12/31/06

O MEU LIVRO ESTÁ PRONTO!



O ano está quase a terminar e os blogs estão cheios daquilo que se chama resoluções para o ano novo, ou seja aspirações ou desejos ou anseios que esperamos se realizem nos próximos 365 dias. À semelhança de todos também eu tenho uma colecção deles mas é e vai continuar a ser uma colecção privada. Excepto um deles pois tem as suas raízes no trabalho que venho a desenvolver desde Junho no meu blog Papelustro. Uma brincadeira que começou por servir para arejar os olhos das muitas horas passadas na companhia do sr. Vetor e da Madame Pixel acabou por se transformar num esforço criativo mais consciente e depois de achegas e reptos de alguns bloggers mais interessados - e tenho de citar o meu amigo Morandini e a Lori como os mais relevantes - acabou por conduzir a um esforço mais sério ainda. É assim que a maqueta do meu livro está pronta a levar às editoras. São dez ilustrações, doze, se incluirmos capa e verso, acompanhadas de rimas. É um livrinho destinado às crianças e para já apenas testado junto do meu sobrinho assim eleito cobaia desta nova aventura da tia. Ocupou parte do meu labor desde Setembro. A deadline era hoje mesmo e as últimas três semanas foram decisivas. Não é o primeiro livro que edito mas tem a particularidade de ter sido concebido por mim de uma ponta à outra o que me deixa bastante orgulhosa mesmo que os editores me venham dizer que é uma boa trampa. (Eu sei que a palavra trampa é de baixo nível mas é perfeitamente adequada.) Não é ainda o projecto gráfico que queria ver realizado. Aguardam ainda as oito histórias - que comecei a escrever no século passado! – que terminei, uma das quais penso ter enorme potencial. Mas é um dos projectos que este ano gerou e um dos mais surpreendentes pois surgiu de forma natural e imprevista e como consequência do facto de ter criado um blog com as minhas colagens.O blog foi um elemento catalizador e de repente ideias não faltam. Mas o tempo para lhes dar forma parece insuficiente. Sempre vi o tempo como o grande tirano mas afinal o tempo é um factor de libertação cuja índole caprichosa tem de ser respeitada. Não sucumbir aos ladrões do tempo é uma questão de pulso e o meu nunca foi muito firme! Mas o tempo parece ter uma vida própria. Vejo agora que quando pensava estar a perder tempo era ainda a sua mão que me guiava o percurso criativo permitindo-me respirar, gerar e crescer mesmo se em pausa. Este ano pude, finalmente, dedicar-me ao estudo de programas gráficos que apenas arranhava, Corel Draw e Photoshop. À medida que fui dominando as ferramentas fui percebendo o quanto de disciplina e solidão é necessário para desenvolver qualquer projecto desta índole. Isso foi particularmente difícil pois possuo uma natureza agitada e irrequieta. Entedio-me facilmente com a rotina e rapidamente me disperso. Mas acabei por me habituar à companhia da ventoinha do meu portátil e à medida que progredia fui-me viciando em saber mais, em ir mais longe e tornou-se mais fácil. Além da necessária experimentação também a própria passagem do tempo se torna necessária. Tempo de produção e depois tempo de distanciamento que nos vai permitir olhar de forma diferente o que fizemos, emendar e aprimorar. Tudo isto foi o melhor que me aconteceu este ano e no próximo espero que este projecto tenha o merecido desenvolvimento e que um dia de 2007 eu acorde para ver o meu livrito nas mãos de outra criança que não o meu sobrinho.

PEIXINHOS DE AQUÁRIO



Tenho hóspedes para a passagem de ano: os cinco peixinhos vermelhos do meu sobrinho mudaram-se para cá. Um deles tem manchas brancas, não é inteiramente vermelho. Aliás, todos eles são mais para o laranja do que para o vermelho. É uma laranjada pegada, este mini-cardume, quanto a mim demasiados peixes para os centímetros quadrados da casa-aquário, estão mesmo a precisar de se mudar mas para uma mansão maior. De um dia ao outro a água fica turva e é preciso mudá-la. Grande trabalheira e sempre o receio de lhes arrancar uma barbatana ou vazar um olho no processo. Não sou fã de peixes de aquário mas reconheço que um aquário grande e bem recheado de peixes diversos e plantas tem a sua beleza. Sei muito pouco sobre peixes, suas espécies e comportamento. Nunca lhes achei grande piada e ao fim de uns minutos a vê-los abrir e fechar a boca como cantores de coro dou meia volta e desando na muleta. Dizem que é um exercício tranquilizante mas a mim apenas me causa uma certa irritação segui-los naquele espaço confinado, reduzidos a volteios de cauda e eternos abre e fecha a boca. Ontem, já era para o tarde quando liguei a TV e estavam a repetir a 24. Ainda acabei a ver um episódio que já tinha visto! Fiquei colada ao ecrã da TV como um peixe limpa-fundos. E de repente, berló, berló, berló, liga-se a maquineta que faz bolhas de ar na água e eu até dei um salto no sofá. Aproximei-me e já mal se viam os cinco peixes no meio da água turva. Além disso desprendia-se do aquário um certo cheiro a peixe, claro, e não era cheiro a pescadinhas de rabo na boca acabadas de fritar! Se eu fosse a Catwoman resolvia a situação em duas dentadas. Mas mesmo sem ter super-poderes vi claramente o futuro: hoje tinha limpeza para fazer. E assim foi. Ei-los de casa limpa à espera das 12 badaladas. Que lindinhos. Que regresse o sobrinho, porque peixes para mim, só mesmo no prato.

