2/28/17

Nada a dizer sobre os Oscars 2017


Livros em segunda mão e extraterrestres


Os extraterrestres estão entre nós. Andam disfarçados de pessoas mas é fácil perceber quando estamos na presença de um. Quando se cruzarem com alguém que passa parte da sua curta vida no Planeta Terra a encaralhar processos: bingo! Isto é verificável em todas as áreas da vida, todas mesmo, e tristemente frequente. Estou certa de que entre meia dúzia de nós encontrávamos material para um vasto compêndio sobre vida alienada em poucos minutos, evidências ultra-científicas. Portanto não vos estou a transmitir nada de novo.

Tudo começou quando a 25 de Fevereiro decido comprar um certo livro em língua inglesa, não interessa o título, é uma tradução de um autor português de renome. Como é hábito começo por procurar nas ofertas em segunda mão, online, porque desconfio que uma batida às lojas aqui da cidade não dará resultado algum, nem novo nem velho, e porque gosto de comprar livros usados: poupo dinheiro, prolongo a vida útil do livro, faço bem ao Planeta. A sorte boceja-me, como disse Jesus, e encontro o livro à venda. Examino tanto quanto me é possível e parece-me em boas condições. Envio uma mensagem ao potencial vendedor, sucinta e explícita:

- Boa tarde! Estou interessada em comprar o livro. Se ainda o tiver pode enviar-me o seu NIB para eu proceder à transferência? Depois eu envio o papel do Multibanco e quando o receber faz o envio do livro. Pode ser assim? Possivelmente só vou ao Multibanco na segunda-feira. Aguardo resposta.

Um dia depois lá chega a mensagem semi-encriptada e oriunda de uma galáxia far, far away mas eu ainda não sabia:
- Olá Isabel. Tal como mencionado no anúncio, preferia em mão, pois tenho de pagar para me dirigir aos correios e tenho de lá ir 2 vezes, pois cada livro tem o seu peso e esse é pago pelo comprador.Onde se encontra a Srª? Eu estou na zona de (...) estando longe aceito a transferência, mas não necessita enviar o talão, eu só envio o livro quando consulto o depósito. :)obrigada.

Compreeendo. Ir aos CTT é sempre uma chatice porque agora a gente já nem escreve cartas, já nem compra selos, já nem sabe onde fica a estação dos mesmos e, quando dá com ela, a loja vende de tudo. É de tal forma que não raro nos sentimos perdidos, por vezes é difícil perceber se entrámos na estação dos CTT ou antes no shopping do bairro. E, pois é, a deslocação. No mínimo gastam-se calorias para ir aos CTT, água, mas também a gasolina, ou energia solar, ou o hidrogénio ou o óleo de fritar batatas na nave especial. A deslocação e o tempo, porque tempo é dinheiro. Por obséquio, cobre lá isso, inclua no preço do livro, mas não faça é disso um bicho de sete cabeças. Quando vou comprar as batatas ao Jumbo elas também não rebolaram sózinhas até lá, pago também pelo passeio das batatas. É pena mas o teletransporte ainda não funciona a partir do desktop, o livro tem mesmo de ser levado aos CTT.

Habituada a estas andanças, e à semelhança do que costumo fazer com os potenciais vendedores, atrevo-me a sugerir uma alternativa para poupar  voltinhas inúteis ao sujeito:
- Olá. Não precisa de ir duas vezes. Eu tenho comprado muita coisa neste site e faço sempre assim: pago o que os vendedores pedem pelo objecto. Faço a transferência e envio o talão. Os vendedores vão aos CTT - depois de terem o talão ou verem o depósito - e fazem a expedição da encomenda: pesam e dizem-me só depois quanto é. Eu então pago os portes quando recebo a encomenda. É só uma ida aos CTT. Os livros pagam muito pouco pois têm uma tarifa especial - deve pedir essa tarifa. Por isso mesmo que eu não lhe pagasse os portes - coisa que não farei - não teria muito prejuizo. Também não preciso do livro com urgência pelo que se tiver uma altura mais conveniente para ir aos CTT - dentro de 3 dias , uma semana - pode dizer-me e eu aguardo. Mais que isto não posso fazer. Mas o sr. é que decide. Aguardo. Vivo na Figueira da Foz e não conheço ninguém na (....) que possa servir de intermediário.

Daí a um ror de tempo a resposta materializa-se na minha caixa de email e é aí que tenho a certeza que topei com um extraterrestre das vendas em segunda mão online. A Figueira fica longe mas este ser vive noutra galáxia. Era por demais uma chatice pagar para se deslocar e ter de ir duas vezes aos CTT mas eis que subitamente o longe se fez perto. Porquê? Porque o livro é grosso. Ora vamos lá saber quanto é que custa fazer a expedição do Atlas Klencke!

-Sim, a Figueira fica longe :) Eu vou saber qt custa enviar o livro e assim q souber eu digo-lhe e sim, pela tarifa especial a q os livros têm direito. Assim qd fizer a transferência acrescenta esse valor (este livro é grosso) Obrigada :)

Pronto. Está tudo grosso. Emburro em frente ao ecrã. A minha cabeça explode em impropérios mentais como uma supernova, o equivalente a pelo menos duas linhas de emoticons de várias cores,10 GIFs e mais uma linha de Trash Doves! Respiro fundo, recomponho-me. Ok, Belinha, afinal tu nem tens pressa no livro. Seja lá como o marciano quiser.
-Então está bem. Como lhe disse não tenho pressa. Faça conforme lhe for mais conveniente, está bem?Aguardo.

Fui surpreendida por um rápido retorno à negociação, tipo notícia de última hora:
- :) Fiquei a saber q ainda hoje tenho de enviar um outro livro e assim pergunto pelo seu :)Obrigada

E daí a pouco, novo episódio de comunicação, quiçá motivado pela nova venda no horizonte interestelar:
-Olá. Entretanto lá consegui ir. Pesando só o livro é 1.04€, mas o Sr disse q varia de grama p grama, por isso embrulhar numa folha de jornal + o cordel deve dar uns 1.10€. Assim o total passa para 9.10, pode ser? Obrigada.

