2/27/16

Ainda o cartaz do Bloco de Esquerda


O pão nosso de cada dia nos dai hoje, assim rezam os crentes. A polémica nossa de cada dia, nos dai hoje, bem podem dizer os adeptos das redes sociais. Um dia é o ABC racista da Ducla Soares, no outro o cartaz blasfemo do Bloco de Esquerda, especialmente criado para as redes, dizem eles. E assim vamos. Uma ramboia pegada que seria até gira se tivesse alguma utilidade. Só que a maior parte das vezes não tem. Quer uma pessoa divertir-se, partilhar fotografias de gatinhos fofos e citações sobre o amor e a gratidão e lá fica presa no comentário do António que acha muito bem, muito libertador, e no da Joana que acha muito mal, muito zombeteiro. E de repente já está também a elaborar a sua tese, que sim, que não, umas vezes de forma elegante, outras à bruta, é conforme o clima.  Uma vez passada tempestade viral é como se nada tivesse acontecido. Em suma, imaginem o tsunami. Vem, passa, arrasa e o mundo fica reduzido a nada. É tão só e apenas isso. Nem se pode falar de bonança.

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança, era eu outra criança - como na canção do José Cid - o Hérman José fez um sketch humorístico sobre a Última Ceia e de repente o país parou de circular. Antes das recentes eleições presidenciais o vídeo deste histórico episódio censor circulou nas redes porque o Professor Marcelo, naquela época presidente do PSD, era um dos escandalizados com o facto do serviço público de TV andar a brincar com coisas sérias, capazes de serem ofensivas dos valores da maioria dos Portugueses e da intocável instituição que é a Igreja Católica. Naquele tempo, eram os jornais, a televisão, a rádio e a mesa do café. Aí nascia e aí morria o burburinho maior e o tu-cá-tu-lá era mais contido. Hoje as pessoas já não se sentam à mesa do café, sentam-se à frente do computador - ou emplastram o smartphone à frente do nariz - e vai de meter ordem a eito na gentalha que, perdoai-lhes, que não sabe o que diz, e de dar a benção a quem partilha do seu ponto de vista, benção AKA Like ou Gosto. É quase  nunca um mar de gente serena, cordata, capaz de trocar opiniões e de se enriquecer mutuamente pelo diálogo. Os fiéis mais fervorosos das redes sociais parecem querer levar tudo e todos à frente. Munem-se de insultos, argumentos sem nexo, emoticons, enfim, é um fenómeno tipo vagalhão da Nazaré, mas sem o glamour dessa força da Natureza. Mesmo assim, uma parte do Zé Povo continua a viver o dia como se tudo fosse perfeito e o humor não se tivesse atravessado no caminho da religião outra vez, benza-os deus.

Ontem foi o cartaz do Bloco de Esquerda o causador do reboliço. Algum Zé Povo, a Igreja, alguns políticos e outros opinadores de serviço estão agora a dizer aquilo que o Professor Marcelo disse há 20 anos atrás. Ou seja, o tempo passa, há coisas que mudam, outras há que permanecem, coisas como a religião e o futebol. Ou mesmo a política. Coisas que incendeiam as massas. É como quando nos aproximamos das bombas de gasolina para abastecer: Cuidado! Não fazer lume.  Não se pense que isto é um tique nacional do país de Fátima, - John Cleese teve problemas com A vida de Brian, e nos EUA, pastores que anteriormente ao original BE usaram a frase " Jesus had two parents and he turned out ok" em outdoors também foram alvo de contestação. Portanto, na aproximação a estes assuntos dizem os prevenidos que devemos usar de cuidadinho. Outros mais descontraídos costumam apenas dizer que quem anda à chuva molha-se. E os mais visionários dizem que se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. (George Orwell); ou  que não concordando com nenhuma palavra do que é dito, ainda assim se defenderá até morrer o direito dela ser dita.(Voltaire)

Creio numa só Liberdade, pois, É nestes momentos de ebulição que o bom e velho princípio da liberdade de expressão é logo recitado na ponta da língua como o Credo em tempos o foi. Este direito é um dos pilares da Democracia, uma conquista civilizacional que nos assegura que possamos expor as nossas ideias livremente e ter acesso a opiniões de sentido contrário.  É ele que permite que nos conduzamos como um vagalhão da Nazaré nas redes sociais  e ao Bloco de Esquerda usar a imagem de Jesus Cristo para fazer humor. Para uns não devemos colocar reticências à liberdade de expressão, não a devemos defender para logo a seguir dizer que no caso da religião devemos ter muito cuidado com o que dizemos. Porque onde começa e onde acabará um tal menu de reticências?  Vamos então para a chuva, molhemo-nos e vivamos com as consequências. Mas se ao darmos expressão a essa liberdade nos tornarmos tão autoritários e inflexíveis que não consigamos medir o alcance danoso dos nossos actos à nossa volta, não será isso sinal de irresponsabilidade e egoísmo? Atender apenas ao meu interesse particular não fará erodir o sentido original dessa liberdade?

A primeira coisa que me ocorreu quando vi o cartaz do Bloco de Esquerda foi a falta de imaginação do mesmo pois já conhecia a "piada". Admitiria a "reciclagem" se a ideia fosse excelente. Só que não é.  Por diversas razões. O Bloco de Esquerda, que é tudo menos inocente, sabia de antemão que a imagem iria gerar polémica desnecessária sobretudo junto dos crentes. (Eu não sou crente e não acho que a escolha tenha sido feliz.)  Ora, o Bloco não está no negócio do espectáculo mas política é, infelizmente, cada vez mais.  um reality show.  O que eu quero dizer é que no presente caso das adopções,  já de si mesmo polémico, o recurso a um humor fracturante que vem dividir o que já é divisão era, portanto, escusado. Parece, afinal, que o riso nem sempre é o melhor remédio. Em que pé fica a responsabilidade do Bloco na representação de certos grupos e da sua luta pelo reconhecimento da igualdade de direitos? De que forma esta provocação humorística os beneficiou? A estratégia parece uma coisa de garotada sem juízo, própria da geração que se fez nas redes sociais e que vive para contar o número de comentários e Likes nas suas postagens e assim medir o seu sucesso, tantas vezes obtido através de conteúdos mais notórios do que assisados.

