30/08/19

O espectáculo das influenciadoras


Durante grande parte da minha vida as coisas eram claras: existia a publicidade. Era feita por pessoas que davam a cara e o corpo - ou, melhor, que os vendiam - mas que se limitavam a ser veículo de uma mensagem que gera impacto, não necessariamente conhecendo sequer sobre o que publicitavam, ou não lhe exigindo isso, nós.  Coisa diferente eram os "fazedores de opinião", gente oriunda das mais diversas áreas, figuras públicas, com legitimidade e real capacidade para mobilizar o nosso pensamento, e por vezes a nossa acção, por via da opinião que veiculavam através de meios de difusão com certo alcance, os jornais ou a TV. Entre as figuras mais públicas, os artistas sempre ocuparam um lugar à parte na arte da influência ditando tendências e fazendo moda. As criaturas outras eram todas satélites mais ou menos pardos destas estrelas e raras vezes conseguiam que a sua opinião fizesse escola, quanto mais fosse sequer difundida a terceiros.

Com a popularidade crescente das redes sociais todas as pessoas conseguiram um lugar ao sol para a sua opinião. Rapidamente algumas alcançaram destaque e surgiram os influenciadores. São pessoas aparentemente iguais a todos nós mas que supostamente têm o poder de influenciar de maneira directa ou indirecta a opinião de outras pessoas para consumirem um produto ou seguirem um estilo de vida. O seu poder persuasivo será tanto maior quanto mais reconhecimento tiverem por parte dos seguidores que em seu torno orbitam. Estes desenvolveram, mercê da proximidade promovida pela constante partilha de opiniões ou fotografias daqueles, uma sensação de identificação e até de amizade virtual e forte confiança nos ditos influenciadores.

Se até há um par de anos a palavra "influenciadora" se associava a um certo estatuto, actualmente ela é, cada vez mais, sinónimo de descrédito e desconfiança fruto de abusos vários praticados pelas pessoas "influentes". Também muitos criadores de conteúdo original online começam a tentar sacudi-la do seu curriculum para se distinguirem de celebridades que apenas querem tirar partido de fama que lhes granjeou um enorme número de seguidores e que tentam rentabilizar esse acumulo promovendo marcas e produtos.

Tupi Saravia, licenciada em publicidade, é uma argentina com 293 000 mil seguidores no Instagram. Define-se como blogger de viagens. Nas suas palavras"Soy productora de moda y asesora de imagen. Actualmente me dedico a viajar y a mostrar el mundo a través de mis redes sociales, principalmente Instagram. Básicamente el trabajo era subir diferentes looks con etiquetas de las marcas y, desde ahí, se podían comprar los productos de moda".Com uma conta de Instagram repleta de fotografias pulposas, tem motivado críticas, mas também memes e piadas engraçadas em virtude de uma série de fotografias onde alguém, na Europa, detectou uma mesma nuvem repetida no céu. Martina Tupi Saravia, é filha de Facundo Saravia e neta de Juan Carlos Saravia, músicos de Los Chalchaleros. Começou a dar a volta ao mundo e a colocar fotos na internet em 2015.


Não é raro considerar um perfil virtual relevante ao ver  números avantajados de seguidores ou de Likes numa página. É-se levado a pensar que se trata de alguém com autoridade na sua área seja como criador de conteúdo ou até mesmo fazedor de opinião. Aquela massa de pessoas e não a excelência do conteúdo é que conferem, desde logo, distinção aparente a uma conta num mar infinito de perfis e contas que não conseguem ultrapassar sequer o limiar do quase anonimato digital. Os números parecem legitimar quase automaticamente a sua importância: uma influenciadora é uma campeã de audiências. Está feito. Subitamente aquela maria ou zé ninguém é uma pessoa importante. Relevante. Tem poder de influência. É quase como instalar o Photoshop no nosso computador e dizer que somos designers. Os anunciantes que querem fazer chegar a sua mensagem  a uma geração que já nasceu de telemóvel na mão, tornam estas campeãs suas embaixadoras. Começam então a trabalhar com marcas com que se identificam: usam e promovem produtos e serviços, em princípio, em que realmente acreditam.

Aos anunciantes não deixa de ser difícil perceber se alguém que tem muitos seguidores é realmente capaz de influenciar a opinião de outrem para comprar uma peça de roupa ou visitar um destino.Talvez as pessoas que se juntam no Instagram da Tupi partilhem dos interesses e se identifiquem com o que escreve, ou talvez não. Talvez possam ser influenciados pelas atitudes, opiniões, escolhas e comportamentos. Ou talvez não. Não basta uma multidão de seguidores e Likes para ser uma influenciadora digital: dizem os entendidos do marketing digital que esta deve ter algo de importante e fundamentado para dizer, deve ser uma verdadeira autoridade. 

A Tupi já explicou que usou a app Enlightquickshot que tem uma função chamada "Sky control" para corrigir o céu das fotografias. Sempre que o céu fica queimado ela recorre à app. Tem uma preferência por aquele padrão de nuvens. Aproveitei esta história para me rir com os memes e passar ao lado do debate sobre a autenticidade que deva ou não existir no Instagram. Tentei levar Tupi a sério. Diz que é uma blogger de viagem mas a mim parece-me outra coisa: só vejo um catálogo de moda ao olhar para o seu Instagram.
Tupi em Portugal - Instagram

Percebi que esteve em Portugal ao ver as suas fotos no Instagram e percorri-as. Escreveu:  El Domingo en Portugal se pasó recorriendo castillos & palacios con @chenzi.ok ✨🇵🇹Este país me parece e p i s h i, me pasa que no me siento Europa. No sé si es el idioma el que le da el toque latinoamericano o quizás el calor inhumano, los colores de las callecitas, la gente .. NO SÉ pero es una versión de cuba con euros claro 💶 Me pareció un destinasaazo para venir con amigos! Además de barato, tiene la mezcla perfecta entre cultura, historia & tremendas playas 💥 En fin, mañana nos vamos para el sur y les seguiré contando como sigue esta aventura. Cualquier duda que tengan pregunten acá 👇🏽que tengan un herrdddmoxxo domingo 🏰. Nos comentários, e não são numerosos, as seguidoras estão muito mais interessadas em saber a marca do vestido que veste, o número que calça e em elogiar a sua beleza do que  saber mais sobre Sintra. Diversas perguntas sobre Portugal ficam sem resposta mas Tupi sempre lembra e linka, nos seus breves escritos, a marca dos produtos que usa e consome nos seus passeios. Seguindo o link vamos parar ao Instagram da marca anunciada e lá vemos Tupi fotografada em Sintra, com o par de botas da marca Chenzi. Eis o que me parece: Tupi é, sem dúvida, uma modelo mas como blogger de viagens deixa um pouco a desejar e quanto a ser uma "influenciadora" nem me pronuncio.

