1/22/16

Anomalisa - pequena crítica do filme


Não há nada em Anomalisa, filme de Charlie Kaufman e Duke Johnson, que não pudesse ser feito com actores de carne e osso. Então porquê darem-se ao trabalho de fazer um filme de animação em stop-motion?Eu sou uma admiradora incondicional deste tipo de cinema. Mas no inícío de Anomalisa nem estava a gostar do que via: a artificialidade, a névoa, a paleta desmaiada, o marasmo. Os bonecos. O ritual familiar de um check-in num hotel nunca me tinha parecido tão absurdo! Entretanto encontrei um sentido nisso tudo: o que acontece a uma vida engolida pela apatia dos gestos rotineiros? Não transforma qualquer um numa figurinha mecânica que se move num cenário cada dia mais impessoal até à completa alienação mental e física? Ainda assim, Anomalisa, podia ser mais curto.

O filme mostra-nos um dia na vida de Michael Stone. Ele vai a Cincinatti fazer uma palestra sobre satisfação do cliente. Stone escreveu um livro que se chama “Como te posso ajudar a ajudá-los”, livro que se tornou uma bíblia para quem quer chegar ao seu público de forma ganhadora. E a grande ironia é que Michael, que parece ter desvendado a fórmula do êxito desta comunicação, não consegue estabelecer no mundo que o rodeia uma conexão significativa, tudo o que tenta fazer dá para o torto, seja rever uma antiga namorada, seja comprar um presente para o filho: “É tudo uma maçada, uma enorme maçada”, exclama ele ao telefone, para casa, após ter feito o check-in. Michael está imerso num poço de solidão, enfado e questões para as quais não encontra resposta: “o que significa o sofrimento? O que significa estar vivo?” Ele toma comprimidos, ele bebe. Não está bem, mas a gente desconfia que talvez não seja de forma completamente inocente que chegou a este estado. Michael não ganha a nossa empatia com o seu pouco tacto, jeito petulante e tiques narcisistas. É um homem de meia-idade, bem sucedido, que não sabe como apreciar a vida que conquistou e a quem falta algo que ele não consegue identificar.

Todos os que rodeiam Michael sôam de forma igual - a voz de todas as personagens é a de um mesmo actor! – e todos os bonecos parecem ter sido criados pelo mesmo molde, como se fossem bonecos de gengibre saídos da linha de produção da empresa de produtos alimentares onde Lisa é representante de vendas. Os rostos semelhantes, como que formados por peças encaixadas, os movimentos mais ou menos mecânicos, levam-nos a pensar em robots.Mas quando ele conhece Lisa ela sôa-lhe de forma única e ele acredita que pode haver uma saída. O filme podia ser dividido em duas partes, antes de Lisa e depois de Lisa. O seu aparecimento introduz no filme alguma esperança. Mas a melancolia e tom iniciais perduram pois Lisa também não é sem defeito. Ela tem uma cicatriz no rosto, marca que a embaraça e que procura a todo o custo dissimular, uma marca e um símbolo para um passado de infortúnios. Mas a sua baixa-auto-estima não a impede de ser luminosa, ela “quer ser aquela que brilha ao sol”. A sua vida não é menos banal do que a de Michael mas aos olhos deste ela é uma anomali(s)a, a chave para escapar à vida onde não via sentido, algo que ela não entende, pois toda a gente prefere a amiga com quem partilha o quarto de hotel. O seu entusiasmo pelas palavras e pelas linguagens é encantador. Ela é face da humanidade que ainda não tínhamos visto em lugar algum de Anomalisa. E já agora ficam a saber: a Lisa adora Português e sabe que é a língua que se fala no Brasil. E quando ela canta Cyndi Lauper que ninguém no cinema se atreva a fazer um ruído. Quando nos apercebemos das intenções de Michael só nos apetece dizer a Lisa que fuja para longe daquele autêntico buraco negro, temendo que ele a arraste consigo no seu lamento existencial! Mas Lisa é uma sobrevivente!

No tempo que dura esta estranha interação entre os dois aprecie-se o brilhante trabalho das vozes (Jennifer Jason Leigh e David Thewlis) que são os veículos de todas as emoções que afloram ao écrã. Dizer que ao ver Anomalisa nos esquecemos de estar a ver um filme de animação não é inteiramente verdadeiro. Não por falta de esmero nos cenários, vestuário e restantes detalhes, ou na construção dos diversos ambientes. O realizador não quis atingir essa normalidade nem mesmo quando filma uma cena de sexo explícito, verdade, explícito, entre Lisa e Michael, mas de uma forma tão notável que em caso algum vai suscitar risos. Não sei se nos tempos do mais curriqueiro uso do sexo em videos, novelas, séries, internet e tudo o mais que mexe nos ecrãs, grandes e pequenos, que nos rodeiam ainda haja quem vá ao cinema atraído por cenas mais quentes. Mas no presente caso é justificado!

Dizer que Anomalisa prova que o cinema de animação não é só para crianças já é mais correcto, obviamente não pela cena de sexo, mais pela história de desamor inerente. Que Anomalisa não é sequer um filme para todos é o que tenho por mais certo. Oferece uma experiência cinemática diferente, de pendor artístico, que se reparte entre o tédio inicial e o espanto, e algum humor de sentido absurdo. É uma anomalia no contexto da generalidade dos filmes em exibição que recompensará a paciência cinéfila dos mais aventureiros nestas coisas do celulóide.

Apontamentos:

Anomalisa é uma ideia que demorou 10 anos a ser concretizada. O filme foi em parte financiado através de um projecto lançado na rede Kickstarter

Kaufman adora a língua portuguesa


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