Porque deviam ver I may destroy you - Séries HBO
Ao saber que I may distroy you era sobre um caso de violação fiquei, todavia, na dúvida por já ter visto Unbelievable e não desejar regressar tão cedo ao tema. Mas desde o primeiro episódio que percebi que são como água e vinho: totalmente diferentes. É a protagonista, Arabelle, que digita o título da série na abertura desta. O "you" é apagado. Escreve no seu computador, a cor de rosa, como a cor do "seu cabelo". A escritora, é autora de um best-seller, Chronicles of a Fed-Up Millennial, um desafio que surgiu a partir do seu sucesso no Twitter, mas agora atravessa um bloqueio, após largo tempo de esforços, - ou não - e até uma estadia em Ostia, na Itália, paga pela editora, para entregar um manuscrito a dois agentes literários sem o conseguir. Em cima do prazo, aceita ir até um bar com os amigos e acaba sendo vítima de violação depois de terem adulterado a sua bebida. O final da noite foi uma descida aos infernos que se apagou da sua memória e ela nem sabe como regressou ao escritório e ao computador, para acabar o seu rascunho. Não sabe como feriu a testa ou como se partiu o ecrã do seu telemóvel. Instala-se a confusão mental, a dúvida, e começa uma nova etapa de vida para Arabelle, que "antes de ser violada andava demasiado ocupada e negra para ter consciência de que era mulher".
Primeiro foi claro para mim que o sujeito "destruidor" do título era o violador. Depois foram-me ocorrendo outras ideias. O episódio final, bom demais para ser descrito, é preciso vê-lo, - vejam-no! - esclarece o que vai na cabeça de Arabella meses passados sobre os acontecimentos iniciais: ela tem o poder de lidar com o trauma da sua violação de várias formas. Infelizmente a investigação policial não levou a lado algum: obter justiça e reparação por essa via não lhe foi possível. Foi assim forçada a reagir, também, a este golpe. O que fazer? Talvez procurar (em vão) o criminoso. Mas talvez seja nessa busca que Arabella vai encontrar a forma de lidar com o trauma. Ao pensar o que fará quando conseguir localizar o seu abusador entre os frequentadores do bar - o Ego Death Bar, Arabella pondera várias hipoteses: Arabella pode destruir____?___. Ela pode destrui-lo através da fúria vingativa, ela pode destrui-lo através da sua compreensão e perdão, ela destrui-lo - ou destruir-se? - tornando-se uma agressora sexual, pois não raro abusa quem foi abusado, e assim obter libertação. Ou pode usar o poder libertador e criativo da escrita para se curar das feridas do passado: Arabella pode escrever um livro sobre o que passou e lançá-lo de forma independente e até com uma capa tão graficamente significativa. As interpretações diversas são possíveis e cada um escolha ou encontre a sua. Isto é tão válido para Arabella como para o espectador de I may destroy you. Apesar de não ver assim tantas series televisivas não me recordo de ver um desfecho tão criativo, tão incrível e ainda assim adequado, numa série.
Primeiro foi claro para mim que o sujeito "destruidor" do título era o violador. Depois foram-me ocorrendo outras ideias. O episódio final, bom demais para ser descrito, é preciso vê-lo, - vejam-no! - esclarece o que vai na cabeça de Arabella meses passados sobre os acontecimentos iniciais: ela tem o poder de lidar com o trauma da sua violação de várias formas. Infelizmente a investigação policial não levou a lado algum: obter justiça e reparação por essa via não lhe foi possível. Foi assim forçada a reagir, também, a este golpe. O que fazer? Talvez procurar (em vão) o criminoso. Mas talvez seja nessa busca que Arabella vai encontrar a forma de lidar com o trauma. Ao pensar o que fará quando conseguir localizar o seu abusador entre os frequentadores do bar - o Ego Death Bar, Arabella pondera várias hipoteses: Arabella pode destruir____?___. Ela pode destrui-lo através da fúria vingativa, ela pode destrui-lo através da sua compreensão e perdão, ela destrui-lo - ou destruir-se? - tornando-se uma agressora sexual, pois não raro abusa quem foi abusado, e assim obter libertação. Ou pode usar o poder libertador e criativo da escrita para se curar das feridas do passado: Arabella pode escrever um livro sobre o que passou e lançá-lo de forma independente e até com uma capa tão graficamente significativa. As interpretações diversas são possíveis e cada um escolha ou encontre a sua. Isto é tão válido para Arabella como para o espectador de I may destroy you. Apesar de não ver assim tantas series televisivas não me recordo de ver um desfecho tão criativo, tão incrível e ainda assim adequado, numa série.
