3/28/07

AINDA SALAZAR:EXPLIQUEM-ME COMO SE EU FOSSE MUITO BURRA



António de Oliveira Salazar, votado por mais ou menos 62.000 telespectadores como o maior português de todos os tempos. Certo, é apenas uma mão cheia de gente. Mas o criador dum regime ditatorial que durou quase meio século venceu um concurso onde até havia mais figuras, algumas perfeitamente consensuais e unívocas, a disputar o lugar.Expliquem-me como se eu fosse mesmo muito burra. Não faltam por aí interpretações do insólito facto mas eu também as não compreendo. Uma das que mais se lê por aí decifra no resultado a ideia de que é o povo que assim expressa a sua ansiedade por “líderes fortes que ponham termo a erros e desvios” e que ponham termo à “falência do presente”.(José Pinheiro, jornalista, CM) A nova classe política que o 25 de Abril gerou desiludiu as aspirações forjadas com a nova Constituição e este resultado televotado seria uma espécie de chicotada nos corruptos e incompetentes. Ora, eu vejo pouca TV, pouco mais do que duas-três horas por semana. E deste programa nem cinco minutos vi. Então eis-me confrontada com o cabeçalho do resultado num qualquer jornal. Não é mais do que um programa de TV, mas um programa com este resultado só pode ser um mau programa. E logo na tal TV pública! Mas que público serviço! Desde logo um tal resultado devia ter sido previsto e evitado. Para todos os efeitos 62.000 pessoas, perdão, telespecatdores, elegeram Salazar o maior português de todos os tempos, era isso que era pedido. Salazar é o maior, gritarão agora os que ainda estão saudosos do regime, sejam lá eles quem forem, os ignorantes, os incultos, a geração TV que acredita no que vê nos quatro cantos da caixinha mágica. Até ganhou o programa, grande homem! Quando além fronteiras se citarem os nomes dos finalistas deste TV show, De Gaulle, Churchill e Reagan, Mandela, lá estará o finalista de Portugal: António Salazar, internacionalmente conhecido como tirano ditador. Lindo. Salazar deu aulas na Faculdade onde me formei e foi ali, de acordo com a história, um bom profissional. Acabaria por dar o salto para Lisboa onde tomou conta da pasta das Finanças, sua especialidade, e trabalhou justamente a fazer aquilo por que hoje se batem, sem muito sucesso, e à custa de sacrifícios impostos às classes menos favorecidas, os nossos ministros da Economia e das Finanças: eliminar o défice. E conseguiu ter êxito. Em 1932, meia dúzia de anos após, ele chega ao Conselho impondo um partido único e um regime totalitário. E aí fica até uns anos depois de eu ter nascido: quarenta anos de domínio político obtido à custa da violação dos direitos humanos e a prova está em que a entrada na ONU foi negada a Portugal durante a sua permanência no poder. Se eu vivo no presente, inconformada e prejudicada pelas escolhas da nossa classe política, nem por isso me lembraria de votar Salazar para enviar qualquer tipo de mensagem à nossa falida classe governante. Acho isso de retorcido mau gosto. A classe governante incompetente e corrupta deve apenas estar a bocejar sobre esses cabeçalhos dos jornais que lê ao pequeno-almoço e de forma alguma a fazer uma interpretação lenitiva como esta cujo objectivo me parece apenas o de encontrar uma desculpa para uma acção equivocada. E se queriam enviar chicotadas então porque não votaram em Afonso Henriques? Se fosse vivo e pudesse ver do alto do seu cavalo o estado em que a dita classe deixou este condado pelo qual ele tanto sonhou e batalhou cortava-lhes as entranhas à espada! Parece-me que dizer a um político corrupto ou ineficaz que se deseja um (método) à Salazar é aceitar que os erros e os desvios se possam resolver (a renovação da autoridade) através do obscurantismo, do medo, da prisão, da tortura e da morte. À semelhança de muitas das outras figuras votadas, Salazar reuniu mérito e demérito ao longo da sua vida, mas eu não posso cortar o homem ao meio, dizer que ele é um grande homem porque foi um grande financeiro que deu estabilidade económica ao país (embora a população vivesse mal, certo?) e esquecer a outra metade criminosa. Até porque essa engole a outra, é a parte de monstro que engoliu o homem, o professor catedrático,o técnico financeiro, se calhar a prova mais evidente de que ontem, como hoje, o poder corrompe.

3/27/07

O LABIRINTO DO FAUNO: A INOCÊNCIA TEM UM PODER QUE O MAL NÃO IMAGINA!


O que fazer quando se está na ressaca de uma maleita qualquer, possivelmente apenas uma constipação vulgar, o corpo dói, a cabeça estala, a energia falta? Toma-se um par de comprimidos, vai-se para o cinema e deixa-se de sentir o corpo! O cinema sempre funcionou para mim como o perfeito escape. Tão bom como a praia e sem carácter sazonal. É uma das melhores formas que conheço de me sentir entregar de corpo, mente e alma a outros mundos, e libertar-me, seja de preocupações, seja de frustrações, seja da pura e enfadonha realidade. Qual ioga, qual thai shi! Sempre o fiz e deu resultado- encontrei o meu método pessoal de relaxamento. Na faculdade, em cima de provas de frequência, de nervos em franja, o Avenida, o Girassolum, o Tivoli,o Gil Vicente, corri-os a todos. Nos picos de trabalho eram as sagradas sextas-à-noite dos vídeos em dose dupla a abrirem o fim-de-semana! Nas discussões acaloradas e sem fruto no meu círculo de relacionamentos, a melhor forma de retemperar os sentidos e predispor a mente para pensar a frio. Nas crises de criatividade quando o inferno é quase sempre uma folha em branco, o interruptor quase infalível para desligar o curto circuito e ligar a corrente das ideias. Tudo isto me dá o cinema e mais tudo aquilo que todos lhe reconhecemos: a maravilha de saber que alguém trabalha para nos contar uma história, afinal o eco duma voz amiga que a nossa infância encerrou como um tesouro e que pela vida fora ansiamos ainda descobrir e trazer à luz, nas salas escuras perto de nós. É por isso que vou ao cinema: porque gosto que me contem histórias. Nada como uma boa história para nos sentirmos devolvidos àquele lugar mágico da nossa infância onde nos desvendavam mundos que as imagens dos livros apenas ilustravam e que as palavras, que ainda não sabíamos ler, aprisionavam buscando quem as libertasse. 

