11/7/14

A ciência das emoções positivas



Exame intermédio
Exame final

O que é que vocês sabem sobre psicologia positiva? Eu não sabia nada de nada. Zero! As minhas relações com a psicologia resumem-se à frequência de uma disciplina no 10º ano do Liceu, uma coisa que na altura me pareceu algo estranha, não por tê-la escolhido, - e não sei se a escolhi por curiosidade sobre o tema ou se por exclusão de partes, - mas porque surgia no cardápio de aprendizagens como uma hipótese de frequência para a área de Humanísticas, sem qualquer continuidade. Não havia Psicologia II no 11º ano. Era como darem à escolha um ano de italiano, espanhol ou russo na área das Ciências! 

Em Setembro vi anunciarem um MOOC com este nome suspeito: A ciência da Felicidade.  Dei uma vista de olhos ao programa e fiquei curiosa, curiosa e também descrente da validade científica de um tal conteúdo. Não tinha a menor ideia do que se tratava. Não tenho uma justificação clara para a inscrição. Foi uma coisa do momento, um capricho. Sinceramente o que eu pensei quando vi o título do MOOC foi "mas que porra é esta?!! Momento ahhhhh do dia: a porra do curso é bem gira! Vai encerrar a 25 de Novembro, já fiz o exame intermédio, 30 questões, e o exame final, 40 questões. Necessitamos de um aproveitamento de 60%, repartidos por questões respondidas semana a semana e nos exames. Obtive 88%, estou satisfeita com o resultado. 


Dizer que foi canja? Não, não foi. Dizer que delirei? Nem tanto. A língua é, apesar de tudo, uma barreira. Aborreci-me em algumas temáticas, em parte devido aos muitos estudos científicos citados, alguma redundância, mas também porque não me interessavam de todo. Mas outras foram autênticas revelações. Não vai ser a revolução na minha vida, mas quero meter em prática algumas das ideias sobre que li. E percebo agora melhor o conteúdo de muitas citações que circulam pela internet!! Sobretudo surpreendi-me com este movimento da "psicologia positiva". Nem me passava pela cabeça que a psicologia tratasse das emoções positivas, ou seja, da valorização das emoções das pessoas, - a empatia, a gratidão, a compaixão, o altruísmo - fazendo delas um estudo sério para perceber em que se traduzem, como afectam o nosso comportamento e, em suma, como nos transformam, ou não, em seres mais felizes. A dado ponto do curso um dos instrutores, Dasher, afirma que quando ele começou a sua pesquisa havia estudos sem fim sobre emoções como o ódio, mas zero estudos sobre a felicidade. Ou seja, esta via é um pouco como se deixássemos de pensar a saúde com o foco na doença e mudássemos o foco para o estudo do bem-estar. Mesmo se se trata de uma área relativamente recente eu concluí rapidamente que o meu conhecimento sobre o que era a psicologia tinha parado em Freud! Mas ele mesmo também já tinha abordado o assunto das emoções positivas. Só que à época não havia como provar nada, foi preciso esperar que a ciência - e a tecnologia - evoluísse para se conseguirem dados não empíricos capazes de convencer os cépticos, como eu. Actualmente muitos psicólogos há que se dedicam ao estudo da felicidade com rigor científico e algumas das suas descobertas são fascinantes. Alguns dos nomes que agora fiquei a conhecer são Martin Seligman,  Mihaly Csikszentmihalyi, Christopher Peterson, Shelley Taylor, Barbara Fredrickson e Jonathan Haidt. 

Deixo aqui um pequeno esquema de parte das matérias abordadas na segunda semana - o curso durou 9 semanas - para ficarem com uma ideia ténue dos assuntos em foco. A variedade de conhecimentos implicados no curso contribui muito para o tornar apelativo: temos acesso a dados sociológicos, biológicos, neurológicos, antropológicos. Levei um banho de ciência!! 

Já o tenho dito e repito: quem possa aproveitar estas oportunidades online de aprendizagem orientada gratuita tem um mundo para descobrir no computador. Este foi o meu segundo MOOC, numa área que nada tem a ver com a minha vocação, - como o primeiro que fiz - profissão ou interesse. Foi um autêntico tiro no escuro. E já não sei o que é melhor, se é aprofundar aquilo de que gostamos, se abraçarmos o desconhecido! Acho que tudo é válido. Aprender é sempre uma aventura!

Na semana 2 o curso abordou o que é que a ciência nos diz sobre as conexões sociais como uma das fontes mais importantes e duradouras de felicidade. Eu deixei de fazer resumos por falta de tempo. 

1. O papel do nervo vagal

Que partes do nosso corpo estão destinadas a isso? É a linguagem da oxitocina no nosso cérebro, o nervo vagal, que motiva a nossa associação com os outros. Existem circuitos da empatia, existem circuitos de recompensa, a nossa voz e o tacto.

Vagal vem de vagus, vaguear, “wandering”. Fica no topo da espinal medula, só os mamíferos o têm, estende-se ao resto do corpo, pescoço, controla o modo como encaramos os outros, e daí a ligação à empatia, e a vocalização. Parece estar ligado à oxitocina, à resposta do sistema imunitário e aos mecanismos de resposta da inflamação, coordena respiração e batimentos cardíacos, processos digestivos. 