Não costumo perder grande tempo com "influenciadoras digitais". Esta implicação das redes com a nuvem da  Tupi não me importa muito realmente. Não me integro no seu público alvo. Não me interessam os produtos que anuncia e se desejar visitar um destino prefiro ver fotografias do destino em questão onde um corpo não atrapalhe: necessito é da cor local e não de selfies de turista. Continuo a precisar de conhecimento quando necessito de tomar uma decisão. E conhecimento sobre um destino é mais do que fotografias que suspeito terem sido trabalhadas no Photoshop ou em qualquer similar aplicação, com ou sem nuvens, promovido por um rabo giro.

Se não conseguir fazer aumentar as vendas dos produtos que anuncia no Instagram, Tupi pode congratular-se por vender uma imagem de vida saudável e feliz em cada selfie. A vida que a jovem dá a conhecer no Instagram é uma vida que muitos invejam e desejam: usar roupa da moda e viajar pelo mundo, livre de preocupações, sempre de cara alegre; o corpo que ela exibe, um com que muitas sonham e outras tentam alcançar com esforço. As pessoas deslumbram-se facilmente e deixam-se alienar por vidas de catálogo que não chegam sequer a ser reais estilos de vida.

Não se vislumbra até onde e quando irá ser prosseguida esta viagem da Tupi à volta do mundo em mais de 80 fotografias no Instagram. Já soma 31 países visitados, mais uma vez a vida resumida em números. Parece que nada mais existe nos seus planos senão tirar fotos em poses de modelo a cavalo de monumentos emblemáticos e acumular Likes. Nos países por onde esta jovem beldade rebola o seu rabo giro contra muros seculares e se espreguiça nas areias salgadas com o topo do bikini usado ao contrário ao jeito da italiana Valentina Fradegrada, - deve ser a moda mais estúpida que já nasceu no Instagram, - é tudo perfeito. Tupi não é a única a alinhar selfies felizes em cenários Hollywoodescos, históricos ou paradisíacos, sempre atraentes. Neles nunca cabe miséria, nem desemprego, nem fome, nem crime, nem política. O seu público não quer saber disso e ela faz-lhe a vontade. Quando a realidade imperfeita que a máquina captou não agrada, Tupi lança mão de programas de edição de imagem que acrescentam um céu ideal com as nuvens ideais, de que ela gosta. Por isso é que entendo não haver razão para espanto de maior: o céu editado não passa de um detalhe irrisório no meio de toda esta encenação de vida. A vida é bela sob influência das influenciadoras.  Não passa de um espectáculo contínuo para o qual se paga bilhete quando as seguimos. O que me espanta é que ainda haja por aí quem pareça não saber.


Para rir com Porta dos Fundos: Influencer - video

27/08/19

Livro Os 100 segredos das pessoas felizes, de David Niven

O livro Os 100 segredos das pessoas felizes pode ser adquirido online, na WOOK.

David Niven. Só conhecia um: o actor! Mas existe outro David Niven igualmente famoso: é psicólogo, investigador de ciências sociais, e autor de uma série de populares livros: "Os 100 segredos simples". Encontrou um filão: escreveu livros sobre os segredos das famílias e casais felizes, das pessoas saudáveis e de sucesso, e até segredos sobre o porque nos fazem mais felizes os cães. Calhou passar-me pelas mãos Os 100 segredos das pessoas felizes (The 100 Simple Secrets of Happy People: What Scientists Have Learned and How You Can Use It). Estava esquecido na mesa de uma esplanada onde me sentei para tomar café. Comecei a lê-lo. Evidentemente que os "segredos" não são eram segredo para ninguém. São, na maioria, indicações sobre modos de encarar a vida, conselhos comuns que tendemos a não associar à obtenção de felicidade de forma imediata mas que, de facto, podem concorrer para ela, coisas tão simples como: "Não se esqueça de se divertir",  "Exercite-se", "Ria",  "Tenha uma boa noite de sono",  "Leia sempre", "O modo como vê o mundo é mais importante do que a forma como o mundo realmente é". Quando paguei a bica perguntei se o podia levar comigo, que o devolveria no dia seguinte. O dono do estaminé não queria saber do livro para nada, nem sabia que estava lá, sobre a mesa. Referi que devia ser de algum cliente. Encolheu os ombros mesmo assim. Li-o, tirei umas notas, e daí a um dia voltei a deixá-lo no mesmo sítio onde o tinha encontrado.

Confesso que nunca fui vista na secção dos livros de auto-ajuda de qualquer livraria. Não é por recear que me vejam como uma criatura patética, pois é assim que são vistas aquelas pessoas que rondam esses escaparates. Todavia, creio que esses leitores estão apenas tentando saber mais do que aquilo que sabem para fazer mais e melhor com as suas vidas e isso não devia, na verdade, ser motivo de mofa por terceiros, certamente muito seguros de si e satisfeitos com o seu desempenho em todo o espectro da sua existência. Na realidade, nunca achei que esses livros pudessem fazer algo por mim. Não sei sequer se beneficiaria ou não das suas dicas. Não lhes reconheço qualquer poder de orientação, de alívio ou de cura, ao contrário de Aristóteles que  acreditava que a leitura sarava. A minha falta de fé nesses livros seria, logo, à partida, um óbice para que surtissem algum efeito. Não sei de onde veio o preconceito, talvez seja um caso notório de emprenhamento pelos ouvidos já que nunca li livros de auto-ajuda. Mas é por demais evidente que há mercado para estas obras e parece que David Niven tem parte dele na mão. Sei que não estou só nesta minha descrença, mas não sei ao certo se estou a ser apenas ingrata para com estes escritores ou se haverá um fundamento na repulsa que tantos nutrem por este tipo de publicações.