Hoje a experiência foi O Labirinto do Fauno e já sei que devem haver mais blogs do que consigo nomear a contar e a recontar a história da pequena Ofélia e da sua infeliz mãe, do seu padrasto cruel e das milícias resistentes, da brava Mercedes, das fadazinhas esvoaçantes, de Pan, o Fauno, do sapo nojento que vivia sob a árvore e da criatura pálida que verdadeiramente comia criancinhas ao pequeno-almoço, da mandrágora-bebé... Por isso eu não vou escrever nem uma linha sobre o filme que já sabemos ser mexicano mas pouco, oscarizado naquilo que mais superficialmente o distingue- a direcção artística, a caracterização, a fotografia - mas não no que mais intrinsecamente o tornará inesquecível: um bom argumento e uma mão de mestre que conduziu a imaginação e a fez funcionar através de uma equação quase perfeita entre fantasia e realidade. É o drama dos filmes de género: quando é que o cinema fantástico há-de deixar de ser considerado o parente pobre da família? Penso que os adultos da Academia se envergonham de admitir que gostam de contos de fadas muito além do que a infância sanciona como normal. Por um lado nomeiam, por outro não atribuem os prémios. Consola-te com a nomeação e toma lá os carecas dourados do costume. Ah, e para o ano vê se apareces por cá com um filme de gente grande, és bom mas não podemos assumir que gostámos mesmo disto, íamos ser tomados por velhotes senis, perdão, por velhotes infantis. Pois eu não tenho vergonha de assumir que gosto de histórias assim. Um senão único: têm que ser mesmo boas e isso nem sempre acontece. 

Vim do cinema muito mais constipada e com uma vontade louca de fazer uma viagem ao interior da cabeça do Guillermo del Toro. Mas não vendem bilhetes para isso. Talvez no futuro se torne um negócio rentável. O homem é um louco querido, tão louco e tão querido como Tim Burton - eis dois adultos que não têm medo de se perder no labirinto da imaginação para se reencontrarem com a sua real natureza. E olhem o que daí resulta. Pensem no que resultaria para nós também se fôssemos mais capazes de um olhar infantil sobre a realidade. Talvez nos reservássemos uma surpresa. Mas não, os adultos dividem o mundo em dois tal como quem talha uma melancia: de um lado a fantasia, o mundo das crianças, do outro a realidade, o mundo dos adultos. O filme ensina-nos. É um filme para adultos para ver com olhos de criança, olhos capazes de viajar entre o real e o imaginário, que elas sentem e vivem como um só, aproveitando e rejeitando, o melhor e o pior de cada um. Não nos faria mal descermos o labirinto de vez em quando. Estarei a ser muito infantil?

3/25/07

A PAIXÃO DE CÉSAR

Cesar Millan vive em Los Angeles e é uma estrela televisiva incontestada nos Estados Unidos. Apresenta um programa no National Geographic Channel, Dog Whisperer, programa que recebeu uma nomeação para um Emmy em 2006 como Outstanding Reality Programme. O seu sucesso deve-se ao facto de ser um treinador canino de cães-problema, cães de raças consideradas problemáticas, Rottweilers, Pit bulls, e Pastores-alemães, muitos cães de estrelas de Hollywood são seus “clientes”, aliás ele foi apadrinhado pelo casal Will/Jada Smith. Cesar surge como o último recurso para donos desesperados que já não sabem o que fazer aos seus bichinhos de 80 ou de 5 kg para conseguirem deles o desejado bom e social comportamento. Ele afirma que reabilita cães e treina pessoas. Longe de ter a unanimidade de opinião entre os especialistas, o seu método, que muitos deles consideram cruel, antiquado e ignorante, baseia-se no conhecimento daquilo que ele chama a psicologia canina. O cão deve o seu entendimento do mundo ao seu comportamento ancestral no seio da matilha e à relação primordial que aí se estabeleceu entre líder e seguidor. Para manter o equilíbrio do cão o dono nunca deve perder o domínio sobre ele e para isso deve compreender que os canídeos precisam de exercício, disciplina e afecto…e por esta ordem. Deve também manter a todo o tempo uma atitude assertiva que promova no cão uma postura receptiva e calma. A comunicação com o seu cão assenta na energia que mutuamente libertam e captam e que é a chave para o entendimento de todos os seres vivos na natureza. Tudo parece muito básico, o ovo de Colombo. Até à semana passada eu nunca tinha ouvido falar do mexicano que atravessou ilegalmente a fronteira do México com a América com 100 dólares no bolso e o sonho de se tornar o maior treinador de cães que a América jamais vira. À semelhança de Oprah, de quem ele se confessa grande admirador, também César se tornou num caso de sucesso no país de todas as oportunidades. Explorando a sua paixão soube transformar o seu dom num belo negócio, basta ver o seu apelativo site. Comprei o livro que ele escreveu para oferecer à minha irmã, consequência do meu convívio com o Davis, o shar pei do meu sobrinho. Sempre gostei de cães, aliás, de animais em geral, ao contrário da minha irmã que não só não gostava como tinha pavor deles, leia-se pavor com todas as letras em maiúsculas, pavor de gritar e fugir a sete pés. Talvez por isso não gostava deles, mantinha-se à distância e eles também não se aproximavam muito. A não ser se ela fugisse. Aí eles corriam atrás dela e chegavam a apanhá-la no meio do mais completo pânico. Nós gritávamos.”Pára, pára, ele não te quer morder.!” Mas instintivamente a reacção ao medo era fugir e não parar. Então ela corria mais ainda, o cão corria atrás dela e nós corríamos atrás de ambos. Quem a vê hoje com o seu Davis não imagina a criança que o passado deixou longe. Contrariamente os cães e gatos sempre vieram ter comigo e eu deliciava-me a fazer-lhes festas ou pura e simplesmente a observá-los. Quando era pequena supliquei anos a fio aos meus pais por um cão. Um dia apareci em casa com um cachorro de olhos azulados, tipo Husky, que me seguira desde o pátio da escola. É claro que o cão não ficou comigo. Não voltou para a rua, mas também não ficou comigo. Hoje, actualmente, no momento presente, não me vejo a ter um cão. Não há lugar para ele na minha rotina, mas sobretudo não há disponibilidade mental para ele na minha cabeça mal arrumada e saltimbanca. Adoro o Davis, mas adoro moderadamente, não doentiamente, e tenho tentado documentar-me para o perceber melhor e tirar mais partido da minha convivência com o bicho. Daí então ter comprado o livro A paixão de César, dois coelhos de uma só cajadada- li-o e depois ofereci-o à minha irmã!