12/28/06

PRENDA DE NATAL



Ainda movida pelo espírito da quadra não podia deixar de escrever duas linhas sobre uma prenda que recebi do meu cunhado: o DVD O Castelo Andante (Hauru no ugoku shiro / Howl`s Moving Castle) de Hayao Miyazaki, autor de Conan, o Rapaz do Futuro, uma das séries de desenhos animados que mais gostava quando era criança. Fábula sobre a redenção pelo amor e o crescimento individual, o filme possui ainda uma clara nota anti-bélica. A obra é adaptada do romance homónimo de Diana Wynne Jones.Como é que posso não ser materialista perante o apelo consumista de coisinhas boas como esta?! Hayao Miyazaki é considerado um mestre da animação nipónica. Todos recorrem já ao poder da animação digital mas ele continua fiel à animação tradicional, dir-se-ia o último artesão da animação. A animação é para os japoneses uma forma de arte suprema e válida para todas as idades. Eu compreendo isso perfeitamente pois sempre me senti à vontade com o facto de ir ao cinema ver filmes de animação e só não vou mais porque o circuito comercial não aposta nesse segmento. Mas essa não é a regra e sempre tive dificuldade em arranjar companhia para ver “filmes para crianças”. Lastimável que também na TV não exista um programa que aborde a divulgação da animação de um modo global e não apenas a japonesa.É um mundo absolutamente cativante. Quando comecei a ver animação japonesa o que mais me intrigou foi o relevo dado ao sobrenatural, físico e espiritual, o simbolismo, a presença da magia e criaturas fantásticas ou a presença de heroínas femininas capazes de salvar o Mundo. Ghost in the shell, tema de ficção científica, foi o filme responsável pela abertura do Ocidente à animação japonesa tornando-se um dos mais conhecidos manga. Mas a produção é vasta, existe animação para todos os gostos. Mais complexa do que a animação ocidental em termos de profundidade e construção de personagens, mais paciente com as dimensões de espaço e tempo, talvez menos humorada, mas igualmente arrebatadora, vale a pena dar uma espreitadela quando tiverem paciência e quiserem conhecer um universo completamente alternativo ao do Bambi e amiguinhos.

12/27/06

QUEM FEZ O PRIMEIRO CARTAO DE NATAL?


Uma coisa de que sempre gostei no Natal, desde que me lembro, mais do que prendas ou que iguarias, é o cartão de Natal.Guardo todos os cartões que recebi desde sempre e faço-o escrupulosamente. O autor do primeiro cartão de Natal- na imagem - era um artista caricato que se bateu contra a utilização de modelos nus pelos artistas plásticos, de tal forma que ficou conhecido como o Roupas-Horsley. Em 1843 Sir Henry Cole, director do British Museum, estava demasiado ocupado para escrever como habitualmente aos seus amigos durante a época festiva e então incumbiu John Calcott Horsley da empresa. 1000 cartões foram impressos a preto e branco e depois coloridos à mão. As sobras foram vendidas pelo tipógafo. Em 1862 os tipógrafos Charles Goodall retomaram a ideia e o cartão de Natal generalizou-se. (Adaptado livremente de Jonathan Sale, The Guardian)