Além disso, o debate que se instalou nas redes foi todo em torno da religião e da liberdade de expressão e seus limites, não em torno do fim da discriminação da lei da adopção.  Creio até que muita gente nem chegou a ler as letras mais pequenas do cartaz. E o clima que se instalou de celebração não teve nada. Ninguém vai celebrar o desconhecido. A celebração do desconhecido tem nome: é religião. E se há coisa que não devíamos fazer era misturar a religião e os direitos humanos. Uma campanha neste domínio pede situações reais e pessoas de carne e osso e não entidades sobrenaturais sobre as quais não há - nem pode haver - qualquer consenso entre a população. A ideia de recorrer ao conceito mais rebuscado que existe de " família diferente" para fazer uma campanha que celebra a aprovação no Parlamento da lei da adopção por casais do mesmo sexo é rebuscada, assumam, é má comunicação, ponto.  Entendo que queiram transmitir que desde sempre existiram famílias diferentes. Mas, além da ramboia nas redes, que benefício foi gerado para a causa da igualdade de direitos? Estamos mais receptivos? Mais solidários? Mais elucidados sobre a nova realidade que aí vem? Só mostrando a realidade dessas adopções a funcionar é que as pessoas vão compreender se são válidas ou não. Mesmo que nunca aceitem essa nova realidade, é preciso que percebam que há coisas que estão a mudar, que o tecido familiar e afectivo do tempo presente é diferente do de gerações passadas e que pode ser também a normalidade, uma normalidade diferente daquilo a que a maioria está acostumada, por muito que isso lhes custe.

Quem anda à chuva molha-se. Parte da recente respeitabilidade do Bloco de Esquerda no jogo político é capaz de ter ido na enxurrada dos últimos dias. O que lhe vale é que nesta coisa das redes é tudo como Heráclito dizia, tudo flui e nada permanece. Amanhã já teremos nova polémica, no mínimo, cairá neve em Portugal e os ânimos arrefecerão.

2/25/16

Do livro de receitas vegetarianas - Bolachas de gengibre e canela!



Aqui estão elas, as bolachas de gengibre e canela segundo as indicações da Gabriela Oliveira, no livro Cozinha Vegetariana para quem quer ser saudável!

Conforme o prometido aqui estou a partilhar o resultado. Segui a receita do livro mas dupliquei as quantidades. Em vez de 24 bolachas consegui o dobro. Ela aconselhava usar o rolo para estender a massa e usar um cortador. Mas isso tem um inconveniente pois no final temos de voltar a moldar a massa recortada numa bola, voltar a estender e a cortar. A massa amolece um pouco e por vezes cola-se e dá chatice.  Assim tentei moldar cada bolacha na palma da mão, a partir de uma bolinha, e consegui. Coloquei as bolachas num tabuleiro sobre o papel vegetal, ficaram um pouco encostadas para conseguir despachar tudo no mais curto espaço de tempo. Ainda pensei que fossem deformar e agarrar-se umas às outras. Mas não. Cresceram para cima! E ficam estaladiças! São agradáveis e penso que se poderão até juntar mais especiarias para aproximar o gosto destas às bolachas às tradicionais bolachas de gengibre do Natal - é uma experiência que se pode tentar.

Quais são as vantagens destas bolachas? Desde que fiz a minha descoberta do gengibre que fiquei adepta da planta, em especial dos torrões cristalizados. Também as bolachas de gengibre me conquistaram mas elas são caras e ao examinar o rótulo vi que a presença de gengibre se estimava em apenas 1%, pelo menos nas que comprei. Daí ter ficado logo de olho nesta receita assim que li o livro. Por outro lado, mesmo não comprando muitas bolachas, de vez em quando eu gosto de roer uma bolachinha. As bolachas são na sua maioria preparadas com açucar branco e têm intensificadores de sabor e conservantes para se aguentarem nas prateleiras dos supermercados. As da receita levam açucar mascavado, muito mais saudável do que o açucar refinado, branco; também não têm aditivos, não têm ovos, são rápidas de fazer e muito económicas.

A próxima escolha vai recaír sobre um prato principal. Aguardem!

2/22/16

O que é o movimento da Slow Fashion


Quando o Rana Plaza, o edifício em Dakha, no Bangladesh, colapsou, em 2013, mais de 1000 pessoas morreram e mais de 2000 ficaram feridas. O edifício abriu fendas mas os chefes insistiram que os operários do têxtil comparecessem ao trabalho no dia seguinte. Uma tragédia que acordou o mundo para a forma como a moda do pronto-a-vestir persegue o lucro fácil, desrespeitando a mão de obra, a segurança das unidades fabris, a sustentabilidade. Recordo ter lido que edifícios há sem telhado acabado, chão de vigas a descoberto, prontos a crescer à medida do florescimento dos negócios com o Ocidente - é ali que conhecidas marcas como a Primark, Tommy Hilfiger, CA, Disney, GAP, HM, Auchan, Benetton, Carrefour, El Corte Ingles, Inditex, Kappa, Mango, etc, fabricam as suas roupas.Se procurarem as estiquetas da vossa roupa é provável que numa delas se leia Made in Bangladesh.

