31/01/20

O poeta que não desperdiçava a poesia com porcarias



Manuel Resende (1948-2020), o poeta que não desperdiçava a poesia com porcarias, como agora se leu nas notícias, nasceu no Porto e vivia em Lisboa, estudou Engenharia mas nunca foi engenheiro, não cursou grego mas era especialista na língua grega, o grego moderno. Por meia dúzia de anos foi jornalista no Jornal de Notícias e por 20, tradutor ao serviço da União Europeia. Além do gosto pelas palavras, tinha também o gosto pelos ideais políticos: foi como activista político que Louçã o relembrou enquanto autor das teses sobre situação política e económica discutidas no congresso de fundação da Liga Comunista Internacional, mais tarde PSR e depois Bloco de Esquerda. Para a sua editora, Cotovia, é um dos maiores poetas portugueses, quer escrevendo os seus quer traduzindo os versos de outros grandes poetas como Konstantínos Kaváfis ou Elytis. Traduziu também Shakespeare, Brecht, Kafka, Beckett, obras como "O Capital", de Karl Marx, e "A Caça ao Snark", de Lewis Carroll.

Também o que é Eterno

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta...
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.


Manuel Resende, in 'O Mundo Clamoroso, Ainda'

A obra literária de Manuel Resende são três livros. Em 1983 fez a sua estreia com "Natureza Morta com Desodorizante". Sem pressas, quinze anos depois publicou "Em Qualquer Lugar", e em 2014 publicou "O Mundo Clamoroso". Só em 2018 dei por ele. Não vou estar aqui a inventar que foi antes porque não foi. Mesmo se gosto de poesia e se leio e compro bastantes livros de poesia é mais o que não sei desse universo do que aquilo que sei. Recordo ter visto na livraria, apesar da minha memória de passarinho,  o volume de capa azulada da Poesia reunida, cuja publicação, agora sei, se sucedeu à convalescença do poeta após melindroso internamento hospitalar. Como já é habitual neste tipo de colectâneas, o preço era elevado. Peguei no livro, examinei-o e voltei a colocá-lo no lugar. Fiquei sempre à espera de poder comprá-lo em 2ª mão. Até hoje ainda não apareceu. Quem o tem, tem-o preciosamente alinhado em alguma prateleira de estante. Se eu o tivesse na minha, também não me desfazia dele. Costumo vender os livros que vou lendo mas os de poesia não. Compreendo que os leiores se apeguem a eles, mais que a outros. Também em vão se procura pela internet pelos seus poemas. São mesmo muito poucos os que se encontram. No seu desaparecimento, "Também o que é eterno" foi o poema mais partilhado. Esperava que mais versos de Resende fizessem a sua entrada online, mas não. E que mais peças surgissem que me ajudassem a conhecê-lo um pouco melhor também. Procurei mas não encontrei muitas melhores que aquelas que já existiam, velhas de um ou dois anos. Ou talvez me tenham escapado pois este tempo desde o Natal tem sido sugado por tudo e nada, isso a par da disposição engripada que não promove a produtividade e outros azares.

Hoje saiu mais uma peça sobre o poeta e é dela que copio na íntegra este texto importante e sensível, escrito por alguém próximo dele, e também por duas outras razões. Por desconfiar que são raras as pessoas que chegam ao final dos meus textos e clicam nas "sugestões de leitura" que ali deixo (que são usualmente as minhas fontes ou propostas que permitem aprofundar o assunto sobre que escrevi)  e porque o Jornal I pode, sei lá, pode lembrar-se de reservar o acesso daquela página só a assinantes. Se não lerem mais nada sobre Manuel Resende, leiam, pelo menos, esta opinião do seu amigo Rui Manuel Amaral, responsável pela reunião da poesia de Manuel Resende no tal livro que aguardo na minha estante, que assim o lembra:

Habituei-me a imaginar que o Manuel Resende sobreviveria a tudo. Em 2017, esteve hospitalizado durante semanas em estado muito grave. Alguns amigos temeram perdê-lo. A verdade é que voltou directamente dos cuidados intensivos para lançar a Poesia Reunida, em 2018. O livro de poemas português mais importante deste século.
Cada novo leitor que esse livro conquistou é como um sinal de que o nosso mundo entrou nos eixos. A grande poesia do Resende já não é um segredo de meia dúzia de leitores fanáticos. O mapa literário do país assumiu, por fim, a forma correcta.
O Resende não jogou uma única carta neste jogo. Não fez nada para que os poemas fossem mais ou menos conhecidos. Não lhe competia a ele. Ele era apenas um poeta. Escrevia porque tinha de escrever. Os três livros que publicou, antes da antologia de 2018, surgiram por intervenção de amigos ou em resposta a convites de editores. A antologia também. Não foi o Resende que a propôs e não foi ele quem a organizou.
Nada disto tem a ver com alguma espécie de arrogância ou falsa modéstia. É exactamente o contrário. Trata-se de pura timidez. Da mais pura noção de que nada disto é assim tão importante. De que a literatura é muito maior do que qualquer escritor. Ninguém que eu conheça estudou e amou mais a literatura. Conhecia-a a fundo, sílaba após sílaba, verso após verso, capítulo após capítulo.
Traduziu milhares de páginas. Dos grandes, mas também dos outros, dos chamados “menores”. Anos e anos de trabalho deram-lhe a sabedoria de pôr as coisas em perspectiva. A literatura é feita de tudo isto: grandeza e miséria, humildade e presunção, silêncio e fogo-de-artifício.
Talvez por isso se tenha transformado num misto de sábio e “palhaço triste”, no sentido chaplinesco do termo. Não sei explicar melhor. Havia nele uma qualquer tristeza profunda, que embrulhava em humor e auto-ironia. Porque todos somos feitos da mesma matéria: poeira da estrada e pó dos livros. Porque a história acaba da mesma maneira para todos. Não está certo nem errado, é simplesmente assim.
Talvez isto explique também a dose de pessimismo com que olhava para o mundo, apesar de o seu coração ter batido sempre à esquerda. Desde a juventude, no Porto, até ao último dia da sua vida. Não há camarada dos tempos da luta política que não o adore. Não conheci companheiro ou adversário que não gostasse do Manuel Resende.
O Resende concedeu-me a sua amizade e eu nunca tive nada de especial para lhe dar em troca. Tudo o que podia e posso fazer é ler os seus livros. Uma e outra vez. E tentar aprender com ele os pequenos truques para enganar a morte até onde é possível.


Abaixo deixo os links para algumas entrevistas e mais opiniões sobre Manuel Resende. Espero que da sua leitura desponte a curiosidade sobre este poeta tão merecedor da nossa atenção, amantes dos versos. A única coisa boa que o seu desaparecimento trouxe é que mais gente leu sobre ele e ficou  desperta para a sua obra. 

Eis, então, alguns excertos para vos incentivar ao clique extra. Garanto que não é "cliquebaite"!

“A minha poesia é uma colagem. Tem as mais diversas influências. Desde o Sófocles ao Rui Veloso e ao Sérgio Godinho; tem os Beatles, André Gide, Breton, Cesariny, Jorge de Sena... As coisas mais díspares. E as formas poéticas são as mais desencontradas e aparentemente desconexas. Eu atiro aquilo para lá e de vez em quando começa a sair um soneto, compreende?”

“Eu também escrevo sobre o quotidiano, mas nunca é um quantificado trivial e fútil. É sempre a pensar nas coisas, perdoe a presunção, nas coisas mais essenciais da vida.A poesia é muita rara para ser desperdiçada com porcarias. Essas coisas são o amor, a liberdade...É isso. E falo muito do tempo, porque o tempo é a natureza de que somos feitos. O ser humano é um animal muito delicado e frágil. Tem de aprender tudo, excepto mamar e fazer xixi e outras coisas que tais. Tem de ser ensinado, precisa de uma família, precisa de tempo, precisa de um lastro histórico. Senão, não existiríamos, nunca seríamos o que somos.”

"O meu pai andava sempre a recitar poemas e eu li Fernando Pessoa muito novo, não tinha idade para aquilo, mas ia escrevendo umas coisas.O dadaísmo é uma reacção contra as condições de cultura e de literatura da sociedade. Uma reacção de rejeição de uma sociedade que, com tão elevada cultura, faz a II Guerra Mundial! Essa relação conflituosa com o mundo tal como ele é esteve sempre comigo.”

"É mesmo, vejo o poema quase como a montagem de um filme. Primeiro andamos às voltas e depois é preciso juntar aquilo tudo. Ou como fazer um bolo — é preciso seguir uma certa receita para a massa ficar leve. Cozinho sim, e estava agora a lembrar-me que tenho de arranjar uma solução para os falafel. Comecei a fazer há pouco tempo, porque como cada vez menos carne. Há um problema — se a massa tiver um bocadinho de água, quando se deita na frigideira, desfaz-se. É preciso escoar a água toda do grão de bico, mas isso pode resultar numa coisa muito seca. Há uma ciência, não é só misturar. A sabedoria, a mão do cozinheiro é que conta. Isso também vale para a poesia? Não sei, acho que sim. Para mim, a poesia é uma espontaneidade muito bem estudada. Para se ser espontâneo é preciso um bocado de treino.”