“Varia de grama para grama”. Ah pois varia. É um facto que o peso varia de planeta para planeta: um livro na Terra pesa X, em Marte pesa Y. Atentei na forma como o vendedor fez uma estimativa à “folha de jornal” “mais” “o cordel” para chegar ao valor de 0, 06 CÊNTIMOS pelo papel e cordel. Pareceu-me um valor excessivo obtido através de um cálculo muito amador. Pensei exigir no mínimo uma fotografia da folha de jornal e do cordel no prato da balança da cozinha e competente leitura no visor digital em nome do rigor. Mas...espera lá: FOLHA DE JORNAL?! Por muito que partilhe do seu fervor de salvar o Planeta e poupar recursos, ó sr. extraterrestre, estamos a falar de um livro, um objecto sensível: para esta bibliófila nada menos do que três voltas de plástico com bolhas a protegê-lo na viagem de longo curso desde Marte até à minha porta, por favor! Mmmm...será peso a mais para a viagem?

E acrescenta o vendedor em novo email, agora era às mijinhas:
- Caso aceite o meu nib é: (...) o nome é (...) e não se esqueça que preciso da sua morada. Obrigada :)

Diário de bordo: corre o dia 28 de Fevereiro do ano 2017 da graça de nosso senhor Jesus Cristo. Passaram três dias desde o contacto. Várias ideias cruzaram a minha mente à velocidade da luz quando acordei para mais este email. Por exemplo pedir antes ao vendedor que usasse uma folha de couve, sempre era mais resistente do que a folha de jornal e biodegradável. Lembrei-me sugerir o Correio Verde, afinal que melhor alternativa ecológica à folha de couve. Mas isso podia abrir mais uma era espacial de negociações entre mim e o marciano e deixei cair a ideia. Será que o vendedor estava a brincar? A fazer humor? Mas com livros não se brinca, a não ser que sejam daqueles plastificados que os bebés levam para o banho. Aiiiiiii...deu-me cá um buraco negro! Abri o Google e fui ver na livraria do costume, ora, ora, porque não comecei por lá? Eu e esta minha mania de “fazer circular os bens sempre que possível entre os humanos porque é bom para o Planeta”.

Comuniquei o facto ao vendedor com lisura mas secamente:
- Bom dia (...)
Vou desistir da compra. A Bertrand está a vender por 10.00 euros, novo. Não compensa comprar o seu. Peço desculpa pelo tempo que lhe fiz perder. Agradeço a sua atenção.

Pensei que o extraterrestre das vendas em segunda mão online já não comunicasse de volta mas ainda botou faladura:
- Em inglês? Obrigada pela informação.
- Sim, claro, em inglês, -respondi.

Chatos dos extraterrestres. Fim da transmissão.

2/27/17

Quem quer caminhar pelo Nepal?

Quem quer caminhar pelo Nepal? Lembram-se do Pedro Queirós? Ainda não há sequer duas publicações escrevi sobre a mais recente aventura dele. Recapitulando, o Pedro e um amigo estavam no Nepal quando foram surpreendidos pelo tremor de terra. Foi em 2015 mas as pessoas continuam a viver em tendas e o Pedro continua a mobilizar interessados na reconstrução. Neste momento ele está quase a finalizar uma caminhada que iniciou a 15 de Janeiro, no Taj Mahal, e que vai terminar esta semana no campo Esperança, no Nepal. Terão sido cerca de 1200 km totalmente percorridos a pé com o objectivo de atrair donativos para a causa.

Tenho seguido a jornada do Pedro e e decidi participar na "Operação Fernando - um bocadinho a pé, um bocadinho andando" para ajudar também. O Pedro arranjou um patrocinador que vai doar 10€ por cada quilómetro andado por nós. Porque não aproveita o dia de amanhã (último dia para participar) para exercitar os músculos e contribuir também? Basta caminhar, enviar uma imagem das app que medem Km, tipo pedómetro, vídeo, etc, que comprove o quanto andou e estará a ajudar na reconstrução do Campo Esperança em Kathmandu, no Nepal.

Fiz apenas 6.07 km e fiquei KO. Não tenho ido aos treinos mas até me deu vontade de retomar e continuar. Aproveitei para documentar o percurso em fotos rápidas. O resultado é a colagem acima. Vá lá, não sejam preguiçosos: inspirem-se e toca a andar!

2/25/17

Eu sou Anti Clickbait Portugal. E você?

Não sei bem quem ele é, o MC Somsen, parece ser um bom rapaz, um pouco tímido, até, como na cantiga; mas há tempos descobri que escreve umas coisas bem humoradas. Esta semana danou-se das boas e declarou guerra ao clickbait e agora até já existe uma página para continuar a sua missão no Facebook - https://www.facebook.com/anticlickbaitportugal/

Durante um par de dias assisti ao seu afã em nos poupar ao clicanço inútil, apreciando a forma militante como nos revelava o propósito do aliciamento dos sites visados. Pensei que o MC Somsen ainda fosse acabar vítima do Síndrome do Túnel Carpal porque não faltam exemplos de clickbait a denunciar...! Mas ele sobreviveu.

A malta achou piada, porque é fácil achar piada ao que o MC Somsen posta - ele põe a cabeça no que escreve, tem real sentido de humor, oportunidade e não é nenhum caça-níqueis – e também porque estamos todos fartos de clicar em porcarias, eu já andava tão farta que muitas vezes quando me surgia um título ou imagem que  me cheirava a clickbait até já me recusava a clicar. Por vezes saía vencida e  também lá ia, acabando por ficar depois entre o envergonhado por não ter dominado a vontade e o furioso por me ter deixado conscientemente levar quando os indícios já apontavam para mais um assunto da treta.

Para quem desconhece o termo, clickbait é todo o conteúdo de contorno sensacional ou provocante publicado online com o objectivo principal de atrair atenção e chamar usuários para um determinado web site. O principal problema é que muitos dos sites que usam o clickbait querem apenas captar visualizações, o conteúdo que servem é secundário. Estes conteúdos estão por todo o lado e não apenas no Facebook. Os títulos dos textos publicados e dos videos, ou aquelas imagens peculiarmente chamativas pertencem na sua maioria a sites que esperam gerar dinheiro com cliques em anúncios publicitários ou impressões. São títulos que manipulam habilmente a nossa vontade e de tal forma que por vezes acabamos por clicar e abrir textos que não tínham, à partida, e que não terão, à chegada, qualquer relevância para nós. Algumas vezes os conteúdos até são de boa qualidade, outras são um total vómito. Por vezes a gente até se pode sentir recompensada mesmo se o isco era isso mesmo, um isco. Mas outras vezes o engodo não nos leva até nenhuma truta, aliás nem a uma sardinha transgénica. E aí é que a gente se chateia. Um campeão de visualizações frequentemente referido quando se fala na arte do clickbait é o site Upworthy. Estudem a seguinte lista para aprenderem a identificar a malícia ou a fazer clickbait com êxito, caso pretendam seguir-lhe o exemplo.

