02/01/20

Quando me dizem que vão comprar um cão



O Natal é um tempo esquisito. Pessoas que passam o ano inteiro sem telefonar resolvem por esta altura do ano que é agora ou nunca que devem comunicar que ainda estão vivas. A maioria, percebe-se, chega aos nossos ouvidos com a pressa de quem está a seguir a lista de contactos por ordem alfabética, ansioso por chegar a Z. Não se demoram muito. Se começamos a desenrolar o fio à meada das memórias, a perguntar por família e amigos, cortam-nos a palavra. Outras fazem o resumo minucioso da vida que passou desde o último telefonema, no ano transacto, como se desse ritual dependesse a manutenção da nossa amizade por um fio.

O Joaquim estava sem pressa nenhuma. O ano tinha sido pródigo em acontecimentos enormes que não lhe cabiam na voz.  E qual deles o mais importante! Foi-me enterrando a cabeça em novidades e eu ouvindo, de caneca de chá de rooibos a fumegar na mão. O relógio no canto direito do laptop corria. Concluí logo que as minhas histórias vencedoras não lhe interessariam, não vinha a isso. E quanto a coisas miseráveis não seria a ele que lhas iria confidenciar. Depois, já  sem vontade de lhe contar o que quer que fosse, entendi que deixá-lo abrir os cordões às cordas vocais era até um favor que lhe fazia. Era evidente que o homem precisava de desabafar, mas porquê escolher-me: nunca fomos realmente próximos. Talvez fosse a única que em vésperas festivas lhe estava a dar espaço auditivo: afinal, quem tem muitos conhecidos, também cedo começa a ponderar um esquema para acabar com a ladainha das Boas Festas, reunindo na manga algumas desculpas plausíveis: tenho a chaleira a assobiar ao lume, a água do banho a correr, estão a tocar à porta, abriu o semáforo, o cão soltou-se, etc. Quando ele se desligou finalmente ocorreu-me que talvez o facto de não sermos muito próximos me tornasse a confidente perfeita. Não poderia fazer grandes juízos de valor, não teria  argumentos certeiros. Questionando-o ouviria, certamente, mais do mesmo. O que poderia eu fazer senão escutar?

Um dos acontecimentos relatados pelo Joaquim era de monta: o recente divórcio. Engatado no volume de novidades em modo de relato futebolístico, fiquei sem entender se cabia nas boas ou nas más. Os divórcios são coisa comum entre amigos e conhecidos meus pelo que o meu espanto tem dificuldade em se verbalizar, não passa, a maioria das vezes, de uma constatação morna como quando se lê que morreu um artista cuja obra vagamente se conhece. Não podia desconfiar de nada. Joaquim e a mulher não têm Facebook e creio que até  têm horror a quem tem. Assim, impedida de espiolhar a sua vida virtual, - não que isso me interessasse verdadeiramente ou pudesse, quiçá, fornecer alguma pista - sempre me restou esperar pelos telefonemas do Joaquim, ano após ano, para saber coisas, as coisas que ele escolhia contar-me. É verdade: não estou mais em contacto com a maioria dos meus amigos advogados. É um circuito que deixei de frequentar cedo. Eles não eram particularmente divertidos, não sinto que tenha perdido grande coisa. Assim, pouco ou nada conhecia da vida do ex-casal para que pudesse surpreender-me, pelo que me limitei a constatar: "Ah, sim?"

O Joaquim vive, desde sempre, em Lisboa. Não sei se nasceu lá. Era amigo de um grande amigo e foi assim que o conheci há muitos anos. Apenas vi a mulher dele uma vez, quando namoravam. Voltei a vê-la, depois, no casamento. Não era bonita, não era sexy; não era rica. Do que me parecia, também não seria uma "fada do lar", era, sobretudo, inteligente, grande QI, grandes ambições profissionais. Talvez tivessem vivido um romance sapiossexual. Tentei, em vão, lembrar-me do nome dela. Fiquei até ao fim do telefonema à espera que Joaquim a nomeasse, mas não. O nome continua distante da minha memória. Agora ele e a sua mulher tinham entendido civilizadamente que o amor chegara ao fim. Era normal, disse ele, com cada um a puxar para o seu lado mas pouco em conjunto, cada um mais apaixonado pelas suas vocações, mais casados com os respectivos trabalhos, ela a investigação e ele a advocacia, do que um com o outro. Como pouco ou nada sabia deles, restava-me concordar com o Joaquim: "Por vezes é o melhor a fazer". Assim era, pois se até continuavam amigos! E eu sempre, ámen, sim senhora, ora bem.



