Séries no Netflix: opinião sobre a série holandesa Undercover (1ª termporada)

 


De filmes holandeses, além do Delícias turcas, com o Rutger Hauer, que o Blade Runner tornou famoso, só me recordo de ter visto Borgmann. Agora juntei à lista Ferry. Quando terminei, o Netflix logo me apontou para a série Undercover (2019), de 10 episódios, responsável pela criação desta e outras personagens. É uma co-produção da Bélgica e dos Países Baixos distribuída mundialmente pelo Netflix. Undercover poderá não ser memorável, mas vê-se bem pela noite dentro, consegue prender a nossa atenção com facilidade e quando acaba não nos tira o sono. Sugiro que comecem por ver o filme Ferry. Se não gostarem muito, garanto que a série é um nível ou dois acima. 

Se não gosta de spoilers, não leia mais! ( Filme e série)

Mais do que explicar como é que Ferry (Frank Lammers) se tornou o maior negociador de drogas sintéticas da Holanda, o que teria alguma lógica pois isso não é explicado na série, o filme mostra-nos como descobriu o amor da sua vida, a sua faceta mais sensível, ou como os laços familiares e a sua ligação ao lugar onde cresceu são importantes para definir o seu estilo de vida. É evidente que adora Danielle e também que é leal e implacável a cumprir ordens. Por isso sabemos que não perdoará quem o atraiçoe. Na série vemos bem como Ferry aprecia o convívio social mas não se dedica a luxos e extravagâncias. Até pode ir a um stand automóvel e comprar carros à dúzia para todos quando descobre que estão comprometidos, mas o homem gosta mesmo é de comer e beber com os amigos, dar uns mergulhos e relaxar no chalé do parque de campismo. É o amigo do amigo, que tanto premeia a lealdade como pune a deslealdade sem pensar duas vezes. 

Quanto à infância, viveu-a no parque de campismo com a irmã, a mãe e o pai, um abusador, um tipo violento. Logo depois Ferry aparece já como o braço direito de Ralph Brink, um barão da droga, que terá sido o seu mentor. O filme termina com uma reunião familiar com John, o seu cunhado, e a irmã, as pazes feitas depois de algumas discussões para esclarecer o passado e arejar o clima tenso que durava desde o casamento deles, e uma pista: parece ter sido através do irmão de Danielle, que fabrica pastilhas, que Ferry descobre o seu futuro negócio. Quem começar por ver a série irá talvez achar que o filme é muito mais ligeiro e previsível.

A personagem Ferry é vagamente inspirada num contrabandista e criminoso holandês, Janus van Wessenbeeck, de Eindhoven, que foi primeiro preso por liderar uma organização criminosa, e depois por tráfico de ecstasy na fronteira Bélgica/Holanda, em 2011. Condenado a 16 anos de prisão, foi entretanto libertado (2015) na condição de não regressar à Bélgica e não se sabe onde pára. Janus foi capturado durante uma festa de noivado dos polícias que trabalhavam como infiltrados e também vivia num chalé, num parque de campismo belga. O criminoso, conhecido também como Harry Potter por usar uns óculos de aros redondinhos, não gostou que a sua vida tivesse sido motivo de inspiração para a criação desta série e chegou a recorrer a um advogado para processar os produtores. Estes sempre negaram que a série fosse sobre ele e Janus acabou por nada conseguir.

De facto, existem pontos de contacto entre a vida real de Janus e a série, mas também diferenças: Janus apenas transportava e vendia drogas, nunca fabricou. Foi apanhado numa festa no decurso de uma operação que envolveu polícias infiltrados e também teve um polícia corrupto que lhe passava informações. Nunca matou ninguém mas escapou da morte várias vezes. Tal como Ferry, numa ocasião também foi alvejado num braço. Janus foi preso por 15.000 kg de haxixe e 600kg de anfetaminas. Depois fugiu. Hoje talvez esteja no Paraguai ou até em Portugal, ninguém sabe. E talvez vá continuar a inspirar o rumo de Bouman, nas próximas temporadas, não sei. Não deixa de ser fascinante imaginar que polícias e criminosos conviveram, de facto, a escassos metros uns dos outros, num cenário tão invulgar: um parque de campismo. 