Quando se trata de sites ou blogues de mero entretenimento os usuários talvez não se sintam tão ultrajados. Mas a coisa pia mais fino quando são jornais online ou sites de pendor mais informativo que se servem do clickbait para atrair cliques. Sim, cliques e não verdadeiros leitores. Não sei se o fazem para equilibrar as contas e se consideram mesmo que isso vale a pena. Mas o facto desagrada a qualquer leitor que se preze sobretudo se até paga pelo conteúdo que recebe online tal como quando ia comprar o jornal à banca. A par de conteúdos informativos selectos lá aparecem também umas nódoas que mal se confundem com assuntos, atrás de títulos sensacionalistas. É uma mixórdia. Se dantes até estudávamos os títulos dos jornais e o lead como um exemplo muito específico de síntese e de como ele se justificava e ainda conseguia remeter para o texto, agora é tempo de começar a fazer o estudo do clickbait como uma espécie de burla e por isso talvez na disciplina do Direito, não?! Já chega. É tempo de recusarmos todos este tipo de manipulação: eduquemo-nos contra esta prática, portanto, exigindo que haja um nexo claro entre o título e o conteúdo a que acedemos. Ou então navegar neste lodo deixa de ser atraente e começa a ser uma anedota mas uma que nem o nosso riso mais amarelo é capaz de suscitar. Nós já perdemos com isto mas o jornalismo perderá muito mais.

A recordar filmes em véspera dos Oscars


Os Oscars já vão ser entregues no próximo Domingo 26, ou seja, amanhã. Há muito que deixei de ficar a pé para ver a cerimónia na TV mas continuo a ver cinema sempre que posso, pelo menos os filmes nomeados para a categoria de Melhor filme e Melhor Argumento não escapam. É preciso não esquecer que os Oscars são um certame que celebra sobretudo o cinema made in USA e que não esgota as possibilidades. Mas é fácil esquecer que há mais cinema do que esse quando se vai ali ao multiplex. 

Ao longo do ano de 2016 vi perto de uma centena de filmes. Está difícil encontrar filmes que considere obras-primas. Talvez isso apenas signifique que estou mais exigente ou que o cinema anda sobretudo a repetir-se em fórmulas que vendem. Um destes dias alguém queixava-se que La La Land era engraçado mas que não sabia aonde tinham ido parar os grandes filmes. Muitas vezes bastaria a um filme ser competente no equilíbrio dos vários elementos em jogo para ficar satisfeita mas os filmes que ultimamente vejo estão cheios de "mas". Nada pior do que dizer de um filme que é bom "mas". Além desse equilíbrio eu busco também uma qualquer capacidade de surpreender. Ainda assim não é fácil ser surpreendida. Não fui ver Jackie e não sei se irei. Como é que vou ver mais uma história sobre Jackie Kennedy depois de tantos filmes e séries sobre a senhora? Não há nada de mais original para fimar? E por vezes tem-se esta sensação, embora errónea, de que já se viu tudo, que também é reforçada pela presença constante das mesmas caras. Com frequência vemos o mesmo actor em dois ou três filmes ao longo do ano. Que diabo, o cinema não é o futebol. Evidente que gosto de ver algumas delas repetirem-se mas nem sempre asseguram o êxito do filme, nem quando são máquinas de representação, e quando um filme aparece em que os actores são completos estranhos é que percebemos o valor dessa frescura. Também tenho de me conformar pois nem sempre vejo o que quero, vejo o que posso ver. Um ano depois volto também eu a repetir-me e a dizer que gostava de poder ter escrito sobre mais alguns dos filmes que vi mas o tempo não chegou para isso. 

Em 2016  alguns filmes vi que foram uma completa decepção e no topo da lista está Queen of the Desert, um filme dirigido pelo mais que experiente Werner Herzog, sobre a vida de uma extraordinária mulher: Gertrude Bell. Fiquei com uma enorme vontade de ler uma boa biografia sobre esta viajante do deserto, arqueóloga, e exploradora, uma espécie de Lawrence da Arábia. Outro desaire chegou pela mão do também experiente Guiseppe Tornatore, um filme intitulado The correspondance, com Jeremy Irons, sobre um professor que estuda buracos negras e estrelas, com a Olga Kurylenko, a sua personagem trabalha como stunt e é bonita e tal, ele, mais velho, morre e transforma-se num fantasma que ganha vida em mensagens  e videos enviados à amante através de um plano que se destina a alimentar a sua pós-vida e a história de amor de ambos. Um torpor e uma péssima ideia, um filme interminável. Suicide Squad, que vi com o meu sobrinho, devem pensar que meter umas quantas canções animadas na banda sonora chega para esquecer a nulidade que nos venderam. Dá vontade de pedir o Livro de Reclamações: posso ter o meu dinheiro de volta? Entra a Margot Robbie que nasceu para ser Harley Quinn, é só o que recordo. No final questionava se estaria a ficar velha para filmes inspirados por quadradinhos ou o se o filme seria apenas uma total e real bosta. Era bosta, até o meu jovem sobrinho concordou. Além dos péssimos filmes que nos marcam negativamente e que nos fazem contorcer na cadeira e chorar o preço do bilhete e tempo desperdiçado, existem os filmes de que nunca mais nos lembramos mesmo sendo razoáveis. Não sendo bons e não sendo maus ficam como que num limbo. Desses nem vou escrever mas até é injusto. 