FRUIT CAKE DA LORI



Depois de 12 dias de viagem o bolo de frutas que a Lori (EUA) fez foi-me hoje entregue pelo meu carteiro. Metade dele já desapareceu, como se pode comprovar pela prova anexa e não é preciso nenhuma equipa do CSI para descobrir onde é que ele foi parar. Exacto! Directo ao meu estômago. Ainda estou viva e nem sequer tive indisposições gástricas. Não gosto de cozinhar e talvez por isso sempre tenha apreciado quem quer que cozinhe o que quer que seja para mim. Daí que quando a Lori me disse que me ia enviar um fruit cake eu não me fiz rogada. Quem espera desespera e eu pensava que o carteiro já lhe tinha deitado o dente. Mas não. 12 dias depois da expedição, chegou. E veio de avião. Se tivesse vindo a nado… A Lori aconselhou-me a não comer e conduzir pois parece que as frutas ficam mergulhadas em vinho durante uns tempos largos antes de se juntarem à massa! Ora estão podres de bêbedas. De facto o aroma alcoólico do bolo é notório: será que ultrapassaria a taxa legal se o comesse de uma vez só e soprasse no balão?! A Lisa aconselhou-me a dar uma fatia a um rafeiro e esperar 12 horas antes de provar: - Ó Isabel, há malucos em toda a parte mas nos EUA há mais ainda! – dizia-me ela. Mas eu estava decidida a não desperdiçar fruit cake com nenhum cão. Aliás, mais perigoso do que comer bolo que vem da América é atravessar passadeiras na Figueira da Foz. Uma senhora paraplégica que vive próximo de mim e que se desloca numa cadeira de rodas motorizada sempre acompanhada por um pequeno cão de pelo claro, que ora corre atrás dela, ora lhe salta para o cesto, foi ontem atropelada numa das passadeiras de peões da avenida marginal. Do que me recordo do Código da Estrada aqueles veículos são equiparados a peões pelo que ela tinha todo o direito de pisar a zebra e de passar primeiro que o automóvel azul que lhe deu uma pantufada. Não sei se a condutora do popó também tinha recebido e abocanhado de uma vez só um fruit cake da América completamente podre de bêbado mas só podia estar com os copos. Oxalá a senhora se safe.

