11/15/11

A loja chinesa ou lost in translation

Quem nunca entrou numa loja chinesa que levante a mão. Sempre damos uma espreitadela a vel se pol lá tem altigos balatos pala venda. Alguns desses artigos chineses são tão fracos que metem dó, outros dão para safar, alguns são razoáveis. Comprei uma agenda minúscula por 0,50 cts numa loja que acabou de abrir na minha rua. Gosto dessas agendas pois coloco-as na carteira dos documentos. A empresa portuguesa Ambar, tem uma agenda para 2012 muito mais bonita, custa 1,60 euros, é parecida com a que comprei o ano passado. Mas eu não preciso de uma assim tão boa: poupei 1,10 euros. Alguém me pode censurar? Talvez não, mas posso  eu mesma autocensurar-me. Como é que aquela agenda foi produzida? Lembro-me sempre de um documentário que vi na TV por altura dos Jogos Olímpicos. Um advogado chinês tentava fazer valer os direitos dos trabalhadores que haviam perdido as mãos e até os braços em acidentes laborais. O cenário da produtiva China actual lembra o equivalente do vivido nos tempos da revolução industrial na Inglaterra do século XVIII, pelo menos na minha cabeça. Gente a morrer para fabricar agendas de bolso 2011 vendidos ao preço da uva mijona, por aqui? Parece rebuscado, não? Claro que não, a China é a meca da exploração do trabalho infantil e muitos adultos trabalham em quase regime de escravatura. Normas de segurança e qualidade no processo produtivo? Salvaguarda do meio-ambiente? Nada disso é prioridade. Ao descartarem estas considerações as empresas conseguem preços imbatíveis para a sua produção. E, claro, há chineses de sobra para terem sempre mão-de-obra barata e tomarem o lugar dos que ficam deficientes e estropiados, quando não mortinhos da silva. Mas alguns deles tomaram juízo e já estão a fazer o caminho do regresso aos campos. Esses empresários chineses sem escrúpulos estão a cavar um fosso que os vai engolir. 
Mas o problema da China já galgou as muralhas da China. Da montanha de recursos energéticos que consome às emissões poluentes que produz, culminando na sua intromissão económica a nível mundial, a China é como um polvo peganhento que quanto mais cresce mais se estica. Depois de ter conseguido colocar os seus produtos à venda nas quatro esquinas do mundo, as empresas chinesas e bancos têm investido na Europa aproveitando o clima de insegurança que o velho continente atravessa mercê da crise da dívida soberana. Quem pode censurar que se esteja a aproveitar da desdita europeia? A China tem comprado obrigações da dívida pública, até da nossa, e embora eu não seja entendida nesse tipo de aquisições, a minha leitura é: nós mirramos, a China fortalece-se. A Europa está mais do que nunca precisada do investimento chinês e vê enfraquecida a sua posição perante a triunfal China. A inovação é dificultada num país como a China onde a censura pode limitar fortemente o desevolvimento das ideias. Todavia, o povo chinês tem antecedentes de criatividade e inovação, pensem, foram eles que inventaram a pólvora, a bússola, o papel, os livros impressos com carateres móveis. A China espertalhona de hoje descobriu entretanto o atalho da imitação, capitalizou nas aprendizagens e experiência que os países do Ocidente acumularam, pilares das suas competências a vários níveis – tecnologia e ambiente, por exemplo - e passou-lhes a perna. Vamos ver se essa vantagem no presente não irá reverter em prejuízo  sério um dia, virando-se o feitiço contra o feiticeiro, tudo pode acontecele, vamos esperale pala vele o que o futulo reserva à China. 

Mas voltando à terra, ou à terrinha povoada de lojas chinesas, algo que me surpreende e que eu gostaria de ver esclarecido é a afirmação de que o nosso Governo auxilia as lojas com isenções várias. Já li isso várias vezes. Será que é verdade? Na minha rua existem neste momento 3 lojas chinesas. Duas delas têm áreas fabulosas. Não compreendo como é que conseguem fazer receitas para pagar as rendas, pessoal, água, luz, impostos e tudo o mais. No lugar de uma dessas lojas existia uma outra que fechou portas. No espaço de uma semana lá estava a loja chinesa, muito obligado, onde eu comprei a agenda para 2012. Também já li que o Governo chinês ajuda os seus a fixarem-se no estrangeiro na condição de se dedicarem ao comércio de bens made in China, sem dúvida que isso ajudaria ao boom a que estamos a assistir.

No Verão recordo-me de ter visto no telejornal que Beja estava em pé de guerra por causa da abertura de mais uma loja chinesa gigante. O pequeno comércio fecha, as lojas chinesas abrem. Acontece por Portugal inteiro, no Verão ou no Outono. A associação do comércio local de Beja defendia que não devem ser as autarquias a licenciar. Queria o retorno da situação que se vivia antes do 25 de Abril, esse era um papel deste tipo de associação, é ela que sabe quais são os interesses dos comerciantes. Mas seja a Câmara ou a Associação a licenciar não sei como impedir o licenciamento comercial de lojas chinesas sem ferir leis de mercado e da concorrência. O processo parece não ter retorno...


Um destes dias e à falta de melhor vai nascer mais um mito urbano. Lembram-se da história da miúda que ficou sem os orgãos internos depois de uma visita à loja chinesa? Quando o pai alertou a polícia era tarde de mais: a pobre foi encontrada num fosso, com o corpo costurado, pelos cães da polícia. A autópsia revelou que faltavam os orgãos vitais. Emails como estes que circulam pela internet com tanta insistência até quase ganham peso de verdade! Eles significam mais do que uma brincadeira do autor: eles revelam nas entrelinhas que a comunidade portuguesa não encara a presença chinesa com bons olhos. Um destes dias ainda os comerciantes e os chineses se viram todos à polada...! 

Enquanto isso, atentem bem na fotografia desta postagem. É de uma lanterna comprada numa loja chinesa e as instruções de uso mais parecem chinês. Algo se perdeu na tradução automática. É o que acontece quando se quer atalhar caminho.

1 comment:

Anonymous said...

Gostei de ler Belinha. Parece que está com a garra dos textos de outros tempos.O capitão.

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