12/30/17

Jovens de rua abrigados em lavandaria parisiense




Esta não é para rir. A beleza de ser humano mostra-se hoje também nos comentários do Facebook e similares. Nunca devemos perder a oportunidade de nos sentirmos irmanados nesta centelha humanitária que nos aporta calor no frio mundo virtual. Assim é que no dia 24 as pessoas gastaram os dedos a teclar palavras cheias de luz: é paz e amor para todos, votos de Boas Festas às pasadas, frases benignas para amigos reais e virtuais, animais de estimação incluidos, desejos de paz na terra e aos homens de boa vontade; partilharam-se postais com os Reis Magos a dizer “vamos fazer deste mundo um lugar melhor todos os dias” e ainda “que o espírito do Natal nos ilumine agora ao longo dos 365 dias do ano”, organizaram-se cabazes e jantares para os mais necessitados, enfim, todos sabemos como é, e a matéria está ainda bem revista e fresca. 

Eis senão quando no dia 29 aparece uma fotografia no Twitter, uns putos desgraçados, - porque o são ou não estariam dentro de máquinas numa lavandaria, a tentar abrigar-se do frio ou até a fazer horas, - quer dizer, nenhum de nós, aqui, ousaria dizer dos amigos do seu feed fotografados em idêntica pose que não teriam caído em desgraça, condoendo-se da sua sorte, fosse qual fosse a razão porque tivessem sido assim fotografados. Mas os outros, aquela paisagem humana cinzenta que só interessa para a estatística, e certos uns em especial, o que pode variar consoante a nossa particular paleta de exclusões, são sempre o alvo fácil do comentário leviano. A culpa do seu azar é sempre só deles e de mais ninguém. A razão de ser da desgraça que pode ser o crime ou o desenraizamento social e familiar, ou a doença mental, ou o desemprego, ou a perseguição política ou étnica, ou a pobreza social e intelectual é uma coisa que está lá longe e à qual nos julgamos imunes. Podemos, então, gozar à vontade no conforto da nossa segurança. São inúmeras as possibilidades que podem interferir no futuro de um ser humano, fazer com que se transforme num acossado, em suma, um desgraçado, umas vezes para isso contribuindo, outras para isso sendo inelutavelmente arrastado. 

Ao vermos pessoas caídas somos rápidos a fazer leituras e nem sempre abonatórias, nem para elas, mas, e sobretudo, nem para nós. A acompanhar a foto que saíu 5 dias depois da grande noite da boa vontade em que somos todos irmãos, o que se pode ler nos comentários vai desde o básico voltem para Marrocos que lá está calor, até inutilidades porque não há cérebro nem coração para melhor que isso, parecendo óbvio que o espírito do Natal já foi com os cães, se é que alguma vez existiu, e não passa de uma construção fantasiosa tão poderosa como é a do Pai Natal. 

Escrevia então um ser iluminado que esta situação era uma tremenda parvoice, porque se não se fechar a porta às máquinas elas nem sequer trabalham. E, em modo esclarecedor, - porque os outros são sempre bué de estúpidos – afirmava que eram máquinas de lavar e que os jovens não tinham sabido ver sequer a diferença entre um aparelho de lavar e de secar; e que era preciso meter a moedinha e fechar a porta quer a uma, quer outra, para funcionarem. Ou seja, imagino que esta pessoa achasse que os rapazes deviam ter colocado o dinheiro na ranhura e enfiado os corpinhos nas máquinas para se lavarem ou para se aquecerem ou as duas coisas, uma a seguir às outras. Esta alma boa terminou a sua sagaz observação do caso com um LOL – Laughing out loud. 

Eu também me podia estar a rir agora, dizem até que quem ri por último ri melhor. Só que estou é furiosa como se a falta de humanidade que nos rodeia e a falsidade com se apregoam bons sentimentos e valores fossem uma coisa rara! Devo ter sido é vítima da lavagem cerebral da quadra porque regra geral não sou assim tão atordoada. Não fui ver a página da criatura mas aposto que lá encontraria os tais chavões natalícios, velas a arder por um mundo melhor, o postalinho do menino Jesus nas palhinhas deitado, porque nessa época não havia ainda lavandarias ou o seu berço bem podia ter sido uma. Podemos, e é impossível não julgar e avaliar as acções dos outros, mas fazê-lo em relação a pessoas de quem não sabemos nada, revelando total insensibilidade, de forma gratuita, - e duvido até que esta comentadora tenha aberto o link e lido a breve notícia, - é também uma grande desgraça, tão grande quase como ter sido atirado para os subúrbios de Paris ambicionando um futuro que nunca se tornará realidade, ou não saber sequer como lutar por ele, ou ainda tendo tido tudo na mão e deitado tudo a perder porque não se soube ou quis ser melhor. E pronto, era isso, hoje estou sem graça, aturem-me.

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