1/29/12

Sobre a petição contra Katinka Simonse (Tinkebell)


Ontem recebi e assinei uma petição sobre uma tal Katinka Simonse mais conhecida por Tinkebell. Ela vive em Amsterdão e na petição surge como alguém que mata animais em nome da arte, lia-se que passou pintainhos por máquinas de retalhar. Diz também na petição que ela matou o próprio gato e o transformou em bolsa e que fez hamsters rolar em bolas de plástico no chão de uma galeria.

Eu assinei sem investigar nada do que ali era dito. Estas petições cada vez mais se vulgarizam e o que vai acontecer é que daqui a pouco ninguém vai assinar nenhuma se, quem as redige, não der factos e provas inatacáveis do que defende. Isto de contar um conto e acrescentar (ou omitir) um ponto, não serve este propósito. Da próxima vez investigo antes de assinar. Cheguei a escrever no Facebook que a Tinkebell é doida e que devia estar internada ou presa. Talvez as coisas não sejam tão preto no branco como isso. Leiam o que descobri e reflitam comigo para tentar compreender um pouco do que ela faz, por muito chocante que possa ser.
Nota: todos os links para o site estavam activos quando fiz esta postagem. Neste momento o site está em baixo.
Descobri que os pintainhos afinal não foram mortos. Na exposição SAVE THE MALES ela foi a um aviário buscar 60 pintos machos com um dia de vida e dizia aos visitantes que se não os comprassem ela os passaria pela máquina pois era isso que ia suceder no aviário, isso ou serem gaseados. Ninguém levou os animais e a organização acabou por comprá-los para evitar o triste desfecho. Esta é a realidade da indústria mas é uma verdade que se quer escondida do público, facto para o qual Katinka quis chamar a nossa atenção. E também meteu, de facto, os 100 hamsters em bolas de plástico na exposição SAVE THE PETS (2008) para criticar o facto das pessoas os meterem em bolas destas,
-para que não estraguem nem fios eléctricos nem mobiliário,- made in China, que permitem aos animais serem libertados das gaiolas e percorrerem a casa numa falsa ilusão de liberdade. Os animais foram confiscados por uma autoridade holandesa e a exposição terminou mais cedo. Quanto ao gato, sim, ela matou o gato e fez a bolsa , ele ia ser eutanaziado por estar muito doente. Há relatos que indicam que ela torceu o pescoço ao animal. Nem consigo perceber como foi capaz de matar o animal quanto mais tê-lo feito com as suas próprias mãos. Acho que este facto é o que me choca mais e não tanto que tenha feito a bolsa com a pele do felino. Recebeu tanto hate mail por causa da morte do seu gato que publicou um livro em 2008 - Dearest Tinkebell - com 1000 emails dos 10.000 recebidos. Ela empenhou-se em linkar esses emails a toda a informação que encontrou na internet sobre essas pessoas – perfis do Facebook e Linkdin, videos, etc, e em resultado, mais ira. Um miúdo escreveu: Vou bater-te até que não te possas mexer, depois vou abrir-te ao meio, cortar-te a mão e meter-te o telemóvel num sítio onde não conseguirás chegar-lhe. Não encontrei provas de que tivesse morto mais animais embora este já seja suficiente para ficar chocada. Quando fui ao site da Tinkebell também vi a exposição dela ALMOST 18 sobre os sites de pornografia juvenil que vendem roupa interior usada. Com ela Tinkebell quer chamar a atenção sobre as restrições à liberdade sexual impostas pela sociedade e por outro a imensa e consentida popularidade destes sites. Outra intervenção, HER NAME IS MARILYN, uma mulher vestida de rosa arrasta pela rua um cão morto e vestido igualmente de rosa. ( Não sei se o cão está morto ou se foi mumificado.) Com isto ela nos quer dizer que o valor que muitas pessoas atribuem aos animais de estimação é a de um mero acessório à sua imagem, ignorando as suas reais necessidades, tratando-o como um objeto. Outro projeto cuja ideia é alertar para a criação de animais à medida dos desejos dos seus donos, evoluindo de amigo do homem para objeto de consumo, o SAM, também critica que os animais sejam transformados em meros acessórios. O cão foi tratado por taxidermia e possui uma caixa de música, que se liga quando se puxa pelo corpo do mesmo. E há ainda POPPLE, uma bolsa reversível feita com uma pele de cão e de gato. LASSIE, ou o cão feito em blocos, que permite a reinvenção por parte do dono, sendo transformado noutro cão. 
Não é a primeira vez que  “artistas” matam animais em nome da arte. O que fazer face ao princípio da liberdade de expressão? A Declaração Universal dos Direitos dos Animais considera que todo o animal tem direitos. Nenhum animal será submetido a maus tratos nem a actos cruéis. Se a morte de um animal é necessária, esta deve ser instantânea, indolor e não geradora de angústia. Diz que nenhum animal deve ser explorado para entretenimento do homem. Uma morte de um animal sem necessidade é um crime contra a vida. Acrescenta ainda que um animal morto deve ser tratado com respeito e que as cenas de violência nas quais os animais são vítimas, devem ser proibidas no cinema e na televisão, salvo se essas cenas têm como fim mostrar os atentados contra os direitos do animal.

