22/06/18

Bombeiro de Ponte de Lima remove gato de árvore à mangueirada



Chamam os bombeiros para retirar um gato que queria ser pássaro, como muitos, do topo de uma árvore. Leio que o gato já tinha sido removido por diversas vezes pelo mesmo método, sendo que o bombeiro usa uma mangueira de pressão para assustar o animal e o fazer descer pelos seus próprios meios. Desta vez o gato assustou-se e caíu no chão. O bombeiro levou o gato para o quartel e o animal foi visto por um veterinário. O animal sobreviveu à queda, tanto quanto me foi possível apurar. Parece ter sido adoptado. Decorre um inquérito. O gato sabe relaxar o corpo e orientá-lo gravitacionalmente em direcção ao solo durante uma queda. Se a queda for de uma altura considerável, haverá espaço para se dar a rotação e as patas do animal amortecem o embate no contacto com o solo. Se estiver tenso, as coisas podem não correr tão bem. É frequente o trauma toráxico, a fratura do maxilar, mandíbula e face. Todavia, também é frequente a recuperação das lesões sofridas por esta forma na maioria dos felinos. Convém não menosprezar os resultados de uma queda mas é também desejável não perder a racionalidade porque um gato caíu de uma árvore e desatar a ligar para o quartel da corporação a chamar "assassinos" aos bombeiros ou ir para as redes escrever indecências que muitos não seriam capazes de dizer na cara do homem. Será que este palavroso comentador nunca cometeu erros de avaliação na sua vida? Ou que nunca agiu com a intenção de resolver um problema da melhor forma que sabia e podia, saindo-lhe o tiro pela culatra? O bombeiro é apelidado de criminoso. E a este senhor vamos chamar o quê? Se o bombeiro tiver um colapso nervoso à conta destes comentários torpes (são muitos, de muitas pessoas, uns mais vis, outros apenas absurdos, era só escolher) e não tiver dinheiro para o psicólogo, que se vire, a culpa disso é dele, o grande monstro; se o gato ficar traumatizado e com insónias, já vejo esta bondosa alma a chegar-se à frente para lhe pagar o internamento e sessões de acupunctura. Não costumo dizer que quanto mais conheço os homens, mais gosto dos animais, mas, bem lidas as coisas, a minha vontade de acarinhar pessoas cai a cada dia ao comprido no chão. Será que também sou um monstro?

19/06/18

Mihajlovic não acha que as mulheres devam ter opinião no futebol

Faz-me rir, este tipo. A verdade é que não faltam melhores temas de conversa para opinarmos, por isso não vale a pena dar relevo a tolices de um gajo do futebol. Além do mais, e a ser verdade que não tem simpatia por opiniões de mulheres, eu também não a tenho por opiniões de gajos da bola: estamos empatados. Não faltam centenas de outras personagens que me são bem mais atraentes, até desportistas e igualmente oriundos da Sérvia, como o tenista Novak Djokovic, ou artistas, como o cineasta Kusturica. Mas a quem vive a bola como se fosse uma cegueira, melhor que culpá-lo, abatido por manchetes-tiro que são disparadas sempre que o nome Mihajlovic está em jogo, ou desculpá-lo por amor à camisola, talvez seja bom tentar perceber o novo treinador do Sporting. Mas ressalvo que até eu, 90% do tempo alheia à bola, me lembro de episódios pouco desportivos no relvado e de uma aura polémica em seu torno. Estudar este ciganão da bola como se num laboratório, é o que eu faria, mais vale prevenir; e não sou racista, é só uma força de expressão.

