Porque deviam ver I may destroy you - Séries HBO


Como é que vocês fazem para escolher que série hão-de ver? Qual é o vosso método? Costumo consultar e confrontar listas diversas, de premiações ou não, ou então seguir a opinião de amigas cujos gostos são similares aos meus. Ou procurar nas fichas técnicas nomes que já conheço de projectos cinematográficos. Com I may destroy you foi diferente. Encontrei um artigo que referia o "escândalo" da série não ter sido nomeada para os Globos de Ouro de 2020 em qualquer das suas categorias por comparação com Emily in Paris, que obteve duas nomeações, por melhor série e pela interpretação da actriz principal.  O mais curioso foi o facto do artigo do The guardian ter sido escrito por alguém que era argumentista na Emily in Paris! Vi algumas imagens da apresentação desta e depois passei os olhos por críticas que lhe apontavam estereótipos culturais, ou o ridículo de fazer um retrato caricato dos franceses e da cultura francesa.  Se Emily in Paris  -  "Uma americana em Paris?" - é boa ou má, não sei. Não vi, nem vou ver pois não creio que faça parte do seu público alvo. Bastam alguns minutos para se perceber que as duas séries em apreço refletem mundos diferentes, vivências diferentes, ópticas diferentes do que é entretenimento televisivo. E então talvez fosse melhor nem comparar o incomparável. Só que a premiação assim o exige. A qualidade pode até ser um conceito subjectivo, que se liga às expectativas e às necessidades de cada pessoa, de cada produtor, de cada júri. Mesmo quando existem critérios é raro haver unanimidade. Mas listas são listas. Alguém tem de ficar de fora e quantas vezes injustamente, não só mas também porque outros joguinhos e interesses se agitam que não o da "qualidade". Isso não significa que os excluídos não a tenham. É claro que depois de ler aquela opinião TINHA de ver I may destroy you, ali apelidada de nada menos que "genial". 

Ao saber que I may distroy you era sobre um caso de violação fiquei, todavia, na dúvida por já ter visto Unbelievable e não desejar regressar tão cedo ao tema. Mas desde o primeiro episódio que percebi que são como água e vinho: totalmente diferentes. É a protagonista, Arabelle, que digita o título da série na abertura desta. O "you" é apagado. Escreve no seu computador, a cor de rosa, como a cor do "seu cabelo". A escritora, é  autora de um best-seller, Chronicles of a Fed-Up Millennial, um desafio que surgiu a partir do seu sucesso no Twitter, mas agora atravessa um bloqueio, após largo tempo de esforços, - ou não - e até uma estadia em Ostia, na Itália, paga pela editora, para entregar um manuscrito a dois agentes literários sem o conseguir. Em cima do prazo, aceita ir até um bar com os amigos e acaba sendo vítima de violação depois de terem adulterado a sua bebida. O final da noite foi uma descida aos infernos que se apagou da sua memória e ela nem sabe como regressou ao escritório e ao computador, para acabar o seu rascunho. Não sabe como feriu a testa ou como se partiu o ecrã do seu telemóvel. Instala-se a confusão mental, a dúvida, e começa uma nova etapa de vida para Arabelle, que "antes de ser violada andava demasiado ocupada e negra para ter consciência de que era mulher".

Primeiro foi claro para mim que o sujeito "destruidor" do título era o violador. Depois foram-me ocorrendo outras  ideias. O episódio final, bom demais para ser descrito, é preciso vê-lo, - vejam-no! - esclarece o que vai na cabeça de Arabella meses passados sobre os acontecimentos iniciais: ela tem o poder de lidar com o trauma da sua violação de várias formas. Infelizmente a investigação policial não levou a lado algum: obter justiça e reparação por essa via não lhe foi possível. Foi assim forçada a reagir, também, a este golpe. O que fazer? Talvez procurar (em vão) o criminoso. Mas talvez seja nessa busca que Arabella vai encontrar a forma de lidar com o trauma. Ao pensar o que fará quando conseguir localizar o seu abusador entre os frequentadores do bar - o Ego Death Bar, Arabella pondera várias hipoteses: Arabella pode destruir____?___. Ela pode destrui-lo através da fúria vingativa, ela pode destrui-lo através da sua compreensão e perdão, ela destrui-lo - ou destruir-se? - tornando-se uma agressora sexual, pois não raro abusa quem foi abusado, e assim obter libertação. Ou pode usar o poder libertador e criativo da escrita para se curar das feridas do passado: Arabella pode escrever um livro sobre o que passou e lançá-lo de forma independente e até com uma capa tão graficamente significativa. As interpretações diversas são possíveis e cada um escolha ou encontre a sua. Isto é tão válido para Arabella como para o espectador de I may destroy you. Apesar de não ver assim tantas series televisivas não me recordo de ver um desfecho tão criativo, tão incrível e ainda assim adequado, numa série.

