9/28/12

O que é soja transgénica?

Artigo de Lígia Calapez e Sofia Vilarigues
Ozono - Revista de Ecologia, Sociedade e Conservação da Natureza
Nº 3 Dezembro 2000
Talvez tenham estranhado nas minhas anteriores postagens eu ter-me referido à embalagem e aos rótulos da soja  e dos chás que comprei, e no caso destes até com desconfiança quanto ao produto que guardavam. Infelizmente nos tempos actuais quando a tendência devia ser a da confiança do consumidor nos avanços da ciência e na fiscalização da sua segurança, o que cada vez mais temos de fazer é estar alerta. Quando eu andava no liceu e a minha avó cozinhava proteína de soja texturizada para nós. Supostamente não haveria nada de suspeito nos nacos de soja que estavam no pacote nem razão para desconfiar. Nessa altura a soja era um alimento saudável e intocado. Mas em 1999 já nesta revista OZONO se afirmava que os nacos de soja da Salutem são transgénicos. A soja foi entretanto manipulada geneticamente e hoje a maioria da soja que se vende é de origem transgénica. Ora eu, quando escolhi o pacote da Salutem, pensava que estava a escolher soja limpa, de contrário, pensava eu, a origem transgénica devia estar assinalada no rótulo. Já se passaram muitos anos sobre aquela peça escrita. No site da Salutem escrevem:
Estes critérios (preocupações sociais e ambientais) estão presentes em:Produtos: I.e D. permanente quer na qualidade quer nos benefícios para a saúde dos alimentos Salutem. Critérios rigorosos quanto á origem das matérias-primas, excluindo produções agrícolas de organismos geneticamente modificados (OGMs) e preferindo, sempre que possível, as de regime biológico. Rastreabilidade total.
Infelizmente fiquei na dúvida. Vejam abaixo o caso chocante da cadeia Whole Foods, nos EUA. Se o que esse video mostra for verdade, essa cadeia há décadas que anda a enganar os consumidores. Como poderemos efectivamente confiar? A lógica do lucro subverte todos os valores e os tempos estão para desconfiar mais do que outra coisa. Resolvi enviar um email à Salutem:

Exmos. Srs.

Aquiri um pacote de nacos de soja da vossa marca. Ontem encontrei na internet referência a um estudo da Protest e do Jornal Expresso onde se diz que este produto é soja transgénica. Apesar de já se terem passado anos sobre a publicação desta notícia, eu e os leitores do meu blogue gostávamos de saber se ela é ou não transgénica. Sei que no vosso site dizem pontuar a vossa actuação por critérios de responsabilidade social e ambiental, mas mesmo assim gostava de obter um esclarecimento, uma vez que até têm um serviço de atendimento ao consumidor.
Aceitem os meus cumprimentos.