Sugestão de leitura:

Manuel Resende (1948-2020). “Uma lágrima cai de leite sobre cinzas”, aqui.

A razão dos ritmos antigos, aqui

Uma vida de leitura e escrita, até não restarem segredos, aqui.

A poesia é muito rara para ser desperdiçada com porcarias, aqui.

A verdadeira ralidade, aqui.

Mnemonic - Brian Bilston



Mnemonic
Thirty days has September,
April, June and November.
Unless a leap year is its fate,
February has twenty-eight.
which has six thousand,
All the rest have three days more,
excepting January,
one hundred and eighty-four.

29/01/20

Devemos ou não "deportar" todas as nkisis para África?


Acho esta explosão de repúdio pela proposta de Joacine por muitas pessoas que habitualmente depreciam a cultura africana, considerando-a inferior à nossa, encantadora. Quando terá sido a última vez que o líder do PNR ou do Chega foram apreciar as nkisis ao Museu de Etnologia? Já viram selfies deles com elas? Eu não. Surpreenderia, de facto, sempre tão unidos na defesa do homem branco e da cultura ocidental, que sentem estar a ser atraiçoada por Joacine. Não deviam antes estar aliviados por ela os querer livrar desses incomodativos artefactos primitivos? Quantas vezes leio, sobretudo no FB, sobre a superioridade da nossa cultura sobre todas as outras pelos seus acólitos? Agora espumam porque alguém ousou sugerir que as peças sejam devolvidas à procedência? Talvez fossem mais brandos se a sugestão fosse antes vendê-las como a história da nkisi de Faro vagamente sugere, não? Vi uma nkisi no Museu Santos Rocha, na Figueira da Foz, há muitos anos, e quando cheguei a casa desenhei-a diversas vezes: a estatueta, material sombrio de que se fazem os mistérios, invocação de medos e de poderes sobrenaturais, ali, de pé, a olhar para mim, de espelho na barriga, cravejada de pregos, era formidável. E agora a Joacine quer que as nkisis voltem para África? Carago. Pode lá ser isso possível?! Não pode ser assim tão simples. Os museus não são inteiramente vilões nesta história. Muitas nkisis e outras obras similares foram até compradas por eles, cuidadas, preservadas. Incorporadas nas suas colecções e com isso serviram e servem a divulgação da cultura africana entre nós. Ou seja, a devolução integral à sua origem silenciaria parte da cultura africana entre nós. É isso desejável? A mim parece-me empobrecedor, por muito que digam que hoje há livros com boas fotografias, há a internet. Nunca é a mesma coisa, digo eu, que calcorreio museus e monumentos sempre que posso. Por outro lado, algumas das obras não foram adquiridas de forma legítima, foram pilhadas com 100% de segurança. Os países de onde são originárias estão privados de fazerem receitas com elas e do seu desfrute pelos nacionais. Quanto a estas, haverá discussão? Repugna a alguém que o apropriado indevidamente seja restituído, talvez com compensação a quem preservou e divulgou durante anos? Ou negociado? Mas, mesmo sendo roubadas, não estiveram ali a falar por quem não tinha voz, não foram embaixadoras dos seus países, da sua cultura tantas vezes incompreendida e relegada para plano inferior? Não contribuíram para a manterem viva? Não alimentaram o imaginário dos visitantes, não comunicaram impressões fortes, como aconteceu comigo, sobre a história do Homem? Tantas e mais questões que se levantam. Mas em vez de debate temos provocações e clamores, um exercício estéril, como se tudo fosse preto ou branco. Não sei onde é que está a nossa superioridade cultural. No Parlamento, não me parece.






Sugestão de leitura

Chama-se Nkisi e tanto atrai os maus espíritos como ofertas milionárias. Mas Faro não vende, artigo do Público, aqui

28/01/20

Música: Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto



Três interpretações diferentes  - NAIFA, BOITE ZULEIKA e VITORINO - para a mesma letra de António Lobo Antunes e música original de Vitorino. Qual a vossa preferida?

Eu que em comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor a chiclete
Saiste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

20/01/20

17/01/20

Extra: Desafio de Escrita dos Pássaros #6: O amor, uma cabana...e um frigorífico



Corvo - Corvus corax
Fonte

Leonilde, empregada de limpeza, conheceu Raul enquanto regateava o preço de um Poirot e o imaginava na sua cama a folhear o Kamasutra. Ele já não tinha todos os dedos nem ela o juízo completo. O dia amanheceu na forma de um pedido de casamento:

– Casa comigo. Nunca mais terás de comprar um livro.

Um ano depois viviam nos arrabaldes de uma cidade perdida. Nunca faltavam à missa exceptuando se andavam longe, fazendo feiras de velharias. No regresso, depois do almoço habitual no Centro Social Paroquial, sempre visitavam o prior.

– E novidades da terra?

– O Engenheiro Garcia.

– Que descanse em paz.

– Raul, como vai o negócio? Não é fácil viver com esse infortúnio...

– Sr. Padre, não o é. Três dedos chegam para fazer o sinal da cruz. – E sorria. – Esse Engenheiro é o que morava na vivenda azul?

Daí a dias tocavam à porta do falecido para apresentar sentimentos:

– ...e se tiver por aí alguns livros que estejam só a ocupar espaço, nós podemos ajudar.

Certa vez Leonilde trouxe do lixo uma televisão que ainda funcionava. Colocou-a numa pilha de livros. À Sexta nunca mais perdeu o Concurso que dantes via no café. Enciclopédias faziam de banco. Então uma camioneta veio descarregar um frigorífico enorme. Telefonara e acertara na resposta. Mas Leonilde ligou-o e o quadro eléctrico estoirou.

– Serve de estante, – resolveu Raul.

Estavam nisto quando a TV bateu à porta para os transformar em estrelas por um minuto.

A coberto da noite, entre romances, confessou-lhe:

– Assaltei a casa de um ricaço. O meu cúmplice foi preso, os cães perseguiram-me pinhal adentro. Ia perdendo as duas mãos. Safaram-se estes, – disse sorriu, afundando os dedos nos pelos púbicos dela.

Leonilde saiu da cama. Voltou da cozinha e saltou-lhe em cima, colando-lhe uma faca gelada ao pénis:

– Voltas a mentir, capo-te.

Dito isto, cavalgou-o com fúria.

Nem um mês volvido, Raul entrou de rompante na velha casa.

– Onde o guardaste?

Pela porta forçada a pontapé entraram dois colossos que caíram em cima do maneta. Leonilde, atirada contra a parede, desmaiou. Voltou a si e Raul no chão, de olhos temerosos nela:

– O envelope?

– No frigorífico.

– Vai ver. Vasculharam tudo.

Ali estava, no congelador, atrás dos seus livros preferidos. Abriu-o. Era a primeira edição dos sonetos de Antero de Quental. Lembrava-se do célebre roubo ter sido notícia há alguns anos.

– Leonilde! – chamou Raul, tentando levantar-se.

Da cozinha chegou-lhe aos ouvidos um som metálico.

16/01/20

De que necessita um cão para ser feliz

Documentos do cão

De que necessita um cão para ser feliz? Já pensou nisso? Precisa, em primeiro lugar, que compreenda as suas necessidades enquanto animal. Depois, precisa do seu tempo, do seu afecto, paciência e dinheiro. E talvez mais alguma coisa que não me ocorre agora. Em troca disso ganhará um amigo dedicado que o acompanhará por longos anos. É tentador, mas é exigente. Não se iluda.

O seu futuro cão significa despesa, variável, é certo, desde que nasce até que morre, com certeza que de acordo com as suas necessidades específicas, mas, também, certamente, de acordo com aquilo que poderá gastar com ele. Todavia, não deve tentar iludir este requisito dizendo-se a si mesmo que o dinheiro é secundário, que compensará a sua falta com dedicação, e que até os sem-abrigo têm cães. Se ler este texto poderá ver de que forma se gasta dinheiro com um animal de estimação. Não referi muitos  dos preços pois existem variáveis envolvidas, importando sobretudo o tipo de animal e peso.

Na sequência da minha postagem sobre o Joaquim que vai comprar um cão em Janeiro, listei algumas indicações úteis para quem esteja a fazer planos de trazer um cãozinho para casa. Perante este desejo, existem duas vias. Uma é reunir informação sobre o assunto e só depois tomar a decisão. Outra, é ignorar todas as informações e trazer o cão, às cegas, fruto de um capricho ou paixão, seja para si ou para um seu familiar, embarcando assim numa aventura pelo desconhecido, que muitas vezes acaba por não correr bem. Ter o conhecimento não é, só por si, garantia, de que tudo irá ser satisfatório, mas é quase imprescindível para que tudo corra pelo melhor. Não quero com isto dizer que seja necessário tirar um "curso sobre cães" mas é de todo vantajoso e aconselhável obter informação relativa às implicações desse passo.