Steve Porges- “This is the love nerve in your body.”

Imagens de sofrimento activam o nervo, mas também imagens inspiradoras. Maior compaixão, maior resposta do nervo. Neste momento a pessoa sente maior humanidade e ligação com os outros.

Há quem tenha um perfil vagal forte e isso até pode ser cultivado através do exercício e meditação. Essas pessoas tem mais emoções positivas, relações mais fortes, melhores redes de apoio social, as crianças que o têm defendem os mais fracos e estão mais dispostas a ajudar. Ele relaciona-se com altruismo.

2. O papel da oxitocina, a hormona do amor

Neuropeptídeo, sequência de nove aminoácidos, move-se no cérebro e corrente sanguínia, afectando outros orgãos.

Parece ser um neuroquímico que promove a confiança e a devoção e a simpatia.

Kosfield – fez um estudo, as pessoas que tinham tomado uma dose de oxitocina eram mais generosas a dar dinheiro a estranhos.

Sue Carter e Tom Insel - aumenta as tendências monogâmicas nos mamíferos (experiências com roedores)

Outros – quando injectados com ela os animais demonstram instinto protector até com crias de outras espécies

Shelley Taylor at UCLA - oxitocina elevada reduz as hormonas de stress como o cortisol, a resposta cardiovascular ao stress é menor,- pressão elevada – a amigdala é menos reactiva.

Feldman – quando os pais se tocam carinhosamente e às crianças a oxitocina sobe. E depois, por contágio, sobe a das crianças!

Ela promove a vinculação familiar e os laços sociais e a amizade. Sob influência dela eu leio melhor as emoções dos outros, empatizo, os pais têm um estado de vinculação mais seguro, os casais resolvem melhor os conflitos, e as pessoas são mais generosas para com os estranhos.

Serena Saturn - Há um gene?No terceiro cromossoma, há um gene que se relaciona com os niveis de oxitocina. A sua variação prevê a nossa habilidade para ler emoções, ajuda-nos a relacionar com os outros,etc.

3. Como é que a oxitocina molda a nossa vida social?- Jeremy Adam Smith

Aparece no corpo das mães recentes e que amamentam em quantidade. Também nas ocasiões festivas, (reconhecer um rosto numa festa) ou íntimas (orgasmo). Torna as pessoas gregárias, confiantes e generosas. Liga-nos às mães, aos amantes e aos amigos. Mas também pode fazer excluir.

a. Mantem a pessoa leal ao amante a fá-la ignorar as restantes possibilidades. Um homem sob o efeito da oxitocina não quer saber das outras.

b. Intensifica as memórias sociais, as boas e as más

Andrew Kemp da University of Sydney – a oxitocina tem um papel nas emoções que têm a ver com “querer qualquer coisa”. Sob o seu efeito um perdedor fica muito mais chateado.

Pesquisadores da Northwestern University - estudo que sugere que a oxitocina intensifica as memórias sociais, as boas e as más, quem cuidou de nós e quem nos maltratou.

c. Faz-nos cooperar com o grupo

Por exemplo, quando o chimpanzé come os bugs do pelo do outro. Isso faz disparar a oxitocina.

Mirre Stallen – Participantes num estudo alinham pela ideia colectiva sob o efeito da oxitocina, os outros seguem o caminho individualista.

A oxitocina é boa para trabalhar em grupo, menos boa quando se tem de tomar uma decisão com independência.

d. Vejo o meu grupo como o melhor

Carsten De Dreu, 2011.

Paul Zak da Claremont Graduate University

e. Torna-nos mais confiantes

Soma – Aldous Huxley – devia ter oxitocina!! Os 2 minutos de ódio no 1984 também deviam ter.

Podemos derrubar o seu efeito por via cognitiva. Se percebemos que alguém nos prejudica, mesmo com oxitocina alta, nós afastamos a pessoa. Se percebemos que um grupo põe em cheque a nossa ética, entra o lado cognitivo.

f. A vinculação

Dr. Vrticka – diferentes reacções consoante o estado de vinculação das pessoas testadas no estudo.

O ansioso que tem feedback negativo tem uma resposta exagerada .

O evitante que tem resposta positiva tem resposta fraca.

O seguro que tem resposta postiva recebe um boost de dopamina/prazer.

As conexões estabelecidas cedo vão influenciar a forma como a oxitocina é libertada, usada e treina o cérebro para estabelecermos relações sociais e logo ser feliz.

g.O toque

Michelangelo - to touch is to give life

Tiffany Field – tem promovido a ciência do toque na medicina. Tocar bebés prematuros faz com que o seu peso aumente 47 %.

Hands-On Research: The Science of Touch - By Dacher Keltner

A “palmadinha nas costas”, a carícia no braço. São a linguagem primária da compaixão. O toque promove benefícios emocionais e físicos. É preciso para estabelecer laços, para a comunicação e para a saúde.

h. A voz

Vocal bursts - pequenos sons que duram meio segundo e que são importantes para formar conexões sociais.

Emiliana Simon Thomas e Disa Sauter há comunicação social vital através destes pequenos sons. São sons que expressam sentimentos sem utilização de palavras.

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