A capa de A paixão de César é muito apelativa, com dois lindos animais, muito relaxados, ladeando o sorridente mexicano. Metade, cerca de 150 páginas, são ocupadas com o relato do percurso do treinador desde a infância em Culiacan, no rancho do avô, a observação que ali fazia dos cães de trabalho, o choque da sua ida para a cidade e a descoberta dos cães de raça de pelo sedoso e colorido, e também daquilo que queria fazer da sua vida; e depois para os Estados Unidos, San Diego, onde encontrou duas senhoras “anjos da guarda” que lhe deram trabalho no seu salão canino e onde conheceu os cães estragados com mimos e “humanizados” das estrelas. Nas restantes páginas encontramos mais ou menos explicitada a sua maneira intuitiva de lidar com os animais ilustrada com alguns exemplos de cães de figuras públicas do entertainment americano. O livro interrompe-se algo abruptamente depois de abordar alguns dos temas prometidos em duas penadas e de fornecer algumas dicas. Como bom profissional ele levanta a ponta do véu, mas não se desnuda completamente. O segredo é a alma do negócio, especialmente caso seja controverso. Estou convencida de que este homem, possui, de facto, uma qualquer capacidade especial para comunicar com os cães e perceber de que forma vêem o Mundo. Não nego que ele obtenha resultados, todavia ponho em dúvida se uma pessoa comum poderá aprender o método que ele proclama ser de sucesso. Trata-se de um livro simpático que apresenta algumas ideias interessantes para quem nada souber sobre comportamento canino e outras desafiantes para quem tiver ideias feitas. Mas se o comprarmos para resolver problemas num cão, vícios ou maus hábitos, duvido que sirva para alguma coisa. Uma das ideias que me parece mais controversa é a de que não há raças-problema, apenas donos-problema. Tudo quanto tenho lido aponta para a tese de que existem raças mais predispostas para isto ou para aquilo, umas mais meigas outras mais agressivas. A leitura do livro coincidiu com o ataque mortal dos Rotweiller a uma mulher que em Sintra se dirigia para o trabalho numa zona de quintas. Ora César colecciona na sua clínica justamente cães de raças poderosas que foram banidos pelos seus donos em virtude dos seus problemas ou por não mais servirem capazmente os fins para que foram escolhidos (lutas ilegais, por exemplo). Vive rodeado de Pit bulls e Rottweillers que reabilitou, às dezenas! Quase preciso de ver para crer! Lia incredulamente o que escreveu ao mesmo tempo que as notícias sobre o ataque.No seu livro ele cita, descreve e explica um ataque semelhante (mas com cães de outra raça) em que apenas as palmas dos pés e o topo do crâneo da vítima ficaram intactos.Uma morte deste género é chocante por muito que gostemos de animais. É violentíssima porque é primitiva.Remete para um medo por nós esquecido:a transformação da raça humana em presa (fácil). A morte à boca de um animal (selvagem ou treinado para isso) é das mais horríveis que posso imaginar. Expõe a nossa fragilidade. Despojados dos artefactos defensivos que nos deram a superioridade na cadeia alimentar ficamos à mercê da força bruta e instintiva que governa a sobrevivência na Natureza.A morte na Natureza tem sempre uma razão muito válida.É objectiva, cruel, fria, mas objectiva e isenta de juizos morais. Por regra os animais matam para comer e para defender a espécie. Já o Homem inventou mortes de todos os géneros, inclusivamente para divertimento. Lembremo-nos de que ataques como o que vitimou a senhora da Ucrânia eram usados no grande circo romano para divertir e deleitar os espectadores! E usando a par de tigres e leões, cães! Naturalmente desapetrechado contra animais naturalmente e aperfeiçoadamente apetrechados para caçar, o homem nada pode. Lamento a morte da sexagenária mas também lamento a morte dos 4 cães. Ambas podiam ter sido evitadas, isso ocorre a todos.Entendo que o seu abate se imponha como medida de segurança pública. Já não compreendo que sirva como sanção (entre outras) sobre o seu dono. Mas estaríamos prontos a aceitar (sequer pensar) a via da reabilitação destes animais perdidos? Antes da leitura deste livro eu nunca colocaria esta hipótese. Mas penso que a ser possível o que César afirma deveria poder ser essa, sim, a sanção a impor ao dono do cão que feriu, mutilou ou matou alguém. Isso antes do recurso final do abate. Seria interessante pensar que estes cães pudessem ser reabilitados para salvar vidas de soterrados ou trabalhar nas forças policiais. Seria apenas justo que lhes fosse devolvida a sanidade e o equilíbrio interrompidos. Seria ainda mais interessante pensar que as pessoas não mais treinariam cães para a violência em forma de espectáculo, ostentação pessoal ou arma contra inocentes.Por respeito ao seu semelhante e aos próprios animais.
Videos para ver:

3/21/07

MACACOS DE IMITAÇÃO!

Em 2003 o projecto Poems on the Metro- Poemas no Metro começou a rolar sobre carris. A iniciativa vingou e mais uma vez comemora a poesia a partir de hoje, Dia Internacional da Poesia, no interior das carruagens do Metro da cidade do Porto, através da exposição de cartazes com poemas. 

Além desta poesia para ver, durante a tarde também houve poesia para ouvir já que leitores membros do Sindicato da Poesia declamaram poemas nas carruagens. Esta é uma poética ideia importada das terras de sua majestade onde surgiu em 1986 pela vontade de Judith Chernaik que lhe chamou Poems on the Underground. De então para cá os espaços publicitários no interior das carruagens britânicas converteram-se em nichos de fruição literária para todos quantos utilizam a vasta rede do metro londrino. Eis um caso em que ser macaco de imitação só pode ser considerado uma coisa bonita.


YOU CAN NEVER HOLD BACK SPRING

Hoje começa a Primavera mas uma massa polar do quadrante norte, de acordo com fonte da meteorologia, está a estragar a celebração do início da estação, colocando inclusivamente o distrito da Guarda em alerta de frio. Aqui, cidade à beira mar, também sopra um vento frio polar, daquele que até parece que tem dedos que nos levantam o cabelo e tocam no couro cabeludo. Sabe bem um gorro quente, não um boné de pala, uma gola alta, não um decote aberto. A minha saída rápida à rua teve consequências: a minha voz ressentiu-se novamente e a tosse agravou-se. Posso assim fazer coro com Tom Waits, um grande, grande compositor, e cantar com ele, roufenhamente, You can never hold back Spring, uma das canções mais bonitas que conheço dentre as que foram buscar inspiração à força renovadora e esperançosa da estação. À semelhança da Terra também nós seguimos trajectórias em torno não de um só mas de vários seres humanos deles recebendo iluminação. E ao longo desse movimento no espaço e no tempo damos por nós a pensar que a sua luz se distribuiu de uma forma diferente, pensamos que já brilhou mais intensamente, que se está a apagar, que já não nos aquece suficientemente. E poderá ser assim porque ninguém brilha intemporalmente e da mesma forma nas nossas vidas. Mas muitas vezes, tal como acontece com a Terra, somos nós que,ao longo das nossas estações, nos inclinamos também no nosso eixo e assim deixamos de nos expor convenientemente à luz…You can never hold back spring/You can be sure, I will never stop believing/The blushing rose that will climb/Spring ahead, or fall behind/Winter dreams the same dream, every time/Baby, you can never hold back spring/_And even though, you've lost your way/The world is dreaming, dreaming of spring/So close your eyes, open your heart/to the one who's dreaming of you/

