16/01/19

Ode a um futuro sem putas, nem pândegos, nem pedófilos

Capa do Manual da Porto Editora

A história dos manuais escolares é pródiga em episódios caricatos. Creio que foi em 2017, que pais de estudantes do Liceu Pedro Nunes, frequentadores do 8.º ano, e que andam na faixa dos 13- 14 anos, se queixaram do conteúdo inapropriado de um livro ali adoptado, que os miúdos andaram a ler nas férias do Natal: imagine-se o escândalo no seio familiar, quando entre a encenação do presépio e a decoração da árvore, os miúdos começaram a dizer aos pais que tinham trocado os cânticos de A todos um bom Natal pela leitura destes hinos: “E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.”- Este livro, recomendado para o terceiro ciclo pelo Ministério da Educação, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, por erro, entretanto corrigido, era a obra “O nosso reino” de Valter Hugo Mãe, que a Porto Editora anuncia no seu site como “Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus.” O livro mantém-se na lista do Plano Nacional de Leitura mas recomendado para alunos do ensino secundário.

Foi agora a vez da Porto Editora protagonizar mais um episódio desta série. Segundo nota explicativa que li no seu site, não se tratou de um erro, foi em nome de uma qualquer “preocupação didático-pedagógica”, que a Porto Editora abafou os versos da Ode Triunfal dos manuais dos alunos do 12º ano. Quando li a notícia nem pensei em censura. Pensei foi em ignorância. Imaginei que a Porto Editora se tivesse servido da edição da Ática como base para o Manual, censurada pelo Estado Novo, copy-paste, estão a ver, imaginando que talvez os tracinhos ridículos tivessem sido um artifício de poesia concreta, vanguardista. Afinal todos sabemos que Pessoa era um ganda maluco. Pergunto como estarão a dar-se os alunos do 11º ano que têm para ler a história incestuosa dos dois irmãos, Carlos e Eduarda, que se apaixonam e vivem uma intensa relação como amantes, sem a Porto Editora a fazer vezes de pai e mãe, a zelar pela educação, virtudes e moral destas crianças, ou os professores sem opção para escapar à “desestabilização e desvio de atenção” que esta infamante história poderá motivar na sua sala de aula. Quem sabe, todavia, se a Porto Editora não terá também andado a tracejar a prosa de Eça de Queirós.

Tinha eu 13 anos, estava no 8º ano de escolaridade, quando a obra de leitura obrigatória era Novos Contos da Montanha, do grande escritor Miguel Torga. Para quem não sabe, o livro abre com o seu conto “O Alma-Grande”, em que o escritor narra práticas de eutanásia admitidas num Portugal camponês, perdido nos tempos, numa comunidade judaica. O Alma-Grande não abafava versos incómodos, como fez a Porto Editora, antes abafava vidas. As famílias chamavam-no temendo a chegada do padre e assim se libertavam os entes queridos do sofrimento mas sobretudo da submissão a sacramentos indesejados. Nunca mais esqueci essa personagem de mãos fortes e joelho de ferro, nem Isaac e a sua luta para não ser asfixiado pelo Alma-Grande. Ora, a morte não era o que Isaac, muito doente, desejava para si. Mas a família e a comunidade assim entendiam, e pretenderam decidir por ele. Desconheço se este conto sobre a eutanásia, é ainda hoje leitura obrigatória nas escolas, ou se já foi entretanto considerado inapropriado pelo Ministério da Educação para esse efeito, para o PNL, ou pelas editoras ou pelos pais, ou pelo cão da Serra da Estrela: o que não falta no Portugal moderno são abafadores do conhecimento a cada esquina.

E afinal são apenas dois versos num total de 240 que, no contexto de um poema tão exuberante e repleto de excessos quase passariam despercebidos... não fosse a sua omissão! Além de que o poema está cheio de pulsão erótica/sexual, esta energia percorre-o, e o uso desta linguagem obscena, ousada, ou o convocar de certas perversões, são um traço fundamental da Ode Triunfal, não se esgota, portanto nos dois versos omitidos. Mas a Porto Editora quer que a integridade das obras literárias se foda. (Ora censure lá isto.) Os livros são perigosos e os seus criadores uns degenerados. Os livros corrompem a juventude e vulgarizem os males da nossa existência. Os livros são factor de desestabilização e desvio! Que cheiro imundo a obscurantismo e fumaça. Caso para roubar um verso à Ode e exclamar: "Eia todo o passado dentro do presente!"

