6/26/17

Anedota do Bocage



A política portuguesa anda a ficar cada vez mais descuidada. Certo dia estavam João Marques e Passos numa festa quando este emitiu uma flatulência. Muito desconcertado viu o amigo João Marques e dirigiu-se-lhe rogando que assumisse a culpa pelo sucedido, para limpar o ar. Prontamente João ofereceu-se para assumir o acto. E então chegou-se ao centro da sala, bateu palmas, e disse em voz alta:
- Minhas senhoras e meus senhores. Quero pedir muitas desculpas. O peido que o Passos deu, não foi ele, não: fui eu! 
Bocage não teria dito melhor.

6/23/17

Martelo Rabelo de Sousa. Bom São João!


6/22/17

Fazer a monda nas redes sociais



Agnes Arabela Marques e Castelo Branco são como ervas daninhas, plantas que crescem fora de contexto e de forma indesejada. Competem pelo espaço mediático, pela luz, a nossa atenção é água para elas. Se permitirmos podem ofuscar as outras com os seus comportamentos exóticos e viçosos, assim dando por cumprida a sua missão na Terra. Existem diversas técnicas para lidar com estas pessoas daninhas: a monda manual é a melhor opção para eliminar as suas manifestações das redes sociais e do terreno pantanoso de alguns jornalecos online. Ó meus amores: indignem-se, soltem interjeições mas não façam eco, não partilhem estas florações patéticas. É tanta a mediocridade que assim trazemos para o nosso jardim! Se não podemos impedir que germinem evitemos a proliferação.Eduquemo-nos para ser sábios:ignoremos já que não podemos punir e muito menos educar estas formas de vida. Não lhes demos mais luz, por favor. Elas acabarão por secar, no seu contexto e morrer, sim?

6/21/17

A politiqueirada portuguesa é...


"Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?"

Vergílio Ferreira, “Conta Corrente II” (1982-1985)

6/15/17

Recrutamento



Um "prestigiado cliente" quer vendedores em part-time para trabalhar na Foz, no Porto. Solicita que tenham como habilitação MÍNIMA a licenciatura, experiência anterior em vendas é factor preferencial, também elevada resistência ao stress, sentido de responsabilidade e boa capacidade de comunicação. Eu até me candidatava porque é no Porto, aquela cidade que eu adoro, mas sei que não faltam por aí pessoas habilitadas com mestrados que anseiam por desafios profissionais gratificantes, tenho a certeza que era logo arredada na primeira varredura do recrutamento. Esqueci-me de mencionar que é para vender pipocas apesar de não pedirem que as pessoas saibam fazer pipocas, ah, pois é, devem dar formação no posto de trabalho.

6/2/17

Arnold Schwarzenegger contesta escolha deTrump sobre clima




O Arnold surpreendeu-me. Eu e o meu datado preconceito de que o cérebro dele mirrou na proporção em que os músculos incharam e de que não pode vir de lá grande coisa. Já devia ter vergonha. Trump a invocar que o Acordo de Paris é um mau negócio para os EUA e que o quer renegociar é hilário. Do que sei, o Acordo não passa de uma espécie de “acordo de cavalheiros” em que os países não se obrigam propriamente a agir, é uma declaração de intenções. A meu ver isso não lhe retira grandeza. A honra de cada Estado aderente seria então demonstrada, primeiro, pelo reconhecimento da necessidade de agir e depois, liberto do cumprimento forçado através de multas e outros mecanismos, pela escolha de fazer o que é melhor para o futuro dos seus cidadãos. Em verdade num mundo perfeito não deveriam ser precisas medidas punitivas para forçar o cumprimento. Quantas vezes as leis são violadas sem pejo e pagas as multas apenas para se seguir nova reincidência. Se a perfeição é uma quimera então aprendamos todos a fazer da imperfeição o combustível para alcançar aquela e não a chama em nos imolamos. Sair de um Acordo voluntário para o renegociar quando é mais fácil estar à mesa para o fazer do que pedir para me sentar nela de novo, não parece fazer grande sentido. A não ser que Trump não queira renegociar nada e antes fazer o que bem lhe apetece, ele e o seu círculo de amigalhaços investidores. Infelizmente as cidades mineiras dos EUA onde as pessoas entretêm os dias a matar o tempo olhando pela janela não serão ressuscitadas por esta sua decisão. Tenho realmente pena dessas pessoas. São apenas seres humanos como eu que só votaram em Trump porque sonhavam com uma mudança e nem sou capaz de as censurar. Mas a mudança não passa por reanimar cidades mineiras ou continuar a esventrar a terra em busca de petróleo e antes por reconverter todas as indústrias sujas e poluentes em alternativas mais limpas quer durante o processo de extracção quer durante a utilização. Isto é tão básico que nem era preciso admitir o aumento do aquecimento global ou dos gases de estufa para o tornar mais necessário ou mesmo urgente. Apostar nisso é que seria entregar a essas pessoas um suplemento de vida, um futuro para os que desesperam nessas zonas economicamente deprimidas e seus descendentes. Há 30 anos atrás a minha avó que nasceu em 1914 e que trabalhou nos campos e que conhecia bem o ciclo das estações e das colheitas já me dizia que o clima estava a mudar. Ela não leu relatórios científicos mas interpretou os sinais da Natureza. Se os tivesse lido teria percebido melhor. A evidência é, passados 30 anos, maior. Se a subida do nível dos oceanos é até certo ponto inevitável é, todavia, imperioso fazer o impossível para abrandar esse processo. Vivo numa zona de costa, a erosão já é muito grande em algumas zonas e muito provavelmente, aqui, e noutras cidades costeiras de todo o mundo, num futuro mais ou menos próximo, vai acontecer o que hoje acontece em Miami Beach onde a água do mar tomou conta das ruas e se gastam fortunas em obras para manter a cidade seca, uma solução que durará, segundo os engenheiros locais, 500 anos. Leram bem: 500 anos. Mas se até um actor de cinema que ganhou notoriedade à conta da sua massa muscular consegue fazer um filme mais limpo sobre o futuro, não tardará que todos estes fósseis que permanecem reféns do carvão e da indústria do petróleo sejam condenados à extinção. É a evolução natural das coisas. O assunto merecia uma argumentação mais apaixonada mas hoje não posso. Ouçam o Arnold. (Cliquem)

6/1/17

Armando Silva Carvalho - poemas



LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar metastável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

POEMA QUE FOI CURTO

Num poema curto a corrente do sangue corria
como um planeta levando no dorsal
a filosofia pública da hora,
e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,
real, absoluta.

Hoje o poema teima sempre em ser maior,
e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,
ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis
dum vulto.
É sempre cada vez mais longa a maratona,
e as insistentes palavras

parecem desistir enquanto avançam.

________________________________

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

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