Pequena lista de Springcanções, antigas, made in USA, algumas eu nunca ouvi!
You can’t rush Spring – Ann Hampton Callaway
Suddenly it’s Spring – Chris Connor
You must believe in Spring – Cleo Laine
It might as well be Spring – Cheryl Bentyne
The silent Spring – K.T. Sullivan
Spring affair – Karin Krog
We’ll meet in the Spring – Lainie Kazan
It’s anybody Spring – Bing Crosby
Spring in Manhattan – Tony Bennet
Some other Spring – Ann Brton
Their hearts are full of Spring- Sue Raney
Love turns Winter to Spring - June Christy
Soft as Spring – Helen Merrill
They say it’s Spring – Betty Bennett
You must believe in Spring – Cleo Laine
Spring in Maine – Andy Willims
There will be another Spring – Peggy Lee
We’ll gather lilacs in the Spring – Frank Sinatra

3/20/07

VERDE versus BETÃO - CONFLITO DE INTERESSES NA CIDADE


No âmbito das iniciativas para alteração da classificação da zona do Horto e Parque de Campismo Municipal na revisão do PDM, o Movimento "Parque Verde" vai levar a efeito um debate. Terá lugar já no próximo sábado e a entrada é livre. Apoiem a iniciativa com a vossa presença. Recordo que a acção deste Movimento teve início em Janeiro com o lançamento de uma petição onde se defende a classificação da área referida como zona verde ou zona de equipamentos de desporto e de lazer em detrimento da actual classificação como "espaço urbanizável".Neste momento a petição conta apenas com 667 assinaturas. Ainda pode juntar o seu nome (completo) a esta listagem sem esquecer o Número de Bilhete de Identidade. O blog Palavras-Cruzadas subscreve a petição e apoia a sua divulgação.

3/18/07

O DAVIS A 100%



O Davis já se encontra em grande forma depois da cirurgia às pálpebras. Ei-lo, finalmente livre do colar abat-jour que o transformava numa espécie de candeeiro sobre quatro patas, observando a vizinhança!

ALLGARVE FICA NO SUL DE POORTUGAL?

Se me tivessem contado como anedota eu nem teria rido. Como me contaram em jeito de notícia eu nem queria acreditar.Mas é verdade. Para nome de programa de investimento turístico para o nosso Algarve, um dos mais conhecidos produtos turísticos portugueses, uma empresa de marketing que se deve ter pago e bem pelo disparate, inventou e conseguiu vender a marca ALLGARVE ao nosso patético ministro da Economia ou a algum seu representante. Ora eu já trabalhei com projectos diversos e para cada um lá se tinha de inventar uma identidade, um nome. Mesmo sem formação elementar em marketing nem eu nem as minhas então colegas de aventura jamais incorremos numa palermice deste génio. Não é de estranhar que pessoas com um mínimo de bom senso tenham começado a insurgir-se e bem contra esta linda amostra de profissionalismo dos nossos publicitários e de embrutecimento mental dos responsáveis ministeriais. Até a Ti’Anica de Loulé seria capaz de sugerir coisa melhor! Ser criativo é um estatuto curioso. Muitas vezes significa apenas conseguir fazer a mesma coisa de forma diferente, quando devia unicamente significar resolver um problema de forma melhor. De tanto se esforçarem por ser diferentes os nossos criativos ainda vão sugerir que Portugal mude de nome, para POORTUGAL. Bem vistas as coisas a sermos obrigados a trilhar este caminho alucinado de invenções marketeiras, trocadilhos e malabarismos linguísticos, artifícios por parte de quem devia saber melhor, não passa um dia sem nos sentirmos mais pobres, a todos os níveis.E daí que POORTUGAL até nem estivesse de todo fora de contexto.

3/16/07

CARGALEIRO E A BELA (IGNORÂNCIA) SEM MESTRE



É amanhã inaugurada no Museu Nacional do Azulejo uma exposição temporária do ceramista português Manuel Cargaleiro, um activo artista de 80 anos que afirma não passar um dia sem pintar, única maneira de ser feliz. A cerâmica e a pintura de Cargaleiro têm projecção internacional – ele vive no estrangeiro, repartindo-se, entre Paris e Salerno. Tem um museu aqui em Portugal, em Castelo Branco, tem outro em Itália, o Museu Artístico Industrial Manuel Cargaleiro. Existem obras dele no espaço público e muitos portugueses cruzam-se com elas diariamente: uma escola secundária tem o seu nome, uma estação de metro tem os seus azulejos a decorá-la, assim como alguns edifícios. Perante esta meia dúzia de factos não seria de esperar que a mini-sondagam da página Sapo apresentasse hoje os resultados que adianto para a questão se gosta dos trabalhos de Manuel Cargaleiro. 27,45% afirmam gostar,7,97% não gostam, mas o que é extraordinário, ou talvez não, é que 64,68% não conhecem a obra, num universo de 5500 pessoas metade não sabe o que faz ou quem é o artista, e a votação ainda não terminou, mas talvez a tendência não se inverta até ao fim do dia. 

