9/5/09

PINTOR JOÃO VIEIRA 1934-2009



"No início dos anos cinquenta, Portugal vivia num total clima de isolamento cultural cuja situação política fechava a possibilidade de abertura da vida intelectual a horizontes de mudança. Desde que inicia o seu trabalho como artista plástico a partir da segunda metade da década de cinquenta, e após uma breve passagem pela Escola de Belas-Artes de Lisboa, João Vieira toma consciência do academismo e da situação artística vigente. Frequenta o Café Gelo, e é no convívio com artistas e poetas (René Bertholo, José Escada e Herberto Helder, entre outros) que muito cedo decide que só através da emigração pode alargar os seus conhecimentos artísticos e culturais.Em 1957 abandona o país por vontade própria e vai para Paris como expatriado com a forte motivação de aceder ao universo das novas expressões plásticas que emergem em toda a Europa e nos Estados Unidos. Entre 1958 e 1964, em Paris, envolve-se na edição da revista KWY com Lourdes Castro, René Bertholo, Gonçalo Duarte, José Escada, Jan Voss e Christo. Procura actualizar as linguagens artísticas, recorrendo à experimentação, numa colaboração com artistas e escritores das mais diversas proveniências.
Constrói uma linguagem própria baseada na escrita (no alfabeto), explora os limites da pintura,associando-a ao texto, passando ao corpo que, ou em acção ou em representação, surge como intérprete das suas referências: os happenings e as performances. A utilização de novos materiais, como os poliuretanos rígidos, a tinta de automóveis e as espumas flexíveis, dão origem a composições de grande originalidade que lhe permitem passar à tridimensionalidade e a escalas variáveis, reinventando a pintura até aos seus limites. Realiza performances criando dispositivos com letras de grandes dimensões e operando sobre estes projectos destrói-os, chamando a atenção para o efémero e o transitório na criação artística. Para a exposição que agora se apresenta, João Vieira pinta a partir de Matisse e dos seus papéis recortados
sobre fundos brancos, letras (em lugar de corpos) invocando as várias artes: a dança, a música, o teatro, etc. São composições em que as próprias letras que formam a
palavra sugerem o movimento, a sonoridade, a representação, cumprindo, assim, o desígnio do artista.
Os filmes das suas performances, realizados desde 1979, foram reunidos em vídeo, e no seu conjunto oferecem em retrospectiva as experiências realizadas ao vivo pelo artista, por vezes com o envolvimento ou até com a interacção do espectador."
Margarida Veiga
*
Nasceu em Vidago em 1934. Estuda Pintura na ESBAL
(1951-1953) e integra o Grupo do Gelo com José Escada,
René Bertholo, Helder Macedo e Herberto Hélder, entre outros,
desenvolvendo desde logo, no encontro com a poesia, as suas
primeiras experiências “letristas”. Em 1957, após um retiro para
Trás-os-Montes, aonde o leva a desilusão com o ensino praticado
nas Belas-Artes, instala-se em Paris.
Em 1959, a primeira exposição na Galeria Diário de Notícias
chama a atenção para a sua obra, sendo-lhe nesse ano atribuída
a bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian, que
apoiará, em parte (até 1961), a prossecução da sua estada
parisiense. Trabalhando então primeiro com Arpad Szènes,
associar-se-á entretanto a René Bertholo e Lourdes Castro, com
os quais funda o grupo KWY, cuja revista terá publicação entre
1958-1964. É em Paris, onde aprofunda as ligações com a poesia
e com o gestualismo, nutrido no convívio do grupo El Paso, de
que fazem parte os nomes como António Saura, que começa
também os estudos de teatro (1963), interesse que mantém e
que prosseguirá em Londres, numa estada iniciada em 1964
e que lhe permitirá um amplo contacto com o meio artístico
britânico. Em Londres, dedica-se também ao ensino (repetindo a
experiência já iniciada em Lisboa, na Escola António Arroio, entre
1962-1963), leccionando no Maidstone College of Art.
O regresso a Portugal dar-se-á apenas em 1966, trabalhando
desde logo em cenografia e encenação, estreando-se com a
peça D. Quichote de Y. Jamiaque, encenada por Carlos Avillez,
no Teatro Experimental de Cascais, trabalho que lhe valerá,
em 1968, o Prémio do Ciclo de Teatro Latino, Barcelona. Em
1973, encontra-se de novo em Londres, regressando a Portugal
no dia 25 de Abril de 1974. De volta a Portugal, exerce a
docência no IADE, na SNBA (Cursos de Formação Artística),
e no Conservatório Nacional (Cenografia). A sua transversalidade de interesses que o levam, plasticamente,da história da arte às culturas populares de raiz pagã, como é o caso da obra desenvolvida em torno dos caretos de Trás-os-
-Montes, e o seu gosto da experimentação, apoiada em aturada
investigação teórica e prática (nomeadamente de materiais)
e numa vasta cultura literária permite-lhe uma diversidade de
experiências plásticas e culturais que integram, desde cedo, a
performance (sendo pioneiro em Portugal, iniciando esta prática
em 1970), e a instalação.
Diversas vezes premiada (Menção Honrosa do Prémio Soquil
1970; Prémio do Círculo de Teatro Latino de Barcelona em
1968; Prémio Nacional de Teatro, 1972) a sua obra encontra-se
representada nas Colecções Berardo – Sintra Museu de Arte
Moderna; Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão da
Fundação Calouste Gulbenkian; Cristina Guerra – Contemporary
Art, Lisboa; Fundação António Prates, Ponte de Sôr; Fundação
Carmona e Costa, Lisboa; Fundação de Serralves, Porto;
Fundação Oriente, Lisboa; Galeria Valbom, Lisboa; Madeira
Luís – Universidade de Aveiro, Aveiro; Museo Extremeño e
Ibero-Americano de Arte Contemporâneo, Badajoz, além de em
numerosas colecções particulares.
(Textos do catálogo CCB,LISBOA,ABRIL 2009)

1 comment:

observatory said...

nao calculas o que eu perdi

foi uma das minhas maes

ganhei tanto naqueles idos anos 70.

beijo especial para ti pelo magnifico port e...

um até sempre para ele

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