Encontrei um relatório sobre Direitos Laborais nas Fábricas do Bangladesh - aí se refere que o fundo que se criou para compensar as famílias das vítimas do desabamento não funcionou devidamente. Empresas existem que ainda não pagaram. Mas uma coisa é certa: a laboração não pode continuar a ser feita em desrespeito dos direitos dos trabalhadores - o relatório refere abuso verbal, físico e sexual, tempo de trabalho forçado, falta de pagamento da licença de maternidade, de salários, pressão para não usarem o wc, distribuição de água imprópria para beber - e sem estarem asseguradas condições de segurança. Noutro relatório, é referido que existem mais 5.600 fábricas de pronto-a-vestir no Bangladesh com 1500 a 2000 trabalhadores por fábrica. Ali também se lê que os entrevistados na sua maioria não querem abandonar as operações no Bangladesh. Parece, portanto, infundado o receio de que o trabalho nas fábricas que tirou muitos da pobreza e do qual resultam 80% das exportações do país, abrande. É por isso importante que se mantenha a pressão internacional.
Slow quer dizer devagar. Eu já abrandei há muitos anos atrás. De facto, comecei bem cedo a questionar o que me era vendido nas lojas e por uma razão: a minha mãe era modista profissional e até bem tarde as filhas tiveram o privilégio de vestir roupa feita por medida. Até hoje eu considero isso o maior luxo. Poder escolher o tecido, ter alguém que nos tire as medidas e faça um vestido ou um saia-casaco ou o que quer que seja só para nós é a perfeição. Quando comecei a ir às lojas com as minhas amigas eu era única que voltava as peças do avesso para ver os acabamentos e que refilava com a imperfeição ou a qualidade do tecido. Na realidade eu nunca me guiei muito pelo que a moda ditava e sempre escolhi roupa de acordo com o meu gosto pessoal. Nunca comprei peças para usar durante uma época, se gostava eu queria que durassem e estimava a roupa, lavando com cuidado, pendurando a secar devidamente, usando o ferro na temperatura certa - "quando a gente gosta, é claro que a gente cuida", canta o Caetano Veloso, noutro contexto, mas é isso. Por outro lado, a minha avó ensinou-me a desconfiar das pechinchas. O barato sai caro, dizia ela. A pechincha é uma ilusão, o que devemos procurar é o preço justo. Ela passou momentos difíceis mas quando comprava algo, fosse o que fosse, gostava de comprar bom. Porque ia durar. Poupava para poder comprar. Porque era caro. Prescindia para poder comprar. E por isso comprava pouco. Para que precisas de tantos sapatos, perguntava-me ela? Apenas tens dois pés. A minha avó já era adepta do Slow Fashion. Mas na minha juventude a produção têxtil era mais civilizada do que agora. Hoje o avesso da moda é uma realidade suja. Nunca se produziu tanta roupa em tão curto espaço de tempo. Não se trata apenas de pagar salários dignos aos trabalhadores do têxtil  e garantir que os seus postos de trabalho sejam seguros. Trata-se também de usar os recursos naturais de forma sustentável. Trata-se de equacionar se não estamos a esgotar combustíveis fósseis, reservas de água, a transformar terra fértil em terreiros de pó, se não estamos a contaminar o ambiente com a nossa pressa de obter mais colheitas de algodão, carregando nos pesticidas, ou, se depois, usamos pigmentos venosos no tingimento e vazamos para o grande, sem qualquer tratamento, se não estamos a despejar dióxido de carbono para a atmosfera só para fazer voar roupa - da China, India e Bangladesh - à tonelada até ao Ocidente.

A variedade de propostas do pronto-a-vestir é enorme mas, na realidade, a qualidade não é a nota geral nas lojas mais acessíveis. Quando se quer uma peça mesmo boa temos de procurar bem e pagar mais. Como a nossa mobilidade é maior e as lojas de marca proliferam, a hipótese de andarmos todos vestidos de igual, como se de uniforme da escola primária do meu tempo, é grande. Fazemos parte do grande exército que a moda do pronto-a-vestir equipou. A maioria não arrisca e segue os modelos que viu nas montras, ou nas revistas, que viu na TV, as propostas da pandilha unida dos blogues de moda. Não sei se quem está convencido de ter urdido um estilo muito próprio e original, não estará apenas iludido,  já que a massificação da produção têxtil se tornou a regra. E tal como os carros de um executivo que cessa funções se tornam obsoletos quando entra um executivo recém-eleito, também na época seguinte as nossas escolhas deixam se ser ideais apenas porque entra uma nova moda ao serviço. E tudo recomeça. É absurdo.

O colapso do Rana Plaza não foi o único acidente que tirou vidas a operários da indústria têxtil mas pelo número dramático de mortes que provocou lançou definitivamente a discussão em torno das marcas de grande consumo cujo traço comum é o baixo preço, a baixa qualidade dos materiais empregues e a rápida produção. Muitos são os consumidores que reivindicam desde então uma visão sustentável para uma das mais velhas indústrias do mundo, a par do transparente impacto social e ambiental da sua laboração e que buscam alternativas. É neste quadro que se insere e ganha força o movimento intitulado Slow Fashion. De uma forma simples, o que se pretende é que o consumo de roupa, calçado e acessórios seja feito de forma mais consciente e menos impulsiva.
"A mudança é o traço característico da moda. A cada estação as tendências mudam a cor, a silhueta, o tecido, ditando de forma artificial a obsolescência de uma peça. As tendências mudam agora mais rapidamente graças ao avanço da tecnologia de produção, encurtando o tempo que vai da produção do conceito até à venda na loja. A moda assim produzida é "fast fashion" , costuma ser de baixa qualidade e tem por finalidade ser usada uma única época.
O termo Slow Fashion foi primeiramente utilizado por Kate Fletcher em 2007 (Centre for Sustainable Fashion, UK) e é o oposto a tendências para uso numa só época. O seu objectivo é tentar que a mudança ocorra a um passo mais sustentável. Fazer perceber que não precisamos de comprar novas tendências a cada 6 semanas por sugestão dos retalhistas. Fazer com que tomemos consciência do que é na realidade importante para nós."
Como já devem ter intuido, o Slow Fashion não é um caminho fácil e eu podia agora alongar-me no capítulo das dificuldades para inverter o rumo da fast fashion. Mas considero mais válido concentrar-me em perceber a questão e depois de a ter percebido, tentar fazer alguma coisa, por pequena que seja, por exemplo escrever esta postagem.  Basicamente é-nos pedido que  diminuiamos a compra por impulso, que moderemos o nosso apetite por compras, que disciplinemos cada aquisição. Este processo torna-se mais fácil para quem ousar perceber e descodificar a hábil manipulação a que indústria nos sujeita através da publicidade. No momento da compra devemos preferir peças atemporais, feitas à mão, que utilizam tecidos naturais e duráveis como o algodão,  seda ou linho. As cores suaves indicam por si só tecidos mais limpos e têm menor tendência a tornarem-se datadas. Escolher uma produção em baixa escala que aconteça o mais próximo possível do local onde vivemos e procurar informação sobre criadores nacionais que se dedicam ao movimento Slow Fashion completa o ideário.