Ontem enquanto esperava pelo House MD perdi alguns minutos a tentar entreter-me com uma pastilha televisiva de nome A Bela e o Mestre cujo modelo foi importado do Beauty and the geek americano. Felizmente esta Bela foi salva pelo Mestre Horatio do CSI- que também não me enche as medidas, e não me digam que sou exigente, este Horatio cabeça-de-cenoura deixa bastante a desejar enquanto actor, penso mesmo que algum foragido lhe apertou o pescoço na vida real e desde então não consegue ter a cabeça direita por muito tempo - e eu fugi da TVI e dos seus programas sem classificação. Todavia quando hoje vi a sondagem do Sapo lembrei-me das pessoas entrevistadas na rua que não sabiam sequer dizer quando se comemorava o Dia de Portugal, diziam que se comemorava no 25 de Abril, em cima da ignorância, erro crasso, antes ficassem caladas. É claro que memorizar datas históricas não paga contas a ninguém, a não ser que se seja professor de história (empregado) ou se queira ir ao Um contra todos. Mas é um sintoma do desinteresse cultural graúdo que actualmente tomou conta dos indivíduos. Eu própria nunca gostei de História mas sei alguma coisinha sobre o nosso passado, e pasme-se, comparativamente até sei bastante sobre História de Inglaterra, graças ao programa de língua inglesa do meu longínquo 12º ano, e nem costela britânica possuo. Mas imagino que se o entrevistador tivesse ido para a rua perguntar nomes, idades, cor de cabelos e olhos das meninas concorrentes do Bela e o Mestre, e quantas delas usam fio dental, estou certa que muita gente teria a resposta na ponta da língua. 

É isto que agora entretém as pessoas, esta jardineira colorida e de fácil digestão, porque é isto que lhes é servido. A cultura continua a ser um objecto voador mal identificado com muita dificuldade em se manter no ar do espaço televisivo. A TVI parece considerar, estreia após estreia, que um programa que faça brilhar a inteligência e a criatividade das pessoas, não a sua ignorância, é uma aposta de risco. Acredito que um programa que seja capaz instruir e divertir em doses iguais é possível mas poderia criar hábitos e desejos inexplicáveis nos espectadores, devolver-lhes o sentido crítico, a exigência de cultura, e depois isso sairia caro aos produtores. Dá trabalho inventar um novo formato, pesquisar, é mais fácil comprar e imitar um que esteja feito e também mais barato, logo muito mais lucrativo. É, pois, conveniente, seguir esta linha estupidificante.Mas ver A Bela e o Mestre é legitimar que a ignorância nos diverte e isso é bem medíocre. E depois ainda me espanto com os 64,68% da sondagem do Sapo. 

Sobre Cargaleiro, deixo aqui um link para um artigo interessante e acessível da Revista Visão Online. Se não conhecem, aproveitem para descobrir um pouco sobre o homem, o artista e o seu trabalho.

3/14/07

FARINGITES, AUTOMÓVEIS e CLOACAS



Um solinho tão convidativo e eu sem qualquer disposição para passear e aproveitar esta autêntica Primavera fora de época. A culpa é de uma faringite que transformou a minha voz num ronco de automóvel. Eu já estava ligeiramente constipada. Os sintomas são muito típicos: pus na garganta, febre moderada, dor de garganta, dificuldade em engolir. Depois de ter ligado três dias seguidos para o Centro de Saúde sem conseguir consulta para a minha médica de família arrisquei ir à farmácia local comprar antibiótico mas a estagiária de serviço não esteve pelos ajustes, não, sem receita médica não lhe vendo isso a si nem a ninguém, toma isso muitas vezes, olhe que isso é antibiótico, claro, havia de ser o quê, cara linda,mata-ratos?!!É claro que não desisti, fui a outra farmácia. E lá consegui a caixinha milagrosa mas por intermédio de terceira pessoa. Eu conheço os riscos da auto medicação, sim senhora, e não costumo tomar antibiótico como quem toma Smarties. Mas também não percebo como é que um médico nos diz para fazer AHHHHHHHHHH, coloca a espátula na nossa língua, olha para a nossa garganta e distingue entre maleita causada por bactéria ou por vírus. Eu sei que devíamos fazer análises, ver contagem de glóbulos e tal, suponho que mais alguns testes para ter um diagnóstico certinho. Algum médico vos fez isto alguma vez? Também não percebo porque é que as farmácias vendem antibióticos aos seus clientes regulares mas não a um qualquer estranho que lhes aparece ao balcão. Os conhecidos correm menos riscos na auto-medicação? As farmácias sentem-se menos responsáveis por eles e mais por nós a quem nunca viram? Ah, se é isso, obrigada.

A última vez que tomei antibiótico foi em 2005. Trabalhava num sítio inenarrável, com pessoas inenarráveis. Tive problemas inenarráveis e o meu sistema imunitário acusou toda a inenarrabilidade da situação resolvendo ir de férias e deixando o meu corpinho entregue à bicharada microscópica. Durante meio ano coleccionei tosses miúdas, febres, dores, espirros e faltas de apetite que me transformaram numa esbelta moça. Nesse meio ano visitei mais vezes o Centro de Saúde do que em toda a minha vida! Surpreendentemente tudo parou quando deixei de trabalhar nesse inenarrável local. Fim da inenarrável história. Mas não desta: ora ao fim de dois anos tão limpinha de drogas que mal haverá se me automedicar uma vezita com um antibióticozito? E agora vou limpar o carro antes que se faça noite e frio e eles regressem, sim,eles, os pombos que entenderam fazer do tejadilho negro do meu carro um alvo.E a avaliar pela pintura estrelada que vejo da janela devem ter passado a noite passada de cloaca apontada, como é que é possível fazerem-me uma coisa destas!, a mim que até lhes dou milho. A mim que até os resgato quando me caiem pela lareira abaixo e os devolvo, preocupada, à liberdade dos céus!Nunca mais. Está decidido.Milho, nunca mais.

3/13/07

QUEM INVENTOU AS PALAVRAS CRUZADAS?