A poesia é para comer, como Natália escreveu. É para saborear inteira, amarga, doce, picante, salgada. Em liberdade. E na escola é onde é mais fácil interpretá-la, contextualizá-la, usá-la para, justamente, fomentar o espírito crítico, o debate, a imaginação; para rir ou chorar, para “sentir tudo de todas as maneiras”, de modo seguro, orientado. Como se optando por mutilar a experiência desta riqueza se estivesse a contribuir para o esclarecimento e maturidade dos jovens para o futuro, em especial os jovens alunos “difíceis”, futuro que, na ideia da Porto Editora, deverá ser, certamente, um sem putas, nem pândegos nem pedófilos. Limpo, estável. Sem desvios. Inexistente.


Álvaro de Campos
ODE TRIUNFAL


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!


Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,


Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!

Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,

Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,

O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!

Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!

Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


Londres, 1914 — Junho.

Porto Editora trata Pessoa como um pândego, mas diz que não





Autoria da fotografia

Ainda o caso pândego da omissão de um par de versos em Manual do 12º ano, adoptado por cerca de 90 escolas, e agora nas bocas do mundo porque os alunos, que segundo reza a lenda já não lêem livros, apenas memes no telemóvel, deram pela sua falta.

Ora, de acordo com a nota explicativa da editora, o que justifica a limpeza feita ao poema de Álvaro de Campos são versos que contêm linguagem explícita e os que se relacionam com a pedofilia, podendo, por isso, “constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”. É sabido que o ambiente em sala de aula é hoje, por norma, de uma imperturbabilidade e concentração nunca vistos, os alunos não se distraem por nada deste mundo nem do outro.  Também é sabido que é zero a tolerância para  linguagem obscena e de conotação sexual em casa, na rua, na escola, em todo o lado. Afianço que já não ouço um jovem chamar carinhosamente “minha puta” a outro desde que entrei em casa, há um par de  horas atrás. Os professores devem, portanto, fingir-se  gratos por esta preocupada ingenuidade da Porto Editora. E os pais também.

Afirma também a Porto Editora que ao omiti-los no manual dos alunos mas a mantê-los no do professor está a “garantir o  papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”.  Como é que um par de versos desvirtua a garantia do papel central do professor na preparação das aulas e a sua ausência não? Não é sempre o professor a ter as rédeas do processo seja numa turma boa ou numa má turma? Naturalmente a exigir uma abordagem à medida? A meu ver, esta táctica, em vez de enaltecer o papel fundamental do professor e a sua capacidade, enfraquece o seu papel. Não vos parece que a Porto Editora  parte do pressuposto da sua inabilidade ou incapacidade de lidar com assuntos sensíveis? E se um aluno questionar os tracejados? Irá o professor dar-lhe a explicação puritana da Porto Editora?

Adianta  ainda a editora que os professores poderão assim ver “se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários”. Que me digam os professores de português acerca da trabalheira que não é explicar um par de versos num poema com 240, onde há tanto para trabalhar com os alunos, quer em termos de conteúdo, quer de forma, quer de tudo. Parece-me que o restante poema exige bem mais tempo e cuidado que estes dois versos que, no contexto de um poema tão exuberante e excessivo quase passariam despercebidos não fosse a sua omissão! Além de que o poema está cheio de pulsão erótica/sexual, esta energia percorre-o, e o uso desta linguagem obscena, ousada, ou o convocar de certas perversões, são um traço fundamental da Ode, aliás, da escrita radical do heterónimo, não se esgota, portanto em dois versos.

Por fim, a Porto Editora informa que esta escolha “ permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos.”  Intriga-me que sem esta inovação didáctico-pedagógica do abafa os professores não fossem capazes de decidir livremente.  A Porto Editora sugere, afinal, que o professor possa não promover “um conhecimento e uma fruição plena dos textos literários do património português e de literaturas de língua portuguesa” se, sei lá, estiver perante uma turma de alunos  complicados ou imaturos ou insubordinados, ou ( -----------------------------------) do 12º ano, note-se, do 12º ano. Porque é esse o papel de qualquer professor com brio deseja que lhe seja atribuído pela sociedade, ou pela preocupada Porto Editora: fintar a dificuldade, em especial quando ela está directamente relacionada com o acto de ensinar, de esclarecer, com o seu múnus. Inconcebível quando o professor era, à partida,  livre de escolher este poema ou outro para abordar, podendo evitá-lo. Isso seria legítimo, eliminar versos, não.