Estes títulos distanciam-se do aclamado e intemporal How to Win Friends and Influence People, de Dale Carnegie, uma das únicas, senão a única referência de livros de desenvolvimento pessoal que conseguiria nomear se questionada. Trata-se de um conciso mas relevante livro sobre a arte do relacionamento, seja no âmbito profissional ou pessoal, escrito após a Grande Depressão. Li-o há muitos anos e achei-o prodigioso pela síntese, utilidade e honestidade. Estes livros são claramente um produto do seu tempo e vivem das ansiedades e medos da geração a que se destinam. Actualmente os níveis de bem-estar da população são, em média, maiores do que em tempos passados. Mas também é grande a insatisfação da maioria e o sentimento de deriva, desgastadas certas instituições que serviam como âncora: as redes de vizinhança, a escola, a igreja, o casamento, e até a família. Ou mesmo o Estado. Estamos todos mais sozinhos - esqueçam o abraço fátuo das redes sociais que de sociais apenas têm o nome. Ou o balofo conceito da "aldeia global". As contrariedades avolumam-se. Detestamos o trabalho que fazemos, a rotina, que a tantos afasta de casa, pela manhã, para longe, todos os dias, apenas para os devolver à noite; os relacionamentos, não nos satisfazem, tornam-se cada vez mais breves e descartáveis; temos excesso de peso, excesso de desejos e sonhos, excesso de dívidas, vemos o futuro com mais incerteza que a geração dos nossos pais. Eis as areias movediças onde estes livros vão, naturalmente, lançar raízes.

Os livros de auto-ajuda não nasceram hoje, mas hoje multiplicam-se e especializam-se pelas mais diversas áreas. Tem-se a impressão ao vê-los nas livrarias que qualquer um se atira ao papel para ditar as suas dicas na área em que se julga um craque. Podem encontrar-se as origens dos livros de auto-ajuda em escritos egípcios:  os sebayt eram ensinamentos éticos formalmente focados na "maneira de viver verdadeiramente." Samuel Smiles, escocês, em 1859, escreveu Self-Help, usualmente considerado o primeiro livro deste género. "Auto-ajuda" propõe o conhecimento como um dos prazeres humanos maiores e a educação como o caminho para obter conhecimento. Um homem tinha o dever de se educar caso não tivesse tido o privilégio da educação. O livro é uma cartilha de auto-educação para os pobres: mesmo na base da escada social devem ser capazes de melhorar por si mesmos através do trabalho duro e da perseverança. O livro sublinhava a importância do carácter, da economia e da perseverança, além dos valores da civilidade, independência e individualidade. Reflectia preocupações e valores que eram centrais para os esforços da classe trabalhadora no auto-aperfeiçoamento. Publicado privadamente às custas do próprio Smiles, o Self-Help foi uma sensação inesperada: Smiles tornou-se um guru na educação e nos negócios. 

Em 1913, G.K. Chesterton, inglês, escreveu um discurso contra a popularidade dos livros que pretendiam ensinar às pessoas como ter sucesso. "São livros que mostram aos homens como ter sucesso em tudo. Eles são escritos por homens que não conseguem sequer escrever livros. Pelo menos, esperemos que todos vivamos para ver esses livros absurdos sobre o sucesso cobertos com uma zombaria adequada". Ontem, como hoje, estarão estes autores a aproveitar-se das nossas inseguranças?  Estaremos efectivamente a ser ajudados ou apenas a ajudar os autores a venderem mais um livro? O livro God is My Broker ("Deus é meu Agente"), um livro satírico escrito por Christopher Buckley e John Tierney, publicado em 1998 pela Random House, parodia os livros de auto-ajuda: "O único modo de se tornar rico com um livro de auto-ajuda é escrever um"

Em 2013 fiz um MOOC - Massive Open Online Course - intitulado The science of happiness (A ciência da felicidade). Foi um impulso, e, como tal, nada racional. Vi o anúncio da abertura do curso e fiquei curiosa. Inscrevi-me suspeitando que ia ser uma perda de tempo e que não o concluiria. Afinal foi uma boa e trabalhosa experiência. Totalmente gratuito e muito superior a formações pagas que também já fiz, mas ligadas aos meus interesses profissionais directos. Ao contrário deste livrinho que se resume a um catálogo de dicas e lições de vida sob a forma de pequenas histórias sobre como ser mais feliz e aproveitar melhor  a vida, páginas de leitura rápida e simples, com menção dos estudos onde o autor se baseou, o curso era abrangente, continha tópicos desafiantes e propunha até a leitura detalhada de resumos dos estudos científicos e relatos das experiências a que David Niven quis poupar aos leitores ao escrever os 100 segredos das pessoas felizes.

Até fazer o MOOC nunca tinha ouvido falar da psicologia positiva. Para mim, a psicologia era um campo de estudo ligado a enfermidades psicológicas, à doença mental, e não à sanidade mental. Foi a pesquisa de Martin Seligman, apenas nos anos 90, embora Abraham Maslow tivesse, antes disso, de forma intuitiva e nada metodológica, formulado algumas teorias a propósito, que provocou um alargamento do seu âmbito e lançou as bases para o estudo das emoções positivas. Seligman desviou o foco do sofrimento, dos problemas do paciente, para os factores que contribuem para o seu bem-estar. A área é tão nova que até o próprio já fez uma revisão das suas ideias iniciais defendendo antes que a felicidade é apenas um objectivo e que as pessoas são motivadas por muito mais do que apenas emoções positivas. O "pai" da psicologia positiva chegou então até a afirmar que detesta a palavra felicidade, uma vez que seu uso excessivo no mundo moderno a esvaziou de sentido.

Muitos profissionais da área das ciências têm dedicado boa parte das suas carreiras a perceber o que faz as pessoas felizes. Quando fiz o curso, mais actualizado do que o livro de Niven, publicado há cerca de 20 anos, desconhecia totalmente que a ciência - a psicologia, a neurociência, a biologia evolutiva, entre outras - se tivesse debruçado tão profundamente sobre a felicidade, que me parecia ser um tópico mais adequado ao tratamento por filósofos ou escritores. Por exemplo: Tales de Mileto defendia que é feliz quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada. Para Sócrates, a felicidade era o bem da alma que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa. Já Umberto Eco não acreditava na felicidade: "Não acredito na felicidade - estou dizendo a verdade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo - sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho - naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto." Também já Truman Capote já tinha dito que não era uma pessoa feliz e que só os imbecis ou os idiotas são felizes.



