2/2/12

Jerónimo e o polvo


Como alguns de vocês sabem, eu adoro a cidade do Porto. Quando fui viver para lá o que mais me chocou foi  encontrar tanta gente a pedir e a dormir nas ruas. Nada que se comparasse com Coimbra. A rotunda da Boavista era um caso que me fazia arrepiar a alma. A toda volta, sentados no chão, era uma paisagem humana de miséria a que só com deliberado esforço e rotina nos habituamos. Ao cair da noite as pessoas começam a reunir caixotes e mantas e a fazer a cama nas lojas que têm montras com espaços recuados um pouco por toda a cidade. Como vivia muito perto da rua de Santa Catarina e a percorria com frequência, posso dizer que em alguns dias era abordada, se não me esquivasse, por uma dezena de pessoas em cerca de 10 minutos. É-me indiferente que estivessem a pedir porque precisavam para a dose diária de droga ou para ter comida no estômago. No meu entender, todas aquelas pessoas não tinham outra hipótese, bom, talvez algumas ainda tivessem outra hipótese mas já tivessem desistido dela. 
Hoje quando li esta história sobre o julgamento do sem-abrigo do Porto que roubou o polvo e o frasco de champô lembrei-me de todas essas pessoas com quem quase diariamente me cruzei. E é a eles que dedico esta história. Com ela não pretendo desculpar o acto de roubar mesmo pouca coisa por parte de quem não tem e precisa, por muito que perceba o desespero. E já nem quero contrapor a este caso os roubos escandalosos que ficam por punir para conformar esse acto como digno de excepção. Mas, vejamos, se os bens do pingo Doce foram imediatamente recuperados, para quê apresentar queixa? Já viram a quantidade de recursos que o julgamento de uma destas bagatelas penais envolve? O crime é do tipo semi-público, - penso que é um furto simples -  logo, se a queixa é apresentada cabe ao Ministério Público deduzir acusação. O ofendido não precisa de fazer mais nada mas pode desistir da queixa até ao julgamento. A partir do momento em que a queixa é apresentada é só gastar dinheiro dos contribuintes para pagar da defesa oficiosa aos funcionários todos do sistema judicial e da polícia, além de se ocupar espaço nos tribunais com um processo que se podia ter evitado, ou que até poderia ser resolvido numa outra instância, se ela existisse, deixando espaço para outros bem mais importantes. Só que não existe essa instância. E por cada queixa de pequenos roubos com origem nas superfícies comerciais esta enormidade repete-se!É mesmo para divulgar, sei que vão achar piada à história, mas garanto que o assunto é mesmo sério.

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