3/3/07

JOÃO GARCIA NA FIGUEIRA DA FOZ





Ontem João Garcia esteve no Foz Plaza a divulgar o seu segundo livro. Eu não sei se isto foi de alguma forma divulgado pelos órgãos de comunicação social da cidade da Figueira da Foz, mas eu não sabia de nada. Decerto que se tivesse sido a Floribela a vir até cá tinham forrado a cidade de cartazes berrantes, fechado o trânsito e convocado o Presidente da Câmara. Mas como era o João Garcia optaram por estratégias menos ostensivas não fosse acontecer uma avalanche de gente aqui para as bandas do horto. E afinal ele apenas escalou oito das montanhas mais imponentes do planeta, ele foi o único português a alcançar o cume do Evereste. Ora o que é isso interessa à felicidade de todos nós que vivemos aqui? Não nos faz rir, não nos distrai dos problemas sociais, não traz CD para cantar ou coreografar e entreter as criancinhas, nem promessas de fantasias cor de rosa. Por mim até devia estar satisfeita pois não tive de esbracejar para furar a multidão ou fazer fila. Mas penso que numa cidade onde, salvo erro, até existe um pequeno clube de montanhismo, alguns jovens decerto que teriam gostado de contactar com o alpinista. Saberiam? Eu não sabia. E não percebo sequer a estratégia, ou melhor, a ausência dela qualquer que tenha sido o objectivo, suponho que vender livros. 

Por mero acaso estava na Figueira e fui às compras cerca das 15.00 horas. Coincidência feliz, foi então que vi os cartazes a anunciarem a sua presença. Era uma oportunidade imperdível e fui a correr falar com ele. O imprevisto da situação salvou-me de fazer perguntas parvas do género "não teve medo lá em cima"?, mas não me preparou para lidar com o empolgamento. Do que eu podia ter dito metade ficou por dizer, do que eu podia ter perguntado, outro tanto. Este homem intrigava-me desde que o vi num documentário televisivo, aliás, tanto quanto sempre me intrigaram todos os alpinistas. Há muitos anos atrás a TV deu uma série sobre a conquista das grandes montanhas e eu vi todos os episódios. Dava aos sábados, devem lembrar-se. Só por isso é que sei o nome de algumas das mais altas montanhas do mundo e seus expedicionários. Não sou muito viajada mas uma das imagens mais impressionantes que retenho do nosso planeta é dos Alpes. Ora os Alpes nem são sequer dos picos mais elevados. Mas já impressionam pela sua dimensão e pela sua beleza. 

Já escrevi neste blogue, meio a brincar, que os esquimós e João Garcia eram os meus heróis. Quem leu talvez não me tenha levado a sério mas é pura verdade. O que leva estes homens a conquistar metros no mais inóspito ambiente? A busca de uma beleza indesfrutável para a imensa maioria dos habitantes do planeta? A tranquilidade suprema? A experiência de uma cultura única baseada na exploração e na verdadeira solidariedade entre os povos construida no contacto directo com gentes e lugares remotos? Uma loucura particular? Seja lá como for, é assim que vão conquistando o nosso respeito e a nossa admiração e fazendo história. 

Entre mim e João Garcia não há nada em comum, talvez apenas o facto de termos a mesma idade, ou termos nascido em Lisboa. Ah, e sermos portugueses. Assumo em mim o défice de todas as qualidades que o tornam especial e aquilo que é -a preserverança, a tenacidade, a resistência, a coragem, o sacrifício, a paixão. Qualidades que lhe imagino, que lhe adivinho. Decerto existirão outras igualmente importantes para o seu êxito, menos humanas e mais técnicas. A nossa conversa não me deixou mais elucidada sobre o material de que se fazem os heróis, mas espero hoje à noite compreendê-lo melhor depois de ler o seu livro. Disse-me que está a preparar a expedição ao K2 que terá lugar lá para Julho. Quando ele rumar ao Paquistão eu vou ficar a torcer pelo seu sucesso,a lagartar ao sol quentinho, na praia, e a acompanhar pela SicOnline. 

O mundo precisa de gente rara, e Portugal, então, nem se fala. Gente que nos inspire, nem que seja por cumprir destinos loucos e desafiar a morte, gente que nos impressione, que nos sacuda da rotina, da mediania da nossa existência, com as suas escolhas, as suas façanhas, os seus sonhos. Gente que nos prove metro a metro que é possível ir MAIS ALÉM. Gente como João Garcia.

5 comments:

Zé Lérias said...

Esta máquina está muito velha e cada vez tenho mais dificuldade em deixar aqui sinal da minha passagem.

Com esforço, hoje consegui.

Sem a tenacidade do João Garcia, mas com muita paciência minha ;)

Estou de acordo com a Belinha. Já que nos falta quase tudo, ao menos consagremos os que por iniciativas individuais nos vão deixando um sinal de inconformismo, de modo a que o nosso o dia-a-dia se torne, ao menos, mais colorido de sonhos.

Bom Domingo.

Jorge Ortolá said...

É, uma floribela conseguia fazer com que a FGT, CMFF e CAE gastassem o que não têm a forrar a cidade com monstruosos cartazes publicitários.
Mas afinal... era só o João Garcia.

Quanto à comunicação Social local... enfim !!
Beijo

Capitão-Mor said...

Eis um bom exemplo da literatura de viagens que não tem grandes tradições no nosso país. Existem coisas interessantes da época do Império mas depois disso tornou-se uma área bastante árida.
Uma boa semana para ti.

Doces Momentos said...

gostei
beijo doce

Capitão-Mor said...

Já estreeou a nova mega-produção luso-brasileira:"Férias em Natal". Uma blogsérie com um elenco de luxo, muitas aventuras e excelente banda sonora. A TVI que se cuide!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...