2/20/17

Custe o que custar


Este filme foi, para mim, a surpresa entre os nomeados aos Oscars. Cinema de entretenimento de qualidade? Não vão mais longe. Nem sempre precisamos de um grande filme: basta-nos um filme que cumpra. É talvez mais seguro dizer que Hell or high water revitalizou o velhinho western do que La La La, o musical. Não que tenha trazido uma narrativa de suprema novidade mas soube reformular com mão segura, usando elementos contemporâneos com muita destreza. Em suma: um par de irmãos, um plano, plano este que inclui assaltar uns quantos bancos. Um é tranquilo e cerebral, divorciado e endividado, o outro um ex-condenado com queda para arranjar sarilhos. Dois agentes da lei perseguem-nos por entre cidades texanas tomadas pela desolação económica e planícies ricas em petróleo. Um, à beira da reforma, dá a cara pela America tradicionalmente opressora, o outro representa a face da America expoliada: é meio mexicano e meio comanche. Os maiores vilões são os bancos, a maior virtude resgatar os desvalidos do capitalismo do ciclo de pobreza em que vivem há gerações. Algumas perseguições, peripécias, humor sardónico e mortes depois, o plano cumpre-se. Tudo claro, tudo simples. Hell or high water funciona como um relógio. Ele próprio é um plano perfeito. A história corre sobre rodas - mas também aparecem uns cavalos e umas vacas - e nem quando pára à beira de um restaurante ou num motel, atrasa ou adianta, o ritmo é sempre ideal. A tensão dura para lá dos créditos, a troca de palavras final vem lembrar um duelo ao sol, de final imprevisível e adiado. A música de Nick Cave embala a árida e sufocante paisagem texana num tom melancólico. Este país, corrijo, filme, não é para velhos: é para todos, mesmo sem ter hipótese de ir além da nomeação ao Oscar. Curti bués.

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