26/03/18

March for our Lives - 24 de Março de 2018

Haveria muito para dizer mas estou sem tempo agora.
Eis um sumário em forma de fotografia.
Desconheço o autor.

24/03/18

The cult of Done Manifesto - O Manifesto de Fazer Coisas



Bre Pettis e Kio Stark realizaram um manifesto com 13 ideias para ajudar a fazer as coisas andar naqueles momentos em não há ou há pouca inspiração e desatamos a arrancar os cabelos. É assim, em tradução muito livre:

1. Existem três estados do ser. Não saber, agir e fazer coisas.
2. Aceite que tudo é um rascunho. Isso ajuda a fazer coisas.
3. Não existe estágio de edição.
4. Fingir que você sabe o que está a fazer é quase igual a saber o que está a fazer. Então aceite que você sabe o que está fazer, mesmo que não saiba. E faça!
5. Bana a procrastinação. Se você espera mais que uma semana para ter uma ideia que funcione, abandone-a.
6. O momento de ficar pronto não é o de finalizar, apenas significa ter outras coisas para fazer.
7. Uma vez feito, pode abandonar isso.
8. Ria da perfeição. Ela é aborrecida e um impedimento a fazer coisas.
9. Pessoas sem mãos sujas estão erradas. Fazer coisas é estar certo.
10. Fracassos contam como coisas feitas. Então cometa erros.
11. Destruição é uma variante de f.azer coisas
12. Se você tem uma ideia e a publica na internet, isso conta apenas como um fantasma de ter feito uma coisa.
13. Uma coisa feita é o motor de mais coisas.

23/03/18

O preconceito contra tatuagens ainda é muito forte

O regulamento do hospital de Cascais já anda nas bocas do mundo e bastou uma olhadela nos comentários para ler mimos como este: "Não me estou a ver ser tratado por um/uma loucos com tatuagens e pircings." Ora, a minha cabeleireira tem tatuagens visíveis e quando ligo a marcar peço para ser atendida pela menina das tatuagens. Porquê? Porque ela é uma excelente profissional: atenciosa, sabe conversar e faz ao meu cabelo exactamente o que é preciso. A primeira vez que me atendeu comentei favoravelmente as tatuagens, que eram bonitas e estavam bem feitas. Ela confidenciou-me a supresa de ter alguém a elogiar-lhas, já que o que sucedia era o inverso. Sempre apreciei a arte da tatuagem desde que as descobri, há muito tempo, nos filmes japoneses. De então para cá tornaram-se muito comuns mas são ainda um tabu, muitas vezes um efectivo obstáculo à contratação laboral e ao relacionamento profissional e até pessoal. Que as considerem inestéticas é algo que consigo entender completamente, já que as demonizem e aos que as ostentam, diminuindo-os e considerando que são "loucas/os" é pura e irracional aberração. A discriminação existe por parte dos gestores de recursos humanos e, quando estes são neutros, os utentes de serviços e consumidores reagem, na sua maioria, de forma negativa. Reparem que não é necessário que estas pessoas tenham tatuado FUCK THE WORLD na testa quando estiveram na prisão: a minha cabeleireira tem tatuagens de flores e de uma deusa nos braços! Existem inquéritos sobre a percepção que se faz das pessoas tatuadas e uma percentagem afirma que são menos inteligentes, dadas à delinquência, ou, como esse comentador disse, "loucas". Somos tão prontos a apontar defeitos nos outros, como este comentador, que é, certamente, um brinco de pessoa, de pele branca e limpa, fato engomado e tudo no sítio. Felizmente uma tatuagem pode ser removida, já o preconceito é uma nódoa muito mais complicada de limpar.

13/03/18

Apanhada na censura do Facebook!