26 DE DEZEMBRO DE 2004



Ontem à noite quando liguei a TV estavam a dar na SIC um filme - Tsunami, the aftermath -inspirado pela catastrófe do dia 26 de Dezembro de 2004, o tsunami asiático. Eu esperava pelo egocêntrico Dr. House e fui vendo um pouco do filme até que descobri que iam repetir episódios passados nem há um mês e recolhi a vale de lençóis entre bocejos e impropérios contra a incompetência da TVI. Este ano reconciliei-me com a TV, caixa que desde 2000 reduzira ao mais insignificante electrodoméstico, através de duas séries: 24 e House MD. No último caso não deixo de me surpreender duplamente pois sempre menosprezei séries sobre médicos, enfermeiras e gente ensanguentada, entubada ou com as vísceras à mostra tipo Emergency Room ou outras. Não que seja particularmente impressionável mas o tema nunca me cativou. E de repente topo com esta e não desligo. Mas o filme sobre o Tsunami tinha-me feito lembrar as imagens, essas sim, impressionantes, que vira há dois anos: destroços e mais destroços, gente acampada na rua, coberta por cobertores, ou esticada ao relento. Eram os mais felizes dos infelizes, poupados à morte mas atirados para uma luta de sobrevivência diária que se iria prolongar, desgraçadamente, por muito tempo. Lembro-me de saltar dos nossos flashs noticiosos para os da BBC para tentar perceber o que sucedera. Aprendi a palavra tsunami nos filmes animados do Conan. Nunca mais me esqueci da onda que vi no filme de animação há 20 anos. O meu cérebro fazia sempre o download dessa imagem da minha memória quando a palavra maremoto vinha à tona. Em 2004 a memória foi tristemente actualizada. Difícil aceitar factos como tribos inteiras arrastadas para o mar, aldeias completamente destruídas, uma geração de crianças perdida na voragem das águas, quilómetros de costa transformados em cemitérios, a urgência de congeladores para cadáveres. Dia 26 estava eu ocupada pelo meu trabalho e bastante engripada. Cheguei a casa e enfiei-me na cama. Só ao outro dia, e nos seguintes, comecei a perceber o que tinha acontecido, os números de mortos a subir a cada edição de jornal, as fotografias inumanas. Uma semana depois já estava demasiado elucidada e mesmo assim não o suficiente. Apesar das imagens da tragédia a devastação era tão grande que não conseguia ter uma percepção exacta dela. Sempre achei que as fotografias são mais exactas do que imagens em filme quando nos queremos aperceber da realidade. Ainda há dias veio parar à minha caixa de email uma aplicação Powerpoint com fotos sobre o 11 de Setembro que confirma esta minha ideia. Mesmo depois de ter visto e revisto o que a TV passou sobre o 11 de Setembro este conjunto de fotos conseguiu ser muito mais preciso e impressionante. À semelhança do sucedido na Ásia também a queda das duas torres deu origem a material fílmico que eu deliberadamente evitei, United 93 e World Trade Center. Para mim é demasiado ser contemporânea dos acontecimentos e revê-los depois naquele formato. Dispenso mais um ponto de vista de terceiros por muito virtuoso ou excelente que seja, fico-me pelo relato jornalístico e documental. Se os trágicos acontecimentos que me envolveram apenas como espectadora desprevenida me abalam ao ponto de encontrar em mim esta recusa pergunto-me como reagirão as pessoas directamente envolvidas e que têm de conviver com esta memória. A verdade é que sem termo de comparação não conseguimos nem chegar perto do que possam sentir. O que é, como é viver o horror, o medo? Em 2001 as zonas alagadas pelas águas do Mondego no concelho de Montemor-o-Velho invadiram os televisores portugueses. A subida das águas do rio causou aqui enormes estragos