Desde o primeiro episódio que fiquei "agarrada" à personagem - melhor, às personagens - e à trama de I may destroy you, à sua energia visual, escrita desarmante e colorido da sua banda sonora com muitos temas meus conhecidos. Ainda tinha na memória a tal Unbelievable, vista no Netflix, que também teve o mesmo efeito em mim embora o seu tom e foco nada tenham a ver com o desta série da HBO. Unbelievable é constantemente atravessada por uma enorme angústia. Foi com alívio que assisti ao seu final, por ser satisfatório, mas também porque me queria libertar daquele pesadelo, dar uma folga à minha indignação. Unbelievable é a dissecação do processo de investigação criminal e da forma como a justiça e a sociedade falham perante as vítimas de abuso sexual. A série impressiona qualquer um pela exposição da impotência de Marie, a vítima de violação, em conseguir fazer valer a sua verdade. A jovem em causa foi violada várias vezes: primeiro pelo homem que entrou em sua casa, depois de todas as vezes que teve de contar aquilo por que passou aos polícias e a outros envolvidos no processo...sem que acreditassem nela. Desacreditada, em virtude do seu passado e de certas inconsistências no seu discurso, começa a ser mais fácil para a vítima acreditar na mentira que querem que ela confesse só para ter paz. Vale a pena ver Unbelievable por mostrar de forma muito honesta e revoltante como as vítimas de abuso sexual, são, não raras vezes, olhadas com suspeita. Desde a forma como se vestem até como se comportam, tudo serve para fundar a ideia de que tiveram culpa. Duvida-se das suas afirmações, duvida-se das suas reacções como se existisse um padrão de comportamento fixo para quem sofre um abuso. Diz-se que inventam abusos para se vingar, para obter atenção sobre si. Na série os polícias chegam a processar - ou a considerar processar, já não recordo bem - a vítima por falsas alegações. Outras valências da série são o realismo com que é mostrado o moroso e dedicado trabalho de investigação criminal das duas mulheres detectives e o facto de conseguir mostrar a violência mas sempre dentro do respeito devido a todas as vítimas, sem nos castigar com mais violência explícita. Além disso, uma das detectives é interpretada pela magistral Toni Colette!
Ao contrário, em I may destroy you, há espaço para outros enredos. Não é apenas mais uma série sobre abuso sexual embora contenha um alerta sobre uma forma específica de violência sexual que me pareceu bem importante. Na série é mostrado que ela pode acontecer de muitas formas, mas, sobretudo que pode acontecer sem que a vítima tenha dela consciência, seja ou não drogada num bar. E que pode acontecer a qualquer um, ou uma, hetero ou gay. A questão do abuso sexual é fulcral mas há espaço para mais. Assistimos ao desenrolar de relações quotidianas de amizade e de sedução de um grupo de jovens londrinos do qual Arabella faz parte, em dinâmicas que questionam o seu valor, ou o do consentimento sexual, ou do preconceito. I may destroy you explora como é que o incidente teve impacto no círculo de relacionamentos de Arabella, dos amigos à família, ou na sua relação com o trabalho. Obtemos assim um retrato da vida dos jovens africanos em Londres, pesssoal e até profissional, com relevância para as suas aspirações no plano criativo. A série não fica encerrada num processo sobretudo de investigação, desencadeado pela vítima, e servido pelos intervenientes e métodos habituais. E até quando isso acontece há lugar a interações de personagens que tanto nos fazem sorrir como ficar destroçados pelo que sucedeu a Arabella. Ancorada no tempo dos nossos dias, na Londres actual, acredito até que I may destroy you poderá um dia vir a ser estudada como um produto de entretenimento televisivo característico da nossa era.
É extraordinário como é que partindo de um facto tão doloroso a autora consegue ainda fazer-nos rir. Apenas critico o constante uso do consumo de drogas para "alívio cómico" que se repete série após série, se bem que em consequência do seu uso se façam figuras risíveis, isso é certo. Mas o humor não se limita à aventura gastronómica e intoxicante das duas amigas, Arabelle e Terry, em Ostia. Apesar do riso, Arabella não nos deixa esquecer o que lhe aconteceu: o riso não significa cura. Significa apenas que a vida não pára, as festas de aniversário sucedem-se, os laços que a unem aos outros não se quebraram. Mas uma pessoa abusada não pode deixar-se consumir pelo passado a ponto de ser definida por ele. A vida tudo empurra para o futuro mas é no presente que se vive, embora agora com uma visão totalmente alterada do que a realidade seja e até da forma de conviver com ela. O que fazer? Existem possibilidades várias de calcorrear o presente mas não é certo que surtam efeito. Procurar formas de lidar com memórias ingratas, ainda que sejam apenas lampejos do sucedido. Não ter perfeita consciência do que aconteceu é um mecanismo de protecção mas quase tão mau como saber tudo ao detalhe. Resta buscar a companhia de quem se gosta e é capaz de prover conforto. Estar só é o pior que lhe pode acontecer - repetir vezes a fio que há guerra na Síria não trás alívio. Ou recorrer a terapias destinadas a libertar endorfinas no nosso sangue - pintando e colorindo livros infantis no autocarro, fazer exercício até à exaustão, fumar e rir com os amigos, encontrar um hobby, recordar bons momentos, etc - e pelo meio de tudo isto ir construindo o próprio caminho.
Só quando terminei de ver a série pela noite dentro (são 12 episódios, de talvez uma meia hora, cada, que reparti por duas noites) é que li que foi inspirada na própria experiência da protagonista Michaela Coel, que também escreveu e realizou, um incidente que ela revelou numa palestra MacTaggart, em 2018, no Festival Internacional de Televisão de Edimburgo. Já vi que a palestra está no Youtube e um destes dias irei escutar. Perante tal descoberta é ainda mais incrível o valor dessa série televisiva e impossível não admirar a coragem e rasgo criativo dessa mulher ganense que é poeta, escritora, actriz de teatro e televisão, produtora e cantora. Wow!

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