Ao mostrar a vida pessoal e a dinâmica de violência, traições e lealdades que se estabelecem em torno de Ferry, Undercover faz lembrar as atribulações de Pablo Escobar e a série Narcos. Também vi a primeira temporada de Narcos, só essa, pois se há história sem novidade é do narcotraficante colombiano. Imaginar mais uma temporada de negociações, traições e violência, um nível acima, isto é, centrada nos cartéis, não me agarrou. Então passei adiante, para o último episódio, apenas para assistir à captura de Pablo Escobar e assim fechar a história. 

Undercover abre com imagens lindíssimas da paisagem rural do Limburgo, uma província holandesa onde se fabrica, afirmam eles, muito do ecstasy que depois é vendido no mundo inteiro, de Nova Iorque a Sidney: mais de 500 milhões de pastilhas. A narração diz que aquela área é a Colômbia do ecstasy. O rei das pastilhas é Ferry Bouman, um homem de cabelos repuxados e brilhantes e camisas estampadas coladas a redonda barriga ganha a comer salsichas sem fim e a beber muita cerveja nos churrascos de fim de semana no parque de campismo. A vida reparte-se entre a descontração do grelhador e as negociatas, sempre rodeado dos colaboradores e amigos, que também vivem no parque, apesar de ter uma casa segura e protegida onde passa a semana. No espaçoso chalé decorado no melhor kitsch, vive também Danielle, a sua mulher, que ele tinha conhecido anos antes enquanto vingava o filho do patrão. Danielle não tem amigas, está aborrecida com a vida que leva, sofre de enxaquecas e é adepta da homeopatia. Além de Ferry, adora a sua cadelinha Khaleesi, e, já como sucedia no filme, é a responsável por trazer alguma ingenuidade e alívio cómico à história.

Durante a operação, os dois polícias - Bob, pela Bélgica, e Kim, pela Holanda, - são forçados a coabitar numa caravana de campismo e a passar por casal para conseguirem ganhar a confiança de Ferry. Não vão com a cara um do outro, ela não gosta de receber ordens, toma ecstasy e gosta de se divertir,  e ele não aprecia o seu feito atiradiço e desembaraçado, e é um homem de família, obcecado com o trabalho. Por coincidência, Ferry descobre que a polícia anda de olho nos seus negócios e imediatamente encara com suspeita a presença dos dois campistas seus novos vizinhos. Antes de tudo correr bem, muitas ameaças surgem que atrapalham o desempenho dos polícias, desde logo as naturais exigências de levar uma vida dupla e o preço que se paga por isso, sucedem-se crises que podem fazer perigar o sucesso da operação: polícias corruptos, negócios abortados, traições dos mais chegados, testes de confiança, o habitual. As suspeitas de Frank não são fáceis de eliminar e os resultados tardam, deixando os inspectores que comandam a operação impacientes pois o orçamento da mesma é apertado. 

John Zwart (Raymond Thiry) é o braço direito de Ferry, agora viúvo da irmã dele, que o anunciado cancro acabou por levar, possivelmente depois dela ter experimentado mais algumas drogas. John é o cérebro das operações e não se deixa enganar facilmente: desde o primeiro momento e até final ele está certo acerca da dupla identidade do casal de novos vizinhos. É reservado e ameaçador mesmo sem dizer muitas palavras, e ainda mais implacável que Ferry.  Um excelente desempenho do actor Raymond Thiry, que não me importaria de continuar a ver na segunda temporada, só que não vai ser possível pois ele foi liquidado e esse facto usado para criar uma das pontas que deverá ser explorada na 2ª temporada. Como se não bastasse ter sido preso, Ferry ainda sofre o desgosto de descobrir que John não morreu acidentalmente. 

