9/7/14

O barco rabelo e o rio Douro




O Fugas, suplemento do Público,  dedicou neste sábado, dia 6, oito páginas à história do barco rabelo, ao Douro e à exploração da cultura do vinho do Porto em tempos recuados e no presente, e ainda ao turismo vínico mais recente. Calhou coincidir com a minha descoberta de um pequeno video dos anos 40 onde podemos ver um barco rabelo e os seus marinheiros em acção. Imagens documentais emocionantes que eu desconhecia, fiquei desarmada com a façanha e vi o video três vezes seguidas! Bem filmado e editado, apenas lamento duas coisas: uma é que não tenha som, outra é não saber quem filmou. Depois disso encontrei mais um video, parece que de 1923, não tão interessante como o primeiro, mas ainda assim riquíssimo quanto a valor documental. Assistam que não se vão arrepender!

A última navegação de rabelos já aconteceu há 50 anos. Resta a simbólica Regata de Barcos Rabelos do S. João para trazer à tona a sua importante história! E aqueles outros, neles inspirados, que se dedicam aos passeios turísticos no actual rio, agora um gigante tranquilo. O Douro que corre em grande declive, entre curvas apertadas e profundos canais, com zonas de rápidos e rochas, foi durante muito tempo um rio duro - e daí talvez o seu nome - de conquistar pelo homem. Hoje é uma fera amansada, exceptuados alguns invernos, domesticado que foi pela construção de diversas barragens, alterada assim para sempre a forma de o navegar e de o viver. 



Pensa-se que os rabelos descendem de embarcações vikings ou suevas, mas isso é mais mistério do que certeza. Oito séculos atrás já havia barcos a lutarem Douro acima e a acautelarem-se Douro abaixo, mas apenas se pode conjecturar como seriam em aspecto. A necessidade aguça o engenho - no século XVI a sede de vinho ia de Portugal até Espanha, até talvez mais longe, era o povo, eram os exércitos, a procura motivou a criação de embarcações que pudessem carregar cada vez mais pipas de vinho duriense! No século XVI chamavam-se “azurrachas” e transportavam 50 pipas de vinho, pesando 30 toneladas. Diz o texto que é por esta altura que se fixa a fisionomia do rabelo tal como o conhecemos hoje. No século seguinte os rabelos asseguraram capazmente a resposta à enorme procura inglesa de vinho. Mas este aliados insubstituíveis da lucrativa exploração vinhateira começaram a ser ameaçados pelo caminho de ferro no séc. XIX e acabariam por ser efectivamente destronados pelo comboio e depois, mais tarde, em meados do séc. XX, pelos camiões cisterna que traziam o vinho das quintas do Douro até Gaia de forma rápida e directa.

O texto do Fugas refere a dureza da subida e descida do Douro pelos barcos rabelos, referindo o enorme esforço e a coragem necessárias para o sucesso da missão. Mas a descrição é pálida se comparada com a realidade que o video documenta. Vejam como o barco era puxado – à sirga - rio acima com a ajuda de cordas, de força de homens e de juntas de bois, as pedras apresentam sulcos da pressão das cordas quando vento e os remos não eram solução. Observem a força do caudal, a geografia de obstáculos presentes no curso do rio, o trabalho de equipa nos remos, o trabalho do arrais, - piloto e comandante do barco - que, do topo da estrutura que dá pelo nome de “apegadas” manobrava a “espadela”, o leme comprido e tradicional do rabelo. São imagens magníficas.

Do século XVIII ao XIX contavam-se 2500 rabelos a navegar o Douro. A viagem de regresso durava três dias, a subida demorava pelo menos uma semana. O curso do rio tinha lugares amaldiçoados onde os homens contavam com o saber mas também com a ajuda divina para vencer a adversidade da Natureza. Nas suas margens existem vestígios da evocação da Providência, pequenas capelas que ajudavam os navegadores a encontrarem forças para vencer os seus receios. Mas nem a cautela, nem a experiência, nem as orações impediram que na centenária exploração do vinho do Porto flutuassem destroços de rabelos e de cadáveres. No doce aroma do vinho do Porto misturava-se o odor cruel da morte. E se para a história não ficaram os nomes de muitos bravos que pereceram nas águas do Douro, alguns poucos nomes, como o do Barão de Forrester ou de Gertrudes, a cozinheira do Águia d’ouro, ou Dona Antónia, colaram-se para sempre à faceta de um Douro sobrenatural, terras e rio de carácter mítico, onde a sabedoria do homem nem sempre foi quanto bastou para singrar.

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