A Salutem respondeu:
Boa tarde,Desde já agradecemos o Vosso contato e a preferência dada aos nossos produtos.
Relativamente à questão que nos coloca informamos que nenhum dos produtos fabricados/comercializados pela Salutem é de origem ou tem na sua composição organismos geneticamente modificados. Assim, a Protisoja Nacos não é originária de soja transgénica.
Com os melhores cumprimentos,Ana SilvestreDepartamento de Qualidade
Em primeiro lugar, o que são Organismos Geneticamente Modificados, os OGM ou transgénicos? OGM são seres vivos - plantas, animais, microrganismos - que foram sujeitos a maniulações, os genes, isto é moléculas DNA são tirados de um organismo e alterados. Depois são colocados noutro organismo. Este adquire novas potencialidades e transmite-as aos seguintes. O DNA tem informação hereditária como devem saber. 
Os transgénicos surgiram na década de 70, ainda são uma relativa novidade mas já são um grande negócio. São também uma grande ideia como o foram os CFCs, os clorofluorcarbonetos, até se descobrir o seu impacto na atmosfera.  Propulsor, (gás usado em sprays), expansor de plásticos, e como refrigerante em sistemas de frio, aparelhos de ar condicionado acabou por se revelar um enorme buraco, esse, o do ozono.Nos últimos meses as dúvidas transformaram-se em protestos agitados à medida que foram sendo publicados mais alguns estudos pouco abonatórios. O meu Facebook encheu-se de postagens de  norte-americanos contra a multinacional MONSANTO, a empresa que controla o mercado das sementes nos EUA, convencionais e transgénicas. A Monsanto parece ter apostado em envenenar o  mundo e fazer dinheiro à custa disso. Veja esse site, Occupy Monsanto ou leia 10 factos que deve saber sobre Monsanto, nem que seja apenas os títulos, se nunca ouviu falar sobre Monsanto. Os EUA e o Brasil são os dois países com maior área dedicada ao cultivo de transgénicos. Cada vez é menos pacífico que os transgénicos sejam seguros -  as pessoas reclamam transparência. Alguns agricultores estão já a abandonar o cultivo porque o herbicida deixou de fazer efeito. Quando eles compram as sementes modificadas, ficam obrigados a usar o herbicida da Monsanto. As pragas já aprenderam a resistir, estão mais fortes e isso tem obrigado ao aumento do uso do herbicida. Nessas áreas também se tem assistido ao desaparecimento de muitos insectos benéficos. 
A criação de novas variantes de um vegetal são demoradas, ao menos valha-nos isso ou já estaríamos rodeados delas! E é um processo caro. Ao contrário do que acontece na agricultura convencional em que se cruzam indivíduos de espécies próximas para apurar qualidades, através da engenharia genética os cientistas podem dar-se ao luxo de inventar, de criar algo novo, misturando especies. A ideia não me agrada, lembro-me logo do filme A MOSCA, de Cronenberg. Transgénico é uma criação do homem, não da Natureza. A Natureza tem sabedoria, o homem tem ousadia e estupidez natural q.b. para transformar qualquer paraíso num inferno, sobretudo se perspectivar possibilidade de lucrar com isso. Isto da engenharia genética é uma roleta, a imprevisibilidade é grande: como vão estes seres geneticamente modificados evoluir, como vão adaptar-se, como vão interagir com o mundo que as rodeia, os outros seres? Coelhos que se alimentem de plantas transgénicas e que sejam comido por lobos, que impacto terá isso sobre o organismo do lobo? Como não tenho uma boa formação em ciência acho perigoso embora pareça fantástico e uma revolução capaz de minorar a fome no mundo, por exemplo.
Ora bem, a soja  é nem mais nem menos, o produto  transgénico mais produzido a nível mundial, a seguir vem o milho. Mesmo assim, a maioria da agricultura mundial não é transgénica. A questão essencial que se agiganta pelo mundo fora é decidirmos agora se queremos que essa quota venha a crescer ou a ser reduzida. Temos de começar a pensar nessa questão e estar atentos à informação que se vai acumulando. Não devemos ser velhos do Restelo mas também devemos pensar nas lições do passado- o DDT, o agente laranja.
O que significa afinal em termos práticos ser transgénico? Significa, no caso da soja, que a planta é por natureza resistente a um herbicida e então o agricultor pode aplicá-lo de forma prática e mata a praga sem danificar a planta. Isto parece uma evolução de truz, não é? Outra variante são plantas que segregam elas mesmas o herbicida ou o pesticida, um veneno qualquer, e quando as pragas atacam elas defendem-se sem intervenção do agricultor. Outras vezes as plantas podem ter as características de dois organismos juntos. Portugal emparceirou com a Espanha, República Checa, Eslováquia e Roménia no cultivo transgénico - temos uma pequena experiência transgénica de 7724 hectares dedicados ao milho, em Monforte, milho da Monsanto, pois claro. Os Governos Regionais mandaram os transgénicos à fava sem hesitar. Bem vistas as coisas, 7000 hectares é pouco, parece que podemos ficar tranquilos e ir ver A Casa dos Segredos ou o jogo  do Benfica. Mas eu não tenho simpatia pela experiência até porque o vento pode levar o pólen e este milho cruzar com o tradicional. Se eu não gosto da ideia de consumir transgénicos é fácil, dirão vocês, não compro soja e estou safo. Errado. A soja está presente em muita da nossa alimentação mesmo que não andemos a brincar aos vegetarianos, como eu andei ao longo destas duas semanas. Os transgénicos entram em Portugal por via da importação à tonelada e estão presentes em muitos produtos que consumimos sem alarido, carne, peixe, leite, ovos. Pensem que já hoje andaram transgénicos a circular no vosso organismo e vocês nem sabiam. Se isso não mexer muito convosco, pensem que a papa láctea que deram ao vosso bebé também pode conter mistela transgénica. Que tal a sensação?
Supostamente os alimentos transgénicos estão rotulados, pelo menos é o que a União Europeia manda fazer através do Regulamento 1830/2003 sobre rotulagem de transgénicos e de alimentos ou rações produzidos a partir de transgénicos. Toca a procurar a expressão GENETICAMENTE MODIFICADA algures nas letras miudinhas dos ingredientes dos cereais do pequeno almoço! Mas, já agora, no caso do frango alimentado com ração ou milho transgénico ou daquele bife de novilho que comprou ontem, será que isso também aparece algures? Nestes casos parece que não, a lei não obriga a que apareça! Dá para entender? Não, não dá. O que fazer? Não comer? Começar a consumir produtos de origem biológica? A que custo? Mudar para o campo e começar a cultivar o quintal e a alimentar criação? Para já muitos alimentos estão fora da alçada dos transgénicos mas há pedidos para que a maravilha da manipulação genética se estenda a outros seres vegetais ou animais.É um caminho que parece fantasticamente perigoso. Mais uma vez, A MOSCA, de David Cronenberg esvoaça diante dos meus olhos. Viva o admirável mundo novo. Ou será antes viva o admirável mundo morto?