Não, eu não sou doida por palavras cruzadas, sou doida por cruzar palavras. E nem este blog é sobre palavras cruzadas. Todavia pareceu-me adequado assim nomear um blog onde se cruzaria tudo e mais alguma coisa com palavras. O que é agora relevante é o seguinte: coloquei o Adsense no blog e de repente apareceram ali no topo imensos anúncios relacionados com palavras cruzadas. Então fiz uma pequena busca no nosso amigo Google e descobri coisas curiosas. A Internet recolocou na moda as palavras cruzadas. São inúmeros os sites com palavras cruzadas para resolver online, como este, aqui. Bem vistas as coisas, elas nunca saíram de moda, nem mesmo com a invasão do Sudoku, porque são uma moda recente e talvez o passatempo mais conhecido no Mundo inteiro. As primeiras apareceram na Inglaterra no séc. XIX, impressas em livros de passatempos infantis e alguns jornais. Já nos Estados Unidos o passatempo era levado mais a sério, uma coisa para adultos. Arthur Wynne, um jornalista de Liverpool, é habitualmente conhecido como o inventor das palavras aos quadradinhos que apareceram no jornal New York World em 1913, num esquema em forma de cruz, ora vejam, aqui. No espaço de uma década o passatempo espalhou-se pelos principais jornais norte-americanos. Uma curiosidade que atesta a sua popularidade nos Estados Unidos: a Pennsylvania Railroad, empresa de transportes ferroviários, imprimiu problemas de palavras cruzadas no verso dos cardápios dos vagões-restaurante. De imediato foi imitada pela sua concorrente, a B&O Railroad, que chegou a colocar dicionários nos seus comboios para ajudar os passageiros a resolver os passatempos, uma ideia que poderia ser ainda hoje muito interessante, embora suspeite que os dicionários desapareceriam num ápice! Na Inglaterra a Person’s Magazine, nos anos 20, foi a primeira a dar-lhes página, e depois o Times. A.F. Ritchie e D.S.Macnutt ficaram conhecidos como mestres na arte de construir puzzles (cruciverbalismo) de palavras à mão e estabeleceram parâmetros de qualidade para o passatempo. Em Portugal é raro o quiosque ou papelaria que não venda revistas de problemas de palavras cruzadas e elas estão presentes em muitos jornais. Mas o entusiasmo pela sua resolução não se compara, parece-me, ao existente nos Estados Unidos, onde até se realiza um torneio nacional,- American Crossword Puzzle Tournament - cuja 30ª edição terá lugar entre 23 e 25 de Março. Descobri também um "big problemo" de palavras cruzadas indicado para viciados com muito tempo livre: o Maior Problema de Palavras Cruzadas do Mundo, nada mais nada menos do que um quadradão de 2,10x2,10 metros, com 91.000 quadraditos, à venda online, aqui. Alguém interessado? Podem afixá-lo na parede do WC e ir resolvendo durante o ano inteiro, sem stress. Ou no quarto para quando tiverem insónia.E aqui um problema indicado para TV e Movie Lovers, que eu vou tentar resolver depois de terminar este post!

3/11/07

FESTIVAL DA CANÇÃO: E NÓS... PIMBA!



Sinais dos tempos, o televoto nos concursos é como uma bazuca nas mãos de uma criança: só pode causar grandes estragos.Porque razão é que em concursos para apuramento de talentos vocais se dá possibilidade ao público de decidir? Hipótese de dizer de sua justiça seria justíssimo, mas decidir? Os concorrentes são desta forma entregues nas mãos do povo que se refastela na arena nacional do sofá.Eu incluo-me. Não sei de música o suficiente para pensar que posso ditar o destino de um desses concorrentes. Posso gostar ou não. Mas saber se vale a edição de um disco,se é mesmo bom? Excelente? Mau? Pior que mau? Mas há que dizê-lo: por melhor que fosse a mira, fosse qual fosse a pontaria dos televotantes do Festival da Canção, os desastres seriam equivalentes já que os alvos musicais voltaram este ano a ser desastrosos e o certame no seu todo uma pequena catástrofe do entretenimento nacional. Até aos ouvidos dos mais moucos da nossa arena de consumidores musicais isso terá decerto parecido evidente. Com a entrega da decisão às massas telespectadoras poupou-se a um júri qualificado o sacrifício de participar.Alguns até puderam produzir a sua musiquita, outros ficaram a rir-se na assistência e os mais felizes foram divertir-se a sério que era sábado à noite.(Todavia nem sempre ser conhecedor é garantia de bom critério. Já vi disso. Ou será que apenas discordava deles?!!)Lembram-se (ou talvez não) que no passado Festival os “conhecedores” tinham uma escolha e o público, outra. Deu banzé. E deu Non-stop. E deu em nada, claro. 

Em ano de comemoração dos seus 50 anos a RTP voltou a perder a hipótese de relançar um dos seus produtos de marca. Atravessa-se uma fase de requalificação/renascimento do novo humor português, seja em formato “fedorento”, seja em formato stand comedy ou outros, e então os produtores lembraram-se de pedir uma comédia (musical?) a Eduardo Madeira e incumbiram António Feio de encenar. Mas a avaliar pelas carantonhas mais sinalizadas na assistência a atmosfera na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico era de tédio, senão de escárnio quanto ao que se passava no palco. Estes produtores ainda não perceberam coisas básicas: mais vale mostrar um desconhecido bonito e satisfeito (nem que se lhe tenha de pagar) na assistência do que figurões de cara feia por pior que seja o aparato em palco. Fica mal. Quebra o espírito festivaleiro. Ah! Quando liguei o televisor uma cobra enrolava-se no corpo de um bailarino. Logo aí a coisa prometia. A abertura em estilo novo-circo barato e o sketch inicial incentivaram-me de imediato ao zapping. Passei para os 60 minutos, que vejo sempre que posso. Voltei para ouvir as cançõezinhas. Depois do separador mal amanhado em torno do Número 1 e da primeira demonstração de canção, já tinha a sensação do costume: aquilo ia correr mal, era bom que acabasse depressa. Nisso foram profissionais: o festival deu às perninhas e rapidamente chegou ao fim. (Com mais uns zappings oportunos de vez em quando.) Quando era criança adorava ver o Festival. E o Internacional também porque era uma hipótese de ouvir canções de várias línguas e eu achava um piadão a isso. E ainda gosto hoje talvez porque goste de canções e de concursos de canções. Mas estou a perder a paciência pelo menos para a nossa anual demonstração de mau gosto. Não compreendo como é que tenho tantos CD com música portuguesa de que gosto. O Festival parece ser um íman que atrai o desvario musical. Acho excelente que se cruzem estilos, se misturem tendências, mas desde que a soma das partes valha mais do que cada uma por si. Percebem o que quero dizer se ouviram aquela canção mistura de fado e rap…O Paulo de Carvalho que é, salvo erro, pai do rapaz não lhe terá ensinado nada?!! Depois de ouvir as dez canções achei obviamente que o Emanuel tinha feito a jogada certa. Letrinha sem sal, musiquinha de ouvido, pouco exigente vocalmente, menina bonita e fresca com nome de estrelita (porno, mas façam de conta que não, também é nome de filme), coreografia habitual. Sabrina, sósia de não sei quantas pimba girls que por essas feiras fora encantam os solarengos e poeirentos Verões portugueses, fins-de-semana dos que cá moram e férias dos que vêm de visita, ia ser a estrela da noite. No cenário teria ficado perfeita uma roulotte de farturas e um carrinho do algodão doce, ou mesmo um carrocel. Mas isso teria sido muito óbvio. Ele pode ser Pimba mas não é parvo. Depois foi só esperar pelos televotantes que reconhecendo o seu som de marca a quilómetros de distância desataram a disparar votos na menina que nem doidos fruto da Emanuelite crónica. Et voilá. Quem sabe, sabe. Até aposto que Emanuel estava seguríssimo de vencer. Eu gostei do rapaz dos cabelos compridos, de nome Diogo e uma letra, já não me lembro qual.Não me importaria de ouvir outras coisas que tenha feito, se é que fez. Nunca o tinha visto mais gordo, certamente nunca o verei mais magro.Coisas de Festival.

