4/8/18

Globalização na Rua Nova dos Mercadores - O Chafariz d’El-Rey





A relativa igualdade de Europeus e Africanos no pico do Imperialismo português é gabada num excerto de um video da BBC onde se analisa a pintura do séc. XVI, Rua Nova dos Mercadores — O Chafariz d’El-Rey, da Colecção Berardo, uma pintura a óleo e têmpera sobre madeira, - a par da globalização como fenómeno de geração portuguesa. O que releva, diz o comentador, são as pessoas que populam aquela rua junto ao Tejo, em frente ao chafariz, numa época em que se pensa que 1 em 10 pessoas eram africanas, observando-se um clima de relativa igualdade, brancos e negros representados são tanto escravos como realeza, um cavaleiro ostentando Ordem de Santiago é negro: aquela Lisboa, a Lisboa na primeira era da globalização, mais parece a capital do séc. XXI.

Desde o anúncio da exposição A Lisboa no Renascimento que tenho procurado uma boa fotografia desta pintura, O Chafariz d’El-Rey, mas sem êxito. Não é nada de especial do ponto de vista artístico, ao contrário de algumas que tenho aqui divulgado, mas é especialmente exótica. Vejo-a como interpretação algo trocista do que o pintor observou, tenho para mim que isto é a obra de um artista que está supreendido com tanta multiculturalidade e miscigenização e que goza com tudo isso em cada cena: o que pensar do homem que despeja sobre si um balde de lavagem?! Do negro que entretem os amantes alheios no barco? Mas não consigo analizar com detalhe as más reproduções que estão na internet: são mais de 100 pessoas em tumulto. Mulheres negras carregando potes de água à cabeça, umas livres outras com correntes, bêbedos levados em braços para a prisão?, brancos e negros dançando, muitas crianças, e um cavaleiro africano com o hábito da Ordem de Santiago, que se diz ser o bobo negro de D. João III, João de Sá, o Panasco, um escravo que ascendeu socialmente.

A pintura faz-nos imaginar essa rua como um centro cosmopolita, palco de linguajares diversos, corropio de estrangeiros oriundos de todo o mundo, pertencentes a diversos estratos sociais, uns livres, outros escravos de origem africana e árabe, artistas de ofícios, mercadores, saltimbancos, navegadores; e onde se transacionavam mercadorias de todo o globo, fruto do comércio com origem no Oriente, África e América, ali se poderiam decerto comprar as maiores bizarrias, o último grito da moda, bens essenciais.

O Museu Nacional de Arte Antiga mostrou esta pintura, o ano passado, uma exposição intitulada A Lisboa no Renascimento. Foram reunidas muitas peças de vários museus e colecções privadas para tentar contar a história da cidade mais global do Renascimento, a Lisboa do XVI e, mais precisamente, da Rua Nova dos Mercadores, uma antiga rua lisboeta que desapareceu com o Terramoto de 1755.

Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe, historiadoras, identificaram a pintura, dividida em duas, ainda no século XIX, como a representação da principal artéria de comércio na Lisboa, e escreveram o livro The global city. On the streets of the renaissance Lisbon, no qual, penso, se baseou a exposição. Em vésperas da sua inauguação estoirou a polémica: alguém avançou que esta pintura era uma falsificação do século XIX e também O Chafariz d’El-Rey, da Colecção Berardo, que é aqui comentada no video da BBC, o que conduziu até à realização de peritagens, cujo desenlace desconheço. A própria exposição foi atacada porque enaltecedora dos feitos colonialistas, uma nova vergonha, para alguns, que não pode ser transformada em bandeira do nosso turismo cultural.

Na nova era da globalização, alguns séculos depois, quando Lisboa fervilha de gente de todas as cores e misteres, à semelhança de muitas outras capitais europeias, os estrangeiros de cor mais escura que são protagonistas de alguns quadros na Europa já não estão a carregar água, ou a entreter um casal apaixonado dentro de um barco ou em cima de um cavalo negro ou a cobrirem-se de lixo. Conduzirão talvez um camião que investirá contra pessoas inocentes que aproveitam o lazer numa qualquer estância. Suicidar-se-ão de seguida. São momentos assim que lhes grangearão protagonismo terrorista numa pintura, de cores berrantes, na TV, nas redes sociais. Se forem brancos, já serão antes mentalmente perturbados, não fazem história. Assim é. Numa pintura onde eu vejo um certo escárnio racista, os outros vêem igualdade; num ataque onde eu vejo terrorismo os outros vêem simples perturbação mental.  E isto é assim porque a interpretação, seja de pinturas seja da história que se escreve todos os dias, depende tanto do olhar quanto da cultura que o (de)forma.

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