tempo que exalta o record no número de visitas ao Castelo em 2014:"O Castelo de S. Jorge, em Lisboa, recebeu no ano passado 1.025.153 turistas, um aumento de 3,4% em relação a 2013 e o maior número de visitantes de sempre, revela a empresa municipal encarregada da animação cultural (EGEAC)." Anos mais tarde, em 2016, apenas 6% do total de visitantes são portugueses"Continua a ser o monumento mais visitado do país e, no ano passado, teve quase cinco mil visitas por dia (4.912). Em comunicado, a estrutura que gere o espaço sublinha que "a subida é particularmente notória junto do público estrangeiro (+13,8%), mas também se faz sentir junto dos nacionais (+1,5%)".

Bem que a EGEAC faz questão de frizar a sua determinação na "democratização do acesso aos bens culturais", todavia, se vejo a tentativa em teoria, na prática, as coisas talvez não sejam tão democráticas. O que a mim me parece, e desenganem-me pois posso estar a pensar mal, é que o Castelo se tornou um monumento para capitalizar no fluxo de turistas estrangeiros, não para captar a visita dos portugueses. Um casal jovem, não residente, com uma filha adolescente, pode pagar 25 euros para poder entrar; dois reformados, mas mal reformados, 17,00 euros. Têm de se deslocar até Lisboa. Dá que pensar antes de se meterem a caminho.  

E, ainda, quais são os critérios usados pela EGEAC para a avaliação da "importância" que terá determinado a subida de preço: é o Castelo de São Jorge mais importante que o Castelo de Guimarães? Mais belo que o castelo de Santa Maria da Feira ou de Marvão? Será porque recebe mais visitantes que os outros todos juntos? Ou é porque fica na capital e os outros na província? E também gostava de saber de que forma foi feita essa tal "análise comparativa realizada em Portugal e no estrangeiro". Como não tenho tempo nem saber para elaborar instrumentos de análise que englobem diversos monumentos, fui apenas espreitar quanto pagaria para visitar o, quanto a mim, importante Castelo de Guimarães, que visitei há muito tempo:

Entrada Normal 2,00€
Maiores de 65 anos 1,00€
Cartão de Estudante 1,00€
Cartão Jovem 1,00€
Até 12 Anos Gratuito
Bilhete Conjunto:
Paço dos Duques + Castelo de Guimarães 6,00€
Paço dos Duques + Castelo de Guimarães + Museu de Alberto Sampaio 8,00€
Entrada gratuita aos Domingos e feriados até às 14.00h para todos os cidadãos residentes em território nacional.

...e depois fui ver do belo Alcazar de Segóvia, um castelo espanhol que visitei há menos anos que o de Guimarães.Tão belo por fora, como por dentro, com recheio diverso, não é nem aparentado com um castelo do tipo da fortaleza de Lisboa, mas é um dos que visitei no estrangeiro, na nossa vizinha Espanha. Ora, nem mais: os agentes da cultura acabam de divulgar um pdf com estes números:

General: 5,50 € (Visita libre) +Visita guiada suplemento de 2 €
Reducida: 3,50 € Colegios, grupos concertados, mayores de 65 años, Família numerosa (todos acreditados como tal)
Segovianos: 1 €
Torre: 2,50 €
Gratis: (Solo palacio) Todos los martes (no festivos) de 14.00 a 16.00 h para miembros de la UE  
Pareceu-me evidente que o Castelo de São Jorge oferece possibilidades diversas que justificam o pagamento de uma entrada: isso é inquestinável. De certa forma ir a Lisboa e nunca ter visitado o Castelo era para mim como ir a Roma e não ter visto o Papa! Na minha opinião, a fortificação do séc. XI é um espaço espectacular onde se justifica quer uma visita descontraida, quer uma visita em busca da História. A sua imponência terá sido esmagadora em tempos passados, os vestígios ainda o são. Não imagino que o entardecer ali seja coisa menos que espectacular: o sol a baixar, o vasto horizonte a encher-se de matizes e as luzes da cidade a iluminarem cada esquina. Bastaria essa conjugação, que convida ao relaxe, à contemplação, ao passeio em conversa, ainda muito subaproveitada, quer no tratamento que podia ser dado ao espaço, quer nos hábitos dos alfacinhas, -  já que, para nós, (para mim?) será cada vez mais difícil considerar o Castelo para um simples encontro de amigos,-  para ir até lá. 