Desde o primeiro episódio que fiquei "agarrada" à personagem - melhor, às personagens - e à trama de I may destroy you, à sua energia visual, escrita desarmante e colorido da sua banda sonora com muitos temas meus conhecidos. Ainda tinha na memória a tal Unbelievable, vista no Netflix, que também teve o mesmo efeito em mim embora o seu tom e foco nada tenham a ver com o desta série da HBO. Unbelievable é constantemente atravessada por uma enorme angústia. Foi com alívio que assisti ao seu final, por ser satisfatório, mas também porque me queria libertar daquele pesadelo, dar uma folga à minha indignação. Unbelievable é a dissecação do processo de investigação criminal e da forma como a justiça e a sociedade falham perante as vítimas de abuso sexual. A série impressiona qualquer um pela exposição da impotência de Marie, a vítima de violação, em conseguir fazer valer a sua verdade. A jovem em causa foi violada várias vezes: primeiro pelo homem que entrou em sua casa, depois de todas as vezes que teve de contar aquilo por que passou aos polícias e a outros envolvidos no processo...sem que acreditassem nela. Desacreditada, em virtude do seu passado e de certas inconsistências no seu discurso, começa a ser mais fácil para a vítima acreditar na mentira que querem que ela confesse só para ter paz. Vale a pena ver Unbelievable por mostrar de forma muito honesta e revoltante como as vítimas de abuso sexual, são, não raras vezes, olhadas com suspeita. Desde a forma como se vestem até como se comportam, tudo serve para fundar a ideia de que tiveram culpa. Duvida-se das suas afirmações, duvida-se das suas reacções como se existisse um padrão de comportamento fixo para quem sofre um abuso. Diz-se que inventam abusos para se vingar, para obter atenção sobre si. Na série os polícias chegam a processar - ou a considerar processar, já não recordo bem - a vítima por falsas alegações. Outras valências da série são o realismo com que é mostrado o moroso e dedicado trabalho de investigação criminal das duas mulheres detectives e o facto de conseguir mostrar a violência mas sempre dentro do respeito devido a todas as vítimas, sem nos castigar com mais violência explícita. Além disso, uma das detectives é interpretada pela magistral Toni Colette!

Ao contrário, em I may destroy you, há espaço para outros enredos. Não é apenas mais uma série sobre abuso sexual embora contenha um alerta sobre uma forma específica de violência sexual que me pareceu bem importante. Na série é mostrado que ela pode acontecer de muitas formas, mas, sobretudo que pode acontecer sem que a vítima tenha dela consciência, seja ou não drogada num bar. E que pode acontecer a qualquer um, ou uma, hetero ou gay. A questão do abuso sexual é fulcral mas há espaço para mais. Assistimos ao desenrolar de relações quotidianas de amizade e de sedução de um grupo de jovens londrinos do qual Arabella faz parte, em dinâmicas que questionam o seu valor, ou o do consentimento sexual, ou do preconceito. I may destroy you explora como é que o incidente teve impacto no círculo de relacionamentos de Arabella, dos amigos à família, ou na sua relação com o trabalho. Obtemos assim um retrato da vida dos jovens africanos em Londres, pesssoal e até profissional, com relevância para as suas aspirações no plano criativo. A série não fica encerrada num processo sobretudo de investigação, desencadeado pela vítima, e servido pelos intervenientes e métodos habituais. E até quando isso acontece há lugar a interações de personagens que tanto nos fazem sorrir como ficar destroçados pelo que sucedeu a Arabella. Ancorada no tempo dos nossos dias, na Londres actual, acredito até que I may destroy you poderá um dia vir a ser estudada como um produto de entretenimento televisivo característico da nossa era.

É extraordinário como é que partindo de um facto tão doloroso a autora consegue ainda fazer-nos rir. Apenas critico o constante uso do consumo de drogas para "alívio cómico" que se repete série após série, se bem que em consequência do seu uso se façam figuras risíveis, isso é certo. Mas o humor não se limita à aventura gastronómica e intoxicante das duas amigas, Arabelle e Terry, em Ostia. Apesar do riso, Arabella não nos deixa esquecer o que lhe aconteceu: o riso não significa cura. Significa apenas que a vida não pára, as festas de aniversário sucedem-se, os laços que a unem aos outros não se quebraram. Mas uma pessoa abusada não pode deixar-se consumir pelo passado a ponto de ser definida por ele. A vida tudo empurra para o futuro mas é no presente que se vive, embora agora com uma visão totalmente alterada do que a realidade seja e até da forma de conviver com ela. O que fazer? Existem possibilidades várias de calcorrear o presente mas não é certo que surtam efeito. Procurar formas de lidar com memórias ingratas, ainda que sejam apenas lampejos do sucedido. Não ter perfeita consciência do que aconteceu é um mecanismo de protecção mas quase tão mau como saber tudo ao detalhe. Resta buscar a companhia de quem se gosta e é capaz de prover conforto. Estar só é o pior que lhe pode acontecer - repetir vezes a fio que há guerra na Síria não trás alívio. Ou recorrer a terapias destinadas a libertar endorfinas no nosso sangue - pintando e colorindo livros infantis no autocarro, fazer exercício até à exaustão, fumar e rir com os amigos, encontrar um hobby, recordar bons momentos, etc - e pelo meio de tudo isto ir construindo o próprio caminho. 

Só quando terminei de ver a série pela noite dentro (são 12 episódios, de talvez uma meia hora, cada, que reparti por duas noites) é que li que foi inspirada na própria experiência da protagonista Michaela Coel, que também escreveu e realizou, um incidente que ela revelou numa palestra MacTaggart, em 2018, no Festival Internacional de Televisão de Edimburgo. Já vi que a palestra está no Youtube e um destes dias irei escutar. Perante tal descoberta é ainda mais incrível o valor dessa série televisiva e impossível não admirar a coragem e rasgo criativo dessa mulher ganense que é poeta, escritora, actriz de teatro e televisão, produtora e cantora. Wow!


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