11/2/18

Cavalos-marinhos em risco de extinção na ria Formosa


Por © Hans Hillewaert, CC BY-SA 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22106851

A diminuição alarmante da população de cavalos-marinhos na Ria Formosa, Algarve, é notícia no Expresso: em seis anos desapareceram quase 600 mil. Fui apanhada de surpresa já que tinha na ideia títulos quer referiam números redondos de presença daquela espécie na ria, talvez o único local português onde possam viver e reproduzir-se bem. A Ria Formosa é uma região de sapal, que se estende pelos concelhos de Loulé, Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António, abrangendo uma área de cerca de 18 mil e 400 hectares ao longo de 60 quilómetros, desde o rio Ancão até à praia da Manta Rota. É aí que se encontram ervas-marinhas que constituem verdadeiros prados submarinos que fornecem abrigo, alimento e locais de reprodução aos cavalos-marinhos. De acordo com uma descoberta de Janelle Curtis em 2001-2002, em Portugal viveria uma das maiores colónias do mundo, com números superiores aos medidos na Austrália, África do Sul e Filipinas.

Enigmáticos na forma e misteriosos no comportamento, estes animais capturam facilmente a nossa atenção, supreendem-nos pelas mais variadas características: é o único peixe com a cabeça perpendicular ao corpo. É um peixe apesar de não ter escamas. É o macho a dar à luz, 100 a 200 juvenis, fertilizando internamente os óvulos que a fêmea deposita numa bolsa na base da sua cauda. Em algumas espécies, os dois animais têm uma relação monogâmica ao longo do ciclo reprodutor, exibem ritos de acasalamento, cumprimentos diários, fazem natação sincronizada, entrelaçando a cauda e nadando nesse peculiar "abraço". Depois de 2 semanas a 30 dias de gestação, dá-se o parto: o macho tem verdadeiras contrações e expele os pequenos seres. Mas poucos sobrevivem. Faz um descanso de meia hora e está pronto para acasalar novamente! Os cavalos-marinhos não têm estômago ou dentes, sugam as presas através do focinho tubular. O que não se aproveita é expelido por orifícios que se situam atrás das orelhas! São predadores vorazes de comida viva e em movimento: esperam até que a presa passe por perto o suficiente para ser sugada. Cada olho do cavalo-marinho move-se independentemente permitindo que o cavalo-marinho aproveite ao máximo a sua área de busca: crustáceos pequenos, peixes, etc, são o menu de eleição. Tem alguns predadores, como pássaros, caranguejos e até ratos, sendo a camuflagem a sua melhor defesa. O homem é o seu inimigo maior.

O biólogo Miguel Correia, referido pelo Expresso, está envolvido no Projecto Seahorse, e já em 2017 referia que eles estavam em declínio: "Conseguimos identificar algumas causas, quer naturais, quer antropogénicas. Um dos grandes problemas é a degradação ambiental, do habitat de fundo, o desaparecimento de macroalgas às quais os cavalos-marinhos se agarram e que precisam para estabelecer as suas colónias". Na Europa, e pelo mundo, tem sido detectada uma diminuição de pradarias marinhas fundamentais para fixação dos cavalos-marinhos. É, pelo menos tranquilizador, saber que se estuda o problema: Cavalos-marinhos em risco na Ria Formosa?, é um estudo desenvolvido pelo Grupo de Investigação em Biologia Pesqueira e Hidroecologia (CCMAR, Universidade do Algarve) em parceria com o Project Seahorse (University of British Columbia e Zoological Society London). Este é um projeto que pretende determinar as causas do declínio das populações e contribuir para elaboração de um plano de recuperação e conservação destas duas espécies na Ria Formosa. O que faz exactamente? Dedica-se a investigar as causas determinantes do declínio acentuado nos efectivos de H. hippocampus e de H. guttulatus , espécies protegidas, da Ria Formosa; promove acções de divulgação e contribui para a elaboração de um plano de recuperação e de conservação das duas espécies, testa a eficácia de unidades artificiais de abrigo e investiga a eventual deslocação dos indivíduos para habitats alternativos. Este projecto venceu a 1ª edição do "Inaqua - Fundo de Conservação do Oceanário de Lisboa e National Geographic Channel".