Daqueles que recordo, temos então os filmes que arriscaram tudo - ou quase tudo - como Swiss Army Man ou Elle e que nos deixam uma marca profunda, mas positiva. São do tipo que fazem algumas pessoas deixar a cadeira sózinha sentada no escuro. Alimentam discussões infindáveis ou fazem com que os espectadores tenham medo de remexer no assunto. Se uma história com um cadáver flatulento vos pode parecer inconcebível não se espantem- eu própria não estava a acreditar no que estava a ver: o "Harry Potter" impulsionado a gases e a ser cavalgado pelo mar dentro como se fosse um golfinho! Mas se conseguirmos ultrapassar a estranheza e, porque não, o choque inicial, aguarda-nos uma história surreal, bem defendida pelos actores e que nos surpreende até ao fim. Como é que conseguiram pegar numa ideia tão abjecta e torná-la até profunda? Esse foi o brilharete mais criativo do ano; já em Elle travamos uma batalha num território muito mais real para acompanhar o trajecto e escolhas de uma das mais insólitas e complexas personagens que o cinema produziu em tempos recentes, uma grande interpretação para Isabelle Huppert. Lembro ainda White Girl onde podemos ver uma também excelente interpretação de Morgan Saylor que eu apenas conhecia como a aborrecida filha do Brody de Homeland. É o filme de estreia de Elizabeth Wood, incomodou muita gente por causa de questões raciais, privilégio da classe branca e cenas de sexo,  e vou ficar de olho nos próximos filmes que faça. Fruto do tédio cinéfilo em que me encontrava fiz algumas incursões num género que não costumo visionar, o do horror, tive algumas boas surpresas ao ver It follows, Green Room e The witch. Todos muito aconselháveis, por diversas razões. Já escrevi sobre It follows com algum detalhe, Green Room merecia esse detalhe, estupenda realização e exploração do conciso argumento, os momentos de horror costumeiros e que não fazem a minha praia, mas, perfeitamente sustentados na história, nas boas personagens e interpretações, e ritmo irrepreensível. The witch - uma excelente  reconstituição de época, o séc. XVII , místico e rural, da Nova Inglaterra, é um pequeno grande filme sobre muito mais que o sobrenatural, e, lá está, rodado inteiramente com actores desconhecidos sem qualquer desprimor para o facto. Um dos filmes mais longos que vi foi The wailing, filme sul coreano, também dentro do género horror, 156 minutos, com uma boa dose de mistério e excelente atmosfera, desenvolve-se em torno da chegada de um estranho japonês  a uma aldeia, uma doença tenebrosa, acontecem assassinatos e exorcismos, dá-se a investigação subsequente. A dado momento fui engolida pela história e nunca mais me encontrei. Deixei de tentar perceber e fui indo. Mesmo assim não foi uma má experiência. Por outro lado,  Port of call, de Hong Kong para o mundo, foi uma experiência atroz, um dos filmes mais desoladores que vi o ano passado, tem uma cena de demembramento totalmente evitável, é do mais triste que se possa imaginar, ainda mais melancólico e desesperado que qualquer Manchester by the sea alguma vez sonhou ser, centra-se na morte de uma jovem adolescente, há um detective que faz a investigação do caso, chega-se ao fim sem alma. Não tenho quaisquer preconceitos e vejo cinema de todo o género, experimental, alternativo, clássico... e de todos os cantos do mundo. Mas tinha jurado que não via mais filmes com super-heróis -  e porque será isso? - mas Deadpool teve piada e não foi mau de todo, gostei de Ryan Reynolds, um actor que, caso possa, evito. Mesmo assim, pensarei duas vezes antes de voltar a ver um filme de super-heróis. Ainda houve Legend um filme com Tom Hardy a dobrar porque interpreta dois irmãos gémeos, e Tangerine, um filme que foi buscar uma história à prostituição trangénero e se não bastasse mostrar um universo pouco visível no cinema foi uma proeza técnica ao ser totalmente filmado com um iPhone 5S, resultando muito mais interessante que muitas super-produções. Houve muitos mais mas já chega de recapitulação. Deliberadamente não me referi aos mais conhecidos, que muitos de vocês devem ter visto. Para finalizar deixo apenas a lista dos meus favoritos entre essa centena que vi: Zootopia, Captain Fantastic, Kubo and the Two Strings, Hunt for the Wilderpeople, The Handmaiden, Green Room, La Novia, The witch, Youth, It follows, The lobster, Spotlight, A bigger splash, Maggie's Plan, The big short, Swiss Army Man, Elle. E chamo ainda a atenção para o filme francês Divines, que já vi no início de Janeiro, e que é muito, muito bom.

E pronto. Os Oscars são entregues amanhã e está tudo à espera que La La Land seja considerado o melhor filme do ano. Tem um record de nomeações absurdo mas creio que muitas delas não serão atribuidas. Não há como acreditar que Ryan Gosling possa bater Casey Affleck ou Denzel Washington e em termos de argumento qualquer dos competidores é melhor. Este ano já venceu a diversidade, isso é um facto. Os filmes de que mais gostei foram Manchester by the Sea,  Moonlight e Hell or High Water. Depois, Arrival e Hacksaw Ridge. Por fim Hidden FiguresLa La LandFences e Lion.

Para mim a maior supresa da lista de nomeados foi Hell or high water, a maior decepção foi La La Land. Já escrevi sobre eles, não vou insistir. Manchester by the sea e Moonlight são dois excelentes filmes, escorreitos, embora não sejam arrebatadores. O Oscar de melhor do ano devia premiar um deles. Arrival é um bom filme de ficção científica, com um argumento desafiante mas com uma base científica muito intrincada e demasiado louca para fazer sentido, pelo menos, para mim. É evidente e excelência técnica envolvida, mas tem alguns "mas". Hacksaw Ridge também é dos tais com alguns "mas", mas a batalha de Okinawa fica novamente na história pela espectacularidade e brutalidade com que Mel Gibson a filmou. Também o som devia ser distinguido, não me recordo de alguma vez me ter sentido tão cercada e debaixo de fogo como neste filme: apenas o som já é por si só uma experiência incrível. Tal como em Hidden Figures - que nos contou sobre o pioneirismo das três cientistas afro-americanas da NASA e trouxe a Janelle Monae para o grande ecrã com tanta competência como na música - ficamos a conhecer uma história real, a de Desmond Doss, o primeiro objector de consciência norte-americano, um homem que  resgatou 78 companheiros, uma que gostei de conhecer. Em Fences Denzel Washington não teve mão para transformar uma peça de teatro em cinema mas a sua interpretação e a da Viola Davis - interpretação secundária - são dignas do prémio. Hesito entre Denzel e Affleck para o Oscar de Melhor actor, felizmente não me cabe decidir, apenas apreciar. Lion também nos deu a conhecer a história real de um improvável reencontro. Saroo, que aos 5 anos se separa acidentalmente do irmão  numa estação de comboios,  é depois adoptado por uma família australiana e aos 25 reencontra a mãe biológica, num regresso à India. Niguém se conseguirá mais esquecer do pequeno Saroo e da beleza desesperada com que a câmera captou a sua jornada de sobrevivência, mas isso não chega para fazer de Lion um grande filme. 20th Century Women tem uma menção mais que justa na sua nomeação para Melhor Argumento Original mas não caíu nas graças da Academia. Todos os anos torço para que ganhe um filme de animação em stop-motion mas este ano o meu favorito é Zootopia, um triunfo da Disney, que pode ser tão apreciado por crianças como por adultos.  Amanhã saberemos tudo. 