Perante estes artistas sobretudo importa também questionar se estas práticas, independentemente da crueldade inerente ou não, são realmente arte. E se são arte, serão arte em que forma? Estarão estes artistas a mostrar-nos o que não enxergamos por termos sido manipulados pela cultura e pela norma social? Serão estes artistas os guardiões últimos da nossa consciência adormecida? O que é que estes artistas querem que façamos enquanto consumidores da sua arte? Já agora, o que pensar de arte animal elaborada pelos próprios animais? Não andarão afinal os artistas a brincar connosco?!!

Tinkebell não está só. Eis alguns exemplos de exposições de arte que se servem dos animais e que provocaram a opinião pública, despoletando iras e discussões.

  • Adel Abdessened - “Don’t Trust Me” no Instituto de Arte de São Francisco, 2008 
O artista francês mostrou seis videos onde se via cabras, porcos, carneiros, bois e um cavalo presos a um muro e a serem alvo de golpes de martelo até à morte. Na exposição o artista não explicava se aquilo tinha sido encenado para o filme ou se documentava uma prática. Face à crítica, o Instituto explicou que os videos tinham sido filmados no México e que o artista queria mostrar como era diferente a forma de abater os animais nos países pobres e desenvolvidos!Um pouco inconcebível para um reputado instituto não questionar o artista ANTES da exposição ser montada nem fornecer esses dados.
  • Damien Hirst também nos presenteia com a sua dose de arte à base de animais mortos. 
As carcaças dos animais são preservadas em formol dentro de tanques de vidro. Este artista britânico fez um leilão na Sotheby’s em 2008 e arrecadou um dinheirão. Estas obras são consideradas mais interessantes - tubarões e carneiros a flutuar em formol, uma vaca e vitelo cortados ao meio, a obra do tubarão dá pelo nome de The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living – do que as pinturas. O tubarão já teve de ser substituido pois deteriorou-se. Então ele pagou a alguém para capturar um outro e mataram-no para o efeito. Muito linda, esta arte do Damien. Por mim, passo. Mas em relação aos tubarões pescados para remoção de barbatanas para fazer sopa de barbatana de tubarão já ninguém se chateia.
Esta russa mata gatos, ratos, e coelhos para fazer as suas naturezas mortas, combinando-os com objectos. Depois tira fotografias. Uma flor com um olho de coelho no centro, uma jarra com cabeça de gato, cinco carapuças para dedos feitas com ratos brancos. Na Suécia exigem-lhe que esteja um veterinário perto para que os animais não sofram quando são mortos. Olho para essas fotografias e não vejo nada de especial, nada que não se conseguisse fazer com o Photoshop! O trabalho dela que não envolve animais é bem melhor  e mais pacífico.
Pratica a arte da taxidermia, usa exclusivamente animais atropelados. Ela mantém um arquivo sobre cada animal, onde foi encontrado, o antes e depois. Assina um certificado da fotografia com o seu próprio sangue. Também fotografa pessoas com necessidades especiais nas suas casas.
Fizeram uma exposição de tapetes com cães e gatos para questionar o papel que estes animais adquiriram na sociedade - são tratados como coisas e muitas vezes as pessoas desenvolvem com eles laços mais fortes do que com a família. Alguns animais selvagens vêm sendo usados desde sempre como carpetes, sendo exibidos como troféus. Na América do Sul os cães vadios são inúmeros e à noite inundam as ruas para comer no lixo, por contraste com a crescente cultura do animal de estimação na América do Norte. Em La Paz, Bolívia, os cães são apanhados da rua, aos 100 por semana, e executados metodicamente a cada sexta-feira, por uma empresa municipal...
Um caso à parte, mas que me ocorreu enquanto fazia esta pesquisa. A natureza-morta aparece em grande número de obras de Witkin. Só que usa corpos humanos sem vida muito bem encenados e depois trata as fotografias.