A Declaração de Independência americana proclamou, entre os direitos invioláveis do ser humano, a busca da felicidade. Em Julho de 2011, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução convidando os países membros a medirem a felicidade dos habitantes dos respectivos países e a usar os dados para ajudar a desenvolver as suas políticas públicas. Este ano, Portugal subiu 11 lugares no ranking da felicidade! Todos queremos ser felizes! Ou não? É bom não viver ensimesmado a um canto da vida. Quanto mais tempo o homem obteve para o ócio, tanto mais a felicidade se tornou um objectivo crucial da sua existência. O que seja a felicidade é algo subjectivo e bastante pessoal. Para muitos é ter saúde, amor, dinheiro e não se fala mais nisso. Mas há quem possua tudo isso e mesmo assim não se diga feliz. Já se sabia que ser feliz era bom mas os novos tempos - e estudos - trouxeram a ideia de que a felicidade faz bem à saúde mental e até física: uma pessoa feliz pode ser mais criativa e ter um sistema imunológico mais robusto. Então mais uma razão para procurar o caminho para a felicidade!

Li num artigo do curso que 40% da nossa felicidade está nas nossas mãos, 50% é de carga genética e apenas 10% depende das circunstâncias. Assim sendo, não temos um poder infinito sobre o modo como nos sentimos mas é bom pensar que podemos fazer alguma coisa por isso. As emoções, como a felicidade, dependem da actividade do nosso cérebro. Têm impacto a nível interno, uma sensação, e externo, um comportamento: sentimo-nos bem e expressamos esse sentir. Pode ser emocionante comprar um carro novo mas só sentimos isso como excitante porque acontece uma reacção química no nosso cérebro e corpo. Para mim foi desconcertante perceber isso, que tudo o que sentimos é produto da acção de substâncias como a endorfina, a serotonina, a dopamina e a oxitocina - por vezes referidas como "o quarteto da felicidade" -  que actuam e conduzem  a sentimentos positivos como a felicidade ou o bloqueio da dor. Por exemplo, a endorfina. "Endo"  quer sizer interno e  "Morfina"  quer dizer analgésico, essa é a génese da palavra endorfina. É uma espécie de remédio que o organismo gera contra o desânimo. As endorfinas pertencem ao grupo de neuro-moduladores  - ou seja, mensageiros químicos no cérebro -, mas são distribuídas por todo o sistema nervoso. Como agem directamente nos receptores cerebrais, os sentimentos de dor são reduzidos, de forma similar ao que ocorre com a administração da  morfina. Produzida pela glândula hipófise, é libertada pelo cérebro para a corrente sanguínea do corpo e faz com que os sinais de dor sejam inibidos e não cheguem ao cérebro. Também produz sensações agradáveis, gerando emoções como prazer e alegria. Quando a concentração no sangue é elevada, a realidade é percebida de modo positivo. Se a concentração é baixa, essa mesma realidade parecerá triste. Podemos estimular a sua libertação através da actividade física, da alimentação, envolvendo-nos em práticas agradáveis, nomeadamente de convívio social, e praticando pensamentos positivos. Por outro lado, a forma como enxergamos a realidade, algo que foi moldado desde a infância, também influi na felicidade. É o filtro através do qual vamos valorar ou dar sentido às nossas experiências e vivências. Ora, sabendo então como são produzidas aquelas substâncias e tendo consciência da nossa concepção da realidade, podemos procurar construir a felicidade mudando a nossa visão das coisas, por exemplo, de forma a que o nosso cérebro - a hipófise, no caso da endorfina - possa produzir as substâncias de que precisamos para nos sentir bem.

O curso A ciência da Felicidade durou 2 meses e esta ideia é apenas um apontamento que retirei do mesmo e que menciono a propósito do livro que encontrei na mesa de café. A popularidade destes cursos, muitas infografias e artigos que circulam na internet, e livros,  atesta o interesse que as pessoas têm sobre o tema. Aconselho os mais cépticos a lerem um pouco sobre o assunto, mas sem abandonar o pensamento crítico e seleccionando uma boa obra pois caso contrário poderão ser apenas confrontados com observações de senso comum - que irão certamente desapontar e desconsiderar -  e mandamentos autoritários, - como se fôssemos todos obrigados a marchar no exército da felicidade!
No percurso das minhas leituras sempre me questionei se não teremos também o direito a estar infelizes se tivermos motivos fundados para isso. Afinal, esta pressão para estar sempre de bem com a vida, este apelo à superação contínua, como se sem essa atitude não fôssemos seres aptos, não será uma coisa anti-natural? Não será também mais um factor de stress que ainda nos fará sentir pior se gorados os nossos esforços para alcançar a felicidade? Esta rejeição generalizada da infelicidade e do sofrimento, tal como do envelhecimento, não significará afinal que a sociedade moderna não nos deixa escolha sob pena de, também por isso, sermos estigmatizados e marginalizados?


Bobby McFerrin - Don't Worry Be Happy

Here's a little song I wrote
You might want to sing it note for note
Don't worry, be happy
In every life we have some trouble
But when you worry you make it double
Don't worry, be happy
Don't worry, be happy now

don't worry
(Ooh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh) be happy
(Ooh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh) don't worry, be happy
(Ooh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh) don't worry
(Ooh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh) be happy
(Ooh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh) don't worry, be happy

Ain't got no place to lay your head
Somebody came and took your bed
Don't worry, be happy
The landlord say your rent is late
He may have to litigate
Don't worry, be happy
Oh, ooh ooh ooh oo-ooh ooh oo-ooh don't worry, be happy

Here I give you my phone number, when you worry, call me, 
I make you happy, don't worry, be happy)
Don't worry, be happy
Ain't got no cash, ain't got no style
Ain't got no gal to make you smile
Don't worry, be happy
'Cause when you worry your face will frown
And that will bring everybody down
So don't worry, be happy

26/08/19

Uma carta aberta a Laurinda Alves sobre as "minorias de estimação"


Vale a pena ler a Carta Aberta, de Rita Alves, em resposta ao artigo que Laurinda Alves publicou no Observador a propósito do despacho, publicado no passado dia 16 de Agosto, que visa aplicar às escolas a lei da identidade de género aprovada no ano passado, e onde são previstas algumas medidas que visam “assegurar o respeito pela autonomia, privacidade e autodeterminação das crianças e jovens, que realizem transições sociais de identidade e expressão de género”. Entre elas figura a seguinte determinação: "As escolas devem garantir que a criança ou jovem, no exercício dos seus direitos, aceda às casas de banho e balneários, tendo sempre em consideração a sua vontade expressa e assegurando a sua intimidade e singularidade."