materiais mas não engoliu vidas humanas. Arruinou pequenos comércios, destruiu estradas e ponte. Pese embora a elevação rápida do nível da água que apanhou a população de surpresa a resposta foi pronta e permitiu evitar o pior. Mas às perdas previsíveis, relativamente contabilizáveis e moderadamente vultuosas, juntou-se a incapacidade de reparação por parte das instituições de molde satisfatório. Um ano depois, dois, três ainda surgiam nos jornais vozes isoladas a reclamarem por essa reparação. Um sábado de manhã nesse mês de Fevereiro, resolvi ir a Coimbra. Não conduzia ainda pelo que fui de comboio. A viagem parou a meio. A linha férrea encontrava-se interrompida pela água. Daí em diante uma viagem de uma hora transformou-se em três longas horas de nervos miúdos. Uma passageira e eu chamámos um táxi: eu tinha uma reunião, ela queria ir ao hospital. Todos os trajectos tomados estavam também impedidos pela água- não tinha sido só a linha férrea que ficara cortada. Depois de meia dúzia de quilómetros o taxista invertia a marcha e tentava outro caminho, uma, duas, três vezes. O condutor conhecia muito bem as estradas, mesmo as estradas do campo, e tentou todas as possibilidades antes de não ter outra solução senão voltar para trás e apanhar a estrada principal. Antes o tivéssemos feito logo que entrámos para o veículo em Alfarelos. A dado momento recordo o carro no meio do enorme campo muito plano e dividido por estradas paralelas aqui e ali submersas. No táxi de vidros embaciados eu limpava com a mão a vidraça do meu lado esquerdo para inspeccionar à minha volta. A água corria, marulhando incessantemente. Era um enorme lençol de cor leitosa, ondulante, que corria todo na mesma direcção, da direita para a esquerda. Atravessava a estrada que tentávamos percorrer e chegava sem dúvida ao nível das portas do táxi o que me deixava bastante preocupada. À minha esquerda, à minha direita, à minha frente, atrás de mim, as terras estavam cobertas de água. O taxista insistia em avançar e eu não percebia como é que ele tinha a percepção da profundidade da água. O troço da estrada adivinhava-se através de tufos intermitentes de arbustos ora da direita, ora da esquerda. Sabendo que ele devia conhecer o carro que conduzia não deixava de perguntar uma ou duas vezes: - Ouça lá, tem a certeza de que o motor não se vai afogar? Ele dizia que não, que aquilo era uma máquina, o que me deixava igualmente intranquila. Atrás de nós, talvez a nem 500 metros, suspeitava eu de águas sustidas por frágeis barreiras em jeito de dique, num plano mais elevado. Nem queria imaginar que aquilo cedesse e elas galgassem o desnível. Se começassem a correr na nossa direcção o carro seria arrastado. Pensei nisso. Estar ali no meio daquele mar-chão de ondulação miúda e barrenta transmitia-me uma inquietação enorme. Não chovia mas a atmosfera estava muito húmida e pesada, os céus fechados de nuvens cinza-névoa. Finalmente o taxista deixou de lutar contra a sua própria teimosia. Eu respirei de alívio. Chegámos a Coimbra três horas depois do previsto. Sirvo-me da minha pequena e inconsequente experiência para tentar perceber algo do que possa ter sido o horror de ser apanhado por uma massa de água em fúria apesar de nem sequer ter molhado o dedo pequeno do pé naquelas águas barrentas dos campos de arroz de Montemor-o-Velho. Ensaio multiplicar a sensação por cem, por mil, mas nem assim. É nesta distância de proporções que se situa a minha percepção do Tsunami asiático. Nesta distância e no meu lugar de espectadora bem aconchegada no meu sofá, de controlo remoto na mão, de camisola quente e seca, em frente ao aparelho de TV. Que sorte que eu tenho.