Depois desta pesquisa fácil e breve na internet – estou certa de que existem mais casos - , Tinkebell, já não parece tão vaga nos seus propósitos, em especial se comparada, por exemplo, com Nathalia Edenmont e as suas peças eminentemente decorativas. Continuo chocada com a morte do gato de estimação e a sua transformação em bolsa! Mas neste momento tenho mais algumas questões do que quando recebi a petição:

- Tinkebell matou o gato e fez a mala. Mas se usamos malas, porta-moedas, luvas, casacos e sapatos de pele, alguém teve de matar esses animais.
Porque é que os activistas não obtêm tanto sucesso com as suas ações contra as empresas que usam peles quanto Katinka obteve? Pensemos por exemplo numa linda raposa capturada para ser transformada numa mala. Quantas pessoas se manifestariam contra? Poucas, certamente. 
Ter uma mala de pele de cobra é uma frivolidade num tempo em que os produtos sintéticos evoluíram de tal forma que há imitações de tudo para todos os gostos. Quando vemos alguém com uma mala de pele de cobra imaginamos uma pessoa bem na vida e com status, não pensamos que está a colaborar na morte de animais para obtenção da sua pele. Porquê? O existência de um comprador para a mala é a razão porque se matam os animais. Não devíamos censurá-lo?
- Se eu uso peles de animais, se como carne de animais criados em massa e sem condições, se tenho o meu cão fechado na varanda todo o dia,  terei o direito de criticar Tinkebell? 
- Porque é o direito de matar de uma empresa – que depois vende as peles - mais legítimo do que o direito de um artista matar para fazer um objeto de arte?
- Será que matar animais como forma de arte é apenas uma forma de alcançar a fama fácil através do choque? 

- Como pode Katinka matar o seu animal de estimação e defender que o que fez não foi cruel? Desde quando é que estrangulamento não é crueldade? 
- Será que ser artista é ter automaticamente um passaporte para testar os limites da ética, da moralidade ou da norma social sem olhar a meios?
- Mostrar um acto de violência contra um animal não é o mesmo que cometer esse acto, mas em certas circunstâncias não será mais chocante ainda?
- O direito à liberdade de expressão protege o direito de todos, daqueles que têm uma visão lata e daqueles que têm uma visão estrita sobre um mesmo assunto. Como encontrar um meio termo?
- Porque é que aceitamos cabeças de veado na parede e nos indignamos com um cão empalhado em cubos? No primeiro caso o animal morto é visto como um troféu, uma conquista de caça, uma manifestação de superioridade do homem; no segundo caso a mensagem que a artista quer passar é a de que temos de reconsiderar a forma como estamos a tratar os animais em vida.
- Apoiamos a arte quando nos servimos dela para capturar a beleza, quando nos faz ganhar dinheiro, quando está alinhada com as nossas convições estéticas e morais mas depois queremos bani-la quando nos mostra, afinal, uma outra face da mesma moeda, que não queremos ver  por questões culturais, de conveniência económica, social ou outras?!
- Porque é que assinamos tão facilmente uma petição contra Katinka e não ajudamos um canil ou um gatil da nossa cidade com a mesma facilidade?
- Será que a discussão que Katinka promove em torno dos direitos dos animais é mais ou menos eficaz do que a dos activistas de direitos dos animais?