Uma coisa é certa: ou o dono domina o cão, ou o cão vai acabar por dominar o dono. Li isto muitas vezes e depois constatei na prática. E quando o cão começa a ser muito dono do seu focinho é quando começam os problemas. Para os evitar é preciso algum saber. Não é necessário dominar tudo sobre cães ao mesmo tempo. É algo que poderá fazer gradualmente, aprofundando e consolidando, à medida das necessidades que forem surgindo. Alguma dessa informação é mesmo de conhecimento obrigatório, por exemplo a que respeita a preceitos legais. Ah, mas as pessoas toda a vida tiveram cães e não era preciso nada disto, Belinha. Pois, só que a vida mudou, as pessoas mudaram, a maioria vive em blocos de apartamentos em cidades, não numa casinha na aldeia. Não vale a pena estar a comparar o cão que o avô tinha à porta de casa na aldeia com o cão que vamos ter no tapete, mesmo que da mesma raça.

(Esta lista não é exaustiva, é um pouco do que tenho aprendido, uma mera orientação que futuros donos de animais podem e devem aprofundar.)

0. Perfil pessoal e familiar - Estilo e ambiente de vida

Será sempre bom fazer um auto-exame e considerar o seu próprio carácter: vai necessitar quer de muita paciência mas também pulso firme, seja qual for o cão que escolher, em especial se ele for cachorro e precisar de se adaptar e aprender tudo. Também deverá ser capaz de estabelecer e honrar compromissos. O que sente em relação a isso?

Quando ao seu estilo de vida, considere se passa muito tempo fora de casa ou não, se vive só, ou não, se há crianças a viver consigo, ou idosos. É uma pessoa activa ou mais para o preguiçoso? Como é o  ambiente para onde quer trazer o cão? Vive num apartamento ou numa moradia? No campo ou na cidade? Existem zonas verdes próximo? Ao ponderar estas questões será mais fácil perspectivar que tipo de cão será o ideal - ou aproximadamente o ideal - em função disso.

As diferentes raças de cães têm características e temperamentos diferentes. Ao comprar um cão de raça será previsível antecipar como se irá comportar, mas isso não é uma regra absoluta. Numa ninhada pode haver cães que serão adultos com temperamentos muito diferentes. O comportamento do cão também depende do treino e afecto que receber. A certeza é maior quando às características físicas do animal do que outro qualquer traço.

A incerteza quanto ao futuro não deverá ser um impedimento na adopção de um cão sem raça definida. Se isso for importante para si, ou se é a primeira vez que vai ter um cão, procure um cão adulto, pois ele já possui um temperamento/comportamento determinado que os seus protectores decerto conhecem e poderão informar. Alguns cães que estão nos abrigos foram ali entregues por donos que viajaram ou em caso do seu falecimento, sendo conhecidos os seus antecedentes. Procure em várias associações. No entanto, cães abandonados e ali recolhidos podem ter ficado traumatizados e apresentar necessidades de socialização extra para as quais um dono desprevenido não estará preparado. Daqui resultam devoluções de animais. A situação pode ser ultrapassada com treino persistente e paciente ou recurso a conselho profissional.

Existem cães mais enérgicos, mais adequados a quem tem um estilo de vida activa, e que espera a sua companhia numa corrida ou caminhada. Existem cães que convivem melhor com a ausência do dono, mais adequados para quem passe muito tempo ausente de casa. Um cão pequeno pode ser mais agitado do que um cão grande, ou seja, um cão grande até pode conviver melhor num espaço pequeno que um cãozito minúsculo que causa um enorme reboliço. Existem cães que precisam de fazer bastante exercício, ficando muito dependentes de espaços para correr e brincar ou de passeios mais longos. Quando existem crianças, pode ser indicado um cão mais forte - e de temperamento dócil -  que resista às tropelias do que um mais frágil. Com idosos, pode ser indicado um cão mais tranquilo que enérgico, um cão adulto mais do que um filhote brincalhão. Uma família pode desejar mais do que um cão de companhia, pode também desejar que ele faça guarda à casa, etc.

1. Informação 

 O cão, em geral,  e a raça específica, em particular - Legislação 

A internet, só por si, está cheia de informação sobre cães, mas essa abundância pode desincentivar o leitor. Um site por onde pode começar é o site da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal.  Deve conhecer a legislação aplicável. Por exemplo, em Junho do ano passado, as regras sobre identificação de animais foram alteradas. Existem regras quanto à convivência de cães e humanos em prédios urbanos, estabelecimentos comerciais, nas ruas, nos transportes, nas praias. Conhecê-las - e cumpri-las -  evitará muitos transtornos.

Quanto a livros, basta escolher um manual sobre cães que cubra o essencial do conhecimento necessário. Um livro pode ser comprado, requisitado em bibliotecas ou até pedido emprestado. Existem muitos livros e torna-se difícil escolher. O melhor é ir a uma livraria e folhear alguns. Escolha o que lhe agradar mais. Há quem goste de livros mais ilustrados, há quem tenha mais paciência para descrições cuidadas. Li vários desses livros ao longo dos anos e alguma informação acaba por ser comum a todos.

À primeira leitura qualquer manual pode parecer até um pouco assustador, caso o assunto seja novidade. Mas não é motivo para desanimar. Com paciência e diligência tudo se consegue do animal, pelo menos, na maioria das vezes. Quando tal não sucede, resta obter ajuda de um profissional mas nada estará perdido. Depois, se por acaso optar por um cão de raça, também deverá aprofundar o conhecimento sobre essa raça em particular, para o que não faltam livros e sites.

Outra hipótese que deve considerar é  falar com donos de animais, voluntários que trabalhem em associações e veterinários. Esclareça as suas dúvidas.

Nunca se esqueça que nem todas as pessoas gostam de animais e que mesmo aquelas que gostam deles não desejam ser envolvidas em problemas resultantes da sua incapacidade para estar à altura do exigido. Vou dar-lhe um exemplo. Passear o cão pela trela parece ser algo de difícil entendimento e cumprimento para alguns donos. Se o cão, por mais fofo, vem ter comigo e me suja toda com as patas  e lama por não ter obedecido ao chamamento do dono, forçando-me a chegar ao trabalho com ar desmazelado, acha que ficarei contente? Ou, se o entusiasmo do cão, por mais inofensivo, me apavora, porque já fui mordida uma vez, acha que devo ser condescendente? Se tenho um cão territorial, na trela, e um dono leva o seu sem trela, e ele se aproxima do meu, sendo mordido, a culpa não é minha, que tenho o cão na trela. O dono está a proceder erradamente. Este tipo de comportamento é comum, gera momentos de aborrecimento de parte a parte, perfeitamente escusados. Os donos têm de entender que as regras existem por alguma razão (protecção do animal e de pessoas, inclusivé)  e deixar-se de fazer a sua interpretação pessoal delas só porque discordam ou lhes é conveniente. Portanto, se quer ter um cão, uma das primeiras questões a fazer-se é se saberá ser responsável. A responsabilidade diz respeito quer a cuidados que deve ter com o seu animal quer à consideração devida a pessoas em geral.  Note que um cão nunca tem culpa de não ter um dono à altura do que merece.


2. Registo e identificação do animal

O sistema de informação de animais de companhia (SIAC) é uma base de dados pública que agrega informação sobre os animais de estimação residentes no país, bem como sobre a sua titularidade, detenção, localização e condição de saúde. O seu objetivo principal de prevenir o abandono animal, promovendo uma detenção responsável.

Decreto-Lei que lhe deu origem determina que a identificação passa a ser obrigatória por registo dos animais (cães, gatos e furões, outras espécies podem, no entanto, ser registadas de forma voluntária.) e marcação com microchip, sendo da inteira responsabilidade dos médicos veterinários e agentes autorizados. Deve ser realizada até 120 dias após o seu nascimento.

Para serem registados os animais têm primeiro de ser marcados com um transponder. Um transponder é um dispositivo electrónico (microchip) que é injectado debaixo da pele do animal. Depois de marcado, o animal é registado no sistema, que faz equivaler a sua ficha ao número de série do microchip que foi injectado. Na ficha de registo passam a constar a identificação e dados pessoais do titular, bem como o registo de acções veterinárias relevantes (como as vacinações obrigatórias, amputações e castrações). É depois emitido o DIAC, isto é, o  Documento de Identificação dos Animais de Companhia sujeitos à obrigação de registo naquele sistema. 

O microchip e o procedimento de marcação de um animal de companhia numa clínica veterinária particular tem um custo que ronda os 30 euros. A este custo vai somar-se uma taxa de registo no sistema de informação de animais de companhia (2,50 euros). 

Para cães, gatos e furões nascidos depois de 25 de outubro de 2019, o registo e marcação no SIAC deve ser realizado em 120 dias, ou seja quatro meses após o nascimento do animal.

