6/3/07

LARANJA MECÂNICA, O CUBO DE KUBRICK

O homem é um ser refinadamente violento. Olhemos à nossa volta. Não faltam exemplos. Não aprendeu nada desde que se ergueu nos seus dois membros inferiores e começou a palmilhar, erecto, a superfície do globo. Sou das pessimistas. Acredito que o lado negro da força é mesmo poderoso, e, pior, que esse lado negro não é ficção científica, está aí de pedra e cal, cara com cara, corpo com corpo, parede com parede, país com país. E se um dia alcançarmos planetas longínquos certamente levaremos connosco a cultura da violência e contaminaremos com ela o universo. Não tenhamos ilusões, a violência coexiste connosco, às claras ou latente e disfarçadamente, hipocritamente. Está aí nas pequenas e nas grandes acções destruidoras, sejam episódicas sejam quotidianas.Pensemos por exemplo nas vítimas de violência doméstica: entre marido e mulher não metas a colher? Claro,claro,vamos todos fingir que ninguém é violento e que as nossas respostas são sempre assertivas e que tudo isso é apenas um grande equívoco. Cabeça na areia,"avestruzemo-nos" da realidade! A violência tem o perfil de um vizinho pacato e ordeiro que de repente se descobre ter assassinado jovens mulheres de quem até era amigo. Tem o perfil de um jovem que se diverte a lançar gatos do topo de um castelo. Tem o perfil de um grupo de putos que espanca um travesti até à morte. Tem o perfil de um estudante alucinado que dispara sobre os colegas da universidade da Virgínia.Tem o perfil do ladrão de crianças.Tem muitos outros perfis ainda por inventar. Até parece que humanidade evolui no sentido da deshumanidade quando se devia tornar intrinsecamente melhor! Qualquer nova tecnologia, mesmo que sirva para nos aproximar e manter em comunicação, é imediata e imaginativamente usada para a disseminação da violência, quando não mesmo utilizada para a violência. Sem ir mais longe, o telemóvel é o último grito nesse aspecto. Filmam-se decapitações, apedrejamentos, violações. Sobem-se as imagens num qualquer site da Internet e goza-se com o feito. Ganha-se dinheiro com a violência. Acreditemos ou não, por mais abjecto que possa ser, sempre haverá alguém a filmar, a divulgar e a visionar violência como se ela tivesse o sabor inocente de uma salada de frutas. Umas vezes ela será pura ficção, outras realidade.E nunca vamos saber qual se alimenta de qual.Tudo isto a propósito do filme A laranja mecânica que a RTP1 passou ontem à noite. Andava eu no liceu quando saiu uma colecção de cromos cartonados que eram cartazes de cinema. Eu nunca a terminei pois coleccionar não me está no sangue. (Mmmmm, gostaria de coleccionar dinheiro, as notas são os melhores cromos alguma vez inventados! Mas infelizmente também não sou muito boa nisso!) Penso que foi aí que vi pela primeira vez o cartaz do filme e achava aquela cara a perfeita encarnação do mal! Nunca mais esqueci o poster e, entretanto, vi todos os filmes de Kubrick com excepção desse! É surpreendente que a Laranja seja da década de 1970 e que ainda não esteja bolorenta e podre. Visionei-o ontem e penso que podia ter sido feito este ano de tão actual que se mantém. É um prodígio de cinema, aliás, Kubrick é grande. Uma das minhas mágoas cinematográficas é nunca ter conseguido ver o 2001 numa sala de cinema. Adoro esse filme. Quando se pensa em experiência cinematográfica marcante, ou seja, aquela que vivemos quando visionamos uma obra que nos preenche os sentidos até ao limite, não devem existir cinéfilos que não incluam um filme de Kubrick na lista. O 2001 provoca-me esse tipo de sensação. A Laranja é uma obra que choca e causa repugnância mas é também percorrida por uma beleza estética e uma complexidade que não nos deixa senão sentir admiração pelo realizador. Tudo ali funciona como um relógio, é uma encenação prodigiosa, um exercício de puro cinema. Reduzir este filme a um show de violência é pouco. Esprema-se a Laranja e veja-se como é extraordinário (e actual) nas questões que coloca. Percebo que tenha sido polémico. A polémica mantém-se intacta nos dias de hoje. Um show de violência, é certo, mas que nos leva a interrogar muitíssimo o mundo em que vivemos e viveremos, ai disso não tenho a menor dúvida: jovens que até são inteligentes ainda que arrogantes mas que se divertem em exercícios de violência muito imaginativa, mas porquê? Qual a responsabilidade da sociedade na geração de indivíduos/ gangs que fazem culto da violência? Que célula familiar é aquela que primeiro os dá à luz mas que depois os (desa)acolhe e (des)ampara? Que instituições e que tipo de funcionários acompanham e lidam preventivamente com as disfunções desta juventude? E o Estado? Que estratégias usa para lidar com os criminosos? E a Igreja? Conseguirá ter alguma influência positiva neste contexto? Justificará a violência uma resposta violenta punitiva por parte do Estado, violenta na medida em que possa até privar o cidadão do livre-arbítrio, condicionando-o mecanicamente, mesmo que ele dê o seu consentimento mais ou menos informado? Como reage a sociedade à reintegração de indivíduos regenerados pelo sistema prisional ou outros? E os políticos que se aproveitam de situações e de cidadãos e as/os transformam em armas de arremesso contra os seus opositores em campanha política? E os media instrumentalizados? Que contributo para a manipulação da opinião pública e da ideia que formará acerca de tudo isso, das estratégias do Estado, dos políticos e da personalidade de um cidadão, num momento criminoso, no outro, vítima do sistema? E depois de sermos confrontados com todas estas questões,ao som de Beethoven, Guilherme Tell, Pompa e circunstância,talvez outras que não reconheci, assistimos ao triunfo sofrido mas trocista do jovem criminoso, que, agora conta com o apoio da família e do Estado e se encontra livre para prosseguir as suas ânsias por violência e sexo, mantendo a sua personalidade inicial, tal e qual! The end! Esta ironia, quanto a mim, é o remate perfeito, negro, mas que talvez tenha sido a responsável por levar muita gente a ver a Laranja como um filme onde se faz a apologia da violência, uma história de crime com castigo, mas também com compensação. Afinal a violência surge aqui como aquele cubo de cubinhos coloridos, que descontruimos e reconstruimos, uma cor por cada face. Depois de lutarmos com o cubo, depois de experimentarmos várias estratégias, testarmos outras tantas soluções, o que conseguimos? Desajustamos as peças, trocamos-lhes as voltas, encontramos muitas combinações imperfeitas, e quando finalmente conseguimos terminar o puzzle, é verdade, resolvemos o puzzle, mas fica tudo afinal fica na mesma! Já passaram mais de 30 anos sobre este filme, possivelmente mais sobre a escrita do livro que lhe deu origem. A violência tem muitas faces, muitas causas que se conjugam num mesmo plano para lhe dar corpo, e por mais voltas que a sociedade dê, no final, a violência permanece. É o cubo de Kubrick. Excelente filme!

1 comment:

Capitão Merda said...

Sim, excelente filme... e crónica a condizer!

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