9/12/14

Ice Bucket Challenge, um banho de água fria

O verão está rapidamente a encaminhar-se para o fim. No preciso momento em que escrevo (13.00h) cai chuva da molhada em toda a cidade e se não fosse o bafo quente e irrespirável, o som dos automóveis a deslisar no piso encharcado far-me-ia acreditar que estou já no inverno. Haverá um Ice Bucket Challenge no inverno?! Um banho de água fria não cai mal em pleno verão. Mas neste só Junho teve temperaturas elevadas e até no sul a água do mar me trocou as voltas: mesmo em agosto, em vez da habitual sopa de alforrecas, saíu-me refresco salgado. Penso que já posso dizer que não foi um verão quente! Mas foi sem dúvida um verão molhado, a começar no desafio dos baldes e a acabar na chuva que tomba lá fora e que já causou inundações nas ruas habituais, transformadas assim em desafios para a autarquia - seja porque houve mau planeamento ou porque as sarjetas não foram limpas, venha a galocha. 

Dos desafios do balde de água gelada em prol da recolha de fundos para a investigação da esclerose lateral amiotrófica ficarão registados os inúmeros videos e memes na internet. A coisa chegou via EUA. Eis uma amostra do  circo do nosso mundo-pop, gente de desporto, do cinema do desporto e da política, unidos em torno de um script banal, a produzir videos de qualidade duvidosa!! Mas houve quem tivesse dado a volta ao desafio de forma imaginativa marcando posição sobre aquilo que mais incomodou- o desperdício de litros de água potável, um bem escasso em tantas regiões do mundo, e até mesmo no Estado da Califórnia, que tem vivido das piores secas de que há memória na região. Quais macacos de imitação, figuras públicas e gente anónima, e até mesmo o sapo Cocas e Homer Simpson, alinharam contagiosamente no Ice Bucket Challenge tornando-o viral!  No afã da brincadeira, quantos se terão esquecido de mencionar a razão caritativa do propósito, qual o número de gente que apenas brincou e não doou. Entrar no Facebook e apanhar com videos consecutivos do Ice Bucket Challenge dias a fio foi mesmo um balde de água fria, tudo o que é demais enfada. Mas este circo teve um resultado positivo até mesmo em Portugal: maior consciência da existência da doença de Lou Gherig, mais sócios inscritos, maior adesão de voluntários, mais inscrições nas formações e donativos angariados, isto foi referido pela APELA - Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica, a congénere da associação ALS dos EUA, em comunicado datado de Agosto.



Antes que se interroguem, eu digo. Eu não doei dinheiro para esta causa nem alinhei na cena do balde. Embora não ganhe muito dinheiro vou contribuindo quando posso e sinto que o devo fazer para algumas causas. De vez em quando também divulgo apelos solidários. Prefiro contribuir directamente para pessoas que necessitam de ajuda do que para instituições mas isto não é uma regra sem excepções. Analiso e depois decido. Contribuo para ajudar pessoas directamente e também pessoas que usam o dinheiro para cuidar de animais. Não gosto de fazer alarde das minhas contribuições, que são modestas, mas mesmo que fossem grandiosas eu continuaria a resguardar as minhas boas acções do público. Sou assim mesmo, detesto publicidade no que diz respeito a quase tudo o que faço e à minha pessoa. Curiosamente este ano tive de ir a um programa de televisão e fui, contrafeita, empurrada pela curiosidade de ver como seria a TV por dentro, fui. Mas não gosto de ser conhecida, reconhecida, durante anos não havia uma foto minha na internet, usava um avatar e um nome "artístico". Acontece também o oposto - gente que não perde a ocasião para "aparecer", gente que não perde um bom pretexto para fazer de qualquer momento um palco. Tenho consciência que nenhuma das atitudes é muito sã. Pois. Adiante. 



Eu não fiz o desafio, mas muita gente fez. Debalde tentei escapar às imagens repetitivas do Ice Bucket Challenge mas elas invadiram o Facebook, o G+  e os blogues! A única coisa repetitiva que não me cansa são as ondas do mar a desenrolar-se sobre a praia. Quantos videos de gente a ser encharcada e a dizer "Brrr", "Ohhhhh","Uiiiiii" ou qualquer outra coisa, de punhos cerrados e aos pulinhos miúdos se podem aguentar? Figuras, figurões ou gente anónima, até parecia que não havia  nada melhor para fazer neste verão! Muitos apelidaram a façanha de ridícula, recusando-se a cair no ridículo.  Mas se fosse uma façanha ridiculamente criativa, excitante, divertida, isto é, se contivesse um qualquer apelo irresistível e único, eu talvez compreendesse. Isto? Lamento se os meus circuitos emocionais estão envelhecidos, snobs, sisudos. Does not compute. Estarei a perder o meu sentido de humor?