Para saber mais sobre transgénicos e poder tomar uma posição, consulte o link para o Centro Documental da Plataforma STOPOGM, de onde retirei alguns dos factos que descrevi.

Se tiver tempo e curiosidade, veja o video sobre o escândalo da Whole Foods - quem aceder a este link  anterior parece que entrou no paraíso da comida saudável. A empresa americana com sede em Austin está bem cotada em termos de responsabilidade social e para com o ambiente, tudo parece perfeito. Mas afinal parece que a realidade é bem diferente a avaliar pelo video que se segue. A Whole Foods é uma cadeia de lojas que supostamente venderia apenas produtos de origem biológica, naturais, seguros. Infelizmente vende produtos geneticamente manipulados e lucra milhões. O video desvenda porque é que ela não apoia a Prop 37...


Na Califórnia, em Novembro, vai haver uma votação que poderá fazer história. As pessoas estão a pedir que os alimentos geneticamente manipulados sejam devidamente rotulados. A dado ponto do video refere-se que na Europa há rotulagem obrigatória. Como se viu pelo caso que mencionei, a rotulagem de nada serve se não for efectivamente observada e fiscalizado o seu incumprimento. Mas sem dúvida que é o caminho a seguir e daí este grande movimento da população e dos produtores biológicos que enfrentam o poder económico das multinacionais como a Monsanto que estão a financiar a campanha contra a Proposição 37! Realmente é caso para perguntar: se os transgénicos são seguros, porquê a omissão nos rótulos? Não seria uma mais-valia para os produtos?

A Proposição 37 é uma proposta que vai a votos em Novembro e que, se passar, irá ajudar os consumidores a fazer escolhas informadas sobre o que comem. Escrito com a colaboração ampla de grupos ligados à alimentação, indústria, ciência, leis e especialistas em saúde, a Prop 37 (Lei para a transparência sobre alimentos geneticamente manipulados da Califórnia ) exige rótulos claros que permitam aos consumidores saber se os alimentos são geneticamente modificados, exacatamente como já se faz para valores nutritivos, ingredientes e outra informação relevante para os consumidores.


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