No caso de animais nascidos antes de 25 de outubro 2019:
– cães nascidos antes de 1 de julho de 2008 sem microchip, o prazo para o fazer é de 1 ano;
– gatos e furões nascidos antes de 25 de outubro, sem microchip, o prazo para o fazer é de 3 anos;
– animais (cães, gatos e furões) com microchip mas sem registo no SIAC, o prazo é de 1 ano.

Com este novo sistema, os tutores de animais de companhia deixam de ter de fazer o registo e pagamento de licença de registo nas juntas de freguesia, mas existem outras licenças que continuam em vigor, por exemplo, são obrigatórias as licenças para os cães potencialmente perigosos e perigosos, de acordo com o Decreto-Lei n.º 315/2009.

O novo registo apenas é aplicável a animais que nunca tenham sido registados por médicos veterinários. Para animais que já se encontram registados no SIRA ou SICAFE, os dados são transferidos automaticamente para o SIAC, não sendo necessário proceder a outro registo.  Para confirmar se o animal está regsitado, basta aceder a www.siac.vet/verificar-registo e inserir os 15 dígitos referentes ao microship.

Outros documentos dos animais são o Passaporte de Animal de Companhia, emitido pelo veterinário  exigido quando viaje na União Europeia, e o Boletim Sanitário de Cães e Gatos. Estes documentos podem ser solicitados pelas autoridades em qualquer momento.

Boletim Sanitário de Cães e Gatos tem a informação do detentor/titular do animal, a identificação/descrição do animal, a identificação do veterinário, o código de identificação electrónica, certificados veterinários de saúde, vacinação anti-rábica, outras vacinas, desparasitações, testes de diganóstico, tratamentos, licenciamentos. Criado em parceria com a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, a OMV criou o boletim sanitário para cães e gatos, para registar as vacinas e dificultar a vida a "veterinários falsos". Até ao momento, eram os próprios laboratórios farmacêuticos que forneciam estes boletins, dificultando a fiscalização. O novo boletim veio tornar difícil falsificar estes documentos — uma vez que tem um holograma e um número de série.

3. Serviço de veterinária

 Vacinação

A vacinação não é um acto isento de risco nem no homem nem num animal, mas é uma forma de protecção eficaz contra vírus, bactérias ou parasitas. Deve ser administrada a animais saudáveis e só depois de consulta do médico veterinário onde ele procede à revisão do historial médico, esclarece sobre riscos e efeitos adversos. O protocolo de vacinação varia consoante a área geográfica e o veterinário aconselha qual o ideal especifico para o seu animal: existem até raças mais susceptíveis a certas doenças. As doenças mais comuns em cães e que podem ser prevenidas são: Esgana,  Hepatite de Rubarth, Parvovirose, Leptospirose e Raiva - estas duas podem ser transmitidas aos humanos -,  Tosse do Canil, Piroplasmose ou Babesiose, Doença de Lyme e Herpesvirose.

Em Portugal, a vacina da raiva (anti-rábica) é a única obrigatória. Esta deve ser administrada a partir dos 3 meses,  e os cães têm de estar devidamente identificados no SIAC. Pode registar o animal e proceder à vacinação na mesma consulta. Normalmente o valor da vacina já inclui a consulta veterinária rondando entre os 20€ e os 30€.

Os cães podem ser vacinados a partir das 6 semanas de idade, contra duas das principais doenças que afectam os cachorros: esgana e parvovirose. A partir das 8 semanas de idade já podem ser vacinados contra a parainfluenza, hepatite infeciosa e leptospirose.

Após o primeiro ano de vida é preciso reforçar a vacinação, depois o animal é vacinado anualmente com uma dose de cada vacina. Algumas vacinas, incluindo a da raiva, já podem ser administradas com validade para três anos.

A primovacinação deve ser repetida mensalmente até às 16 semanas ou, para além destas, para que seja garantida a imunidade de pelo menos um ano. A revacinação (após a primovacinação) é feita todos os anos, uma vez por ano, para cada vacina.

Para além da vacina que confere proteção contra a Raiva, o veterinário normalmente vacina o animal contra a Parvovirose, Esgana, Parainfluenza, Hepatite infeciosa e Leptospirose.

Existem vacinas mais específicas que só são administradas observadas certas condições: é o caso da leishmaniose, doença que afecta principalmente zonas de Trás-os-Montes e Alto Douro, Alentejo, Lisboa e Algarve. Pode ser administrada em animais a partir dos 6 meses de idade. É dada em 3 doses e posteriormente repetida anualmente numa dose única. Se o cão vai passar uma temporada num hotel canino, deve considerar a vacina contra a tosse do canil.

Desparasitação

A desparasitação pode ser feita internamente e dará protecção contra vermes como as lombrigas. Estes parasitas, afectam geralmente o estômago, esófago e intestinos, e transmitem-se através da ingestão oral, quando os animais  ingerem ovos ou larvas de parasitas depositados no chão. Deve ser feita de três em três meses. Os adultos e crianças que convivam com o animal também devem fazer esta desparasitação. Informe-se com o veterinário ou o seu médico de família sobre vantagens e desvantagens.
Indicado para prevenção da dirofilariose canina (conhecida como verme do coração), 
tratamento e controle de infecções intestinais por vermes redondos e vermes chatos.

externa faz-se para proteger o animal de parasitas externos como pulgas, carraças, (provoca febre da carraça, deve ser removida com pinça) ácaros ou flebótomos. Os parasitas afectam pele e a pelagem, causando  dermatite, comichão e mesmo  queda de pelo. As picadas são desagradáveis para o animal, e podem transmitir doenças (leishmaniose, borreliose, verme do coração ou babesiose). Existem diversas alternativas de desparasitantes incorporadas na coleira do animal, em spray ou em pipetas.




Este desparasitante externo para cães entre 10 e 25Kg tem 4 pipetas, aplica-se na pele do animal, 
na zona da coluna, uma por mês. Mata pulgas, carraças e piolhos assim que tocam na pele do cão. 
Repele carraças, mosquitos, moscas picadoras e flebótomos evitando as suas picadas. 
Custa 20 euros. Estes produtos variam consoante o peso do animal.

 Esterilização

A medida de esterilização pode ser tomada a partir do momento em que o animal  atinge a maturidade sexual, entre os 6 e os 10 meses. Nos machos, faz-se através da retirada dos testículos, enquanto que nas fêmeas retiram-se apenas os ovários (procedimento mais comum) ou também o útero. É essencial para o controlo da população mas também acarreta benefícios para a saúde dos animais, que o veterinário poderá esclarecer. A esterilização varia em função do peso e do género do animal, uma vez que a cirurgia para fêmeas é bastante mais complexa, obrigando a internamento e mais medicação. Para um cão com cerca de 20kg pode chegar aos 120€. Para fêmeas com o mesmo peso pode chegar aos 200€. Consulte vários veterinários e até associações de protecção animal para conseguir obter o melhor preço.

Saúde

Poder contar com aconselhamento veterinário é um grande benefício para o animal mas também para o dono, que pode ser esclarecido sobre muitas questões por este profissional. Todavia os preços dos serviços são elevados. No momento da escolha de um animal é fundamental saber algo sobre a saúde dos cães. É conveniente ler alguns livros, procurar informação na internet ou junto de pessoas que possuam animais da  raça. Existem certas raças que apresentam predisposição para certas doenças. Um exemplo que conheci de perto: os shar pei necessitam de operações às pálpebras porque é normal apresentarem problemas. Outras raças como os Cocker Spaniel, São Bernardo, Mastim Napolitano e Bloodhound, também. De igual forma, também poderá querer informar-se acerca da longevidade previsível de uma raça.

É comum dizer que cães sem raça definida são por regra mais saudáveis. Não tenho uma opinião formada embora seja certo que muitas raças foram vítimas da endogamia - criadores inescrupulosos cruzaram os animais entre ninhada promovendo a hereditariedade de doenças - ou da manipulação das suas raças para potenciar certas características ( beleza) acabando por desencadear problemas de saúde que são hoje perfeitamente conhecidos.

Em média, uma consulta de rotina pode custar 25 euros e uma de urgência 50 euros. Quero aqui destacar um projecto em particular, o Hospital Veterinário Solidário SOS Animal (HVS) . Aí se financia parcialmente a assistência veterinária a animais tutorados por cidadãos com baixos rendimentos comprovados, ao abrigo do “Regulamento de Cidadão Carenciado”. Com as receitas provenientes de uns, ajudam os outros. A SOS Animal não tem capacidade para apoiar todas as situações. Aproveito para divulgar pois talvez o leitor queira ajudar. Aqui estão as possibilidades de o fazer.

Ajudar o Hospital Veterinário Solidário

4. Seguros

Responsabilidade Civil - Outros

Um seguro é uma boa aposta para garantir tranquilidade ao dono pois os imprevistos acontecem. Com fundamento em responsabilidade civil, o seguro garante o pagamento por danos patrimoniais e/ou não patrimoniais decorrentes de lesões corporais e/ou materiais causadas a terceiros pelo cão, que serão indemnizados até ao limite estabelecido por lei.