E depois dos videos veio a maré de insultos. A malta parece que lida mal com as zonas cinza. Tem que ser tudo branco ou preto. Os que alinharam no desafio defendiam com unhas e dentes que a água não foi desperdiçada, que a brincadeira foi um excelente estratagema de marketing e que sem baldes não teria havido doações expressivas. Os que não fizeram defendiam a pés juntos que a água é um bem escasso e que tudo não passou de desperdício, que teria sido suficiente doar e  passar a palavra " a seco". O desafio do balde de água gelada transformou-se rapidamente numa troca de insultos nas redes sociais. Todos podemos especular com alguma segurança que entre os críticos haverá decerto quem não ligue a quantos litros de água usa para tomar banho ou lavar o carro ou a louça, ou regar o jardim no pino do meio-dia, é típico. Quis-me parecer que a tolerância online é ainda mais baixa do que cá fora, quem discordar de alguma coisa online é imediatamente rotulado de "hater"! Ora "hater" parece-me uma palavra um bocado forte para atirar a quem apenas defende um ponto de vista diferente, não vos parece?


Mas eu vivo no hemisfério sul e ainda não chegou cá a nova era do gelo. O meu cérebro ainda funciona. Por isso chamem-me hater ou o que quiserem. É que a verdade é mesmo esta: ajudar quem precisa é sempre uma excelente ideia, quanto a isso estamos conversados, é irrefutável. Mas deitar água pela cabeça abaixo sem ser para tirar o champô do cabelo, ó meus amigos, isso só tem um nome: desperdício. A minha primeira reação quando comecei a ver os videos foi de escândalo. Até pode ser divertido e bom marketing, mas é uma péssima ideia. Como é que puderam alinhar nisso? A água é um bem escasso e há dados alarmantes sobre o seu decréscimo no planeta, da Califórnia ao Médio Oriente, os cenários são preocupantes. Além disso vocês pagam por ela, caso não tenham ainda pensado nisso. Eu nem quando fico em hotéis desperdiço água! Ou electricidade. Faço exactamente o que faço em casa, poupo-a.

Li no Facebook que a doença de Lou Gherig é uma doença rara que afecta uma percentagem pequena da população e que outras causas se abraçadas com idêntica paixão poderiam gerar um efeito mais abrangente junto de quem precisa, ou seja, a mesma recolha de fundos poderia traduzir-se na obtenção de um maior benefício. Concluindo: até mesmo vivendo no hemisfério sul e não tendo o cérebro congelado sempre me escapam alguns detalhes. Ter informação é fundamental, a educação é precisa até mesmo para a solidariedade. Isto foi o que retive de todo este circo de verão, algo para refletir, sobretudo numa época em que as solicitações solidárias são constantes, online e não só.

9/7/14

O barco rabelo e o rio Douro




O Fugas, suplemento do Público,  dedicou neste sábado, dia 6, oito páginas à história do barco rabelo, ao Douro e à exploração da cultura do vinho do Porto em tempos recuados e no presente, e ainda ao turismo vínico mais recente. Calhou coincidir com a minha descoberta de um pequeno video dos anos 40 onde podemos ver um barco rabelo e os seus marinheiros em acção. Imagens documentais emocionantes que eu desconhecia, fiquei desarmada com a façanha e vi o video três vezes seguidas! Bem filmado e editado, apenas lamento duas coisas: uma é que não tenha som, outra é não saber quem filmou. Depois disso encontrei mais um video, parece que de 1923, não tão interessante como o primeiro, mas ainda assim riquíssimo quanto a valor documental. Assistam que não se vão arrepender!

A última navegação de rabelos já aconteceu há 50 anos. Resta a simbólica Regata de Barcos Rabelos do S. João para trazer à tona a sua importante história! E aqueles outros, neles inspirados, que se dedicam aos passeios turísticos no actual rio, agora um gigante tranquilo. O Douro que corre em grande declive, entre curvas apertadas e profundos canais, com zonas de rápidos e rochas, foi durante muito tempo um rio duro - e daí talvez o seu nome - de conquistar pelo homem. Hoje é uma fera amansada, exceptuados alguns invernos, domesticado que foi pela construção de diversas barragens, alterada assim para sempre a forma de o navegar e de o viver. 


Pensa-se que os rabelos descendem de embarcações vikings ou suevas, mas isso é mais mistério do que certeza. Oito séculos atrás já havia barcos a lutarem Douro acima e a acautelarem-se Douro abaixo, mas apenas se pode conjecturar como seriam em aspecto. A necessidade aguça o engenho - no século XVI a sede de vinho ia de Portugal até Espanha, até talvez mais longe, era o povo, eram os exércitos, a procura motivou a criação de embarcações que pudessem carregar cada vez mais pipas de vinho duriense! No século XVI chamavam-se “azurrachas” e transportavam 50 pipas de vinho, pesando 30 toneladas. Diz o texto que é por esta altura que se fixa a fisionomia do rabelo tal como o conhecemos hoje. No século seguinte os rabelos asseguraram capazmente a resposta à enorme procura inglesa de vinho. Mas este aliados insubstituíveis da lucrativa exploração vinhateira começaram a ser ameaçados pelo caminho de ferro no séc. XIX e acabariam por ser efectivamente destronados pelo comboio e depois, mais tarde, em meados do séc. XX, pelos camiões cisterna que traziam o vinho das quintas do Douro até Gaia de forma rápida e directa.

