5/17/17

Protestem contra o Correio da Manhã: escrevam para a ERC


Já vai talvez um pouco tarde mas convido os frequentadores do meu boteco a perderem algum tempo a escrever para a ERC e a repudiarem o sucedido: http://www.erc.pt/pt/balcao-virtual/formulario-de-participacoes
Para quem não sabe: anda aí um video desde domingo que foi filmado num autocarro, na cidade do Porto, e que mostra um par de jovens em actividade sexual. Diz-se que estão bêbados. Ao redor do espectáculo outros jovens de ambos os sexos assistem, comentam, filmam. O Correio da Manhã divulga assim: "Vejam o video".
Não foi a primeira nem vai ser a última vez. Televisões/jornais armados em guardiões da justiça; sites/blogues/páginas “caça-Likes” mascaradas de arautos da denúncia/linchamento dos perpetradores ou solidariedade para com a vítima. Transformam cada incidente num espectáculo (triste) mas só até ao próximo, pois passado o pico de interesse nunca mais se preocupam em apurar se se fez justiça. Nem interessa mencionar o crime da divulgação de imagens colhidas e divulgadas de forma ilícita de que ninguém quer saber, isso não se usa por cá. Todos juntos promovem uma imensa onda de curiosidade nojenta que alimenta a partilha e viralização de videos ou fotos de teor sensível. Alguns ainda têm engenho para recriar a situação em modo de entretenimento – “Vejam o vídeo!, refere o CM; um site fez uma aparentemente nobre colagem de fotos de alguns dos envolvidos e até se deu ao trabalho de traduzir um extenso texto para inglês, deve pensar que isto é o Eurofestival. O objectivo evidente é obter mais partilhas.
É curioso que não vejo nenhum destes jornais, TV’s, sites/blogues/páginas a publicar, antes da onda de festanças bem regadas a bebida, ou quando mais lhes parecesse próprio, colagens criativas e textos incisivos no sentido de alertar acéfalos e acéfalas ( termos utilizados na colagem) para beberem com moderação, vigiarem os seus comportamentos, manterem o decoro,- não conhecem sequer a palavra mesmo que quisessem usá-la, não saberiam - ou seja, a divertirem-se sem colocar em causa a sua própria dignidade ou a dos outros, ou ajudando os outros a conservá-la no meio da diversão, seja qual for o seu sexo dos envolvidos. Receiam ser chamados retrógrados se apelarem a alguma contenção, temem ter de lidar com aqueles que facilmente se enojam com o tom paternalista, moralista, salazarista do apelo e logo se dizem oprimidos! É mais fácil alinhar pelo discurso de que "faz parte", que a malta nova precisa de escapes, de se estragar, que é normal da juventude pisar o risco, que todos o fizemos, que é assim mesmo, que cada um é livre de viver a sua vida, carpe diem. Isto é que é simpático, ninguém quer exaltar o desejável exercício de algum bom senso que até parece estar conotado com peçonha. Mas quando estoira a bronca, ui, vamos lá mostrar solidariedade com a vítima, - mesmo que isso equivalha a encher os ecrãs do universo com a sua cara, penalizando-a - humilhar os abusadores, apelar a enxertos de porrada caso se avistem na curva e outras mobilizações.
Eu, que sou apenas, e agora, uma grande, velha e gorda bota de elástico, uma que já não enxerga as coisas como elas são certamente em virtude da minha miopia - e realmente não vi o video todo nem com muita atenção, - não sei dizer se os dois jovens do autocarro estavam com os copos, se se conheciam, se havia alguém a ser abusado ou se tinha havido consentimento, se são menores ou maiores.Mas muita gente tem muitas certezas pelo que admito que talvez saibam mais do que eu. Entendo que alguém deve averiguar isso, alguém de direito, e, caso haja matéria, que chame os dois à pedra, e/ou o autocarro inteiro, os pais, as mães, os amigos, a escola, em suma, investigue-se. Queremos todos um esclarecimento e um culpado ou vários: a sociedade, as marcas de cerveja, as drogas leves e pesadas, as faculdades, a família, a geringonça, o Benfica, a internet e as tecnologias, e, entretanto, não se esqueçam dos jovens. Enfim, que resolvam isso de forma limpa para nosso sossego porque estávamos todos tão felizes a amar pelos dois e agora estamos a detestar o mundo inteiro, ou pelo menos, um autocarro inteiro. A mim o que me incomoda sobretudo é ter visto que num autocarro cheio de gente ninguém foi capaz de se chegar à frente e dizer: “Ó malta, desculpem lá mas não é o lugar para tu estares com a língua na goela dele nem tu com a mão na rata dela, vamos lá a acabar com essa merda. “ É triste pensar que estes jovens "espectadores" não têm qualquer maturidade ou sensibilidade e que consideram normal uma cena que podiam e deviam ter evitado. É tudo giro, é tudo brincadeira, fazer, ver, filmar e partilhar, bué de fixe, mesmo.
Não estou muito alarmada mesmo assim. Nem sempre o futuro de uma pessoa se determina por um erro. Vão crescer, não? É o que espero. Nada os impedirá de serem excelentes seres humanos amanhã. Já vi cenas assim. Vi jovens que se não foram efectivamente vítimas se sentiram decerto como tal depois de uma noite de excessos, outros que festejaram as suas façanhas por dias e alguns que se esqueceram de tudo mal o álcool se apagou das veias porque não havia nada para ser mais recordado. Fui jovem e estudante académica e nada disto é novo. Não ser novo não equivale a dizer que seja bonito. Mas realmente novos são os telemóveis, as redes sociais e a imprensa rasca. Mas já nos anos 80 havia jovens a foder às sombra das capas negras contra as árvores e tapumes do Parque ou no chão, e gente a vomitar-se de cima abaixo pela noite dentro e gente a mijar do alto para o Mondego bexigas a transbordar de cerveja, e lixo de copos de plástico e garrafas por todo o lado, e triunfos e amargos de boca na noite seguinte, alguns que o tempo faria esquecer outros a deixarem marcas profundas. Mas havia também sonhos e ilusões. Tudo continua, agora ampliado pelas filmagens dos telemóveis que as pessoas depois partilham sem parar, umas porque são apenas parvas, outras porque sabem perfeitamente o que estão a fazer e não se coíbem, e, finalmente, por sites, páginas e blogues que se aproveitam disso com claros fins de lucro publicitário, e por fim pela comunicação social sem freio ou ética ou réstia de profissionalismo. Vamos lá escrever para a ERC. Vai dar multa e da próxima vez a cena vai repetir-se e a gente escreve novamente. Estejamos atentos porque o nosso papel é importante: não podemos vencê-los mas podemos combatê-los.

5/13/17

Salvador


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