10/3/12

Sombras da escuridão

Dark Shadows Barnabas

Hoje, ao abrir o Facebook, vi que o Joel Neto tinha lá colocado um link para uma das suas crónicas do DN. A crónica era sobre o Mário Augusto. Quem é Mário Augusto perguntam vocês? Bom, eu nunca me interessei por "Googlar" o nome dele. Até hoje!! Descobri que o homem anda pelo menos há meia vida a pensar e a escrever e a falar sobre cinema. Ele já fez de tudo: jornalismo na radio, nos jornais e na TV, e ganhou prémios com trabalhos não ligados à 7ª arte o que deveria ter feito soar um sininho interior que o despertasse para a sua real vocação. Mas não. Ele é mais filmes. Mas não todos os filmes. Alguns estão envoltos pelas sombras da escuridão, são os chamados filmes de autor, os difíceis, os que "não falam americano" nem nunca chegarão ao rodapé do box office. Esses, segundo o Mário, não merecem a luz.

Como amante da 7ª arte eu devia curtir o Mário Augusto, fazer um grande Like nele, ver o seu informativo programa, o 35 mm. Mas nem por isso. Rapidamente me cansei do seu estilo lambe-estrelas-e-filmes-premiados, da forma como se apresentava no genérico de abertura, assim a modos que a querer ser também uma estrelinha, e, last but not least, do formato formatado dos seus 35 mm, uma espécie de Top dos Tops dos filmes mais vistos, mais caros, mais tudo. 

É pá, hoje quando abri o Facebook alguém me tinha tirado as palavras da boca - o Joel Neto, um escritor e cronista com quem até vou à bola, ainda bem, ou podia ser ele o alvo desta facada. Mas isto é uma facada que não esguicha muito sangue pois este filme não é de extremo terror. É mais uma comédia, uma comédia negra. O que dá vontade de rir é que todos os amantes do cinema passam muito bem sem os 35 mm do Mário Augusto. O que é negro é que o cinema não passa assim tão bem com a sua presença-ausente na TV fruto do critério bem apertadinho deste suposto divulgador da 7ª arte. 

O cinema amplia a nossa percepção da vida, da cultura, e em tantas formas que é constrangedor que seja reduzido a uma unívoca expressão - a do seu  sucesso comercial. O que disse então o Joel? Fiquei a saber que o Mário Augusto foi uma destas noites entrevistado na TV - lá está aquela pobre e tristonha, e  já não tão recente tradição televisiva de dar mais importância às pessoas do que aquela que elas na realidade deviam ter. Em tempos assisti a  isso, quando ligava mais a televisão, as figuras da TV desdobravam-se em entrevistadores e entrevistados, visitavam-se nos respectivos programas e estava feito. Na realidade um apresentador de programas, que por vezes nem sequer debita palavras da sua autoria mas antes que foram escritas para si, pode ser tão vazio como aquele saco que vogava ao vento numa bela cena de Beleza Americana, um filme que, Mário Augusto decerto aprovaria. Ou até pode ser interessante - NOT, como diria O Ditador, piada que só vai perceber se viu este filme. Pode. Mas eu não apostaria nem uma velha cassete de video nisso." O cinema de autor, ou marginal, ou independente, ou interventivo - tudo isso é coisa de intelectuais peneirentos. " - leiam a crónica de Joel Neto na íntegra e digam que ele está certo, certeiro. Tirou-me as palavras da boca e atirou-as com pujança para as páginas do DN. Curti. Like. Gosto.

É claro que o Mário Augusto vai continuar confortavelmente na sua, a comer estrelas de cinema com os olhos em entrevistas programadas, a conduzir-se como o expoente da cultura cinéfila na TV. Esse homem até podia surpreender-nos uma vez saído do seu caixão de 35 mm, podia reiventar-se  e assumir-se como um verdadeiro cinéfilo! Mas WYSIWYG - What you see is what you get, - Mário está definitivamente mergulhado nas sombras da escuridão. Felizmente temos muitas outras fontes para ler sobre cinema e seus protagonistas, ver trailers e satisfazer a nossa curiosidade sobre as fitas que embalam o nosso luminoso mundo cinéfilo.

Sombras da escuridão - Dark Shadows. Mas não sei se quero escrever sobre o último filme de Tim Burton. Gosto do Tim Burton, mas tive um desgosto valente com Sombras da escuridão - Dark Shadows, a história de Barnabás (J. Depp), um bon vivant do Maine que seduz Angelique Bouchard (Eva Green) desconhecendo que a bela mulher era uma bruxa má. Quando a abandona, ela vinga-se e transforma-o em vampiro além de empurrar para a morte a sua amada. Barnabás é libertado acidentalmente do caixão dois séculos depois, nos anos 70, quando havia boa música, automóveis e erva. Então ele reencontra os seus descendentes...e a exuberante bruxa má, boa como nunca. Espera-o a vingança e a luta pelo amor verdadeiro. Está dito, foi uma das minhas decepções cinematográficas do ano. Não sei se quero escrever isto, pronto, já escrevi. Mas é assim mesmo. Se os 35 mm do Mário não são um filme de terror, este eu também não sei como catalogá-lo. Não é carne nem é peixe. Até ao fim do filme eu andei num desnorte sem saber se me havia de assustar ou rir. O que pretendia Burton afinal? Criar um filme de terror, uma comédia, um musical? O que resultou foi, quanto a mim, desperdício de algum talento, personagens secundárias pouco trabalhadas e uma coisa que já começa a ser demais: faces macilentas, brancas e olheirentas. O vampiro Barnabás do Depp cheira a requentado depois do Mad Hatter e do Charlie e do Edward, e nem precisa de se expôr ao sol. Está na hora de Burton deixar de poupar no budget, sempre a chamar a mulher e os amigos para os seus filmes - Mr. Burton, precisa-se de sangue fresco! Quanto ao espectáculo visual e banda sonora, excelentes. E por hoje chega de facadas.

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