12/06/18

Os ladrões armados de Kodaks e smartphones




Quem sai da estação de S. Bento, em pleno centro do Porto, olha à direita e encara com a barroca igreja de Stº António dos Congregados. Foi assim que a descobri há muitos anos. O fantástico azul e branco da sua fachada, capaz de resgatar qualquer um aos dias mais cinzentos, está hoje coberto por uma tela esverdeada. Compreende-se mas não se perdoa que se explore a vantagem publicitária enquanto se restaura a esplêndida fachada de azulejos. Rebusco na memória por essa imagem para que me salve deste Junho invernoso enquanto subo a caminho dos Aliados. Alcanço-a. A porta fecha-se atrás de mim e é o silêncio. Em criança as igrejas eram-me ingratas. Entrava arrastada pela mão materna, chorosa. Era outra dimensão. As paredes sem fim, os tectos sempre tão longínquos, as estátuas emprateleiradas em transes diversos, os relevos lavrados a ouro, os bancos austeros alinhados, o cheiro a círios; tudo aquilo me era horroroso, quase medonho. O medo dissipou-se um dia mas a fé nunca preencheu esse ou qualquer vazio em mim. Entro como apreciadora do artístico destes lugares e nunca como crente. Observo então na penumbra um espaço de liberdade onde cada um venera o seu deus: eu a arte, o homem devoto, ajoelhado, talvez Stº António, a turista brasileira de S. Paulo, quem sabe, um deus pessoal. Estavamos em frente a um dos retábulos laterais em talha dourada, quase rocaille, ela de canhão apontado a Nª Senhora das Dores e eu de telemóvel em punho, as duas prontas a disparar, quando ela exclama. “Ah, mas é impossível. A gente tem de levar na memória ou no coração. A máquina não tem alma que chegue para isto.” Acabámos a conversa já na rua, onde a chuva entretanto parecia ter amainado. Encaminhei-a para o gótico Convento de São Francisco, “é a descer até ao rio, e depois à sua direita.” Mostrei-lhe as fotos no Google para a convencer mas logo vi na gratidão ser gesto desnecessário. Pressenti então que partilhavamos a mesma fé. Na noite anterior, numa tertúlia, um escritor assemelhara turistas a vorazes ladrões de património, como se a cada clique das suas máquinas as pedras fossem lentamente sendo delapidadas e as cidades desconstruidas até ao nada na sua identidade pelas multidões que marcham sobre elas. Compreendia mas não perdoava que se explorasse tal vantagem tecnológica hoje tornada tão democrática. Na realidade nem todos somos apressados ladrões armados de Kodaks e smartphones. Assim foi que nesta tarde de chuva pude ir à minha memória em busca da familiar imagem da fachada azul e branca, e assim foi que vi esta turista baixar a Cannon e sentar-se no banco para se dar tempo de olhar. Alguns de nós ainda não esqueceram que uma lente não sabe amar: são os que continuam a fazer clique com o coração. Talvez sejamos mais numerosos do que se imagina: eu tenho esperança que sim. (Dedicado à simpática turista de S. Paulo, Brasil, cujo nome não fiquei a saber...)

Bourdain. Não há mais histórias para degustar neste menu.

Bourdain. Um dos poucos que me levava a ligar a TV. Não li nada sobre a sua morte. Quando me disseram ao telefone, estranhamente quase como se ele fosse da minha família, eu apenas exclamei: o Bourdain. Mas que caralho. E mudei de assunto. Porque há momentos que não queremos ver estragados e podemos. Mas coisas há que custam a engolir mesmo quando parece que nada têm a ver connosco. E de repente um estranho de chapéu que puxava uma mala de viagem na 1º de Janeiro era mesmo parecido com o Bourdain. E no restaurante, sem que eu tivesse conseguido evitar, acaba-se a falar do chef, que também esteve ali, no Porto. Afinal a palavra serve para homenagear, para fazer a paz com o facto. Não li nada e não vou ler. Vou fingir que nem soube, é o que é. Comecei a escrever aqui e só pensava: que caralho, o Bourdain. Acabou-se a nossa deliciosa viagem pela gastronomia mas também pelos lugares, os comuns e os exóticos, e sobretudo pelas pessoas do perto e do mais longe. Não há mais histórias para degustar neste menu. Bourdain não era da minha família, nem um amigo, nem sequer meu conhecido, mas era um tipo que se me tornou familiar e, mais ainda, soube tornar muitos outros estranhos meus/nossos familiares. Sentava o mundo à mesa nos seus programas, gente célebre e perfeitos anónimos, e de repente até parecía que somos uma raça extraordinária e amiga, unida pelos sabores da comida e pelo gosto do diálogo. Extraordinário era ele. Bourdain celebrou a riqueza da diversidade inteira. Era um verdadeiro embaixador da humanidade que por acaso era chef. Deixa saudades, caralho. Assim ouvi dizer.