2/24/17

O Papa Francisco vem a Fátima e faz mover o dinheiro: é um milagre



Ora papem lá esta. Se pensavam que aquelas meninas que acampavam junto do Meo Arena para o concerto do Justino estavam possuídas então o que vão agora dizer quando souberem que adultos pagam 992 euros por uma noite em quarto duplo económico com dormida em saco-cama algures na cidade fenómeno de Fátima. Os responsáveis pelo alojamento devem ter sido inspirados pelo "espírito de pobreza" que anima a vida dos Fransciscanos - qualquer saquito cama chega e até é demais. Não sei se vão dormir em estrados ou se é mesmo no chão. A notícia não dizia, mas mencionava ainda outros preços e modalidades. Não sei se a fé move montanhas mas seguramente move o dinheiro. Também gostava de ter. Dinheiro, claro.

A propósito da vinda do Papa a Fátima muitos são os que tentam fazer dinheiro com isso. Ora papem lá esta. Ultimamente o Facebook deixou de tentar vender-me sapatilhas. Agora alterna entre propostas para me acasalar com motociclistas que vivem na minha zona ou sugestões de venda da "arma de beleza secreta que usam os VIPs e as estrelas". Dia sim, dia não, também me tem brindado com o anúncio do Papa Solar. Primeiro pensei que fosse um relógio ecológico e comecei logo a imaginar os bracinhos do Papa a andar à roda, embora para ser fiel à engenharia de um relógio um dos braços tivesse de ser mais curto, detalhe pouco estético mas que também daria expressão à diferença, portanto, socialmente positivo. Depois pensei que fosse mesmo um relógio de sol e imaginei a sombra do Papa a reflectir-se nas superfícies para me dar a conhecer a quantas ando. À noite talvez só funcionasse à luz da vela. Essa parte da funcionalidade do produto configurava-se-me algo nebulosa. Hoje a curiosidade ganhou-me e abri o link do Papa Solar. Não é um relógio mas algo de supremamente útil e não resisto a partilhar convosco: "Com toda a sua energia vinda do sol, este pontífice benevolente faz as suas bênçãos a partir da tua prateleira, janela ou tablier. Sempre que um raio de luz lhe toca ele irá, com um abanar de mão, assegurar que tudo ficará bem. 2% do valor das vendas deste produto será doado à UNICEF. " E eu que ando tão precisada de que tudo fique bem a ignorar continuamente esta benesse de consumo, um espalha-bênçãos a energia solar, a dois meros cliques de distância e por apenas 22.50 euros! Antes de encomendar fui ver a ficha do vendedor pois nunca se sabe se não será mais um artista a vender gato por lebre. Pareceu-me ser boa gente, aliás, para dar uma esmolinha por cada compra para as crianças famintas de África tinha de ser boa gente. Diz assim: "Adoramos ver pessoas felizes por apenas olhar para um objecto! Por isso decidimos abrir uma loja com os gadgets, obviamente, mais originais, desaborrecidos, que protejam o ambiente, os animaizinhos, as plantinhas e outros afins e que façam pessoas felizes por apenas olhar para eles!" Espantoso. Comparem lá isto. Ao contrário do Facebook que - dizem os estudos - nos torna a todos muito infelizes, invejosos e sei lá que mais, olhar o Papa Solar torna-nos felizes! E nem temos que dar Likes, nem comentar, nem partilhar postas de pescada, nada. É tudo na paz, um exercício contemplativo por excelência, deveras apaziguador, todo ele luz, energia solar... Começo a acreditar que é desta que posso dizer adeus ao psiquiatra e ainda poupo na fluoxetina. Até já estou mais desaborrecida e só ainda olhei para a imagem umas quantas vezes. E vocês? Já estão a sentir alguma coisa?

2/22/17

Insegurança na Figueira da Foz?

Fonte Facebook

Quando me perguntam eu digo sempre que vivo uma cidade pacata onde não acontece nada. Mas há cerca de uma hora li este apelo no Facebook e fiquei apreensiva. Ora leiam e digam-me se não tenho razão. No decurso de breve tempo, um mês e pouco, várias pessoas que têm estabelecimentos comerciais sofreram agressões físicas e verbais na Praça 8 de Maio. Em todos os casos a polícia demorou uma hora a chegar ao local! Uma hora?! Penso que quem vive na Figueira da Foz tem o direito de saber o porquê desta demora sistemática. O que se passa? Não há carros? Não há dinheiro para o combustível? Não há polícia? O que parece evidente deste testemunho é que aquelas pessoas estão entregues à sua sorte assim como estaremos todos em caso de necessidade. Pelo sim pelo não convém tornar pública a preocupação desta comerciante que devia ser levada às autoridades e responsáveis competentes pois um esclarecimento é devido. 

Pedro Queirós caminha pelo Nepal e pede a sua ajuda. Partilhe!


"Por favor, compartilhe, doe e ajude-me a alcançar esse objetivo. Que esta jornada também os inspire a caminhar mais e a ajudar aqueles que precisam de nosso apoio, em particular os mais frágeis, como as crianças e os idosos."

Pedro Queirós

Texto retirado integralmente Do "Diário" do Pedro Queirós (Facebook)

"Na Índia, há pessoas a beber água de locais que eu não ousaria tocar com as mãos. E há famílias inteiras a dormir em sítios onde eu não iria sequer à casa de banho.

Há milhões de pessoas e vacas a andar de um lado para o outro, rodeadas de lixo e fumo... num caos que se encaixa e flui na perfeição, como se fosse uma orquestra a tocar numa lixeira.

Há homens de cócoras, com os dentes vermelhos, a mascar tabaco e a cuspir no chão. Mulheres de vestes coloridas carregam água e forragens. Crianças nuas e sujas a brincar por toda a parte. As pessoas são todas afáveis.

