14/01/21

Sobre os testes do Presidente da Republica e o confinamento




Fonte: https://www.facebook.com/gustavocaronahumanitariandoctor/


Sobre os testes do Presidente da República

Dispensávamos este circo, mas aconteceu. Os que estão pela compreensão da questão ouvirão os peritos, os restantes aproveitarão para confabular teorias da constipação, e todas as visões paralelas da realidade, e isso é perigoso, porque paga-se em vidas, em atraso da recuperação económica, e da nossa alegria de viver.
Premissas a ter em conta:
- Há 20-30% das pessoas que têm infecção assintomática. Ou seja, têm contacto com o vírus, têm seropositividade, mas não se apercebem de qualquer sintoma (tal como no HIV, VHB e VHC, p.e. nas fases inciais)
- Não há testes falsos-postivos. A especificidade dos testes PCR é cerca de 99% , o que quer dizer que o teste quando dá positivo identifica sem margem para dúvida (razoável) a presença de genes do vírus no corpo.
- A doença tem uma fase de virémia que vem depois da incubação, que dura cerca de uma semana (pode ser mais nos casos mais graves) e é nesta fase que temos mais vírus no corpo.
- Depois da fase de virémia, já não estamos contagiosos, mas podemos ainda ter pedaços do vírus no organismo, que fazem com que a pessoa tenha o teste PCR positivo, mas pode estar curada, se esteve sintomático. Vimos isto na 1a vaga inúmeras vezes. Pessoas após a infecção terem ficado curadas, mas tinham durante muito tempo testes positivos. Nesta altura até se pedia dois testes de cura negativos. E vimos muitos (ex) doentes a ter um teste negativo e depois positivo, ou ao contrário. Mas isto não é um falso-positivo. Seria um falso-positivo se a pessoa nunca tivesse tido contacto com o vírus. Daí que testar assintomáticos seja sempre um exercício difícil.
Quando há 1 teste PCR SARS-CoV2 positivo temos a certeza que a pessoa já teve contacto com o vírus, mas só saberemos em que fase da doença está, se teve sintomas.
(Existem sim, falsos-negativos. Ou seja, doentes com sintomas, com alterações nas análises e na TAC Torácica características, em que 1 teste vem negativo, embora se venha a confirmar por um outro teste que efectivamente se trata de infecção por SARS CoV-2. Mas os falsos-negativos, não interessam muito para compreender o caso do Presidente)
O Presidente, não tendo nos últimos tempos referência a qualquer sintoma, torna-se difícil interpretar o timing do contacto com o vírus, mas que teve, teve. E daí, um dos grandes desafios desta pandemia.
Aproveitar este "episódio" para desacreditar a comunidade ciêtifica é um exercício de pura má-fé. Ou então, acham que temos mais de 4200 doentes a fingir que estão doentes, e 600 dos quais a fingir que estão a morrer nos Cuidados Intensivos, e claro todos os profissionais de saúde a fingir que estão a fazer o trabalho que sempre fizeram.
Podem dar as voltas que quiserem ao tema. A razão pela qual temos que confinar (na minha opinião, claro) não tem a ver com o número de casos positivos por dia , mas sim o gigantesco número de internamentos de doentes Covid que estão em risco de vida se não tiverem cuidados hospitalares, e o que estes números de doentes obrigam a condicionar no tratamento de uma série de doenças não-Covid, em particular as que causam risco de vida iminente.
Está a acontecer em todo o mundo, e até a Suécia vai para confinamento. Os organismos de saúde nacionais, europeus e mundias têm o aconselhamento de TODA a comunidade ciêntifica, que se questiona, discute, e de uma forma consesual e colegial informa todas as pessoas que estejam disponíveis para ouvir.
Ser sensato e acreditar em quem sempre fez ciência e olhou pela nossa saúde, ontem, hoje e sempre, é um exercício de enorme inteligência.


