10/24/11

Yueyue, a criança chinesa atropelada na rua


 A história de Yueyue na TV
Encontrei esta notícia e esta, e na sequência disso vi este video no Youtube, é um mercado, em Foshan, vemos uma criança ser atropelada por uma carrinha. Ela derruba-a e depois passa com as rodas por cima das suas pernas. Pára. Volta a retomar a marcha e segue o seu destino passando com as rodas da cima por cima da criança, mais uma vez. Fica um rasto de sangue no chão. Verdadeiramente chocante. Mas após o sucedido, mais cenas chocantes: várias pessoas - parece que 18 pessoas - e veículos passam pelo local, indiferentes ao corpo. Um segundo veículo volta a passar-lhe por cima. Finalmente chega uma pessoa - Chen Xianmei, de 58 anos, uma catadora de lixo para reciclar - que a muda mais para a borda, o corpo e os membros parecem uma marioneta  - os lojistas disseram-lhe para não intervir - e depois outra pessoa, que a agarra e transporta dali para fora, talvez a mãe. Escreveram já que estas pessoas que se alhearam da sorte deste pequeno ser sofrem de apatia social. Identificada a doença, pergunto qual a causa, como prevenir, e qual a cura?
A carrinha que atropelou Yueyue
A criança tinha apenas dois anos e não sei porque estava ali. Chamava-se Yueyue. Isto  sucedeu no dia 13 de Outubro, e ela faleceu no dia 21, depois de ter estado em coma no hospital do Comando Militar de Guangzhou, China, onde foi assistida. O condutor desta carrinha da imagem já foi identificado e apanhado pela polícia, o segundo não sei. Estava ao telemóvel com a namorada, tinham acabado de se separar, disse. Disse ainda que pensou que a criança estivesse morta e por isso fugiu, isso seria melhor para ele pois se ela vivesse teria de pagar muito dinheiro aos médicos. 
 Yueyue no hospital.
A censura posta em marcha pelos media afetos ao Governo em torno da história de Yueyue não terá sido no entanto suficiente para parar o debate na própria China. Nas notícias que li entretanto adiantavam-se explicações várias para o acto, que na China as pessoas têm medo de ajudar em situações limite pois não havendo testemunhas são elas que arcam com a culpa do sucedido. Isto leva a que não prestem auxílio, há até um caso de uma mulher chinesa que se estava a afogar num lago e que foi salva por uma pessoa estrangeira. A norma na China parece ser esta: se não foram responsáveis não estariam aqui, não parariam para prestar ajuda. O próprio Ministério da Saúde emitiu directrizes para que no caso de pessoas idosas caídas no chão, não se preste auxílio, comunique-se e deixe-se o pessoal médico chegar, pois eles é que estão habilitados. Em 2006 um homem que ajudou a salvar uma mulher idosa foi levado a tribunal pela família dessa pessoa e obrigado a pagar contas médicas enormes. 
Os pais deYueyue
Há quem entenda que a sociedade chinesa entrou em colapso e aponte as origens disso à Revolução Cultural  - um sistema que nega os direitos e liberdades individuais os cidadãos entregam os seus juízos a quem estabelece a ordem, deixam de pensar por si, de ter vontade própria. Outros dizem que o governo chinês apenas pensa em maximizar lucros, fazer dinheiro é o seu objectivo primordial e que isso conduziu ao sacrifício da moralidade e da justiça. Se der um saltinho ao site da Amnistia Internacional terá uma amostra do que é viver na China. O desrespeito pelos direitos humanos, as convenções globais, a perseguição de dissidentes e opositores aos regimes, são reais. O sistema prisional está repleto de prisioneiros políticos, submetidos a tortura e julgamentos sem direito a defesa. As execuções ainda são comuns. Junte-se a isso campos de trabalhos forçados e uma elevada percentagem de trabalho infantil. Viver num clima de intolerância e medo tem consequências: será a "apatia social" uma delas? 

Não faltarão coros de vozes uníssonas contra o bárbaro povo chinês mas eu não acredito que uns povos sejam melhores do que outros, acredito que os indivíduos são influenciados por condicionalismos externos - normativos sociais, religiosos, tradições- que acabam por moldar os seus comportamentos. Todavia os chineses não têm muita consideração pela figura da criança, em especial a criança feminina. Na China a tradição da preferência por um filho de sexo masculino vem dos tempos feudais. O filho cuidará dos pais na velhice, faz-lhes um bom funeral, é o herdeiro da família. A política do filho único posta em prática a partir dos anos 70, destinada a controlar a população quando ela deixou de ser controlada pelas grandes fomes, contribuiu para a morte e abandono das bebés recém-nascidas. Digo isto mas digo também que não são o único povo a sacrificar crianças na história da humanidade. Os Romanos praticavam o  infanticídio, havia altares para sacrificar bebés. A Roda dos Expostos, originária da Itália mas prática corrente em Portugal a partir do séc. XV, era uma forma das mulheres se livrarem anonimamente das crianças indesejadas mas acabou abolida pois não havia garantia de sobrevivência para os expostos, era na prática uma forma de infanticídio indirecto. A consciência dos direitos da criança acentuou-se quando nos anos 60 se afirmaram os direitos das mulheres. Mas independentemente do estatuto que os seus direitos alcançaram, por todo o mundo persistem os maus-tratos físicos, psicológicos, sexuais e os comportamentos negligentes de quem tem crianças a cargo, veja-se o que sucede na África do Sul, país com índice elevadíssimo de abusos sexuais infantis. 

Eventualmente este caso dramático pode ser o que a China precisa para acordar para a realidade e iniciar o debate em torno do tipo de formação cívica e moral que quer para os seus cidadãos. As autoridades do governo local na província de Guangdong já consideraram que é preciso uma lei para proteger os bons samaritanos que oferecem assistência aos necessitados e pensam até estabelecer uma recompensa para as pessoas que arriscam a vida para salvar outras, o que poderá ajudar a moldar comportamentos. Entretanto, Chen Xianmei, uma catadora ou recicladora de lixo que moveu a criança para lugar seguro, teve de fugir da cidade pois foi acusada de o ter feito apenas para atraír as atenções. Quer ela quer os pais têm recebido inúmeros donativos. Os pais vão criar um fundo com esse dinheiro para ajudar crianças vítimas de situações semelhantes. Milhares de chineses participaram no fim de semana em manifestações contra a "apatia social" evidenciada. Para mais informação sobre este caso, vejam o blogue
Shanghaiist que tem acompanhado a história desde o início.



1 comment:

Olímpio said...

Estes chineses não andam bons da cabeça. Comunismo e capitalismo selvagem juntos ainda são piores que separados!

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