É um país onde tudo o que existe, coabita naturalmente. Tudo se revela de forma pacífica no seu meio. Uma árvore, um cão ou uma pessoa nascem e morrem segundo as leis naturais da vida.

O ar cheira a queimadas, especiarias, dejetos humanos, terra, gasolina, plástico, madeira, frutas e flores. O som é de buzinas, geradores e música Hindi tocada alto e bom som, para honrar os deuses.

Esses deuses são Hindus, Muçulmanos e Singhs. Apesar da divisão sangrenta ocorrida em 1947, que na altura deu origem ao Paquistão e Bangladesh, ainda há muita diversidade religiosa no país e pode ser observada nas diferentes vestes e templos.

Os heróis nacionais são Ghandi e Nehru. A moeda é a rupia, sendo que 100 rupias correspondem a 1,4€. Há 1,2 biliões de pessoas, metade das quais a viver em extrema pobreza.

Uma dessas pessoas é esta senhora que aparece na foto abaixo. Encontrei-a na rua e ofereci-lhe a minha camisola. Um olhar marcante.

A poucos dias de sair da Índia e entrar no Nepal, não posso negar o profundo impacto que este país está a ter na minha forma de ver o mundo. Tanta beleza e tanta miséria juntos. Tanta intensidade e naturalidade. Tanto barulho e tanto silêncio.

É um grande privilégio viver esta aventura e conhecer a Índia desta forma. Mas a caminhada só faz sentido por causa do seu propósito humanitário.

Já sabem que podem apoiar em https://igg.me/at/VTRKfwN-cnM 
ou diretamente para o NIB 003300000098021915378


Obrigado e até já!"

Texto integralmente retirado do site 

"Meu nome é Pedro, tenho 35 anos e sou de Portugal. Meu objetivo é angariar 10.000 USD / EUR para apoiar as vítimas do terremoto no Nepal, ANDANDO 1200kms da porta do Taj Mahal, em Agra, para Kathmandu no Nepal !! Começarei no dia 10 de janeiro de 2017! 

Quer saber mais? Desde 25 de abril de 2015, tenho ajudado as vítimas do terremoto do Nepal, em particular os 350 habitantes do Acampamento Esperança, Kathmandu, que incluem 90 crianças. Essas 350 pessoas viveram no Himalaia por muitas gerações, e no dia do terremoto perderam suas casas em poucos segundos. Desde então, há quase dois anos, eles ainda vivem em tendas temporárias ... sempre sorrindo e lutando ... um verdadeiro exemplo de resistência e resiliência, representando de facto uma fonte de grande inspiração.

Esses 350 seres humanos agora são amigos íntimos para mim. Como uma família. ,,,,, Tashi, TDS, Phurpa, Sneha, Mimi, Pasang, Sushna, menino e menina Pema, Ram, Bimal, Gyalbu, Binita, Laxmi, Bibash, Mingmar, Sonã, Lobsang, Nima, Bishwash, Pradip, Pranisha, Sarswoti, Mendo, Samir, Torcendo, Anu, Kanchalal, Rinza, Doma, Nima Lamu e muitos mais ainda estão lá em Camp Hope depois de todo esse tempo. Precisamos continuar ajudando-os! Precisamos fazê-los acreditar em seu futuro!  O projeto de reconstrução de suas aldeias no Himalaia foi lançado, mas os fundos ainda são necessários.

Mais detalhes sobre o projeto em www.ourdreamvillagenepal.org ou www.obrigadoportugal.org 

Quer saber mais? 
 Você pode assistir a este vídeo que explica toda a história do Acampamento Esperança e
 o Projeto de reconstrução 


Então, para continuar a apoiá-los, decidi começar uma nova aventura. Vou caminhar 1200 kms entre a porta de Taj Mahal, na India, e a porta do Acampamento Esperança em Kathmandu. Com este esforço, o meu objectivo é o de angariar fundos de 10.000 EUR / USD que contribuirão para construir uma casa para 6 pessoas. A rota será de Agra a Varanasi e de Varanasi a Katmandu, esperando para completar a viagem de 1200 kms em 40-50 dias. Toda esta rota será feita CAMINHANDO. Não a correr, não por bicicleta ou comboio. Apenas andando ... A partida terá lugar a 10 de Janeiro de 2017, sozinho, com uma mochila de 10 kg. Este verão eu vou me casar, então eu também espero perder 10 kgs para caber no meu fato de casamento! O número 10 está por toda a parte!

Por favor, compartilhe, doe e ajude-me a alcançar esse objetivo. Que esta jornada também os inspire a caminhar mais e a ajudar aqueles que precisam de nosso apoio, em particular os mais frágeis, como as crianças e os idosos."

(Foi pedida autorização para a reprodução de textos e imagens.)


2/20/17

Custe o que custar


Este filme foi, para mim, a surpresa entre os nomeados aos Oscars. Cinema de entretenimento de qualidade? Não vão mais longe. Nem sempre precisamos de um grande filme: basta-nos um filme que cumpra. É talvez mais seguro dizer que Hell or high water revitalizou o velhinho western do que La La La, o musical. Não que tenha trazido uma narrativa de suprema novidade mas soube reformular com mão segura, usando elementos contemporâneos com muita destreza. Em suma: um par de irmãos, um plano, plano este que inclui assaltar uns quantos bancos. Um é tranquilo e cerebral, divorciado e endividado, o outro um ex-condenado com queda para arranjar sarilhos. Dois agentes da lei perseguem-nos por entre cidades texanas tomadas pela desolação económica e planícies ricas em petróleo. Um, à beira da reforma, dá a cara pela America tradicionalmente opressora, o outro representa a face da America expoliada: é meio mexicano e meio comanche. Os maiores vilões são os bancos, a maior virtude resgatar os desvalidos do capitalismo do ciclo de pobreza em que vivem há gerações. Algumas perseguições, peripécias, humor sardónico e mortes depois, o plano cumpre-se. Tudo claro, tudo simples. Hell or high water funciona como um relógio. Ele próprio é um plano perfeito. A história corre sobre rodas - mas também aparecem uns cavalos e umas vacas - e nem quando pára à beira de um restaurante ou num motel, atrasa ou adianta, o ritmo é sempre ideal. A tensão dura para lá dos créditos, a troca de palavras final vem lembrar um duelo ao sol, de final imprevisível e adiado. A música de Nick Cave embala a árida e sufocante paisagem texana num tom melancólico. Este país, corrijo, filme, não é para velhos: é para todos, mesmo sem ter hipótese de ir além da nomeação ao Oscar. Curti bués.