Para finalizar, uma síntese para quem desejar iniciar-se  no movimento da Slow Fashion:

- procure questionar-se se precisa realmente de adquirir a nova peça
- opte por comprar menos variedade
- escolha comprar peças que apresentem maior durabilidade seja em termos da matéria prima, seja em termos do seu design
- opte por peças que sejam versáteis e que possa vestir em variadas circunstâncias
- recupere as peças antigas ( por vezes é possível apertar, alargar ou alterar a peça para dar-lhe uma nova vida, ou mesmo desmanchar e criar uma peça nova)
- experimente trocar uma peça do seu guarda-fatos por outra de outra pessoa
- já tentou fazer algumas das suas próprias roupas? Talvez seja menos complicado do que imagina.
- utilize tecidos existentes que estejam em stock, esquecidos e inertes
- misture as peças antigas (vintage) com as recentes e procurar o seu estilo próprio
- desperte a sua sensibilidade para conceitos tradicionais eetnográficos da moda
- perceba que a roupa colorida é resultado de processos quase sempre mais poluentes
- opte por design mais clássico para que não se sinta um pato fora de água
- examine as peças que vai comprar e perceba as suas zonas de esforço - ver se os tecidos são adequados, se essas áreas estão reforçadas ou se podem ser facilmente substituidas (cotovelos, golas, etc) quando gastas
- compre de pessoas que recuperaram técnicas tradicionais que se encontram em vias de extinção
- adquira de pequenos produtores que fazem poucas peças
- compre localmente de produtores locais
- cuide bem das suas peças de vestuário respeitando as indicações de lavagem e secagem
- divulgue os ideias da Slow Fashion e a problemática que lhe deu origem


Apontamentos


Para começar a procurar peças sustentáveis em Portugal ver aqui

Dahka, Bangladesh, aerial view

The true cost - movie trailer e Imbd

2/14/16

Dia de São Valentim no Google


(Não resisto a ouriços e cactos!)

Victoire Dauxerre, a história de uma modelo rebelde

São palavras de jovens manequins das passerelles de alta costura e por isso muitas vezes caiem em saco roto.  Ainda que se trate de uma denúncia não falta quem fique indiferente a protestos e diga que por lá se fazem, por lá se pagam, que estavam ávidas de fama e dinheiro fácil, que a miséria que atraíram sobre si é uma mera consequência de uma escolha caprichosa. Independentemente dos seus objectivos poderem ser considerados fúteis por quem defende que trabalhar tem de ser mais do que passear o corpo por uma passadeira fora, sincopada e inexpressivamente, estas jovens, que são cada vez recrutadas mais cedo para o mundo da moda, estão a ser sistematicamente usadas, abusadas e descartadas pela indústria da alta costura.

Evidentemente que a maioria não quer saber. A alta costura é um mundo à parte, desenhado por uns quantos para servir outros quantos, uma coisa de elites, feita de ostentação e luxo. Vive-se bem sem isso e  nem faltam casos desesperados capazes de comover com mais pungência. Mas um trabalho é um trabalho, não devia ser um salvo-conduto para a exploração e em último caso uma sentença de morte. A moda não tem de ser sinónimo de exploração. Mas das passerelles chiques às fábricas de pronto-a-vestir deslocalizadas no Bangladesh essa é a realidade. Além disso, os padrões da alta costura têm sido absorvidos como norma pela sociedade e geradores dos maiores desconfortos para as mulheres.

"Ditadura da moda" é uma expressão gasta e banalizada, a moda sempre ditou regras. Este código gera um sentido de pertença. Os padrões de beleza variam ao longo do tempo, a existência de padrões que são pura tortura para o corpo e espírito femininos não é coisa nova. Mas este actual padrão ideal de beleza tem um impacto quase epidémico facilitado que é pela ampla difusão mediática. Mais, tem uma carga acrescida de artificialidade. Todos são atingidos, jovens e adultos. Atingidos em quê? Na forma distorcida como constróiem a sua auto-estima e auto-imagem, colocados perante um modelo artificial que os meios de comunicação difundem insistentemente, validando-o como autêntico, não importa se o espectáculo das passerelles é tão falso como o CGI da ficção científica. Sobretudo as mulheres, não apenas as jovens, mas as mulheres de todas as idades, acreditam no que vêem e ao quererem copiar esse ideal são confrontadas  pela impotência. O conceito da magreza extrema como padrão de beleza tornou-se um modelo a seguir. Ninguém se sente bem na sua pele. A estética tornou-se assim uma fonte de insatisfação e de doenças nervosas!Valerá a pena?

Apesar dos alertas,  o sonho de pertencer a este universo de glamour tornou-se uma popular versão do antigo conto de fadas. Poder vestir criações espectaculares, ser fotografado por grandes nomes, sair nas capas das revistas, talvez até dar o salto para o cinema, viajar, ser famoso e rico, é uma miragem que contagia jovens de ambos os sexos de todo o mundo.  É por isto que devemos prestar alguma atenção quando alguém como Victoire Maçon Dauguerre escreve um livro a dizer que foi uma vítima da moda. V de Vitória para Victoire, hoje com 23 anos, que teve coragem para denunciar os vícios da indústria num país onde a moda faz parte da identidade nacional, Paris é moda. A tirania a que se viu sujeita é descrita num livro - Jamais assez maigre: Journal d’un top model/Nunca suficientemente magra. Diário de uma top model. No particular caso das manequins, no momento em que as formas femininas começam a manifestar-se a dieta forçada impede o normal desenvolvimento do seu corpo. As sequelas podem ser osteoporose, atraso da maturação sexual, longas dificuldades em regressar a uma relação natural e saudável com a alimentação, problemas psicológicos associados aos distúrbios alimentares, etc. Se isto não configura violência no trabalho, não sei como chamar-lhe.