Sobre o CONFINAMENTO

- 1) Quanto mais precoce, mais eficaz. Já devia ter sido há muito tempo. Países que fecharam mais cedo, abriram mais cedo (tal como Portugal na 1a vaga).
- 2) Vai acontecer desta vez porque esta a avalanche de doentes está acontecer também na grande Lisboa, perto dos decisores políticos, gente "famosa" e por aí fora vai ser mais susceptível. Porque se houvesse razão em vez de emoção nas decisões deveria ter acontecido em Outubro/Novembro, para ser mais curto e mais eficaz.
- 3) É imperativo que se fechem as escolas, no mínimo as idades que não precisam dos pais a tomar conta em casa. As crianças/adolescentes/jovens são dos maiores propagadores do vírus de uma família para a outra.
- 4) É péssimo estarmos em eleições em que reina a demagogia barata, dos que têm soluções milagrosas de salvar vidas, salvar o ensino, salvar a economia, falar dos "não-Covid", salvar "grupos de risco" , etc. Salvam tudo, o que quer dizer que não salvam ninguém. Não ouçam demagogos, ouçam os especialistas.
- 5) Isto é um desafio de probabilidades, a cada contacto que temos, sem distanciamento e sem máscara, estamos a potenciar a propagação da pandemia.
- 6) Só há 2 soluções preponderantes: 1)Identificar os positivos pelos sintomas e por testes e isolá-lo juntamente com os seus contactos, e 2) diminuir o contacto entre as pessoas enquanto os serviços de saúde estiverem em ruptura.
Todos estamos preocupados com as vidas que se perdem, com a economia e a crise social, com e os terríveis impactos do ensino fora das escolas, e ainda com os efeitos que a falta de socialização tem na nossa felicidade e saúde mental.
Fechar mais cedo, fechar "totalmente" é mais eficaz e será mais curto. Temos de ir da emoção à razão, e da razão à emoção novamente para nos segurarmos uns aos outros nestes tempos tão difíceis.
Comecem já, a tirar do ordenado das pessoas que, como eu, não estão a ser afectadas economicamente por esta crise para proteger financeiramente os que têm que limitar o seu negócio para salvar vidas.
Os números a analisar, na minha opinião devem ser os internamentos, porque o grande limitador é a pressão hospitalar que está a impedir o tratamento de doentes Covid e não-Covid. Quando os internamentos baixarem drasticamente, entendo que deveremos aos poucos regressar ao "normal".
Repugno o nacionalismo por estar nas antípodas dos direitos humanos, mas tenho um enorme orgulho em ser Português. E se queremos ter mais orgulho em nós e na nossa sociedade temos que fazer um grande esforço para encontrar humildemente o nosso papel no bem-comum.
Este é o maior desafio das nossas vidas. Abram os vossos corações.



1 comentário:

Konigvs disse...

Bem sei que somos todos treinadores de bancada de covid-19 (mesmo quando muitos não percebem um cu do assunto, mas temos o mesmo direito que os paineleiros que aparecem nas televisões e nos jornais) mas eu escrevi umas coisitas logo após a explosão de casos nos Estados Unidos por isso estou à vontade. Se em março elogiei o governo, aliás, todos elogiaram, agora não posso dizer o mesmo. Em outubro andamos a discutir uma aplicação e a vigilância da polícia como se isso fosse ser a salvação da pandemia. Perdeu-se demasiado tempo a discutir o supérfluo e quiseram dar uma de suecos. Tivemos já não sei quantos Estados de Emergência que sinceramente ainda não percebi para que servem. Ah sim, para juntar as pessoas todas nas manhãs dos fim-de-semana, e agora, com 150 mortos por dia, lembram-se então de confinar. A brincar. Sim, porque isto é um confinamento a brincar! Está tudo aberto menos os restaurantes e os cabeleireiros! De resto as pessoas até podem ir à missinha, que nesta altura as igrejas até são edifícios muito quentinhos, mas ir ao teatro e eventos culturais já não se pode!
E, enquanto o governo brincava aos suecos, todos os partidos da oposição, da esquerda à extrema-direita gritavam que era demasiado! Não se pode confinar! Teremos mais um ano de 2021 de pandemia, bem pior que o de 2020. Mas alegremo-nos, já há vacinas! Pena que não ressuscitem todos os que já morreram.