Em suma, arte ou crime? Qual a vossa opinião?



2 palavra(s):

Anonymous said...

Meu Deus!
Os artistas têm mentes especiais e nem sempre a forma como nos apresentam a realidade é linear, para dizer a verdade, quase nunca o é, ou será...a linearidade é pra o cidadão comum...
A arte pela arte ou a arte com mensagem subliminar ou escondida não deveria em caso algum usar animais...
É a minha modesta opinião...
Estaremos a fazer o memso que Katinka? Talvez,mas somos os segundos ou terceiros elementos da cadeia - não somos inocentes, mas não exibimos a culpa, nem os nossos feitos...
Grata pelo esclarecimento - tb vi a petição...afinal é a ponta de um iceberg...
Mas em qualquer dos casos não encontro fundamento para deixarmos o blogue...

Always said...

Belinda, antes de mais, agradeço o esclarecimento quanto á petição. Em segundo lugar, tenho de agradecer a reflexão de que o seu texto é prova, muito bem documentada e com particular pertinência.

Quanto ás questões que levanta elas são obviamente importantes, designadamente no que se refere á validade de projectos artísticos como os que aqui estão em causa. A Arte, ou melhor, o discurso artístico seja ele qal for, assume frequentemente o seu papel social de provocação e ruptura. É esse lado que dele se espera, que se celebra e se consagra. No entanto, creio que existe uma fronteira a partir da qual podemos afirmar com segurança que o projecto artístico falha enquanto ARTE. E nem vou aqui explorar o conceito de 'obra de arte' porque não é isso que está em causa. O que me parece estar em causa no caso de Katinka Simonse (bem como em todos os outros mencionados no texto) é a sua intenção artística porque me parece não existir sequer. O que existe é uma forma de activismo de acção directa que visa a sociedade em geral para um assumir de responsabilidades, neste caso sobre os animais explorados nos referidos projectos. Activismo puro disfarçado de arte, é como vejo as coisas. Como o cão deixado morrer á fome pelo 'artista' Guillermo Habacuc' Vargas, na galeria Códice, na Nicarágua. Não, de todo, isto não é arte! Isto são discursos e abordagens de pessoas com um quadro mental perturbado, que descarta a culpa para os outros, ou seja, nós que observamos passivamente a sua loucura. Eu não assumo a culpa que a senhora transfere para mim como espectadora. Eu, pelo simples facto de fazer parte deste contexto social, não sou culpada de todos os males do mundo.

A demência artística é mediática e esta senhora garantiu os seus 15 minutos de fama, que provavelmente nunca conseguiria como activistas regular pelos direitos dos animais (presumindo que ela o seja, tenho dúvidas, quem mata o seu próprio gato doente pelas suas próprias mãos, enfim...). Mas antes de torná-la um caso de estudo sociológico, eu tenderia a considerá-la, á semelhança do Guillermo Vargas, um caso de interesse clínico no âmbito da psicologia, no sentido de apurar a motivação destes indíviduos que utilizam material vivo, leia-se animais, nos seus projectos artísticos. Existe aqui, claramente, uma patologia que não deve ser validade como arte. Senão vejamos, os nazis também consideravam os judeus animais, facto que legitimou todos as experiências em prisioneiros conduzidas nos campos de concentração... Projectos ciêntificos?! Podemos validá-lo dessa forma, pois... enfim...

Vou ficar por aqui, agora que me dou conta que o comentário já vai longo...peço imensa desculpa!

Um abraço!

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