Tsunami, o cão herói e os jogadores do Mundial


Tenho seguido a tragédia que se abateu sobre a Venezuela, sobretudo ouvindo os venezuelanos e lido o que escrevem sobre o seu infortúnio. Mas ontem li,  a correr,  um breve texto de um português em que se comparavam os cães de resgate com os futebolistas do Mundial considerando uns e outros como "heróis"! Trouxe de lá esta fotografia e uma pequena indignação. Há que escolher entre  a multitude das indignações diárias, a quais dar relevo. É melhor varrer para debaixo do tapete a maioria para evitar acabar consumida nestas fogueiras. Ainda hesitei se valeria a pena escrever três linhas  e meia sobre isto. O tempo é pouco, a vontade é suada. 

O significado do "herói" é comumente desvirtuado. Não vejo que seja difícil de entender, mas até parece. Na Antiguidade, especialmente na Grécia Antiga, um herói era alguém que reunia características muito diferentes das que hoje associamos ao termo. Na mitologia grega, muitos dos heróis mais famosos tinham origem divina ou nobre, como Hércules, Aquiles e Perseu. Tinham de realizar feitos extraordinários, como vencer monstros, derrotar inimigos poderosos ou cumprir missões quase impossíveis, no decurso das quais era evidente a grande coragem para enfrentar o perigo. Um herói era sempre extraordinário, com capacidades superiores às dos comuns mortais; podia ter uma origem nobre ou divina. Alcançando fama e honra, tornavam-se exemplos para a sociedade e seriam lembrados pelas suas ações. Muitos heróis eram de origem nobre ou tinham ligação aos deuses. Mas o elemento essencial era realizar feitos excecionais, demonstrando coragem e alcançando grande reconhecimento. 

Hoje, reconhecemos como um herói alguém que pratica atos de grande altruísmo, solidariedade e coragem em benefício dos outros, mesmo sem possuir força sobre-humana ou origem extraordinária. É por isso que bombeiros, profissionais de saúde, equipas de resgate e cães de busca são frequentemente vistos como heróis. Mas em relação a atletas de elite não creio que possamos falar de heróis por muita admiração que por eles tenhamos. Mas porque não? Alguém morre por isso? Não, ninguém, mas morre um pouco daquilo que ser herói significa. Isso para mim é óbvio, embora pareça não ser óbvio para muitos, desde logo para o autor desse texto que li.

Os cães de resgate, juntamente com os seus treinadores, participam em missões perigosas para encontrar pessoas desaparecidas ou soterradas após catástrofes naturais, incêndios ou desabamentos. O seu trabalho pode significar a diferença entre a vida e a morte e é realizado em situações de elevado risco e grande dedicação ao próximo. Neste caso, a palavra "herói" é plenamente justificada, porque existe um ato de coragem e de serviço à comunidade.

Já os futebolistas, tenham o bom senso de os julgar por aquilo que são. Os futebolistas são atletas talentosos que proporcionam entretenimento, emoção e inspiração a milhões de pessoas. O seu esforço, disciplina e dedicação são dignos de admiração e respeito. No entanto, jogar futebol, mesmo ao mais alto nível, faz parte da sua profissão e não implica, por si só, colocar a própria vida em risco para salvar outras pessoas. Ganhar jogos, conquistar títulos ou representar um país com orgulho são feitos importantes, mas não posso vê-los como atos heroicos no verdadeiro sentido da palavra.

Há uma tendência generalizada para chamar de "herói" a qualquer pessoa que se destaque, o que contribui para desvalorizar aqueles que realizam ações extraordinárias em benefício dos outros. Bombeiros, profissionais de saúde, equipas de resgate e cães treinados para salvar vidas enfrentam perigos reais e atuam movidos pelo dever de proteger os outros. Custa muito usar as palavras com propriedade?

Os futebolistas merecem o meu reconhecimento pelo seu talento. Mas, por favor,  não os coloquem no mesmo nível dos cães de resgate e seus treinadores, ou de outras pessoas que arriscam a vida para salvar vidas humanas. São profissionais de excelência, ídolos de multidões mas para se ser herói é preciso mais do que isso. 

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