O partido republicano morreu - Por Abimael Acosta


O PARTIDO REPUBLICANO MORREU: MAGA SUBSTITUIU-O POR UM CULTO À CRUELDADE QUE DONALD TRUMP REPRESENTA
Por Abimael Acosta

Esta manhã, enquanto lia os comentários de alguns autodenominados seguidores da MAGA nas redes sociais sobre o assassinato de Alex Pretti, entendi com absoluta clareza algo que já se vinha gestando há anos: MAGA não é apenas um movimento político, é uma cultura de crueldade. Um espaço moralmente devastado onde a morte de um ser humano se torna motivo de zoação, onde a dor dos outros provoca risos, memes e celebrações, e onde a desumanização já não é uma consequência, mas um objetivo. Não se trata de casos isolados nem de "maçãs podres". É o reflexo de um país político paralelo, moldado por Donald Trump, onde a empatia é considerada fraqueza e a violência simbólica — e por vezes real — é aplaudida como coragem.
O Partido Republicano que outrora foi definido pelo conservadorismo fiscal, o respeito pela Constituição, o mercado livre, a lei e a ordem, a fé cristã e o patriotismo institucional já não existe. Foi substituído por outra coisa: um movimento pessoal, autoritário e profundamente cruel que gira em torno de um homem, Donald Trump, e de uma ideologia conhecida como MAGA.
O que hoje se chama “Partido Republicano” é, na verdade, um partido sequestrado. Não responde a princípios. Não responde a ideias. Não responde à nação. Responda a um líder.
E isso não é conservadorismo.
Isso é culto.
Durante décadas, os republicanos se apresentaram como defensores do governo limitado, responsabilidade fiscal, moral pública, liderança internacional dos EUA e respeito pelas instituições democráticas. A MAGA demoliu tudo isso, peça por peça, sem remorsos e sem disfarce.
Donald Trump transformou o partido em uma máquina de obediência pessoal. Quem não se submete, é expulso. Quem questiona é destruído. Quem fala a verdade sobre eleições, tribunais ou violência política é marcado como traidor. Purga interna tornou-se método. Intimidação, estratégia. Silêncio, requisito de sobrevivência.
Hoje não importa a Constituição. Não importa a separação de poderes. Não importa a democracia americana. Não importa o estado de direito.
Só importa uma coisa: celebrar a crueldade e proteger Trump.
MAGA não apenas normalizou o extremismo político; transformou a crueldade em ideologia, em identidade e em espetáculo. Separar crianças migrantes dos pais. Zombar de pessoas deficientes. Chamar os imigrantes de “animais” Celebrar deportações em massa como eventos esportivos. Justificar o assalto ao Capitólio. Ameaçar juízes, promotores e jornalistas. Rindo do sofrimento alheio como sinal de força.
Nada disso são excessos isolados.
É o coração do movimento.
Trump não inventou essa crueldade, mas deu-lhe rosto, microfone e permissão. Ele pôs palavras em ódios que estavam escondidos, agachados, reprimidos pela vergonha social. Abriu a porta do armário moral de uma parte do país e disse-lhes que não tinham mais que esconder, que podiam odiar em público, desprezar sem culpa e celebrar a dor alheia sem consequências. MAGA é, em grande medida, essa crueldade que sempre existiu, mas que agora se sente legitimada, protegida e até orgulhosa.
Trump ensinou que humilhar é liderança. Que mentir é estratégia. Que destruir reputações, instituições e vidas é uma virtude política. E milhões o aplaudem como se fosse um feito patriótico.
MAGA também sequestrou e esvaziou de conteúdo o conceito de patriotismo. Antigamente, o patriotismo significava defender a nação, as suas instituições, a sua constituição e o seu povo. Hoje, para MAGA, ser patriota significa obedecer a Trump, justificar Trump, mentir por Trump e atacar quem não se ajoelhar diante de Trump.
A bandeira virou decoração de campanha.
A Constituição é um estorvo legal.
Os veteranos, adereços eleitorais.
A nação é um detalhe secundário.
A América deixou de ser o centro moral e político. Trump ocupa esse lugar.
Isso não é amor à pátria.
É idolatria política.
O velho Partido Republicano se autodenominava o partido da lei e da ordem. MAGA atacou o FBI. MAGA atacou os juízes. MAGA atacou o Congresso. MAGA atacou o processo eleitoral. MAGA justificou a violência de 6 de janeiro. MAGA glorificou aqueles que tentaram anular o voto de milhões de cidadãos.
A lei só importa se proteger Trump.
A ordem só importa se beneficiar Trump.
Quando a justiça se aproxima do seu líder, o movimento não a respeita: desacredita-a, ameaça e tenta destruí-la.
Qualquer coerência moral também acabou. Um homem acusado de agressão sexual, fraude, corrupção, extorsão, manipulação eleitoral e mentiras sistemáticas foi elevado a “instrumento de Deus” por setores evangélicos que antes pregavam pureza, humildade e retidão.
A fé tornou-se um escudo político.
Jesus em consignação publicitária.
A Bíblia em acessório para fotos.
Não há valores cristãos no culto da mentira, ódio, vingança ou crueldade.
Há poder.
E há medo.
A verdade é simples, brutal e impossível de continuar maquilhando: o Partido Republicano já não é um partido político tradicional. É um movimento focado em um só homem. Um culto com estrutura eleitoral. Uma organização que sacrificou a sua história, ideologia e dignidade pela sobrevivência política do seu líder.
E enquanto os republicanos que ainda se consideram conservadores, constitucionalistas ou patriotas continuarem calando por medo, por conveniência ou por cálculo eleitoral, a MAGA continuará destruindo o pouco que resta da sua identidade histórica.
É hora de escolher.
Ou defendem a nação.
Ou defendem Trump.
As duas coisas já não são compatíveis.
A história não lembrará com respeito aqueles que se ajoelharam perante o autoritarismo envolvido em bandeiras e bíblias. Lembrar-se-á de quem teve a coragem de dizer basta quando ainda era possível travar o colapso moral de um dos partidos mais antigos dos EUA.
O que resta do Partido Republicano de antes, aqueles que ainda acreditam na Constituição, na democracia, na dignidade humana e num patriotismo que não precisa de se render a um líder, cabe-lhes uma decisão histórica: continuar a ser cúmplices silenciosos ou tornar-se o muro que detém esta deriva autoritária.
Prender Trump e MAGA não é trair o Partido Republicano.
É o último ato possível para tentar salvá-lo.

(Texto e montagem fotográfica retirados da página Facebook do autor)

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