As revelações são chocantes para quem nunca tenha lido nada sobre o assunto: para conseguir atingir as medidas ideais  e vestir a roupa dos costureiros Victoire Dauxerre teve de passar fome. Aos 18 anos,  pouco depois de ser recrutada pela agência Elite, ingeria  três maçãs por dia, água gazeificada para criar a sensação de estar cheia e um pedaço de peixe ou carne uma vez por semana.  Ora isto é um regime que nem aos presidiários se dá! Nem mesmo tendo o peso ideal as suas fotos deixaram de ser retocadas no Photoshop. Ela afirma que as modelos não têm outro valor que o de serem cabides de roupa. Uma rapariga de 18 anos que mede 1,78cm não pode vestir senão tamanho 38, não o 32-34 que lhe foi imposto. Entre a anorexia e a bulimia, perdida e depressiva, ela faz uma tentativa de suicídio 8 meses depois de ter iniciado o seu percurso de sucesso - rapidamente ela tinha-se tornado umas das 20 mais requisitadas na profissão.

A imposição de medidas e peso estritos faz parte desta estética que os criadores de moda elegeram como ideal para as passerelles: corpos andróginos, seres assexuados que apenas sirvam o propósito de mostrar  a roupa que envergam sem distrações. O Género deixa de ser importante - o que podia ser mais anti-natural?!! Não deve a roupa servir para vestir os corpos ao invés destes serem formatados para servir na roupa? Não esqueçamos que além da  necessidade de proteção existe no vestuário uma função de comunicação. A roupa é a nossa segunda pele. O que estamos a comunicar ao aceitar roupa que exige corpos estéreis e uniformes? Esta escolha está decisivamente a afectar a forma como as mulheres em geral percepcionam o seu corpo e a transmitir a ideia de que a nossa sociedade aceita a diluição do Género e de diversidade. Ou seja, a indústria teve o condão de transformar o que era natural e normal em algo indesejável.  É uma conduta laboral castradora e uma preferência estética ridícula e desrespeitadora da dignidade da mulher e dos indivíduos em geral.

A prova de que a percepção do corpo da mulher foi formatada é facilmente verificável  no quotidiano e frequentemente.  Demonstrativo disso é, por exemplo, o caso de Jessica Atayde. Ela chamou-lhe escravidão da imagem. 
(Sou actriz. Não sou modelo. Optei há muito por um estilo de vida saudável, com escolhas que faço todos os dias em relação à minha alimentação e prática de exercício físico. Faço-o porque quero viver muito. Quero viver bem. Quero ser saudável e feliz como tantas outras mulheres. Desfilei na Moda Lisboa como convidada. Desfilei com o corpo que tenho que é o meu e no qual me sinto muito bem.Qual não foi a minha perplexidade quando observo que, a propósito de uma fotografia menos feliz, sou alvo de críticas, comentários desagradáveis e uma série de mimos, próprios deste mundo das redes sociais, em que ainda nos estamos a habituar a viver. Estes comentários foram feitos na maioria por mulheres. Mulheres, vou repetir. Mulheres que são filhas, mulheres que são mães, mulheres que ainda não perceberam que cada vez que cedem à tentação de atacar outra mulher com base nas suas características físicas, estão a enfraquecer a condição feminina, em vez de lhe dar força. Estão a cultivar as inseguranças, as desordens alimentares, a escravidão da imagem.

Jessica Atayde, blogue )








2/11/16

No Dia dos Namorados sugiro Lagosta


É um dos filmes mais bizarros que vi nos últimos tempos. Foi realizado por Yorgos Lanthimos, um realizador de nacionalidade grega. É o primeiro filme que vejo dirigido por ele e chama-se A lagosta. É um misto de comédia negra e terror, mas do tal que não causa sobressaltos, só uma certa náusea e desconforto mental. Lembrei-me de escrever a propósito uma vez que estamos em cima do Dia dos Namorados. Não sucede comigo mas dizem que esta data deprime os solteiros e que causa ansiedade nos casais. Pelos vistos é uma temporada de alta pressão para todos. A minha sugestão maliciosa é que vejam A Lagosta  no conforto íntimo do vosso sofá. É uma história de amor, encaixa no espírito da época, ainda que um filme assim surreal possa gerar sentimentos contraditórios de paixão ou ódio, tal como o Dia de São Valentim. Convém jantar algo leve para fazer a digestão de um par de cenas mais grotescas e a imprevisível tragédia dos minutos finais.

Imaginem então um tempo e um lugar onde o sistema não tolera gente solitária. Um pouco como o que parece acontecer no Dia de São Valentim, aquele dia escalado para lembrar a forma como a sociedade glorifica o amor romântico em tons de vermelho e cor-de-rosa. É aquela altura do ano em que tudo parece conspirar para o enaltecimento dos pares, aquele que mais se aproxima da dicotomia que o filme nos mostra: um mundo dividido onde os que estão sós são olhados como diferentes. No filme, não ter par é pior do que ser diferente, é ilegal. Não ter vida conjugal acaba por determinar a perda da condição humana, essa inabilidade ou incapacidade de acasalar despromove os indivíduos à condição de animais, seres irracionais. (Mas há algum humor nisto: uma vez no mundo natural eles têm uma segunda hipótese de encontrarem o seu igual.) Ali, quem ficar sem parceiro é preso e forçado a fazer um retiro de 45 dias num Hotel durante o qual procurará um novo par entre os hóspedes. Se não conseguir será transformado (cirurgicamente) num animal selvagem da sua escolha e depois libertado nos arredores. Se o tempo expirou existe uma possibilidade de conseguir mais algum participando em caçadas de solitários na floresta. Estes indivíduos recusam o check in no "Hotel do amor" e escondem-se ali. Por cada solitário abatido – são anestesiados e levados para o hotel para serem transformados em animais - ganham um dia extra.