E pumbas! Na sequência da publicação das glândulas mamárias do pangolim fêmea, e em troca bem humorada de comentários, publiquei as glândulas mamárias da Madonna, de mão dada com o Jean-Paul Gautier, a desfilar na passerelle, uma coisa velha de uns oito anos. Mas o que te deu hoje para pisar o risco, Belinha, sua grande doida? Não sabes já o que te espera? A reprovação do Facebook chegou na forma deste aviso, que me pede para remover todas as fotografias que contenham nudez, de forma a manter a minha conta activa. Ora, as mamas da Madonna não valem realmente a perda da minha conta. Afinal todas temos mamas. Todos os animais mamíferos as têm. Até o ornitorrinco tem mamas mesmo se põe ovo. Mas para algumas mentes perturbadas e bafientas as mamas são um par de coisas terríveis, quer sejam as da exibicionista da Madonna, quer sejam as da recatada mãe que amamenta um bebé. As mamas são capazes de levar à perda das contas do Facebook, quase me atreveria a compará-las a ogivas nucleares, capazes de aniquilar o mundo. Além da censura da foto da Madonna, o Facebook enviou-me, depois, esta selecção de fotografias que considerou suspeitas: incluiu cartoons com cães, pinturas de rolos de papel higiénico, uma foto de uma galinha, uma ilustração desenho de pele rosada e púbis, uma gerbera, mais um cartoon da pré-história com uma boneca e duas mamocas pueris, a senhora chinesa das boas pernas, fato de banho e máscara de luta livre, a modelo digital negra, relógios de parede em forma de edifícios, uma colagem de uma armação ocular sobre ruinas de guerra, a pintura de uma mulher negra a descansar num sofá, um prato de ovas de bacalhau e arroz de grelos, uma instalação com fita adesiva, e print-screens do meu chat com o Fernando Pessoa! O algorítmo é uma anedota: onde é que estes conteúdos são pouco seguros e criadores de mau ambiente na comunidade? Não marquei nenhuma das quadrículas e avancei para OK, deixando as minhas publicações no seu lugar, portanto, fico à espera de retaliações futuras. Também fui instada a inteirar-me das políticas sobre nudez e actividade sexual no Facebook, aviso prévio que recebi em modo compreensivo e algo paternalista. A rede social entende que eu talvez não esteja a par das ditas, convidando-me a ir estudá-las e a agir em conformidade. Todos os dias acontecem destas censuras e hoje parece que fui eu que prevariquei e de forma dolosa, sei perfeitamente que no Facebook a nudez é uma coisa proscrita. Como sempre digo, o Facebook não é meu, tenho de acatar as suas regras ou arriscar-me a perder a possibilidade de estar em rede. Não é um espaço de liberdade nem nunca vai ser pois o Facebook não passa de um negócio cuja estratégia principal assenta em arrebanhar o máximo de pessoas debaixo do seu chapéu virtual para depois as confrontar com anúncios. Se se especializou em formas de nos prender ao ecrã, não é porque deseje aproximar as pessoas, ser uma boa diversão ou promova utilidades que não possam ser encontradas em mais nenhuma ferramenta da net.

12/03/18

A garraiada é uma tradição fofinha, sim?


Carrega Coimbra. Ah, grande estudantada. Um referendo! Já parecem aqueles estudantes da escola americana de Parkland a lutarem por causas. Estou comovida, até se me chegou uma lágrima ao canto do olho a ver este papel. Também fui estudante em Coimbra: é uma coisa que nos marca como um ferrete.

E atão desde que me veio à mão este papelote, uma fotocópia do areal da praia da Figueira da Foz com estudantada espojada, e umas letrecas, que fiquei de olhos embaciados de ternura. Antes ou durante ou depois, no dia da garraiada na praça de touros da Figueira da Foz, os estudantes que vieram de Coimbra na CP em comboios especiais, vão para a praia curar os copos a mais e/ou as marradas que levaram: é uma tradição a praia encher-se de corvos bêbedos. É uma espécie de Sunset mas muito menos concorrido e colorido. Ocorreu-me entretanto que isto da garraiada é uma coisa só de machos! E andam os estudantes a pedir que se juntem a esta causa por uma Universidade para todos? Universidade e Divertimento para TODOS, certo? Então as mocinhas? Ficam passivamente a assistir? A fazer claque? Parece-me um ritual muito antiquado e inadequado à onda feminista do momento, não vos parece, meninas? Isto não vos incomoda nem um pouco?