A meu ver, muitas das críticas feitas a qualquer medida neste âmbito das questões de género partem de pessoas que, mais do que adversas à abordagem dessas questões, se revelam liminarmente  incapazes de colocar na pele dos outros, o que se lê desde logo nas justificações que dão, as mais das vezes, mais mesquinhas do que realisticamente fundadas, e no seu exame, nunca facilitador do esclarecimento e sempre no sentido de acrescentar mais um espinho a um problema onde já se contam pelo menos dois. Por isso li e partilho a carta da Rita Alves com interesse já que é um assunto que poucos de nós conhece  - ou se presta a conhecer - "por dentro".

Não está em causa, como é evidente, um uso livre de espaços [casas de banho e balneários] por qualquer um/uma, mas sim a salvaguarda da privacidade e intimidade de crianças e jovens em situações muito particulares. O assunto já seria delicado e polémico sem confusões, mas há sempre que goste de confundir os outros - a tal página Viriato, no Facebook - mais um pouco e de provocar o alarmismo social. O Governo não obriga as escolas a deixarem que "um rapaz, de qualquer idade, que se identifique como rapariga, possa utilizar os balneários femininos mesmo tendo os órgãos sexuais masculinos" e vice-versa. O que é assegurado através do referido diploma é que um rapaz que se identifique como rapariga não seja obrigado/a a utilizar os balneários masculinos, ou que uma rapariga que se identifique como rapaz não seja obrigada/o a utilizar os balneários femininos.  Bastará que a escola garanta forma de crianças/jovens que o desejem possam utilizar a casa de banho e balneário (masculinos ou femininos) quando não estão a ser utilizados por outras crianças, cuja presença possa colocar em causa a sua "intimidade e singularidade". É o que se depreende a partir do disposto no diploma do Governo. Esta ou outras soluções serão equacionadas pelas escolas, se e quando necessário.

O despacho "é sobre os direitos dos alunos, independentemente do nível de ensino",  e destina-se a " proteger todos os jovens que, por algum motivo particular relacionado com questões de género, necessitem de ver a sua privacidade e segurança protegidas.” As medidas previstas "contemplam questões como o direito do uso do nome auto-atribuído [escolhido pela criança ou jovem em transição de identidade]" e o seu acompanhamento "por adultos formados para o efeito". No diploma estabelece-se também que as escolas devem identificar um responsável "a quem pode ser comunicada a situação de crianças e jovens que manifestem uma identidade ou expressão de género que não corresponde à identidade de género à nascença". O ministério refere a este respeito que todo o despacho aponta para "uma estreita articulação com as famílias, pelo que não se prevê qualquer obrigatoriedade de comunicação, mas sim a protecção dos alunos".

Sobre o artigo, publicado hoje no jornal Observador, a Mãe Rita Alves, apesar de não pertencer à AMPLOS,  pediu, pois, que a entidade publicasse a sua carta aberta a Laurinda Alves. O texto foi retirado da página do Facebook da AMPLOS, na íntegra.

Cara Laurinda Alves,

Já houve tempos em que achava graça ao que escrevia. Foram passando e hoje passaram de vez.
Explico já o que motiva a minha carta e o porquê de ser aberta. Assim, se quiser, pode pô-la já de parte. Chamo-me Rita e sou mãe da Leonor. A Leonor é transexual. Ela existe. É a minha filha, por muito que, para si, ela seja uma “minoria de estimação”, para si um mero trocadilho com “animal de estimação”.
A Laurinda Alves nem sonha, nem imagina o que vivem estas crianças e as suas famílias. Está tão longe do seu mundo de anjinhos e coisas fofas que, percebo bem, a sua única via é falar do que não sabe e discorrer sobre casas de banho nas escolas.
Não sabe o que é viver no corpo errado. Não sabe o que é ser mãe e ter um filho que logo aos três anos diz a chorar que não é menino, que não percebe porque insistimos em tratá-lo por menino. Não sabe que os punimos por isso, que os repreendemos e que rejeitamos. Porque nós, pais, tal como a Laurinda Alves, não sabíamos o que era. Para nós, tal como para si, o nosso querido filho era afinal o quê? Um deficiente? Uma aberração?
Aprender a amar é tão duro quanto isto. Voltar a amar aquele que rejeitámos. Sabe o que é o peso de nós, pais, termos contribuído para a rejeição?
E sabe como é ir para a escola? Onde os professores, coitados, têm de lidar com uma situação também para eles completamente nova e para a qual não têm qualquer formação? Sabe o que é ir ver as notas da sua filha e a pauta ter o nome em branco, como se não existisse, porque era, até agora, a única forma legal de não usar o nome que já não usávamos? Sabe o que é ter uma filha em pânico por não saber se pode ir a uma casa de banho, por ter de se despir em frente a outros? Sabe o que é tê-la no colo a chorar e a perguntar porque é que nasceu assim e angustiada por viver a solidão mais profunda? Não sabe nada disto. Não tem como saber porque não terá nenhum filho trans. Não viveu. Viveu apenas a vida da mãe dos filhos privilegiados que cabiam na norma da maioria.
E é tão confortável viver como a maioria. Até permite falar das “minorias de estimação “.
Ao contrário do que diz, havia e há legislação para as crianças deficientes e até houve uma escola onde a minha filha só encontrava privacidade na sala dos autistas. Digno, não é? Mas para si os autistas são uma minoria que vale a pena. A minha filha, para si, não merece a atenção do governo, que só peca por tardia.
Não vou descrever tudo pelo que a Leonor passou por olhares como o seu. É e será sempre um olhar cheio de preconceito e de certezas. Que sorte que tem! Os pais de uma criança trans nunca têm certeza nenhuma. Mas a senhora está cheia de certezas. Parabéns! Acredite que é mesmo uma felizarda.
Deixe-me, porém, dar eu umas opiniões sobre o que está a fazer. Como jornalista, ficava-lhe bem não embarcar nas primeiras notícias de um qualquer Viriato, que se especializa em propagar mensagens anti-Islão. Até lhe ficava bem fazer um elementar fact-check. Até já estava feito pelo Polígrafo, mas isso a si não interessou. Qual foi o método de trabalho? Viu na rede social, entre as fotos dos gatinhos e das mensagens com pôr-do-sol, e pensou: cá está. É sobre isto que escrevo amanhã. Não ouviu crianças trans, não ouviu pais, nem sequer ouviu os legisladores. A todos tratou como lixo. Dirá que este era um texto de opinião e não uma peça jornalística. Muito bem. Mas eu esperava mais de si.
Está a ecoar as vozes mais perigosas da sociedade portuguesa. Os que criticam a legislação sobre igualdade de género são os mesmos que defendem a não aceitação de refugiados ou a pena de morte. São os que lutam pela defesa da vida, mas só até ao nascimento. O direito à vida digna da minha filha não lhes interessa nem a eles nem à Laurinda Alves.
No seu caso, reconhecemos todos qual é a sua actividade principal. As causas solidárias nas revistas giras, a foto das férias na capa cor-de-rosa, as campanhas queriduchas, o livro de auto-ajuda que vende bem no supermercado, tudo isso lhe dá a consciência tranquila para olhar para si e pensar como é boa. E até lhe dá a legitimidade pública para chamar à minha filha minoria de estimação. Pois é, a minha filha talvez não encaixe bem nos padrões de silicone das suas revistas cor-de-rosa nem dos lacinhos das causas da lágrima de crocodilo. Mas encaixa na minha vida. E não tem de levar com o seu desprezo e com a sua ignorância.
Não a acuso nem culpo de nada. A Laurinda Alves não conhece o amor puro, o que se constrói na aceitação de uma norma que não é a nossa. O amor que nos questiona. A sua preocupação com a sua filha, se tem alguma, foi se o lacinho no dia da festa era azulinho ou laranja. A minha foi saber se havia humilhação em cada saída à rua.
Se a minha filha tivesse leucemia, talvez chorasse a sua lágrima e comesse o seu croquete solidário. Como é trans, tem de ser escondida e o estado tem de fazer de conta que ela não existe. É assim a espiritualidade e a humanidade das Laurindinhas.
Sabe o que me anima, Laurinda Alves? São os jovens. A felicidade da minha filha tem sido assegurada pelos amigos e amigas que a têm apoiado e ajudado, tantas vezes contra adultos que pensam como a Laurinda.
Parabéns por ter escrito. É a prova de tudo o que está por fazer.
Rezo por si. E sabe porque o faço? Porque a Laurinda, tal como a minha filha, não é para mim uma aberração, mas alguém perturbado e que precisa de apoio.