12/10/06

PASSAGEM DE ÂNUS



Hoje recebi um email com sugestões de como tornar a passagem de ano memorável. Meti-me então a pensar na tal da passagem de ano. Para mim é uma data em que o calendário nos vem chatear a vida e artificializá-a como se os nossos estados de espírito pudessem ser comandados pelo seu correr, folha a folha. Já me basta a arrumação do trabalho por dias, horas, meses. Mas aí, quando estamos inseridos em ritmos colectivos, somos uma grande lagarta cujos pés têm de se mover em sincronia para conseguir avançar. Podem pensar que sou uma gaja do mais anti-social que há, mas tal não é verdade. Não digo que não tenha festejado uma ou outra passagem de ano. Mas essas festarolas sempre foram o pretexto para outros festejos. Logo, em rigor, não festejava a passagem de ano. Recordo uma que foi um autêntico vómito. Foi a partir dela que deixou de ser para mim natural contrariar-me em função dos outros e do calendário. Celebrações por obrigação e em massa são para mim um desatino. Para mim a massificação do entretenimento não pode exceder a lotação esgotada dum Coliseu do Lisboa ou já será demais. Agora daí a olharem-me com ares de quem me toma por anormal só porque não quero ir de flute e passas para um qualquer lugar e uivar à meia-noite, é insuportável. E é assim que alguns me fazem sentir. Como se fosse imperativo brindar e estar de cara alegre, algures, quando chegam as derradeiras badaladas. Forçar o mundo inteiro a um ritual de foguetório é uma aberração. Mas a tradição tem barbas mais compridas que as do Pai Natal e carácter endémico. Com esse ritual, outros: os tradicionais balanços, balancinhos, balancés. Não há jornal ou revista que não caia neles! Que tédio. Deve ser a edição mais fácil do ano inteiro: vai-se aos arquivos e elegem-se os melhores e os piores, em várias frentes, desde os mais bem vestidos aos mais mal vestidos, dos países mais produtivos aos menos, personalidades do ano e anti-personalidades, livros in, discos out, copy, paste e já está. É a grande sangria da estatística, entre o fútil e o útil, é um ver-se-te-avias a encher páginas, listas disto e daquilo. A Internet também não escapa. Nem sempre se percebe bem a qualidade do critério utilizado. Por vezes até coincide com o meu. Quando não coincide aí cismo no que terei perdido ou então apupo mentalmente o autor da selecção pelo seu péssimo gosto. Outro ritual é o das previsões astrológicas. Houve um ano em que comprei deliberadamente um livro com previsões diárias. Sem comentários. Primeiro e último. Deu para rir nos primeiros dias do mês de Janeiro. Eu sei que existe uma enorme minoria de pessoas como eu. Nós, esse pequeno grande grupo, somos uma espécie olhada de esguelha pela massa que, em roda-viva, um mês antes já se anda a preparar para o grande Reveillon, tentando optar, entre as ofertas possíveis, por aquela que garanta não sei bem o quê: o melhor grau de alienação, a melhor ressaca pós-countdown, o olvido de tudo quanto não correu de feição nos anteriores 365 dias e a fé no milagre de outros 365 dias melhores a caminho. O champanhe é o convidado habitual, o mestre de cerimónias. O champanhe ajuda-nos a ser cigarras por uma noite; despimos a nossa pele suada e poeirenta de formigas, vestimos o nosso vestido preto, as nossas asas de tule, colocamos um colar de brilhantes, saltos altos. Convocamos a música, a dança, o sexo. E viva o gás carbónico! É uma pena que um vinho tão galante seja chamado à ocasião para ajudar ao olvido das nossas penas. Não acredito na felicidade colectiva. Acredito no alheamento colectivo. Que sentido há em começar o primeiro dia do ano a questionar-mo-nos se dormimos com quem entrámos na festa ou com quem saímos dela, a prometer-mo-nos uma dieta depois de nos termos enchido de tudo quanto havia na mesa? É fácil quando a ressaca é tanta que comida nem vê-la nas próximas 24 horas! Se dia 2, na mais feliz das hipóteses, dia 3, lá estaremos a olhar nova folha de Janeiro e com os mesmos dossiers herdados sobre a mesa; se sobre o lastro côncavo da nossa consciência, as mesmas angústias, desamores e desesperanças, se depositarão doravante, tal e qual, pergunto-me para quê o estrépito?! Estamos a festejar sebastianamente o novo mundo que há-de vir? Mmmmmm... Muito barulho por nada. Defeito meu? Uma questão de feitio? Festa que é festa tem de começar por dentro de mim. Surge nos mais imprevistos momentos, ao longo do ano, dum desafio ao acaso e dum improviso. E pode então durar até às tantas, ou durar apenas meia hora. Mas é saboreada genuinamente em cada momento, conscientemente. O gosto do encontro, o gosto da boa mesa e da boa bebida, o gosto das palavras, o gosto dos outros, o gosto da música, o gosto da dança, o gosto do riso, o gosto da viagem. Sem desperdícios. Não se quer perder pitada. Não se faz para apagar o mal, para o mal não há um interruptor, porque o mal ou se resolve ou não se resolve, quanto muito, adia-se. Faz-se para festejar o bem e o bom de uma coisa que até pode ser insignificante para a maioria e para o calendário mas que é de suprema importância para uma, duas, três, seis pessoas, e na qual todas se congregam. E de uma coisa que é real. O facto de se juntarem massas informes e desconhecidas, sem qualquer sentido gregário, que se dispersam ao acaso quando o corpo começa a dar de si e o tempo se esgota, intriga-me e irrita-me. Só porque o calendário diz que é hora? Se há dias em que penso que não sou deste mundo é no dia 31 de Dezembro. Uma semana antes é ver as televisões e os jornais a pegar nas palavras lindas da paz na terra aos homens de boa vontade e da solidariedade; e nas reportagens das campanhas a favor dos mais desafortunados e infelizes, dos sem abrigo, das não sei quantas crianças que morrem de fome, mais o Natal dos doentes e o dos soldados que estão longe dos seus e a brincar às guerras que nem são as suas, nas lágrimas dos que estão sós, sujos e mal nutridos, tudo quanto nos possa suscitar piedade aí está. E dê, e dê, e dê. Não seja egoísta, há sempre alguém que precisa daquilo tudo que você tem e nem sequer precisa, ou até de metade, um quinto.... E dê. E dê. E dê. Ampare. Uma semana depois e é o frenesi global. Até parece que o mundo inteiro se prepara para, entre gás carbónico e iguarias excessivas, música e trips, provocar-se a diarreia do ano findo, como se isso se viesse a traduzir num grande olvido e num supremo alívio, afinal numa digestão de tudo quanto é mau, na obtenção de um vazio que seja sinónimo de espaço para uma vida nova, radiante e renovada, que pode bem nunca chegar a ser. Penso que a passagem de ano se poderia então chamar “passagem de ânus”...