Mas a maior ameaça à sobrevivência do cavalo-marinho no mundo é a sua captura para venda no mercado asiático da medicina tradicional oriental. A par do ginseng é o ingrediente mais solicitado. Os chineses acreditam  que  os cavalos-marinhos têm propriedades doces e quentes e estão associados aos meridianos do fígado e do rim, de acordo com os preceitos da medicina tradicional chinesa( MTC). Usam-no para tratar a asma, infecções na garganta, insónia e dor abdominal. Também pode ser aplicado na pele para tratar infecções e feridas na pele. Acreditam também que o cavalo-marinho seja um poderoso afrodisíaco, para aumentar a potência sexual. Para a impotência, alguns praticantes da MTC recomendam uma mistura de 3 gramas de cavalo-marinho em pó, tomado três vezes ao dia com vinho de arroz. Cavalo-marinho em pó também pode ser aplicado externamente.

É inimaginável o volume de cavalos-marinhos capturado no mundo e consumido na China. O aumento na procura deu-se a partir da melhoria da economia chinesa que alargou o consumo a não privilegiados. Desconhecia que o problema da captura ilegal para abastecimento do mercado asiático já se verificava em Portugal! Mas é real: "Os rumores de que havia captura ilegal para o mercado asiático, de centenas de indivíduos diariamente, e de que se vendiam cavalos-marinhos secos a cinco e 10 euros a unidade já eram há muito uma certeza. Mas o pior é que essa prática continua", relata Miguel Correia, na citada notícia do Expresso.

O início da prática pode ter começado há cerca de três anos: os chineses vieram à caça de pepinos do mar, que acreditam ter propriedades terapêuticas, e descobriram a existência de cavalos-marinhos na ria, muito mais rentáveis que os pepinos. Compradores chineses e intermediários espanhóis frequentam a doca de Olhão e os pescadores portugueses são seduzidos pelo lucro fácil que é prometido através da captura da espécie de comercialização proibida. Na pesca furtiva, por arrasto de vara, dizimam não só a comunidade mas também o habitat, as macroalgas, as pradarias, onde os animais se prendem pelas caudas. As autoridades não estão a dormir: em 2107 foi notícia a família portuguesa, de Olhão, apanhada em flagrante delito a traficar cavalos-marinhos a um casal espanhol, de Cádis, região a sul de Espanha.Os cinco detidos estão acusados do crime "contra a fauna e flora e tráfico ilegal de espécies ameaçadas". Mas estão longe de ser eficazes. A fiscalização da Ria cabe ao ICNF -Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, e Polícia Marítima, que não têm os meios necessários e suficientes para fazer a devida vigilância: a equipa existente é reduzida, os infractores são hábeis, as espécies protegidas da ria, estão, de facto, desprotegidas.

Uma coisa é certa: a população de cavalos-marinhos, à semelhança de tantas outras espécies, está em decréscimo no mundo inteiro e Portugal não escapa à tendência. Em resumo, o que é importante saber?

Que os cavalos-marinhos necessitam da nossa protecção

- biologicamente são seres muito interessantes e não apenas devido à sua peculiar forma de reprodução, algumas espécies são monogâmicas;
- ecologicamente, eles são predadores no seu eco-sistema, contribuem para o seu equilibrio (peixes do fundo marinho);
- são fonte de rendimento para certas comunidades de pescadores em muitas regiões do mundo.

Que existem ameaças muito variadas à sobrevivência dos cavalos-marinhos

- a pesca massiva, a sobre-exploração, e a pesca irregrada em que se capturam cavalos-marinhos pequenos, ou fêmeas com os ovos dentro ou os machos com os ovos na bolsa, em todos estes casos deviam ser deitados ao mar para permitir o crescimento e a reprodução; 
- a destruição do seu habitat, nomeadamente através de pesca de arrasto que destrói as pradarias, o fundeamento descontrolado de embarcações, cujas âncoras criam zonas vazias de vegetação marinha, a extração de areia nas áreas onde vivem, as dragagens, a presença de actividades nas mesmas águas, por exemplo, aquaculturas, os mergulhos turísticos de avistamento que sinalizam as colónias para os infractores;
- factores de pressão de origem humana em virtude das espécies viverem perto da costa, sofrendo as implicações da vida humana costeira, a poluição, por exemplo, o fácil acesso ao seu habitat;
- o excesso de embarcações de observação da fauna ou desportivas causa stress aos animais alterando o seu batimento opercular (vital para a obtenção de oxigénio)
- a sua elevada procura no mercado asiático da medicina tradicional chinesa 
- outra procura: fornecimento para aquários ou secos para decoração ou souvenirs, artesanato como pisa-papéis, chaveiros, e também para a gastronomia, estando à venda como petisco frito e estaladiço, em muitas ruas de Beijing, etc. 
- 14 das 42 especies de cavalos marinhos são consideradas vulneráveis. Não há muita informação sobre a espécie, poucos cientistas se dedicam ao seu estudo.