Rita Alves

Para leitura complementar:

Governo obriga escolas a deixarem as crianças "escolher a casa de banho e o balneário de acordo com o seu 'género'"? - O  Polígrafo esclarece

24/08/19

Só estou bem aonde não estou




Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar

António Variações

Tardei em conseguir ir à praia este Verão. Já estava até com saudades dos banhistas insatisfeitos que sempre encontro. Não sei se é um efeito colateral do calor, mas para algumas pessoas tudo parece estar sempre mal, mesmo quando podia estar bem. Algumas dessas almas fazem sofridas contas à vida para conseguir comprar um pacote de férias na praia dos seus sonhos, outras, promessas e juras a todos os santos para que haja sol, pouco ou nenhum vento, e a água esteja temperada, limpa de salmonelas e  medusas, e, importante, muito importante, que o Wi-Fi seja forte. Mas assim que chega o ansiado momento e botam o pé na areia, em vez de desfrutar a pausa na rotina, o banho de Natureza, dão  imediatamente início a uma espécie de rabugice de Verão, que até seria mais própria de crianças embirrentas que de adultos bem encorpados.

Já todos os que somos banhistas presenciámos irritações assim. A existência de areia na toalha é sempre um problema, que fazem por tornar também dos outros, daqueles que, bem instalados na cadeira ou na toalha, os ouvem, ao redor, como se uma praia não se caracterizasse pela abundância desse granulado instável. Ah, as crianças. Essas até na toalha de praia  fazem castelos na areia como grandes arquitectos. Ora, não podiam os adultos ser mais como as crianças? Apetece sugerir-lhes que zarpem dali para fora e rumem antes à praia do Belinho, de seixos roliços. Em segundo lugar,  a 8ª maravilha que é entrar de férias e aceder à dimensão onde o tempo  não importa e se pode deixar sempre o relógio em casa era uma beleza não fosse aquele 8º pecado capital: a pressa. A pressa nunca tira férias. Só assim se entende o stress absurdo na hora de utilização dos chuveiros de praia, de sair do estacionamento ainda apinhado, de ir ao multibanco levantar dinheiro para pagar o petisco na esplanada, etc.

Uma semana antes da partida alguns desses adultos estavam sentados na cadeira giratória do escritório, olhos no calendário e em contagem mental decrescente  para as férias de Verão. Até já se imaginavam a beber umas cervejas e a comer marisco na esplanada. Agora que estão lá  recusam partir a casca do marisco com o martelo porque se sujam  todos e não trouxeram assim tanta roupa consigo. Passam no mercado local à procura de fruta para a sobremesa, a melancia em que sonhavam afogar a sede, mas não, que afinal tem demasiadas sementes e daquela sem sementes não há ali. Batem saudades do hipermercado! Aah, mas pode lá ser, que fim do mundo é este? Por outro lado, melhor assim, pois a melancia faz inchar a barriga e redonda já ela está!

Por falar em barriga, pode até estar bem redonda, mas já está vazia e a dar horas. O vendedor de bolas de Berlim, na praia, passara a meio da tarde, mas foi logo corrido a exclamações de "é frito, não posso que me faz aftas",  ou "é sempre tão indigesto", ou "ainda se fosse um copo de melancia cortadinha. Ou um granizado de melancia...Gente ultrapassada sem ideias de negócio. Se fosse eu já estava aqui a ganhar bom dinheiro com propostas saudáveis".  Meia hora depois, fora o vendedor de gelados que apareceu de branco. De imediato foi assediado: "Venha cá, psst! Pssst!, ó senhor"! A guardar o troco, os gelados a derreter ao sol, mas nem assim se calam com as contas às calorias. Mais uma vez, será que não podiam ser mais como as crianças que ignoram o que sejam as calorias e toda a contagem que não se possa fazer pelos dedos de uma mão ou duas? O vendedor garante num leve sorriso que aquele Solero de Morango só tem 49 calorias. Mas ainda o gelado não baixou até ao estômago e as banhistas já se sentem mais gordas na barriga da perna. E os adoçantes dos gelados light ? Um autêntico veneno?! O vendedor segue calando revelações amargas sobre conservantes, corantes, emulsionantes e adoçantes com um pregão, assim lhes poupando mais um drama.