E então, entre a novidade do divórcio e a renovada constatação de que a mãezinha continua rija como ferro, a ir ao ginásio e a dar aulas no colégio, veio a grande revelação. O Joaquim ia comprar um cão em Janeiro e parecia  mais contente com isso do que pesaroso com o divórcio. Sempre tinha desejado ter um, disse-me, entusiasmado, várias vezes. Em criança a mãezinha não consentira porque, conhecendo o filho,  já sabia que sobraria trabalho para ela. (E também tinha medo de ser mordida.) Depois, talvez a esposa também não tivesse sido favorável à presença de uma fábrica de cocó e pelo em casa, pensei eu.

Tentava imaginar mas não conseguia antever se o passo futuro do meu amigo Joaquim seria positivo ou se fazia adivinhar sarilhos para o cão. Inclinava-me para o desastre, por mera intuição feminina. Então comecei por lhe dizer, com algum cuidado, que os cães são animais exigentes. Ele já sabia. Ele já sabia tudo. O Joaquim é uma daquelas pessoas que sabe sempre tudo sobre todas as coisas e eu já me tinha esquecido desse seu traço de carácter. Em teoria ele já tinha um doutoramento na matéria canina. Irritei-me. Ora, agora era a vez do Joaquim escutar. O Davis, a Nucha e a Luna permitiram-me alguma experiência e em nome destes animais de estimação, tomava agora a defesa do bicho hipotético que haveria se ser comprado pelo Joaquim, mesmo sem ele me ter passado procuração para tanto. Estaria o Joaquim preparado para passear e deixar o seu cão explorar e brincar na relva, fizesse chuva ou sol, estivesse ou não de bom humor, com uma saúde de ferro ou muito constipado, sozinho ou acompanhado? É que os passeios não são apenas, como tanto se diz, requisitos"higiénicos", ou passeios lúdicos. São momentos indispensáveis à saúde e bem-estar do animal e em que se consolida o laço entre dono e cão!

A acreditar no que me conta anualmente, o Joaquim trabalha que se farta, sai cedo, regressa tarde. É, realmente, um viciado no trabalho. Ainda agora começou a viver sozinho, e, quem sabe, a sentir-se (pouco) sozinho. Como há-de passar-lhe pela cabeça que um cão, o mais sociável dos animais,  não gostará  de viver assim tão sozinho toda a semana? E porque não antes optar por um gato, muito mais autónomo, Joaquim? Ou dois gatos? Parece que a mulher ficou com a casa e ele arranjou um apartamento temporário antes de decidir por algo que lhe agrade mesmo. Perguntei, meio a brincar, se tencionava levar para casa o maior cão que encontrasse: para um grande amor só um cão enorme, mesmo se vive num T1. Que tinha uma suspeita de que isto dos cães é como os automóveis, disse, rindo. Ele ignorou a piada ou desaprovou-a com o seu silêncio. E teria o apartamento uma boa varanda? Seria um R/C com acesso a jardim, quintal? Existiriam parques ou zonas verdes próximo aonde pudesse ir passear com o seu cão? E a  decoração do apartamento seria "à prova de cão"? Rondariam perigos, coisas que o bicho pudesse engolir? Estava o Joaquim preparado para o pelo omnipresente no chão, nos tapetes? E na roupa? Até na toga! É que todos os cães largam pelo, uns mais do que outros, em especial na Primavera e no Outono. E quanto a limpar o pelo do cão? Preparado para escovar o cão e aspirar mais vezes do que imagina? E seria alérgico? Imaginava o Joaquim de balde e esfregona na mão. Como seria ele de nariz? Apeteceu-me avisar que  alguns azares mal cheirosos iriam inevitavelmente acontecer. E que ficar à espera da chegada da empregada não seria opção. Mas contive-me. Não esquecer que é necessário colocar ração no comedouro diariamente, não é deixar um balde de ração e esperar que o cão saiba controlar a sua dieta. E não esquecer de mudar a água. E dar banho? Isso pode ser uma grande aventura!