Para quem não sabe o que está a perder,Sabrina, em Dança comigo, representação portuguesa no Eurofestival de Helsínquia 2007!Nós Pimba!Nós Pimba!

3/8/07

O blog da D.Maria Amélia!


Amigos de Internet, hoy cumplo 95 años. Me llamo María Amelia y nací en Muxía (A Coruña) el 23 de Diciembre de 1911. Hoy es mi cumpleaños y mi nieto como es muy cutre me regalo un blog. Espero poder escribir mucho y contaros las vivencias de una señora de mi edad. -- (My friends in Internet, today I am 95 years old. My name is Amelia and I was born in Muxía (A Coruña - Spain) on December the 23rd of 1911. Today it's my birthday and my grandson, who is very stingy, gave me a blog.)

E aqui fica o link para o blog desta senhora, que se chama a mis 95!Vale a pena espreitar!

DIA 8 DE MARÇO - O LINDO MENTIROSO



Hoje ainda não li nenhum jornal mas tenho a certeza de que as suas páginas estão cheias de citações estatísticas sobre a condição das mulheres portuguesas.Dia 8 de Março.Todos os anos se repete,sem grandes alterações na coreografia, a mesma dança de números expressa em percentagem de mulheres na administração local, (baixa) percentagem na central, (ainda mais baixa) percentagem em lugares de decisão (baixa, próximo de rasteira). Percentagem de mulheres com salário inferior ao masculino para a mesma função e posto (generosa). Percentagem de mulheres com trabalho precário (muito generosa). Percentagem de mulheres desempregadas (largamente generosa). Percentagem de mulheres analfabetas (infamemente generosa). Percentagem de mulheres que usufruem reformas miseráveis (remediadamente generosa). Percentagem de mulheres vítimas de tráfico sexual(enganadoramente mal contada). Percentagem de mulheres vítimas de violência doméstica (disfarçadamente enganadora). Percentagem de mulheres que não possuem a escolaridade mínima obrigatória (ainda tristemente actualizada). Percentagem de mulheres que não estão satisfeitas com a partilha de tarefas domésticas com o seu parceiro (fatalmente e irremediavelmente generosa). Percentagem de mulheres vítimas de assédio sexual (conformadamente enganadora). Percentagem de mulheres na Universidade(francamente muito generosa). Percentagem de mulheres no desporto (tão generosa quanto pode ser no reino português da futebolândia).E o rol não acaba aqui. Ler os jornais no dia 8 de Março faz-nos sentir assegurada pela transparência desmistificadora dos números a certeza de sermos um verdadeiro grupo de risco, coisa que o dia-a-dia de nenhuma de nós deixa transparecer como verdade. Muitas até pensam (ainda) que é tudo mentira.Dos media.Deles.Delas.

Talvez porque hoje a palavra de ordem é MULHER deu-me para escrever (brevemente que o assunto não merece estica) sobre um vídeo de duas mulheres muito habituadas a verem os seus nomes figurar em estatísticas pelo bom motivo do sucesso de vendas dos seus discos: Beyoncé e Shakira. E isto depois de ter visto o vídeo Beautiful liar. A rainha do “belly dancing” e a princesa do “butt shaking” juntaram-se para fazer render o peixe. Seria talvez de esperar que mulheres dotadas de egos bem maiores do que os atributos físicos que lhes deram a fama,(ok,ok, elas também cantam e dançam) realizassem um vídeo que fosse quase uma espécie de duelo, algo tipo Madonna-Britney Spears em Me against the music. Mas não. Foram pela via oposta: o video onde se assemelham uma à outra o mais possível com os seus cabelos longos e trapinhos negros, até nos faz esquecer que são duas! Mas tem virtudes: é ideal para consumir na época do Inverno pois tem potencial para elevar a temperatura ambiente. Será por certo um dos mais sexy de 2007 e vaticino-lhe sucesso fácil, mais por isso pois a canção é bem fraquinha. Por outro lado existe uma certa tendência dos media internacionais em atirar as artistas femininas umas contra as outras e estas duas parecem ter querido dizer-lhes, “olhem, vejam, nós até podíamos ser gémeas de tão bem que nos damos a mexer a anquinha e o rabiote para vocês”! Pergunto-me qual das duas tirará maior partido desta associação - será que Beyoncé precisa de uma mãozinha para se impor ao mercado espanhol?Por outro lado, onde é que Shakira ainda não conseguiu chegar, consagrada pelo MTV, profissional de tours esgotadíssimas? Não tenho a certeza que tenha sido o público de cada uma das duas a ganhar com esta parceria, eu que tenho um CD de cada uma delas, acho que B’Day não está ao nível do anterior que era um produto de consumo muito bem esgalhado. Quanto a Shakira, sim, ofereceram-mo um dos seus CD, gosto tanto que nem sei o nome dele e nem sei onde está no meio dos meus já não sei quantos. Mas a cavalo dado não se olha o dente. E aqui vos deixo o link para Beautifull liar. Bailem mulheres, bailem!

3/3/07

JOÃO GARCIA NA FIGUEIRA DA FOZ





Ontem João Garcia esteve no Foz Plaza a divulgar o seu segundo livro. Eu não sei se isto foi de alguma forma divulgado pelos órgãos de comunicação social da cidade da Figueira da Foz, mas eu não sabia de nada. Decerto que se tivesse sido a Floribela a vir até cá tinham forrado a cidade de cartazes berrantes, fechado o trânsito e convocado o Presidente da Câmara. Mas como era o João Garcia optaram por estratégias menos ostensivas não fosse acontecer uma avalanche de gente aqui para as bandas do horto. E afinal ele apenas escalou oito das montanhas mais imponentes do planeta, ele foi o único português a alcançar o cume do Evereste. Ora o que é isso interessa à felicidade de todos nós que vivemos aqui? Não nos faz rir, não nos distrai dos problemas sociais, não traz CD para cantar ou coreografar e entreter as criancinhas, nem promessas de fantasias cor de rosa. Por mim até devia estar satisfeita pois não tive de esbracejar para furar a multidão ou fazer fila. Mas penso que numa cidade onde, salvo erro, até existe um pequeno clube de montanhismo, alguns jovens decerto que teriam gostado de contactar com o alpinista. Saberiam? Eu não sabia. E não percebo sequer a estratégia, ou melhor, a ausência dela qualquer que tenha sido o objectivo, suponho que vender livros. 