12/4/06

CLIVE OWEN PARA 007 JÁ!


Eu nunca gostei dos filmes do 007. E até já me tinha esquecido disso! Foi preciso ir ver Casino Royal para me lembrar porque razão vi Goldeneye, Tomorrow never dies, World is not enough e Die another day. (Terei esquecido algum?!!) O meu interesse pelo 007 sempre se ficou pelos genéricos e pela música. Eis a verdade. Ora então a razão remonta talvez a 1983, altura em que a nossa televisão passava uma série intitulada Os Manion da América. O meu personagem favorito era o Rory O’ Manion. Eu estava na faculdade por essa altura e na faculdade havia um rapaz parecidíssimo com o actor que o interpretava. E se era difícil sentar-me perto dele. Havia dias em que levar binóculos poderia ter sido uma opção. Aqueles anfiteatros eram apenas um pouco grandes para estratégias de proximidade. Já não me lembro de quase ninguém que se sentasse ao meu lado, pois as pessoas nunca conseguiam ter um lugar certo. Ter um lugar já era bom.Mas dele ainda me lembro. O Luís era fenomenal. As minhas colegas todas sabiam da minha paranóia pelo rapaz que era parecido com o Pierce Brosnan. Mas se havia uma que soubesse quem era Pierce Brosnan já seria muito. Por acaso, que actores estariam na berra na década de 80?! Possivelmente Richard Gere, Harrison Ford, Tom Cruise. Mas eu tinha de ser diferente, o meu ídolo era um simples actor de televisão, praticamente desconhecido. Assisti a uma charopada, Remington Steele, (que pelo menos serviu para ele treinar o porte de arma) só porque o protagonista era o nosso amigo 007 agora deposto. E ainda por cima dobrada em espanhol!!! Disse um dia que por uma noite com ele era capaz de rastejar desde a faculdade até à portagem. (Cidade de Coimbra, para quem conhece. Quem não conhece, não se ponha a imaginar que não vale a pena. Digamos que o percurso em matéria de acessibilidades seria a tragédia de qualquer deficiente motor.) Essa esteve quase para ir parar ao livro de curso. Só que na altura do terminus da licenciatura eu já não me revia nas palavras ditas. Jamais rastejaria, nem mesmo pelo Brosnan, para ter sexo. Todavia as minhas amigas não me deixaram mais esquecer esse meu desabafo e ainda hoje se riem disso.(Só que hoje já sabem quem é o homem.) À medida que os anos passaram eu continuei a olhar para Brosnan absolutamente fascinada. Mesmo se todos os anos Hollywood nos brindava com um novo catálogo de carnes verdes, verdes porque ainda com pouca rodagem no plateau. Mais novos, mais velhos, morenos, loiros, nenhum me demovia do meu objecto de admiração: eu continuava fiel a Brosnan. Era mesmo um casamento para a vida,ahahah! Muitos filmes e filmes depois, à medida que a minha cinefilia se desenvolvia, apercebi-me claramente que o bonitão não era um actor para altos voos. Paciência. Não se pode ter tudo, não é? Nunca procurei ver todos os filmes onde entrou, mas vi a maioria. Também nunca colei fotos do malandro no caderno, nem na parede, nem pertenci a clubes de fãs!! (Agora acho que o devia ter feito, isso é que teria tido piada, pelo menos para escrever aqui!) Mas tenho algumas Première, durante anos assinei a versão francesa, depois comprei, de vez em quando, a versão portuguesa, e ele anda por lá. Mas não é a mesma coisa, pois não?A sua filmografia é pura mediania. Gosto do The Thomas Crown Affair. É um filme cheio de charme e bom gosto. E escrevo-o com todo o distanciamento. O resto não vale mesmo a pena. Mas, e nem 007? É claro que era divertido ver o Pierse Brosnan como agente secreto, todo elegante no seu smoking, ao volante de grandes carros, sempre penteadinho mesmo no auge da maior pancadaria, shaken but not stirred, etc, etc... Entretenimento bom para a vista. Sinceramente o resto não era nada importante. Digamos, sem querer diminuir o produto, que não é bem o meu tipo de cinema. Mas como não era pelo bom cinema que comprava o bilhete sempre achei divertido, sempre dei o tempo por bem empregue! Goldeneye não é um mau filme. Mas já não me lembro bem. Hoje, pelo contrário, senti que Casino Royale nunca mais chegava ao fim. Duas horas e vinte minutos e se espremer bem o que gostei mesmo foi da personagem da Vesper que me parece muito atípica e interessante dentro do género mulheres Bond. Ora vejamos: cenas de acção e suspense, gadgets e agentes secretos? Fico com a 24 que chega perfeitamente para me deixar empolgada. E nem tenho de andar à procura do meu lugar com o telemóvel dentro de uma sala cúbica - eu sabia que havia de dar uso à pilha eléctrica incorporada - , e nem tenho de aturar os vizinhos do lado a roerem pipocas que nem castores! É que também já não me lembrava: não gosto de animais roedores nas salas de cinema.Tanta coisa de que já não me lembrava. Talvez porque o último filme que vi numa sala de cinema foi O castelo andante. Será que o Brosnan já viu o Casino Royal? Ou andará muito ocupado a gravar anúncios para marcas de relógios e cerveja? Será que ele gosta do seu sucessor, Daniel Craig, que eu apenas conhecia de um único filme, Sylvia, fita sobre a vida de dois escritores, Ted Hughes e Sylvia Plath? Já li algures que afinal o Ian Fleming concebeu um agente durão e sem maneiras, carrancudo e de pouca falas. Mais à Craig do que à Brosnan. Mas que diabo, será que no livro também está escrito que o agente secreto tem de ser loiro?!! E orelhudo?!!!Dei por mim a matutar nisto tudo a meio do filme. Estava obviamente profundamente embrenhada na trama. Que resposta para a pergunta sobre quem poderia justificar melhor os 4 euros e as duas horas e vinte na salinha cúbica?! E penso que já encontrei uma possível: Clive Owen. Porque não? Imaginando-me a fazer o casting, objectivamente, não consigo perceber porque escolheram Craig Daniel. A interpretação é boa, não digo o contrário. Mas não me consegue convencer. É o mistério deste 007.Vamos fazer uma petição online?!!!!