2/15/17

Hello é a canção do ano?


Acordei agora para o facto de que HELLO foi eleita a canção do ano (passado?) e estou muito confusa porque escrevi isto em 2015, no meu blogue: "Tenho tido o desprazer de ser acordada pela Adele vários dias a fio. O radio despertador está na RFM, - ou na Comercial, é tudo o mesmo - e o turno de serviço deve ser - é - grande fã da cantora londrina. Algures entre as sete menos um quarto e as sete e um quarto da matina a senhora chega em pezinhos de lã com o seu lânguido lamento, "Olá, sou eu. Estava por aqui a pensar se não gostarias de te encontrar comigo para recapitular tudo aquilo por que passámos." Uma péssima ideia, levantar moscas que estão a dormir, Adele. Hello desperta-a-dor que há em todos nós, nuns mais, noutros menos. Hello foi um brilhante despertador, foi sim. Nunca despertei tão depressa! Ouvia aquele Hellooooooooo, pulava da cama e resmungava até ao quarto de banho com o meu umbigo, o cérebro às voltas e os ouvidos tontos de pensar, todos os dias, como é que esta canção desinspirada sobre sentimentos de culpa vendeu 480 K cópias digitais nos Estados Unidos na sua terceira semana de circulação! A canção também já era, por essses dias, um record de vendas somente equiparado ao obtido por Elton John havia 18 anos com Candle in the wind. Era assim que no-la vendiam na radio, todos os dias de manhã. Estas gordas ficam no ouvido. De então para cá amealhou mais records certamente. E agora Grammyou mais um braçado de prémios. Evidentemente que Adele é a senhora de todos os records - se os Grammy fossem anéis ela usaria um em cada dedo! Com Adele é tudo pela medida grande - 30 milhões de cópias vendidas, Grammys, Oscar, Globo de Ouro, prémios de composição e distinções da Billboard, TIME, People e BBC. Adele é indiscutivelmente uma grande voz. Trump ainda a vai convidar para fazer The Star-Spangled Banner novamente grande. Não contesto o que é óbvio. A maior parte das vezes Adele é-me indiferente, não aquece nem arrefece, mas Hello entrou directamente para o primeiro lugar da lista de canções insuportáveis que a radio não nos deixa esquecer. A onda de irritabilidade que acordava em mim mesmo antes do galo cantar só se pode comparar ao choque que a interrupção de água quente me causa a meio do duche. A Adele é uma espécie de Florbela Espanca. Os discos da Adele são "Discos de Mágoas", esta mulher é uma alma torturada. E quem é que não gostaria de o ser quando a tortura foi assim um tal de um mal que veio por bem: a mulher vive numa mansão de 6 milhões de dólares -que pertenceu a Paul McCartney- , um luxo todo ele alicerçado nestas baladas sofredoras sobre corações destroçados e vidas desencontradas que as pessoas adoram, amam, mamam, eu sei lá o que fazem as pessoas com canções como Hello, devem comê-las, bebê-las, aspergi-las, qualquer coisa assim, ouvi-las parece-me o menos indicado: não sei que bem possam fazer à saúde física ou mental de uma pessoa, estas canções do tipo desperta-a-dor. Adoram de tal forma que até fazem de uma canção de 2015 a melhor canção de 2016. Não entendi, mas eu sou péssima com números e o Einstein dizia que o tempo é uma coisa relativa, algures por aí deve estar a explicação do fenómeno.

2/6/17

LA LA LAND na Figueira da Foz



Agradeço ao Sérgio Vieira por me ter deixado usar a fotografia!

2/5/17

Acho que esta é a América de Trump


Fonte: https://www.facebook.com/gregoryalocke/posts/1279925448727304?pnref=story

"Entrei no metro em Manhattan hoje à noite e encontrei uma suástica em cada anúncio e cada janela. A carruagem estava em silêncio enquanto todos se olhavam, desconfortáveis ​​e sem saber o que fazer.
Um sujeito levantou-se e disse: "O desinfectante de mãos apaga a tinta das Sharpie, precisamos de álcool." Encontrou alguns lenços de papel e começou a trabalhar.
Eu nunca vi tantas pessoas simultaneamente a pegarem nas suas bolsas e bolsos à procura de lenços e Purel. Em cerca de dois minutos, todo o simbolismo nazi desapareceu.
Simbolismo nazi. Numa carruagem pública. Na cidade de Nova York. Em 2017.
"Acho que esta é a América do Trump", disse um passageiro. Não senhor, não é. Não é esta noite e nunca será. Não enquanto os nova-iorquinos teimosos tiverem algo a dizer sobre isso."

2/4/17

O caracol gigante africano!


(Infelizmente desconheço o autor ou pormenores sobre esta fotografia)

O caracol gigante africano é considerado uma peste em virtude do seu apetite incontrolável. São 20 cm de bicho em espiral, mole e pegajoso. Com este corpinho a coisa não vai lá com uma dose de couve-flor ao nascer do sol e um trevo de quatro folhas ao jantar. A dieta é variada - frutos e flores, sementes e grãos, fungos e até pedras, areia e ossos porque a casa precisa de ser robusta e o cálcio das plantas nem sempre é suficiente. Os comuns têm milhares de pequenos dentes ao longo de uma extensa língua, com estes não deve ser diferente. Estão activos de noite, de dia escondem-se no chão. São uns tipos anti-sociais, vivem sós durante toda vida. Há quem faça do caracol gigante um animal de estimação mas naõ sei até que ponto eles querem ser estimados. Também é empregue em rituais de magia e pode ser cozinhado à semelhança dos pequenos primos europeus. Pelo menos estes caracóis não têm que se preocupar com os tordos ao contrário dos primos que vemos por aí nos jardins. Os caracóis são um petisco para os tordos sendo lapidados até à morte contra uma rocha antes de serem engolidos. Isto porque os tordos recusam que a comida lhes dê a volta ao estômago, tem de estar morta e bem morta. E também dispensam suplementos de cálcio em forma de casca. Se os caracóis conseguirem escapar dos tordos podem acabar na barriga de um ouriço, de um rato ou de muitos outros predadores. É o que dá não conseguirem avançar mais do que 5 metros por hora. Eles levam o movimento Slow Life muito a sério, tão a sério que estão dispostos a morrer em vez de evoluirem! Já são muitos anos a arrastar a casca, não acham? Darwin ficaria desapontado. Mas ainda podem cair nas malhas de um destino pior. As larvas dos luzicus são umas lambonas por caracol: injectam uma substância que dissolve o corpo macio e tenro dos caracóis, aguardam e depois sugam-nos vivos, alarvemente. Esses caga-lumes são do pior. Há fêmeas que usam a lanterna biológica para atrair os machos de outra espécie e estes acorrem todos lampeiros convencidos de que vai haver truca-truca.Acabam por ser litaralmente comidos. É muita perfídia. E depois muitos estudiosos ainda se espantam porque estes coleópteros emitem luz fria. São bichos que não têm coração, o que mais havia de ser. Mas isso é outro assunto. Em resumo: a Natureza é uma casinha dos horrores e nós até quase já parecemos misericordiosos quando mergulhamos os caracóis na água a ferver para os cozinhar. Com tanta conversa sobre os gastrópodes um pratinho de "escargots à la bourguignonne" já escorregava.

