Um vlogger francês na Bolívia mobiliza todos para cuidar da Natureza



Vídeo de  2013: uma visão encantadora do lago Uru Uru, na Bolívia

O autor deste vídeo comenta a presença de flamingos que tentam encontrar comida 
por entre o lixo e o facto do lago Uru Uru estar a secar. 
Quando ele faz zoom é possível observar as muitas aves a que alude.

Depois de 10 anos a denunciar o progressivo agravamento da condição do lago, e face a um aumento visível de plásticos nos últimos 8-11 meses,  parece urgente encontrar uma solução sob pena de se perder o lago Uru Uru para sempre
O princípio de uma nova vida para o lago Uru Uru. A 7 de Abril, activistas e autoridades,
 polícia, exército, cidadãos, reunem-se para dar início à limpeza do lago Uru Uru.

Por coincidência, depois de ter escrito sobre o Plogging, em Coimbra, li esta notícia  sobre uma grande acção de limpeza que está a decorrer num lago poluído nas terras altas de Oruro, no oeste da Bolívia. O lago formou-se pouco depois de 1956 sendo principalmente alimentado por um rio chamado Desaguadero que se liga ao famoso lago Titicaca. Nem a convenção Ramsar que o incluiu como património nacional e reserva ecológica o salvou da poluição e muito menos da seca que a partir de 2016 reduziu o nível das águas de 200 para 20 quilómetros quadrados.  Uru Uru perdeu 25 a 30% da sua água. 

O canal Tagarete, que vem da cidade de Oruro, foi um privilegiado meio de transporte de plásticos de toda a ordem para o lago. Os plásticos são considerados o principal elemento poluidor. Além deles outros resíduos sólidos e contaminantes das indústrias e mineração da área, metais pesados ​​como cádmio, zinco, arsênico, chumbo e mercúrio, também têm contribuído para a destruição da vida que ali existia. Ao ver as imagens actuais custa a crer que  o lago tenha sido o habitat de dezenas de espécies de pássaros, (76 espécies!)  incluindo cerca de 120.000 flamingos de 3 espécies, peixes e plantas. Os peixes eram o sustento da comunidade dos Urus, um dos povos mais antigos do continente.

O lago Uru Uru transformou-se  num vasto depósito de  garrafas descartáveis, fraldas usadas, brinquedos, pneus descartados, e morte: muitas aves ainda por ali andam mas acabam por  morrer. Foi encontrado um  cemitério de cães ilegal e até um cadáver humano agora se descobriu ali. Além das águas também as areias do fundo estão pestilentas e contaminadas.


Vídeo 2021 - o texto abaixo baseia-se na entrevista de Dehimar Antezana a Alexis Dessard

Alguma imprensa referia um activista, um influencer, Alexis Dessard, um jovem francês, que se tinha juntado aos voluntários na recolha do lixo. Pouco mais diziam a não ser que era um influencer. Procurei e encontrei o site do Alexis. Nos vídeos que vi nos orgãos informativos da Bolívia, Dessard apresenta-se apenas e sempre como um simples turista francês que viaja sozinho, a dar a volta ao mundo. Na realidade ele é um "vlogger" e vai registando e partilhando as suas aventuras com os seus seguidores. 

Com grande naturalidade e em espanhol, conta que chegou há dois meses à Bolívia motivado pelas belezas naturais do país e que ao visitar o conhecido cemitério de comboios se deparou com muito lixo ao seu redor. O lugar era lindo mas ficaria bem melhor sem plástico espalhado por toda a parte. Ali, locomotivas e vagões do século XIX, outrora utilizados para transporte de prata e estanho, hoje, enferrujados, quedam-se ao longo da antiga linha férrea que ligava Uyuni e Antofagasta. Então Dessard teve a ideia de publicar um video na página do Facebook de Uyuni apelando à limpeza do local e foi bem sucedido: apareceram 1000 pessoas para o ajudar. Apenas queria fazer turismo e de repente tinha conseguido mobilizar autoridades, empresas e cidadãos sem ter feito qualquer contacto formal. Sim, Dessard é um verdadeiro influenciador mas dos que não se limitam a fazer poses e a tirar fotografias e aplicar filtros e a publicar no Instagram. É alguém a quem a Bolívia de repente ficará grata: numa só manhã, sob o seu impulso influenciador, os voluntários limparam tudo. Mas ele não fica a ver os outros fazer, Dessard não tem medo de sujar as mãos e de ficar mal na fotografia. O seu enquadramento é outro. 

É claro que perante a bem sucedida inciativa de protecção ambiental logo alguém lhe mostrou imagens do agonizante  lago Uru. Isso aconteceu em fins de Março. Dessard partiu para lá. Primeiros contactos que teve foram com um jornalista e o alcaide de Oruro, Adhemar Wilcarane, depois seguiram-se muitos outros. O objectivo era limpar em 3 dias o máximo de resíduos, na zona mais próxima da cidade, mas parecem ser precisas mais jornadas pois os resíduos estendem-se em redor. Autocarros levaram as pessoas, camiões carregaram os plásticos, máquinas compactaram o lixo, que será reciclado. 

O jovem, considerado o impulsionador da iniciativa, com grande modéstia,  diz que o alcaide até já tinha começado a fazer certas operações de limpeza na "circunvalação", que isso estava na sua agenda política e que ele é que forneceu tudo: Dessard apenas se teria juntado a um processo que já estava em marcha. Frisa que não sabe nada de política nem quer saber de partidos políticos: o que o move é a causa da Natureza.

Agora pretende visitar mais da Bolívia. Vai continuar a dar a volta ao mundo e a juntar activismo ambiental ao turismo. Regressar a Paris não cabe nos seus planos mais próximos. Está feliz, satisfeito consigo e com a solidariedade de todos. 

Sem dúvida que os Bolivianos têm também de estar felizes. Até eu estou e não sou Boliviana. Isso acontece porque a Natureza não tem fronteiras. O planeta é a nossa casa. Este grupo de pessoas deram um pequeno exemplo ao mundo. Sem burocracias, sem formalidades, sem planificações demoradas,  sem impossíveis. Bastou alguém fazer um convite, um estrangeiro, e eles disseram "presente". Sem complicações. Porque era necessário, porque era urgente. Quando se observa o que sucedeu no lago Uru Uru, até parece um pequeno milagre. Um dia os flamingos regressarão em força a Uru Uru e a Natureza voltará a sorrir. É o que desejo.

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