Quando fizeram as malas meteram  lá dentro todos os livros que não leram num ano, mas querem lê-los em 10 dias de férias, que dois são para as viagens. Só que no final do almoço, à primeira tentativa de leitura na cama do hotel, o livro adormeceu em cima da cara deles. O culpado disso é o calor que se faz sentir no Verão, esse inesperado problema, quem diria que faz calor no Verão. Como é que alguém consegue ler com tamanha caloraça?  O ar condicionado não se pode ligar pois resseca os olhos e faz exacerbar a asma do miúdo. Nada a fazer. "Raios, que viemos tão carregados para nada! Bem que podia cair uma chuva agora: sempre refrescava!"

Qualquer sonho de uma noite de verão pode transformar-se em pesadelo, já sabemos, por exemplo,  um  jantar na varanda do apartamento arrendado especificamente com vista de mar. O sol a descer no horizonte multicolorido enquanto tilintam talheres  e se brinda no ar com vinho verde, seria idílico não fossem os mosquitos. É que não se aguenta o cheiro da citronela.  A meio da noite a comichão nas picadas impede-os de dormir e de  segurar um livro com as duas mãos. Mas se não fosse isso seria outra coisa qualquer: os livros não serão lidos, também têm direito a viajar já que todos viajamos neles, ora. E na televisão que é tudo dublado. "Dios mio! Quanto tempo falta para irmos embora?"

Alguns apostam num programa de pegada mais verde, caseirinho, nada de altos vôos. Para isso compraram uma nova mala térmica, um par de cadeiras e uma mesa de plástico, um set de pratos, copos e talheres de plástico colorido, tudo coisas leves de carregar, batida que foi a nostalgia de piqueniques no pinhal. Parecia tudo tão ideal na foto do catálogo da grande superfície que deixaram na caixa de correio ignorando o "Publicidade, aqui não!" Mas quando chegaram ao destino o pinhal tinha ardido por completo e não havia sombra alguma. E sorte tiveram em não ser multados porque a zona até tinha sido interditada: "E ninguém nos avisou disto: é o país que temos". Podiam ter oferecido um roteiro das zonas queimadas na aquisição da mala térmica, lá isso podiam. Rumam ao parque de merendas, mas também ardeu. Então rumam ao parque urbano, nas saias da cidade, e logo ficam horrorizados com a meia dúzia de excursões de fim de semana que, chegadas sabe-se lá de que região remota de Portugal, invadiram o recinto verde com a sua profusão de coloridas malas térmicas: "Vão encher isto de lixo, tu vais ver a estrumeira!" Pois. "E já viste quanta formiga?"

Anda um par de jovens descalços a saltar os repuxos dos aspersores do parque entre risos e gritinhos histéricos, tantas as cócegas que a relva faz: ai que barulhentos. Mas de onde é que terá vindo tanta gente? "O que é que estão aqui a fazer estas famílias? " E há crianças de pés de molho, a chapinhar no espelho de água, alegremente: ai uma verdadeira falta de civilidade, estes pais modernos não sabem dar educação. É um lago não é uma banheira. "Água! Água é diversão!," vem um moço pregando e gingando enquanto distribui um folheto do aqua-parque e piscina de água com ondas ali próximos: " Campanha de descontos em curso, senhores e senhoras. Poupar é ganhar."  Mas estes são dos que reviram os olhos ao cloro para não falar da repulsa ao mijo alheio, não, não, é melhor não, obrigada. "Para o ano temos mesmo de marcar uma semana na praia, não achas? Qualquer lugar longe daqui."

Carregando a mala térmica, fazem-se ao carro e estacionam numa berma de estrada, sob enormes eucalíptos, onde devoram o frango churrascado picante e engolem a batata Pala-Pala a trote de Coca-cola, enquanto se entretêm a contar os carros que passam, ele os pretos, ela os brancos. Quem somar mais carros não ganha nada neste verão a preto e branco. Para terminar, e após curta viagem, assentam arraiais na primeira esplanada de um café que surge na sua mão. Mas os lugares à sombra dos pára-sóis estão ocupadíssimos. O sol a ferver na cabeça pede um chapéu de palma mas ficam bem é a decorar o interior da viatura, sob o vidro traseiro. Ai, este calor todo que nos deixa abaixo sem dó: "A minha tensão arterial já deve estar...". O empregado tarda e já se sentem a desmaiar. Receiam uma insolação. Tão bem que se estava agora no fresquinho da sua casinha. "E se fôssemos tomar um Nespresso a casa? Afinal já se vê daqui o nosso rico telhado".


02/08/19

Verão é tempo de férias da tecnologia!


De alguns anos a esta parte já me habituei a retirar uma ou duas semanas, sempre no Verão, para me desligar do contacto com o máximo de aparelhos electrónicos que me for possível. São as férias da tecnologia, um par de semanas em que procuro a sua substituição integral por outras formas de ocupar o tempo. Não é que seja uma nomofóbica, - quem diria, mas é verdade, que já foi identificado um medo irracional de estar sem telemóvel ou aparelhos eletrónicos, em especial relacionado com indivíduos altamente dependentes de computadores e jogos de vídeo, - mas também gosto de fazer este teste anualmente e de sentir que continuo no comando: que a tecnologia não manda em mim. O uso destes aparelhos e da internet parece estar a ser diabolizado constantemente mas há bom motivo para ficar alerta.


Tal como no uso excessivo do álcool é complicado perceber quando se ultrapassa o limite aceitável e se cai na dependência da internet e do mundo digital. Mas a dependência tecnológica existe, em especial, a digital, existe. E o medo existe. Este medo é o responsável por ansiedade no momento da separação do usuário com o aparelho, razão pela qual quando um professor priva um aluno de aceder ao telemóvel pode constatar inquietude, por não poder consultar as mensagens, e ansiedade, o que vai dificultar a concentração do aluno na sala de aula. Também se pode desenvolver um apego tão pronunciado ao uso do telemóvel que impeça o rendimento do estudante, em casa, enquanto estuda, incapaz de desligar o seu pensamento da trama online e focar a sua atenção pelo tempo necessário ao processo. A perda da noção do tempo de uso é um dado comum aos usuários, mesmo os não completamente dependentes, e também o desleixo na execução de outras tarefas - ou na sua execução apressada - que se intrometam naquela fruição, ou o alheamento a tudo o que os rodeia, como se vivessem noutra dimensão.

