8/17/17

Despacito


Dei um saltinho à praia de Buarcos e no regresso deparei-me com estes senhores a tocar um medley dos Abba para uma grande plateia na esplanada do jardim. Cheguei a meio e quando me estava a sentir uma verdadeira Super Trouper, com vontade até de dançar com um dos turistas presentes que sabia todas as letras, acabou o medley. Trazia os ouvidos cheios de coisas como Si te vas yo también me voy/Si me das yo también te doy/Mi amor/Bailamos hasta las diez/Hasta que duelan los pies, tinha vindo pela marginal fora a cantarolar o Despacito, sonoridades ainda frescas na ponta da língua, patrocinadas pelos animados vizinhos de praia que hoje me couberam, quando ouvi a banda. Junto ao mar a minha tolerância dilata-se e os meus níveis de implicação derretem sob o sol, pelo que até curti os ritmos calientes e, já agora, o vigor da linguagem juvenil pontuada a alhos e folhas, o tratamento carinhoso ímpar. Ah, escusam de me vir dizer que quando eu era jovem também falava assim, eu ainda me lembro, apesar das brancas. Foi uma fase, ou talvez tenha sido uma frase, ou duas, isso já não asseguro. Mas a fase destes jovens é de muitas frases, muitas mesmo, embora repetitivas, tudo bem, meu caralho, vamos ao mar, ó minha grande vaca, sai mazé da minha toalha, minha gorda, ó meu boi, páaaara quieto, puta, tu passa o bronzeador, evidentemente que estão de férias, o linguajar colorido é que não está.  A meio da conversa uma das miúdas dizia à outra do grande escândalo: a não sei quantas foi para Humanidades. Mas ela nem sabe falar! Como podem ver já cheguei a casa e o vento mudou: isso nota-se perfeitamente pelas notas soltas de intolerância e de implicação. Ah, esta foi a última foto que fiz com a minha máquina de trazer no bolso: a puta deu o definitivo peido mestre. Ou entrou um grão de areia na engrenagem ou então fundiu-se devido à conjugação da alta temperatura com os ritmos calientes. Que merda, só me apetece falar mal.

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