Não quero levantar falsas suspeitas, mas os e as que dizem sim à garraiada serão, provavelmente, os e as que depois dão mau nome à praxe, inventado praxes abusivas, mas que dizem - fazendo uma interpretação lata do papelote acima - não ser abuso nenhum, pois não há sangue, nem ferimentos feitos nos caloiros - animais, sim, é assim que se chamam, é tudo uma brincadeira; dizem que é só mentiras o que se conta acerca das humilhações, tudo falso, que os caloiros se divertem à brava, que são acompanhados por alunos mais velhos para garantir o seu completo bem-estar. E sabiam que, tal como nas garraiadas, no final das praxes os caloiros-animais voltam para casa, uns para o campo, outros para a cidade? Bom, alguns, infelizmente, não, como é sabido. Não se deixem enganar, pois.

A garraiada não é uma tourada, é só uma senhora parvoíce, e, digo-vos mais, é uma parente pobre da tourada, que condeno, mas aonde consigo ainda vislumbrar justificativas. Pena que os estudantes não sejam capazes de inovar e encontrar melhor divertimento e que fiquem a ruminar na tradição só porque sim. Mas, vá, jovens, juntem-se a esta causa: eu também já fui estudante, entendo que sejam imaturos pra caralho. Afinal, a garraiada é tão emocionante, gira. Observem com atenção este video e recapitualem o que vão perder se não votarem sim! É bué de tradicional e fofinho levar cornadas no cu, voar pela arena, cair de quatro, ser espezinhado pelas patadas do boi, comer areia misturada com bosta bem morna ainda, tudo muito bravo! Olhem, sabem que mais? Eu também não trocava tamanha diversão por um concerto dos WrayGunn no Gil Vicente: era muito parado.



Traumatismos e depressões



A Mariana encontrou o Andriy na farmácia, já era quase hora de jantar. Andriy estava a comprar Ben-u-ron e Benzitrat. Interessada, ela quis saber quem estava doente lá em casa e ele contou que o filho tinha dado uma queda e partido uma perna. Estava em repouso, depois da vinda do hospital, pois tinha feito também um traumatismo craniano. Andriy veio para Portugal ainda antes da independência da Ucrânia e fala a língua portuguesa de forma quase confiante. Tem um pequeno restaurante onde a Mariana vai com frequência e tratam-se com grande familiaridade. No regresso a casa a Mariana cruzou-se com o João nas bombas de gasolina. Almoçam quase sempre no restaurante do Andriy, preferido por ser perto da Câmara Municipal, onde trabalham na seccção urbanística. Ela mantém com ele um romancelho de fim-de-semana quando calha e julga que ninguém sabe, a não ser toda a gente que trabalha na Câmara Municipal. Vê lá tu que o filho do ucraniano arranjou um traumatismo craniano e partiu uma perna, gritou-lhe antes de subir a janela do carro, para se proteger da chuva miúda que começava a cair. Arrancou dali a derrapar e foi à sua noite. O João abasteceu-se e quando estava a fazer o pagamento à menina apática do guichet fluorescente apareceu o Manuel, um sem-abrigo que costuma por ali cirandar. Enquanto a trave de riscas branco e vermelho não sobe e não desce para dar caminho, há toda uma janela de oportunidade para cravar uma moeda e um cigarro aos ocupantes dos veículos. Estava molhado no cabelo e nos ombros impermeáveis, e trazia, a coberto do abotoado, um braço ao peito, Hoje pedia uma ajuda para os medicamentos, soerguendo no ar o seu melhor argumento. O João, que é muito boa gente, apressou-se a esgravatar nos trocos, enquanto perguntava como é que ele tinha arranjado aquele braço de gesso. Sei lá eu, sr.! Tropecei no degrau quando ia a sair de casa, foi só um toque no chão e parti esta porra. Osteoporose, sabe, coisas da idade, disse-lhe o João, com ares de médico. Contou-lhe então de como o mundo se anda a tornar um lugar escorregadio: o ucraniano do restaurante que ele frequentava habitualmente tinha caído, partido uma perna e feito um traumatismo craniano. O Manuel ouviu de esguelha com os olhos tão embaciados como o tino que já ia longe, por perto do café onde costuma ir matar a sede, mas de coração singelo embebido pelo mal alheio, um pouco também o seu. A cancela subiu e o João partiu na chuva veloz, o Manuel numa asa de vento. Quando o sem-abrigo chegou ao café encontrou o Vasco e a Catarina, um casal amigo. Os dois estavam bastante quentes e logo o convidaram a entrar na roda para esquecer a invernia e a depressão Félix. A roleta da conversa corria sem parança e, à vez, cada um dizia o que em pensamento lhes calhava, faltas do futebol, anedotas do Joaquim que fora para o lar, cusquices da Lila que tinha feito implantes mamais, ódios aos ladrões da política, e, inconveniências do temporal Félix. Manuel, à espera que o medicamento, copo a copo, surtisse algum efeito e lhe aliviasse as dores, lá ia girando no carrossel da conversa. Mas só à terceira ou quinta volta é que contou aos amigos a novidade do dia: também o Andriy tinha dado uma queda e estava com um traumatismo ucraniano numa perna. Todos beberam mais uma rodada à saúde do dono do restaurante onde tantas vezes iam comer quando a fome lhes comia o dinheiro que não tinham para beber. Puta que pariu esse tal Félix.