Muitas vezes os jovens, em virtude da sua preenchida vida digital, têm reduzidas interações presenciais, em especial com os adultos, seus familiares, e isso acaba por minar a comunicação entre os dois. Ora, uma boa comunicação é a chave de um crescimento são, emocional, afectivo e pessoal, que assim fica prejudicado. Surgem conflitos e frustrações de parte a parte quando, em desespero de causa, e num momento em que qualquer esforço de conversação já se afigura como inútil, os adultos banem o uso dos aparelhos por parte dos mais novos.

Importa ainda referir que o exagero na utilização desta tecnologia pode ter como resultado a diluição dos laços pessoais e afectivos reais. Será que não nos estamos a tornar mais individualistas, menos gregários e solidários graças à vida digital? Nós, adultos, que já contamos com mais de uma dezena de anos de vida digital em cima, já temos algum conhecimento sobre tudo isto. Parece um contrassenso que  no tempo da "aldeia digital" as pessoas se sintam permanentemente acompanhadas mas mais sozinhas do que quando viviam numa aldeia. Assim é. Algo que aprendi ao longo do tempo foi que, se estiver com problemas, se a minha auto-estima tiver sofrido um abalo ou me sentir de alguma forma vulnerável, não é na internet nem nas teias virtuais que vou encontrar o suporte que preciso. Essa é a pior altura para ir para as redes sociais. Pode sobrevir uma satisfação passageira, uma falsa sensação de apoio, mas nada mais do que isso.

Quem sinta que não tem laços efectivos e reais com alguém, quem se sinta só - e o mais certo é estar algo enganado - também pode entrar nas redes à procura de um substituto afectivo e chegar a pensar que alcançou algo. Mas, o cara-a-cara, é insubstituível. Se alguém não está ao alcance do seu abraço, não serve; não serve, pelo menos, para aquilo que precisa. Se não consegue estabelecer uma ligação com alguém, procure identificar e resolver qual o problema real que está a criar esse bloqueio, procure ajuda próxima para isso, mas não corra para a rede social do momento: acabará com mais um problema, não com a solução para o seu vazio. Se já estiver acabrunhado e triste, sentir-se-á mais triste. Se estiver revoltado, mais revoltado. Se estiver deprimido, cuidado, esse transtorno irá agravar-se. Além disso, o sentimento de inutilidade, de perda de tempo pelas horas ali despendidas, acabará por surgir. Por muito que se escrevam maravilhas sobre as amizades virtuais, nada substitui o amparo providenciado pelo "ombro amigo", o verdadeiro, de carne e osso. O uso excessivo desta tecnologia que tudo promete tem, pois, variados impactos sobre a nossa saúde emocional ou mesmo mental. Não faltam análises da ligação entre consumo digital e diminuição do nosso bem-estar mental.

Além disso, muita da percepção que se retira da vivência digital é do tipo "a galinha da vizinha é melhor do que a minha". Toda a gente parece viver melhor que nós, mostrar melhores experiências: até parece que os outros nunca têm problemas, que é tudo gente feliz sem lágrimas. É de tal forma que quando alguém, em confidência, nos relata a sua vida real sofrida através da caixinha de mensagens damos por nós descrentes: até parece que nos sentimos enganados! É vulgar que os usuários, por comparação, sintam inveja do que veem, outros frustração. A maioria não consegue sentir-se  verdadeiramente feliz perante a felicidade alheia. A regra, afinal, é ficar alegre pelos amigos e os "amigos virtuais", em rigor, são apenas conhecidos, pouco mais que estranhos. Não há realmente garantias de que estarão lá para nós no dia seguinte, pois não?

A tecnologia digital interferiu com a rotina e o nosso descanso e nisto reside um dos seus impactos negativos: os dias confundiram-se com as noites, as semanas com os fins-de-semana. É imprescindível planear a nossa vida de forma a equilibrar descanso, labor e lazer e garantir que a tecnologia não se intromete no nosso horário de sono, que deve ser preservado a todo o custo: é um enorme garante do nosso bem-estar. Há quem até descure a alimentação, substituindo comida saudável por comida rápida para poder passar mais tempo online. Isto acontece quando se sente que o tempo gasto na internet nunca é suficiente e é um sinal alarmante de que já se está viciado.

Por outro lado, são horas e horas que se passam em cadeiras, sofás e camas em posições nem sempre correctas. É de esperar que, mais tarde ou mais cedo, surjam dores musculares na coluna lombar e no pescoço: sou muitas vezes vítima delas. Tanto uso o computador para recreação como para trabalho, e se não for isso a mesa lá está, a omnipresente cadeira e secretária. Há quem se queixe de dores nas mãos e nos polegares: isso nunca tive e também tenho escapado ao síndrome do túnel cárpico - que acontece me virtude da posição do punho em extensão ou em flexão excessiva - ou da tenossinovite de De Quervain, mais própria de quem dactilografa. Além dos impactos músculo-esqueléticos negativos, o estilo de vida sedentário que acaba por ser desenvolvido pela maioria das pessoas que se vicia na tecnologia pode igualmente ser prejudicial à saúde.

Fazer férias da tecnologia é, apenas em parte, uma boa ideia. Estabelecendo o paralelo com o consumo do açucar, uma substância igualmente viciante, de pouco adianta privarmo-nos de açucar durante uma ou duas semanas se levarmos o ano a alambazarmo-nos em doçaria.  O que deve ser o nosso objectivo  é praticar uma vida saudável em todos os aspectos, - sendo moderação a palavra chave - sendo o aspecto digital apenas mais um a merecer a nossa atenção.


Precisa de um pequeno incentivo para largar o que é supérfluo e focar-se naquilo que é importante na vida? Que tal experimentar a App Forest? É grátis e tem uma extensão para Chrome. Quando precisamos de foco, plantamos a árvore. Se abandonarmos a tarefa e formos navegar na net, a planta morre! Podemos até plantar uma floresta. A equipa da App até  fez uma parceria com uma organização de plantação de árvores, Trees for the Future, para plantar árvores reais. Quando os usuários gastam moedas virtuais que ganham na floresta para plantar árvores reais, a equipa da Forest doa à organização parceira  e isso traduz-se em  plantio real.

Até breve!

Você consegue ver a praia?