Por mero acaso estava na Figueira e fui às compras cerca das 15.00 horas. Coincidência feliz, foi então que vi os cartazes a anunciarem a sua presença. Era uma oportunidade imperdível e fui a correr falar com ele. O imprevisto da situação salvou-me de fazer perguntas parvas do género "não teve medo lá em cima"?, mas não me preparou para lidar com o empolgamento. Do que eu podia ter dito metade ficou por dizer, do que eu podia ter perguntado, outro tanto. Este homem intrigava-me desde que o vi num documentário televisivo, aliás, tanto quanto sempre me intrigaram todos os alpinistas. Há muitos anos atrás a TV deu uma série sobre a conquista das grandes montanhas e eu vi todos os episódios. Dava aos sábados, devem lembrar-se. Só por isso é que sei o nome de algumas das mais altas montanhas do mundo e seus expedicionários. Não sou muito viajada mas uma das imagens mais impressionantes que retenho do nosso planeta é dos Alpes. Ora os Alpes nem são sequer dos picos mais elevados. Mas já impressionam pela sua dimensão e pela sua beleza. 

Já escrevi neste blogue, meio a brincar, que os esquimós e João Garcia eram os meus heróis. Quem leu talvez não me tenha levado a sério mas é pura verdade. O que leva estes homens a conquistar metros no mais inóspito ambiente? A busca de uma beleza indesfrutável para a imensa maioria dos habitantes do planeta? A tranquilidade suprema? A experiência de uma cultura única baseada na exploração e na verdadeira solidariedade entre os povos construida no contacto directo com gentes e lugares remotos? Uma loucura particular? Seja lá como for, é assim que vão conquistando o nosso respeito e a nossa admiração e fazendo história. 

Entre mim e João Garcia não há nada em comum, talvez apenas o facto de termos a mesma idade, ou termos nascido em Lisboa. Ah, e sermos portugueses. Assumo em mim o défice de todas as qualidades que o tornam especial e aquilo que é -a preserverança, a tenacidade, a resistência, a coragem, o sacrifício, a paixão. Qualidades que lhe imagino, que lhe adivinho. Decerto existirão outras igualmente importantes para o seu êxito, menos humanas e mais técnicas. A nossa conversa não me deixou mais elucidada sobre o material de que se fazem os heróis, mas espero hoje à noite compreendê-lo melhor depois de ler o seu livro. Disse-me que está a preparar a expedição ao K2 que terá lugar lá para Julho. Quando ele rumar ao Paquistão eu vou ficar a torcer pelo seu sucesso,a lagartar ao sol quentinho, na praia, e a acompanhar pela SicOnline. 

O mundo precisa de gente rara, e Portugal, então, nem se fala. Gente que nos inspire, nem que seja por cumprir destinos loucos e desafiar a morte, gente que nos impressione, que nos sacuda da rotina, da mediania da nossa existência, com as suas escolhas, as suas façanhas, os seus sonhos. Gente que nos prove metro a metro que é possível ir MAIS ALÉM. Gente como João Garcia.

3/1/07

DAVIS, O SHAR PEI DO MEU SOBRINHO




Até conhecer o Davis nunca tinha prestado atenção à raça Shar Pei e depois dele ter ingressado na família ainda não encontrei um bom livro escrito em português sobre a mesma. Mas na Internet abundam sites dedicados aos cãezinhos enrugados e de ar tristonho que muitos conhecem dos anúncios a cosméticos anti-rugas ou da publicidade das lavandarias a seco. São muito diferentes enquanto cachorros e adultos, mantendo as pregas de pele apenas no pescoço e cabeça depois de crescidos. Trata-se de uma raça antiga com suposta origem na vila de Tai Li na província chinesa de Kwangtung. No Sul da China viveram desde a Dinastia Han (200 a.c) de acordo com estátuas encontradas que se assemelhavam aos canídeos. Também um manuscrito datado do séc. XII recentemente traduzido se refere ao cão enrugado, característica do Shar Pei. Shar Pei significa pele de areia ou “casaco de areia”. Além desta pele característica o Shar Pei também ostenta uma típica língua preto-azulada identica à do Chow-Chow, o que pode significar que tenham tido uma origem comum, facto de difícil prova. A marca que exibe na fronte, mercê das rugas, é também característica e é comum nos felinos, não nos cães. Parece que é parecida com o símbolo chinês da longevidade. 

A sua história é atribulada. Típico cão de trabalho, guardava rebanhos e ajudava na caça ao javali. Também era utilizado em combates de cães sendo a pele solta uma característica que lhes granjeava vantagem sobre o adversário pois era difícil de ser abocanhada. Em consequência da Revolução Chinesa a raça quase se extinguiu pois possuir um cão era considerado um luxo fortemente taxado, sendo também proibido criar a raça. Em Hong Kong e Taiwan, todavia, a criação continuou. Diz-se que muitos serviram de alimento para o povo chinês faminto. Em virtude de privações alimentares a que estava sujeita a raça adaptou-se e o seu tamanho diminuiu. Nos anos 60 esteve à beira da extinção e em 1974 chegou a figurar no Guiness Book of Records como o cão mais raro do Mundo. Importado para os EUA aí se iniciou na década de 70 um importante processo de  recuperação da raça. Matgo Law, um entusiasta da criação de cães em Hong Kong fez publicar uma carta na revista norte-americana Dogs apelando ao salvamento do Shar Pei. Isto parece ter sido decisivo. 

O Davis que tem agora um ano e dois meses, aprendeu muito depressa todas as rotinas desejáveis para um cão, é inteligente, independente e parece estar sempre de olho em todos nós. Toma especialmente conta de todos os passos que o meu sobrinho dá, observa todos os comportamentos de quem se aproxima dele. Mas por vezes é muito casmurro. Não gosta de estranhos, rosna e ladra de forma intimidante a todos os que se aproximam demais o que torna os passeios um pouco complicados. E o mesmo em relação a outros cães. Mas connosco é muito meigo, em especial com a minha irmã que é quem trata dele, e com o meu sobrinho. Ora, hoje vai ser operado pois padece de entropia, uma afecção muito comum nesta raça- a pálpebra descai para o olho, ou vira-se para dentro, causando fricção nos olhos. Isto é grave pois pode lesionar a córnea e provocar a cegueira do animal. Podem até precisar de várias cirurgias correctivas. Se algum especialista em Shar Peis ler isto, corrija, por favor alguma imprecisão neste post.

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