Mas, ...e quando teria sido a última vez que o Joaquim ensinou alguma coisa a alguém? Teria corrido bem? Ou a sua impaciência não aguentou? Imaginar-se-ia agora a ensinar o cachorro  a conviver com ele, a não subir para o sofá ou para a cama, a andar à trela, etc? Não seria melhor ponderar a compra de um cão já adulto e ensinado? Ou até de um gato? E um gato, Joaquim? Já pensaste num gato? O Joaquim e a mulher nem tinham tido filhos. Quase apostaria que por opção. Porque a carreira era tudo. E agora queria meter um cãozinho  em casa!  Lembrei-me e disse-lhe o que  Letria dizia: "Ter um cão é como ter um filho de três anos que nunca cresce." E quanto a fazer cedências? É possível que o Joaquim até pense que sim, que vai ser capaz, mas não. Nós somos animais de hábitos. Uma vez habituados a um estilo de vida dificilmente o queremos alterar. É que o seu novo amigo iria exigir dele tempo, disponibilidade e dedicação. Seria Joaquim capaz de prescindir de alguma da sua independência e liberdade? Aquelas escapadinhas de fim-de-semana de que me falou, as viagens a cidades giras para retemperar forças, seriam doravante mais complicadas. Teria de encontrar quem ficasse com o animal. Quanto a isso, podia esquecer  a mãe, ou mesmo a "amiga" ex... e o Joaquim é filho único. Teria de procurar um serviço onde o hospedar, mas, mesmo assim, um dono afectuoso é sempre um dono preocupado. Levá-lo consigo seria sempre uma opção mas nem todos os hotéis aceitam animais.

E ainda que treinado na arte da defesa em tribunal, estaria Joaquim preparado para defender o seu animal dos vizinhos que não gostam de animais, - que sempre os há - ainda que ele não faça nada que não seja o normal: ladrar quando ele chegar, como se se tivessem visto pela última vez há 10 anos, ganir quando ele parte, como se fosse morrer de solidão, em cinco minutos,  nem que o Joaquim só tenha ido ao quiosque em frente a casa, comprar cigarros? ( Não sei se ele fuma.)

Por último, ainda tentei seriamente motivá-lo para adoptar em vez de comprar um cão. Mas o Joaquim tem certezas inabaláveis sobre isso. Se comprar, vai saber, com alguma antecipação, como será o cão no futuro: o seu tamanho e os seus traços comportamentais. Se adoptar um cachorro sem raça definida, não. Tentei, em vão, demonstrar que nunca há certezas, que podia adoptar um adulto, já ensinado, de proveniência conhecida, e que resgatar um cão à dura existência num abrigo era um acto de um amor. Mas o Joaquim "tinha lido uns livros".  O dinheiro que vai comprar o cão também lhe vai comprar todo o conforto, sei que o canídeo do Joaquim vai ter tudo do bom e do melhor que o dinheiro puder comprar. Quanto ao resto é que já não meto as mãos no fogo. Mas há anos que não vejo o Joaquim e quando almoçámos no Chiado pela última vez, sem tempo contado, ele era uma outra pessoa: ainda era solteiro, não pensava em casar daí a poucos meses e muito menos queria ter um cão. (E se a futura namorada não gostar de cães? E se? E se? As questões continuavam a surgir-me mas algumas eu já não pude formular.)

Quando o telefonema se encaminhou para o fim, creio que o Joaquim já nem sabia ao certo porque razão me tinha ligado. Se para me desejar Boas Festas e um Próspero Ano Novo, se para me comprar um canídeo. Pelo tom da sua voz à despedida parecia estar até com vontade de me mandar dar banho ao cão. Fiquei com a impressão de que no próximo Natal enviará antes uma mensagem escrita. Mas antes disso irei eu ligar para saber da sua nova vida ao lado do amigo de quatro patas. Será que o Joaquim vai chamar-lhe Lex?


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