Além desse seguro, pode pagar-se para ter protecção noutras valências: Despesas Médicas e Medicamentosas Convencionadas - Acesso a Rede Convencionada e Prestadores de Serviços e Produtos Despesas Médicas e Medicamentosas em caso de Cirurgia por Acidentes - Despesas - Médicas e Medicamentosas em caso de Cirurgia por Doença -  Furto ou Roubo - Desaparecimento  Eutanásia e/ou Funeral - Guarda em Canil ou Gatil - Protecção Jurídica.

O prémio dos seguros para animais é influenciado pela  idade (pode ser exigida mínima e máxima) e a raça (o nível de perigosidade). Apresento um exemplo.

O Decreto-Lei nº312/2003 de 17 de Dezembro estabelece as regras para a posse de animais potencialmente perigosos. Segundo o mesmo, o detentor deste tipo de animal fica obrigado a possuir um seguro de responsabilidade civil, com o capital mínimo de € 50.000; em relação ao seu animal.

São considerados cães potencialmente perigosos aqueles que, devido às características de espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possam causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais. Mais especificamente: Cão de fila brasileiro, Dogue argentino, Pit bull terrier, Rottweiller, Staffordshire terrier americano, Staffordshire bull terrier e Tosa inu.

5. Alimentação

Ração - Snacks - Suplementos

Por vezes gastar mais dinheiro numa ração de qualidade pode fazer a diferença, ajudando a diminuir idas ao veterinário. Por exemplo, se tem um animal susceptível a problemas de pele, como o shar pei,  a substituição da ração pode ser decisiva. Também deve evitar dar ração em excesso ou dar alimentação humana ao seu animal. Alguns dos nossos alimentos são tóxicos para o cão, por exemplo, o chocolate. Importa conhecê-los e evitá-los. A prevenção do excesso de peso é fundamental para evitar doenças. Para reduzir o peso de um animal terá depois de o forçar a dieta, usar ração especial, mais dispendiosa, e prolongar os passeios. Por tudo isto, importa prevenir.

O custo relativo à alimentação do seu cão varia em função da saúde, do peso e idade do animal, ou até de certos objectivos. Imagine que quer levar o animal a concurso. Uma boa ração tem grande influência na saúde mas também na beleza do animal, na sua pelagem. Outro caso, uma cadela esterilizada pode ter tendência a engordar. Se não puder fazer com ela todos os passeios aconselháveis, a opção por uma ração adequada pode prevenir que engorde e que fique mais sujeita a doenças por excesso de peso.

O mercado tem rações de variado tipo e por vezes não são os produtos mais publicitados que são os mais adequados. Certos snacks para cão, por exemplo, podem ser extremamente calóricos. Não serão ideais para um cão que tenha excesso de peso, mas poderão ser bons para um animal jovem e com metabolismo bem activo.

Um dos suplementos mais habituais na alimentação são os ácidos gordos essenciais, que tornam o pêlo mais brilhante e sedoso e são anti-inflamatórios, ajudando muito em problemas de pele. Nesta área o conhecimento de um veterinário prestável e interessado pode fazer toda a diferença.

6Higiene e beleza 

Escovagens, banhos, corte de unhas e tosquias

A higiene do cão é mais ou menos fundamental consoante o ambiente onde viva. Poderá não conseguir lidar com isto e ser forçado a levar o animal, sempre, a um profissional. Ou poderá fazer parte da manutenção em casa e levá-lo ocasionalmente a um profissional. Ou tratar do seu animal de estimação como um profissional! Em casa será a melhor opção pois o animal não vai estranhar. Mas, por vezes, isso será impossível.

A escovagem pode ser mais exigente ou menos consoante o tamanho, tipo de pelagem e temperamento do seu animal. Um cão pode ser escovado semanalmente para desembaraçar, eliminar pelo morto, e promover a secreção da película gordurosa protectora da pele, ou, de acordo com as suas características de pelo,  diariamente. Vai precisar de um pente de dentes largos ou  escova com pontas metálicas para escovar o pelo, quer seja curto, ( neste caso até pode usar uma luva de borracha) médio ou longo, mas sobretudo neste último caso, pois o pelo ganha nós e tem tendência a enredar-se. Aproveita-se a escovagem para ver se há parasitas ou pequenas feridas, que, lambidas, logo se tornarão maiores e mais difíceis de tratar.

Se o cão tiver pelo algo comprido vai ser bom usar uma escova-ancinho de dentes metálicos que elimina muito bem os pelos soltos e mortos. Esta escova não corta mas remove o pelo e assim espalha-se menos pelo pela casa. Precisará ainda de uma boa tesoura para lhe aparar o pelo, se conseguir fazê-lo.

A escova


Os cães não precisam de tomar muitos banhos, depende muito do ambiente onde vivem e se se sujam ou não. O tipo de pelo também tem influência e o cuidado geral que o dono tem com ele e o estilo de vida que faz com ele: se circula entre o jardim e a casa, se está sempre em casa, etc. Um banho por mês poderá até ser demasiado. Use a regra do bom senso.

Para o banho, se não tiver quintal ou jardim, vai precisar usar a sua banheira ou o chuveiro - e, no final, limpar todo o WC por onde se espalharam muitos pelos. Tem de usar um shampoo próprio para cão e toalhas turcas para o secar. O cão vai-se esfregar também em toalhas que espalhe no chão. Se não as tiver lá, ele vai esfregar-se em carpetes, tapetes, sofás... Depois das toalhas, use mesmo um  secador de cabelo.Um cão pequenino vai ter mais frio do que um grande. Se conseguir ter um ambiente aquecido será melhor para o bicho. Evite correntes de ar e escolha, de preferência, um dia de sol.

A seguir ao banho é uma boa ocasião para cortar as unhas do seu cão com um corta-unhas adequado. Se o cão não andar em superfícies duras com frequência, elas não se vão desgastar, ou se for um cão leve. Não meta nada nas orelhas do seu cão, tipo cotonetes. Use uma toalhita humedecida para limpara a orelha se ela contiver sujidade.

Deveria escovar os dentes do seu cão todos os dias, tal como lava os seus, mas se isso não for possível, pelo menos 3-4 vezes pode semana. Use uma escova e pasta de dentes específicas para cães. Para habituar o cão/cachorro há que começar por utilizar o dedo para escovação em vez de  uma escova. Outra opção é uma dedeira, caso não se sinta confiante em por o dedo na boca do animal sem protecção. Existem pastas de dentes com sabores agradáveis, que podem ser ingeridas, o que acaba por tornar a tarefa mais simples do que parece! Pode parecer um luxo, mas vai deixar de pensar assim quando o cão começar a desenvolver mau hálito impossível de ignorar, além das doenças das gengivas e dos dentes. Ao lamber-se o odor da boca passará para o pelo e dali para o ambiente. Poderá ser mais ou menos sensível a este odor, mas não é agradável.

Orozyme pasta dentífrica apresentado na forma de gel destina-se a 
manter as gengivas e os dentes saudáveis e a prevenir o mau hálito reduzindo a placa dentária. 12 euros

7. Acessórios 

 Passeio -  Viagens - Casa - Outros

Para os passeios existem à venda trelas, peitorais, açaimes, é o básico para poder circular com o seu cão na via pública, além de sacos para recolher os dejectos do animal e seu dispensador. Pode ainda comprar uma capa para protecção da chuva se não gostar de cheiro de pelo molhado e se quiser passar menos tempo a limpar-lhe o pelo com uma toalha quando chegar a casa. Ajuda mas ele sempre virá para casa molhado.

Se viaja com frequência, uma peitoral de segurança para usar no carro, que também pode ser usada em passeio, é uma aquisição a considerar. Além da sua forma e do seu material acolchoado, o seu desenho especial permite passar com o cinto do carro pela fita do peitoral para melhorar a fixação no carro. Assim o seu cão ficará seguro em caso de acidente ou travagem brusca, e esta segurança também o protege. Conte ainda com uma protecção resistente, uma capa de nylon para proteger os bancos traseiros do carro e evitar a deterioração dos assentos por arranhões, humidade ou pelos. A capa é ligada/presa aos encostos de cabeça frente e traseira. Tira-se com facilidade, permitindo que passageiros se sentem no banco limpo. E também se lava com facilidade.

Comedouro e bebedouro

Em casa não pode faltar um comedouro e um bebedouro. Aconselho a que adquiram um comedouro com relógio. Funcionam a pilhas. É muito bom quando se trabalha fora e não se consegue chegar a casa a horas certas. Assim o cão pode sempre alimentar-se à hora a que estava habituado. Também é útil nos casos em que o cão come bem cedo. Imaginem que ao fim de semana querem dormir um pouco mais! Também é útil colocar um tapete anti-derrapante no chão com o comedouro e bebedouro.

Existem muitas variedade de camas para cão, ou até de casotas. No inverno, quando está mais frio, os cães gostam de mantas e muitas vezes fazem uma espécie de ninhos com elas.