David é um recém divorciado que foi abandonado pela mulher e chega ao hotel de semblante carregado, acompanhado por um cão, o seu irmão, que, ficamos a perceber, não tinha sido bem sucedido no internamento compulsivo. David é interpretado por Colin Farrell, mais gordinho do que é habitual e com um pouco atraente bigode! O ambiente que o aguarda é o mais impessoal possível, todos recebem vesturário idêntico e passam pelos mesmos rituais. Todos se expressam e movem com particular abandono e inexpressão. David tenta conformar-se com o seu novo modo de vida, faz amizades entre os homens e tenta a sua sorte com as mulheres. A rotina é hostil e completamente controlada pelos gerentes do Hotel através de um estrito código. Por exemplo, os casais que entretanto se formarem podem jogar ténis, mas os solitários só podem jogar golfe. Se os homens forem apanhados a masturbar-se o castigo surge pela manhã: na sala onde todos se juntam para tomar o pequeno-almoço é servida uma tostadeira onde eles serão forçados a meter a mão transgressora. Os hospedes devem encontrar um parceiro com quem tenham algo em comum: por exemplo, deitarem ambos sangue pelo nariz ou gostarem de bolachinhas, ou coxearem. Os defeitos e não as qualidades actuam como factores chave para ditar uma boa relação. (E porque não quando nos dias da internet parecem bastar fotos com poses artificiais e mensagens superficiais nas redes para juntar duas pessoas num romance. ) Os mais desesperados não hesitam em fingir um desses traços ainda que falsas ligações sejam monitorizadas, porque proibidas, e sancionadas. São os gerentes que avaliam a aprovam as ligações amorosas. Se tudo correr bem, o casal enfrenta um teste: uma estadia a dois num barco. E se surgirem problemas os gerentes atribuem ao casal em conflito uma criança entendida como o agente desbloqueador por excelência.

David tenta uma aproximação a uma mulher conhecida por não ter coração, mas a sua crueldade é de tal ordem que ele não consegue fingir idêntica natureza e é desmascarado. Mais perto de ser tranformado numa lagosta – o animal que ele escolhe por ter sangue azul, e viver 100 anos e ser sempre fértil – ele foge para a floresta e junta-se ao grupo dos solitários. Para sua surpresa – e minha - o grupo é igualmente dominado por um código cruel. Também ali não há liberdade para as pessoas sentirem e serem como desejam ser, quem for apanhado a beijar-se terá os seus lábios cortados. A regra é o celibato. A líder mobiliza-os em assaltos ao Hotel com o objectivo de desmascarar a pretensa harmonia em que os casais ali vivem e provar que as suas vidas são uma farsa. David encontra então um novo amor – e a mulher perfeita é perfeita porque vê mal, tal como ele - e é correspondido. O casal apaixonado elabora formas de viver e comunicar o seu amor sem suspeitas mas acaba por ser descoberto. Nada podia correr pior? Podia. A fuga é a única saída.

Bem interpretado, bem realizado, cuidado na construção dos ambientes e escolha dos exteriores, A lagosta conta com uma banda sonora muito presente onde a trechos de compositores clássicos - Beethoven, Shostakovich, Stravinsky - se juntam êxitos recentes, a balada Where the Wild Roses Grow, de Nick Cave e Kylie Minogue, ou Something’s Gotten Hold of My Heart, cantado com apuro ridículo pelo casal de gerentes durante um baile no Hotel.

A Lagosta é um filme que tanto cativa como causa repulsa. A sua estranheza desconcertante e violenta e o seu humor seco e peculiar não são para todos. Tornam até difícil reconhecer que há nele uma certa ternura. O que parece, analisados os dois lados deste estranho mundo, é que poucos indivíduos têm a coragem para se revoltar preferindo até fingir aquilo que não são, no primeiro caso, ou aceitar serem guiados por um líder que os manda cavar a própria cova na floresta para quando a morte chegar. O poder do sistema, seja ele qual for, para conformar a vontade dos indivíduos é grande. E aqueles que encontram forças para escapar terão de pagar o seu preço. Encarado assim A Lagosta é até um filme muito revolucionário. Mas quem sabe o que Yorgos Lanthimos, o realizador, realmente quis dizer? Feliz Dia dos Namorados!

Façam o teste clicando aqui!




2/9/16

It follows - Vai seguir-te. Este filme não é um horror de filme.


Ontem à noite vi um filme de terror - It follows. Isso merece destaque. Eu não vejo filmes de terror. Não porque seja medrosa mas porque é um género que nunca me atraíu. Apenas vi meia dúzia deles, os chamados clássicos. Não procuro ver, acho que é sempre tudo muito mau, más histórias, personagens feias a fazerem coisas feias, muito sangue, muitos gritos, enfim, não há pachorra. Qual a finalidade? Dar saltos na cadeira? Desviar o olhar? Ora bolas, a realidade tem histórias bem mais arrepiantes. Para que preciso eu dessas coisas monstruosas, sobrenaturais para não dizer estúpidas? O terror não me diverte, não me entretem, não me ensina nada. Há anos que eu milito nesta crença. Até que o ano passado uma voz começou a segredar-me ao ouvido – tens de ver It follows. Eu tratei de ignorar, mas a voz continuava - tens de ver It follows. A voz perseguiu-me durante meio ano. Filme atrás de filme. – Vais ver esse? Porque não vês antes It follows? Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Ontem vi It follows. E querem saber? É um bom filme de terror. Nem acredito que tenha colocado estas palavras numa mesma frase! E mais:é um filme protagonizado quase exclusivamente por gente na casa dos vinte e poucos anos. Juventude. Infelizmente a maioria dos argumentos trata os jovens actuais como estúpidos. Tanto as personagens como os espectadores. Ser jovem actor em Hollywood é o equivalente a uma maldição - os coitados são autenticamente perseguidos por argumentos irrelevantes e esterotipados. Sempre surgem umas excepções aqui a ali, claro, e It follows, pasmem, é uma excepção.