12/2/06

CINEMA E POSTAIS DE NATAL HOME MADE


Todos os anos em Dezembro há que ver um filme de animação. É algo que vem de longe nos meus hábitos. Tenho um bilhete de cinema, cor-de-rosa, rectangular, de papel muito fino. Data de 16 de Dezembro e 1973, refere a fila e o número da cadeira, o preço da sessão foi 10$00. Nome da sala: Cinema S. Geraldo, em Braga. Hoje a sala onde Villaret fez recitais de poesia e onde Sá Carneiro e Mário Soares realizaram comícios já fechou portas. Não sei no que se terá transformado. Os meus primeiros filmes foram vistos aqui e eram cinema de animação. Nessa altura como agora a minha devoção aos desenhos animados continua. Mas hoje reinam os Multiplex, salas pequenas: só quem nunca viu cinema num grande ecrã se pode contentar com aquilo. Neste vão de anos os bilhetes passaram de escudos a euros, 5 euros. Já não há carimbos manuais no pequeno papel, os computadores e as impressoras tratam do assunto, e, se quisermos até podemos comprá-lo pela Internet. Tudo muda, a única coisa que não mudou é este meu hábito de guardar bilhetes. Mas o meu filme de Natal é um filme sobre o Halloween, é Nightmare before Christmas, do Tim Burton. Jack, elegante e horroroso esqueleto, estava cansado da sua rotina de sustos, ainda que bem sucedida, e da sua terra de todos os pesadelos. Apaixonou-se loucamente pelo Natal, enquanto espreitava uma cidade acolhedora, luminosa e colorida, onde reinava o espírito de Natal, tudo aquilo que o seu mundo feito de negritude e fantasmagoria, não era. Quis então substituir-se ao sr. das barbas brancas, não percebendo que, cada macaco no seu galho: nem o Pai Natal sabe assustar, nem Jack saberia dar às crianças os presentes desejados. O resultado é arrepiante, quase um desastre, mas...tudo termina bem, até a afeição que a donzela de trapos Sally lhe devota acaba por triunfar, e um nevão branco e apaziguador cobre a terra de trevas de Jack. The End. O ano passado estava demasiado cansada de tudo, pensei que estava cansada do Natal também. Parecia-me claramente uma rotina, as mais das vezes consumista, outras sentimental, que o calendário nos traz com o frio de Dezembro. Sentia-me uma personagem patética e assíncrona. O pior que o Natal tem, achava eu, é que não se lhe pode escapar. Ele parece estar em toda a parte. Quem nele não se congrega está fadado a ser olhado com suspeita. Sequestrar o Pai Natal foi o plano de Jack e falhou. O ano passado disse especificamente a algumas amigas e amigos que me costumam presentear abonadamente que não o fizessem, que não fazia sentido. Que eu não estava com espírito nem para dar, muito menos para receber. Que pegassem antes na carteira de cheques e fizessem um cheque para uma instituição que trabalhasse com crianças. Que não queria receber uma prenda só porque no calendário estava assinalada uma data. Fiz campanha anti-Natal. Tornei o facto público. Pouco faltou para distribuir panfletos. (Não resultou, recebi prendas, o que só contribuiu para aumentar a minha neurose anti-natal!) Sentia-me medonha. Ficaria bem ao lado de Jake na espectral Halloweentown. Nem sequer podia ser a doce Sally, teria de ser uma verdadeira monstra. Subitamente percebi que o meu boicote ao Natal – esse ano não enviaria cartões nem SMS, não compraria presentes, muito menos simbólicos, nem abriria a boca para desejar Feliz Natal a ninguém, nem de viva voz, nem usando telefones fixos, móveis, fax, internet ou whatever – nada tinha a ver com a celebração do Natal em si mesmo mas com todos os outros dias que o antecederam. O Natal tem de ser construído todos os dias. Não se resume numa prenda, por mais ansiada ou simbólica, num cartão lindinho, em duas palavras, numa reunião de amigos ou familiares lá para os idos de Dezembro. Isso é apenas obedecer ao calendário. A salvo de todas estas variantes estão os crentes que têm sempre um motivo sólido para celebrar: o nascimento de Jesus Cristo. E nesses não me incluo. Ora, tinha treinado pouco a minha rotina de dar. E também de receber. Para receber há que saber como. Receber, por vezes, é difícil. A equação tinha sido a do desequilíbrio. Quedara-me entre o dar pouco e receber ainda menos, e o dar tudo e nada receber. O saldo negativo era grande. Por isso me sentia assíncrona. Fora de tempo. Fora de contexto. Egoísta. E sem pinga de força para ser hipócrita. Era uma abóbora-menina de olhos e sorriso assombrados. Não servia sequer para compota doce. Afinal o que devia era boicotar retroactivamente o ano inteiro e não o Natal! Neste Dezembro tudo isso me parece um despropósito. De tal forma que até resolvi fazer os meus próprios cartões de Boas – Festas. O melhor que o Natal tem, acho eu, é que não se lhe pode escapar. Ele parece estar em toda a parte. Basta não o boicotarmos e somos parte dele. E nem é preciso comprar bilhete!

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