Uma grade de separação é a solução ideal para limitar o acesso a determinadas áreas da casa. Por exemplo, se quer impedir o acesso à cozinha, ou à sala, quando tem visitas, ou enquanto limpa, ou precisa de algum isolamento. Também pode ser útil vedar as grades da varanda quando a cabeça ou o  corpo do cão é mais fino que o seu intervalo. Tive de o fazer porque a cadela atirava os brinquedos para a rua através deles!


Brinquedos

Os cães gostam mesmo de brincar com brinquedos. Brincam sozinhos e trazem-nos os brinquedos, mesmo sem quase os ensinarmos, para brincarmos com eles. Podem ser baratos, como aquela corda entrançada, ou mais caros, como este peluche com som. Existem brinquedos de vários tipos e adequados a estimular certas aptidões dos animais. Terá de os lavar e substituir periodicamente.

Outros itens úteis, são o rolo tira-pelos de animais de estimação, um bom aliado para manter a sua roupa, mantas, almofadas, sofás sem pelos. Se se aborrece muito com pelo treine o seu cão para nunca subir para sofás ou camas. De outra forma, haverá pelo. Também há quem invista em acessórios específicos para o aspirador. O aspirador é imprescindível. Também não deve faltar um desinfectante para casas com animais de estimação sem lixívia nem amoníaco, um balde e esfregona.

Conte com um espaço próprio (baú, caixa plástica, pequeno armário, prateleiras em armário) para acondicionar todos os pertences do cão, medicação e sua documentação.

8. Treinos 

Obediência - Problemas de comportamento - Modalidades desportivas ( Podem ser consideradas)

Vai querer ensinar algumas coisas ao seu animal para facilitar a convivência consigo e com os outros. O tal Manual que indiquei costuma ser o suficiente para aprendermos como fazer. O veterinário também pode dar uma boa ajuda. Entre os 3 e os 6 meses são ensinadas coisas básicas aos cachorros: comportamento básico de obediência, ou não morder e não roer objectos, fazer as necessidades no sítio certo. Depois, por exemplo, andar à trela, ao lado do dono, sentar quando o dono pára, caminhar sem puxões e arrastões, durante os passeios. Ou mesmo evitar que comam do chão ou aceitem coisas de estranhos. Mas por vezes os cães apresentam questões comportamentais que necessitam de treino mais específico. Deve-se estar alerta para sinais de perigo e não minimizar. É também complicado  resolver medos e fobias a barulhos, objectos e pessoas, ou ensinar o cão a não perseguir pessoas e animais  ou evitar que lata em demasia, ou até combater manifestações de agressividade.  Resta, nos casos mais difíceis, a intervenção de um profissional, que não é barata mas que costuma resolver. Deixo uma sugestão. O sr. Jorge é um profissional de extrema competência que não hesito em recomendar. Contactos: FONTE DO OURO - Canil e Escola - Rua Real, s/n, Gordos - Arazede - Coimbra

9. Pet-sitting, guarda ou hospedagem

Por fim, o que fazer quando temos de nos separar do animal por motivos de viagem seja em lazer seja em trabalho ou outra eventualidade? Nem todos temos um vizinho, ou amigo ou familiar disposto a ficar com o cão. Os donos confiam então as chaves de casa a um profissional que por  um preço entre 7-10 euros, uma visita -  com direito a tratar da comida, água e higiene e passeio, ou mesmo birncadeira, escovagem, envio de fotografias - ou duas visitas, - por exemplo, se for preciso dar medicação - se encarrega de cuidar do nosso amigo de quatro patas na nossa ausência.  Outras vezes, os cães ficam à guarda do pet-sitter, em sua casa. Outra possibilidade é a da hospedagem na casa de um pet-sitter ou então num hotel canino, que usualmente dispõe de boxes para os animais.

Também poderá considerar o pet-walking, um serviço em que  alguém vai passear o cão enquanto o dono trabalha ou está doente, ou de alguma forma impossibilitado de o fazer.



12/01/20

Conversas sobre Ciência - Pint of Science: vai acontecer em Maio de 2020



Em 2012, Michael Motskin e Praveen Paul, dois neurocientistas do Imperial College em Londres, decidiram organizar um evento chamado Meet the Researchers (Conhece os Investigadores). Este evento reuniu pessoas afectadas por doenças neurológicas com os respectivos investigadores para que estes mostrassem o seu trabalho laboratorial. O evento teve um impacto tão positivo que inspirou a criação do Pint of Science - um festival de ciência para a sociedade.​ Desta forma, em Maio de 2013, realizou-se a 1ª edição do festival Pint of Science em 3 cidades de Inglaterra – Londres, Cambridge e Oxford. O festival reuniu em bares locais, durante 3 dias, grandes nomes das diversas áreas científicas que discutiram as suas descobertas com o público presente.​ O sucesso da primeira edição permitiu a continuidade deste festival que rapidamente obteve um reconhecimento além fronteiras.

O Pint of Science é uma associação sem fins lucrativos cujo principal objectivo é tornar acessível a discussão científica a toda a população de forma a colmatar a falha de comunicação que existe nesta área. Para tal, anualmente, é realizado um festival internacional de ciência, onde investigadores de diferentes áreas são convidados a apresentar os seus projectos de uma forma simples e interessante num ambiente descontraído como um bar.

O festival ocorre anualmente durante 3 dias no mês de Maio e em simultâneo em centenas de cidades do Mundo. Em 2018, o festival decorreu pela primeira vez em Portugal mobilizando mais de 500 pessoas. Em 2019, 3 novas cidades – Aveiro, Braga e Bragança – juntam-se a Lisboa e Porto para acolher o festival nos dias 20, 21 e 22 de Maio.

Em 2020 o evento terá lugar em Aveiro, Braga, Évora, Guimarães, Lisboa e Porto.

Os eventos vão abordar os temas seguintes:

- Cabecinha pensadora: neurociência, psicologia e psiquiatria

- Do 8 ao 80: física, química, matemática e astronomia

- Com pés e cabeça: medicina, biologia humana, saúde

- O nosso Mundo: geociência, botânica e zoologia

- Ter muita lata: engenharia, robótica e computadores

- Chatear Camões: direito, história, política, línguas

- Pint'Arte: ciência e arte juntos

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10/01/20

Desafio de escrita dos pássaros #17: Luz e Sombra



Quando a Estrela do seu Sistema finalmente se apagou, o grupo dos Inteligentes ligou a Grande Lux e, limitando o seu alcance, assim dominou uma parcela da população do território sobrevivente. Totalmente dependentes dos Radiantes por mais de dois séculos, os Sombrios revoltaram-se, decididos a conquistar um bem maior que a liberdade. Na história do Reino de Pantona, hoje desaparecido, o trágico episódio nunca foi registado.

A Luz irradiava de uma Torre de muitos quilómetros ligada ao núcleo do Planeta. Os Radiantes abriam as escotilhas negras e raios luminosos estendiam-se como um manto dourado sobre Pantona. Os Sombrios choravam o desolado território assim descoberto pela penumbra. Quando as trovoadas artificiais iluminavam os céus, o arco-íris era uma memória que feria e o verde-musgo uma ténue esperança. A Sombra aprisionara o presente e condenava o futuro. Consumidos pelo desejo de ver tudo, o que estava longe e perto, a revolta contra esta pálida impressão da vida cresceu neles como um fungo.

Um grupo de Rebeldes foi consultar a Consciência do Reino. Ela comunicou que as sortes não eram favoráveis. Pereceriam em vez de renascer das trevas. Guerra, nunca. Negociação era o caminho. Um Emissário partiu e nunca regressou. De novo os Rebeldes a auscultaram sem entender o enigma: “Há luz para além do vermelho ao violeta. A sombra não é nossa inimiga nem a luz nossa aliada.”

O regimento de armaduras negras movia-se a coberto da Fase Escura. Os Radiantes dormiam quando a plataforma energética foi invadida, dominados os poucos operadores ali presentes. Comandaram-lhes que libertassem a Luz sobre o Reino e, quando eles se recusaram, mataram-nos um a um até conseguirem o pretendido. As escotilhas negras subiram lentamente. Selaram as portas da Torre, um grupo de guarda. Outro avançou para o Palácio Radioso e também ali pelo poderio da força e da surpresa conseguiram subjugar as Governanças do Reino.

O assalto fora uma vitória inesperada. Eufóricos, entregaram-se a festejos intoxicantes, observando a Luz crescer com intensidade inaudita. Choravam, deslumbrados com o seu esplendor, não conseguindo desviar o olhar, acometidos por uma cegueira que era o menor dos males. Em Sombria, lentamente, a pele da face e corpos nús que se banhavam na desejada Luz, libertos das habituais máscaras e fatos de protecção contra o álgido quotidiano, começava a borbulhar, a ferver e a cair. Alguns Sombrios refugiavam-se a tempo no subsolo, aguardando o regresso da penumbra com preces nos lábios.