Que é importante proteger os cavalos-marinhos!

- através do estabelecimento de proteções comerciais globais sob a CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção) e trabalho com os governos para garantir que seu comércio não coloque em causa a  sustentabilidade da espécie; 
- através de políticas nacionais e internacionais de conservação da espécie;
- mediante acções de sensibilização e informação do cidadão para o valor da espécie, da sua sobrevivência; 
- promovendo a divulgação da informação sobre como agir quando se avista um cavalo-marinho: não se deve tocar no animal pois isso danifica a camada protectora, não se deve agitar o fundo marinho em demasia, não se deve pegar o animal para fotografar ou usar flash aquático repetidamente,  deve ser-se cuidadoso nos mergulhos para não danificar as pradarias. Existe até um código de conduta elaborado para os cavalos-marinhos pigmeu , por exemplo;
- através da recolha e partilha de informação. Ver organizações como a The Seahorse Trust, de Kealn Doyle, Sealife Trust Seahorse Campaign, Project Seahorse, etc.




Para finalizar, duas propostas:

1. A leitura de Seahorses under siege, do blogue de vida marinha The Liquid Earth

2. O visionamento do documentário de 2011,   Seahorseman (Youtube) ou aqui, no GentNews (Seahorseman), com menos publicidade. Ficha técnica, aqui.

Seahorse Man é um documentário bem interessante narrado pelo carismático John Hurt. Filmado em  Connemara, Dublin, Indonésia e China , tem 57 minutos e dá-nos a conhecer o biólogo marinho irlandês Kealan Doyle a sua tentativa obstinada de salvar o cavalo-marinho da extinção.  Doyle, conhecido por Seahorse man, enfrenta dificuldades várias ao tentar criar cavalos-marinhos em cativeiro, acaba por entrar no comércio de peixes tropicais e assim ter fundos para a sua pesquisa. Em 2010 consegue, finalmente, um sistema que permite criar os animais. Mas o mercado chinês (China, Taiwan e Hong-Kong) é o que é preciso conquistar. A solução que encontra para travar a extinção da espécie é abastecer o mercado e garantir a subsistência dos pescadores: trata-se fazer conservação prática. Viajamos com ele  até à Indonésia, vemos como se pesca, como se vende, como se lucra, degradando o ambiente para enriquecer intermediários. A importância da pesca para a sobrevivência das comunidades piscatórias contrasta com o alarme pela diminuição de cavalos marinhos pescados. Na China, torna-se clara a dimensão do peso cultural da captura da espécie e a crença nas propriedades medicinais do cavalo-marinho. Com Doyle percorremos docas, zonas palafíticas, mercados, lojas repletas de cavalos-marinhos secos, restaurantes onde ele é servido, entramos num moderno hospital de medicina chinesa e numa  empresa que fabrica  cavalo marinho em pó para consumidores que têm dinheiro e não querem perder tempo a fazer sopas e poções. Para Doyle só se pode salvar o cavalo-marinho se se compreender a sua importância para a cultura chinesa. Assim ele apresenta-se aos empresários chineses como potencial fornecedor e solução para um problema que já aflige quem está no negócio: a progressiva dificuldade em pescar cavalos-marinhos em áreas onde anteriormente ele era abundante face à crescente procura e a confirmação de que os chineses já tentaram a criação em cativeiro, mas que falharam. Doyle, no final, identifica como crucial a necessidade de educar os jovens chineses sobre o perigo de extinção da espécie e de trabalhar com comunidades de pescadores que nada sabem, pescando indiscriminadamente juvenis e cavalos marinhos em pleno ciclo reprodutor. Com surpresa, encontra receptividade.

Seahorse man é simultanemante terrível e esperançoso mas sobretudo elucidativo até das razões porque estão a sacar cavalos-marinhos da Ria Formosa mesmo debaixo das nossas barbas. Se não for encontrada uma alternativa, perante o que nos é mostrado neste documentário, é fácil acreditar e temer que os chineses não vão parar de pescar até ao último cavalo-marinho por esses oceanos fora.

3. Leia ainda o relato de espanto de quem viu um cavalo-marinho na Ria Formosa! (Só não devia ter tocado neles!)

4. ...e veja esta fotografia de um cavalo-marinho que se tornou viral pelo pior motivo e que o fotógrafo  Justin Hofman preferia que não existisse.

5. Avistou um cavalo-marinho ao vivo e a cores? Faça o registo aqui: Iseahorse

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