2/2/17

Vamos todos para La La Land


Ontem fui ver o La La Land. Antes de se adentrarem no texto, percebam: eu quando era miúda queria casar com o Gene Kelly. Dito isto, La La Land nunca teve hipóteses. O filme abre com imagens de um engarrafamento numa auto-estrada de Los Angeles e o colorido sonoro de buzinas, vozes e música das diferentes estações de rádio. E depois o mote do que vai desenrolar-se na tela chega na forma de uma canção sobre não desistir de lutar quando se é derrotado porque cada nova manhã trará de novo o sol. A coreografia protagonizada pelos ocupantes dos carros mistura dança e parkour e a câmara segue-os e movimenta-se com a agilidade de uma serpente. Se esta energia inicial tem perdurado o filme teria sido um colosso. O intróito serve também para nos apresentar Mia e Sebastian, cada um em seu automóvel. Surpreendi-me e quase acreditei que estava perante o regresso triunfal do estilo musical. Os dois protagonistas da história iam a caminho de LA, era metáfora da longa estrada do sucesso, uma estrada de duas horas que tardaria em chegar ao fim. Mas os carros avançaram e também o filme, e eu só voltei ao entusiasmo numa das cenas finais quando Mia, numa audição, canta uma canção, apenas o seu rosto iluminado na escuridão da tela.

Quase podia dizer que podia ter visto o trailer e comprado a banda sonora e estava feito. Aguentei-me a identificar cenas dos musicais dos anos 40-50 e a entediar-me de cada vez que o Ryan Gosling abria a boca. O habitual ar seráfico de Gosling que tão bem serviu as personagens de Drive e de Only God forgives faz deste Sebastian o mais enfadonho pianista de jazz que já vi. Já Emma Stone é uma autêntica bambi de olhos pestanudos e grandes que saltita pelo filme com uma graça deliciosa. Mas eu sou esquisita quando se trata de romcoms e La La Land é apenas mais uma comédia romântica com bons valores de produção a que acrescentaram umas canções e uns passitos de dança. E o par não é extraordinário nem a cantar nem a bailar e os diálogos são sofríveis. Concentrei-me quanto pude na música em looping. As canções são contagiosoas mesmo se as vozes não são. Já dei por mim a cantarolar as ditas por várias vezes ao longo do dia!

 La La Land é um carrocel de imagens bonitas à volta de uma historinha mínima sobre um par que se apaixona e que persegue os seus sonhos artísticos, lidando com frustrações comuns. Que saudades de Whiplash, do mesmo realizador, esse sim, um filme com substância. Em Whiplash lutar por um sonho era uma luta, aqui é um chavão repetido vezes em conta porque não há melhores ideias. Poderão dizer-me que Um americano em Paris não é muito mais profundo, que não passa de um punhado de aventuras e desventuras de dois amigos e um aspirante a pintor que se apaixona por uma bailarina. Se calhar não, mas era tão mais superior em conteúdo artístico, digam lá que não era. E por alguma razão os musicais e as comédias românticas se depreciaram: o público quer mais do que La La La. 

Se me perguntarem se devem ir ver, respondo com um dito da minha avó: La La Land é como o Melhoral: se não vos fizer bem, também não vos fará mal. O fenómeno de popularidade justifica-se: o nosso tempo parece ter elegido como sonho recorrente a fuga à realidade e a nostalgia como refúgio: este filme é um bom veículo para isso. La La Land é competente a nível técnico, bonitinho de ver, fácil de compreender e não ofende nada nem ninguém: rapinada a estética dos antigos musicais, junta-lhe uma tonalidade multicultural e os vícios tecnológicos da atualidade; as audições a que Mia comparece parecem evidenciar uma crítica a séries algo estereoptipadas da TV, à dependência dos telemóveis, o glúten também é um grande vilão. Mas se exceptuarmos esses detalhes, a festa anos 80 na piscina e o Jazz apopalhado de Keith (John Legend!), ainda estamos numa história de 1940. 

La La Land é todo ele muito estilo, muita elegância: veste toda a gente com roupa bonita, ilumina o entardecer de Los Angels de azul violeta, eleva as suas estrelas aos céus e a música embala-nos a todos no seu romance. Perfeito, artificial e intoxicante como só a fantasia sabe ser. Nada contra mas prefiro filmes menos perfeitos, menos inócuos e mais originais. Os manos Coen também foram ao passado de Hollywood buscar inspiração mas ofereceram-nos um argumento muito mais inteligente e original em Hail Caesar. Quem viu Strange Things, a bem sucedida série da TV? Eu não vi, mas a estratégia é a mesma: o retorno ao passado como fonte de inspiração e receita certa de sucesso. Em conlusão: o presente é muito arriscado, o futuro uma incógnita e a nossa vida diária tão cheia de contradições e dificuldades. Vamos todos para La La Land e vivamos felizes para sempre. The end.

 
La La Land - Movie References from Sara Preciado on Vimeo.

2/1/17

O meu bolo é melhor que o da Rainha



Quando uma Rainha transforma pão em rosas isso é milagre. Quando transforma pão em bolo isso é...FESTA! Bolo de laranja para o meu aniversário, feito pela minha mãe, desde que me lembro um dos meus favoritos. Podia fazê-lo todos os dias, não acham? Pela minha parte garanto que não ficaria enjoada!

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