08/01/20

Hoje escreve um português a viver no Irão




Pedi autorização a um amigo para transcrever aqui um texto que publicou no Facebook e usar as fotos, tiradas por ele, no Irão. Publiquei. Soube há uns minutos, infelizmente, que ele recebeu tantas mensagens de ódio que se sentiu forçado a apagá-lo. No texto ele não se refere a regimes, governos, instituições, política e líderes. Não é esse o seu foco. Limita-se a relatar algumas impressões sobre o país onde agora está e o povo iraniano tal como vive um e sente o outro. É a sua percepção de uma certa realidade. Reparem que cada pessoa tem a sua própria vivência. É até possível que daqui a uns tempos a percepção dele mude. Independentemente disso tudo, como justificar tantas ameaças e mensagens de ódio recebidas? O texto foi inicialmente publicado aqui com o nome do seu autor. Retirei-o porque ele removeu o texto do Facebook. Falámos e acordámos que o manteria no anonimato. Tive de republicar e por isso esta postagem foi actualizada.

Os iranianos são herdeiros dos persas, um povo que merece o nosso respeito tal como todos os outros povos do mundo. Foi por isso que fiquei indignada quando o  Trump lançou o infeliz "tuite" ameaçando destruir alvos culturais, tanto quanto fiquei quando os extremistas Taliban destruiram as estátuas no Afganistão . Ou quando os militantes do Estado Islâmico destruiram estátuas no Iraque, em 2015.  Qual não foi o meu espanto encontrei gente por aí a dizer que os jornalistas "inventaram" que Trump pretendia atacar alvos culturais!  Excuse me?!! Ainda pensei que fosse brincadeira de mau gosto, piada irónica, ou que talvez não soubessem inglês, apesar de se exibirem sempre como muito cultos. Não. Era mesmo o que queriam que acreditásse!

Contrariamente ao que muitos pensam, e escrevem, os iranianos não são (todos) uma horda de bárbaros incultos. Tal como os portugueses não são (todos) um bando de desenrascados. A Teocracia que lhes foi imposta é absolutamente criticável. Desde logo, não sendo eu religiosa, esta mistura de religião e poder político é-me coisa absurda, mais própria de tempos longínquos. No entanto também a política ocidental não é totalmente avessa a influências e orientações religiosas e isso transparece na legislação claramente em muitas circunstâncias. Além do mais, a nossa Democracia está longe de funcionar na perfeição, todos os dias a criticamos, manifestando a nossa insatisfação. Isso não deverá, contudo, significar que o nosso país, cultura, identidade e povo não mereçam o respeito dos outros povos. Evidentemente não sou ingenua a ponto de pensar que no Irão não circula uma mensagem anti-ocidente nos media oficiais. Pode perguntar-se quantos iranianos irão na cantiga e quantos questionarão essas histórias que correm nos media, tal como nós, aqui, quando nos retratam o Médio-Oriente como mera incubadora de terroristas e mistura de povos ignorantes que devia ser varrido do mapa. No entanto, pelo que conheço de vídeos documentais que se encontram no Youtube e relatos de viajantes, a maioria dos iranianos não é anti-ocidental: são pessoas educadas e cordatas para com o estrangeiro.

Contrariamente, o sentimento da maioria (dos portugueses, ou, pelo menos dos muitos que escreveram as tais mensagens odiosas) em relação aos iranianos é negativo. Parece mais confortável acreditar que é gentinha menor que nós, do que indagar sobre eles e ser até surpreendido. O interesse nessa pesquisa é nenhum porque a sua cabeça já está feita. O que cativa realmente a curiosidade corrente é o vestido usado pela Selma Hayek nos Globos de Ouro e as suas rotundas mamas. É para isto que o Google existe. Esta é a cultura que interessa. Se não gostam dos iranianos a quilómetros de distância, imagine-se o clamor se a guerra estourasse e os "bárbaros" começassem a vir para  a Europa em vagas, como refugiados. Mas o que sabe, quem assim escreve, acerca dos iranianos, da sua cultura, modo de ser, aspirações, além de que o regime iraniano é autoritário, repressivo, intolerável? Ou que a liberdade de consciência não existe, nem a liberdade de imprensa, nenhumas liberdades, aliás, que não estejam alinhadas com o que é lei (religiosa)? Mas, se é assim, não merecerá ainda maior respeito aquele povo? Não vivemos nós uma longa ditadura? E éramos então todos fascistas e pidescos? Todos os portugueses eram bufos? Todos torturavam? Todos tratavam mal as suas mulheres? Era o povo português desprezível, indigno do respeito dos outros povos?

Após anos de conflitos com os países vizinhos, os iranianos estão a fazer o melhor que conseguem, sufocados entre leis iníquas, sanções externas e economia deprimida, mais um chocante acumulo de riqueza mal distribuida por quem mais pode: as elites religiosas e militares e mais alguns artistas do regime, que os há sempre em todo o lado. Já se peguntaram se estarão os iranianos contentes com esta situação, em especial os mais jovens? Se gostarão do domínio dos aiatolás? Duvido mesmo muito. Ah, mas o funeral do Soleimani estava cheio de fanáticos, muita gente, era impressionante. Será verdade que o General é assim um tão grande herói para o povo? Já por acaso imaginaram que os iranianos podem ter sido "forçados" a comparecer a uma manifestação de pesar conveniente ao regime? Não faltarão "incentivos", desde dinheiro a sanções, claro, o medo é uma grande arma. Porque é então sempre o povo iraniano julgado como o criminoso em vez de lhe ser dado o benefício da dúvida?

Do que não tenho dúvidas é que esta situação de afronta aos direitos humanos que o Irão vive não interessaria a ninguém, dirigentes políticos, média e até opinião pública, caso não existisse por lá petróleo. Pura e simplesmente o Irão seria mais um país que não existiria no mapa -  a não ser para organizações humanitárias, - a não ser quando começasse a incomodar. Os EUA até podem arrazar o Irão, caso queiram, a troco de muita chacina e destruição: têm os meios. E o que ficará nesse lugar? Uma Democracia a funcionar? Ora, ora. Uma guerra com o Irão não será  nunca motivada por questões de segurança dos EUA e muito menos por questões de direitos humanos. Não sei já quem escreveu que  a guerra apenas permite que aqueles que não se conhecem entre si se matem para regozijo dos poderosos que se conhecem e não se matam. O que faz mover as potências não é a dignidade das pessoas, é controlar o seu acesso a petróleo, - ou qualquer outra riqueza - uma história que já vem de longe.

A vontade de fazer guerra que os EUA e Israel demonstram não é, certamente, o que o povo iraniano quer. Um povo nunca quer guerra a não ser que seja forçado a isso. Qualquer povo quer melhores condições de vida. O povo quer liberdade, o povo quer que os seus filhos vivam, não quer viver para os enterrar aos bocados. Se pesquisarem vídeos e documentários (alguns links abaixo) vão ver o que os iranianos conseguem fazer vivendo sob este clima de constante repressão. Imaginem o que fariam se fossem livres. É por isso que publiquei aqui o texto deste português. Porque o povo - eu, vocês - tem de apoiar o povo e deixar-se de fazer piadas fáceis com os iranianos só porque fazem rir os amigos e acumulam Likes. Não é inteligente, aliás, é tão esperto como o "tuite" do Trump. Façam humor balístico contra o regime, não desarmem. Sejam inclementes, impiedosos com os líderes. Os iranianos, desconfio, serão, na sua grande maioria, vítimas.

E era apenas sobre o povo que este jovem português escreveu, sobre o dia-a-dia das pessoas comuns, não todas, mas daquelas que ele certamente conhece e com quem convive. Pelos vistos, incomodou muita gente com a sua cândida versão dos factos para ser corrido a ameaças. Que bonita a nossa liberdade, então, quando uma pessoa não pode expressar a sua opinião sem ser ameaçada! Ou então a nossa tolerância: que reacção tão emblematicamente cristã tiveram! Quem sabe algumas das que se sentiram incomodadas não foram as pessoas muito cultas que desculparam o "tuite" acéfalo do grande líder americano. Talvez essas mesmas pessoas tenham ficado muito tristes quando a Catedral de Notre-Dame pegou fogo, não?  Eu também fiquei. Visitei-a, há muitos anos, tenho fotos lindas que até fui revisitar nessa ocasião. Pois não consigo entender como alguém possa regozijar-se ao saber que tesouros artísticos do Médio Oriente foram ameçados por uma chefia de um país "livre, avançado e desenvolvido".  Infelizmente, a arrogância cultural já se tornou norma e bandeira de quem é muito culto. Apenas uma minoria de burros, onde me incluo, pensará, tolamente, que o povo iraniano não merece uma guerra ou que o património cultural do Irão é também da Humanidade devendo ser activamente protegido e poupado a guerras estúpidas que apenas são norteadas por ganância, leia-se "petróleo". O Irão possui uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, tanto de petróleo como de gás. E tornou há semanas público que encontrou uma enorme jazida de petróleo. É essa a única riqueza que Trump, e outros como ele, reconhecem e veneram. E é também por causa do petróleo que a guerra não irá escalar, disso e de um trunfo único que é a sua posição geoestratégica para o trânsito do ouro negro: abençoado petróleo, promotor da guerra mas também da paz.

