12/30/17

Fim de ano por Lisboa



Cheguei ontem para marcar lugar na Praça do Comércio. Como dizem os ingleses, passaroca que chega primeiro é quem apanha a minhoca, neste caso um bom lugar. Sendo eu uma mulher baixinha gosto de estar na linha da frente de qualquer evento onde é garantido ver tudo ao detalhe e primeiro. Mas nestas andanças dos concertos há sempre alguém que me passa a perna, um chico-esperto que apanha o melhor lugar. Tentei negociar um nadinha da garupa com o D. José mas o homem não se comoveu. O único lugar sentado já era. Não insisti pois o Zé ficou meio instável depois do atentado, aliás, acabou mesmo por ficar maluco, e olhando assim cá de baixo não conseguia descortinar se ele tinha tomado a medicação ou não...



É agora que os fotógrafos de aves que sigo no Facebook se vão roer de inveja.Desde que me comecei a interessar por aves descobri que uma gaivota nunca é apenas uma gaivota. São, se a minha inexperiência não me trai, 16 espécies que andam por aí a cruzar os céus de Portugal, todas iguais, todas diferentes. Hoje não posso olhar para uma sem me perguntar de imediato se é uma gaivota-argêntea, ou um alcatraz, ou uma tridáctila, ou uma gaivota-risonha, etc, etc. Estava eu no Terreiro de Paço, puta da vida com a frieza do histórico José, quando encarei com este exemplar, uma gaivota-de-cartola, ave raríssima, ocorre como migradora de passagem no continente, sempre em épocas festivas. Depois de me passar a comoção causada pelo registo, recordei avistamentos em festas académicas de anos longínquos quando a vida era banal e uma gaivota era apenas uma gaivota.



Hoje estou em modo Lisbonita. Não estranhem, isto nunca dura muito. Estamos então na rua Augusta. Havia esta grata moldura humana que abraçava a música que o rapaz afinava, concentrado, um semáforo humano que fazia parar e avançar os peões. Na rua palco, a tempos subtraída ao mecânico trânsito pedonal, mais que a audição era o coração rendido que ficava preso ao chão enquanto o silêncio não abria para prosseguirmos a marcha. O tilintar metálico no estojo não chegou a pagar os breves instantes de perfeição oferecidos a quem tinha começado a subir a rua de pensamento carregado, eu, após ter visto tanta polícia e tão bem artilhada no Terreiro do Paço. É uma visão de prevenção que nunca me fez sentir segura e que actualmente logo me transporta para cenas televisivas de atentados, silvos de balas e gritos de gente em fuga. A subir ainda a Rua Augusta e antes de virar em direcção ao Metro acomete-me uma súbita resolução de Ano Novo. A de 2017 deu o seu fruto com duas dezenas de livros lidos. E aproveito para referir dois escritores: Nuno Camarneiro, figueirense, cujos livros não consegui parar de ler antes de chegar ao fim; e António Tavares, que vive na Figueira mas não nasceu ali, um homem sereno que conheci há muitos anos quando dirigia A linha do Oeste, um jornal, e que escreveu em O coro dos defuntos uma metáfora do nascimento da democracia em Portugal, com certo humor e revisitando Aquilino Ribeiro. Quem diria que santos da terra fazem milagres. Caminhava então lenta e enroupada por entre multidão ruidosa a pensar que tinha mesmo de ir a alguns concertos clássicos em 2018. Tinha. Para ver madeiras de violinos e violoncelos, pianos, metais brilhantes de clarinetes e oboés! Para ver os músicos a tocarem estes instrumentos. Para viver mais a música. Estava decidido: sinal vermelho ao streaming em 2018! Ou pelo menos um amarelo intermitente. Agendados estão alguns tradicionais concertos de Ano Novo onde poderei testar a muito curto prazo a força desta resolução. E onde posso até esperar que não me seja pedido que abra a mochila à entrada, ou me seja feita revista com raquetas que detectam armas; e onde não tenha de encarar com polícia fortemente armada a lembrar-me que o mundo é um lugar menos perfeito que este amável semi-círculo de peões encantados ao redor de um músico na Rua Augusta, em Lisbonita.

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