9/15/11

Viagem no rio Congo



Ontem à noite, na TVI24, passaram um documentário sobre a viagem de um barco de passageiros e a vida a bordo no rio Congo. Como não vi o princípio do filme ou reportagem, hoje tentei encontrar o nome no site da própria televisão e em outras ligações mas sem êxito, nem uma ficha técnica sequer, nada! Encontrei, sim, um trailer de outro documentário, Rio Congo, além das trevas, que foi selecionado para o Festival de Berlim, em 2006. 
O rio Congo é o segundo maior rio de África, tem mais de 4000 km de extensão. No documentário que vi ontem aborda-se a história de sobrevivência de um punhado de pessoas que sobem a bordo entre outros aspectos da vida nas margens do Congo. O bilhete custa 40 euros sendo que é esse o valor de um mês de trabalho na República Democrática do Congo. O barco sai do porto de Kinshasa com destino a Kinsangani. No porto, que mais parece um amontoado de ferro velho,  as gruas não trabalham e tudo é carregado a força de braços. O barco transporta passageiros mas é na realidade um barco de mercadorias onde as pessoas acampam no convés, improvisando tendas e espaços para viverem o tempo que durar a viagem. Pescam e fritam o peixe em frigideiras de óleo escaldante. Bebem água do rio e adoecem quando o dinheiro não chega para comprar água engarrafada. Na retaguarda ficam os balneários e para os alcançar é preciso quase ser um acrobata pois o chão está totalmente ocupado. A água para os duches é sacada ao rio em bidons. Aí ficam também os WC - pendurados no corrimão de resguardo, voltados de costas para o rio, defecam para a água. Ao fazer a sua higiene alguns desiquilibram-se e são trucidados pela hélice do barco. No chão do barco acumulam-se mercadorias, mulheres, homens e crianças, esticados em mantas, acomodados como podem entre os seus pertences. Passam a maior parte do tempo sentados, encolhidos, pois só assim o espaço chega para 800 pessoas! Há também um camião estacionado algures. O barco não tem nenhuma grade de segurança, é fácil cair à água, borda fora. Ninguém sabe o tempo que a viagem durará. Por essa razão os passageiros entram a bordo e recusam-se a pagar bilhete. Alguns levam mercadorias e vendem-nas a bordo conseguindo assim o dinheiro para pagar, no terminus da viagem. O comandante deixa entrar o máximo de gente possível pois já sabe que muitos não irão pagar e os custos têm de ser cobertos. Três semanas ou um mês para cobrir a distância, são 1500 km até ao destino e tudo pode suceder: uma falha do motor pois uma peça quebra, um tronco de árvore que choca com o casco e lhe abre um rombo - prontamente rebocado com cimento - um banco de areia onde o barco encalha de noite. As cartas de navegar que existem a bordo têm pelo menos 50 anos e datam do tempo da ocupação congolesa pelos belgas. O rio tem agora novos obstáculos, os assinalados já não são visíveis,  o comandante conhece e navega pelo meio do curso de água com extrema atenção. Talvez dois dias depois de partir o barco abranda para recolher mais passageiros. Não pode ancorar, não há cais ou fundura que o permita. Os passageiros chegam em canoas e sobem ao barco onde parecia não caber nem mais um cão. Outros prendem os seus barcos ao barco maior e seguem assim viagem. As populações ribeirinhas aproveitam a passagem do barco para ganhar algum dinheiro vendendo peixe e legumes frescos aos embarcados, mas nunca chega para todos. Entre os bens que são vendidos encontra-se um macaco que é prontamente preparado. À noite os acidentes sucedem-se. Há quem durma nesta zona onde os barcos se tocam e basta um sobressalto da corrente para que as suas bordas choquem, esmagando pernas e pés aos viajantes. Um deles fica com o calcanhar esfacelado. Um enfermeira diplomada que segue a bordo é chamada para cozer o ferimento, sem anestesia. Fica preocupada pois não tem antibióticos que cheguem para todo o tempo do percurso e existe o perigo de grangrena. Durante o tempo em que os repórteres estão a bordo nascem no barco três bebés. O primeiro recebe o nome do barco. A sua mãe, uma mulher jovem, não tem quaisquer bens, tudo lhe tinha sido roubado em terra, e ao saber-se do nascimento todos contribuem com alguma coisa. Após 15 dias a bordo os jornalistas são convidados a descer do barco. A partir dali os riscos aumentam e o comandante não quer a sua presença. Vêem um cadáver de mulher a boiar nas águas, fruto dos conflitos na área. O barco demoraria quase um mês a alcançar o destino. Na semana seguinte uma embarcação semelhante naufragaria arrastando para a morte centenas de pessoas pois a maioria não sabe nadar. O documentário também mostra aspectos da vida nas margens do Congo e da pesca artesanal. Histórias de sobrevivência com estas demonstram a enorme resistência e coragem das pessoas na sua luta contra a adversidade e ensinam-nos a reavaliar a nossa própria condição perante a vida. Vale apena ser visto.

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