Os mais interessados na História têm muito ali para aprender; os mais afoitos e enérgicos vão encontrar muitas escadas para subir, muralhas para calcorrear e torres preservadas para conquistar, portas lendárias para descobrir. Infelizmente, uma queda de anos incutiu-me pavor de escadas e foi a custo que subi e desci, algumas, para alcançar, por exemplo, a Torre de Menagem onde a bandeira portugesa está hasteada: sempre bem agarrada às parede e corrimão, é, mesmo para os destemidos, aconselhável cuidado, adultos e crianças não podem descurá-lo! E que tal subir a escadaria de São Lourenço e fotografar Lisboa como Stanley Kubrick há tanto tempo também fotografou? Miradouro privilegiado, os fotógrafos podem deliciar-se a fazer fotografia das muralhas do Castelo, têm dali uma vista privilegiada sobre a cidade (Baixa, Costa do Castelo, Alfama, Mouraria, Santana), e sobre o Tejo. Ao longe avista-se a Serra da Arrábida e a silhueta de Palmela. Na Torre de Ulisses, o herói grego que, segundo a mitologia, aportou no porto de Lisboa no regresso triunfal para Ítaca, fica a Câmara Escura, sistema óptico de lentes e espelhos, é, creio, uma espécie de Google View, que permite observar a cidade em tempo real. Foi a primeira localização do arquivo da Torre do Tombo. Isto uma das coisas curiosas que aprendi, e também que Lisboa, antes Olisipo, também foi al-Ushbuna. Não fui espreitar a cidade em tempo real, havia fila enorme a subir pelos degraus da escada que conduzi aà porta da torre, e, por certo, lotação máxima, fiquei com receio de apenas perder tempo. Por uma questão de tempo e falta de previsão também não me juntei a nenhuma visita guiada, que seria muito enriquecedora, compensando, depois, a busca de informação na internet. Identifiquei oliveiras, pinheiros, alfarrobeiras, avistei aves diversas, papagaios, faisões, mas onde me demorei mais foi na Exposição Permanente, observando tudo e lendo a informação disponível, muito interessante. Infelizmente não havia um folheto disponível que me permitisse trazer algum do conhecimento que não consegui reter. Dentro do Castelo existem ainda os vestígios do antigo Paço Real da Alcáçova, um café, um restaurante (Chamado dos Leões)  que fica num espaço onde os reis guardaram leões, quiosques onde me aprecei a comprar um gelado para me refrescar. Só à saída do monumento reparei na estátua de São Jorge! Apesar de muitos visitantes, dada a área, não senti lotação enquanto circulava. 

O Castelo de São Jorge pode ser vivido de muitas maneiras. A EGEAC tem um papel positivo na dinamização desta atração turística. Até consigo entender o pensamento objectivo e frio, do gestor cultural: se o monumento não parece ser  suficientemente interessante para os nacionais, porque razão pensar no poder de compra dos nacionais quando se fixa o preço dos bilhetes? Talvez em vez de ir ver o Castelo as pessoas prefiram antes ficar em casa a ver histórias de castelos e dragões na TV, ou talvez não possam mesmo pagar 10 euros ou mesmo 8,50 euros e tenham de fazer contas à vida para poder antes comprar carne, fruta e pão. A cultura não mata a fome, é coisa de que se prescinde facilmente, um luxo em que se corta sem hesitações de maior. Quem não tem um hábito de consumo de cultura também nunca tem apetite para ela. Quem tem, talvez pague os 10.00 euros, como eu, que prescindo da TV e prefiro ver pedras e dragões de carne e osso, mas afinal para me sentir profundamente roubada, em Portugal, em Lisboa, na cidade onde nasci.