A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AS SUAS SOMBRAS - por António Guerreiro
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AS SUAS SOMBRAS
"A expansão das inteligências artificiais e a proliferação dos regimes hiperautoritários são dois fenómenos que se alimentam reciprocamente.
António Guerreiro, Público, 2/01/2026
Slop: esta palavra inglesa que significa “lavadura”, “comida para porcos” (explicam Claudia Carvalho Silva e Rogério Casanova: a primeira, num longo e bem informado artigo, e o segundo numa excelente crónica, ambos publicados neste jornal), é a palavra do ano eleita tanto pelo dicionário Merriam-Webster como pela revista The Economist.
A palavra slop designa então o fluxo de produções de “merda”, criadas pela inteligência artificial (IA), isto é, o processo de enshittification, como lhe chamou o jornalista canadiano Cory Doctorow, que alimenta a Internet. A slop de IA cria figuras e situações falsas, com conteúdos cómicos, divertidos, grotescos, paródicos, inverosímeis e tudo o mais que possamos imaginar, ao serviço do entretenimento ou de falsidades usadas muitas vezes no combate político e na propaganda como arma de guerra.
Sabemos muito bem, pelo menos desde que em 1979 Jean-François Lyotard publicou La Condition postmoderne, um “relatório” sobre o modo de produção e circulação do saber e do conhecimento na época da comunicação generalizada, que já não vivemos na época das puras Luzes que nos iluminaram desde o final do século XVIII.
Lyotard declarou o óbito das grandes narrativas modernas de legitimação. Mas da evidência de que já não vivemos na época das puras Luzes não se deduziu imediatamente que tínhamos entrado na época das Sombras. Um primeiro aviso de que elas estavam a ganhar forma foi-nos dado pela adesão dos poderosos empresários e empreendedores de Silicon Valley às teses de um neo-reaccionário inglês, chamado Nick Land, que propôs o Dark Enlightenment, o Iluminismo obscuro, das trevas. Será isso suficiente para se poder falar de um tecnofascismo? Será que uma figura como Peter Thiel, um dos fundadores da Palantir Technologies, é um dos autores-chave do tecnofascismo, como foi apontado mesmo antes de ele ter declarado numa entrevista que não acreditava na compatibilidade entre capitalismo e democracia?
A categoria do tecnofascismo tem a sua história, mas nunca se revelou muito credível, não só porque “fascismo” se tornou quase um significante flutuante (isto é, uma palavra que serve para designar tanta coisa que não tem um significado preciso), mas também porque esse termo serviu para designar um autoritarismo forte, vertical e bem visível, engendrado por uma “gramática” política do século XX, enquanto agora se assiste à ascensão de uma nova servidão com um sabor doce. Mas sem dúvida que a IA é marcada por um enviesamento ideológico, que a palavra slop não apreende. Isso mesmo foi sublinhado por um estudo da Unesco sobre os grandes modelos de linguagem (LLM) da Meta e da OpenAI que concluía isto: em pelo menos 30% dos textos gerados, as mulheres são apresentadas como manequins, criadas ou prostitutas. Como estes clichés circulam com muita frequência na rede, eles ganham uma vida amplificada nos conteúdos gerados pela IA e, desse modo, são performativamente reforçados.
A crítica à IA e as desconfianças e medos que ela suscita não se devem apenas aos processos de enshittification. A IA desencadeia sobretudo um reflexo humanista que consiste em procurar um território de excepção para o humano a que ela não consegue aceder, por mais inteligente que pareça. O medo de que alguma vez consiga lá chegar pode ser ilustrado por esta afirmação do neurocientista António Damásio, numa entrevista publicada na revista do Expresso: “Se a máquina ganhar autonomia, o futuro é aterrador”.
A ideia de que a IA promove um tecnofascismo ganha força na descrição, análise e especulação que o filósofo francês Frédéric Neyrat faz num livro recentemente publicado, Traumachine. Intelligence Artificielle et Techno-fascisme.
Neyrat não se entretém a recusar a tecnologia de IA em nome de uma humanidade “natural”, e também só utiliza a palavra “fascismo” depois de subtrair a palavra a um exclusivo sentido histórico, mostrando que há uma forma de fascismo que pode vir da produção tecnológica. Ele encontra os sinais da fascização no modo como um dos efeitos da IA consiste em pôr ordem no pensamento, em gerar sempre a média, sem jamais a exceder. Tornar médio o pensamento e impedir a formação de pensamentos livres é uma via em direcção ao fascismo.
Assim entendida, a IA impede de pensar, atinge a nossa subjectividade, o nosso cérebro, automatiza as nossas decisões, pratica um cognicídio. Está em jogo uma redefinição total da sociedade. No extremo do processo que Neyrat analisa e descreve, recorrendo a fortes conhecimentos técnicos sobre o funcionamento da IA generativa (que lhe permite explicar, por exemplo, que a produção de textos pelas máquinas da IA não segue de modo nenhum as leis da linguagem), está esta conclusão: a expansão das inteligências artificiais e a proliferação dos regimes hiperautoritários são dois fenómenos que se alimentam reciprocamente."
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