Ora, eu sou a última pessoa que pode escrever sobre as personagens maléficas dos filmes de terror. Não sou conhecedora. Norman Bates, claro. Chuckie e  Freddie Krueger. Todos estes nomes fazem parte da cultura popular, são óbvios. Consigo ainda nomear Samara mas páro aí. Curiosamente em It follows o terror não tem nome, não tem face. É como se fosse um vírus, tem existência material mas não se vê no primeiro contacto. Não será isso mais aterrorizante? Tal como Contagion, de Steven Soderbergh, não? Em It Follows  a maldição transmite-se por via sexual. É difícil não pensar na SIDA e nos tempos em que ser infectado era visto por muitos como um castigo para quem vivia na promiscuidade.  Em It follows a pessoa “infectada” passa ao par a sua doença e esta para se livrar dela terá de passar a maldição a outrém também por via sexual. Enquanto não o fizer ela será perseguida por uma entidade que pode assumir qualquer rosto, amigo, inimigo, conhecido ou não, e essa entidade não descansará enquanto não a matar. Essa entidade, por mais zombie que pareça, no seu passo lento e aparência, nunca desiste. Mas há mais: se a pessoa a quem o infectado passou a doença for apanhada, a maldição regressa ao hospedeiro inicial. A partir desta simples ideia se constrói todo o filme.  

Com It follows, não damos saltos na cadeira, bem pelo contrário, ficamos colados a ela. A atmosfera do filme faz-nos enterrar nos estofos e oprime-nos, subjugando-nos à incerteza do que estamos a ver. Os movimentos de câmara envolvem-nos nela, a banda sonora colabora de forma magnífica neste propósito. O terror corporiza-se naquelas criaturas que mais não fazem do que caminhar lenta e resolutamente na direção de quem querem matar. Não se sabe quando nem de que forma. Não passa disto mas é supreendentemente bom. É como se Jay, a protagonista, tivesse sido marcada para morrer por um assassino que permanecesse escondido à espera do melhor momento para lhe tirar a vida. É nesta intermitência que a história evolui, como se de um pesadelo ou de uma alucinação se tratasse. Os interiores e exteriores ajudam na construção de um certo alheamento espacial e temporal, uma irrealidade reforçada pela quase ausência de adultos. 

Os jovens são todos excelentes actores, bem escolhidos, em especial a protagonista que espero consiga dar o salto para desafios maiores. Será vulgar encontrar poemas – The love song, of J. Alfred Prufrock de T.S. Elliot , sim tive de procurar no Google – e textos de Dostoevsky em filmes de terror? Não sei. Mas há neste uso do escritor russo uma pista encontrar um sentido para todo o exercício desenvolvido no filme: o maior sofrimento não é morrer, é saber que se vai morrer. Uma história bem contada é sempre uma boa história, ainda que seja uma história de medo. Eis a conclusão.  Posto isto, acho que vou procurar mais alguns títulos do género. Aceitam-se sugestões.

2/7/16

Receita de bolo de maçã Lavoisier



E depois de termos dado uma voltinha pela alimentação saudável - ver a postagem sobre o filme That Sugar film ou sobre o livro Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável - eis o eterno retorno às coisinhas doces. Hoje é dia de bolo de maçã, como é que alguém pode resistir a um lindão assim? Eu sempre gostei de bolos de maçã e esta receita tem um nome especial - é o bolo de maçã Lavoisier. Lavoisier enunciou a lei da conservação da massa.  Hoje em dia não falta quem se preocupe com a massa e a queira conservar. O leque de pesquisas em torno da massa é variado: onde consegui-la? Como consegui-la empregando o menor esforço, meios e tempo? De que forma poupar a massa ou fazê-la render depois de adquirida? O diabo da massa parece governada por leis próprias e de difícil aceitação para a maioria. Por mais que tentemos esticá-la, ela nunca chega ao final do mês; além disso parece não se manter constante, parecendo como que evaporar-se! Até Lavoisier concordaria que esta massa está cada vez mais volátil!

Voltando à massa, Lavoisier não foi nenhum pasteleiro ou chef famoso. Eu sei que nem toda a gente sabe quem ele foi. Casou com uma menina de 13 anos! Ficou conhecido como o pai da Química! Morreu guilhotinado aos 50 anos! Não é grave não saberem estas coisas. Eu dispensaria saber muitas coisas inúteis mas elas entram-me pelos olhos dentro. Já as coisas úteis tenho que procurá-las pois elas não andam por aí aos trambolhões em memes ou nas notícias cor-de-rosa. Muita gente não procura por Lavoisier no Google porque ele está morto, não precisa dele. Logo não sabe. Está melhor essa gente do que todos aqueles, como eu, que não precisando das celebridades gramam com elas em toda a parte. Bom, parando com a inútil divagação, quando eu escrevi "massa" não me queria referir a massa de bolo ou de bolachas ou sequer "pasta". Estava a referir-me ao conceito científico de massa de que muitos cérebros irrequietos se ocuparam, caso de Lavoisier - ou Newton -  que, como não tinham redes sociais para perder tempo, nem TV, se dedicaram afincadamente ao estudo da mecânica. De acordo com a Wikipédia, "Os estudos experimentais realizados por Lavoisier que levaram-no a concluir que, numa reação química que se processe num sistema fechado, (onde não há troca de matéria com o meio ambiente) a massa permanece constante, ou seja, a soma das massas dos reagentes é igual à soma das massas dos produtos. " 

Que fique claro que eu só dei este nome ao bolo por brincadeira e porque me ajuda a distinguir esta receita de bolo de maçã de outras receitas, e porque me dá assunto para escrever esta postagem. Lá porque se retirem as cascas às maçãs e se piquem e metam na massa, não se perdendo, não quer isso dizer que seja exemplificação, nem que romântica, da lei que diz que a matéria está sujeita a constantes transformações, mas jamais à destruição ou criação. "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", dizíamos, na escola, de forma mais simples. Eu sei, é parvo. Mas assim sei sempre a que bolo me refiro pois receitas de bolo de maçã há quase tantas como leis de mecânica!

Ironicamente Lavoisier morreu precocemente por causa da massa. E agora quando escrevo massa refiro-me mesmo àquela  massa que faz girar o mundo, como canta a Liza Minneli no filme Cabaret. Associou-se a uma sociedade privada que cobrava impostos em nome da corte. Graças a essa decisão e rendimentos das acções ele conseguiu financiar a sua investigação. Mas eis que estalou a Revolução Francesa e os membros da Fazenda Geral acusados de usar ilicitamente os dinheiros do povo foram julgados e condenados. Lavoisier, então com apenas 51 anos, foi forçado a despedir-se da vida. Façam o bolo, leiam a biografia e conservem a massa!