11/03/18

Para Cristas as touradas são uma espécie de bailado



Queria só deixar explícito que não apoio o bailado das touradas, nem garraiadas académicas, nem macacadas estudantis de qualquer género em nome da tradição, situações onde vulgarmente se abuse do mais fraco porque é um animal, em nome deste ou daquele argumento, a praxe secular, a tradição, a cultura, a inclusão estudantil, a camaradagem, o divertimento, a preparação para o futuro. Argumentos cada vez mais questionáveis que são já foco de debate em muitas Universidades onde começa a tornar-se relevante a necessidade de revisão e actualização das tradicionais praxes humilhatórias a caloiros, não inocentemente chamados de animais, práticas muitas vezes atentatórias até de direitos humanos, em nome da dignidade quer dos novos estudantes que chegam às academias, quer dos que os recebem. A entrada na Universidade, com a carga simbólica que também lhe está associada, de etapa maior na aquisição de um conhecimento específico, de crescimento intelectual, devia ser igualmente acompanhada pelo aprimoramento dos jovens em outros domínios menos cerebrais, para que a não terminem encanudados mas sem substância emocional, desprovidos de sensibilidade e pensamento crítico, adultos que dizem às TV's, a fazer boquinhas, que as touradas são um bailado, ou que se esforçarem muito, muito, muito se podem compadecer do sofrimento dos animais, isto é, pessoas imaturas, superficiais, centradas em si mesmas, embotadas para tudo o que extravaze do seu círculo egoístico de interesses mais imediatos, por exemplo, a perfeição e a beleza inexcedível dos seres que partilham o mundo natural connosco, sem perceber que também a estes cabe dignificar em nome não da tradição mas do que um futuro maior exige. E o escritor Hemingway que se chamou para justificar a arte dos toiros, todos sabemos, foi um aficcionado que gostava de touradas no tempo dele, não sabemos se hoje seria um aficcionado. Hemingway também opinava que a guerra era necessária e justificável, mas sempre um crime. E deixou escrito, mas, claro, é preciso que as pessoas ocupem o seu tempo a ler e não apenas a treinar sorrisinhos políticos ao espelho, para o saber, o seguinte “Acho que, de um ponto de vista moral moderno, ou seja, um ponto de vista cristão, toda a corrida de touros é indefensável; há certamente muita crueldade, há sempre perigo, seja procurado ou de modo inesperado, e sempre existe a morte, e não deveria tentar defendê-la agora, só para dizer honestamente as coisas verdadeiras que encontrei acerca dela"