Para terminar, quero apenas notar, resumindo, que cada um é livre de acreditar naquilo que quiser, mas que alimentar o desconhecimento gera intolerância, indiferença, incompreensão. É dele que nasce o desprezo por qualquer povo ou cultura que não seja a nossa, a persa, a aborígene, a africana, etc, como se o mundo ocidental fosse a norma por que todas se hão-de aferir. Pela minha parte, não tenho dúvidas de que a maior  riqueza do nosso mundo é a cultural, não o petróleo.

"Teerão, Irão.

Sentado na sala da minha casa em Teerão a ouvir Nat King Cole. O álbum começa com a canção Unforgettable. Granda malha! O meu pai punha sempre esta canção no carro, naquele rádio de cassetes que um dia foi gamado no estacionamento do Fonte Nova, depois de partirem o vidro traseiro.

Mas aqui estou sentado em frente ao portátil, a tentar ganhar coragem para explicar o que é o Irão e como é viver neste país de que tanto se fala agora. A tentar ganhar coragem para desmistificar muitas das coisas que tenho lido e ouvido. Tenho as minhas dúvidas na eficácia da mensagem. Num mundo com tantas palavras, ideias, julgamentos e opiniões, às vezes mais vale estarmos quietos no nosso canto e não dizer nada. Até parece que somos mais inteligentes e cultos quando não dizemos nada. Não dizer nada é o novo cool.



Mas dado que aqui estou, no centro de um novo terramoto, resolvi juntar umas palavras e escrever umas frases sobre o assunto. Eu sei que a fotografia do futebolista Hulk com a sobrinha da ex-mulher tem muito mais interesse, mas se tiverem tempo leiam, deve demorar para aí uns 4 minutos.

Em primeiro lugar, gostava de acabar com um mito. Não, no Irão não há lojas a vender bandeiras americanas para serem queimadas. Por acaso não sei onde arranjam as bandeiras, mas as lojas que se encontram aqui são as mesmas que existem nos outros países: padarias, supermercados, lojas de roupa, cafés e lavandarias. Devido às sanções económicas, as grandes marcas foram-se embora. Não há Colgate, Nespresso, Nike e Mercedes. Mas graças a Deus há Nivea e todos os dias posso aplicar o meu creme facial sem restrições. Parece que a marca vem de um contrabandista na Turquia. Mas a vida segue no seu dia-a-dia sem estes deuses do capitalismo que prometem a juventude eterna. A consequência é que as crianças brincam mais na rua e nós passamos mais tempo em família e menos tempo em centros comerciais. Conseguem imaginar o terror?



Em segundo lugar, o Irão não é um deserto cheio de camelos e mulheres de burka que parecem pinguins. Aliás no Irão nem sequer há burkas, o traje que tapa o corpo todo exceto os olhos. O traje que se usa chama-se Chador. As mulheres são obrigadas por lei a tapar o cabelo, a pele dos braços e o rabiosque. Mas não a cara. E há mulheres lindas, elegantes, maquilhadas que escolhem um modo de vida não ligado à religião e vestem calças de ganga e vestidos. As mulheres são quem manda em casa. A sociedade é matriarcal (pesquisem no Google seus treinadores de bancada). Mas aparte das leis, vejo um respeito e um trato pelas mulheres que vi em poucos locais do mundo. Refiro-me ao trato dos cidadãos e cidadãs entre si. Sim, há leis que não permitem às mulheres fazer o mesmo que os homens e com isso não concordo. Devia haver igualdade de género, mas já agora onde é que isso existe? Na Finlândia? Pelo que li, nesse paraíso do Frozen, as mulheres já mandam mais que os homens. Mas no Irão não há violações como na Índia ou a violência doméstica que assistimos em Portugal. E os homens não são casados com várias mulheres à semelhança dos países árabes. E já agora acabar com duas notícias falsas que encontrei no Fakebook: não há homossexuais a ser enforcados em público ou uma lei que permita a homens casar com mulheres menores. Tenham dó.



E por falar em países árabes, No Irão fala-se Persa, não se fala árabe. O Irão não é um país árabe. Isso é o mesmo que dizerem que os portugueses são espanhóis, gostavam? O Vox gostava, mas posso assegurar-vos que há muitas diferenças entre o Irão e os países árabes, não só na língua, mas também na geografia, gastronomia, cultura, costumes, história, leis e acima de tudo pensamento e forma de estar.

Os Iranianos são hospitaleiros e educados. São inteligentes não só nas ciências, mas também nas artes. A genética é imponente e isso nota-se na altura das pessoas, nos cabelos, na pele e nos olhos. Os mais velhos são respeitados. Ninguém lhes vira as costas e todos se levantam quando uma pessoa mais velha entra na sala. As mulheres são lindíssimas por fora e no carácter, mas não tenho forma de provar porque no Irão não há Tinder. Kinder há!! Os ovos de chocolate da Ferrero. Também vêm da Turquia ao que parece. Mas com o prazo quase a acabar. Não se faz.



A comida no Irão é deliciosa. Os meus pratos preferidos são arroz com lentilhas e arroz com carne de vaca e feijão. Já encontrei uma loja com peixe fresco e há frutos secos, tâmaras, romãs, azeitonas e abacates com fartura. Não há carne de porco, mas já tenho o meu fornecedor secreto de bacon e salsichas. A vida é mais emocionante quando tens carne de porco no porta bagagens e medo de ser parado pela polícia. No norte do país há montanhas com neve onde se pode fazer ski. Às sextas-feiras costumo ir escalar um pico de 4000 metros mesmo atrás de minha casa. No sul, há lagos, campos de trigo e até arroz. As paisagens são diversas e há um deserto de sal para quem quiser ir comer pipocas e batatas fritas. No inverno neva e no verão faz muito calor. As quatro estações manifestam-se em todo o seu esplendor. Na primavera, os jardins de Esfahan enchem-se de rosas e inspiram poetas e amores.


Há cinemas, teatros e concertos. Há exposições e eventos desportivos. O futebol é o desporto nacional e está a crescer. Já há alguns jogadores iranianos nas principais ligas europeias. O Carlos Queirós é um deus vivo no Irão. Pela primeira vez na vida, o meu apelido serve para alguma coisa. As principais medalhas olímpicas são no halterofilismo.



Poderia continuar a descrever vários aspetos da vida no Irão e tentar quebrar mitos. Mas vamos ao que interessa.

Tu que estás aí, indignado e raivoso, à espera de que eu fale do General que foi morto no Iraque, do nuclear ou dos direitos humanos, podes desde já tirar o cavalinho da chuva. Nem me vou meter nisso. Neste momento o Nat está a cantar a Monalisa e tenho mais que fazer. Há argumentos para os dois lados e qualquer retórica é facilmente desconstruída. No sítio onde eu cresci, em Portugal, um país que me orgulho e certamente com os seus problemas, ensinaram-me na escola que quando alguém se porta mal deve ser julgado. Nas instituições competentes e designadas para o efeito. Se o senhor estava no avião e já cometeu muitos crimes, porque é que os auto-aclamados porta-estandartes da democracia não o apanharam e julgaram? É tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.



E deixo-vos com umas fotos do Irão que tenho tirado nos últimos anos. Venham visitar quando a confusão passar. Os mais velhos dizem que não vai acontecer nada, que isto é só fogo de vista e que já está a cantar desde 1979, quase há tanto tempo como o azeite Gallo. Claro que estou atento e preocupado, mas para já expectante e em contacto permanente com a Embaixada de Portugal. Aqui sou feliz, já tenho alguns projetos profissionais, estudo a língua, faço desporto e crio a minha família. Não vivo em nenhuma gaiola dourada ou condomínio com o nome Palms ou Keys. Vivo e luto no meu dia-a-dia. Ando nas ruas, cozinho, ponho gasolina, tomo duche, vejo futebol, brinco com o meu filho e às vezes até escrevo o que me vai na alma."


Sugestão de leitura:

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Author Jörg Brase and his team spent four weeks travelling through a country full of contradictions. Feyzollah Haghighi is 78 years old and one of the great masters of the ancient Iranian art of carpet weaving. He says Iran is like a pomegranate: lovely and firm, bitter on the outside, sweet on the inside. Haghighi owns a pomegranate grove on the edge of Isfahan where he retreats to find peace. "When I see Iran today, 40 years after the Islamic Revolution," he says, "I get far too upset." "All the world thinks Iran is black veiled women and bearded mullahs," says 25-year-old Shaghayegh, "but Iran is also a modern, highly developed country full of young people who have dreams and want to live like other young people do." Shaghayegh finds a way to break out and conquer a piece of privacy in a country where public life is subject to strict rules. "For over 20 years I have been fighting to bring color back into the lives of Iranian women," says the famous fashion designer Mahla Zamani, "and I will win this fight." Many Iranians see their future in their homeland, even if the Islamic Republic of Iran often makes their lives harder. But giving up is not an option.

Lotus-magazine, a primeira revista de moda Iraniana: no Instagram.


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