Dona Porto Editora: mais naturalidade e menos pudor, mais paixão pela literatura e menos pela  censura. Já se percebeu que não gosta da palavra censura:  existem outras que se podem usar, como limpeza, omissão, eclipse, controlo, apagão, mas a tolice não se tornaria menor por isso. Só que por este andar censura ainda poderá ser a palavra do ano em 2019. Não entendo o que anda a fazer no negócio dos livros. Melhor: entendo. É dinheiro, o que anda a fazer é apenas dinheiro. Porque não é assim que deve tratar a literatura, como se fosse uma fonte de maus costumes e corrupção da juventude. E muito menos a reputação dos nossos escritores consagrados, esses seres degenerados e pervertidos, uns pândegos, afinal, indignos de merecer o trabalho árduo de um professor na sala de aula.

Sugestões de leitura:
Poema de Fernando Pessoa censurado em manual escolar - a notícia
A justificação da Porto Editora



13/01/19

A moda do politicamente correcto


"A semântica pós-moderna politicamente correcta
(ou Como é belo o socialismo em Portugal)

Para uma certa esquerda norte-americana dos anos 60 ficava mal chamar negros aos negros e índios aos índios. Passaram a "afro-americanos" e "nativos americanos". Assim começou a moda do politicamente correcto. Em Portugal a revolução semântica iniciou-se há alguns anos, pela promoção das "criadas de servir" a "empregadas domésticas" (actualmente auxiliares de apoio doméstico) e dos "empregados" (de comércio e serviços) a "colaboradores". Lentamente estabeleceu-se o novo léxico das profissões consideradas menores; os carteiros passaram a técnicos de distribuição postal, os caixeiros viajantes a técnicos de vendas, as meninas dos correios a técnicas de exploração postal, os jardineiros a técnicos de manutenção de espaços verdes, os varredores a técnicos de higienização urbana, os estivadores a técnicos de manipulação e deslocação de cargas e descargas, etc. Aboliram-se os contínuos. Passaram a auxilares administrativos. Que, no caso particular das escolas e hospitais, se chamam auxiliares de acção escolar e de acção médica. Os técnicos de apoio geral (na administração postal). A revolução linguística invadiu o nosso quotidiano. O nível zero corresponde ao rés-do-chão e a cave ao menos um. O ruído chama-se poluição sonora e os lixos, resíduos urbanos. As cabines telefónicas, os bancos de jardim, os marcos do correio e os postes de iluminação, apesar de fixos, são "mobiliário urbano". Nos autocarros deixámos de picar bilhetes. Validamos títulos de transporte, ou seja, obliteramos. Nesta altura a companhia Carris inventou um novo significado para o verbo "obliterar" e o novíssimo substantivo "obliterador", no caso a máquina que pica os bilhetes. Proibido fumar é, na semântica da aviação comercial, "voo azul"... também deixou de haver regiões atrasadas. O Alentejo é uma zona de desenvolvimento sustentado e o Casal Ventoso, uma área urbana sensível aos grupos populacionais vulneráveis a condutas alternativas. Na economia deixou de haver falências. Há empresas com insustentabilidade financeira. Os prejuízos são crescimentos negativos.... Acabaram-se os despedimentos. Há ajustamentos de efectivos com racionalização e optimização de recursos humanos. Obviamente também deixou de haver desempregados. Existem cidadãos à procura de emprego, que a partir da faixa etária dos 45 entram em pré-reforma antecipada. E pobre é um indivíduo de recursos económicos sensíveis... E há que atribuir novos significantes às realidades particularmente desagradáveis. Uma prisão é um centro de detenção (ou de reinserção social, no caso dos jovens). Um asilo de velhinhos é uma unidade geriátrica... estrutura familiar monoparental quer dizer mãe solteira... Há já alguns anos que deixou de haver doentes. Existem utentes... os serviços de urgência passam a chamar-se... "emergências" Ricardo França Jardim. (Publicado no Público, 19.12.99)