Ferry  gosta de cultivar amizades, é um animal social, facto que os polícias vão aproveitar para se acercarem dele: é entre churrascos e copos que a relação de confiança começa a crescer. Parte do sucesso da história depende do prolongado jogo para conseguir obter a confiança de Ferry, que não hesitará em testar a lealdade de Bob antes de o tornar " um dos seus".  Kim também tem a sua cartada, insinua-se junto de Danielle e ganha rápido ascendente sobre ela, manipulando-a mercê da solidão desta e da atração sexual que ela revela por si. Assim se conquista mais uma forma de influenciar Ferry. Ao longo da série vão surgindo diversas personagens secundárias, quase sempre são negociantes, ou aspirantes a isso, (um italiano costureiro, um jovem alemão), e já perto do final um intermediário que chega da América Latina, personagem exuberante a cargo de um actor espanhol, Rubén Ochandiano, entre outras. Durante mais uma negociação, surgem contratempos, e de novo é a confiança e a desconfiança que têm os papéis principais nos acontecimentos em Saint- Malo, cidade portuária da Bretanha, famosa pelo seu passado ligado à pirataria, - será que foi escolhida por isso?! - a dado ponto parecendo que tudo irá correr mal e que os dois infiltrados serão descobertos. 

Mas não. De novo um passo à frente e um atrás: tudo fica na mesma e o resultado esperado pelos operacionais tarda em concretizar-se. Então joga-se o tudo por tudo para atrair Ferry que sentindo a ameaça no ar se tinha afastado para retemperar forças em Aruba com Danielle, deixando o negócio entregue aos seus pouco escrupulosos colaboradores que aprenderam com ele a ambição. Quando Ferry é capturado, apesar de sabermos que são bandidos e que o suposto nestas histórias é serem apanhados, até temos pena deles! Isso foi o que mais me surpreendeu no desfecho: não queria que os polícias fossem descobertos mas também não queria que Bouman fosse apanhado! Isto sucede porque ao longo dos vários episódios fomos vendo os impactos da operação policial nestes indivíduos e famílias enquanto pessoas, de um lado e de outro. O próprio duo infiltrado não era indiferente ao desenrolar dos acontecimentos. Nem sempre lhes era fácil assistir às consequências da destruição daqueles com quem conviviam, sobretudo sabendo que tinham planeado acções que atingiam inocentes de forma indirecta. Por vezes os culpados não são os únicos a sofrer as consequências dos seus actos criminosos. A vitória demora e pelo caminho acarreta perdas diversas, algumas injustas, como a de uma criança que perde o pai. Mas os bons também não têm sempre motivos para festejar. Se Kim decide deixar a polícia talvez ao aperceber-se que "Anouk" fora talvez longe de mais ao seduzir Danielle, já Bob, cujo casamento está ameaçado desde o início, perde definitivamente o seu lugar na cama e na mesa da sua casa: enquanto ele vivia outra vida na pele de "Peter" outro homem tomou o seu lugar. Nada que não seja habitual nestas histórias, claro, mas que foi bem urdido. 

Como podem constatar, não há nada de muito original na intriga de Undervover  a não ser talvez a  localização europeia. Mas as personagens conquistam-nos, as interpretações são boas, e o clima de tensão que a percorre é bem trabalhado, com recurso a hábeis flashbacks, e sem aquela bateria de música e espectacularidade que por vezes tornam tudo muito forçado. O próprio ritmo da série não é vertiginoso, pelo contrário, alguns poderão até achar que por vezes se arrasta um pouco. Às diferentes personagens foi dado tempo para crescerem e se revelarem. Nos últimos minutos de Undercover, Bouman discursa na festa de casamento do agora amigo do peito "Peter", desconhecendo  que estão prestes a ser capturados pela polícia...! É o clímax que se espera mas não deixa de ser uma traição monstruosa. E só a vemos assim porque nos mostraram que, embora a gente não queira pensar nisso, os criminosos são ainda pessoas, na sua maioria não vivem sós num mundo excêntrico e controlado. Podem ter qualidades, uma família, gostam tanto de fazer amigos como nós. O assalto final da polícia pode parecer uma liberdade criativa mas só até lermos que Janus foi capturado numa situação semelhante. A moral da história podia ser, afinal, que realidade e ficção se confundem muitas vezes. 

Comentários