O texto do Fugas refere a dureza da subida e descida do Douro pelos barcos rabelos, referindo o enorme esforço e a coragem necessárias para o sucesso da missão. Mas a descrição é pálida se comparada com a realidade que o video documenta. Vejam como o barco era puxado – à sirga - rio acima com a ajuda de cordas, de força de homens e de juntas de bois, as pedras apresentam sulcos da pressão das cordas quando vento e os remos não eram solução. Observem a força do caudal, a geografia de obstáculos presentes no curso do rio, o trabalho de equipa nos remos, o trabalho do arrais, - piloto e comandante do barco - que, do topo da estrutura que dá pelo nome de “apegadas” manobrava a “espadela”, o leme comprido e tradicional do rabelo. São imagens magníficas.

Do século XVIII ao XIX contavam-se 2500 rabelos a navegar o Douro. A viagem de regresso durava três dias, a subida demorava pelo menos uma semana. O curso do rio tinha lugares amaldiçoados onde os homens contavam com o saber mas também com a ajuda divina para vencer a adversidade da Natureza. Nas suas margens existem vestígios da evocação da Providência, pequenas capelas que ajudavam os navegadores a encontrarem forças para vencer os seus receios. Mas nem a cautela, nem a experiência, nem as orações impediram que na centenária exploração do vinho do Porto flutuassem destroços de rabelos e de cadáveres. No doce aroma do vinho do Porto misturava-se o odor cruel da morte. E se para a história não ficaram os nomes de muitos bravos que pereceram nas águas do Douro, alguns poucos nomes, como o do Barão de Forrester ou de Gertrudes, a cozinheira do Águia d’ouro, ou Dona Antónia, colaram-se para sempre à faceta de um Douro sobrenatural, terras e rio de carácter mítico, onde a sabedoria do homem nem sempre foi quanto bastou para singrar.

8/29/14

Procure ajuda para lidar com a depressão

7/22/14

#civiliansunderfire



#CiviliansUnderFire Join our call to Israel and armed Palestinian groups to ensure the safety of all civilians.
Write the word STOP (in Hebrew מספיק or in Arabic كفى) on the palm of your hand or a translation of this word into your own language, and post a photo here using the #CiviliansUnderFire. Thank you 
(#AmnestyInternational)


7/2/14

Como se faz um lápis Viarco?

6/30/14

Exposição Martelinhos São João - 2014 - Porto

Até dia 3 de julho apareçam na Exposição de Martelinhos de São João para ver todas as 139 propostas concorrentes. Além dos projectos 3D há projectos em 2D e video. A Exposição encontra-se no Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, Largo de S. Domingos, no Porto, a caminho da Ribeira.

Foi a segunda vez que participei no concurso. Há três anos apresentei três propostas. Este ano apenas tive tempo para uma. 
O martelo em quilling obteve o primeiro lugar, Categoria 3D, na 3ª edição do Concurso da Fundação da Juventude, Porto. Perguntaram-me, no Porto Canal, porque tinha participado e como tinha tido esta ideia. Participei porque o concurso dos martelos já faz parte dos meus festejos do São João, está na agenda! Gosto do desafio criativo da reinvenção do tradicional martelo de plástico. Quanto à ideia, foi até muito fácil. Em março passado descobri o quilling (ou filigrana de papel)  e agendei que lá para o verão havia de experimentar. Quando li o anúncio do concurso pareceu-me ser a técnica perfeita para elaborar uma peça. Foi realmente simples pois muitas vezes as ideias são tantas que uma pessoa se atrapalha nas escolhas e na eleição da mais adequada! Já mais complicado foi conseguir aprender e elaborar o martelo no espaço de uma semana, o tempo que tinha disponível. Depois de ter feito o desenho, comecei a cortar as fitas e a enrolar as peças - na sua construção foram cortadas, enroladas e coladas cerca de 650 fitas de papel. O martelo incorpora os símbolos do São João - manjericos, um fogareiro com sardinhas a assar, o alho porro, um pequeno martelo e um balão, além do santo popular. As cores dominantes são verde-manjerico e azul-douro por razões óbvias! Escolhi esta técnica porque queria obter um produto final popular. O martelo remete claramente para as decorações sanjoaninas, muitas delas feitas em papel, e ainda para o floreado do ferro que adorna tantas varandas e portas da cidade do Porto, sem esquecer, também que a filigrana (mas em metais nobres) é uma arte tradicional no norte do país. 
Sem dúvida inspirado pela minha paixão pela cidade do Porto, dedico a quem sabe do que falo! Além disso, e até mais do que o Natal, que acontecia num mês chuvoso e escuro, já em miúda o São João já era a minha festa favorita. Em Braga, onde passei a infância, também se festejava pela noite dentro. O que eu gostava no São João nessa altura é o mesmo que hoje: a transfiguração da rua num espaço de festa. Para o ano há mais São João e vamos a ver se pelo menos uma nova ideia para participar neste concurso criativo!













6/27/14

Portugal no Mundial de Futebol 2014


Antes

  

Depois