08/03/18

Dia Internacional da Mulher 2018



Dia 8, hoje, dia de luta com raiz nas jornadas de mulheres que no início do séc.XX, dos EUA à Europa, aspiravam a condições de trabalho dignas, sufrágio universal, entre outros direitos, em suma, à prática efectiva de um princípio de igualdade entre homens e mulheres. E então a CM do Pedrogão promove um workshop de beleza e algum Facebook reage, indignado, ao workshop e respectivo cartaz, onde tudo incomoda, o apoio institucional, a futilidade da oferta associada a esta data, o rosinha das fontes e a boneca de lacinho. Sem esquecer que, para muita gente, nos dias que correm, mulher que é mulher tem mesmo é que andar de cara lavada. Maquilhagem é coisa superflua, opressiva, capitalista. Uma mulher de cara limpa é segura de si, empoderada, as outras, coitadas, umas servas da vaidade, belas adormecidas à espera do seu príncipe, em perene vassalagem a padrões ditadores de beleza. Aquelas apontam o dedo crítico a estas e estas, agastadas umas, indiferentes outras, já se inscreveram em bando no workshop e de tal forma que foi preciso um espaço maior para acolher a iniciativa. Pessoalmente considero uma opção algo dissonante com a temática central que este dia quer chamar à reflexão. E também acho o cartaz omisso e discriminatório: falta ali um boneco. As mentoras - ou os mentores - do evento esquecem que isto da maquilhagem já não é território exclusivamente feminino, é coisa máscula também. Hoje ninguém mais diz que os homens não se querem bonitos: agora se eles quiserem cobrir-se de base, máscara, baton, sombra, isso é totalmente ok. Hoje, homem que é homem, compete por prateleira igual à da companheira no WC para colocar os seus produtos de beleza e demora até menos tempo do que eu a ficar lindo: já vi videos disso, aplicam eyeliner e sombra como eu nunca fui capaz e morro de inveja. Estes organizadores não viram quando na capa da célebre Cover girl apareceu o James Charles: a Katty Perry e a Pink pertencem ao passado. Ele era ela: um homem foi a cover girl de uma celebrada revista feminina. Portanto, as fronteiras de género na maquilhagem já não existem embora existam no mercado de trabalho em formato rosa-choque, chocante mesmo, e por isso nem todas as mulheres que gostam de se maquilhar - ou que efectivamente precisam dela por questões de correcção estética - podem comprar produtos de beleza de boa marca, não testados em animais, livres de substâncias cancerígenas, totalmente biológicos, pois são mesmo caros pra c******. Já os homens, com maior poder de compra, eles sim, são o novo mercado que as grandes marcas querem conquistar. Por isto e mais, eu nem estranharia se aparecesse um punhado de homens no workshop. Que os deixem entrar e beber do sumo conhecimento da artista de make up, é o que espero em nome da igualdade de género. Agora, um pouco mais a sério: quero só pedir que não se distraiam com notícias cor-de-rosa, e, sobretudo, que no dia-a-dia deixem cada mulher decidir em liberdade sobre os assuntos do seu interesse, e que respeitem a sua opção. Era só isso e agora vou maquilhar-me pois tenho de ir ao Jumbo comprar pão para o almoço.

04/03/18

Pedro Passos Coelho Professor de Economia e a States







Olha a States onde eu ia recuperar a alegria de viver depois de conviver com o Adam Smith, o papá do liberalismo económico, e outros da sua laia. À altura, quaisquer pensadores económicos me produziam cãibras mentais, preferia de longe os filósofos do Direito. A discoteca States era onde eu ia desempenar o esqueleto e espairecer das preleções teóricas do Prof. Doutor Avelãs Nunes. Ele era o docente da cadeira de Economia Política, 1º ano da Faculdade. Para quem não sabe, Avelãs é um importante intelectual marxista, autor de reflexões maduras sobre capitalismo, Direito, globalização e neoliberalismo, um peso-pesado do meio académico, o seu curriculum vitae deve agora ser tão extenso como as sebentas por onde estudávamos. Algures guardo o seu livro Uma introdução à Economia Política, que ele recitou ao longo do semestre. Aí se aborda o pensamento característico do mercantilismo, os meandros da fisiocracia, a “escola clássica” (Adam Smith, David Ricardo, Jean Baptiste Say e Thomas Malthus) e sintetisa a crítica da economia política elaborada por Marx, a sua superação, depois Keynes e seu legado, etc, etc. O livro estará hoje perdido entre muitos num caixote perdido, profusamente borrado com marcadores fluorescentes de várias cores, sublinhado a vermelho Kremlin, e amplamente ilustrado nas margens e nos entremeios dos gráficos da lei da oferta e da procura com toda a espécie de garatujas, com que, desrespeitosamente, tentava iludir os ponteiros do relógio e entrar noutra dimensão. Pérolas a porcos, é o que estão a pensar alguns de vós, agora o meu filhinho vai ter de aprender Economia com o Pedro Passos Coelho.O meu conselho é que não baixem os braços, ou melhor, as mãos do teclado: se continuarem a cruxificar o homem nas todas-poderosas redes, quem sabe se ele não desiste como fez o Piçarra. Força, camaradas.