E até que enfim, dirão, a receita do bolo Lavoisier. Fácil, fácil.

Receita de Bolo de Maça Lavoisier

Ingredientes
3 ovos
3-4 maçãs de tamanho médio, usei Royal Gala
3 chávenas de farinha de trigo sem fermento
1 chávena e meia de açucar
1 chávena de óleo
1 colher de sopa de fermento em pó
Meia colher de chá de canela
1 colher sopa rasa de farinha de trigo

Preparação
Descascar as maçãs e cortar em pequenos pedaços, colocá-los numa taça grande.
Polvilhar com a colher de farinha de trigo - diz que faz com que a maça não afunde. Agitar a taça para envolver s pedaços de maçã.
Picar as cascas. Parti as cascas aos bocados antes de picar na Moulinex.

Misturar numa outra taça: ovos, óleo, cascas picadas, canela, açucar.
Juntar o fermento e misturar bem.

Juntar a farinha à mistura. Incorporar lentamente, mexendo bem.
Por fim juntar aqui as maçãs cortadas e envolver.

Untar uma forma de buraco com manteiga ou margarina e enfarinhar.
Deitar a massa e levar ao forno a 180º por 35 - 40 minutos.


Apontamentos

Vida e obra de Lavoisier, aqui.


Livro de receitas vegetarianas


A escolha de uma dieta vegetariana tem vantagens conhecidas. Não é novidade que a ingestão de calorias é menor e que as pessoas poderão, talvez, controlar melhor o peso se forem adeptas da cozinha vegetariana. Isto acontece porque consomem menos gorduras saturadas o que acaba por ser benéfico na prevenção de doenças cardio-vasculares. Por incluirem mais produtos hortículas na alimentação, ingerem mais fibras e por isso também se sentem saciados mais facilmente.

Nunca pensei em tornar-me vegetariana mas preocupo-me com a minha alimentação e gosto de experimentar coisas diferentes. Talvez por saber isso o meu sobrinho deu-me um livro de cozinha vegetariana. Tem cerca de uma centena de propostas - pratos principais, snacks, sobremesas, bebidas, bolachas, tudo sem carne, peixe, lactose ou ovos. Aproveito para lembrar que 2016 é o ano Internacional das Leguminosas , assim proclamado pela ONU com o objetivo promover a utilização das leguminosas e chamar a atenção de todos para o benefício que a ingestão de feijão, grão-de-bico, ervilha, soja, lentilha ou a fava pode ter para a saúde.

O livro em questão chama-se Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável (disponível na livraria WOOK online) e é da autoria de Gabriela Oliveira que se tornou vegetariana há duas décadas. Está redigido de forma clara e inclui atraentes fotografias das refeições confecionadas. Na parte introdutória encontrei algumas informações interessantes para perceber como a cozinha vegetariana pode fornecer os nutrientes adequados ao organismo. Penso que estes ensinamentos também podem ser utilizados na cozinha tradicional. Por exemplo, saber que as proteínas não se encontram apenas na carne, peixe, ovos e lacticínios é uma coisa básica. Mas muita gente ainda recusa a ideia. As proteínas de fonte vegetal não são completas - excepções são a proteína fornecida pela quinoa, sementes de cânhamo e soja - mas combinados os amninoácidos pelo nosso organismo o resultado é igualmente alcançado. Assim ao ingerir leguminosas, sementes, frutos secos com cereais integrais fazemos uma alimentação igualmente saudável.

Outra ideia que retive pela surpresa é a de que especiarias e ervas aromáticas podem ser muito ricas em ferro, caso do  tomilho, do manjericão, açafrão das índias e canela moída. São mais ricas em ferro do que a carne! A vitamina C potencia a absorção de ferro pelo que se juntarmos alimentos ricos em vitamina C ou se temperarmos a salada com sumo de limão vamos melhorar a sua absorção. Chás, café e cacau limitam aquela absorção devendo ser consumidos fora da refeição.

A vitamina C também potencia a absorção de cálcio, a par da vitamina D e da prática de exercício físico. Um dado contestado por vegetarianos e não só é a utilização do leite de vaca como fonte de cálcio. A polémica não é nova. São sugeridas outras hipóteses - os leites vegetais, que podem ser preparados em casa a partir das sementes. Mas também a utilização de manjericão seco, canela, sementes de papoila, sésamo, linhaça, frutos secos, cereais, legumes de folha escura, como o agrião - exceptuando o espinafre  podem contribuir para a alternativa.

Apercebi-me que sem carne, peixe e ovos ou queijo é difícil aos vegan - aqueles que excluem toda a fonte animal da sua alimentação - obter vitamina B12. Este pareceu-me ser o principal problema do regime vegetariano, havendo necessidade de recorrer a suplementos. Mas já me disseram que isto não é bem assim. Terei de aprofundar!

A cozinha vegetariana privilegia os hidratos de carbono complexos, de absorção lenta, ricos em nutrientes - cereais integrais, leguminosas secas, hortículas e tubérculos como a beterraba, a batata-doce, a couve flor. A fibra destes alimentos reduz a absorção de gorduras e colesterol no intestino, e faz com que o corpo utilize a energia de forma mais lenta. Devemos variar os cereais que ingerimos alo longo do dia.

O livro inclui tabelas, exemplos de menu diário e semanal, descrição dos alimentos básicos utilizados na cozinha vegetariana, características e seus preços médios. Cada uma das secções - Bebidas, batidos e iogurtes; granola, muffins e bolachas; almoço e jantar; entradas e refeições leves;pratos principasi; saladas e acompanhamentos; sobremesas; bolos e tartes;doces frios ; - vem acompanhada de sugestões que facilitam a execução das receitas até pelos principiantes. Já selecionei algumas receitas do livro para experimentar! Se gostar não deixarei de dar nota do assunto.


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